Efésios 1.3-14
“Antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu, nele” (Ef 1.4). Eleição, predestinação e “o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
“Ora, estes de Bereia eram mais nobres do que os de Tessalônica, pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim.”Atos 17.11 · NAA
Apresentação
Quando o assunto é predestinação incondicional, três passagens aparecem em quase toda defesa calvinista: a abertura de Efésios (1.3-14), o discurso do pão da vida em João 6 e o capítulo 9 de Romanos. Esta página reúne, num só lugar, os estudos que publicamos sobre cada um deles.
Não se trata de um resumo. O que você vai ler aqui é o texto integral dos três estudos, reunidos e encadeados: a aula sobre Efésios 1 (da série Estudo de Efésios), a lição especial sobre João 6 e a palestra completa sobre Romanos 9 à luz dos capítulos 10 e 11. Cada um deles continua disponível na sua página própria, com cartões de memorização, avaliação comentada e PDF; os links estão no fim de cada parte e na seção final.
Há, porém, uma diferença importante em relação às páginas de origem, e ela dá a esta o seu caráter de tratado. Antes de apresentar a leitura armínio-wesleyana, damos a palavra aos próprios calvinistas. A seção seguinte reúne, traduzidos diretamente dos originais, trechos de João Calvino (nas Institutas e nos comentários a Efésios, João e Romanos), dos Cânones de Dort (1619), da Confissão de Fé de Westminster (1647) e de três sermões de Charles Spurgeon dedicados exatamente a Efésios 1.4, João 6.44 e Romanos 9.13. A intenção é simples e honesta: que ninguém possa dizer que estamos respondendo a uma caricatura. A leitura que examinamos é a que os seus melhores representantes formularam, com as suas palavras.
“Antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu, nele” (Ef 1.4). Eleição, predestinação e “o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer” (Jo 6.44). O Pai que dá, atrai e concede.
“Amei Jacó, porém desprezei Esaú” (Rm 9.13). Misericórdia, endurecimento e o oleiro com os seus vasos.
Como ler esta página. A navegação fixa no alto leva a cada parte. A Parte 1 expõe a leitura calvinista com citações de fonte. As Partes 2, 3 e 4 trazem os três estudos na íntegra. A conclusão recolhe o que os três textos, lidos juntos, de fato ensinam. Tudo o que é citado da Bíblia vem da Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação; as citações dos autores calvinistas são traduções nossas das edições em domínio público indicadas em cada caso.
Parte 1 · A palavra aos calvinistas
Antes de discordar, é preciso ouvir. Nesta parte a leitura calvinista é apresentada pelas suas próprias vozes clássicas, com indicação de onde cada frase foi tirada.
Comecemos pela definição que deu nome ao sistema. Nas Institutas da Religião Cristã (edição definitiva de 1559), Calvino escreve:
“Chamamos predestinação o decreto eterno de Deus, pelo qual ele determinou consigo mesmo o que queria que acontecesse a cada homem. Pois nem todos são criados em condição igual: a uns é preordenada a vida eterna, a outros, a condenação eterna. Assim, conforme cada um foi criado para um ou outro desses fins, dizemos que foi predestinado para a vida ou para a morte.”
João Calvino, Institutas, III.21.5 (trad. nossa da edição inglesa de Henry Beveridge, 1845)
Dois capítulos depois, ele fecha a definição com a sua contraparte, a reprovação:
“Dizemos, então, que a Escritura prova claramente isto: que Deus, por seu conselho eterno e imutável, determinou de uma vez por todas aqueles que lhe aprouve um dia admitir à salvação e aqueles que, por outro lado, lhe aprouve destinar à destruição. Sustentamos que esse conselho, quanto aos eleitos, se funda na sua misericórdia gratuita, sem nenhuma consideração do mérito humano, ao passo que aqueles que ele destina à destruição são excluídos do acesso à vida por um juízo justo e irrepreensível, mas incompreensível.”
Calvino, Institutas, III.21.7
As duas grandes confissões da tradição reformada consolidaram essa leitura. Os Cânones de Dort (1618-1619), redigidos justamente para condenar os seguidores de Armínio, definem a eleição assim:
“A eleição é o propósito imutável de Deus pelo qual, antes da fundação do mundo, por pura graça, segundo o soberano beneplácito da sua vontade, ele escolheu, dentre todo o gênero humano, que por sua própria culpa caíra do estado original de retidão no pecado e na perdição, um certo número de pessoas para a redenção em Cristo, a quem desde a eternidade designou Mediador e cabeça dos eleitos e fundamento da salvação.”
Cânones de Dort, Primeiro Ponto de Doutrina, art. 7 (trad. nossa do texto em Philip Schaff, The Creeds of Christendom, vol. III)
E a Confissão de Westminster (1647), no capítulo “Do eterno decreto de Deus”, resume o sistema inteiro em poucas linhas. Repare nos textos de prova que os próprios redatores anexaram a cada artigo, porque são exatamente os três que esta página examina:
Westminster III.1 · provas: Rm 9.15,18; Ef 1.11
“Deus, desde toda a eternidade, pelo sapientíssimo e santíssimo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece; contudo, de tal modo que nem Deus é o autor do pecado, nem se faz violência à vontade das criaturas, nem é tirada a liberdade ou a contingência das causas segundas, antes estabelecida.”
Westminster III.3 · provas: Rm 9.22-23; Ef 1.5-6
“Pelo decreto de Deus, para manifestação da sua glória, alguns homens e anjos são predestinados para a vida eterna, e outros preordenados para a morte eterna.”
Westminster III.5 · provas: Ef 1.4,9,11; Rm 9.11,13,16
“Aqueles dentre os homens que são predestinados para a vida, Deus, antes de lançados os fundamentos do mundo, segundo o seu eterno e imutável propósito e o secreto conselho e beneplácito da sua vontade, escolheu em Cristo para a glória eterna, por sua pura e livre graça e amor, sem nenhuma previsão de fé ou de boas obras, ou de perseverança em qualquer delas, ou de qualquer outra coisa na criatura, como condições ou causas que o movessem a isso.”
Westminster III.6-7 · provas: Jo 6.64-65; 17.9; Rm 9.17-18,21-22
“Nem são outros redimidos por Cristo, eficazmente chamados, justificados, adotados, santificados e salvos, senão somente os eleitos. Ao restante da humanidade aprouve a Deus, segundo o insondável conselho da sua própria vontade, pelo qual estende ou retém a misericórdia como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas, preterir e ordenar para a desonra e a ira por causa do seu pecado, para louvor da sua gloriosa justiça.”
Fica claro, portanto, por que estes três textos são tão importantes para o calvinismo. Não somos nós que os escolhemos como alvo: foram os próprios redatores de Westminster que os puseram como provas dos artigos sobre o decreto, a eleição e a reprovação.
Para Calvino, Efésios 1.4 é o texto que mostra que a eleição é a “primeira causa” de tudo, e que o “em Cristo” exclui qualquer consideração de mérito ou de fé prevista:
“O fundamento e a primeira causa, tanto da nossa vocação como de todos os benefícios que recebemos de Deus, é aqui declarado ser a sua eleição eterna. […] O próprio tempo em que a eleição se deu prova que ela é gratuita; pois que poderíamos ter merecido, ou que mérito possuíamos, antes que o mundo fosse feito? Como é pueril a tentativa de responder a este argumento com o seguinte sofisma: ‘Fomos escolhidos porque éramos dignos, e porque Deus previu que seríamos dignos’. Estávamos todos perdidos em Adão; e, portanto, se Deus, pela sua própria eleição, não nos tivesse resgatado da perdição, nada haveria a prever. […] Em Cristo. Esta é a segunda prova de que a eleição é gratuita; pois, se somos escolhidos em Cristo, não é por nós mesmos. […] Daí concluímos que a santidade, a pureza e toda excelência que se acha entre os homens são fruto da eleição. […] A causa, certamente, não é posterior ao efeito. A eleição, portanto, não depende da justiça das obras, da qual Paulo aqui declara que ela é a causa.”
Calvino, Comentário a Efésios, sobre Ef 1.4 (trad. nossa da edição inglesa de William Pringle)
Nas Institutas, o mesmo versículo recebe a formulação mais citada do argumento:
“Quando Paulo declara que fomos escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo (Ef 1.4), certamente mostra que nenhuma consideração se faz ao nosso próprio valor; pois é como se dissesse: visto que em toda a descendência de Adão o nosso Pai celestial nada encontrou digno da sua eleição, voltou os olhos para o seu Ungido, a fim de escolher como membros do seu corpo aqueles que haveria de receber na comunhão da vida.”
Calvino, Institutas, III.22.1
“Se ele nos elegeu para que fôssemos santos, não nos elegeu porque previu que seríamos santos. As duas coisas são evidentemente incompatíveis: que os piedosos devam à eleição o serem santos e, ao mesmo tempo, cheguem à eleição por meio de obras. […] E como se pode dizer coerentemente que coisas derivadas da eleição são a causa da eleição?”
Calvino, Institutas, III.22.3
Sobre o versículo 11, “o conselho da sua vontade”, Calvino conclui:
“Deus não olha para nada fora de si mesmo que o mova a elegê-los, pois o conselho da sua própria vontade é a única e verdadeira causa da sua eleição.”
Calvino, Comentário a Efésios, sobre Ef 1.11
Dort aplica o mesmo raciocínio ao “para que fôssemos santos”, inserindo a sua interpretação dentro da citação do versículo:
“Esta eleição não se fundou na fé prevista, nem na obediência da fé, na santidade ou em qualquer outra boa qualidade ou disposição no homem, como pré-requisito, causa ou condição de que dependesse; ao contrário, os homens são escolhidos para a fé e para a obediência da fé, para a santidade etc. Portanto, a eleição é a fonte de todo bem salvífico, da qual procedem a fé, a santidade e os demais dons da salvação, e finalmente a própria vida eterna, como seus frutos e efeitos, segundo a palavra do apóstolo: ‘Ele nos escolheu [não porque éramos, mas] para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor’ (Ef 1.4).”
Cânones de Dort, I.9
E Spurgeon, no sermão “Eleição” (1855), pregado sobre 2 Tessalonicenses 2.13-14 mas construído em torno do “antes da fundação do mundo”, leva a doutrina ao apelo evangelístico:
“O texto diz: ‘Deus desde o princípio vos escolheu para a salvação’; mas os nossos opositores dizem que Deus escolhe as pessoas porque são boas, que as escolhe por causa de várias obras que fizeram. […] Eu lhes digo, ao maior dos pecadores, nesta manhã, eu lhes digo em nome dele: se vocês vierem a Deus sem obra alguma de vocês e se lançarem sobre o sangue e a justiça de Jesus Cristo; se vierem agora e confiarem nele, vocês são eleitos, foram amados por Deus desde antes da fundação do mundo, pois não poderiam fazer isso se Deus não lhes tivesse dado o poder e não os tivesse escolhido para fazê-lo.”
C. H. Spurgeon, sermão “Election” (n. 41-42), New Park Street Chapel, 2 de setembro de 1855 (trad. nossa)
Em suma, a leitura calvinista de Efésios 1 afirma: (1) a eleição é de indivíduos, feita antes da fundação do mundo; (2) é incondicional, isto é, sem nenhuma previsão de fé ou de santidade, que são frutos e não condições; (3) “em Cristo” significa que Cristo é o meio pelo qual os já escolhidos são salvos, não o fundamento que define quem é escolhido; (4) “o conselho da sua vontade” (Ef 1.11) é a causa única da eleição e, para Westminster, do decreto que ordena “tudo quanto acontece”.
Em João 6, o calvinismo vê a doutrina da graça irresistível (ou “chamado eficaz”) e a sua base, a incapacidade total do ser humano caído. Calvino comenta o versículo 37:
“Em primeiro lugar, diz que todos os que o Pai lhe dá vêm a ele; com essas palavras quer dizer que a fé não é coisa que dependa da vontade dos homens, de modo que este ou aquele creia indiscriminadamente e ao acaso, mas que Deus elege aqueles que, por assim dizer, entrega ao seu Filho; pois, quando diz que tudo o que é dado vem, inferimos disso que nem todos vêm. Inferimos ainda que Deus opera nos seus eleitos com tal eficácia do Espírito Santo que nenhum deles cai; pois a palavra ‘dar’ tem o mesmo sentido que se Cristo dissesse: ‘Aqueles que o Pai escolheu, ele regenera e me dá, para que obedeçam ao evangelho’.”
