John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção XIV

A permanência necessária do pecado

Resposta aos argumentos com que os imperfeccionistas sustentam a doutrina da permanência necessária do pecado em todos os crentes até entrarem no purgatório da morte.

O efeito agradável das luzes num quadro é consideravelmente realçado pela oposição ousada de sombras fortes. Se os argumentos anteriores são as luzes com que esperamos impressionar agradavelmente os olhos da mente do leitor que considera sem preconceito a doutrina da perfeição cristã, não será impróprio realçar essas luzes com o espantoso contraste dos argumentos que os nossos opositores apresentam em defesa do pecado que habita em nós e da imperfeição cristã. Esses argumentos nos parecem sombras, sombras ousadas e lógicas; mas, quanto mais ousadas forem, mais farão sobressair o brilho da verdade que recomendamos; pois, se todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus (Rm 8.28), por que todos os erros dos outros não haveriam de cooperar para o bem daqueles que amam a verdade? Estou abundantemente provido das sombras errôneas de que preciso por três dos autores mais aprovados entre os que sustentam a arca do evangelho imperfeito: o reverendo sr. Toplady, autor da Prova Histórica do Calvinismo; o reverendo sr. Martin, autor de vários opúsculos estimados pelos calvinistas; e o reverendo sr. Henry, famoso pela sua volumosa exposição da Bíblia.

O primeiro desses autores, na sua Advertência contra doutrinas falsas, dá a entender que nunca houve na terra mais que três pessoas possuidoras da perfeição sem pecado que defendemos: Adão, Eva e Jesus Cristo. Insinuação ousada esta, que, como a Babel que ataco, tem o seu fundamento na Confusão (cf. Gn 11.9): na confusão de três perfeições inteiramente diferentes, a perfeição sem pecado paradisíaca dos nossos primeiros pais, a perfeição sem pecado mediadora de Jesus Cristo e a perfeição cristã de são João, sem pecado no sentido evangélico. Essa insinuação é apoiada por algumas passagens de Salomão, que já foram consideradas na Seção XI, e pelos argumentos seguintes.

Argumento I. “Uma pessoa da mais ampla fortuna não pode impedir que cobras, sapos etc. se abriguem nas suas terras; eles se reproduzem, se aninham e rastejam pela sua propriedade, quer ela queira, quer não. Tudo o que ela pode fazer é persegui-los e matá-los sempre que aparecem. Contudo, por mais vigilante e diligente que seja, sempre haverá uma sucessão dessas criaturas, para exercitar a sua paciência e ocupar a sua diligência. O mesmo acontece com o verdadeiro crente em relação ao pecado que habita nele.” Advertência contra doutrinas falsas, página 54. A isso respondemos:

1. Pela cláusula que apresento em itálico neste argumento, alguém pensaria que a paciência e a diligência não podem ser devidamente exercitadas sem o pecado que habita em nós. Se é assim, não se segue que a paciência e a diligência de nosso Senhor sempre careceram do devido exercício, já que ele sempre foi perfeitamente livre do pecado que habita em nós? Pensamos de outro modo a respeito das virtudes cristãs de nosso Senhor; e entendemos que a paciência e a diligência do crente mais perfeito sempre encontrarão, sem a oposição do pecado que habita em nós, pleno exercício em fazer e sofrer toda a vontade de Deus; em esmurrar o próprio corpo e reduzi-lo à escravidão (cf. 1Co 9.27); em lutar contra o pecado dos outros; em testemunhar, por palavras e atos, que as obras do mundo são más (cf. Jo 7.7); em resistir às inúmeras tentações daquele que anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar (1Pe 5.8); e em preparar-se para o combate com o rei dos terrores.

2. Por que uma vigilância assídua não poderia livrar uma propriedade de cobras, como um dos nossos reis livrou a Grã-Bretanha dos lobos? Ele não empreendeu e realizou o que parecia impossível a mentes menos resolutas? O sr. Toplady conhece bem demais os clássicos para não saber o que os próprios pagãos disseram da diligência e do amor:

Original Tradução
Omnia vincit amor. O amor tudo vence.
Labor improbus omnia vincit. O trabalho tenaz tudo vence.

[N. do T.: Virgílio, Bucólicas X, 69 (omnia vincit amor), e Geórgicas I, 145-146 (labor omnia vicit improbus), citados livremente.]

Se “o amor e o trabalho incessante vencem as maiores dificuldades”, que não poderá fazer um crente diligente, animado pelo amor de Deus, que sente que tudo pode por meio de Cristo, que o fortalece (cf. Fp 4.13)?

3. Mas a falha capital do argumento do sr. Toplady consiste em considerar a fraqueza do livre-arbítrio de tal modo que deixa inteiramente fora da questão Deus e o poder santificador do seu Espírito. Esse senhor esquece que para isto se manifestou o Filho de Deus [que é o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso (cf. Ap 19.6)]: para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8). Nem considera que um verme, assistido pela própria Onipotência, é capaz das maiores façanhas. Temos disso um exemplo ilustre em Moisés, quanto à remoção dos piolhos, das rãs e dos gafanhotos. Moisés… orou ao Senhor. Então o Senhor fez soprar um vento oeste muito forte, que levantou os gafanhotos e os lançou no mar Vermelho. Não restou um só gafanhoto em todo o território do Egito (Êx 10.18-19). Se o sr. Toplady não tivesse esquecido o Deus poderoso com quem Moisés e os crentes têm de tratar, nunca teria suposto que vale a comparação entre Cristo purificando os pensamentos e o coração de um crente que ora, pela inspiração do seu Santo Espírito, e um homem que de modo nenhum consegue destruir as cobras e os sapos que se reproduzem, se aninham e rastejam pela sua propriedade. [N. do T.: palavras da coleta de pureza do Livro de Oração Comum: “purifica os pensamentos do nosso coração pela inspiração do teu Santo Espírito”.]

4. O reverendo autor da Advertência desce, neste argumento, abaixo até da doutrina dos moralistas pagãos. Pois, supondo que se tratasse da extirpação de um hábito vicioso, não seria indesculpável um pagão que deixasse de lado o socorro e a inspiração do Todo-Poderoso? E que diremos de um ministro do evangelho que, escrevendo sobre a destruição do pecado, deixa inteiramente de lado aquilo que em outras ocasiões ele chama de poder soberano, incomparável, vitorioso sobre tudo e irresistível da graça divina, o qual (se lhe dermos crédito) deve fazer absolutamente tudo em nós e por nós? Que insinua que o sapo do orgulho e a víbora da inveja hão de continuar a aninhar-se e a rastejar no nosso peito por falta de capacidade para destruí-los; e que conclui que a extirpação do pecado é impossível porque não a podemos realizar pelas nossas próprias forças? Como se o poder de Deus, que nos ajuda em nossa fraqueza (Rm 8.26), não merecesse sequer um pensamento! Quem não vê que, quando um teólogo argumenta dessa maneira, põe o seu cesto sobre a luz da graça vitoriosa de Cristo (cf. Mt 5.15), esconde essa luz que mata o pecado e purifica o coração, e depois conclui absurdamente que as trevas do pecado devem necessariamente permanecer em todos os crentes? Assim, se não me engano, fica evidente que o argumento do sr. Toplady em favor do purgatório da morte é contrário à história, à experiência e ao gentilismo. E quanto mais não o será ao cristianismo e à honra daquele que salva totalmente (cf. Hb 7.25) o seu povo que crê dos sapos do coração e das víboras do peito (cf. Mt 1.21), quando eles vão a ele em busca desta grande salvação (cf. Hb 2.3)!

