John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção XV
O sr. HILL objeta que a doutrina da perfeição cristã é PAPISTA; e o autor mostra que ela é verdadeiramente evangélica e está inseparavelmente ligada à obediência cordial exigida pelas leis mediadoras de Moisés e de Cristo, de tal modo que não há absolutamente nenhum meio-termo entre a doutrina de uma perfeição sem pecado no sentido evangélico e o antinomianismo sem lei. Esta seção contém uma recapitulação das provas bíblicas da doutrina sustentada nestas folhas; por isso, recomenda-se humildemente ao leitor que a leia com atenção.
TENDO-ME despedido do engenhoso autor de O conflito peculiar do cristão, volto ao sr. Hill, que a esta altura vem ao meu encontro com o seu Exame na mão e, com essa funda teológica, atira contra a nossa doutrina uma pedra que de fato tem assustado milhares de almas fracas, mas nunca fez estrago algum entre os judiciosos. A doutrina de vocês, diz ele, “é uma doutrina papista”; e poderia ter acrescentado, com igual razão, que é também uma doutrina pelagiana. Pois, por mais ousados que os pelagianos e alguns papas tenham sido em cunhar doutrinas novas, nunca chegaram a tal grau de ousadia que dissessem ser os autores da doutrina da obediência evangélica e daqueles mandamentos que nos obrigam a amar a Deus (o nosso Deus da aliança) de todo o coração, e ao próximo como a nós mesmos. Preciosos mandamentos do evangelho são estes, sobre os quais a doutrina da perfeição repousa com segurança!
Que papa foi jamais tão tolo a ponto de pretender ter escrito o livro de Deuteronômio, onde encontramos esta doce lei evangélica: Escute, Israel: Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força. Estas palavras que hoje lhe ordeno estarão no seu coração [para que você as cumpra, suponho, e não para que as ridicularize sob os nomes de perfeição e de papismo?] (Dt 6.5-6). Ora, com que argumento o sr. Hill provará que o papa é o inventor dessa bendita doutrina?
Se aquele senhor responder que, quando Deus deu ao seu antigo povo essa graciosa lei de perfeição, não a deu com a intenção de que eles a guardassem pessoalmente como lei evangélica, mas só com a intenção de levá-los ao Messias prometido, que havia de guardá-la por eles e de dar indulgências eternas a todos os crentes que a quebram, exigimos uma prova; e, até que o sr. Hill a apresente, mostramos o seu engano com os argumentos seguintes. (1.) Embora a dispensação judaica revelasse aos pecadores que voltavam, e que com arrependimento se apegavam à sua aliança judaica, um Deus compassivo e bondoso, grande em misericórdia e fidelidade, que perdoa a maldade, a transgressão e o pecado (Êx 34.6-7), contudo, se bem me lembro, ela nunca prometeu aceitar uma obediência prestada por outro. É por isso que Deus nunca ordenou que as mulheres judias fossem circuncidadas, mas restringiu a sua ordenança aos homens, os únicos que podiam obedecer a ela pessoalmente. Lemos com frequência sobre sofrimentos vicários no evangelho judaico, mas não sobre obediência vicária e amor vicário. Pois, embora a obediência de pais piedosos levasse Deus a conceder muitas bênçãos aos seus filhos, os filhos tinham de obedecer por si mesmos, ou seriam eliminados no fim. Os judeus foram arruinados pela presunção da doutrina contrária e por noções extravagantes acerca da obediência de Abraão e da santidade do templo, que eles imaginavam ser-lhes imputadas à maneira calvinista. E um engano semelhante, é de temer, ainda arruína multidões de cristãos, que se enganam fatalmente quanto à obediência cristã, vestem absurdamente as vestes de uma justiça imputada a si mesmos e enlameiam temerariamente as vestes da obediência pessoal e evangelicamente perfeita que Deus exige de cada um de nós.