Calvino, Comentário ao Evangelho de João, sobre Jo 6.37 (trad. nossa da edição inglesa de William Pringle)
Sobre o versículo 44, o “atrair” (ou “trazer”) do Pai:
“Nenhum homem jamais será capaz, por si mesmo, de vir a Cristo; é preciso que Deus primeiro se aproxime dele pelo seu Espírito; daí se segue que nem todos são atraídos, mas que Deus concede essa graça àqueles que elegeu. É verdade que, quanto ao modo de atrair, não é violento, de maneira a compelir os homens por força externa; mas ainda assim é um poderoso impulso do Espírito Santo, que torna dispostos os que antes eram indispostos e relutantes. É, portanto, afirmação falsa e profana dizer que só são atraídos os que querem ser atraídos, como se o homem se tornasse obediente a Deus pelos próprios esforços.”
Calvino, Comentário a João, sobre Jo 6.44
Sobre o versículo 45, “todos serão ensinados por Deus”, ele restringe explicitamente o alcance do “todos”:
“Quanto à palavra ‘todos’, ela deve ser limitada aos eleitos, que são os únicos verdadeiros filhos da Igreja. […] Assim como Cristo antes afirmou que os homens não estão aptos a crer até que tenham sido atraídos, agora declara que a graça de Cristo, pela qual são atraídos, é eficaz, de modo que creem necessariamente.”
Calvino, Comentário a João, sobre Jo 6.45
E sobre o versículo 65, o fecho do discurso:
“Cristo, portanto, indica a razão de haver tão poucos crentes: é que ninguém, por mais agudo que seja, pode chegar à fé por sua própria sagacidade; pois todos são cegos até serem iluminados pelo Espírito de Deus, e por isso só participam de tão grande bênção aqueles a quem o Pai se digna fazer participantes. Se essa graça fosse concedida a todos sem exceção, teria sido inoportuno e impróprio mencioná-la nesta passagem.”
Calvino, Comentário a João, sobre Jo 6.65
Nas Institutas, João 6 é convocado como a sentença do “Juiz e Mestre supremo” sobre toda a questão:
“Observe-se que a doação do Pai é o primeiro passo da nossa entrega aos cuidados e à proteção de Cristo. […] ‘Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer’. ‘Todo aquele, portanto, que ouviu e aprendeu do Pai vem a mim’ (Jo 6.44-45). Se todos indistintamente dobrassem os joelhos diante de Cristo, a eleição seria comum; mas agora, no pequeno número dos crentes, aparece uma evidente diversidade.”
Calvino, Institutas, III.22.7
Os Cânones de Dort transformam essa leitura em doutrina da regeneração anterior à fé:
“[A regeneração] de modo algum se efetua meramente pela pregação externa do evangelho, por persuasão moral, ou por tal modo de operação que, depois de Deus ter feito a sua parte, ainda fique em poder do homem ser regenerado ou não, converter-se ou permanecer inconverso; é evidentemente uma obra sobrenatural, poderosíssima e, ao mesmo tempo, suavíssima, admirável, misteriosa e inefável, não inferior em eficácia à criação ou à ressurreição dos mortos; de modo que todos em cujos corações Deus opera desta maneira maravilhosa são certa, infalível e eficazmente regenerados e de fato creem.”
Cânones de Dort, Terceiro e Quarto Pontos, art. 12
“A fé deve, portanto, ser considerada dom de Deus, não por ser oferecida por Deus ao homem para que este a aceite ou rejeite a seu bel-prazer, mas porque de fato lhe é conferida, inspirada e infundida; nem mesmo porque Deus conceda o poder ou a capacidade de crer e então espere que o homem, pelo exercício do seu livre-arbítrio, consinta nos termos da salvação e de fato creia em Cristo; mas porque aquele que opera no homem tanto o querer como o realizar, opera nele tanto o querer crer como o próprio crer.”
Cânones de Dort, Terceiro e Quarto Pontos, art. 14
Spurgeon dedicou a João 6.44 um sermão inteiro, “A incapacidade humana” (1858). Três frases dele bastam para mostrar como a tradição popular calvinista lê o versículo:
“Vir a Cristo, embora descrito por alguns como a coisa mais fácil do mundo, é declarado em nosso texto como algo total e inteiramente impossível a qualquer homem, a menos que o Pai o traga a Cristo. […] A razão pela qual o homem não pode vir a Cristo não é porque não possa vir no que diz respeito ao seu corpo ou ao mero poder da sua mente, mas porque a sua natureza é tão corrompida que ele não tem nem a vontade nem o poder de vir a Cristo, a menos que seja trazido pelo Espírito. […] Claramente, trata-se de um atrair divino, um atrair do Deus Altíssimo: a Primeira Pessoa da gloriosíssima Trindade enviando a Terceira Pessoa, o Espírito Santo, para induzir os homens a virem a Cristo.”
C. H. Spurgeon, sermão “Human Inability” (n. 182), 7 de março de 1858 (trad. nossa)
Vale registrar que o próprio Spurgeon, no mesmo sermão, ressalva: “no atrair do Pai não há compulsão alguma; Cristo jamais compeliu homem algum a vir a ele contra a sua vontade”. A afirmação mostra que a tradição calvinista séria não entende “irresistível” como arrasto físico, e sim como uma mudança interior que torna a vontade disposta. É com essa formulação, e não com uma caricatura, que a Parte 3 vai dialogar.
Em suma, a leitura calvinista de João 6 afirma: (1) “ninguém pode vir” descreve a incapacidade total de todo ser humano desde a Queda; (2) os que o Pai “dá” e “atrai” são os eleitos, ainda incrédulos; (3) atrair é regenerar: Deus muda o coração por dentro, antes da fé, e a fé é efeito necessário dessa regeneração; (4) o “todos” de “serão todos ensinados por Deus” (v.45) limita-se aos eleitos; (5) por isso a graça que atrai é eficaz, e todos os atraídos necessariamente creem.
Romanos 9 é, para o calvinismo, o texto por excelência da eleição e da reprovação de indivíduos. Comentando os versículos 11 a 13 (Jacó e Esaú), Calvino extrai três proposições:
“A primeira proposição é: ‘Assim como a bênção da aliança separa a nação israelita de todos os outros povos, assim a eleição de Deus faz distinção entre os homens dentro dessa nação, enquanto predestina uns para a salvação e outros para a condenação eterna’. A segunda: ‘Não há outro fundamento para essa eleição senão a bondade de Deus somente, e também, desde a queda de Adão, a sua misericórdia, que abraça a quem lhe apraz, sem qualquer consideração das suas obras’. A terceira: ‘O Senhor, na sua eleição gratuita, é livre e isento da necessidade de conceder igualmente a mesma graça a todos; ao contrário, pretere a quem quer e escolhe a quem quer’.”
Calvino, Comentário a Romanos, sobre Rm 9.11 (trad. nossa da edição inglesa de John Owen, 1849)
Ele conhece a leitura que vê em Malaquias as nações de Israel e Edom, e a responde nas Institutas admitindo que “Amei Jacó” se refere “a toda a progênie do patriarca”, mas acrescentando que “nada há nisso que contradiga o fato de que, na pessoa de um só homem, nos é posto diante dos olhos um exemplar da eleição que não pode falhar no seu objetivo” (III.21.7). A partir daí, conclui:
“Pois assim como Jacó, que ainda nada merecera por boas obras, é recebido em favor, assim Esaú, ainda não manchado por crime algum, é odiado. […] Portanto, se não podemos apontar nenhuma razão para que ele conceda misericórdia ao seu povo senão que assim lhe apraz, tampouco teremos razão alguma para que ele reprove os outros senão a sua vontade. Quando se diz que Deus visita em misericórdia ou endurece a quem quer, os homens são lembrados de que não devem buscar nenhuma causa além da sua vontade.”
Calvino, Institutas, III.22.11
Sobre “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (Rm 9.15):
“Por este oráculo o Senhor declarou que não é devedor de nenhum homem, e que tudo quanto dá é benefício gratuito; em seguida, que a sua bondade é livre, de modo que pode conferi-la a quem lhe apraz; e, por fim, que não se pode conceber causa mais alta do que a sua própria vontade para que faça o bem e mostre favor a alguns homens, mas não a todos. […] O pronome relativo também indica expressamente que a misericórdia não é para todos indiscriminadamente.”
Calvino, Comentário a Romanos, sobre Rm 9.15
Sobre o endurecimento de Faraó e a reprovação em geral, Calvino é o mais direto dos teólogos da tradição:
“Aqueles, portanto, que Deus pretere, ele reprova, e isso por nenhuma outra causa senão porque lhe apraz excluí-los da herança que predestina aos seus filhos. […] Daí se segue que o conselho oculto de Deus é a causa do endurecimento.”
Calvino, Institutas, III.23.1
“O decreto, confesso, é terrível; e, no entanto, é impossível negar que Deus soube de antemão qual seria o fim do homem antes de o criar, e soube de antemão porque assim o ordenara por seu decreto.”
Calvino, Institutas, III.23.7 (o célebre decretum horribile)
Sobre a objeção do versículo 19 (“por que ele ainda se queixa?”) e a resposta do oleiro (vv. 20-21):
“Aqui, de fato, a carne se revolta de modo especial, isto é, quando ouve que aqueles que perecem foram destinados pela vontade de Deus à destruição. […] Os ímpios objetam dizendo que os homens ficam isentos de culpa se a vontade de Deus ocupa o primeiro lugar na sua salvação ou na sua perdição. Paulo nega isso? Não; pela sua resposta ele o confirma, isto é, que Deus determina a respeito dos homens como lhe parece bem, e que em vão e loucamente os homens se levantam para contender com Deus; pois ele atribui, por direito próprio, a sorte que lhe apraz àquilo que forma.”
Calvino, Comentário a Romanos, sobre Rm 9.19-20
Os Cânones de Dort citam Romanos 9.11-13 como a prova de que a eleição não considera nada no ser humano, e Romanos 9.20 como a resposta a quem reclama:
“O beneplácito de Deus é a única causa desta eleição graciosa; a qual não consiste em que Deus, prevendo todas as possíveis qualidades das ações humanas, tenha elegido algumas delas como condição de salvação, mas em que lhe aprouve, dentre a massa comum dos pecadores, adotar certas pessoas como povo peculiar para si, como está escrito: ‘Porque, não tendo os gêmeos ainda nascido, nem tendo praticado o bem ou o mal […] foi dito [a saber, a Rebeca]: O mais velho servirá ao mais moço; como está escrito: Amei Jacó, porém desprezei Esaú’ (Rm 9.11-13).”
Cânones de Dort, I.10
“Nem todos, mas somente alguns são eleitos, enquanto outros são preteridos no decreto eterno; a esses Deus, segundo o seu soberano, justíssimo, irrepreensível e imutável beneplácito, decretou deixar na miséria comum em que por sua própria culpa se lançaram, e não lhes conceder a fé salvadora e a graça da conversão; […] e, por fim, para manifestação da sua justiça, condená-los e puni-los eternamente, não só pela incredulidade, mas também por todos os seus outros pecados. E este é o decreto da reprovação, que de modo algum faz de Deus o autor do pecado (o mero pensamento disso é blasfêmia), mas o declara juiz e vingador tremendo, irrepreensível e justo.”
Cânones de Dort, I.15
“Aos que murmuram contra a graça gratuita da eleição e a justa severidade da reprovação, respondemos com o apóstolo: ‘Quem é você, ó homem, para discutir com Deus?’ (Rm 9.20).”
Cânones de Dort, I.18
Por fim, Spurgeon, no sermão “Jacó e Esaú” (1859), enfrenta de frente a leitura que vê nações em Romanos 9.13, e a recusa:
“O fato é que Deus amou Jacó e não amou Esaú; escolheu Jacó, mas não escolheu Esaú; abençoou Jacó, mas nunca abençoou Esaú; a sua misericórdia seguiu Jacó por todo o caminho da sua vida, até o fim, mas a sua misericórdia nunca seguiu Esaú. […] Outros, para se livrarem deste texto incômodo, dizem que ele não se refere a Esaú e Jacó; refere-se à nação; refere-se aos filhos de Jacó e aos filhos de Esaú; refere-se aos filhos de Israel e de Edom. […] ‘Jacó’, isto é, o homem cujo nome era Jacó: ‘Amei Jacó, porém desprezei Esaú’. Cuidado, meus caros amigos, com o modo como qualquer um de vocês mexe na Palavra de Deus.”
C. H. Spurgeon, sermão “Jacob and Esau” (n. 239), 16 de janeiro de 1859 (trad. nossa)
Curiosamente, no mesmo sermão Spurgeon se recusa a dar a mesma razão para a eleição e para a reprovação: Deus amou Jacó por pura graça, mas “se Deus odiou Esaú, foi porque ele merecia ser odiado”. Isto é, até dentro do calvinismo há quem sinta que a reprovação não pode ser tão incondicional quanto a eleição. Guardemos esse detalhe, porque a Parte 4 voltará a ele.
