John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção XIII

Os danos da doutrina da imperfeição

Contém vários argumentos que provam o caráter nocivo das doutrinas da imperfeição cristã.

OS argumentos da seção anterior foram apresentados para mostrar o absurdo da doutrina da imperfeição cristã do sr. Hill; os que seguem destinam-se a provar o caráter nocivo desse dogma da moda.

I. Ela golpeia a doutrina da salvação pela fé. Pela graça vocês são salvos, mediante a fé (Ef 2.8), não só da culpa e dos atos exteriores do pecado, mas também da sua raiz e dos seus brotos ocultos. Não de1 obras, diz o apóstolo, para que ninguém se glorie [farisaicamente] (Ef 2.9). E não podemos acrescentar: Não da morte, para que aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo (Hb 2.14), não se glorie [absurdamente]? Aquilo que golpeia a doutrina da fé e encurta a salvação que obtemos por ela não golpeia igualmente o poder e a glória de Cristo? Não é ofício da fé receber a palavra salvadora de Cristo, apropriar-se do poder do seu Espírito santificador e herdar todas as grandes promessas pelas quais ele salva o seu povo, arrependido e crente, dos pecados deles (Mt 1.21)? Não é evidente que, se nenhum crente pode ser salvo do pecado que habita em nós mediante a fé, teremos de corrigir a doutrina do apóstolo e dizer: Pela graça vocês são salvos dos restos do pecado mediante a morte? E podem protestantes sem preconceito admitir um dogma que tanto rebaixa Cristo e exalta a Morte sem desferir um golpe perigoso nas autênticas doutrinas da Reforma?

II. Ela desonra Cristo como Profeta, pois como tal ele veio ensinar-nos a ser, já agora, mansos e humildes de coração (cf. Mt 11.29). Mas o evangelho imperfeito do nosso tempo ensina que temos de continuar necessariamente coléricos e orgulhosos de coração até a morte; pois o orgulho e a ira imoderada são, a meu ver, dois ramos principais do pecado que habita em nós. E mais: a minha epígrafe demonstra que ele ensinou publicamente às multidões a doutrina da perfeição, e o sr. Hill insinua que essa doutrina é “chocante”, para não dizer “blasfema”.

III. Ela avilta Cristo como o Capitão da nossa salvação (Hb 2.10). [N. do T.: assim na King James; a NAA traz “o Autor da salvação deles”.] Pois são Paulo diz que o nosso Capitão nos provê de armas poderosas em Deus, para destruir as fortalezas de Satanás, e para levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo (2Co 10.4-5). Mas os nossos opositores representam as fortalezas do diabo como absolutamente inexpugnáveis. Nenhuma das armas da nossa luta pode derrubar o trono de Apoliom. O pecado inato há de manter o seu lugar no coração do homem até que a morte desfira o golpe vitorioso. Cristo pode de fato combater a Jericó interior, como Joabe atacou Rabá, dos filhos de Amom (2Sm 12.26); mas depois terá de mandar chamar a Morte, como Joabe mandou chamar Davi, dizendo: Lutei contra Rabá e tomei a cidade das águas. Reúna agora o resto do exército e cerque a cidade para tomá-la; do contrário, se eu a tomar, ela poderia ser chamada pelo meu nome (2Sm 12.27-28).

IV. Ela despreza Cristo como o Fiador da nova aliança (cf. Hb 7.22), na qual Deus se comprometeu a conceder aos crentes obedientes que, livres das mãos de inimigos, o adorem sem temor (atormentador) todos os seus dias (Lc 1.74-75). Pois como ele cumpre o seu ofício nesse ponto, se nunca cuida de que tais crentes sejam libertados do seu inimigo mais opressor e mais inveterado, o pecado que habita em nós? Ou, se essa libertação só acontece na morte, como podem eles, em virtude da sua liberdade pela morte, adorar a Deus sem temor todos os dias da sua vida?

V. Ela afronta Cristo como Rei, quando representa o coração do crente, que é o trono espiritual de Cristo, como necessariamente cheio do pecado que habita em nós, um rebelde espiritual que, apesar dos esforços conjuntos de Cristo e do crente, mantém o seu terreno contra os dois enquanto dura a vida. E mais: um bom rei não livra os seus súditos leais da opressão e não os vinga de um adversário tirânico quando eles clamam a ele na sua aflição? Mas nosso Senhor se mostra esse rei, se nunca os vinga, nem expulsa do peito deles o usurpador, o assassino, o pecado? Ainda outra vez: se a nossa libertação do pecado depende do golpe da morte, e não de um golpe da graça de Cristo, não poderíamos invocar o rei dos terrores (Jó 18.14), tanto quanto o Rei dos santos (Ap 15.3), para sermos libertados dos restos do pecado? [N. do T.: assim na King James; a NAA traz “Rei das nações”.] Mas que diferença há entre dizer Ó Morte, socorre-nos e clamar Ó Baal, salva-nos (cf. 1Rs 18.26)?

VI. Ela fere Cristo como o Restaurador do culto puro e espiritual no templo espiritual de Deus, o coração do homem. Pois o representa indiretamente como um Salvador farisaico, que fez grande alarde ao expulsar com um chicote ovelhas e bois inofensivos do templo material do seu Pai (cf. Jo 2.15), mas dá plena licença a Satanás não só para trazer ovelhas e pombas para o coração do crente, mas também para abrigar e criar ali, enquanto dura a vida, o sapo inchado [o orgulho] e a víbora sibilante [a inveja], para não falar do cão voraz [a avareza] e do porco imundo [a impureza], sob o pretexto de “exercitar a paciência e estimular a diligência” dos adoradores, se dermos crédito ao Calvino do nosso tempo. Ver o Arg. I da Seção XIV contra a perfeição cristã, no fim desta seção.