(2.) O engano que exponho jamais teria sido cometido pelos nossos opositores se eles não se tivessem acostumado a arrancar do contexto a parte evangelicamente legal das Escrituras, para lhe dar um sentido contrário ao dos escritores sagrados. Pois é certo que, depois de arrancar a língua da boca de um homem, você pode enfiá-la depois pela garganta dele abaixo e deixá-la ali, com a raiz contra os dentes e a ponta voltada para o estômago. É assim que é tratado o preceito do amor perfeito, que citei de Deuteronômio 6, todas as vezes que os nossos opositores insinuam que Deus não pretendia que os crentes judeus o observassem pessoalmente como condição da aceitação final, mas apenas que fossem levados por ele ao Mediador, que amaria a Deus perfeitamente por eles. Para mostrar isso, para mostrar, digo, o absurdo dessa noção, basta-nos fazer justiça a Moisés e ouvi-lo até o fim. Leia qualquer pessoa sem preconceito o capítulo inteiro e ela ficará, estou convencido, contra a imputação calvinista de uma perfeição judaica aos crentes judeus. Moisés começa dizendo: São estes os mandamentos… que o Senhor, seu Deus [de vocês, por meio de uma aliança evangélica], ordenou que fossem ensinados a vocês, para que vocês os cumprissem [e não para que o seu Mediador os cumprisse por vocês] (Dt 6.1). Dois versículos depois, ele acrescenta: Escute, Israel, e tenha o cuidado de cumprir [não: escute, Israel, e outro terá o cuidado de cumprir por você] esses mandamentos, para que tudo lhes corra bem (Dt 6.3). Vem então a nossa doutrina e o nosso preceito capital do amor perfeito, que Moisés, poucos versículos abaixo, continua a inculcar assim: Não ponham à prova o Senhor, seu [da aliança] Deus… Guardem cuidadosamente os [evangélicos] mandamentos do Senhor, seu [da aliança] Deus, e os seus testemunhos [do evangelho] que ele lhes ordenou. Façam o que é reto e bom aos olhos do Senhor, seu Deus, para que tudo lhes vá bem… Quando, no futuro, os seus filhos perguntarem: Que significam estes estatutos [do amor perfeito etc.]? vocês dirão a eles: Nós éramos escravos de Faraó, no Egito, mas o Senhor nos tirou de lá (Dt 6.16-21). E, para que mãos antinomianas não arranquem o prego de ouro desta obediência perfeita por falta de ter sido bem rebitado, este precioso capítulo, que a nossa Igreja com acerto escolheu para leitura de domingo, termina com estas palavras, que devem fazer subir o rubor ao rosto, ou levar a convicção ao peito, de todos os que pisam aos pés as vestes da nossa própria perfeição evangélica: O Senhor nos ordenou que cumpríssemos todos estes estatutos… para nos preservar a vida… E será justiça para nós [a nossa perfeição do evangelho], quando tivermos cuidado de cumprir todos estes mandamentos diante do Senhor, nosso [da aliança] Deus, como ele nos ordenou (Dt 6.1-25).
Se os nossos opositores disserem que isto é uma cópia da lei de Adão, contrária à mediação, da perfeição paradisíaca, e não uma cópia da lei mediadora de Moisés, da perfeição judaica; ou se afirmarem que Moisés, à maneira calvinista, dá a entender que os judeus haviam de guardar essa lei por procuração, podem igualmente dizer que a luz é trevas. E, se admitirem que Moisés não era nenhum trapaceiro antinomiano, mas que realmente queria dizer o que falou e escreveu, segue-se inevitavelmente: (1.) que Deus realmente exigia de cada judeu uma perfeição de amor evangélica e pessoal, segundo o grau de luz e de poder concedido sob a dispensação judaica; (2.) que essa perfeição de amor evangélica e judaica estava ao alcance de todo judeu sincero, porque tudo o que Deus exige de nós numa aliança de graça, ele graciosamente se compromete a ajudar-nos a cumprir, se abraçarmos com fé e obediência a assistência que ele prometeu; e (3.) que, se uma perfeição de amor evangélica estava ao alcance sob o evangelho judaico [pois as boas-novas foram anunciadas aos judeus exatamente como a nós, embora não com tanta clareza (Hb 4.2)], é absurdo afirmar que o evangelho de Cristo exija menos perfeição, ou tome menos providências para que os cristãos alcancem aquilo a que a sua dispensação os chama. [N. do T.: o inglês diz literalmente “negar que … exija menos perfeição”; traduzido pelo sentido evidente.]