O próximo autor que me há de fornecer sombras lógicas é o engenhoso reverendo sr. Martin, que acaba de publicar uma defesa da permanência necessária do pecado em todos os crentes. Ele a intitula “O conflito peculiar do cristão: ensaio sobre Gálatas 5.17”. Dela extraio os argumentos que se seguem.

Argumento II. Página 15 etc. “Ó vocês, fanfarrões vãos da perfeição inerente, digam: onde se há de encontrar entre vocês o homem que sempre faz o que quer (cf. Gl 5.17)? Se há um que tem essa primazia entre os seus irmãos, por que haveria de ocultar-se o seu nome? É ele pregador? E ousa afirmar que tem, em todo tempo, aquela descoberta da verdade à sua própria alma que gostaria de ter etc.? É ele um cristão leigo? E se arriscará a declarar que, em todos os papéis que desempenha etc., age continuamente não só de modo consciencioso, mas cumpre em todos os aspectos o desejo do seu espírito? O quê! Ele hesita? Tem medo de atestar isso na presença de um Deus que sonda os corações? Quão enganosa é então a sua confiança! etc. Estranha cegueira! Se ele não pode em todo tempo fazer as coisas, as boas coisas que quer, pode supor que os seus melhores desejos sejam mais extensos do que aquela lei que é imensamente ampla (cf. Sl 119.96)? etc. Se pode ser tão vaidoso a ponto de supor isso, há mais esperança para um tolo do que para aquele que é tão sábio aos seus próprios olhos (cf. Pv 26.12). Se ele rejeita a conclusão, e no entanto mantém as suas premissas, de que é perfeito, isto é, de que está sem pecado, de que deixou de cometer iniquidade, qual é a conclusão? Sou obrigado a concluir que perfeição e imperfeição, coisas tão contrárias uma à outra quanto a luz e as trevas, são consideradas por essa pessoa iludida como uma só e a mesma coisa.”

Este argumento, despido dos seus ornamentos retóricos e vestido com uma roupa lógica simples, fica assim:

“Quando os cristãos não fazem todas as boas coisas que desejam fazer, pecam, ou seja, quebram a lei de Deus, que é mais pura e mais ampla do que os seus desejos. Ora, os melhores ministros e os melhores cristãos leigos não fazem todas as boas coisas que desejam fazer. Logo, os melhores ministros e os melhores cristãos leigos pecam, e a sua perfeição sem pecado é uma jactância vazia.” Podemos reduzir o argumento a um espaço ainda mais estreito, assim: “Toda insuficiência é pecaminosa e, portanto, incompatível com qualquer espécie de perfeição.” Ora, essa proposição, que é a base de todo o argumento, tem o erro por fundamento. Concedendo que as insuficiências são incompatíveis com a vontade absoluta de Deus e com a perfeição do seu poder ilimitado, afirmo quatro coisas, cada uma das quais, se não me engano, derruba o argumento do nosso objetor.

1. Os espíritos dos justos aperfeiçoados (Hb 12.23), separados do corpo, são perfeitamente sem pecado; contudo, não fazem todo o bem que querem, pois ainda não conseguiram que o sangue dos mártires de Deus seja vingado, demonstração de justiça que eles desejam ardentemente. E o provo por estas palavras de são João: vi, debaixo do altar, as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus… Clamaram com voz forte, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? (Ap 6.9-10). Se tivessem feito o que desejavam, isto é, se de fato tivessem prevalecido junto a Deus, a sua oração se teria imediatamente transformado em louvores, e os perseguidores já teriam sido há muito tempo arrancados da terra.

2. Por falta de sabedoria infinita, não deseja muitas vezes o amor perfeito, nas criaturas finitas, fazer pelo seu objeto mais do que pode? Quando Miguel lutou contra o dragão (Ap 12.7), não é altamente provável que desejasse, com amor, impedir o seu cruel adversário de fazer qualquer outro mal? Mas o que ele realizou não ficou aquém do seu desejo piedoso e resignado? Não se pode dizer o mesmo do cuidado protetor dos anjos, que servem a favor dos que hão de herdar a salvação (Hb 1.14)? Dão-nos esses espíritos amorosos todo o auxílio, ou nos alcançam toda a felicidade, que a sua terna compaixão os leva a nos desejar? Se não, não é absurdo supor que, só por isso, sejam pecaminosamente imperfeitos? Mais ainda: não seria um alto grau de temeridade e de injustiça insinuar que eles são transgressores da lei espiritual de Deus, e que o seu mandamento, que é mais amplo do que os desejos deles, é quebrado porque não nos fazem todo o bem que desejam fazer-nos, e que de fato nos fariam se uma Providência sábia não tivesse posto limites à sua missão? Não põe essa legalidade calvinista e antibíblica o selo da pecaminosidade sobre todos os anjos e arcanjos, só para dar apoio à doutrina antinomiana da pecaminosidade necessária de todos os crentes?

3. Se considerarmos o nosso próprio Senhor como homem, fez ele todo o bem que queria enquanto esteve na terra? Pregou com todo o êxito que o seu amor perfeito o fazia desejar? Se teve no seu ministério todo o êxito que desejava, por que olhou em volta para os seus ouvintes, indignado e entristecido com a dureza de coração deles (Mc 3.5)? Por que chorou (cf. Lc 19.41) e se queixou: Quantas vezes eu quis reunir etc., mas vocês não quiseram! (Mt 23.37)? E mesmo as suas instruções particulares foram tão abençoadas para os seus próprios discípulos quanto ele poderia ter desejado? Se foram, que significam estas estranhas censuras: Como é que ainda não têm fé? (Mc 4.40). Ó geração incrédula, até quando estarei com vocês? (Mc 9.19). Há tanto tempo você está comigo, Filipe, e ainda não me conhece? (cf. Jo 14.9). Será que vocês também querem se retirar? (Jo 6.67).

Mais ainda: não tinha Cristo também as suas fraquezas inocentes? Não estremeceu diante da perspectiva do cálice do tremor? Não precisou do apoio fortalecedor de um anjo no jardim do Getsêmani (cf. Lc 22.43)? Não ofereceu, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte? Não foi ouvido por causa do seu temor (Hb 5.7)? [N. do T.: Fletcher segue a King James, “foi ouvido naquilo que temia”; a NAA traz “foi ouvido por causa da sua reverência”.] Não clamou inocentemente na cruz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? (Mt 27.46). E não observa o apóstolo que não temos sumo sacerdote que não possa se compadecer das nossas fraquezas; pelo contrário, [temos um que] foi tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado (Hb 4.15)? [N. do T.: a edição de 1792 imprime “Hb 4.5”.] Quando, portanto, os nossos opositores confundem o pecado com as fraquezas naturais e inocentes, ou com o não fazermos todo o bem que queremos, não lançam, sem perceber, uma mancha sobre o caráter imaculado daquele que podia dizer: Quem de vocês me convence de pecado? (Jo 8.46).

