Abraão · Aula 4Lição

A generosidade e a espada

“Não deveria haver conflito entre mim e você e entre os meus pastores e os seus pastores, porque somos parentes chegados.”Gênesis 13.8 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gn 13; Gn 14; Hb 7.1-10

O problema

Quando a bênção começa a apertar

O conflito entre Abraão e Ló não nasceu da pobreza. Nasceu do excesso.

“a terra não podia sustentá-los, para que morassem juntos, porque eram muitos os seus bens” (Gn 13.6). Havia gado demais para pasto de menos, e os pastores começaram a brigar. É um detalhe honesto: prosperidade também produz conflito, e a igreja que só sabe lidar com escassez se surpreende quando a briga vem da abundância.

Abraão nota mais uma coisa e a diz em voz alta: “Nesse tempo os cananeus e os ferezeus habitavam essa terra” (Gn 13.7). Havia plateia. A briga entre os dois seria assistida por quem não conhecia o Deus deles.

A renúncia

Quem tinha o direito abriu mão dele

“Não está toda a terra aí diante de você? Peço que você se afaste de mim. Se você for para a esquerda, irei para a direita” (Gn 13.9).

Abraão entrega ao sobrinho a decisão que era sua por direito. E Ló escolhe pelos olhos: viu que toda a campina do Jordão era bem regada, “como o jardim do Senhor, como a terra do Egito” (Gn 13.10). O texto acrescenta a informação que estraga a escolha: aquilo era antes de o Senhor destruir Sodoma e Gomorra, e os homens de Sodoma “eram maus e grandes pecadores contra o Senhor” (Gn 13.13).

Ló olhou

Avaliou o que se via: água, verde, produtividade. Armou as tendas até Sodoma.

Abraão esperou

Ficou com o que sobrou. E foi depois de Ló partir que Deus lhe disse: “Levanta os olhos e olha” (Gn 13.14).

Repare na sequência. Deus só falou depois da renúncia. Enquanto Abraão segurava o direito, o texto é silencioso; quando ele abre mão, Deus lhe manda olhar em todas as direções e promete toda aquela terra à sua descendência (Gn 13.14-17). Quem confia não precisa escolher primeiro.

A guerra

O tio que foi buscar o sobrinho

Quatro reis derrotam cinco, saqueiam Sodoma e levam Ló junto com os bens (Gn 14.1-12).

Abraão poderia ter dito o óbvio: a escolha foi dele, o problema é dele. Em vez disso, armou trezentos e dezoito homens nascidos em sua casa, perseguiu os invasores até Dã, atacou de noite e trouxe de volta o sobrinho, as mulheres e todos os bens (Gn 14.14-16).

Duas observações para não caricaturar a cena. Primeiro, Abraão não era um pacifista ingênuo: ele pegou em armas para resgatar reféns. Segundo, não era um guerreiro por vocação: essa é a única batalha da vida dele, e o objetivo não foi conquista, foi resgate. Ele não ficou com a terra dos vencidos.

A generosidade do capítulo 13 e a coragem do capítulo 14 são a mesma virtude vista de dois lados. Quem cedeu o pasto sem brigar foi o mesmo que atravessou o país para salvar quem havia escolhido contra ele.

O encontro

Melquisedeque, pão e vinho

Na volta, aparece uma figura que some tão depressa quanto surge, e que o Novo Testamento não esquecerá.

“Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho. Ele era sacerdote do Deus Altíssimo” (Gn 14.18). Ele abençoa Abraão em nome do Deus Altíssimo, criador dos céus e da terra, e bendiz a Deus pela vitória. E Abraão lhe deu o dízimo de tudo (Gn 14.20).

Não force a leitura do pão e do vinho como se fossem a Ceia. O texto não diz isso. Mas a Igreja, desde cedo, viu ali uma sombra: um sacerdote-rei que abençoa e serve pão e vinho, sem genealogia registrada, apontando para Aquele que é sacerdote para sempre.

A oferta recusada

“Nem um fio, nem uma correia de sandália”

O rei de Sodoma faz uma proposta que parecia razoável: fique com os bens, devolva-me as pessoas (Gn 14.21).