Em suma, a leitura calvinista de Romanos 9 afirma: (1) o capítulo responde à pergunta “por que uns creem e outros não?”, e a resposta é a eleição de indivíduos; (2) Jacó e Esaú, antes de nascerem, são o exemplar dessa eleição e reprovação incondicionais; (3) “terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” significa que a misericórdia não é para todos; (4) o endurecimento de Faraó tem por causa o conselho oculto de Deus; (5) o oleiro faz, da mesma massa, vasos para honra e vasos para desonra, e à criatura só cabe silenciar.
Essa leitura clássica continua sendo a dos expoentes contemporâneos do calvinismo, que não fazem senão reafirmá-la: R. C. Sproul (Escolhidos por Deus), John Piper (que dedicou um livro inteiro a Romanos 9.1-23, The Justification of God), John MacArthur (nos comentários a João e a Romanos), Wayne Grudem (Teologia Sistemática, capítulo sobre a eleição) e Louis Berkhof (Teologia Sistemática). Preferimos citar os clássicos, em domínio público, porque foram eles que fixaram os termos do debate e porque a sua formulação é a mais cuidadosa; quem quiser conferir os autores recentes encontrará neles as mesmas teses, com os mesmos três textos.
“Antes da fundação do mundo, Deus nos escolheu, nele, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele. Em amor nos predestinou para ele, para sermos adotados como seus filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o propósito de sua vontade.”Efésios 1.4-5 · NAA
Texto integral das seções sobre Ef 1.3-14 da aula Efésios 1: Toda bênção em Cristo, do Estudo de Efésios.
Efésios 1.3-14
Nos versículos 3 a 14, no grego, corre uma única e longa frase — um jorro de louvor. Um bom título seria: o propósito eterno de Deus e todas as bênçãos que temos em Cristo.
Três palavras dão o tom. A primeira é beneplácito (ou propósito): a resolução deliberada e bondosa de Deus (Ef 1.5,9). A segunda é vontade, que se repete (Ef 1.5,9,11). A terceira é ainda mais forte: “o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Tudo o que acontece à igreja brota do coração de Deus, não do acaso.
E qual é o alvo declarado desse propósito? Repare nas expressões “para” e “a fim de”: fomos escolhidos “para sermos santos e irrepreensíveis” (Ef 1.4) e tudo isso é “para louvor da glória da sua graça” (Ef 1.6,12,14). Deus nos criou e nos redimiu para a sua glória — e nisso está a nossa maior alegria.
A doutrina da eleição, com profundidade
“Deus nos escolheu nele, antes da fundação do mundo… e nos predestinou para sermos adotados como filhos” (Ef 1.4-5). Poucos textos foram tão debatidos. Como lê-lo à luz de toda a Escritura, na tradição arminiana-wesleyana?
A expressão decisiva é “em Cristo” (Ef 1.4). Paulo não diz que Deus escolheu indivíduos tomados isoladamente; diz que nos escolheu “nele”. E a estrutura se repete: “em Cristo” (v.3), “nele” (v.4), “por meio de Jesus Cristo” (v.5), “no Amado” (v.6), “nele temos a redenção” (v.7), “em Cristo” (vv.9-10), “nele fomos feitos herança” (v.11), “em quem também vós” (v.13). Para Armínio, Cristo não é apenas o executor de um decreto anterior: ele é o próprio fundamento da eleição. Fora de Cristo não há eleição salvadora.
A pergunta certa
A questão não é “Deus me escolheu secretamente para que eu viesse a estar em Cristo?”, e sim: “Estou, pela fé, naquele que Deus escolheu como Salvador e Cabeça do povo eleito?”
Ef 1.4-7
Deus escolheu Cristo como representante da nova humanidade e, nele, escolheu a Igreja como seu povo — assim como escolheu Abraão e, nele, a sua descendência. Não é um grupo abstrato e vazio: a eleição é primeiro do povo em seu Cabeça, mas alcança de fato cada pessoa que passa a pertencer a esse povo pela fé. O aspecto corporativo não anula o individual; o crente é eleito como membro do corpo eleito. Em síntese: Cristo é o Eleito; a Igreja é eleita nele; cada pessoa participa dessa eleição pela união com Cristo mediante a fé.
Repare que Efésios 1 não afirma que Deus predestinou algumas pessoas a crer. Paulo diz para o quê os crentes foram predestinados: para serem santos e irrepreensíveis (v.4), para a adoção (v.5), para a redenção e o perdão (v.7), para uma herança (v.11), para o louvor da glória de Deus (vv.6,12,14). A predestinação fixa o destino dos que estão em Cristo: Deus determinou soberanamente que todo aquele que estiver unido ao Filho será perdoado, adotado, santificado, transformado e, enfim, glorificado. Em palavras simples: Deus não predestinou certas pessoas a crer à revelia da sua resposta; predestinou o que há de acontecer com todos os que creem. Wiley ajuda a distinguir: a predestinação é o plano gracioso de adotar por meio de Cristo; a eleição identifica os que acolhem pela fé a oferta da misericórdia.
Nada disso faz da fé um mérito. O pecador caído não produz fé por si mesmo: o Pai planeja, o Filho redime, o Espírito ilumina, convence e capacita, o evangelho chama — e o pecador, alcançado pela graça, pode então responder. Armínio sustentava que ninguém exerce fé salvadora sem a graça que capacita. A diferença para o calvinismo não está em afirmar ou negar a necessidade da graça, mas em perguntar se ela é irresistível e concedida apenas a alguns. A fé, portanto, não é a causa meritória da eleição: é o meio gracioso pelo qual somos unidos ao Eleito. A causa é a graça; o fundamento é Cristo; a condição não meritória é a fé.
Como se entra nessa realidade
O próprio capítulo mostra o caminho: “tendo ouvido a palavra da verdade… e nele também crido, fostes selados com o Espírito” (Ef 1.13). Tudo é dom da graça — o evangelho, a ação do Espírito, Cristo, as bênçãos. Mas a participação pessoal no povo eleito se dá pela fé.
Ef 1.13
O “nós/vós” do capítulo tem cor comunitária. “Nós, os que primeiro esperamos em Cristo” (v.12) — os judeus que primeiro creram; “em quem também vós” (v.13) — os gentios que depois ouviram e creram. Wesley lê assim: a eleição revela o plano de formar em Cristo um único povo de judeus e gentios, como a carta dirá adiante (Ef 2.14-18; 3.6). Efésios 1 não é especulação sobre indivíduos num decreto secreto; é a celebração do plano de reunir todas as coisas em Cristo e formar nele um povo santo.
Que a adoção se dê “segundo o propósito da sua vontade” (Ef 1.5) não enfraquece nada. Foi Deus, e não o homem, quem livremente decidiu salvar por Cristo, conceder a salvação pela graça, recebê-la mediante a fé, reunir judeus e gentios, adotar os que creem e conduzi-los à santidade e à glória. A soberania divina está em Deus ter estabelecido livremente o Salvador, o caminho, a condição e o destino da salvação — não em um sorteio arbitrário de pessoas.
Fomos escolhidos “para sermos santos e irrepreensíveis diante dele, em amor” (Ef 1.4). A eleição não é só privilégio: é vocação. Por isso a prova de que somos eleitos não está em devassar os conselhos secretos de Deus, mas nos frutos visíveis: fé viva em Cristo, presença do Espírito, crescimento no amor, obediência, santidade de vida (assim ensina Wiley).
A posição deste estudo
Antes da fundação do mundo, Deus decidiu graciosamente que Cristo seria o Salvador e a Cabeça de um povo santo, e nele escolheu a Igreja, predestinando todos os que a ele se unissem para a adoção, a santidade e a herança eterna. Pela graça, mediante a fé, judeus e gentios são incorporados a Cristo e participam pessoalmente dessa eleição. Em suma: Deus não escolheu pecadores para estarem em Cristo à revelia da fé; escolheu eternamente salvar, adotar e santificar todos os que, pela graça, estiverem em Cristo pela fé. Reconhecemos, com respeito, a leitura que vê aqui um decreto incondicional de indivíduos, mas ela não nos parece fazer justiça ao “em Cristo” nem ao “todo aquele que crê” (Jo 3.16). E fica excluído qualquer universalismo: a salvação é real, porém condicionada à união com Cristo pela fé.
Ef 1.4-14; Rm 8.29; 1Pe 1.2; Jo 3.16
Referências: J. Armínio, Works (a eleição fundada em Cristo); J. Wesley, Notas Explicativas sobre Ef 1.4-5,11-12; H. O. Wiley, Christian Theology, cap. 26; B. Abasciano e B. Witherington III (leitura corporativa).
Questão disputada
Poucas cláusulas do Novo Testamento foram tão citadas fora do seu contexto quanto esta: “aquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Ela é o texto-prova clássico de quem sustenta que Deus decretou de modo imutável cada evento do universo. Vale examiná-la com calma.
A tese que estamos examinando: que o versículo 11 afirma um decreto eterno e exaustivo, pelo qual tudo o que acontece — inclusive quem crê e quem não crê, inclusive cada tragédia — foi determinado por Deus antes da fundação do mundo. A pergunta não é se Deus é soberano, o que ninguém aqui discute. A pergunta é se este versículo diz isso.
Argumento 1
A palavra traduzida por “conselho” é boulē (βουλή). É a mesma que Lucas usa ao dizer que “os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram o desígnio de Deus quanto a si mesmos, não tendo sido batizados por João” (Lc 7.30). Se boulē significasse decreto irresistível, essa frase seria impossível de escrever. Some-se Atos 20.27, onde Paulo diz ter anunciado “todo o conselho de Deus” — algo pregável, portanto revelado, e não um decreto secreto; e Atos 2.23, onde a boulē vem emparelhada com a presciência divina. Plano e conhecimento prévio, não determinação bruta.
Argumento 2
O verbo principal é eklērōthēmen: “fomos feitos herança”. É linguagem de aliança, que ecoa Israel como porção do Senhor (Dt 32.9). O versículo trata de quem herda, do que herda e da firmeza dessa herança. Não é uma declaração sobre a mecânica do universo; é uma declaração sobre a segurança do que Deus destinou aos que estão no Filho.
Argumento 3
Como já vimos nesta parte, Paulo diz para o quê os crentes foram predestinados. No versículo 11 é para uma herança. Em nenhum momento ele afirma que Deus predestinou quem viria a crer. A predestinação fixa o que acontecerá com todos os que estão em Cristo — e isso é exatamente o que dá segurança ao crente.
Argumento 4
Os versículos 3 a 14 formam uma única frase no grego. Quem quiser saber como alguém passa a estar no “nele” do versículo 11 não precisa recorrer a um decreto oculto: Paulo responde no versículo 13 — “em quem também vocês, depois de ouvirem a palavra da verdade, o evangelho da salvação de vocês, e nele terem crido, foram selados com o Santo Espírito da promessa”. Ouviram, creram, foram selados. Nessa ordem.
Argumento 5
Deus é descrito como aquele que opera (energeō). Vale ver como Paulo usa esse verbo em outros lugares: Deus opera em nós o poder que ressuscitou Cristo (Ef 1.19-20), opera muito além do que pedimos (Ef 3.20), distribui os dons operando em cada um (1Co 12.6). E, de modo decisivo, Filipenses 2.13: “Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar” — escrito logo depois de “desenvolvam a salvação de vocês com temor e tremor” (Fp 2.12). O operar eficaz de Deus convive, no mesmo parágrafo, com a responsabilidade real do ser humano.
Argumento 6
Aqui é preciso honestidade com o texto. Alguns respondem ao determinismo encolhendo “todas as coisas” até que a expressão signifique apenas o plano redentor. O problema é que Paulo usa a mesma expressão dois versículos antes em sentido amplo: “todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.10). O caminho melhor não é reduzir o escopo, e sim distinguir escopo de modo. A cláusula diz que Deus opera todas as coisas conforme o conselho da sua vontade — afirma que o seu agir é sábio, propositado, fiel e eficaz. Não diz que tudo o que ocorre é aquilo que Deus quis.
A leitura de Wesley
Comentando exatamente esta cláusula, Wesley não nega que haja decreto — ele identifica o seu conteúdo. Escreve que a herança é aquela “para a qual, quando cremos, fomos predestinados”, e define o conselho da vontade divina como “o decreto inalterável: quem crer será salvo”. E acrescenta um argumento que corta dos dois lados: trata-se de uma vontade que não é arbitrária, mas flui da retidão da sua natureza — de outro modo, pergunta ele, que segurança haveria de que fosse a vontade de Deus guardar a sua palavra mesmo com os eleitos?