(4) O meu piedoso opositor deseja, sem dúvida, louvar a Deus tão perfeitamente quanto um anjo, ao passo que um anjo provavelmente deseja fazê-lo tão completamente quanto um arcanjo; mas, pela natureza das coisas, isso não pode ser. Milhares dos vasos morais de Deus, que são perfeitos no seu lugar e no seu grau, e que como tais adornam o templo universal de Deus, ficam aquém da perfeição uns dos outros sem serem, por isso, pecaminosamente imperfeitos. Quando as deficiências são naturais, e não morais, se as chamamos de pecado, em muitos casos acusamos Deus da criação do pecado. E não é mais pecado num homem não engrandecer a Deus tão vigorosamente quanto um anjo, ou num anjo não servir ao seu Criador tão perfeitamente quanto um arcanjo, do que é pecado num bom soldado não prestar ao rei um serviço tão excelente quanto um capitão experiente ou um general consumado. No mundo moral, tanto quanto no natural, entre estrela e estrela pode haver diferenças de glória (1Co 15.41), sem o menor desdouro para a perfeição peculiar de cada uma. Os requintes insensatos do calvinismo fazem uma mistura confusa das obras de Deus, como fazem das verdades de Deus e das diversas perfeições que pertencem às diversas classes dos seus filhos. Mas um sábio dispensador da palavra fará com essas diversas verdades e perfeições o que José fez com os seus irmãos: pôs o primogênito segundo o seu direito de primogenitura (ou superioridade) e o mais novo segundo a sua mocidade (ou inferioridade) (cf. Gn 43.33).

(5) Não nos envergonhamos de afirmar que a perfeição num aspecto e a imperfeição noutro podem coerentemente encontrar-se no mesmo sujeito; ou seja, que homens e coisas podem ser perfeitos num sentido e imperfeitos noutro. Se os nossos opositores zombarem de nós por isso, apresentaremos a eles uma demonstração ocular, e de modo nenhum “metafísica”, do seu engano. Dois grãos perfeitos, um de cevada e outro de trigo, estão diante de nós. Digo, com os perfeccionistas, que o grão de cevada é perfeito na sua espécie, mas imperfeito, ou inferior em excelência, quando comparado com o grão de trigo. Mas o sr. Martin, à frente dos imperfeccionistas, julga-me iludido e, assentando-se no seu tribunal, diz gravemente: “Sou obrigado a concluir que perfeição e imperfeição, coisas tão contrárias uma à outra quanto a luz e as trevas, são consideradas por essa pessoa iludida como uma só e a mesma coisa.” “Alguns são tão inexplicavelmente absurdos e ridículos.” Leitor, você é juiz e júri. Pronuncie qual dos dois merece mais essa imputação de “absurdo inexplicável”: o autor deste ensaio ou o do ensaio sobre Gl 5.17.

(6) Quanto à pergunta triunfante desse senhor: “Onde está o homem (perfeito)? Por que haveria de ocultar-se o seu nome?”, espero que já tenha sido respondida satisfatoriamente na Seção IV, Arg. XII. Ao que ali se expôs acrescento aqui a observação seguinte. O preconceito inveterado é cego. Se ele não crê na razão, em Moisés, nos Profetas e nos apóstolos, também não se deixará convencer, mesmo que ressuscite alguém dentre os mortos (cf. Lc 16.31). E, se apontássemos uma pessoa tão perfeita quanto Jesus de Nazaré e disséssemos: Eis o homem! (Jo 19.5), eu não me admiraria se os cristãos professos cheios de preconceito gritassem, como fizeram alguns antigos monopolizadores da ortodoxia: Ele engana o povo (Jo 7.12), ensinando a perfeição por toda a Judeia (Lc 23.5). E, se não dissessem: É amigo de publicanos e pecadores (Mt 11.19); fora com este! (Lc 23.18), não é improvável que dissessem: É amigo dos fariseus e dos arminianos; por que vocês ouvem o que ele diz? (Jo 10.20). Por acaso vocês também querem se tornar discípulos dele? (Jo 9.27). É vão esperar que o preconceito tenha expirado com aqueles que zombaram da perfeição encarnada e cuspiram no rosto de Jesus Cristo, pensando que, com isso, prestavam culto a Deus (cf. Jo 16.2) e ao Messias. O homem é homem em Londres tanto quanto em Jerusalém. O nosso autor prossegue:

Argumento III [Página 18]. “Não é mais essencial aos que são de fato participantes da graça de Deus desejar isto [a destruição do pecado] do que o é a toda criatura, enquanto tal, desejar ver-se livre da dor e da vergonha.” Segue-se então uma insinuação perigosa: a de que devemos dizer do cálice do pecado que habita em nós o que o nosso Salvador disse do cálice da dor e da vergonha: “Por acaso não beberei o cálice que o Pai me deu?” (Jo 18.11).

