A oração tem sido definida como “uma oferta dos nossos desejos a Deus por coisas necessárias, com humilde confiança de obtê-las somente pelos méritos de Cristo, para louvor da misericórdia, da verdade e do poder de Deus”. E “diz-se que as suas partes são a invocação, a adoração, a confissão, a petição, a alegação, a dedicação, a ação de graças e a bênção”. Embora a definição seja imperfeita, até onde vai não é censurável. Mas as chamadas partes da oração (exceto a palavra “petição”) quase nada têm a ver com a natureza da oração. São, em geral, atos separados de devoção, e prestar atenção a elas, naquilo que se chama “orar”, estragará inteiramente a oração e destruirá a sua eficácia.
Foi seguindo essa divisão que se introduziram as orações longas nas congregações cristãs, pelas quais se perdeu o espírito de devoção. Pois onde elas mais prevalecem, a apatia e a frieza são as principais características do culto religioso desse povo, e isso muitas vezes gerou formalismo e, com frequência, total indiferença à religião. As orações longas impedem que se ajoelhe, porque é completamente impossível a um homem ou a uma mulher permanecer de joelhos durante todo o tempo que elas duram; onde elas prevalecem, o povo fica de pé ou sentado. As orações feitas por esquema, não tenho dúvida, são odiosas aos olhos de Deus, porque ninguém que as use pode estar no espírito de devoção. É aproximar-se de Deus com os lábios, enquanto o coração está, quase necessariamente, longe dele (cf. Mt 15.8).
Uma ideia apropriada da oração é esta: “derramar a alma diante de Deus, com a mão da fé posta sobre a cabeça da Oferta Sacrificial, implorando misericórdia e apresentando-se a si mesma como oferta voluntária a Deus, entregando corpo, alma e espírito para serem guiados e governados como parecer bem à sua sabedoria celestial, desejando somente amá-lo perfeitamente e servi-lo com todas as suas forças, em todo tempo, enquanto existir”.
Não devemos orar simplesmente para contar a Deus as nossas necessidades ou mostrar-lhe o nosso estado (pois ele conhece esse estado e essas necessidades muito melhor do que nós), mas para obter um sentimento adequado do peso dessas necessidades e da urgência de vê-las supridas. E isso obtemos olhando para o nosso próprio coração e a nossa própria vida, pois aqui, em particular, o olho afeta o coração. Pela urgência da necessidade, sentimo-nos movidos a orar com fervor a Deus pela sua misericórdia; e o confessá-las diante dele nos afeta ainda mais profundamente, nos leva a ser mais fervorosos e nos mostra que ninguém senão Deus pode salvar e defender.
A oração não se destina a informar a Deus, mas a dar ao ser humano uma visão da sua miséria; a humilhar o seu coração, despertar o seu desejo, inflamar a sua fé, animar a sua esperança, elevar a sua alma da terra ao céu e lembrá-lo de que ali estão o seu Pai, a sua pátria e a sua herança.
A oração é o trato mais íntimo da alma com Deus e, por assim dizer, a conversa de um coração com outro.
A oração é a linguagem da dependência. Quem não ora está tentando viver independente de Deus. Essa foi a primeira maldição, e continua sendo a grande maldição da humanidade.
A oração exige mais do coração do que da língua. A eloquência da oração consiste no fervor do desejo e na simplicidade da fé. A abundância de belos pensamentos, os movimentos estudados e veementes e a ordem e a elegância das expressões são coisas que compõem um simples discurso humano, e não uma oração humilde e cristã. A nossa confiança deve vir daquilo que Deus pode fazer em nós, e não do que lhe dizemos.
Palavras sem sentido, repetições inúteis e frases de cortesia na oração são, em geral, fruto do paganismo, da hipocrisia ou da ignorância.
A fluência na oração não é essencial para orar. Uma pessoa pode orar com o maior poder, na avaliação de Deus, sem ser capaz de pronunciar uma só palavra. O gemido inexprimível está carregado de sentido, e Deus o entende, porque contém a linguagem do seu próprio Espírito (cf. Rm 8.26). Alguns desejos são fortes demais para ser expressos; não há linguagem bastante expressiva para lhes dar forma adequada e som vocal distinto. Tais desejos mostram que vêm de Deus; e, como vêm dele, expressam o que Deus está disposto a fazer e o que se propôs fazer.