Notas de John Wesley sobre Ef 1.11
Repare no que essa leitura resolve: o decreto é a regra fixa da salvação, não a lista dos salvos. Deus determinou, de modo imutável e antes da fundação do mundo, que todo aquele que estiver em Cristo pela fé será perdoado, adotado, santificado e glorificado. Essa é a rocha. E é uma rocha que sustenta, em vez de esmagar.
Não limitamos: definimos. Soberania significa que Deus reina com poder absoluto sobre tudo o que existe, e ninguém aqui discute isso. A questão é como esse reinado se exerce. Um rei que precisa determinar cada pensamento dos seus súditos para governar não é mais soberano — é menos, porque não consegue governar seres livres. A soberania que a Escritura descreve é maior: Deus concede liberdade real às criaturas e ainda assim cumpre infalivelmente o seu propósito, respondendo com sabedoria infinita a cada escolha. É a diferença entre um roteirista, que precisa escrever todas as falas, e um enxadrista magistral, que vence contra qualquer lance do adversário sem precisar ditá-lo.
Está, e há. Seria um mau argumento dizer que a palavra “decreto” não aparece no versículo: prothesis (propósito) e boulē (conselho) são exatamente vocabulário de decreto. A discussão nunca foi sobre a existência do decreto, e sim sobre o seu conteúdo. Armínio, aliás, não recusou essa linguagem — reordenou-a. Na sua Declaração de Sentimentos, o primeiro decreto de Deus é nomear Cristo como Mediador; o segundo, receber em graça os que se arrependem e creem; o terceiro, prover suficientemente os meios da graça; e só o quarto diz respeito a salvar as pessoas que Deus previu que creriam e perseverariam. Cristo é o conteúdo do decreto, não o executor de um decreto anterior a ele.
As opções não são apenas duas — ou Deus decreta o mal, ou o mal escapa ao seu governo. Há uma terceira, e é a bíblica: Deus permite que escolhas livres sigam o seu curso e, sendo maior que elas, as supera e as redime. É o que Paulo afirma em Romanos 8.28, quando diz que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. Cooperar não é causar. José disse aos irmãos: “vocês, na verdade, tencionaram o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20) — duas intenções distintas, não uma só. Vale notar que também comentaristas calvinistas cuidadosos reconhecem, ao expor Romanos 8.28, que Deus permite agentes maus agirem e então sobrepõe o seu propósito santo ao que eles fizeram. Nesse ponto a distância entre nós é menor do que o debate costuma sugerir.
Em parte, sim, e convém dizê-lo. O calvinismo cuidadoso distingue decreto de causalidade, e trabalha com noções de concurso divino e decreto permissivo — Deus decreta permitir, sem ser o autor moral do pecado. Nossa objeção não se dirige a essa formulação matizada, e sim ao determinismo duro que a versão popular do ensino produz nos púlpitos e nas redes: a ideia de que Deus escreveu ativamente cada tragédia. Contra essa forma, a Escritura é direta: Deus “não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta” (Tg 1.13), e “nele não há treva nenhuma” (1Jo 1.5).
Em síntese: Efésios 1.11 não fala do controle divino sobre cada partícula do universo. Fala da certeza da herança dos que estão em Cristo, garantida por uma vontade que não é arbitrária, mas flui da retidão do caráter de Deus. O decreto inalterável é este: quem crer será salvo. E é justamente porque essa regra não muda que a nossa segurança não depende de descobrir se estamos numa lista secreta — depende de estarmos, pela fé, no Escolhido.
Um rosário de graças
Paulo enfileira as bênçãos numa sequência maravilhosa. Repare como cada uma nos alcança sem mérito nosso.
Adoção — fomos feitos filhos de Deus. Não por natureza nem por direito: por graça, quando estávamos mortos em delitos, tornados coerdeiros com Cristo (Ef 1.5; Rm 8.17).
Redenção — libertação pelo sangue de Cristo. Éramos escravos do pecado e da morte; ele nos remiu e nos deu perdão (Ef 1.7).
Sabedoria e prudência — a riqueza da graça derramada com sabedoria (para conhecer as coisas como são) e prudência (para agir bem), tudo em Cristo (Ef 1.8).
Revelação do mistério — Deus nos deu a conhecer o seu plano: fazer convergir nele todas as coisas, no céu e na terra (Ef 1.9-10).
Herança — em Cristo fomos feitos herança e recebemos herança, predestinados segundo o propósito daquele que tudo opera (Ef 1.11).
Do versículo 3 ao 13, só nos versículos 8 e 14 não aparece a expressão “nele” ou “em Cristo”. É a assinatura do capítulo: toda bênção se dá, se cumpre e se guarda em Cristo Jesus.
Efésios 1.13-14
“Tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança” (Ef 1.13-14).
No mundo antigo, o selo era marca de propriedade e de autenticidade: garantia que a carta era verdadeira e de quem era. Assim, o Espírito Santo é a prova de que pertencemos a Deus. Ele testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16), dando-nos segurança interior.
E o Espírito é também penhor — as arras, o sinal, a garantia da herança. É antegozo do céu, primícias, o primeiro fruto daquilo que teremos por inteiro na plenitude dos tempos. Como o anel de noivado, é a promessa firme das bodas que virão.
Note a ordem
O selo não dispensa a fé — pressupõe-na: “tendo ouvido… e crido, fostes selados” (Ef 1.13). A graça é primeira, mas ela chama à fé, e é na fé que recebemos o penhor do Espírito.
Ef 1.13-14
Onde continuar. A aula completa sobre Efésios 1, com as seções sobre a cidade de Éfeso, a saudação, as regiões celestiais, as aplicações, os cartões de memorização e a avaliação comentada, está em /efesios-1/. A Parte 3 passa ao texto que o calvinismo considera a sentença do próprio Jesus sobre a questão: João 6.
“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos Profetas: ‘E todos serão ensinados por Deus.’ Portanto, todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim.”João 6.44-45 · NAANota: no grego, helkō, “atrair”, como a própria NAA traduz o mesmo verbo em Jo 12.32.
Texto integral da lição especial João 6, o texto que divide as águas. Leitura prévia recomendada: Jo 5.30-47; Jo 6; Jo 12.20-43; Jo 17.
Para começar
Poucos capítulos da Bíblia foram tão puxados para dentro do debate sobre predestinação quanto João 6.
Quando Jesus diz que o Pai “dá” pessoas a Ele (v.37), que ninguém pode vir se o Pai não o “atrair” (v.44) e que ninguém vem se não lhe for “concedido” pelo Pai (v.65), o leitor calvinista sente que encontrou ali, em três versículos, a espinha dorsal da graça irresistível e da eleição incondicional. E é honesto reconhecer: à primeira vista o texto parece dar razão a ele. Se você já entra no capítulo com a moldura pronta, cada uma dessas três palavras se encaixa como peça de um quebra-cabeça calvinista.
O objetivo desta parte é mostrar que essa moldura não vem do texto, vem de fora dele. E que, lida no contexto do próprio Evangelho de João, começando por João 5 e terminando na oração de João 17, a passagem sustenta com muito mais naturalidade a leitura arminiana e wesleyana: a de que a graça de Deus realmente vai à frente, realmente capacita, realmente é indispensável, mas não anula a responsabilidade de quem ouve nem arrasta ninguém contra a própria vontade.
Vamos por partes.
Parada 1
Todo o peso do capítulo recai sobre três verbos que Jesus usa: o Pai dá (v.37), atrai (v.44) e concede (v.65).
O calvinismo e o arminianismo não discordam sobre a existência desses verbos, discordam sobre três perguntas que o texto não responde de forma explícita e que cada lado responde a partir de pressupostos anteriores:
Quem são as pessoas que estão sendo atraídas?
O que exatamente significa “atrair”?
Em que sentido é verdade que “ninguém pode vir” a Jesus?
Repare que a divergência não está nas palavras de Jesus, está nas respostas que trazemos para dentro delas. O calvinista responde: quem é atraído são os eleitos, ainda incrédulos e espiritualmente mortos; atrair é regenerar por dentro, antes e independentemente da fé; e “ninguém pode vir” significa uma incapacidade total herdada de Adão, que só a regeneração unilateral remove. Dadas essas três respostas, a conclusão calvinista é inevitável. O problema é que nenhuma das três está escrita no capítulo. Elas são pressupostas.
A leitura wesleyana responde de outro modo, e é isso que vamos desenvolver. Mas para respondermos bem, precisamos voltar um capítulo.
Parada 2
Jesus não começou a falar de “vir a Ele” no capítulo 6. Ele já vinha dizendo isso, e as palavras do capítulo 5 preparam o terreno.
“Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, vocês não querem vir a mim para ter vida.” (Jo 5.39-40)
Guarde bem esse “vocês não querem”. Jesus está diante de homens que estudavam as Escrituras com afinco, que buscavam a vida eterna, e que ainda assim não vinham a Ele. E o motivo que Jesus aponta não é uma incapacidade decretada, não é um “vocês não podem porque não foram eleitos”. É “vocês não querem”. A recusa é da vontade deles.
Isso muda tudo. Se a rejeição estivesse fundada num decreto eterno que os deixou de fora, a censura de Jesus seria vazia, quase cruel: por que repreender alguém por não fazer o que Deus soberanamente decidiu que ele jamais poderia fazer? A repreensão só faz sentido moral se eles de fato podiam ter vindo e escolheram não vir.
Repare ainda na ordem que Jesus estabelece: eles precisam vir a Ele para terem vida (Jo 5.40). Não é “primeiro recebam vida, depois venham”. É “venham, para terem vida”. A vida é consequência de vir, não pré-requisito de vir. Segure essa ordem, porque ela vai reaparecer como o ponto decisivo do capítulo 6.
E há uma frase no mesmo discurso que funciona como chave de leitura para tudo o que vem depois:
“Porque, se vocês, de fato, cressem em Moisés, também creriam em mim; pois ele escreveu a meu respeito.” (Jo 5.46)
Aqui está o critério que Jesus mesmo oferece. Quem realmente ouviu Moisés, quem realmente aprendeu com as Escrituras, reconheceria o Filho quando Ele aparecesse. A fé em Moisés e a fé em Cristo estão na mesma linha, são o mesmo movimento de coração diante do mesmo Deus. Quem tinha ouvido o Pai nos profetas viria ao Filho sem dificuldade. Quem não tinha, tropeçaria também no Filho.
Parada 3
O capítulo 6 abre com o milagre da multiplicação dos pães (Jo 6.1-14). Uma multidão come, se farta, e passa a seguir Jesus. Mas Jesus expõe o motivo real daquela procura:
“Em verdade, em verdade lhes digo que vocês estão me procurando não porque viram sinais, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos.” (Jo 6.26)
A multidão do capítulo 6 não é, em grande parte, uma multidão de buscadores sinceros. É uma multidão de barriga cheia. Eles queriam pão, não o Pão. Queriam um rei que resolvesse a fome e talvez expulsasse Roma, não um Messias que falasse de entregar a própria carne. Esse detalhe importa muito para entender quem, no capítulo, resiste e por quê.
Jesus então desloca a conversa da fome física para a fome espiritual e se apresenta como o pão da vida (Jo 6.35). E é dentro desse discurso, para essa audiência específica, que aparecem os versículos difíceis. Não podemos arrancá-los desse chão e transformá-los num tratado abstrato sobre o decreto eterno de Deus sobre toda a humanidade. Jesus está falando com aqueles judeus, naquela circunstância, sobre por que uns O reconhecem e outros O rejeitam.
Parada 4
Antes de chegarmos aos textos que dividem, precisamos ouvir o que Jesus declara abertamente sobre a vontade do Pai:
“De fato, a vontade de meu Pai é que todo aquele que vir o Filho e nele crer tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (Jo 6.40)
“Todo aquele.” A vontade declarada de Deus, dita em voz alta, sem mistério, é que todo aquele que vê e crê tenha vida. Não uma parcela previamente selecionada, não um grupo secreto. A oferta é aberta.
Aqui já surge uma tensão interna para o calvinismo. Se existe uma vontade oculta de Deus que salva só alguns por decreto irresistível, então a vontade declarada em João 6.40 seria uma segunda vontade, mais ampla, que na prática Deus não pretende cumprir para a maioria. O texto wesleyano prefere levar a sério a vontade que Jesus de fato declarou: Deus quer que todo aquele que crê seja salvo, e organizou a salvação em torno do crer. A condição está posta às claras, e é a fé.
Parada 5
Agora sim, os textos centrais. Vamos lê-los juntos:
Jo 6.37
“Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.”