Abraão recusa com um juramento: levantou a mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, dizendo que não tomaria nem um fio nem uma correia de sandália, “para que você não diga: “Fui eu que enriqueci Abrão”” (Gn 14.22-23).

O que ele recusou

Riqueza legítima, ganha em combate, oferecida por quem tinha autoridade para oferecer. Não havia ilegalidade nenhuma.

Por que recusou

Para que ninguém pudesse atribuir a prosperidade dele a Sodoma. Ele já sabia de quem vinha a bênção, e não queria dividir o crédito.

Compare com a aula 3. No Egito, Abraão aceitou riquezas obtidas por um meio torto e pagou caro por isso. Aqui, recusa riquezas obtidas de forma limpa, para proteger o testemunho. É o mesmo homem, amadurecido. A fé cresce.

Um detalhe que evita legalismo: Abraão recusou para si, mas fez questão de que Aner, Escol e Manre, seus aliados, recebessem a parte deles (Gn 14.24). Ele não impôs a própria consciência aos outros.

Aplicação

O que aprendemos

Toque em cada lição para abrir.

1Ceder não é perder+

Abraão abriu mão do direito de escolher primeiro e recebeu de Deus mais do que Ló tomou. A renúncia não empobreceu; abriu espaço para a promessa.

Cuidado com o mau uso disto: a lição não é que quem cede sempre lucra. É que quem confia não precisa garantir a própria parte.

2Há plateia+

“Nesse tempo os cananeus e os ferezeus habitavam essa terra” (Gn 13.7). Brigas entre irmãos acontecem diante de quem não conhece a Deus. Esse argumento sozinho já deveria bastar para encerrar muitas contendas de igreja.

3Amor não depende de merecimento+

Ló escolheu contra Abraão e depois precisou dele. Abraão foi buscá-lo assim mesmo, arriscando a vida. Perdoar não é fingir que a escolha do outro foi boa; é continuar disponível apesar dela.

4Nem toda oferta boa deve ser aceita+

A proposta do rei de Sodoma era legítima. Abraão recusou por causa do testemunho, não por causa da lei. Há coisas que podemos fazer e que, ainda assim, não convém fazer (1Co 10.23).

5A fé amadurece+

O mesmo homem que aceitou os presentes de Faraó recusa os despojos de Sodoma. Entre um episódio e outro houve queda, volta ao altar e tempo. Deus não desiste no meio do processo.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Existe hoje uma contenda em que você tem razão e, mesmo assim, poderia ceder primeiro?Ver resposta sugerida

Repare que Abraão não cedeu por ser fraco nem por estar errado. Ele tinha idade, chamado e parentesco a seu favor. Cedeu porque havia algo mais importante em jogo: o vínculo e a plateia.

Faça o exercício concreto: nomeie a contenda, escreva qual é o seu direito e depois pergunte o que custaria abrir mão dele. Se a resposta for “o meu orgulho”, você já tem o diagnóstico. Se for “a minha segurança”, a pergunta seguinte é de quem você espera essa segurança.

E note o que a aula não diz: que ceder sempre traz vantagem. Ló levou a terra melhor e ficou com ela. O que Abraão ganhou não foi o pasto; foi a palavra de Deus depois.

Como explicar a alguém que Abraão pegou em armas, se a Escritura chama à paz?Ver resposta sugerida

Comece delimitando o que de fato aconteceu: não foi guerra de conquista, foi resgate de reféns. Abraão não tomou território, não subjugou povo nenhum e recusou os despojos. Terminada a operação, voltou às suas tendas.

Depois reconheça a tensão sem fingir que ela não existe. A Escritura louva os que promovem a paz (Mt 5.9) e também registra, sem condenar, quem protegeu vidas. Cristãos sinceros divergem sobre o uso da força, e essa conversa merece mansidão e respeito (1Pe 3.15-16), não sarcasmo.

O que o texto claramente não autoriza é usar Abraão para justificar enriquecimento por meio de conflito: ele foi o primeiro a recusar exatamente isso.

A generosidade e a espada · Curso “Abraão, o pai da fé”.