Todos os seres inteligentes são especialmente chamados a louvar aquele que os fez no seu amor e os sustenta pela sua bondade. O ser humano em particular, em todas as fases da sua existência, infância, juventude, idade adulta e velhice; todos os seres humanos têm o seu interesse particular no grande Pai dos espíritos de toda a carne. Ele ama o ser humano onde quer que se encontre, de qualquer cor, em quaisquer circunstâncias e em todas as etapas da sua peregrinação, do berço ao túmulo. Que o balbucio da criança, o brado do adulto e o suspiro do idoso subam ao Pai universal como oferta de gratidão. Ele guarda os que mamam no peito; controla e dirige os teimosos e os estouvados; e sustenta a velhice nas suas fraquezas e santifica para ela os sofrimentos que trazem o fim da vida. Leitor, este é o seu Deus! Como é grande! Como é bom! Como é misericordioso! Como é compassivo! Exale a sua alma até ele; sopre-a dentro dele, e que ela seja guardada no seu seio até que o mortal seja tragado pela vida e tudo o que é imperfeito seja abolido! Jesus é a sua Oferta Sacrificial; Jesus é o seu Mediador; ele tomou a sua humanidade e a pôs no trono! Ele faz novas todas as coisas (cf. Ap 21.5), e a fé no seu sangue levará você à sua glória! Amém! Aleluia.
Se eu fosse como o anjo imaginado por Maomé, que tinha por sorte setenta mil cabeças, cada uma movida por outras tantas línguas, e cada língua pronunciando setenta mil vozes distintas, com as ideias que agora tenho do Ser divino eu julgaria as suas vibrações eternas em louvor dele um tributo quase nulo a um Deus imensuravelmente bom! Mas aonde quero chegar? Tenho uma só língua, e ela fala de modo muito pouco expressivo; as bênçãos mais seletas do céu me são dadas; e quão raramente, comparativamente, ela é usada para mostrar a excelência dele, ou para reconhecer quão profundamente sou seu devedor! Ó meu Deus! Que razão tenho para ficar envergonhado e confundido! Mas tu terás misericórdia. Além disso, descubro que Deus só pode ser visto na luz acima por meio de Deus feito homem, isto é, manifestado na carne; e isso apresenta o Redentor do ponto de vista mais amável e absolutamente importante. Por meio dele, Deus é totalmente desejável (cf. Ct 5.16)! Mas, se se tirar esse Meio, este meu belo sistema se perde no caos num abrir e fechar de olhos. Glória a Deus por Cristo! Amém.
Deus deve receber louvor em relação ao atributo que mais manifestou na defesa ou na salvação dos seus seguidores. Às vezes ele manifesta o seu poder; às vezes, a sua misericórdia; às vezes, a sua sabedoria, a sua longanimidade, o seu cuidado paterno, a sua boa providência, a sua santidade, a sua justiça, a sua verdade etc. Qualquer que seja o atributo ou a perfeição que ele mais manifestar, esse deve ser o assunto principal do louvor dos seus filhos. Um precisa de ensino, ora por isso e é profundamente instruído: naturalmente celebrará a sabedoria de Deus. Outro se sente cercado dos adversários mais poderosos, com o mais fraco dos quais não consegue lutar; clama ao Deus Todo-Poderoso por força, é ouvido e fortalecido na alma: por isso, naturalmente engrandecerá o poder do Senhor, que tudo vence. Outro se sente perdido, condenado, à beira do inferno; clama por misericórdia, é ouvido e salvo: a misericórdia, então, será o assunto principal do seu louvor e o refrão do seu cântico.
A libertação de marinheiros de um perigo iminente, de um modo que mostra claramente a intervenção divina, exige não só gratidão no coração e uma língua que louve, quando a tempestade termina, mas que, ao chegarem à terra, eles a reconheçam publicamente na congregação do povo de Deus. Muitas vezes me agradou, em cidades portuárias, ver e ouvir bilhetes enviados ao ministro por marinheiros piedosos, dando graças ao Todo-Poderoso pela preservação do naufrágio e, em geral, dos perigos do mar, e por os ter trazido de volta em segurança ao seu porto. Assim eles “o exaltam na assembleia do povo e o glorificam no conselho dos anciãos” (cf. Sl 107.32).
