John Fletcher · 1775
Ensaio polêmico sobre as doutrinas gêmeas da imperfeição cristã e do purgatório da morte
Sejam perfeitos (Mt 5.48). Todo aquele que for perfeito será como o seu mestre (Lc 6.40). [N. do T.: a NAA traz “bem-instruído”; Fletcher cita a KJV, que diz perfect.] Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens, dê o dinheiro aos pobres (Mt 19.21). JESUS CRISTO.
Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensino segundo a piedade, esse é orgulhoso (1Tm 6.3-4). SÃO PAULO.
Não se deixem enganar por ninguém etc. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo (1Jo 3.7-8). O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1Jo 1.7). Nele não existe pecado (1Jo 3.5). Nisto o amor é aperfeiçoado em nós, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois, assim como ele [a Videira] é, também nós [os ramos] somos neste mundo (1Jo 4.17). SÃO JOÃO.
John William Fletcher (1729-1785) nasceu em Nyon, na Suíça, com o nome de Jean Guillaume de la Fléchère. Na Inglaterra, converteu-se entre os metodistas, foi ordenado na Igreja da Inglaterra e, de 1760 até a morte, foi vigário de Madeley, uma paróquia de mineiros e operários. Era amigo íntimo de John Wesley, que o quis como sucessor e que, quando ele morreu, pregou o sermão fúnebre e escreveu a sua biografia. A santidade da sua vida ficou proverbial entre os metodistas.
Em 1770, uma ata da Conferência Metodista sobre as obras e a salvação provocou a reação de pregadores calvinistas, e Fletcher saiu em defesa de Wesley numa série de escritos que chamou de Freios ao Antinomianismo (1771-1775): freios ao erro de quem, em nome da graça, dispensa a lei e a santidade. Os seus principais adversários foram Walter Shirley, os irmãos Richard e Rowland Hill e Augustus Toplady.
Este Último Freio (1775) fecha a série e trata da perfeição cristã. Fletcher combate duas doutrinas que chama de “gêmeas”: a de que o crente precisa continuar pecando até a morte (a imperfeição cristã) e a de que só a morte o liberta do pecado (o “purgatório da morte”). Contra elas, mostra pelas Escrituras, pela Igreja e pela experiência que a graça de Deus pode purificar o coração nesta vida, pela fé em Cristo. É uma obra polêmica, mas termina em tom de pastor, com quatro palavras dirigidas a quatro tipos de leitor.
A tradução segue a 4ª edição (Londres, 1792), conferida com a edição americana das Obras de Fletcher. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada; quando o argumento depende da palavra “perfeito” da versão inglesa e a NAA diz outra coisa, uma nota do tradutor avisa. Os versos que Fletcher cita, quase todos de hinos de Charles Wesley, aparecem no original e em tradução.
Prefácio
A perfeição cristã e as Escrituras
A melhor maneira de combater as doutrinas da imperfeição cristã e de um purgatório da morte é pôr a doutrina da perfeição cristã sob a devida luz. A perfeição cristã é a maturidade da graça do crente sob o evangelho de Cristo. É absurdo supor que essa perfeição seja sem pecado, se ela for medida pela lei da inocência e da obediência paradisíacas do nosso CRIADOR. Os crentes firmados cumprem a lei evangélica da liberdade do nosso REDENTOR. Enquanto a cumprem, não a transgridem, isto é, (falando SEGUNDO O EVANGELHO) NÃO PECAM.
Seção IICalvinistas piedosos tiveram, ÀS VEZES, quase as mesmas ideias que nós sobre a perfeição cristã. Divergem de nós principalmente porque confundem a lei antievangélica da inocência com a lei evangélica da liberdade, a pecabilidade com o pecado, a perfeição adâmica com a perfeição cristã; e porque não consideram que a perfeição cristã, ficando infinitamente aquém da perfeição ABSOLUTA de Deus, admite um CRESCIMENTO diário; que os anjos têm as suas “falhas” no céu; e que Cristo teve as suas fraquezas inocentes na terra.
Seção IIIVárias objeções levantadas contra a nossa doutrina se resolvem simplesmente com a consideração da natureza da perfeição cristã. É absurdo dizer que toda a nossa perfeição cristã está na pessoa de Cristo.
Seção IVO primeiro argumento do sr. Hill contra a perfeição cristã é tirado dos artigos IX e XV da Igreja da Inglaterra. Esses artigos, bem entendidos, não são contrários a essa doutrina. Treze argumentos provam que a nossa Igreja a sustenta. Ela se opõe à perfeição farisaica, e não à perfeição cristã. Apresentam-se oito razões para mostrar que é absurdo abraçar a doutrina de um purgatório da morte só porque os nossos reformadores e mártires, ao buscarem a perfeição da humildade, usaram algumas expressões descuidadas que parecem pesar contra a doutrina da perfeição cristã.
Seção VO sr. Hill dá a entender que os apóstolos eram imperfeccionistas. São Pedro e são Tiago, longe de defender um purgatório da morte, tomam a defesa da perfeição cristã.
Seção VISão Paulo pregou a perfeição cristã e declarou tê-la alcançado. Visão dos diferentes tipos de perfeição que pertencem às diferentes dispensações da graça e da glória. Como são Paulo podia declarar uma perfeição cristã de fé e de amor e, ainda assim, afirmar que não havia alcançado a sua perfeição de sofrimentos, e muito menos a sua perfeição de conhecimento e de glória. A imperfeição do santo Menino Jesus em conhecimento e em sofrimento, e o seu crescimento em sabedoria e estatura e em graça diante de Deus e dos homens, eram inteiramente compatíveis com a sua perfeição de amor humilde.
Seção VIISão Paulo não era dominado por desejos pecaminosos, nem carnal, nem vendido à escravidão do pecado. O verdadeiro sentido de Gl 5.17 e de Rm 7.14 etc. é exposto de modo coerente com o contexto, com o propósito das epístolas aos Gálatas e aos Romanos, com os privilégios dos cristãos e com a doutrina da perfeição.
Seção VIIIResposta aos argumentos com que geralmente se defende a suposta carnalidade de são Paulo.
Seção IXSão Paulo, em vez de confessar-se homem carnal, ainda vendido à escravidão do pecado, nos apresenta um retrato notável do cristão perfeito, ao descrever de vez em quando a sua própria espiritualidade e a sua mente voltada para o céu. Por isso, as suas experiências autênticas são outras tantas provas de que a perfeição cristã é alcançável e de fato já foi alcançada nesta vida. O que santo Agostinho e o rev. sr. Whitefield pensaram, em certa época, de Romanos 7. E quanto este último teólogo e o rev. sr. Romaine às vezes se aproximam da doutrina da perfeição cristã.
Argumentos e objeções
Quatro palavras pastorais
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.