“Por que você está clamando a mim?” (Êx 14.15). Não ouvimos uma só palavra de oração de Moisés, e, no entanto, aqui o Senhor lhe pergunta por que clama a ele. Disso podemos aprender que o coração de Moisés estava profundamente ocupado com Deus, embora provavelmente ele não articulasse uma só palavra. Mas a linguagem dos suspiros, das lágrimas e dos desejos é tão inteligível para Deus quanto a das palavras. Essa consideração deve ser um forte encorajamento para toda mente fraca e desanimada. Você não consegue orar, mas consegue chorar. Se até as lágrimas lhe são negadas (pois pode haver arrependimento profundo e verdadeiro onde a aflição é tão grande que fecha esses canais de alívio), então você consegue suspirar. E Deus, cujo Espírito assim o convenceu do pecado, da justiça e do juízo, conhece os seus gemidos inexprimíveis e lê o desejo inexprimível da sua alma sobrecarregada, um desejo de que ele mesmo é o Autor e que soprou no seu coração com o propósito de satisfazê-lo.
A oração é a linguagem da dependência consciente de Deus. E quem considera que o seu ser é efeito do poder divino, a continuação desse ser efeito de uma Providência sempre ativa, e o seu bem-estar efeito da graça e da misericórdia infinitas, sentirá a necessidade de orar a Deus para que se cumpra o grande propósito para o qual esse ser lhe foi dado e para que a sua alma seja salva para a vida eterna. E sentirá essa necessidade com mais força quando considerar isto: o seu Criador, Preservador e Redentor não tem nenhuma obrigação de continuar aqueles atos do seu poder e da sua bondade pelos quais o seu ser é mantido, a sua vida preservada ou a sua alma salva. Se isso fosse compatível com as exigências da Justiça divina, poderíamos esperar ver toda alma que não ora apagada da lista dos seres inteligentes, ou aniquilada do lugar que ocupava na criação de Deus. Ver essas almas ímpias, ingratas, profanas, dissolutas e perecendo para a bem-aventurança dos dois mundos, vasos de ira preparados para a destruição (Rm 9.22), não pode surpreender os que sabem que os que não oram não podem ser salvos.
Quem tem o espírito de oração tem o maior interesse na corte do céu, e o único meio de conservá-lo é mantê-lo em constante exercício. A apostasia começa no quarto de oração. Ninguém jamais se desviou da vida e do poder do cristianismo enquanto continuou constante e fervoroso, especialmente na oração particular. Quem ora sem cessar tem tudo para estar sempre alegre (cf. 1Ts 5.16-17).
Onde Abrão tem uma tenda, Deus tem de ter um altar (cf. Gn 12.8), porque ele sabe bem que não há segurança senão sob a proteção divina. Quão poucos dos que constroem casas pensam alguma vez na conveniência e na necessidade de construir um altar ao seu Criador! A casa em que o culto a Deus não está estabelecido não pode ser considerada sob a proteção divina.
“Quero, pois, que os homens orem em todos os lugares” (1Tm 2.8): em todo lugar; que tenham sempre um coração que ora, e ele sempre encontrará um lugar para orar. Isso pode se referir a uma superstição judaica. A princípio, pensavam que nenhuma oração podia ser aceitável se não fosse oferecida no templo de Jerusalém. Depois isso se estendeu à Terra Santa. Mas, quando foram dispersos entre as nações, construíram oratórios, ou lugares de oração, principalmente à beira dos rios e à beira-mar; e nesses foram obrigados a admitir que a oração pública podia ser oferecida legitimamente, mas em nenhum outro lugar. Em oposição a isso, o apóstolo, pela autoridade de Cristo, ordena que se ore em todo lugar, já que todos os lugares pertencem aos domínios de Deus e, como ele enche todos os lugares, em todos os lugares pode ser adorado e glorificado. Quanto à oração breve e espontânea, eles admitiam que podia ser feita de pé, sentado, encostado, deitado, andando pelo caminho e durante o trabalho.