Se o sr. Hill julga que esta conclusão não é justa, remeto-o à declaração do nosso Senhor: Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir: primeiro, obedecendo eu mesmo perfeitamente aos dois grandes preceitos morais de Moisés e dos profetas; e, depois, ensinando e ajudando todos os meus discípulos fiéis a fazer o mesmo (Mt 5.17). Se aquele senhor objetar à última parte deste pequeno comentário, porque não deixa lugar para a imputação calvinista da perfeição mediadora de Cristo aos crentes caídos que dormem na impenitência, sob a culpa de um adultério encoberto por um homicídio, respondemos que essa parte da nossa exposição, longe de ser forçada, concorda muito bem com o texto, quando ele é tomado em ligação com o propósito do sermão do nosso Senhor e com o contexto. Pois:
(1.) Todos os sermões de Cristo, e em especial o do monte, inculcam a doutrina da perfeição pessoal, e não a doutrina da perfeição imputada. (2.) O próprio capítulo de onde se tira este texto termina com estas palavras: Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu (Mt 5.48). E o sr. Hill, por mais prevenido que esteja contra a nossa doutrina, é franco demais para afirmar que o nosso Senhor quis dizer: “Sejam perfeitos como o seu Pai celestial é perfeito.” “Ora, ele só é perfeito pela imputação calvinista da minha justiça: é meramente por imputação que ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons. E ele só faz vir uma chuva imputada à maneira calvinista sobre justos e injustos (Mt 5.45). Portanto, sejam perfeitos somente pela imputação da minha justiça perfeita.”
O engano do sr. Hill não só não tem apoio algum na parte mais distante do contexto, mas é frontalmente contrário às palavras que vêm logo depois do texto em debate. Porque em verdade lhes digo [que, longe de ter vindo revogar a Lei e os Profetas, isto é, a espiritualidade e o rigor da parte moral do evangelho judaico]: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da Lei [que as glosas farisaicas enfraqueceram], até que tudo se cumpra. [E, para que vocês não pensem que falo de cumprirem esta lei por procuração e por imputação, acrescento:] Aquele, pois, que desrespeitar um destes mandamentos [que vou impor a vocês como a minha própria lei mediadora, embora até agora vocês os tenham considerado apenas como a lei mediadora de Moisés], aquele, digo, que desrespeitar um destes mandamentos, ainda que dos menores, e [por preceito e exemplo] ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado mínimo no Reino dos Céus [se tiver algum lugar entre o meu povo no meu reino espiritual, será apenas entre as minhas crianças carnais, que são os menores dos meus súditos]; aquele, porém, que os observar e ensinar [os mandamentos cuja espiritualidade vou afirmar], esse será considerado grande no Reino dos Céus [será um cristão adulto e perfeito no reino da minha graça aqui; e receberá uma coroa de justiça proporcional no reino da minha glória no porvir] (Mt 5.18-19).
Se não me engano, destas palavras claras de Cristo segue-se evidentemente: (1.) que ele ensinou uma perfeição pessoal, e também uma perfeição sem pecado no sentido evangélico; (2.) que essa perfeição consiste em não quebrar, por omissão voluntária, o menor dos mandamentos que o nosso Senhor resgatou tanto das falsas glosas dos fariseus antinomianos, que descansavam na justiça imputada de Abraão, dizendo: “Temos por pai Abraão (Mt 3.9); somos filhos de Abraão; somos perfeitos em Abraão; toda a nossa perfeição está em Abraão”, como das glosas não menos falsas daqueles fariseus absurdamente legalistas que davam o dízimo do endro, da hortelã e do cominho com o maior escrúpulo, enquanto em segredo desprezavam a misericórdia, a verdade e o amor de Deus (cf. Mt 23.23); e (3.) que a perfeição que Cristo impôs aos seus discípulos não era apenas de natureza negativa, mas também positiva, visto que consistia tanto em praticar como em ensinar os menores, bem como os maiores, mandamentos de Deus.