Resposta. Nunca se misturou com mais arte um cálice de veneno sutil! E, para que o leitor não suspeite de dano algum, o autor toma emprestado o próprio cálice que nosso Pai celestial apresentou a Cristo no jardim do Getsêmani: um cálice de dor e de vergonha. Leitor, examine este cálice antes de bebê-lo. Há morte nele. Derrame o vinho novo que torna agradável ao paladar o veneno que ele contém, e no fundo você achará este sedimento mortal: “É tão absurdo desejar de modo absoluto a libertação do pecado nesta vida quanto desejar de modo absoluto a libertação da dor e da vergonha.” Para descobrir a falsidade desta proposição, basta pesar as observações seguintes. (1) O homem misturou para si o cálice moral do pecado, e Deus [para puni-lo] misturou o cálice natural da dor e da vergonha. (2) É um erro gravíssimo confundir de tal modo o mal moral e o mal natural a ponto de dizer que, porque não podemos com nenhuma propriedade pedir em oração, de modo absoluto, a libertação de todo mal natural nesta vida, não devemos pedir e esperar de modo absoluto a libertação de todo mal moral antes da morte. (3) Quando os imperfeccionistas confundem o cálice moral do pecado com o cálice natural da vergonha e da dor, enganam-se tão grosseiramente como se confundissem o veneno e o contraveneno; o pecado e o seu castigo; o coração vingativo do assassino e a forca em que ele é enforcado. (4) A vergonha e a dor, quando são designadas para prova da fé e suportadas por causa da justiça, compõem a última e a maior de todas as bem-aventuranças (cf. Mt 5.10-12); bem-aventurança esta da qual nosso Senhor bebeu tão profundamente quando, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a dor, sem se importar com a vergonha da cruz (Hb 12.2). Mas onde foi o pecado que habita em nós jamais contado entre os ingredientes que compõem as bem-aventuranças, para que os nossos opositores o confundam assim com a dor e a vergonha? (5) Quando insinuam que devemos suportar o pecado com a mesma paciência com que suportamos a dor e a vergonha, e aceitar o cálice moral da iniquidade que habita em nós tão prontamente quanto o cálice natural da aflição exterior, não confundem grosseiramente o cálice dos demônios com o cálice do Senhor (1Co 10.21)? E não fazem os simples acreditar que, porque devemos beber com paciência o segundo com Cristo, devemos também beber com paciência o primeiro com Belial (cf. 2Co 6.15)? O Capitão da nossa salvação (cf. Hb 2.10) nos manda alegrar-nos e exultar (Mt 5.12) quando sofremos com paciência dor e vergonha por causa da justiça; portanto, pedir em oração, de modo absoluto, o afastamento de toda dor e de toda vergonha seria orar contra a nossa grandíssima alegria; sim, contra o nosso reinar com Cristo, pois, se sofremos, também com ele reinaremos (2Tm 2.12). [N. do T.: a NAA traz “se perseveramos”; Fletcher segue a King James, “if we suffer” (se sofremos), e o argumento depende dessa palavra.] Mas onde Cristo nos manda alegrar-nos e exultar quando estamos cheios do pecado que habita em nós? Ou onde promete que, se abrigarmos o pecado que habita em nós, também com ele reinaremos? Cristãos, despertem! Derramamos diante de vocês este veneno rançoso, para que reparem no seu cheiro repugnante. Enquanto solifidianos imprudentes o recolhem como se fosse o mel de Canaã, pisem-no com ousadia e convençam-se cada vez mais de que a justiça imputada à maneira calvinista e o pecado que habita em nós são os dois braços com que a Dalila dos imperfeccionistas aperta os seus admiradores iludidos.

Página 31. O nosso engenhoso autor propõe uma questão importante. “Se a graça de Deus”, diz ele, “é tão abundante quanto as Escrituras a apresentam, e a Escritura não pode falhar (Jo 10.35), por que se permite que os crentes lutem tanto tempo por aquela vitória que ainda não podem obter?” [aquela vitória que a morte lhes há de trazer?] “Por que aqueles que anseiam pela pureza não obtêm imediatamente um pedido tão desejável?” Pois o nosso autor estabelece como verdade indubitável que “a carne e o espírito mutuamente cobiçam, desejam e lutam por obter uma vitória completa, mas no presente [isto é, nesta vida] nenhum dos dois pode prevalecer”. Página 26.

A esta questão importante respondemos assim. Os cristãos imperfeitos não alcançam a perfeita pureza de coração: (1) Porque não veem a necessidade dela; porque ainda abraçam alguma coisa condenada (cf. Js 7.1), ou porque o fardo do pecado que habita em nós ainda não se tornou insuportável para eles. Ainda dão um jeito de suportá-lo, como suportam a dor de dente quando ainda relutam em deixar arrancar um dente podre. (2) Se estão de fato dispostos a ser purificados, ainda não creem que o Senhor pode e quer purificá-los (cf. Mt 8.2-3), nem que agora é o dia desta salvação (2Co 6.2). E, como a fé herda as promessas de Deus (cf. Hb 6.12), não é de admirar que a incredulidade deles perca esta parte da sua herança. (3) Se têm alguma fé nas promessas de que o Senhor pode e quer circuncidar o coração deles, para que o amem de todo o coração (Dt 30.6), não é ainda aquela espécie ou aquele grau de fé que os torna inteiramente dispostos a vender tudo (cf. Mt 19.21), a negar-se a si mesmos, a usar fielmente o seu talento inferior e a perseverar na oração por esta mesma bênção. Em suma, nada têm, porque não pedem, que é o caso dos imperfeccionistas laodicenses (cf. Ap 3.16); ou porque pedem mal (Tg 4.2-3), que é o caso dos perfeccionistas imperfeitos. (4) Muitas vezes também querem receber a bênção de Deus pelo método que eles mesmos conceberam de antemão, e não pelo caminho que Deus designou. Por isso Deus suspende a operação do seu Espírito santificador, até que confessem humildemente a sua obstinação e a sua falsa sabedoria, assim como a sua incredulidade e a falta de amor perfeito. Assim inocentamos o nosso Santificador e tomamos para nós a vergonha da nossa impureza. Não fazem assim os nossos opositores. Eles se desculpam e insinuam que Deus designou a permanência necessária do pecado em nós por toda a vida, para que o conflito que mantemos com esse inimigo sirva a fins excelentes. Os argumentos deles, reunidos no Ensaio acima citado, são apresentados e respondidos nas páginas seguintes.

Argumento IV. Página 37 etc. “Por esta guerra o Senhor se manifesta e se engrandece ao seu povo; e, se não me engano, etc. a continuação dela é um meio pelo qual os crentes têm tais vislumbres das perfeições e da glória de Deus que não nos parece provável que pudessem obtê-los aqui sem ela.” Em seguida o nosso autor dá como exemplo o “amor imutável” de Deus “para com os eleitos” e a sua “graça soberana, que reina pela justiça para a salvação dos culpados” (cf. Rm 5.21). Depois observa que os crentes mais conscientes deste conflito interior, mais sensíveis ao poder e à prevalência do pecado que habita neles, são os mais gratos por serem verdadeiras as cativantes declarações do amor distintivo de Deus. E [páginas 39, 40] nos dizem claramente que a doutrina da permanência necessária do pecado que habita em nós engrandece “o poder e a paciência de Deus: o poder de Deus para nos sustentar neste conflito, e a sua paciência em suportar as nossas múltiplas fraquezas e a nossa ingratidão.” Pois, por maior que seja o peso da nossa ingratidão, “ele nem se cansa, nem se fatiga” (Is 40.28).

Este é um extrato do argumento do nosso autor, que, como uma serpente, abre caminho por voltas palavrosas onde não tenho tempo para segui-lo. Esmague esta serpente, e dela sairá esta víbora menor: quanto mais tempo o pecado permanece em nós, mais se manifesta a nós o amor soberano, a graça, o poder e a paciência de Deus, com que ele salva pecadores culpados, fracos e ingratos. Ou, se preferir: quanto mais tempo permanecemos no pecado, ou quanto mais tempo o pecado permanece em nós, mais a graça é manifestada e engrandecida. Ou, se quiser falar como o controversista apostólico: Continuemos no pecado, para que a graça aumente (cf. Rm 6.1). Eis uma noção que é a própria alma do antinomianismo desmascarado.