Deus é o objeto da oração; e a palavra de Deus, especialmente as suas promessas, também são objeto da oração.
Deus no seu propiciatório é o objeto da oração. Para fixar a mente e impedir que ela vacile, quem suplica deve considerá-lo sob os atributos mais adequados ao seu próprio estado e às suas necessidades. Há três visões gerais que se podem ter desse Objeto divino: sabedoria infinita, poder infinito, bondade infinita. Poucas bênçãos de que precisamos não vêm de uma ou outra dessas três fontes: ou somos ignorantes e precisamos de instrução, ou fracos e precisamos de poder, ou miseráveis e precisamos de misericórdia. Como sentimos, assim devemos orar; e, para sentir corretamente e orar com êxito, devemos procurar descobrir o nosso estado, descobrir as nossas necessidades mais urgentes; e, para encontrá-las, precisamos de muita luz, que só o Espírito Santo pode dar. Por isso, por estranho que pareça, temos de orar antes de começar a orar. Temos de orar por luz para descobrir o nosso estado, para que o nosso olho afete o nosso coração e possamos ir com êxito ao grande Objeto da oração. Para ter as nossas necessidades supridas de pronto, temos de orar primeiro para ver de que precisamos; e então oraremos para ter essas necessidades supridas.
A oração a Deus é considerada pelos maometanos de um ponto de vista muito importante. Os doutores muçulmanos a declaram “a pedra angular da religião e a coluna da fé”. Consideram essenciais à eficácia da oração os seguintes pontos: 1. que a pessoa esteja livre de toda espécie de impureza; 2. que se deixe de lado toda roupa suntuosa e vistosa; 3. que a atenção acompanhe o ato e não se deixe desviar para nenhum outro objeto; 4. que a oração seja feita com o rosto voltado para o templo de Meca.
O que pode pensar de si mesmo quem, ao se dirigir a Deus, consegue ficar sentado no seu banco ou de pé na presença do Criador e Juiz de todos? Ficariam sentados ao se dirigir a qualquer pessoa de respeitabilidade comum? Se o fizessem, seriam considerados muito grosseiros. Ficariam sentados na presença do rei do seu próprio país? Não lhes seria permitido. Deve então Deus ser tratado com menos respeito que um semelhante mortal? Paulo se ajoelhava ao orar (At 20.36; 21.5). Estêvão se ajoelhou quando foi apedrejado (At 7.60). E Pedro se ajoelhou quando ressuscitou Tabita (At 9.40).
Suponho que o costume grosseiramente absurdo e perfeitamente ímpio de ficar sentado durante a oração esteja fora de questão. Era tão completamente diferente de tudo o que convinha ao culto divino, e tão expressivo de uma total falta de reverência no adorador, e daquela consciência das suas necessidades e daquele senso profundo da sua própria indignidade que ele deveria ter, que a igreja de Deus nunca o tolerou. É um costume que nem o próprio paganismo, com a luz que tinha, se permitiu praticar ou aprovar.
Entre as nações mais antigas e mais esclarecidas, ajoelhar-se sempre foi considerado a postura própria da súplica, porque expressava humildade, contrição e sujeição.
Numa reunião pública, um irmão piedoso começou a orar. Ajoelhei-me no chão, sem nada em que me apoiar ou me segurar. Ele orou quarenta e oito minutos. Eu não queria me levantar, e várias vezes estive a ponto de desmaiar. O que sofri não consigo descrever. Terminada a reunião, arrisquei-me a fazer uma ponderação ao bom homem; e, além do dano que sofri com a sua oração impiedosa, recebi a seguinte repreensão: “Meu irmão, se a sua mente fosse mais espiritual, você não teria achado a oração longa demais”. Passaram-se mais de vinte anos desde esse episódio, mas a lembrança do que sofri ainda pesa no meu espírito com fio cortante. O bom homem ainda vive, provavelmente lerá este escrito, sem dúvida se lembrará do caso, e espero que sinta que desde então aprendeu mais prudência e mais caridade.