Se você perguntar quais são os maiores desses mandamentos, que Cristo diz que os seus discípulos devem “observar e ensinar”, se quiserem ser grandes, ou perfeitos, no seu reino e na sua dispensação, são Mateus responde: Um dos fariseus, intérprete da Lei, perguntou-lhe: Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? (o nome dado então ao evangelho judaico que Moisés pregava). Jesus respondeu: Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este [em natureza e importância], é: Ame o seu próximo como você ama a si mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22.35-40). Isto é: tudo o que Moisés e os outros profetas ensinaram e prometeram pende do prego do amor perfeito. Tudo veio do amor perfeito, tudo tendia ao amor perfeito sob a dispensação judaica; e a minha dispensação não é menos santa nem menos graciosa. Pelo contrário, aquilo que a lei não podia fazer de modo suficientemente perfeito para a minha dispensação (pois a perfeição judaica não é a mais alta perfeição a que o homem pode chegar na terra), Deus fez, enviando-me ao mundo para a expiação e a destruição do pecado; e assim condenou abundantemente o pecado na carne, a fim de que a exigência da lei mediadora, que ordena o amor perfeito, se cumprisse abundantemente nos corações daqueles que vivem segundo o Espírito do meu evangelho (Rm 8.3-4). Evangelho mais luminoso é este, que transmite raios mais diretos e mais quentes do Sol da justiça e pode elevar o fruto, extremamente delicioso, do amor perfeito a uma perfeição maior do que o evangelho que Moisés pregava. [Compare Rm 8.3 com Hb 4.2. Veja também a exposição da superioridade do evangelho de Cristo na Balança das Escrituras, seção VI.]
De acordo com esta doutrina da perfeição, o nosso Senhor disse ao jovem rico: Se você quer entrar na vida, guarde os mandamentos (Mt 19.17). Se você quer ser perfeito, … siga-me (Mt 19.21) no caminho dos meus mandamentos: Ame a Deus de todo o seu coração, e o seu próximo como a si mesmo; pois bem-aventurados aqueles que praticam os seus mandamentos, para que entrem na cidade pelos portões e tenham direito à árvore da vida, que está no meio da praça daquela cidade, de um e de outro lado do puro rio da água da vida (Ap 22.14, 2, 1). [N. do T.: em Ap 22.14, a NAA traz “lavam as suas vestes”, onde a versão inglesa citada por Fletcher traz “praticam os seus mandamentos”.] Faça isto e você viverá (Lc 10.28) eternamente no céu. Produza frutos que cheguem à perfeição, segundo os talentos de graça e de poder que lhe foram confiados, e você herdará a vida eterna; você receberá a recompensa da herança (Cl 3.24); você receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam (Tg 1.12), com o amor que guarda os mandamentos e cumpre a lei régia (cf. Tg 2.8). Compare Mt 19.17; Lc 10.28; Ap 22.2,14; Tg 1.12 e Lc 8.14. [N. do T.: em Lc 8.14, onde a versão inglesa usada por Fletcher diz que os frutos não chegam “à perfeição”, a NAA traz “os seus frutos não chegam a amadurecer”.]