Jo 6.44
“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.”
Nota: no grego, helkō, “atrair”, como a própria NAA traduz o mesmo verbo em Jo 12.32.
Jo 6.65
“E prosseguiu: Por causa disto é que falei para vocês que ninguém poderá vir a mim, se não lhe for concedido pelo Pai.”
Coloque ao lado desses três o versículo que Jesus encaixa exatamente no meio:
“Está escrito nos Profetas: ‘E todos serão ensinados por Deus.’ Portanto, todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim.” (Jo 6.45)
Note a simetria: aqueles que vêm a Cristo são os que o Pai dá (v.37), os que o Pai atrai (v.44), os que ouviram e aprenderam do Pai (v.45), e aqueles a quem é concedido (v.65). Quatro maneiras de descrever o mesmo grupo. E há uma pergunta que resolve boa parte do debate: quem são essas pessoas?
Diante dessa pergunta, o caminho se bifurca.
Os atraídos são incrédulos eleitos. Por causa da depravação total herdada da Queda, eles seriam “pecadores mortos” e “inimigos de Deus”, incapazes de qualquer movimento em direção a Cristo. A atração, então, seria uma regeneração interna e unilateral: Deus muda o coração do eleito, dá-lhe vida nova, e só então esse coração passa a crer. A fé é efeito da regeneração, e a regeneração é obra irresistível de Deus sobre quem Ele secretamente escolheu. Nesse esquema, “ouvir e aprender do Pai” é reinterpretado como sinônimo dessa regeneração secreta.
Os atraídos são os que já andavam com Deus, as ovelhas do Pai, os que criam em Moisés e nos profetas. Jesus mesmo definiu quem são: “todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim” (Jo 6.45). Quem já tinha ouvido e aprendido do Pai não precisava de uma segunda operação secreta para reconhecer o Filho, precisava apenas da revelação do Filho por meio da proclamação. Como Jesus disse no capítulo anterior, “se vocês, de fato, cressem em Moisés, também creriam em mim” (Jo 5.46). Por que alguém que já cria em Moisés precisaria de uma regeneração especial para então crer em Jesus? A atração, nessa leitura, é a mensagem messiânica que o Pai deu ao Filho para pregar, uma mensagem desenhada para ofender o orgulhoso e atrair o humilde.
O ponto que quero destacar é que a palavra “regeneração” não aparece em João 6. Nenhuma vez. O calvinismo importa esse conceito de fora e o instala no coração do texto, e depois insiste que não trouxe nada externo para o capítulo. Mas trouxe. Trouxe justamente a peça que faz o quebra-cabeça fechar do seu jeito.
Parada 6
O versículo 45 é a chave interpretativa que o próprio Jesus coloca na mão do leitor, e por isso merece atenção demorada.
“Está escrito nos Profetas: ‘E todos serão ensinados por Deus.’ Portanto, todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai, esse vem a mim.” (Jo 6.45)
Jesus cita os profetas (a referência é Is 54.13) e define o movimento em duas etapas encadeadas: primeiro a pessoa ouve e aprende do Pai, depois ela vem ao Filho. A vinda ao Filho é o fruto de ter ouvido e aprendido do Pai. E o que é ouvir e aprender do Pai? É buscar as verdades de Deus nas Escrituras, é submeter-se à orientação divina, é aquele estudo diligente que Jesus reconheceu nos judeus de João 5, com uma diferença decisiva: aqui a pessoa não só estuda, ela aprende, quer dizer, se deixa ensinar de verdade e obedece.
Essa é a razão de a atração não ser um raio arbitrário que cai sobre um número fechado de eleitos. A atração passa pelo ouvido e pelo coração de quem se dispôs a ouvir. Deus ensina a todos (“todos serão ensinados por Deus”), e vem ao Filho aquele que de fato ouviu e aprendeu. Os que se recusaram a ouvir Moisés e os profetas, esses tropeçaram no Filho, exatamente como Jesus tinha previsto.
Repare como isso amarra o capítulo 5 com o capítulo 6. Em João 5, os que “não querem vir” (Jo 5.40) são os que não ouviram de verdade o Pai. Em João 6, os que “vêm” são os que ouviram e aprenderam do Pai (Jo 6.45). É a mesma lógica, o mesmo Evangelho, a mesma teologia do começo ao fim.
Parada 7
Chegamos ao ponto em que a leitura wesleyana diz algo que precisa ser dito com todas as letras, porque é aqui que ela se distingue tanto do calvinismo quanto de certas formas mais rasas de arminianismo.
Nós, wesleyanos, não dizemos que o ser humano vem a Cristo pelas próprias forças, como se a graça fosse dispensável e bastasse a boa vontade natural. Não. Levamos a sério o “ninguém pode” de João 6.44. Ninguém, deixado a si mesmo, no puro estado caído, tem em si a capacidade de vir. A vinda depende de Deus ir à frente. O nome que a tradição wesleyana dá a esse ir à frente é graça preveniente, a graça que previne no sentido antigo da palavra, isto é, que vem antes, que precede, que antecipa e capacita.
Foi assim que o próprio João Wesley comentou este versículo:
Está tudo ali, em uma frase. A graça é primeira (ela vai à frente, o ser humano não a inicia). A graça é real (ela dá poder, capacita de fato). E a graça é resistível (fortes e doces moções, mas que se pode resistir). O calvinista acerta ao dizer que a atração é indispensável e sobrenatural. Ele erra ao dizer que ela é irresistível e que age só sobre um número fixo de eleitos. O que Wesley enxerga no texto é uma graça que abre a porta a quem estava trancado, e ainda assim deixa que a pessoa atravesse ou recuse a soleira.
E há um detalhe exegético que sela a questão a favor de Wesley: o verbo grego de João 6.44, helkō (que a NAA traduz por “trouxer” ali e por “atrairei” em Jo 12.32), reaparece em João 12.32, e ali o alcance é universal.
“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim.” (Jo 12.32)
O mesmo atrair que em 6.44 recai sobre as ovelhas fiéis de Israel antes da cruz, em 12.32 se estende a todos depois da cruz. Se “atrair” significasse arrastar irresistivelmente à salvação, então João 12.32 provaria o universalismo, todos seriam salvos, o que nem calvinistas nem arminianos aceitam. Logo, “atrair” não pode significar arrastar irresistivelmente. Significa capacitar, mover, cortejar a vontade de quem ainda pode dizer sim ou não. É precisamente a graça preveniente, oferecida antes a um grupo e depois ao mundo, sempre eficaz para habilitar, nunca coercitiva para forçar.
Aqui, aliás, a leitura wesleyana enriquece o argumento não-calvinista mais comum. Algumas leituras não-calvinistas tomam o “atrair” de João 6 apenas como a mensagem dirigida a quem já era fiel, e deixam a impressão de que essas pessoas já tinham em si a disposição, quase sem necessidade de graça. Wesley não concede isso. Mesmo naqueles judeus fiéis, o que os fez ouvir e aprender do Pai já era graça de Deus operando antes. Ninguém ouve o Pai sem que o Pai primeiro fale e abra o ouvido. A responsabilidade humana é real, mas ela responde a uma graça que sempre chega primeiro. Essa é a marca wesleyana: nem monergismo irresistível, nem semipelagianismo que dispensa a graça, mas graça preveniente que capacita e espera a resposta livre.
Parada 8
O ponto sobre o qual o debate de fato gira é a ordem das coisas.
O calvinismo precisa que a regeneração venha antes da fé, porque só assim o morto pode crer. A leitura wesleyana sustenta a ordem inversa, que é a ordem que as Escrituras de fato apresentam: a graça preveniente capacita, a pessoa crê, e então recebe a vida.
Volte ao que Jesus disse: “vocês não querem vir a mim para ter vida” (Jo 5.40). Vir primeiro, ter vida depois. E o Evangelho de João declara seu próprio propósito exatamente nessa ordem:
“Estes, porém, foram registrados para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida em seu nome.” (Jo 20.31)
“Crendo, tenham vida.” A vida vem por meio do crer, não antes dele. Se a regeneração (que é vida nova) tivesse de vir antes da fé, João estaria sendo desleixado toda vez que fala de “vida” como resultado de crer. Mas João não é desleixado. Ele é consistente: quem crê recebe vida, e não o contrário.
Para salvar esse esquema, o calvinismo é forçado a criar uma distinção artificial: haveria uma “vida” regeneradora anterior à fé, e depois uma “vida eterna” recebida pela fé, como se fossem duas coisas diferentes. Mas a vida regenerada não é justamente vida eterna? Onde o texto separa essas duas vidas? Essa divisão não vem de João, vem da necessidade de encaixar a regeneração antes da fé. Quando o texto precisa ser dobrado para caber na doutrina, é sinal de que a doutrina não saiu do texto.
Vale ainda lembrar como o próprio Calvino tratou João 6.29, “A obra de Deus é esta: que vocês creiam naquele que ele enviou”. Calvino recusou a leitura de que a fé aqui seria um dom irresistivelmente infundido; entendeu que Jesus fala do que Deus requer de nós, não do que Deus produz sozinho dentro de nós, e advertiu que “estão enganados os que inferem daqui que a fé é dom de Deus” nesse sentido mecânico (Calvino, Comentário ao Evangelho de João, ad Jo 6.29). Isto é, nem o pai do calvinismo forçou esse versículo tanto quanto alguns dos seus herdeiros forçam hoje.
Parada 9
Falta responder à terceira pergunta: em que sentido “ninguém pode vir”?
O calvinismo lê “não pode” como uma incapacidade inata, total, herdada de Adão, que atinge todo ser humano desde o nascimento e da qual só a regeneração unilateral liberta. Mas repare no que Jesus diz sobre por que aqueles judeus específicos não podiam crer. João é quem nos explica, mais adiante, citando o mesmo Isaías:
“Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: ‘Cegou os olhos deles e endureceu-lhes o coração, para que não vejam com os olhos, nem entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados.’” (Jo 12.39-40)
Preste atenção na razão. Não está escrito que eles não podiam crer por causa do pecado de Adão. Não está escrito que Deus os criou incapazes desde o ventre. Está escrito que houve um endurecimento, e no fluxo do Evangelho esse endurecimento é resposta à rebeldia persistente deles. Eles se recusaram a ouvir Moisés, se recusaram a ouvir as Escrituras, foram ficando insensíveis, e por fim Jesus passa a lhes falar em parábolas e palavras duras que os fazem tropeçar. O “não podem” deles é um “não podem mais”, resultado de um “não quiseram” repetido.
É o que a tradição chama de endurecimento judicial, e ele tem duas marcas que o distinguem do decreto calvinista. Primeira, é condicional: veio como juízo sobre a incredulidade deles, não como decreto anterior ao nascimento. Segunda, no fundo não é absolutamente irreversível pela graça, tanto que o mesmo Jesus, mesmo aos que não criam, ainda apontava para as obras que fazia como evidência que deveriam considerar:
“Se não faço as obras do meu Pai, não acreditem em mim. Mas, se faço, e vocês não creem em mim, creiam pelo menos nas obras, para que vocês possam saber e compreender que o Pai está em mim e que eu estou no Pai.” (Jo 10.37-38)
Ora, por que Jesus mandaria os incrédulos considerarem as evidências dos milagres se eles fossem absoluta e definitivamente incapazes de qualquer resposta? A própria exortação pressupõe que ainda havia um caminho de volta para quem baixasse a guarda da rebeldia.
E há uma prova externa de que essa incapacidade não é a condição universal de todo ser humano desde Adão: Jesus se volta para os gentios. Se o “não podem ver” fosse apenas a herança adâmica pesando igualmente sobre todos, não faria sentido Jesus contrastar aquele Israel endurecido com as nações que ainda ouviriam. O endurecimento de João 12 diz respeito àquele Israel julgado por sua rebeldia obstinada, não a um decreto genérico contra a humanidade inteira.
Parada 10
Um dos usos mais frequentes de João 6 e João 17 no debate é tratar “aqueles que o Pai me deu” como se fôssemos nós, os cristãos de hoje, os eleitos de todos os tempos. Vale examinar isso com o texto na mão, porque aqui o contexto é implacável.
Siga a linguagem de “dar”. Em João 6.39, Jesus diz: “a vontade de quem me enviou é esta: que eu não perca nenhum de todos os que ele me deu”. Quem são “todos os que me deu”? O próprio João responde, quando conta a prisão de Jesus:
“Ele disse isso para se cumprir a palavra que tinha dito anteriormente: ‘Não perdi nenhum dos que me deste.’” (Jo 18.9)
E o que era esse “perder”, nesse contexto? Não era perder a salvação num sentido abstrato. Era perder para a espada, para a prisão, para a violência daquela noite. Jesus protegeu fisicamente os seus para que a missão fosse cumprida, e o “não perdi nenhum” se refere a eles, os apóstolos, com a única exceção do “filho da perdição” (Jo 17.12), Judas. Ou seja, os “dados” de João 6.39 e João 17 são, em primeiro lugar, aquele grupo concreto dos discípulos que andavam com Jesus.