Para encher o leitor piedoso de justa aversão a esta doutrina, basta desdobrá-la assim: se a permanência do pecado que habita em nós engrandece a graça soberana e a paciência de Deus em salvar pecadores ingratos, a permanência do pecado exterior o fará muito mais; pois, quanto maiores forem os nossos pecados exteriores, maior parecerá a paciência de Deus em nos suportar, e a sua graça em nos perdoar, visto que “ele nem se cansa, nem se fatiga”. Assim chegamos quase ao topo do antinomianismo; e, para alcançar o degrau mais alto da escada fatal, basta declarar, como fez o autor das Cinco cartas, que uma queda grave [no pecado, da qual ele deu como exemplos o adultério, o roubo, o homicídio e o incesto] nos fará cantar mais alto o louvor da graça restauradora por todos os séculos da eternidade. [Ver a quarta dessas cartas.] [N. do T.: Richard Hill.] Ora, se uma queda grave há de ter infalivelmente esse feliz efeito, segue-se que dez quedas assim multiplicarão por dez a manifestação do poder e da paciência de Deus. Que campo sem limites se abre aqui para correr uma carreira antinomiana e alargar a nossa maldade como o inferno! Que escada nos é aqui emprestada para descer ao fundo do abominável da desolação (cf. Mt 24.15), a fim de alcançar as notas mais altas de louvor no céu! Se este evangelho solifidiano não é uma das coisas profundas de Satanás (Ap 2.24), e das maiores, não sou capaz de distinguir a escuridão da meia-noite do brilho do meio-dia.

Argumento V. Página 41. “Salvar os culpados de tal modo que, etc., humilhe eficazmente os que são salvos manifesta a multiforme sabedoria de Deus (cf. Ef 3.10). Não parece necessário, para alcançar esse grande fim, fazer os crentes conhecerem por experiência quão mau e amargo é o pecado (cf. Jr 2.19) etc.? Se é assim, quando podem os objetos da salvação ver isso com a devida vergonha e tristeza? Não enquanto estão no fel da amargura (cf. At 8.23) etc., pois nesse estado o homem é tão abominável que bebe a iniquidade como a água (Jó 15.16). Por outro lado, isso não pode acontecer depois que são levados à glória, pois então todos os memoriais dolorosos e vergonhosos do pecado serão definitivamente removidos. Tem de ser enquanto a carne e o espírito habitam no mesmo homem.”

Concedido; mas o que tem este argumento a ver com a questão? Alguma vez negamos que, enquanto vivermos, devemos arrepender-nos, ou ter profunda consciência de quão mau e amargo é o pecado? A questão é se o pecado que habita em nós é um incentivo ao verdadeiro arrependimento, e se Deus determinou que esse suposto incentivo permaneça no nosso coração até a morte, para que não nos esqueçamos de “quão mau e amargo é o pecado”, ou para que não nos lembremos disso “com a devida vergonha e tristeza”. O absurdo desta alegação já foi exposto na Seção III, Objeções VIII e IX. E aos argumentos ali apresentados acrescento agora os seguintes. (1) A experiência não convence os crentes imperfeitos de que, quanto mais irritação, vontade própria e obstinação têm no coração, menos se arrependem? Quão absurdo é, então, supor que os restos dessas más disposições os ajudarão a sentir “a devida vergonha e tristeza” pelo pecado! (2) Os nossos opositores não dizem aos seus ouvintes que obtemos mais devida vergonha e tristeza olhando um momento para aquele a quem traspassamos (cf. Zc 12.10) do que remoendo as nossas corrupções durante uma hora? Se é assim, por que defendem o pecado que habita em nós, para que “a devida vergonha e tristeza” abundem? E por que alegam exaltar a Cristo mais do que nós, que sustentamos que a nossa mais devida vergonha e a nossa mais profunda tristeza brotam da ignomínia e dos sofrimentos dele, e não do pecado que habita em nós e das corrupções em conflito? Jó não se abominou e se arrependeu no pó e na cinza (Jó 42.6) quando viu pela fé o seu Deus redentor, muito mais do que quando mal mantinha a cabeça acima das águas amargas da impaciência e da murmuração? (3) Os defensores da permanência do pecado que habita em nós nos dizem: “Assim como a visão e os ataques de um leão vivo e rugindo nos farão temer os leões mais do que todas as descrições e pinturas que representam a sua ferocidade destruidora, assim também sentir as investidas do pecado que habita em nós nos fará abominar o pecado mais do que todas as descrições da sua natureza odiosa e todos os relatos das suas terríveis consequências; porque criança queimada naturalmente tem medo do fogo.” A isto respondemos: uma criança queimada que defende que se mantenha uma brasa acesa sobre o seu peito para lhe fazer ter medo do fogo, até aqui se queimou para bem pouco proveito. Quem teve jamais menos que ver com o pecado que habita em nós e com os seus malditos ataques do que o santo Jesus e os anjos fiéis? E, no entanto, quem está mais cheio de perfeita aversão a toda iniquidade? Por outro lado, quem foi mais transtornado, e por mais tempo dilacerado, pelo pecado que nele habita do que o diabo? E quem, apesar disso, está mais reconciliado com ele? Ou quem é mais atormentado pelos contínuos dilaceramentos e mordidas dos leões e das víboras de dentro do que essas pessoas coléricas e vingativas que dizem, com toda a obstinação de Jonas e de Absalão: É razoável a minha raiva (cf. Jn 4.9) e A vingança é doce? A experiência demonstra, portanto, que este argumento não conclui nada. (4) Se o ladrão arrependido aprendeu devidamente em poucas horas quão mau e amargo é o pecado exterior e interior, não é absurdo supor que ele teria de continuar quarenta anos cheio do pecado que habita em nós para aprender essa lição, se Deus tivesse acrescentado quarenta anos à sua vida? Essa demora teria sido para a honra do seu divino Mestre? Por fim, quando Cristo expulsou sete demônios de Maria Madalena (cf. Lc 8.2), deixou um ou dois demônios para trás, a fim de ensinar-lhe “a devida vergonha e tristeza” pelo pecado? E foram esses dois “diabolonianos” restantes [N. do T.: partidários de Diabolus em A Guerra Santa, de John Bunyan.] que a fizeram desfazer-se em lágrimas aos pés de Cristo, ou o amor grato e penitente que ela sentia pelo seu bondoso libertador? Não é espantoso que ministros do evangelho se esqueçam a tal ponto de si mesmos e do seu Salvador que ensinem [tão abertamente quanto, por decência, se atrevem] que devemos ir buscar as nossas lágrimas de tristeza segundo Deus no lago infernal, e reacender a vela do arrependimento no fogo do inferno! E que o sopro do Espírito que a aviva, e os espevitadores de ouro, consagrados, do santuário, não podem fazer essa vela arder sempre clara, a não ser que usemos, até o fim da vida, o dedo negro de Satanás, o pecado que habita em nós, e o maldito apagador de Adão, a corrupção original!