Embora eu nunca tenha tido uma briga pessoal com os cantores de lugar nenhum, nunca conheci um só caso em que houvesse um coro de cantores sem que eles causassem perturbação nas sociedades. E seria muito melhor, em todos os casos e sob todos os aspectos, empregar um chantre, ou uma pessoa para puxar os hinos. Então a congregação aprenderia a cantar, o propósito do canto seria alcançado, toda boca confessaria a Deus e se evitaria um mal horrível: reunir na casa de Deus, e fazer deles quase os únicos instrumentos de celebração dos seus louvores, um grupo de homens e mulheres vaidosos, levianos, estouvados e ímpios como os que geralmente se juntam nesses coros. Porque é preciso ter voz e habilidade, estejam onde estiverem a decência de comportamento e a moralidade. Tudo tem de ser sacrificado a uma boa voz, para tornar o coro completo e respeitável. Muitos escândalos foram trazidos à igreja de Deus pelos coros e pelos seus acompanhamentos. Por que os pregadores metodistas não põem isso no coração?
O canto recomendado em Cl 3.16 é muito diferente do que se usa comumente na maioria das congregações cristãs: um amontoado de sons sem sentido, ligados a feixes de repetições absurdas e muitas vezes ridículas, que ao mesmo tempo depravam e desonram a igreja de Cristo. A melodia, que se admite ser a mais apropriada para a música devocional, é agora sacrificada a uma harmonia exuberante, que exige não só muitas espécies diferentes de vozes, mas diferentes instrumentos musicais para sustentá-la. E, por esses meios absurdos, a simplicidade do culto cristão é destruída e toda edificação totalmente impedida. E essa espécie de canto se mostrou amplamente muito prejudicial à piedade pessoal dos que se ocupam dele. Mesmo dos que entram com uma considerável parcela de humildade e mansidão cristã, quão poucos continuam a cantar ao Senhor com graça no coração! [N. do T.: a King James, em Cl 3.16, diz with grace in your hearts; a NAA traz “com gratidão no coração”.]
Parece que cantar salmos ou hinos espirituais era uma das coisas incluídas no que se chama “profetizar” no Antigo Testamento, como fica evidente em 1Sm 10.5-6,10 etc. E, quando isso vinha por um sopro imediato, ou inspiração de Deus, não há dúvida de que era extremamente edificante e deve ter servido muito para elevar e despertar o espírito devocional de todos os presentes. Mas suponho antes que o seu canto consistia num recitativo solene e bem medido, e não nos sons tilintantes e muitas vezes tolos que usamos quando um só monossílabo às vezes é estilhaçado numa multidão de semicolcheias! Aqui talvez não seja impróprio observar que o espírito e o entendimento raramente se unem no nosso canto congregacional (cf. 1Co 14.15). Os que têm o coração reto diante de Deus em geral não têm habilidade musical, e os que são hábeis na música raramente têm espírito devocional, mas em geral são orgulhosos, voluntariosos, briguentos e arrogantes. Não se superestimam completamente essas pessoas? De todas as artes liberais, certamente a música é a menos útil, por mais ornamental que seja. E deve alguma coisa ser estimada na igreja de Deus senão na proporção da sua utilidade? Um bom cantor, entre o povo de Deus, que não tem a vida de Deus na alma, é vox et praeterea nihil, como disse Heliogábalo dos miolos de rouxinol com que quis cear: “Não passa de um som”. [N. do T.: a frase latina significa “voz e nada mais”. Ela é mais conhecida pela história, contada por Plutarco, de um espartano que depenou um rouxinol; Clarke a liga a Heliogábalo.] Algumas dessas pessoas, refiro-me às que cantam com o entendimento sem o espírito, se julgam de grande importância na igreja de Cristo. Encontram gente tola e superficial que persuadem a pensar como elas e logo levantam partidos e contendas, se não tiverem tudo do seu jeito; e esse jeito em geral é tão absurdo quanto antibíblico e contrário ao espírito e à simplicidade do evangelho.
