Os remonstrantes · Gouda, 1610
Em janeiro de 1610, menos de três meses depois da morte de Jacó Armínio, um grupo de pastores holandeses que partilhavam as suas convicções reuniu-se em Gouda e assinou um documento dirigido aos Estados da Holanda e da Frísia Ocidental. Era uma “remonstrância”, isto é, uma representação formal em que pediam proteção para o seu ensino; daí o nome de remonstrantes que passaram a ter. O principal redator foi João Uytenbogaert, pastor em Haia e amigo de Armínio.
Os cinco artigos resumem a doutrina que eles defendiam: Deus elegeu em Cristo os que creem e perseveram na fé; Cristo morreu por todos, embora só os crentes desfrutem do perdão; o homem não pode crer nem fazer o bem sem nascer de novo pela graça; essa graça pode ser resistida; e os que estão em Cristo têm, pela graça, poder para vencer, ficando em aberto, até exame mais cuidadoso da Escritura, se podem cair da graça. O Sínodo de Dort (1618-1619) respondeu ponto por ponto, e é dessa resposta que vêm os chamados “cinco pontos do calvinismo”.
A Remonstrância completa tinha ainda um prefácio, cinco artigos negativos, com as doutrinas que os remonstrantes rejeitavam, e uma conclusão. Aqui estão os cinco artigos positivos e a frase final, como Philip Schaff os publicou em 1877, ao lado do texto oficial holandês de 1612 e da tradução latina de Petrus Bertius. A tradução foi feita a partir do inglês de Schaff, conferido com o holandês e o latim; as referências que o quinto artigo traz na margem aparecem como nota.
Que Deus, por um propósito eterno e imutável em Jesus Cristo, seu Filho, antes da fundação do mundo, determinou, dentre a raça humana caída e pecadora, salvar em Cristo, por causa de Cristo e por meio de Cristo aqueles que, pela graça do Espírito Santo, crerem nesse seu Filho Jesus e perseverarem nessa fé e na obediência da fé, por essa mesma graça, até o fim; e, por outro lado, deixar no pecado e debaixo da ira os incorrigíveis e incrédulos, e condená-los como alheios a Cristo, segundo a palavra do evangelho: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36), e segundo também outras passagens da Escritura.
Que, de acordo com isso, Jesus Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todos e por cada um dos homens, de modo que obteve para todos eles, por sua morte na cruz, a redenção e o perdão dos pecados; contudo, que ninguém desfruta de fato desse perdão dos pecados senão o crente, segundo a palavra do Evangelho de João: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). E na Primeira Carta de João: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos próprios, mas também pelos do mundo inteiro” (1Jo 2.2).
Que o homem não tem a fé salvadora [N. do T.: o inglês de Schaff diz aqui “saving grace” (graça salvadora); o texto oficial holandês e a tradução latina, que ele publica ao lado, dizem “fé salvadora”, como confirma o parêntese logo adiante] por si mesmo, nem pela força do seu livre-arbítrio, visto que, no estado de apostasia e de pecado, não pode, de si e por si mesmo, pensar, querer nem fazer coisa alguma que seja verdadeiramente boa (como é, de modo eminente, a fé salvadora); mas que é necessário que ele nasça de novo de Deus, em Cristo, por meio do seu Espírito Santo, e seja renovado no entendimento, na inclinação ou vontade e em todas as suas faculdades, para que possa compreender, pensar, querer e realizar retamente o que é verdadeiramente bom, segundo a palavra de Cristo: “Sem mim vocês não podem fazer nada” (Jo 15.5).
Que essa graça de Deus é o princípio, a continuação e a consumação de todo bem, a tal ponto que o próprio homem regenerado, sem a graça preveniente ou assistente, despertadora, subsequente e cooperante, não pode pensar, querer nem fazer o bem, nem resistir a tentação alguma para o mal; de modo que todas as boas ações ou movimentos que se possam conceber devem ser atribuídos à graça de Deus em Cristo. Quanto ao modo da operação dessa graça, porém, ela não é irresistível, visto que está escrito a respeito de muitos que resistiram ao Espírito Santo (At 7), e em muitos outros lugares.
Que aqueles que estão incorporados a Cristo por uma fé verdadeira, e por isso se tornaram participantes do seu Espírito vivificante, têm por isso pleno poder para lutar contra Satanás, o pecado, o mundo e a sua própria carne, e para alcançar a vitória; entendendo-se bem que isso se dá sempre pela graça assistente do Espírito Santo; e que Jesus Cristo os assiste, por meio do seu Espírito, em todas as tentações, estende-lhes a mão e, desde que estejam prontos para o combate, desejem o seu auxílio e não fiquem inativos, os guarda de cair, de modo que, por nenhuma astúcia ou poder de Satanás, podem ser enganados nem arrancados das mãos de Cristo, segundo a palavra de Cristo: “Ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28). Mas, quanto a saber se eles são capazes, por negligência, de abandonar de novo os primeiros princípios da sua vida em Cristo [1], de voltar outra vez a este presente mundo mau, de se desviar da santa doutrina que lhes foi entregue, de perder a boa consciência e de ficar privados da graça, isso precisa ser determinado com mais precisão a partir da Sagrada Escritura, antes que nós mesmos possamos ensiná-lo com plena convicção das nossas mentes. [2]
Estes artigos, assim expostos e ensinados, os remonstrantes os consideram conformes à Palavra de Deus, próprios para a edificação e, quanto a este assunto, suficientes para a salvação, de modo que não é necessário nem edificante subir mais alto ou descer mais fundo.
[1] Hb 3.6,14; 2Pe 1.10; Jd 3; 1Tm 1.19; Hb 11.13.
[2] As passagens aqui citadas, ou loca probantia (textos de prova), não estão escritas no texto, como as dos artigos anteriores, mas na margem.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Philip Schaff, The Creeds of Christendom, vol. 3 (Nova York, 1877), domínio público, conferida com o texto holandês de 1612 e a tradução latina publicados na mesma obra. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.