Até os olhos devem ser guardados. Eles muitas vezes afetam o coração de tal modo que estragam e tornam sem proveito esse ato solene de devoção. Os objetos que veem apresentam à mente imagens que desviam ou dividem os pensamentos e produzem aquela divagação do coração de que tantas pessoas religiosas se queixam, cujos próprios olhos e pensamentos descuidados são a causa das divagações que estragam a sua devoção. Nunca consegui entender como alguém pode ter a mente recolhida, ou devoção apropriada na oração, se, enquanto ora, tem os olhos abertos, e não fixos num ponto, mas passeando pela casa, contemplando os maus e os bons. Ele há de estar distraído, e assim também as suas orações, a não ser que sejam feitas por esquema ou decoradas. Então, de fato, ele pode dizer as suas orações, mas não pode orá-las.
Que satisfação deve ser aprender do próprio Deus com que palavras e de que maneira ele quer que oremos a ele, para não orarmos em vão!
Até os que usam a Oração do Senhor no seu culto público parecem usá-la no lugar errado. Não deveríamos começar as nossas orações a Deus com essa oração e depois, segundo esse modelo, continuar os nossos pedidos por um tempo razoável? Mas, seja usada no começo, no meio ou no fim, nunca seja esquecida.
Pode quem se vê escravo do diabo pedir com fervor demais para ser libertado da sua escravidão?
“E esta é a confiança” (1Jo 5.14): a liberdade de acesso e de fala, “que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade”, isto é, alguma coisa que ele prometeu na sua palavra. A sua palavra é uma revelação da sua vontade nas coisas que dizem respeito à salvação humana. Tudo o que Deus prometeu, temos o direito de esperar; e o que ele prometeu e nós esperamos, devemos pedir em oração. A oração é a linguagem dos filhos de Deus. Quem é gerado de Deus fala essa linguagem. Chama Deus de “Aba, Pai!” no verdadeiro espírito de súplica. A oração é a linguagem da dependência de Deus; onde a alma é muda, não há vida, nem amor, nem fé. A fé e a oração não devem apresentar a Deus reivindicações com ousadia; devemos tomar cuidado para que o que pedimos e cremos esteja de acordo com a vontade revelada de Deus. O que encontramos prometido, isso podemos alegar.
Venham com confiança ao trono da graça (cf. Hb 4.16). Saibam que ele é isso, e que aquele que se assenta nele é gracioso. Quando vocês se aproximam, têm ali um Intercessor. Ele os apresentará, recomendará o pedido de vocês, defenderá a sua causa, dará a vocês plena liberdade de usar o seu nome, de se apropriar do mérito infinito da sua paixão e morte, da sua ressurreição e mediação, e de se valer daquela proximidade indescritível que ele tem com o Pai, como seu Filho amado em quem ele se agrada, e da sua afinidade com vocês, como “Deus manifestado na carne” (cf. 1Tm 3.16). [N. do T.: Clarke segue a King James, God was manifest in the flesh; a NAA diz “Aquele que foi manifestado na carne”.] É impossível acrescentar alguma coisa que fortaleça essa confiança, ou um argumento mais poderoso para garantir um êxito que, pelas considerações acima, tem de ser certo e absoluto.
“De manhã dirigirei a ti a minha oração” (cf. Sl 5.3). Parece haver aqui uma metáfora tirada do arqueiro. Ele vê o seu alvo, põe a flecha no arco, dirige a seta para o alvo, isto é, faz pontaria, dispara, e então olha para cima para ver se acertou. [N. do T.: Clarke segue a King James, in the morning will I direct my prayer unto thee, and will look up; a NAA diz “de manhã te apresento a minha oração e fico esperando”.] As orações bem dirigidas terão resposta pronta; e quem envia os seus pedidos a Deus por meio de Cristo, de um coração caloroso e afetuoso, pode olhar para cima com confiança esperando a resposta, porque ela virá. Se não vier resposta imediata, que o coração reto não suponha que a oração não foi ouvida. Ela chegou ao trono e ali está registrada.
Ao nos aproximarmos do trono da graça, temos Jesus continuamente em vista, como nossa Vítima sacrificial. As nossas orações devem ser dirigidas ao Pai por meio dele; e, convencidos de que a sua paixão e morte compraram para nós toda bênção possível, devemos pedir com humilde confiança as bênçãos de que precisamos; e, como nele o Pai sempre se agrada, devemos esperar com toda confiança as bênçãos que ele comprou.