A oração de João 17 confirma isso de modo que dispensa acrobacia. Depois de orar por eles, Jesus faz a distinção mais clara possível:
“Não peço somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por meio da palavra que eles falarem.” (Jo 17.20)
Esses somos nós. Nós somos os que creem “por meio da palavra deles”, os apóstolos. Jesus separa em duas categorias: “estes” (os dados, os apóstolos) e “aqueles que vierem a crer por meio da palavra deles” (nós). Não podemos ser, ao mesmo tempo, os “dados a Jesus” e os que creem na pregação dos que foram dados a Jesus. As duas coisas se excluem no próprio texto.
Uma varredura honesta do Evangelho mostra que quase todas as vezes em que Jesus fala dos que o Pai “lhe deu”, o alvo é aquele círculo original: João 6.39, 10.29, 17.2, 17.6, 17.9, 17.11, 17.12, 17.24, 18.9. Forçar 6.37 e 6.39 a falarem de nós, entregues a Jesus para que creiamos, é ler o texto a partir de uma necessidade doutrinária, não a partir do seu sentido no contexto original. Isso não nos diminui: nós pertencemos a Cristo, somos suas ovelhas, mas nos tornamos ovelhas ao crer na palavra apostólica, não fomos ovelhas antes de crer. Como Paulo diz, “se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). Nós passamos a ser d’Ele quando cremos, não antes.
Parada 11
Um estudo honesto apresenta o argumento mais forte do outro lado antes de julgar. Vejamos as objeções calvinistas que mais pesam, e como a leitura wesleyana responde. Toque em cada uma para abrir a resposta.
Parada 12
Há um último fio que amarra tudo e que o calvinismo tem dificuldade de explicar. O Evangelho de João fala de duas atrações distintas, e só a leitura wesleyana consegue acomodar as duas sem redundância.
Antes da cruz · Jo 6.44
A primeira é a atração do capítulo 6, antes da cruz, sobre as ovelhas fiéis de Israel, os que já tinham ouvido e aprendido do Pai. A estratégia de Jesus naquele momento não era ainda revelar-se abertamente a todas as nações; foi só depois da ressurreição que Ele mandou pregar o evangelho a toda criatura (Mt 28.18-20). Portanto, no tempo de João 6, Deus não estava atraindo a todos indistintamente, estava atraindo ao Filho os que já eram seus dentro de Israel.
Depois da cruz · Jo 12.32
A segunda é a atração do capítulo 12, depois da cruz, universal: “atrairei todos a mim” (Jo 12.32). Aqui a atração se abre ao mundo, por meio da pregação global do evangelho.
Se a atração de João 6 já fosse a operação irresistível e definitiva que o calvinismo imagina, a atração universal de João 12.32 seria supérflua, uma repetição sem função. Mas nas Escrituras nada é supérfluo. As duas atrações se distinguem porque descrevem dois momentos: primeiro a transferência das ovelhas fiéis de Israel para o Messias (foi disso que João Batista falou ao dizer “convém que ele cresça e que eu diminua”, Jo 3.30), depois a oferta estendida a toda a humanidade a partir da cruz. Uma teologia da graça resistível abriga as duas com folga. A graça irresistível tropeça na segunda.
Síntese
Recolhendo os fios, o quadro que emerge de João 5 a 17 é coerente e inteiro, e é profundamente wesleyano.
Deus vai à frente. Ninguém busca, ouve ou vem sem que a graça preveniente do Pai chegue primeiro, abra o ouvido e mova o coração. O “ninguém pode vir” de João 6.44 é levado a sério, e não relativizado. Mas essa graça capacita sem coagir. Ela é forte e doce, e ainda assim resistível, como Wesley a descreveu. Quem ouve e aprende do Pai vem ao Filho; quem endurece o coração contra o Pai tropeça no Filho, e o endurecimento que se segue é juízo sobre a rebeldia, não decreto anterior ao nascimento.
A ordem é sempre a mesma, e é a ordem que o próprio João declara: crer para ter vida, não receber vida para depois crer (Jo 20.31). A fé, ela mesma resposta à graça, vem antes da regeneração, que é o dom e o privilégio de quem se une a Cristo pela fé, para que Deus venha habitar no crente da nova aliança (1Co 3.16).
E a oferta é aberta. “Todo aquele que vir o Filho e nele crer” (Jo 6.40) tem a vida eterna. Não há um número secreto trancado no decreto de Deus. Há uma vontade declarada em voz alta, uma cruz erguida para atrair a todos, e um evangelho pregado ao mundo inteiro. A salvação continua condicionada à fé em Cristo, essa é a condição que o texto põe às claras, e é por isso que a rejeição de quem ouve e recusa é, de fato, responsabilidade de quem recusa.
Onde continuar. A lição interativa sobre João 6, com cartões, avaliação comentada, reflexões e PDF, está em /joao-6/. A Parte 4 chega ao texto que o calvinismo considera o mais forte de todos: Romanos 9.
“E não pensemos que a palavra de Deus falhou. Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas.”Romanos 9.6 · NAA
Texto integral da palestra Romanos 9: Será que a palavra de Deus falhou?, lendo o capítulo 9 à luz dos capítulos 10 e 11.
Romanos 9 · Introdução
Quero começar esta exposição fazendo com vocês as perguntas que, imagino, já passaram pela cabeça de todo leitor atento do Novo Testamento. Se Jesus é o Messias prometido a Israel, por que a maior parte de Israel não creu nele? Por que a Igreja, em pouquíssimo tempo, passou a ser formada majoritariamente por gentios? Teria Deus voltado atrás nas promessas que fez ao seu povo? E a pergunta que costuma dominar o debate: Romanos 9 ensina que Deus predestinou cada indivíduo, desde a eternidade, para a salvação ou para a perdição?
Essas perguntas são antigas, e não sou eu quem vai fingir que são fáceis. O próprio apóstolo Pedro, falando das cartas de Paulo, reconheceu que nelas “há alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam” (2Pe 3.16). Se Pedro admite a dificuldade, nós faremos bem em nos aproximar de Romanos 9 com humildade, com método e com muita atenção ao contexto.
Antes de abrir o texto, um dado histórico que poucos conhecem e que nos ajuda a relativizar certezas. Durante os primeiros quatro séculos da igreja, nenhum pai da igreja leu Romanos 9 como ensino de eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição. O próprio Agostinho, em seus primeiros escritos sobre Romanos, por volta do ano 394, entendia a eleição com base na fé prevista por Deus. A virada aconteceu em 396, na obra Ad Simplicianum — e mesmo ali tratava-se de uma leitura nova, não da herança recebida da igreja. A dupla predestinação explícita, com decreto para a perdição, só aparece com Gottschalk, no século nove, e seria sistematizada por Calvino no século dezesseis. Isso não decide a questão, é claro; quem decide é o texto. Mas nos lembra de que a leitura determinista é a novidade na história da interpretação, não a regra.
Como vamos ler, então? Proponho seis chaves de leitura que vão nos acompanhar do início ao fim. Primeira: identificar a pergunta real que Paulo está respondendo. Segunda: tratar Romanos 9, 10 e 11 como um bloco único — os capítulos 10 e 11 completam o argumento do capítulo 9. Terceira: ler dentro da mensagem central da carta, que os capítulos 1 a 4 estabelecem: a justiça de Deus mediante a fé. Quarta: examinar o contexto original de cada citação que Paulo faz do Antigo Testamento, porque ele assume que seus leitores conheciam essas passagens. Quinta: deixar que os textos claros iluminem os obscuros, e nunca o contrário. Sexta: lembrar que nenhuma leitura pode transformar o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo num condenador arbitrário.
Romanos 9 · Parte 1
Observem como o capítulo começa. Paulo não abre com uma tese fria; abre com lágrimas:
“Sinto grande tristeza e tenho incessante dor no coração. Porque eu mesmo desejaria ser amaldiçoado, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas segundo a carne.” (Rm 9.2-3)
Parem um instante nessa dor. Se a rejeição de Israel fosse fruto de um decreto eterno e imutável, essa “incessante dor” não faria sentido nenhum: Paulo estaria lamentando a perfeita vontade de Deus. Mais que isso: ele ora pela salvação deles — “o desejo do meu coração e a minha súplica a Deus em favor deles é para que sejam salvos” (Rm 10.1). Ninguém suplica contra um decreto irrevogável. E ele ainda trabalha para provocar ciúmes em Israel, “para que alguns deles se salvem” (Rm 11.14) — um esforço inútil se tudo já estivesse decidido desde a eternidade. A dor, a oração e o esforço missionário de Paulo pressupõem portas abertas, não destinos selados.
Agora, o versículo que enuncia o problema do capítulo inteiro — e que, curiosamente, a leitura calvinista costuma atravessar correndo:
“E não pensemos que a palavra de Deus falhou. Porque nem todos os de Israel são, de fato, israelitas.” (Rm 9.6)
Está aí a tese. O problema de Romanos 9 não é “por que alguns indivíduos creem e outros não”. O problema é outro: se Israel, o povo das promessas, está rejeitando o seu Messias, será que a palavra de Deus falhou? Será que Deus prometeu e não cumpriu? A resposta de Paulo é um sonoro não — e a razão é que a promessa nunca foi para a descendência da carne, mas para a descendência da fé.
Percebam como o ponto de partida decide tudo. Quem pergunta ao texto “por que uns creem e outros não?” acaba inevitavelmente na resposta do decreto secreto que separou eleitos e réprobos — e desemboca no determinismo, em que fé e incredulidade viram meros efeitos de uma escolha já feita. Mas quem ouve a pergunta que Paulo de fato responde — “a palavra de Deus falhou com Israel?” — recebe outra resposta: não falhou, porque a salvação nunca foi por etnia nem por obras, mas pela fé (Rm 9.30-32). A mesma Pedra em que Israel tropeça é a que salva quem nela crê (Rm 9.33) — inclusive o judeu que vier a crer (Rm 11.23).
Qual é, então, a tese de Romanos 9? O capítulo trata da eleição da nação de Israel para um papel histórico e missionário: dela vieram a adoção, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas e o próprio Cristo segundo a carne (Rm 9.4-5). Deus foi justo no tratamento dado a Israel e tem cumprido suas promessas através do remanescente (Rm 9.27; 11.5). E os indivíduos judeus não têm um caminho de salvação distinto dos gentios: todos são salvos pela fé no mesmo Senhor (Rm 10.12-13).
Paulo demonstra que a exclusão de parte da descendência física de Abraão nunca foi novidade: sempre fez parte da história da promessa. Dos filhos de Abraão, só Isaque herdou a promessa — não Ismael (Rm 9.7). Dos filhos de Isaque, só Jacó — não Esaú (Rm 9.10-13). E dentro do próprio Israel, “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Rm 9.6); “o remanescente é que será salvo” (Rm 9.27). A promessa sempre passou por um afunilamento, e o critério desse afunilamento é declarado pelo próprio Paulo: “não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são contados como descendência” (Rm 9.8). Abraão é pai de todos os que creem, quer judeus, quer gentios (Rm 4.11-12, 16). Raabe e Rute, gentias, tornaram-se filhas da promessa pela fé.
Notem que isso não é um assunto novo na carta. Romanos 1 a 4 já havia desmontado tudo aquilo de que o judeu se orgulhava: ser filho natural de Abraão não salva (Mt 3.9), a circuncisão não salva (Rm 2.25-29), as obras da lei não salvam (Rm 3.20). O que salva é a graça de Deus, mediante a fé (Rm 3.24-28), num só caminho para judeus e gentios (Rm 3.29-30). Romanos 9-11 não muda de assunto; aplica essa mesma tese ao caso doloroso de Israel.
Romanos 9 · Parte 2
Vamos agora ao coração da controvérsia. A leitura calvinista de Romanos 9 se apoia essencialmente em quatro versículos: “Amei Jacó, porém desprezei Esaú” (9.13); “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (9.15); “endurece a quem ele quer” (9.18); e “vasos de ira, preparados para a destruição” (9.22). Quero examinar cada um deles com vocês, dentro do contexto — o de Romanos e o do Antigo Testamento de onde Paulo os tirou.