Argumento VI. O argumento seguinte do nosso autor em favor da permanência necessária do pecado em nós durante a vida é mais decente e, por isso mesmo, mais perigoso. Os pés fendidos do erro calçam delicadamente as sandálias da verdade; mas, com um pouco de atenção, logo veremos que elas são apenas emprestadas ou roubadas. O argumento, resumido da página 44 e tornado mais claro, pode correr assim: “Se muitas vezes temos sido preguiçosos e não temos empregado em todo tempo as nossas capacidades ao máximo, por que Deus não pode, em sua sabedoria, nos repreender por isso e nos fazer sentir esse mal, não nos permitindo realizar aquilo que em outras ocasiões parecemos determinados (se possível) a cumprir” [isto é, não nos permitindo abolir inteiramente todo o corpo do pecado]? “Se Sansão abusa da sua força, é justo que tenha motivo para arrepender-se severamente da sua loucura, sendo privado dela por um tempo e tornando-se tão fraco como qualquer outro homem (cf. Jz 16.17).” Aqui nos deixam inferir que, assim como Sansão, pela sua infidelidade, ficou tão fraco como qualquer outro homem por um tempo, assim todos os crentes, por causa da sua infidelidade, têm de ser enfraquecidos pelo pecado que habita neles durante todo o prazo da vida.

A isto respondemos: (1) Que, embora os crentes muitas vezes deem lugar à preguiça e à infidelidade, não são mais obrigados por necessidade a fazê-lo do que Sansão o era a brincar com Dalila. (2) Se a permanência constante do pecado em nós é um justo castigo por não fazermos o devido uso do talento de graça que Deus nos dá, segue-se evidentemente que é a nossa infidelidade, e não uma necessidade designada por Deus, o próprio verme que destrói a nossa perfeição sem pecado no sentido evangélico; e, no momento em que os nossos opositores concederem isso, concederão tudo aquilo por que lutamos, a menos que consigam provar que Deus nos obriga por necessidade a ser infiéis, para nos castigar infalivelmente com o pecado que habita em nós por toda a vida.

Quanto a Sansão, ele é trazido muito infelizmente para sustentar a doutrina da permanência necessária daquele pecado enfraquecedor a que chamamos corrupção inata; e poderia muito felizmente ser apresentado para animar aqueles crentes infiéis que, como ele, não fizeram no passado o devido uso da sua força: pois ele sobreviveu à sua fraqueza penal e recobrou a força de um nazireu perfeito antes da morte. Testemunha disso é a sua última façanha, que superou todas as anteriores (cf. Jz 16.30). Pois seria sumamente absurdo supor que ele obteve num purgatório da morte a força espantosa com que derrubou as colunas que sustentavam o grande edifício onde os filisteus banqueteavam. Nem preciso da força de um Sansão da lógica para quebrar os caniços argumentativos que sustentam o templo do erro, no qual os imperfeccionistas se divertem, para seu próprio dano (cf. Jz 16.25), com a doutrina daquele Sansão cristão que disse: Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13).

Argumento VII. Página 47 etc. Dizem-nos indiretamente [pois homens piedosos não conseguem proferir um antinomianismo grosseiro sem a máscara do circunlóquio] que o pecado que habita em nós deve continuar em nós, para que “a graça (possa) não apenas ser exercida, mas também distinguida de tudo o que tem apenas a aparência dela. Mas como se há de distinguir aqui a verdadeira graça de Deus daquela que é apenas a sua imitação? Pelos seus efeitos: uma clara e espiritual descoberta da depravação, do engano e da desesperada perversidade do nosso próprio coração” (cf. Jr 17.9). E então nos dão a entender que, para não deixarmos de ser profundamente convencidos dessa desesperada perversidade, a continuação do pecado que habita em nós é absolutamente necessária. Este argumento desemboca no quinto, ao qual já respondi. É outro apelo indireto em favor da continuação do adultério exterior e do homicídio, tanto quanto da continuação do pecado que habita em nós; pois é certo que o adultério exterior etc. nos convencerá da desesperada perversidade do nosso coração com força ainda maior do que o adultério do coração etc. A que expedientes desesperados não ficam reduzidos os homens bons quando lutam pela continuação do botão, ou da raiz, de qualquer pecado? Cada golpe que desferem em favor do pecado é uma punhalada nas próprias entranhas da piedade.

Argumento VIII. Página 48. A continuação do pecado que habita em nós, que é chamada (com grande modéstia por parte do engenhoso autor e, portanto, com grande perigo para o leitor desprevenido) de “esta guerra”, é sustentada pela seguinte razão: “Ela é muitas vezes uma ocasião para descobrir a força da graça recebida, bem como a sua verdade.” Este argumento é do mesmo teor que o anterior e me faz lembrar um discurso que um jovem libertino e desavergonhado me fez certa vez: “Fiquei (disse ele) bebendo e cochilando em tal taverna, sem nunca ir para a cama nem ficar sóbrio uma hora sequer, durante vinte e três dias. Nunca tive ocasião tão notável de descobrir a força do meu corpo e a excelência da minha constituição.” Contudo, poucos meses depois, enquanto ele continuava, na conclusão, a descobrir a sua força, uma doença mortal se apoderou dele e, levando-o para a eternidade, ensinou-me que, se Fulsome, o que professa a fé, diz a verdade quando afirma: Uma vez na graça, sempre na graça, então Nabal, o beberrão, estava enganado quando insinuou: Uma vez com saúde, sempre com saúde. Para fazer os imperfeccionistas se envergonharem deste argumento, basta-me, espero, observar: (1) que nada jamais mostrou mais a força da graça do que os conflitos pelos quais passou o homem Cristo Jesus, embora ele nunca tenha lutado um só momento com o pecado que habita em nós; (2) que a força e a excelência de um remédio se revelam muito melhor pela remoção da doença que ele se destina a curar do que pelos conflitos que o pobre paciente trava com a dor, até que a morte venha pôr fim à sua miséria; e (3) que o argumento que refuto representa indiretamente Cristo como um médico que mantém os seus pacientes no potro de tortura para se tornar mais necessário a eles e para mostrar a força da mistura calmante com que lhes dá de vez em quando um pouco de alívio sob a sua dor contínua e torturante.