A oração que não é enviada pela influência do Espírito Santo dificilmente chegará ao céu.
Os mundanos, se oram, pedem coisas temporais: “Que comeremos?”, “Que beberemos?” ou “Com que nos vestiremos?” (Mt 6.31). A maioria das pessoas verdadeiramente religiosas cai no outro extremo: esquece o corpo e pede só pela alma. E, no entanto, há “coisas que são requeridas e necessárias tanto para o corpo quanto para a alma”, e coisas que estão somente à disposição de Deus. [N. do T.: expressão da exortação que abre a Oração da Manhã no Livro de Oração Comum anglicano.] O corpo vive por causa da alma; a sua vida e o seu conforto são, em muitos aspectos, essencialmente necessários à salvação da alma; e, por isso, as coisas necessárias ao seu sustento devem ser pedidas com fervor ao Deus de toda graça, o Pai da bondade e da providência. “Nada têm, porque não pedem” (Tg 4.2) pode ser dito a muitos religiosos pobres e aflitos; e eles têm medo de pedir, para não parecerem interesseiros ou que buscam a sua porção nesta vida. Deveriam ser mais bem ensinados. Certamente a nenhum deles Deus dará uma pedra se pedir pão (Mt 7.9). Aquele que é tão generoso com as suas bênçãos celestiais não negará as terrenas, que têm infinitamente menos importância. Leitor, espere as bênçãos de Deus sobre o seu trabalho honesto; ore por elas e creia que Deus não ama menos a você, que se refugiou na mesma esperança, do que amou Isaque. Alegue não só as promessas dele, mas também os precedentes que ele lhe pôs diante dos olhos: “Senhor, fizeste isto e aquilo a Abraão, a Isaque, a Jacó e a outros que confiaram em ti; abençoa o meu campo, abençoa os meus rebanhos, faze prosperar o meu trabalho, para que eu possa fazer o que é honesto diante de todos (cf. Rm 12.17) e ter algo para repartir com os necessitados”. E Deus não ouvirá tais orações? Sim, e as responderá também, porque não aflige nem entristece de bom grado os filhos dos homens (Lm 3.33). E podemos estar certos de que há no mundo mais aflição e pobreza do que a justiça ou a providência de Deus exigem. Há, porém, muitos que devem a sua pobreza à falta de diligência e de economia. Afundam na indolência e esquecem aquela palavra: “Tudo o que vier às suas mãos para fazer, faça-o conforme as suas forças” (Ec 9.10); nem consideram que “a sonolência os levará a vestir trapos” (Pv 23.21). Sejam diligentes nos negócios e fervorosos de espírito (cf. Rm 12.11), e Deus não negará a vocês nenhum bem (cf. Sl 84.11).
Devemos pedir só o que é necessário ao nosso sustento, já que Deus não prometeu luxos nem coisas supérfluas. Sustento diário para o corpo e sustento diário para a alma é tudo o que precisamos; e por isso devemos orar, e isso temos razão para esperar de um Deus generoso e misericordioso; e então deixar a ele o cuidado desse corpo e dessa alma, como lhe aprouver. Somos seus servos; ele nos chama ao trabalho, e ninguém esperará que os seus servos cumpram a sua tarefa se não tiverem o que comer. Deus, o nosso Senhor celestial, nos dará pão para os dois mundos. Quem pede “riquezas” pede laços, vaidade e aflição de espírito. Quem pede “pobreza” pede o que poucos podem suportar; e, se a sua oração for ouvida e ele empobrecer, muito provavelmente furtará e profanará o nome do Senhor (cf. Pv 30.8-9).
O caminho de Deus é sempre o melhor. Não sabemos o que pedimos, nem o que devemos pedir, e por isso muitas vezes pedimos mal (cf. Tg 4.3) quando suplicamos coisas temporais que pertencem às dispensações da providência de Deus. Para coisas desse tipo não temos um guia revelado; e, quando as pedimos, deve ser com a mais profunda submissão à vontade divina, já que só Deus sabe o que é melhor para nós. Quanto à alma, tudo está claramente revelado, de modo que podemos pedir e receber e ter alegria completa. Mas, quanto ao corpo, há muitas razões para temer que a resposta aos nossos pedidos seria, em numerosos casos, a nossa destruição inevitável. Quantas orações Deus, por misericórdia, deixa de atender!
