Por adoração devemos entender a reverência devida ao mais Alto e ao Melhor dos Seres. A palavra “adoração” significa aquele ato de culto religioso que se expressava levando a mão à boca e beijando-a, em sinal da mais alta estima e da mais profunda reverência e sujeição. [N. do T.: Clarke segue a explicação tradicional que liga o latim adoratio a ad os, “à boca”; os etimologistas modernos derivam de ad + orare, “dirigir a palavra, rogar”.] Ela implica uma contemplação apropriada das excelências de Deus, de modo a despertar maravilha e admiração; e da sua bondade e generosidade, de modo a imprimir em nós o senso mais vivo da sua bondade inefável para conosco e da nossa profunda indignidade. Implica o temor mais profundo diante da sua divina Majestade, mesmo ao nos aproximarmos dele com os sentimentos mais fortes de piedade filial; um tremer diante dele enquanto nos alegramos nele; a maior circunspecção em cada ato de culto religioso; a mente inteiramente absorvida no Objeto, enquanto o coração se acha na mais profunda prostração aos seus pés; a alma desligada de toda coisa exterior; nenhum pensamento acolhido que não diga respeito ao ato de culto em que estamos ocupados, nem uma palavra pronunciada em oração ou louvor cujo sentido não seja sentido pelo coração; sem que se permita surgir na mente nenhuma concepção indigna de tal Majestade; a mesma alma adorando em espírito e em verdade; sem que se permita aparecer nenhum descuido de maneiras, nenhuma ousadia de expressão; o corpo prostrado, enquanto a alma, com todas as suas forças e faculdades, adora; nenhum culto só de lábios, nenhum esforço meramente físico admitido; nada sentido, nada visto, senão o Deus supremo e a alma feita pela sua mão e remida pelo seu sangue.
Culto, ou worthship, “reconhecimento do valor”, implica a concepção apropriada que devemos ter de Deus como o grande Governador do céu e da terra, dos anjos e dos homens. [N. do T.: Clarke explica a palavra inglesa worship pela forma antiga worthship, ligada a worth, “valor”.] Como ele é digno, na sua natureza e na administração do seu governo, dos mais altos louvores que podemos oferecer e dos melhores serviços que podemos prestar! Cada ato que praticamos deve dar testemunho do senso que temos da excelência da sua Majestade e da dignidade dos seus atos. “Fala, Senhor, porque o teu servo ouve” (1Sm 3.9) é a linguagem do verdadeiro adorador. Ele procura conhecer a vontade do seu Senhor, para fazer essa vontade. Cada oração é oferecida no espírito de sujeição e obediência, e, na mais profunda humildade, ele espera receber as ordens do seu Senhor celestial e o poder para cumpri-las. Sente que não pode escolher; sabe que o seu Senhor não pode errar. “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10) não é um pedido sem sentido quando sai da sua boca. A sua alma o sente; o seu coração o deseja. A obediência é o elemento em que a sua alma vive, prospera e cresce em felicidade. Aos seus olhos, Deus é digno de toda glória, louvor, domínio e poder, porque não só é a Fonte do ser, mas também a Origem da misericórdia. Ele espera no seu Deus e descobre que esse Deus espera para lhe ser gracioso (cf. Is 30.18). Espera no seu Deus e descobre que esse Deus, que é seu Amigo, se digna ser seu Companheiro pela vida. Por isso o seu coração é firme, e ele não se atemoriza de más notícias (cf. Sl 112.7), porque confia no nome do Senhor. Aproxima-se de Deus em cada ato de culto e tem comunhão com o Pai e o Filho pelo Espírito Santo. É conservado em perfeita paz, porque o seu propósito é firme em Deus, por confiar nele (cf. Is 26.3). Todas as suas faculdades sentem esta verdade: “Tu és o Deus que me vê” (cf. Gn 16.13); e a sua experiência prova que Deus “recompensa os que o buscam” (Hb 11.6).
Se não fosse o culto público, o culto particular logo chegaria ao fim. A ele, sob Deus, a igreja de Cristo deve a sua existência e a sua continuação. Onde não há culto público, não há religião. É por ele que Deus é reconhecido. E ele é o Ser universal, e pela sua bondade e providência todos vivem; por consequência, é dever de toda criatura inteligente reconhecê-lo publicamente e oferecer-lhe o culto que ele mesmo prescreveu na sua palavra.
Os homens mais sábios e melhores sempre sentiram que era seu dever e seu interesse adorar a Deus em público. Assim como nada é mais necessário, nada é mais razoável. Quem reconhece a Deus em todos os seus caminhos pode esperar que todos os seus passos sejam dirigidos (cf. Pv 3.6). O culto público a Deus é uma grande linha divisória entre o ateu e o crente. Quem não participa do culto público ou não tem Deus, ou não tem noção correta do ser dele. E tal pessoa, segundo os rabinos, é um mau vizinho: é perigoso morar perto dele, porque nem ele nem os seus podem estar sob a proteção de Deus. Ninguém deve ser obrigado a frequentar um determinado lugar de culto, mas todos deveriam ser obrigados a frequentar algum. E quem tem algum temor de Deus não terá dificuldade em encontrar um lugar do seu agrado.
Vemos a vasta importância de adorar a Deus segundo a mente dele. Nenhuma sinceridade, nenhuma retidão de intenção pode compensar a negligência de mandamentos positivos dados na revelação divina, quando a revelação é conhecida. Quem traz uma oferta de ação de graças em vez de um sacrifício, enquanto uma oferta pelo pecado está à porta, imita a conduta de Caim e pode esperar ser frustrado do mesmo modo. [N. do T.: Clarke interpreta Gn 4.7, onde a palavra hebraica traduzida por “pecado” também pode significar “oferta pelo pecado”; a NAA diz “o pecado está à porta”.] Leitor, lembre-se de que você tem entrada no Santuário pelo véu, isto é, pela carne dele (cf. Hb 10.19-20); e os que vêm por esse caminho, Deus de modo nenhum os lançará fora (cf. Jo 6.37).
Se a religião de Cristo fosse despojada de tudo o que a política do Estado, o interesse carnal e a superstição grosseira lhe acrescentaram, como pareceria clara e simples, e (não podemos acrescentar?) como pareceria amável e gloriosa! Bem podemos dizer das invenções humanas no culto divino o que alguém disse das pinturas nos vitrais das velhas catedrais: “A sua principal tendência é impedir que a luz entre”. Nadabe e Abiú quiseram prestar culto a Deus não segundo o mandamento dele, mas a seu próprio modo; e Deus não só não recebeu o sacrifício das suas mãos, como, enquanto eles se cercavam das suas próprias faíscas e se aqueciam com o seu próprio fogo, isto receberam da mão do Senhor: deitaram-se em tormentos (cf. Is 50.11); “saiu fogo de diante do Senhor e os consumiu” (Lv 10.2). O que se escreveu acima deve ser entendido das pessoas que fazem uma religião para si mesmas, abandonando a revelação divina; pois, desconhecendo voluntariamente a justiça de Deus, procuram estabelecer a sua própria (cf. Rm 10.3). Isso é uma ofensa grave aos olhos de Deus. Leitor, Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.24). São esses que o Pai procura (cf. Jo 4.23).
Adorar a Deus publicamente é dever de todo ser humano, e ninguém que o negligencie pode ser inocente. Se alguém não consegue o culto público que prefere, frequente o que puder conseguir.