É muito provável que o canto dos judeus fosse apenas uma espécie de recitativo ou cantilena, como ainda encontramos nas sinagogas. Não parece que Deus tenha designado especialmente esses cantores, e muito menos quaisquer instrumentos musicais, exceto as trombetas de prata (cf. Nm 10.2), para serem empregados no seu serviço. Os instrumentos musicais na casa de Deus são, pelo menos sob o evangelho, contrários ao espírito do cristianismo e contribuem não pouco para corromper o culto a Deus. Os que gostam de música no teatro gostam dela na casa de Deus, quando vão lá; e alguns, que professam o cristianismo, estabelecem um culto espúrio assim para atrair as pessoas a ouvir o evangelho. Isso é fazer o mal para que venha o bem (cf. Rm 3.8); e, por esse meio, gente leviana e frívola é introduzida na igreja de Cristo e, uma vez dentro, em geral é muito problemática, difícil de agradar e difícil de salvar.
Alguma vez Deus ordenou que instrumentos de música fossem usados no seu culto? Podem eles ser usados nas assembleias cristãs segundo o espírito do cristianismo? Jesus Cristo ou os seus apóstolos alguma vez ordenaram ou aprovaram o seu uso? Foram eles usados em algum lugar na igreja apostólica? O seu uso atual nas congregações cristãs alguma vez aumenta o espírito de devoção? Alguma vez parece que as bandas de músicos, coletiva ou individualmente, são mais espirituais, ou tão espirituais, quanto as outras partes da igreja de Cristo? Há mais orgulho, vontade própria, teimosia, insubordinação, leviandade e frivolidade entre essas pessoas do que entre os outros professos do cristianismo da mesma sociedade religiosa? Alguma vez se observou ou se soube que os músicos da casa de Deus tenham alcançado alguma profundidade de piedade, ou um entendimento superior e mais sólido nas coisas de Deus? Alguma vez se verificou que as igrejas e sociedades cristãs que têm e usam instrumentos de música no culto divino são mais santas, ou tão santas, quanto as sociedades que não os usam? E sempre se verifica que os ministros que gostam deles e recomendam o seu uso no culto ao Deus Todo-Poderoso são os homens mais espirituais e os pregadores mais espirituais e úteis? Podem simples sons, por mais melodiosos que sejam, quando nenhuma palavra ou sentimento é ou pode ser expresso, ser considerados louvor a Deus? É possível que tubos ou cordas de qualquer espécie louvem a Deus? Pode Deus se agradar de sons que não são emitidos por nenhum ser senciente e que em si mesmos não têm sentido algum? Se não se pode responder afirmativamente a essas perguntas, então a introdução desses instrumentos no culto a Deus não é anticristã, própria para rebaixar e, por fim, arruinar o espírito e as influências do evangelho de Jesus Cristo? E não deveriam todos os que desejam o progresso e o estabelecimento da religião pura e sem mácula levantar a mão, a sua influência e a sua voz contra eles? O argumento tirado do seu uso no culto judaico é extremamente fútil quando aplicado ao cristianismo.
Num sistema representativo de religião, como o judaico, tinha de haver muito trabalho exterior, tudo emblemático de coisas melhores; isso não prova que tais coisas devam continuar na dispensação do evangelho, em que as exterioridades desapareceram, as sombras se foram e só a substância é apresentada ao coração humano. Deve estar mal de provas a favor da música instrumental na igreja de Cristo quem recorre às práticas do ritual judaico!