Quando alguém tem alguma dúvida se entristeceu o Espírito de Deus e sente a mente perturbada, é muito melhor ir imediatamente a Deus e pedir perdão do que gastar tempo procurando desculpas para a sua conduta ou se esforçando para tirar dela o seu aparente desvio. Conter ou suprimir a oração para encontrar desculpas ou atenuantes para fraquezas, indiscrições ou impropriedades de qualquer espécie, que pareçam invadir os limites sagrados da moral e da piedade, pode ser para alguém o pior dos males. A humilhação e a oração por misericórdia e perdão nunca estão fora de lugar para nenhuma alma humana que, cercada de males, está sempre sujeita a ofender.
A oração é uma parte do culto que Deus espera das suas criaturas. “Peçam”, diz ele, “e lhes será dado; busquem”, diz ele, “e acharão; batam”, acrescenta, “e a porta será aberta para vocês” (Mt 7.7). Essa é a voz de um Pai. Ora, alguém que tivesse coração de pai daria ao seu filho faminto e moribundo uma pedra, quando ele pedisse pão? Daria uma cobra quando ele pedisse um peixe? Ou daria um escorpião quando ele pedisse um ovo (cf. Lc 11.11-12)? Certamente não! E Deus, o Pai dos espíritos de toda a carne, faria diferente? A sua palavra diz: “Não”. O seu Espírito diz: “Não”. A sua igreja diz: “Não”. E a sua própria natureza eterna e amorosa diz: “Não”. Deus Pai, por amor de Cristo, por amor do seu próprio nome e por amor da sua verdade, “dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem” (Lc 11.13). Os pais da nossa carne não cuidaram de nós, trabalharam por nós, nos alimentaram, vestiram, instruíram e defenderam? Não arriscaram até a vida por nós? E o que não fará o nosso Pai celestial? Não procedem dele todo amor, toda generosidade, todo afeto, toda ternura paterna? E, quando os riachos são abundantes, o que não se pode esperar da Fonte, ou melhor, do oceano sem praias, sem fundo e inesgotável do Amor eterno? Ele está procurando os que oram e adoram; procurando uma oportunidade de lhes fazer bem; procurando salvá-los, perdoá-los, santificá-los e selá-los como herdeiros da vida eterna.
Como Deus prometeu graciosamente dar a salvação a toda alma que vem a ele por meio do seu Filho, e pôs o seu Espírito no coração deles, levando-os a clamar a ele sem cessar por ela, a bondade da sua natureza e a promessa da sua graça o obrigam a ouvir as orações que lhe oferecem e a lhes conceder toda aquela salvação que, pela sua promessa e pelo seu Espírito, os levou a pedir.
Quem não ora não é humilde, e quem busca a verdade sem humildade nunca a encontrou para a salvação da sua alma.
Deus nunca inspira uma oração senão com o propósito de respondê-la. Que bondade há igual a esta de Deus: dar não só o que pedimos, e mais do que pedimos, mas ainda recompensar a própria oração!
O único retorno que Deus exige é que peçamos mais! Quem é como Deus? Uma razão pela qual nunca mais deveríamos recorrer a um semelhante mortal em busca de um favor é que já recebemos muitos. Uma forte razão pela qual deveríamos reivindicar a salvação máxima de Deus é que já devemos tanto à sua misericórdia. Ora, este é o único meio que temos de pagar as nossas dívidas para com Deus; e, por estranho que pareça, cada tentativa de pagar a dívida só serve para aumentá-la. E, no entanto, o devedor e o Credor são representados como ambos satisfeitos, ambos beneficiados e ambos felizes um com o outro! Leitor! Ore a ele, invoque o seu nome, receba o cálice, aceite a abundância de salvação que ele lhe preparou, para que você o ame e o sirva de coração perfeito.