Nosso autor acrescenta, na página 49: “Se aqueles que carregam os fardos mais pesados são às vezes considerados os homens mais fortes, são eles os que estão empenhados nesta guerra.” (Gostaria que ele falasse com toda a franqueza e dissesse: Aqueles que carregam o fardo mais pesado do pecado que habita em nós) “têm aquela evidência da força da graça etc. que é peculiar a eles mesmos.” Grande engano este; pois, se podemos crer em Ovídio, quando Medeia assassinou o próprio filho, num severo conflito com o pecado que habita em nós, ela tinha aquela fatal evidência do que aqui se chama, de modo despropositado, a força da graça, mas que eu peço licença para chamar de a obstinação do livre-arbítrio. Sed trahit invitam nova vis etc. [Mas uma força nova me arrasta, contra a vontade.] “A paixão, disse ela, arrasta a minha mente contrariada e relutante.” Judas, ao que parece, não era totalmente estranho a este conflito (tampouco ao fardo da culpa), quando se precipitou dele para um purgatório da morte. Nem o censuro por ter preferido ser estrangulado a viver (cf. Jó 7.15), se a morte pode pôr fim à miséria que acompanha o pecado que habita em nós e fazer mais, nesse aspecto, pelos crentes caídos do que o próprio Cristo jamais fez. Mas, supondo que a graça de Deus, que se manifestou, trazendo salvação a todos (Tt 2.11), nunca se manifestou a Medeia e a Judas; supondo que essas duas almas pecadoras nunca lutaram com o pecado que habita em nós, ainda assim seguirá da insinuação do nosso autor que, caso Davi tivesse contaminado meia dúzia de mulheres casadas e matado os seus maridos para desfrutá-las sem rival, nós o consideraríamos seis vezes mais forte na graça, se ele não tivesse desfalecido sob o seu fardo sêxtuplo, como Judas; porque “nesta [antinomiana] guerra, aqueles que carregam os fardos mais pesados são considerados os mais fortes” crentes; e porque “eles têm aquele testemunho do seu amor a Cristo que é peculiar a eles mesmos”. Se Satanás se disfarçasse de anjo de luz (cf. 2Co 11.14), poderia ele pregar um evangelho mais perigoso e imoral a uma geração antinomiana e perversa?

Argumento IX. O último argumento do nosso autor em favor da continuação necessária do pecado em nós aparece na página 51 e é assim: “Acrescentarei apenas que, por meio desta guerra, o Senhor desapega o seu povo do presente mundo mau e o faz ansiar pela terra da promessa como a terra do descanso etc. Sei que alguns dirão: Isto é impossível; e estarão prontos a perguntar: Somos, então, devedores à carne? (cf. Rm 8.12) [Pergunta muito pertinente! à qual o autor responde assim:] De modo nenhum etc. Na nossa carne não habita bem nenhum (cf. Rm 7.18) etc. Contudo, ele [Deus] pode tornar, e de fato torna, a presença do mal tão penosa para o crente que o faz ansiar ardentemente pela completa libertação dele.” Isto é, em bom português, ele mantém os seus pacientes tanto tempo no potro de tortura do pecado que habita neles que, por fim, eles são forçados a ansiar pela Morte, a grande purificadora da iniquidade do coração. Este argumento estaria completo se tivesse sido apoiado por estas duas passagens: É tão razoável que até quero morrer! (Jn 4.9); naqueles dias, as pessoas [atormentadas pelos gafanhotos que sobem do abismo] terão desejo de morrer, mas a morte fugirá delas (Ap 9.6). Para mostrar o seu absurdo, basta-me fazer sobre ele duas ou três observações:

(1) Observem a incoerência dos nossos opositores. Quando nos ouvem insistir na fé obediente junto a um crente caído ou vacilante, mencionando-lhe os terrores do Senhor (cf. 2Co 5.11), o temor de perder o favor divino e o perigo de ser até vomitado da boca de Cristo (cf. Ap 3.16) e de ser condenado sem misericórdia, se não usar de misericórdia (cf. Tg 2.13), dizem que insistir no amor de Cristo junto a um crente desobediente atenderá abundantemente a todos os bons fins que propomos ao pregar assim a lei de Cristo. Mas, quando defendem a continuação do pecado, esquecem a sua própria doutrina e nos dizem que o pecado que habita em nós é necessário para nos manter no caminho do dever, a saber, num ardente anseio pelo céu. Censuram-nos por usarmos a lei de Cristo para esporear os crentes; e, no entanto, eles (vejam a que altura espantosa chegou a sua parcialidade!), eles não coram ao pregar abertamente aos crentes a lei do pecado (cf. Rm 7.23), insistindo que a ação dela nos seus membros é necessária para “fazê-los ansiar pela terra da promessa como pela terra do descanso e pela rápida posse daquele grande bem que Deus lhes reservou” (página 52). Nós somos hereges por pregarmos a lei de Cristo, a lei da liberdade! E eles, que pregam a lei do pecado, a lei da escravidão, são ortodoxos e reservam para si o glorioso título de ministros do evangelho!

(2) Que absurdo é escorar o trono do pecado que habita em nós no coração dos crentes, para que a sua lei tirânica os faça ansiar pelo céu! Cristo não ansiava pelo céu sem ter pecado algum que habitasse nele? Os crentes mais santos, que estão mais livres do pecado que habita em nós, não são os que mais anseiam pela visão beatífica? E não vemos que os crentes caídos, que estão mais cheios do pecado que habita em nós, são os mais inclinados a ser amigos do pecado e do mundo, mais do que amigos de Deus (cf. 2Tm 3.4) e do céu? Não são eles exatamente as pessoas que, esquecidas da mulher de Ló (cf. Lc 17.32), ficam na campina, em vez de correr para salvar a vida e fugir para o monte celestial de Deus sem jamais olhar para trás (cf. Gn 19.17)?

(3) Não é o pecado que habita em nós antes um entrave do que uma espora para os que correm rumo ao céu? Se o pecado nos presta tanto serviço, fazendo-nos correr a carreira do santo anseio pelo descanso celestial, por que o apóstolo nos exorta: livremo-nos de todo peso e do pecado que tão firmemente se apega a nós (Hb 12.1)? Se precisamos de uma espora que nos faça apertar o passo, precisamos guardar a espora do pecado que habita em nós? Não é mais provável que ela nos esporeie para o inferno do que para o céu? Se temos milhares de esporas sem pecado, que necessidade temos de guardar, para nos impelir ao céu, aquilo que levou Adão a se esconder entre as árvores do jardim (cf. Gn 3.8), para não dizer que o expulsou do seu paraíso natal?

Se você perguntar quais são as esporas sem pecado dos crentes, respondemos: todas as fadigas, fraquezas e dores do nosso corpo mortal, cansado e em declínio; todos os problemas, decepções e tristezas que nascem das nossas circunstâncias presentes tão naturalmente quanto as faíscas saem do fogo (cf. Jó 5.7); uma parte das terríveis tentações que afligiram Cristo no deserto; e provas frequentes do cálice amargo que o fez suar sangue no jardim e clamar no Calvário. Ouçam alguém a quem os nossos opositores dão, absurdamente, a espora do pecado que habita em nós, como se ele não tivesse esporas suficientes sem ela: Preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne (Cl 1.24). E certamente o pecado que habita em nós nunca foi uma das aflições de Cristo. Mais uma vez: Quem nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo ou a espada? Como está escrito: “Por amor de ti, somos entregues à morte continuamente; fomos considerados como ovelhas para o matadouro.” (Rm 8.35-36). E ainda: alguns foram torturados, não aceitando seu resgate; outros, por sua vez, passaram pela prova de zombarias e açoites, sim, até de algemas e prisões. Foram apedrejados, serrados ao meio, foram tentados, mortos ao fio da espada. Andaram como peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras; passaram por necessidades, foram afligidos e maltratados. Andaram errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra (Hb 11.35-38). [N. do T.: “foram tentados” segue a King James, citada por Fletcher; a NAA não traz essas palavras.]