Primeiro detalhe, e é decisivo: Paulo está citando Malaquias 1.2-3, um texto escrito séculos depois da morte dos dois irmãos. No contexto de Malaquias, “Jacó” e “Esaú” são as nações de Israel e Edom — não dois bebês no ventre de Rebeca. E o oráculo original dado a Rebeca já dizia exatamente isso: “Duas nações há no seu ventre, dois povos… e o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23). A leitura nacional não é uma manobra arminiana para escapar do texto; está na própria fonte que Paulo cita. Tanto é assim que o indivíduo Esaú jamais serviu ao indivíduo Jacó — quem serviu a Israel foi a nação de Edom (2Sm 8.14).
Segundo detalhe: o verbo. A Nova Almeida traduz “desprezei”; outras versões trazem “aborreci”. Trata-se do mesmo idiomatismo semítico que Jesus usou: “Se alguém vem a mim e não aborrece pai e mãe… não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26). Ninguém entende que Jesus mandou odiar os pais; o sentido é amar menos, preterir. Foi Esaú, aliás, quem desprezou primeiro o seu direito de primogenitura (Gn 25.34; Hb 12.16), perdendo o privilégio de ser o pai da linhagem do Salvador. E o texto bíblico não afirma a perdição eterna de Esaú — mais tarde ele se mostrou generoso com o irmão (Gn 33), um sinal da graça de Deus em sua vida.
E a ira contra Edom? Obadias declara o motivo, e não é um decreto pré-natal: “por causa da violência feita a teu irmão Jacó” (Ob 1.10-14). A reprovação tem causa moral declarada. Isso se encaixa no que a Escritura ensina sobre o fundamento da eleição: “aos que de antemão conheceu, também os predestinou” (Rm 8.29); “eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.2). A presciência vem antes da predestinação. Deus conhece de antemão quem responderá com fé — e o destino gravita em torno dessa resposta, não de um sorteio eterno.
O segundo texto costuma ser lido como se dissesse: Deus tem misericórdia apenas dos eleitos. Mas o ponto de Paulo é outro. Ele não está restringindo a misericórdia, e sim ampliando-a, para abranger também os gentios: está afirmando a liberdade de Deus para definir o modo de conceder misericórdia: pela fé, e não pela etnia ou pelas obras. Deus não deve nada ao pedigree de ninguém. E o próprio bloco termina dizendo que Deus quer “mostrar a sua misericórdia a todos” (Rm 11.32), que o Senhor é “rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12), e o salmista já cantava: “O SENHOR é bom para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras” (Sl 145.9). Uma misericórdia restrita aos eleitos contradiria os textos claros: “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10.34; Rm 2.11) e “Deus amou o mundo” (Jo 3.16).
E o versículo 16? “Assim, pois, isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (Rm 9.16). Aqui é preciso ler com cuidado. “Querer e correr” designam o esforço e o privilégio humanos — as obras, a etnia, o zelo religioso que Paulo descreverá em Rm 10.2-3. O versículo exclui o mérito; não exclui a fé. A fé é justamente o modo não meritório que a misericórdia de Deus estabeleceu: “por isso, é pela fé, para que seja segundo a graça” (Rm 4.16). Quem duvidar, espere pela conclusão do próprio Paulo no fim do capítulo — nós chegaremos lá.
Vale lembrar ainda o alcance da cruz, porque a leitura restritiva da misericórdia carrega junto uma expiação limitada. A Escritura fala em outra direção: Cristo “a si mesmo se deu em resgate por todos” (1Tm 2.6), e Deus “deseja que todos sejam salvos” (1Tm 2.4); ele é a propiciação “pelos pecados de todo o mundo” (1Jo 2.2); “provou a morte por todos” (Hb 2.9); é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), “o Salvador do mundo” (Jo 4.42). Paulo chega a advertir: “não faças perecer aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14.15) — logo, Cristo morreu também por quem pode perecer. E Deus “não quer que ninguém se perca” (2Pe 3.9), pois não tem prazer na morte do ímpio (Ez 18.23).
O terceiro texto nos leva ao Egito. Notem, primeiro, o que o texto não diz: não diz que Deus endureceu Faraó desde a eternidade. Quando lemos Êxodo com atenção, vemos que nas primeiras pragas é Faraó quem endurece o próprio coração (Êx 8.15; 8.32), ou se diz que o seu coração “se endureceu” (Êx 7.13, 22; 9.7) — e só depois o texto passa a dizer que Deus o endureceu (Êx 9.12). O endurecimento divino opera como entrega judicial, aquele mesmo movimento que Paulo descreveu em Romanos 1: “Deus os entregou” aos desejos dos seus corações (Rm 1.24, 26, 28). Faraó converteu cada manifestação da paciência de Deus em mais resistência — e Deus confirmou essa escolha. Deus endurece a quem quer, sim; e Ele quer endurecer os que persistentemente endurecem a si mesmos.
Sei que alguém vai levantar a objeção, e ela é boa: “mas antes de qualquer praga Deus já tinha dito: eu lhe endurecerei o coração” (Êx 4.21; 7.3). Respondo com duas observações. Primeira: anúncio presciente não é causação. Deus, que conhece o coração, declara de antemão como Faraó reagirá — exatamente como Jesus anunciou de antemão a negação de Pedro (Mc 14.30) sem por isso tê-la causado. Segunda: o instrumento do endurecimento são as próprias manifestações de graça e poder. O mesmo sol que derrete a cera endurece o barro. E há uma prova interna de que o endurecimento não é decreto imutável: a exortação “se, hoje, ouvirem a sua voz, não endureçam o coração” (Hb 3.15) não faria o menor sentido se endurecer ou não endurecer não estivesse ao alcance do ouvinte.
Agora, a ironia fina de Paulo: os judeus aceitavam tranquilamente o endurecimento de Faraó — mas não percebiam que estavam fazendo exatamente o mesmo. Estêvão lhes disse na cara: “vós sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51). E assim como a dureza de Faraó serviu ao Êxodo e à proclamação do nome de Deus em toda a terra (Rm 9.17), a dureza de Israel favoreceu a redenção dos gentios (Rm 11.11). Em ambos os casos, trata-se de papel histórico no plano de Deus — não de destino eterno individual decretado. E fica o aviso: “a quem muito foi dado, muito será exigido” (Lc 12.48). O privilégio de Israel aumentou sua responsabilidade, não sua segurança.
Chegamos à imagem do oleiro. “Será que o oleiro não tem direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9.21). Pergunto a vocês: na Escritura, quem é o barro nas mãos do oleiro? Não é a humanidade em geral, nem cada alma individual — é Israel (Is 29.16; 64.8; Jr 18.6). E aqui está um dos achados mais bonitos deste estudo: os textos que Paulo evoca ensinam exatamente o contrário do determinismo.
Abram comigo Jeremias 18. Deus manda o profeta à casa do oleiro e diz: “Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos, ó casa de Israel” (Jr 18.6). E na sequência explica as regras: se eu decretar arrancar uma nação, e ela se converter da sua maldade, eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe; e se eu decretar edificar uma nação, e ela fizer o que é mau, me arrependerei do bem que dissera fazer-lhe (Jr 18.7-10). Esse vaso tem vontade própria — o vaso que “se estragou na mão do oleiro” (Jr 18.4) não estava sob controle absoluto. Nínive comprova a regra: o decreto anunciado foi revertido pelo arrependimento (Jn 3.10), para frustração de Jonas e alegria de Deus (Jn 4.11). Até Jerusalém sitiada ainda tinha escolha: render-se e viver, ou resistir e arder (Jr 38.17-18). Paulo assumia que seus leitores judeus conheciam esse contexto e captariam a implicação.
E os “vasos de ira, preparados para a destruição” (Rm 9.22)? Aqui um detalhe do texto original muda tudo. Ao falar dos vasos de ira, Paulo diz apenas que estão “prontos” para a destruição, sem dizer quem os deixou assim — o próprio original permite entender que eles mesmos se prepararam. Já ao falar dos vasos de misericórdia, a construção muda por completo: Paulo afirma que foi Deus quem “de antemão preparou” esses vasos para a glória (Rm 9.23), com Deus claramente como o autor. Só nos vasos de misericórdia aparece esse “de antemão”, e só ali Deus é o agente. O silêncio de Paulo a respeito de quem prepara os vasos de ira diz muito: Deus prepara pessoas para a glória; para a destruição, é o próprio ser humano que se prepara, pela incredulidade.
As categorias, além disso, não são gavetas fechadas. Os cristãos de Éfeso eram “por natureza, filhos da ira” — e foram vivificados com Cristo (Ef 2.3-5); passaram de um grupo ao outro. “Se alguém se purificar dessas coisas, será vaso para honra” (2Tm 2.21) — o próprio Paulo trata a categoria como móvel. “Deus não nos destinou para a ira” (1Ts 5.9). E a citação de Oseias, ali mesmo em Romanos 9, prova que as portas se abrem: “Chamarei de meu povo ao que não era meu povo; e de amada à que não era amada” (Rm 9.25, citando Os 2.23). Se “não povo” pode se tornar “meu povo”, as categorias de Romanos 9 são portas que a fé atravessa — foi o que aconteceu com os gentios (Rm 9.24, 30).
E como o próprio Paulo fecha o capítulo? Essa é a pergunta que eu gostaria que vocês nunca mais esquecessem. Ao explicar por que os gentios alcançaram a justiça e Israel não, ele não diz uma só palavra sobre decreto ou reprovação eterna:
“Por quê? Porque não a buscou pela fé, mas como que por obras. Tropeçaram na pedra de tropeço.” (Rm 9.32)
A causa é uma só: fé versus obras. E a promessa segue aberta: “aquele que nela crê não será envergonhado” (Rm 9.33).
Romanos 9 · Parte 3
Se Romanos 9 ensinasse eleição incondicional, o capítulo 10 seria incompreensível. Vejam como ele abre: Paulo suplica a Deus pela salvação de Israel (Rm 10.1) — e só se ora pela salvação de quem pode ser salvo. O diagnóstico que ele dá é preciso: Israel tem “zelo por Deus, porém não com entendimento” (Rm 10.2); “procurando estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitaram à justiça que vem de Deus” (Rm 10.3). O verbo é de recusa ativa, não de incapacidade decretada. “Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4).
E então a porta se escancara: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13). “Não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12). Reparem na linguagem: “todo aquele” é a expressão menos determinista que existe.
Segue-se a lógica missionária: como crerão naquele de quem nada ouviram? Como ouvirão, se não há quem pregue? (Rm 10.14). “E, assim, a fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). A corrente da salvação passa pela pregação, não por um decreto secreto. Se a eleição fosse incondicional, a pregação seria desnecessária para os eleitos e inútil para os demais — e a urgência de Judas, “salvem-nos, arrebatando-os do fogo” (Jd 23), seria descabida. Quando Paulo constata que “nem todos obedeceram ao evangelho” (Rm 10.16), a linguagem é de desobediência responsável, não de exclusão prévia.
E a imagem com que o capítulo termina vale por um tratado: “Todo o dia estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde” (Rm 10.21, citando Is 65.2). Não é um Deus de decretos fechados; é um Deus de braços abertos o dia inteiro — rejeitado por quem não quis. É o mesmo lamento de Jesus sobre a cidade santa: “quantas vezes quis eu reunir os seus filhos… e vocês não quiseram!” (Mt 23.37).
Romanos 9 · Parte 4
O capítulo 11 abre com a pergunta decisiva e a resposta enfática: “Será que Deus rejeitou o seu povo? De modo nenhum!” (Rm 11.1). A primeira prova é o próprio Paulo, israelita e crente. Como nos dias de Elias, Deus reservou para si os fiéis — “sete mil homens que não dobraram os joelhos diante de Baal” (Rm 11.4) —, e “assim também nos dias de hoje sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça” (Rm 11.5). Notem que os sete mil não são descritos como poupados à revelia, mas pela sua fidelidade: eleição da graça e resposta de fé andam juntas. A rejeição, portanto, não é total.
Também não é definitiva. “Será que tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum!” (Rm 11.11). Pela transgressão deles a salvação chegou aos gentios, para provocar ciúmes nos judeus — até a queda é posta a serviço da misericórdia. Paulo glorifica o seu ministério “para ver se… alguns deles se salvem” (Rm 11.14), estratégia absurda sob dupla predestinação, e antevê o “restabelecimento” deles como “vida dentre os mortos” (Rm 11.15).
Na alegoria da oliveira, Paulo nomeia a causa do corte dos ramos naturais, e não é um decreto: “Eles foram quebrados por causa da incredulidade, mas você continua firme mediante a fé” (Rm 11.20). Segue a advertência ao gentio crente: “Não fique orgulhoso, mas tema. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará você” (Rm 11.20-21). E a esperança para os cortados: “se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; pois Deus é poderoso para os enxertar de novo” (Rm 11.23). Corte reversível e enxerto condicional: o contrário exato de destinos selados desde a eternidade.