Sobre estas passagens e as Escrituras mencionadas acima apoiamos a verdade e a importância da doutrina da perfeição. A perfeição judaica se mantém ou cai principalmente com Deuteronômio 6 e Mateus 22; e a perfeição cristã, com Mateus 5 e 19, aos quais você pode acrescentar o testemunho conjunto de são Paulo e são Tiago. O primeiro, a quem os nossos opositores, de modo absurdo, fazem capitão da sua imperfeição, diz aos gálatas judaizantes: Levem as cargas uns dos outros [raro exemplo de amor perfeito!] e, assim, estarão cumprindo a lei [mediadora] de Cristo (Gl 6.2). E não diga o sr. Hill que o apóstolo quer dizer que devemos cumpri-la por procuração; pois são Paulo acrescenta, dois versículos adiante: Mas que cada um examine o seu próprio modo de agir e, então, [quanto a esse modo de agir] terá motivo de gloriar-se unicamente em si e não em outro. Porque [quanto à obediência pessoal e evangélica] cada um levará o seu próprio fardo (Gl 6.4-5). É uma expressão proverbial, que corresponde a este axioma do evangelho: Cada um será julgado segundo as suas próprias obras (cf. Ap 20.13).
São Paulo insiste na mesma doutrina evangélica e conforme à lei junto aos romanos: … o amor de uns para com os outros. Pois quem ama o próximo cumpre a lei. Pois estes mandamentos: “Não cometa adultério”, … “não cobice”, e qualquer outro mandamento que houver, todos se resumem nesta palavra: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.” … O cumprimento da lei é o amor (Rm 13.8-10). E que são Paulo falou isso da lei mediadora da liberdade e da perfeição cristã, e não da lei da inocência, sem Cristo, e da perfeição paradisíaca, fica evidente por ele chamá-la de a lei de Cristo, isto é, a lei do nosso Redentor, em oposição à lei do nosso Criador, que foi dada sem sacrifício expiatório e sem sacerdote mediador e, por isso, não fazia concessão alguma às fraquezas nem admitia arrependimento ou obediência renovada. Além disso, são Paulo não era tão novato que não soubesse que os gálatas e os romanos, que todos pecaram, como ele observa (Rm 3.23), jamais poderiam ser exortados por alguém em seu juízo perfeito a cumprir a lei paradisíaca da inocência agora, amando-se uns aos outros. Ele falava, portanto, sem dúvida alguma, da lei graciosa do nosso manso Melquisedeque, a lei daquele que disse: Eu lhes dou um novo mandamento: que vocês amem uns aos outros. Assim como eu os amei, que também vocês amem uns aos outros (Jo 13.34). Precioso mandamento este, que nosso Senhor chama de novo, não porque o mediador judeu não o tivesse dado aos israelitas, mas porque o mediador cristão o reforçou com novos motivos, deu novos e incomparáveis exemplos de obediência a ele, ligou novas recompensas à sua observância e exigiu que fosse cumprido com uma nova perfeição. E que os cristãos serão eternamente salvos ou condenados conforme guardarem ou quebrarem esta lei mediadora da perfeição cristã, esta lei de Cristo, esta lei régia de Jesus, o Rei dos judeus, nós o provamos por estas passagens (Mt 18.35; 7.26; 25.45; Lc 6.46 etc.).