É um refinamento moderno da teologia ensinar que ninguém pode saber quando Deus ouve e responde à sua oração, senão por uma indução de casos particulares e por uma inferência a partir das suas promessas. E, nessa base, como pode alguém presumir com justiça que é ouvido ou respondido? Não podem as suas induções ser apenas os acontecimentos comuns da providência? E não pode a providência ser apenas a ocorrência necessária dos acontecimentos? E não é possível, nessa base cética, que não haja Deus nenhum para ouvir ou responder? A verdadeira religião não conhece nada dessas abominações. Ela ensina os seus seguidores a orar a Deus, a esperar dele uma resposta e a contar com o Espírito Santo para confirmar ao seu espírito que são filhos e filhas de Deus.
Deus pôs ao alcance de todo ser humano saber se a religião da Bíblia é verdadeira ou falsa. As promessas relativas aos gozos desta vida são as grandes provas da revelação divina. Elas têm de se cumprir em todos os que, com profundo arrependimento e verdadeira fé, se voltam para o Senhor, se a revelação que as contém vem de Deus. Que qualquer um, nesse espírito, se aproxime do seu Criador e alegue as promessas adequadas ao seu caso, e logo saberá se a doutrina vem de Deus. Provará e então verá que o Senhor é bom, e que é bem-aventurado quem nele se refugia (Sl 34.8). É isso que se chama “religião experiencial”, a religião vivida na experiência: o conhecimento vivo e atuante que o verdadeiro crente tem de que passou da morte para a vida (Jo 5.24); de que os seus pecados lhe foram perdoados por amor de Cristo, confirmando o próprio Espírito ao seu espírito que ele é filho de Deus.
A oração é sempre ouvida, de um modo ou de outro. Nenhuma alma que ora como Cristo ensina pode orar em vão. A verdade e a fidelidade do Senhor Jesus estão empenhadas no seu êxito. Traga consigo a palavra de Cristo e o sacrifício de Cristo, e nenhuma das bênçãos do céu lhe poderá ser negada.
Uma só pessoa cheia de fé e de oração pode ser o meio de trazer bênçãos sem número sobre a sua família e os seus conhecidos.
Como é verdadeira esta palavra: “Muito pode a oração enérgica e fiel do justo!” (cf. Tg 5.16). [N. do T.: Clarke adapta a King James, the effectual fervent prayer of a righteous man availeth much; a NAA diz “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo”.] Abraão se aproxima de Deus com afeto e fé e, da maneira mais devota e humilde, faz oração e súplica; e cada pedido é atendido na hora. E Deus não deixa de prometer misericórdia até que Abraão deixe de interceder (cf. Gn 18.22-33)! Que encorajamento isso oferece aos que temem a Deus para orar e interceder pelos seus vizinhos pecadores e pelos seus parentes ímpios! A fé no Senhor Jesus dá à oração uma espécie de onipotência: tudo o que alguém pedir ao Pai em seu nome, ele o fará (cf. Jo 14.13; 16.23). A oração tem sido chamada “a porta do céu”; mas, sem fé, essa porta não pode ser aberta. Quem ora como deve, e crê como convém, terá a plenitude da bênção do evangelho da paz.
A oração não só supõe necessariamente a existência de Deus (pois quem se aproxima de Deus tem de crer que ele existe, Hb 11.6), mas também a providência de Deus. Pois por que lhe pediríamos que afaste o mal, se não reconhecemos que ele exerce uma providência universal no mundo? Por que pediríamos para ser preservados nos perigos e dos perigos, se não estivéssemos convencidos de que ele tem domínio em toda parte e de que todas as coisas servem aos propósitos da sua vontade graciosa? E por que as pessoas que oram e suplicam em todo lugar esperariam ser ouvidas, se não fosse uma verdade incontestável que Deus é onipotente e que pode intervir, e intervirá, nas coisas que lhes dizem respeito? E, se o mal vier diretamente contra elas, ele pode desviá-lo, fazê-lo voltar inteiramente atrás, de modo que não tenha nenhuma ação perto delas; ou, se permitir que venha, convertê-lo em grande vantagem espiritual para elas, contrariando os maus efeitos que de outro modo ele produziria. E assim, pela sua providência (em resposta às orações delas) agindo junto com a sua graça, ele faz que todas as coisas que de outro modo seriam prejudiciais cooperem para o seu bem presente e a sua felicidade futura (cf. Rm 8.28).