Moisés não tinha designado nenhum instrumento musical para ser usado no culto divino; não havia nada disso no primeiro tabernáculo. As trombetas, ou chifres, então usadas não eram para cântico nem para louvor, mas, como usamos os sinos, para avisar a congregação do que ela era chamada a fazer etc. Mas Davi certamente introduziu muitos instrumentos de música no culto a Deus, pelo que, como já vimos, foi solenemente repreendido pelo profeta Amós (Am 6.1-6). Aqui, porém, o autor deste livro afirma que ele tinha o mandado do profeta Natã e de Gade, o vidente do rei, e afirma-se que esse foi o mandado do Senhor por meio dos seus profetas. [N. do T.: o trecho vem do comentário de Clarke a 2Cr 29.25, que a NAA traduz: “segundo o mandado de Davi e de Gade, o vidente do rei, e do profeta Natã. Porque este mandado veio do Senhor, por meio de seus profetas”. Am 6.5, na NAA, diz: “como Davi, inventam instrumentos musicais”.] Mas a versão siríaca e a árabe dão a isso outro sentido: “Ezequias pôs os levitas na casa do Senhor com instrumentos de música e o som das harpas, e com os hinos de Davi e os hinos de Gade, o profeta do rei; porque Davi cantava os louvores do Senhor, seu Deus, como da boca dos profetas”. Foi pela mão, ou mandado, do Senhor e dos seus profetas que os levitas deviam louvar ao Senhor, pois assim se pode entender o texto hebraico; e foi por ordem de Davi que tantos instrumentos de música foram introduzidos no serviço divino. Mas, ainda que fosse evidente, e não é, seja por este ou por qualquer outro lugar dos Escritos Sagrados, que instrumentos de música foram prescritos por autoridade divina sob a lei, poderia isso ser alegado com alguma aparência de razão para que fossem usados no culto cristão? Não; todo o espírito, a alma e o gênio da religião cristã são contra isso. E os que melhor conhecem a igreja de Deus, e o que constitui o seu verdadeiro estado espiritual, sabem que essas coisas foram introduzidas como substituto da vida e do poder da religião, e que, onde mais prevalecem, menos há do poder do cristianismo. Fora com esses brinquedos portentosos do culto àquele Espírito infinito que exige dos seus seguidores que o adorem em espírito e em verdade! Pois tais instrumentos não favorecem nenhum culto assim.
Não tenho dúvida de que a perversão grosseira da simplicidade do culto cristão pela introdução de vários instrumentos de música nas igrejas e capelas, se não é uma espécie de idolatria, pelo menos se classifica com o culto de invenção própria e com os ritos e cerimônias supersticiosos. Onde o Espírito e a unção de Deus não prevalecem nas assembleias cristãs, estando sacerdotes e povo desprovidos de ambos, o seu lugar, por consenso geral, tem de ser suprido por cerimônias imponentes, barulho e espetáculo.
A igreja de Roma, em todo país em que prevalece ou existe, misturou assim uma pretensa devoção cristã com ritos e cerimônias pagãos e judaicos: duas partes deles foram tomadas da Roma pagã, a terceira do ritual judaico mal entendido e grosseiramente deturpado, e a quarta de outras corrupções do sistema cristão. Nem a igreja protestante está ainda inteiramente livre de várias coisas no culto público que pouco têm daquela simplicidade e espiritualidade que sempre deveriam marcar o culto àquele Espírito infinitamente puro, que não pode se agradar de nada incorporado ao seu culto que não tenha sido prescrito por ele mesmo e que não tenda diretamente a levar o coração da terra e das coisas sensuais ao céu e àquela santificação sem a qual ninguém verá o Senhor. O canto, tal como é praticado em vários lugares, e os acompanhamentos pagãos de órgãos e instrumentos musicais de várias espécies são tão contrários à simplicidade do evangelho, e à espiritualidade do culto que Deus exige, quanto as trevas são contrárias à luz. E, se esses abusos não forem corrigidos, creio que não está longe o tempo em que o canto deixará de fazer parte do culto divino. Hoje, em muitos lugares, ele é tal que não se pode dizer que faça parte daquele culto que é em espírito e segundo a verdade. Que Deus o corrija!
Charles Wesley, mestre em artes, foi o melhor poeta cristão, no que diz respeito à hinologia, que já floresceu em tempos antigos ou modernos. Os hinos usados no culto religioso dos metodistas foram compostos principalmente por ele, e tal coletânea não existe em nenhum outro povo. A maioria das coletâneas de outras denominações cristãs deve às composições dele algumas das suas principais excelências.