Se os preconceitos do sr. Hill não forem removidos pelo que são Paulo diz em Romanos 13 sobre cumprirmos a lei evangélica da perfeição, rogamos-lhe que pondere o glorioso testemunho que o apóstolo, em Romanos 2, dá a esta lei, a qual ele não hesita em chamar de o seu evangelho. Quanto a esta graciosa regra de juízo, diz ele: Deus não trata as pessoas com parcialidade. Assim, todos os que pecaram sem lei [escrita de um mediador] também sem lei [escrita de um mediador] perecerão; e todos os que pecaram sob a lei [escrita de um mediador] serão julgados pela lei [escrita do mediador]. Porque justos diante de Deus não são aqueles que somente ouvem a lei [do mediador], mas os que praticam a lei [do mediador] é que serão justificados. [E os pagãos não estão totalmente desprovidos desta lei:] Quando, pois, os gentios, que não têm a lei [escrita do mediador], fazem, por natureza [pela consciência natural, que é o eco da voz do mediador e o reflexo da luz que ilumina todo homem que vem ao mundo], quando os gentios, digo, fazem [por esse meio] o que a lei [do mediador] ordena, eles se tornam lei [do mediador] para si mesmos, embora não tenham a lei [do mediador]; o que é confirmado pela consciência deles e pelos seus pensamentos [em consequência desse testemunho] conflitantes, que às vezes os acusam e às vezes os defendem, no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos das pessoas, de acordo com o meu evangelho [isto é, de acordo com a lei evangélica que eu prego] (Rm 2.11-16). Pois, enquanto uns ajuntam tesouros no céu (Mt 6.20), outros acumulam contra si mesmos ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus, que retribuirá a cada um segundo as suas obras: [ele retribuirá] a vida eterna [como juiz justo e gracioso recompensador dos que o buscam diligentemente (cf. Hb 11.6)] aos que, perseverando em fazer o bem [ou em guardar a lei do mediador segundo a sua dispensação], procuram glória; mas [retribuirá] ira e indignação para os que desobedecem à verdade e obedecem à injustiça [em justa proporção às revelações mais ou menos claras da verdade que lhes tiverem sido feitas] (Rm 2.5-8). Pois aquele servo que [claramente] conheceu a vontade de seu senhor [por uma lei escrita, entregue pelas mãos de um mediador] e não se aprontou [para ter confiança no dia do juízo], nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites [no inferno dos judeus incrédulos e dos cristãos desobedientes]. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor [por uma lei escrita exteriormente] e fez [isto é, transgrediu a lei da natureza, desobedeceu à voz da sua consciência e praticou] coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido (Lc 12.47-48). Prova indubitável esta de que, assim como algo é exigido de todos, algo também, a saber, um talento de graça, uma medida da luz espiritual que ilumina todo homem, é dado a todos para que o façam render e deem fruto até a perfeição: uns a trinta, outros a sessenta e outros a cem por um (cf. Mt 13.23), conforme as suas respectivas dispensações.
Destas citações nos parece indubitável que o evangelho de são Paulo e, por consequência, o evangelho de Cristo não é um evangelho devasso e sem lei, mas um evangelho santo e conforme à lei, no qual as promessas evangélicas são devidamente resguardadas por regras evangélicas de juízo, e as doutrinas da graça estão sabiamente ligadas às doutrinas da justiça. Se isto é uma verdade manifesta, que jogo perigoso jogam muitos homens bons quando mutilam o evangelho de são Paulo e, com temeridade antinomiana, cortam e lançam fora aquela parte moralmente legal dele que o distingue tanto do evangelho cerimonial, que os gálatas insensatamente abraçaram, quanto do evangelho sem lei, pelo qual lutam os pregadores do evangelho solifidianos, sob o nome pervertido de graça livre! E com que seriedade todos nós devemos considerar estas palavras terríveis de são Paulo: Há alguns que estão perturbando vocês e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu pregue a vocês um evangelho diferente [seja um evangelho judaizante mais severo, seja um evangelho solifidianizante menos estrito] daquele que temos pregado [o qual fica a igual distância das pesadas cerimônias judaicas e das doutrinas solifidianas sem lei], que esse seja anátema (Gl 1.7-8).
Esta recapitulação das principais provas bíblicas da nossa doutrina ficaria muitíssimo incompleta se eu não lembrasse ao leitor, mais uma vez, o glorioso testemunho que são Tiago dá à lei da liberdade: Se vocês [crentes, diz ele], de fato, observam a lei do Reino, conforme está na Escritura: “Ame o seu próximo como a si mesmo”, fazem bem [portam-se como cristãos perfeitos]. Se, no entanto, vocês [sem caridade] tratam as pessoas com parcialidade, cometem pecado, sendo condenados pela lei como transgressores [isto é, vocês são condenados pela lei do mediador, sob a qual estão]. Pois quem guarda toda a lei [do mediador], mas [sem caridade] tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos etc. Assim, falem e vivam como pessoas que serão julgadas pela lei da liberdade [a lei do mediador]. Porque o juízo é sem misericórdia sobre quem [o crente imperfeito, sem caridade, caído] não usou de [caridade ou] misericórdia (Tg 2.8-13).