O versículo 22 merece ser decorado, porque é a condicionalidade explícita dirigida justamente aos “vasos de misericórdia”:
“Considere, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para com você, a bondade de Deus, desde que você permaneça nessa bondade. Do contrário, também você será cortado.” (Rm 11.22)
O “desde que” está no texto. A perseverança na fé é condição real (1Co 9.27; 10.12; Hb 3.14) — mais uma prova de que Romanos 9 não ensinou segurança incondicional de eleitos.
E o desfecho do bloco recolhe tudo. O endurecimento de Israel é “em parte” e dura “até que” entre a plenitude dos gentios (Rm 11.25) — parcial e temporário. “E, assim, todo o Israel será salvo” (Rm 11.26): o destino do povo de Deus está garantido; o de cada indivíduo passa pela fé no Messias, que o insere neste Israel de Deus (Rm 11.23; Gl 6.16). “Quanto à eleição, amados por causa dos patriarcas” (Rm 11.28) — eleição do povo, vocacional, irrevogável (Rm 11.29). E a frase final do argumento: “Deus encerrou todos na desobediência, a fim de mostrar a sua misericórdia a todos” (Rm 11.32). O bloco que começou com vasos de ira termina com misericórdia oferecida a todos — recebida, como toda a carta ensina, mediante a fé.
Se eu tivesse que resumir o bloco numa frase para cada capítulo, diria assim. Romanos 9, o passado: a palavra de Deus não falhou, porque a promessa sempre correu pela linha da fé, não da carne. Romanos 10, o presente: Israel tropeçou por incredulidade, e a fé vem pela pregação — todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Romanos 11, o futuro: rejeição parcial, temporária e reversível; advertência aos enxertados, esperança aos cortados, misericórdia para todos.
Romanos 9 · Parte 5
Quero encerrar a exposição mostrando a vocês que Jesus contou em parábola o mesmo drama que Paulo explicou em doutrina. Na Parábola das Bodas (Mt 22.1-14), um rei preparou as bodas do seu filho e convidou Israel — e “eles não quiseram vir” (Mt 22.3). A recusa é desprezo, não decreto. O convite foi insistente: “enviou ainda outros servos” (Mt 22.4), como o Deus que “todo o dia” estende as mãos (Rm 10.21). Diante da recusa, o convite foi às encruzilhadas, a “maus e bons” (Mt 22.9-10) — e a sala ficou repleta, imagem da plenitude dos gentios (Rm 11.25; At 13.46) e daquela multidão que ninguém podia contar (Ap 7.9).
Os paralelos são ponto a ponto. Israel rejeita o convite (Mt 22.3-6; Rm 9.31-32; 11.20). A causa é o não querer, a incredulidade: “não quiseram vir” (Mt 22.3) corresponde a “não a buscou pela fé” (Rm 9.32). O convite é insistente e universal (Mt 22.4, 9-10; Rm 10.18, 21; 11.32). A fé é a condição para entrar e permanecer — na parábola, a veste nupcial (Mt 22.11-13); na carta, a fé que justifica e sustenta (Rm 10.11-13; 11.20, 22). Há juízo severo sobre o desprezo (Mt 22.7, 13; Rm 11.10, 20-22). E a sala se enche mesmo assim (Mt 22.10; Rm 11.25).
“Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos” (Mt 22.14). Lido no contexto da parábola, o dito é transparente: os escolhidos são os que responderam ao chamado nos termos do Rei — com a veste nupcial da fé. E aqui é preciso precisão teológica: a fé não é mérito que compra a eleição; é a resposta, capacitada pela graça preveniente, ao convite que a graça já fez. “A graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt 2.11); “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12).
Romanos 9 · Conclusão
Depois de percorrer os três capítulos, deixo minha posição explícita, como gosto de fazer. Romanos 9 não ensina eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição; não ensina endurecimento decretado desde a eternidade; não ensina que Deus criou vasos para a destruição; e não oferece segurança incondicional a eleito nenhum — Romanos 11.20-22 adverte exatamente o contrário.
O que o bloco ensina é isto: Deus foi fiel — a promessa sempre correu pela fé, e o remanescente a comprova. A eleição do povo é vocacional e irrevogável (Rm 11.29); a participação de cada indivíduo é condicionada à fé perseverante (Rm 11.22-23; Jo 15.1-6; Mt 24.13). Deus tem misericórdia de todos os que o invocam (Rm 10.12-13) e quer misericórdia para todos (Rm 11.32). Quem crê entra; quem persiste na incredulidade é cortado; quem abandona a incredulidade é reenxertado. É o que chamo de eleição condicional — condicionada não ao mérito, mas à fé que a graça preveniente torna possível.
John Wesley, diante da leitura determinista deste capítulo, disse no sermão Free Grace, de 1739: “Seja lá o que essa Escritura prove, ela jamais poderá provar isso.” Pois tal doutrina faria de Deus um condenador arbitrário — em nada parecido com o Jesus que chorou sobre Jerusalém e disse: “quantas vezes quis eu… e vocês não quiseram!” (Mt 23.37). A salvação é oferecida a todos — e recebida pelos que creem (Jo 1.12).
Romanos 9 · Aplicações
Termino com quatro consequências práticas, porque doutrina que não desce ao chão da vida ainda não foi entendida.
Síntese de Romanos 9
O que o texto não ensina: eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição; endurecimento decretado desde a eternidade; vasos criados para a destruição; segurança incondicional dos “eleitos” (Rm 11.20-22 adverte o contrário).
O que o texto ensina: Deus foi fiel, e a promessa sempre correu pela fé; a eleição do povo é vocacional e irrevogável (Rm 11.29); a participação de cada indivíduo é condicionada à fé perseverante (Rm 11.22-23; Jo 15.1-6; Mt 24.13); Deus tem misericórdia de todos os que o invocam (Rm 10.12-13) e quer a salvação de todos (1Tm 2.4).
Rm 9-11
Onde continuar. O estudo interativo O que Romanos 9 realmente ensina? traz os quatro textos difíceis em sanfonas, a Parábola das Bodas em paralelo, cartões e avaliação; a página da palestra oferece a apresentação em PDF e o texto em Word.
Conclusão · Os três textos lidos juntos
Percorridos os três textos, cada um no seu contexto, o quadro que emerge é coerente. Os textos de prova do calvinismo provam muita coisa; não provam, porém, a predestinação incondicional de indivíduos.
Eles provam que a salvação nasce, do começo ao fim, na iniciativa de Deus. Efésios 1 o diz com “antes da fundação do mundo”; João 6, com “ninguém pode vir se o Pai não o trouxer”; Romanos 9, com “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia”. Nisso o calvinismo tem razão, e a tradição wesleyana concorda sem reservas: nenhum pecador se levanta por conta própria; a graça vai à frente, capacita e chama.
Mas os mesmos três textos dizem, com igual clareza, como essa iniciativa chega a cada pessoa, e é aqui que a leitura calvinista acrescenta o que o texto não diz. Efésios 1 descreve a eleição “em Cristo”, e informa que se entra nele ouvindo e crendo (Ef 1.13). João 6 explica quem vem ao Filho: “todo aquele que ouviu e aprendeu do Pai” (Jo 6.45), e declara a vontade do Pai para “todo aquele que vir o Filho e nele crer” (Jo 6.40). Romanos 9 fecha a própria exposição de Paulo com a razão de Israel não ter alcançado a justiça: “porque não a buscou pela fé” (Rm 9.32). Em nenhum dos três a fé aparece como efeito de um decreto secreto sobre indivíduos; nos três ela aparece como a condição, não meritória e capacitada pela graça, pela qual se participa do que Deus decidiu em Cristo.
Cristo é o Eleito; a Igreja é eleita nele; cada pessoa participa dessa eleição pela união com Cristo mediante a fé (Ef 1.4-13). Romanos 9 mostra a mesma estrutura na história: a promessa sempre correu pela linha da fé, de Isaque ao remanescente (Rm 9.6-8, 27).
Paulo diz para o quê os crentes foram predestinados: adoção, santidade, herança, glória (Ef 1.4-11). Wesley resumiu o decreto inalterável numa frase: quem crer será salvo. A regra não muda; por isso a segurança do crente não depende de devassar uma lista secreta.
O “ninguém pode vir” de João 6.44 é levado a sério: sem a graça preveniente, ninguém vem. Mas o mesmo verbo em João 12.32 alcança “todos”, e o endurecimento de João 12.39-40 é juízo sobre a rebeldia, não decreto anterior ao nascimento.
“Para que, crendo, tenham vida” (Jo 20.31). A fé, resposta à graça, vem antes da regeneração. Efésios 1.13 diz o mesmo na ordem dos verbos: ouviram, creram, foram selados.
Os três textos tratam da formação de um só povo de judeus e gentios em Cristo (Ef 1.12-13; 2.14-18), das ovelhas fiéis de Israel trazidas ao Messias antes da cruz (Jo 6; 17) e da fidelidade de Deus às promessas diante da incredulidade de Israel (Rm 9-11). Não são tratados abstratos sobre o destino de cada alma.
Quando um texto difícil admite duas leituras, prevalece a que não transforma o Pai de Jesus num condenador arbitrário. O Deus que “todo o dia” estende as mãos (Rm 10.21), que chora sobre Jerusalém (Mt 23.37) e que “deseja que todos sejam salvos” (1Tm 2.4) é o mesmo que fala em Efésios 1, João 6 e Romanos 9.
Para continuar
Os três estudos reunidos aqui continuam disponíveis em formato interativo, com cartões de memorização, avaliação com comentário por alternativa e PDF para baixar.
Aula 1 do Estudo de Efésios, com o capítulo inteiro (inclusive as seções sobre a cidade, a saudação e as regiões celestiais, que esta página não reproduz), cartões e avaliação. Veja também a série completa.
Lição especial, com cartões, avaliação comentada, reflexões e PDF.
Estudo interativo com as seis chaves, os quatro textos difíceis em sanfonas, a Parábola das Bodas, cartões e avaliação. A palestra completa traz a apresentação em PDF e o texto em Word.
Os textos do debate, lidos com Armínio e Wesley. Mais de quarenta versículos usados em favor da predestinação incondicional, cada um com a leitura calvinista citada, a leitura armínio-wesleyana e a nota de Wesley. O panorama que complementa este tratado.
John Wesley, A Predestinação Serenamente Considerada (1752). O grande tratado de Wesley contra a predestinação incondicional, com a sua resposta direta a Romanos 9 e a João 6.
Cartas de Wesley contra a predestinação (1782-1783). O lado pastoral da mesma controvérsia.
A Teologia de John Wesley, capítulo 8. Predestinação, graça livre e a universalidade do evangelho, nos 141 sermões.
Sermões do Bispo Ildo, volume 2: Eleição Corporativa e Cristocêntrica · Repensando a “Corrente de Ouro” (Rm 8.28-30) · Considerações sobre o Calvinismo.
Arminianismo e Calvinismo. Os 43 estudos do Bispo sobre o tema, entre eles “A doutrina da eleição”, “Romanos 9.20-21 não é base para a doutrina da predestinação” e “Paralelo entre Romanos 9 e a Parábola das Bodas”.
João Calvino, Institutes of the Christian Religion, trad. Henry Beveridge (1845), livro III, caps. 21-24 · Commentaries on the Epistles of Paul to the Galatians and Ephesians, trad. William Pringle · Commentary on the Gospel according to John, trad. William Pringle · Commentaries on the Epistle of Paul the Apostle to the Romans, trad. John Owen (1849) · Cânones do Sínodo de Dort (1619) e Confissão de Fé de Westminster (1647), texto em Philip Schaff, The Creeds of Christendom, vol. III · C. H. Spurgeon, sermões “Election” (1855), “Human Inability” (1858) e “Jacob and Esau” (1859), New Park Street Pulpit. Todas as obras em domínio público; traduções nossas.
Para casa
Leia de uma vez, na NAA, Efésios 1.3-14, João 5.30 a 6.71 e Romanos 9 a 11, marcando cada ocorrência de “crer”, “fé”, “todo aquele” e “em Cristo”. Depois, releia as citações da Parte 1 e pergunte, texto por texto, se elas dizem o que os versículos dizem.
Continue estudando
Veja o curso de Soteriologia Wesleyana → e os 43 estudos sobre Arminianismo e Calvinismo →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. Citações de autores calvinistas: traduções nossas de edições em domínio público. · Bispo Ildo Mello, Igreja Metodista Livre do Brasil