Admito que nem todos os verdadeiros crentes têm esses espinhos na carne (cf. 2Co 12.7) nem sentem as esporas que fizeram Elias fugir para salvar a vida diante da enfurecida Jezabel e pedir para morrer debaixo do zimbro (cf. 1Rs 19.4); mas, mesmo nos melhores tempos, eles têm, ou deveriam ter, a aflição de Davi: Meus olhos vertem rios de lágrimas, porque os outros não guardam a tua lei (Sl 119.136). Têm, ou deveriam ter, a dor de Jeremias: Quem dera a minha cabeça se tornasse em águas, e os meus olhos, em fonte de lágrimas! Então choraria de dia e de noite pela desolação de Jerusalém, ou pelos mortos da filha do povo de Deus! (Jr 9.1). Têm, ou deveriam ter, a tristeza do justo Ló, que ficava aflito, dia após dia, com a conduta libertina dos ímpios no meio dos quais habitava (cf. 2Pe 2.7-8). Supor, portanto, que neste vale de lágrimas, de tribulação e de pecado, precisamos guardar o aguilhão do pecado que habita em nós, porque devemos lutar contra o pecado que há no mundo até o fim, até o sangue (cf. Hb 12.4), se formos chamados a conquistar a coroa do martírio; ou porque “é vontade de Deus que, através de muitas tribulações, entremos no Reino” [página 46] (cf. At 14.22), e porque devemos ansiar pelo céu; supor, digo, que temos de guardar o aguilhão, o pecado que habita em nós, por esses motivos é tão absurdo quanto supor que todos os guardas e enfermeiros de Bedlam devem ser loucos e devem continuar atormentados por loucura pessoal, para que não deixem de lutar contra a loucura até o fim; para que não deixem de sair de grandes perturbações quando se mudarem da sua triste morada; e para que, enquanto ali permanecem, não deixem de ver loucos suficientes para fazê-los ansiar pela conversa de pessoas sensatas.

Argumento X. Página 52. Nosso autor encerra a sua astuta defesa do purgatório da morte propondo uma objeção muito importante: “Se alguém exclamar e disser: Estas opiniões tendem a reconciliar os crentes com o pecado, devo dizer: A carne poderia tão cedo reconciliar-se com o espírito quanto o espírito com a carne; ou o pecado com a graça, quanto a graça com o pecado. Diz-se muitas vezes que a natureza será sempre natureza. E por que não se pode aplicar isso à natureza divina, da qual se diz que os crentes são participantes?” (cf. 2Pe 1.4). Daí o nosso autor insinua que a natureza divina dos crentes é “imutável”; e que, como o querer está presente neles (cf. Rm 7.18), quando pecam ainda conservam a santidade de Deus, assim como “os leões e as águias, por mais confinados ou acariciados que sejam, conservam a sua ferocidade e os seus apetites brutais”.

Alegra-me ver que este autor piedoso ainda tem no coração a causa da santidade e deseja tapar a brecha antinomiana. Estou persuadido de que ele pretende prestar culto a Deus (cf. Jo 16.2) ao defender a continuação do pecado que habita em nós. Se ele pede o indulto desse ladrão e assassino, é apenas porque o antinomianismo o enganou, assim como outrora o farisaísmo enganou os judeus que gritavam: Solte-nos Barrabás! (Lc 23.18). Se ele visse que Cristo em nós tem de ser crucificado de novo (cf. Hb 6.6), caso o ladrão em nós não seja morto, não duvido de que lamentaria a sua publicação tanto quanto os judeus devotos lamentaram o seu pedido anticristão quando, no dia de Pentecostes, ficaram muito comovidos (At 2.37).

Mas, ai! Se uma boa intenção desculpa más realizações, não impede o mal que elas fazem. O próprio desejo que o nosso autor mostra de assegurar a piedade está expresso de modo tão infeliz que lhe desfere um golpe tão fatal quanto o que o tentador desferiu quando disse aos nossos primeiros pais: É certo que vocês não morrerão (Gn 3.4). Pois, quando esse senhor dá a entender aos crentes caídos: Vocês possuem a natureza divina; e, sejam as suas obras quais forem, se o querer estiver “em algum grau presente” (página 54), vocês possuem a santa imagem de Deus tanto quanto um leão possui a natureza feroz de leão; que é isso senão pregar o próprio evangelho que a serpente pregou no paraíso, com esta diferença: a serpente disse: Vocês não morrerão; vocês serão como Deus (cf. Gn 3.4-5); mas os imperfeccionistas dizem: A sua salvação está consumada; vocês já têm a “natureza imutável” de Deus; vocês já são como Deus? Adão acreditou no tentador e perdeu a sua natureza santa. Os imperfeccionistas acreditam no nosso autor. Oh! que nenhum deles permaneça “imutável” na imperfeição pecaminosa que ele defende com tanto empenho!

XI. Uma advertência. Tendo dito tanto sobre os enganos do nosso autor, eu seria indesculpável se não deixasse uma cautela acerca do véu com que eles estão encobertos. O seu livro sai pelo mundo sob o título inofensivo de “O conflito peculiar do cristão”, quando deveria chamar-se Defesa da conveniência e da utilidade da continuação do pecado que habita em nós em todos os cristãos. Esse título claro e sem artifício teria posto os verdadeiros cristãos de sobreaviso; mas agora eles tomam sem suspeita o cálice preparado pelo autor; e será bom se alguns ainda não o tiverem bebido até a borra, sem temor.

Uma ilustração dará ao leitor uma ideia da sabedoria com que foi engendrado o título deste ensaio. Escrevo um tratado inteiro sobre a vantagem de uma rebelião permanente no reino e insisto numa variedade de argumentos plausíveis para mostrar o grande bem que resultará de uma oposição inveterada ao governo. “Se o espírito de rebelião cessar em algum súdito, a paciência, a misericórdia, o amor e o poder do rei não serão tão plenamente manifestados, nem a lealdade dos seus bons súditos será tão bem distinguida e provada; a rebelião e os fardos que a acompanham nos farão ansiar pela paz; rebeldes culpados e ingratos amarão mais o rei e admirarão mais a sua misericórdia quando forem perdoados depois das suas muitas rebeliões. E, portanto [para usar as palavras imprudentes do nosso autor, página 53], convém que consideremos seriamente até que ponto este grande fim [de um espírito de rebelião habitando continuamente no peito de cada britânico] é compreendido, aprovado e alcançado.” Mostro o meu manuscrito a um amigo, que diz: O seu ensaio vai alarmar todos os que desejam o bem da constituição do reino. Mas eu removo a objeção dele dizendo: Não o chamarei “Ensaio sobre a conveniência e a utilidade de um espírito de rebelião constantemente abrigado no peito de cada um dos súditos de Sua Majestade”; chamá-lo-ei “O conflito do súdito leal: ensaio sobre 1Sm 12.19”, e esse título plausível abrirá caminho modestamente para os meus argumentos mais ousados. Defesas da continuação da rebelião e do pecado que habita em nós podem muito bem ser introduzidas por tal estratagema.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.