Apoiamos a nossa doutrina da perfeição judaica e cristã nestes testemunhos concordes de são Tiago e são Paulo; de Moisés, o grande legislador dos judeus; e de Cristo, o grande legislador dos cristãos, visto que a doutrina da perfeição, ou da obediência perfeitamente cordial, está inseparavelmente ligada às leis mediadoras de Moisés e de Cristo. No momento em que vocês destroem estas leis, transformando-as em “regras de vida” por cuja observância pessoal nenhum crente jamais será justificado nem condenado, vocês destroem o fundamento da perfeição judaica e cristã e nos impõem a doutrina sem lei e antibíblica de uma obediência feita por procuração e de uma perfeição imputada, que nos fará tão pouco bem na vida, na morte e no juízo quanto uma saúde imputada, em oposição à saúde inerente, faria a um pobre criminoso doente e moribundo. Assim, depois de conduzir o meu leitor ao redor de um grande círculo de provas, volto ao mesmo ponto de onde parti [veja-se o começo do prefácio]. E concluo que um evangelho sem lei mediadora, sem lei evangélica, sem a promessa condicional de uma coroa de glória celestial aos obedientes e sem a ameaça condicional de açoites infernais aos desobedientes, concluo, digo, que tal evangelho sempre nos levará ao centro do antinomianismo: à Diana e à Hécate dos calvinistas, a graça livre sem lei e ira livre eterna, ou, se preferirem, salvação consumada e condenação consumada. Por outro lado, no momento em que vocês admitem aquilo sobre o que as alianças evangélicas judaica e cristã são tão explícitas, quero dizer, uma lei evangélica, ou uma regra praticável de juízo, tanto quanto de conduta, a salvação eterna e a condenação eterna se tornam condicionais: ficam suspensas da perfeição ou imperfeição evangélica da nossa obediência. E o rev. sr. Berridge acerta em cheio o prego de ouro do qual dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22.40), todos os quatro evangelhos e as epístolas, quando diz: “A obediência sincera, como condição, levará você inevitavelmente até uma obediência perfeita.”
E agora, leitor, escolha a quem você quer seguir: o evangelho antinomiano e sem lei do sr. Hill, ou o evangelho de são Paulo e de são Tiago, que inclui a lei evangélica da liberdade e da perfeição cristã, pela qual você será condicionalmente justificado ou condenado no dia em que Deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos das pessoas, de acordo com o meu evangelho (Rm 2.16). Se você escolher a justiça imputada e a perfeição imputada sem condição alguma, isso “inevitavelmente” o levará para baixo, até um purgatório da morte, através das câmaras do pecado que habita em nós, se você for um eleito no sentido calvinista da palavra; ou até a condenação eterna, através das câmaras do pecado necessário, se você for um daqueles a quem os nossos opositores chamam de réprobos. Mas, se você escolher de coração a obediência da fé, sincera, voluntária e evangélica, que pregamos tanto como condição quanto como privilégio, ela [sendo juiz o padrinho do sr. Hill] “inevitavelmente o levará para cima, até a obediência perfeita”. [N. do T.: “padrinho”, no sentido de duelo.] Não há absolutamente meio-termo entre estes dois evangelhos. Você tem de ser ou um imperfeccionista crispiano e sem lei, ou um perfeccionista evangélico e conforme à lei, a menos que prefira ser um Gálio, alguém que não se incomoda com nenhuma destas coisas (cf. At 18.17). Você tem de se envolver em noções antibíblicas de justiça imputada, santidade imputada e obediência imputada, que compõem a veste imaginária da perfeição imputada à maneira calvinista; ou tem de lavar perfeitamente no sangue do Cordeiro as suas vestes (cf. Ap 7.14) de justiça, santidade e obediência inerentes, ainda que derivadas, as quais [quando assim lavadas] são a rica veste nupcial da perfeição evangélica.
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.