VII. Ela insulta Cristo como Sacerdote. Pois o nosso Melquisedeque derramou na cruz o seu sangue, que tudo purifica, e agora apresenta diante do trono a sua oração, que tudo alcança, pedindo que, em termos evangélicos, sejamos agora purificados de toda injustiça (1Jo 1.9) e aperfeiçoados na unidade (Jo 17.23). Mas, se afirmamos que os crentes, por mais fiéis que sejam, nunca podem ser assim purificados e aperfeiçoados na unidade até que a Morte venha em auxílio do Salvador, não pomos o sangue purificador de nosso Senhor, a sua poderosa intercessão e, por conseguinte, o seu sacerdócio sob uma luz antibíblica e desprezível?

Se o sr. Hill tentar devolver este argumento dizendo “que é a nossa doutrina, e não a dele, que tira a honra do sacerdócio de Cristo, porque já não precisaríamos do sangue do nosso Sumo Sacerdote se fôssemos purificados de todo pecado”, respondo: (1) Os cristãos perfeitos precisam da virtude do sangue de Cristo para impedir que a culpa e a impureza do pecado voltem, tanto quanto os cristãos imperfeitos precisam dela para afastar essa culpa e essa impureza. Não basta que o sangue do verdadeiro Cordeiro pascal tenha sido aspergido sobre a nossa alma para manter o destruidor à distância; ele precisa continuar ali, para impedi-lo de voltar com outros sete espíritos, piores do que ele (Mt 12.45). (2) O sr. Hill está às escuras; pede uma luz; e, quando ela é trazida, observa que a escuridão do quarto foi agora totalmente removida. “É mesmo, senhor?”, responde o seu criado. “Então o senhor não precisa mais destas velas. Se elas removeram totalmente a escuridão do seu aposento, o senhor não tem mais necessidade delas.” O sr. Hill sorri do absurdo do argumento do seu criado; e, no entanto, bom será se ele não admirar a sabedoria da objeção do meu opositor. (3) O coração dos cristãos perfeitos é purificado, e mantido puro, pela fé; e a perfeição cristã quer dizer a perfeição da fé cristã, cuja propriedade é tornar Cristo e o seu sangue cada vez mais queridos. Nada, então, pode ser menos razoável do que dizer que, segundo os nossos princípios, os crentes perfeitos já não precisam do sangue expiatório. (4) Tais crentes continuamente vencem o acusador dos irmãos (cf. Ap 12.10) por causa do sangue do Cordeiro (Ap 12.11); não há, portanto, momento algum em que possam dispensá-lo. Os crentes fracos é que ainda conseguem passar sem a sua aplicação constante; e é por isso que continuam fracos. Ninguém faz tanto uso do sangue de Cristo quanto os cristãos perfeitos. Antes ele era apenas o seu remédio, que tomavam de vez em quando, quando um acesso de medo ou uma pontada de culpa os obrigava a isso; mas agora é o preventivo divino que afasta o contágio do pecado. Agora é o cordial revigorante que tomam para não se cansarem nem desanimarem (cf. Hb 12.3); agora é a sua bebida diária; agora é aquilo com que aspergem cada pensamento, palavra e obra. Numa palavra, é aquele sangue que constantemente fala, diante de Deus e na consciência deles, melhor do que o sangue de Abel (Hb 12.24), e que de fato lhes obtém todas as bênçãos que desfrutam ou esperam. Dizer, portanto, que a doutrina da perfeição cristã dispensa a necessidade do sangue de Cristo não é menos absurdo do que afirmar que a perfeição da navegação faz do grande abismo um reservatório de água inútil. Por último: os santos diante do trono não estão perfeitamente sem pecado? E quem está mais pronto do que eles para exaltar o sangue e entoar o cântico do Cordeiro: Àquele que nos ama e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados… a ele a glória etc. (Ap 1.5-6)? Se um anjo lhes pregasse o evangelho moderno e lhes pedisse que defendessem os restos do pecado, para que não perdessem o seu apreço especial pelo sangue expiatório, não suspeitariam todos que ele era um anjo das trevas disfarçado de anjo de luz (cf. 2Co 11.14)? E havemos nós de ser enganados pelo Tentador, que engana homens bons para que eles nos enganem com um argumento semelhante?

VIII. Ela desacredita Cristo como aquele que cumpre a promessa do Pai (cf. At 1.4) e como aquele que envia o Consolador, que habita e permanece em nós (cf. Jo 14.16-17), para que a nossa alegria seja completa (cf. Jo 15.11). Pois o Espírito nunca faz a sua morada constante, como Consolador, num coração cheio do pecado que habita em nós. Se ele visita com as suas consolações um coração pecador, é apenas como um hóspede que se demora só um dia. [N. do T.: expressão do livro apócrifo da Sabedoria (5.14).] Quando entra numa alma carregada de corrupção inata, age antes como Repreensor do que como Consolador: derruba as mesas dos cambistas espirituais (cf. Mt 21.12); impede que os vasos que não são consagrados ao Senhor sejam carregados através do templo espiritual de Deus (cf. Mc 11.16; Zc 14.20); e expulsa, na medida da nossa fé, tudo o que faria da casa de Deus um covil de salteadores (Mt 21.13).

Mas, em vez disso, a doutrina do sr. Hill considera o coração dos crentes uma cova de leões e representa o Espírito de Cristo não como o destruidor, mas como o guarda das feras e das más disposições que habitam no nosso peito. Concluo isso destas palavras do rev. sr. Toplady: “Eles (o pecado que habita em nós e as disposições ímpias) não expiram de todo até que a alma renovada seja levada da terra para o céu. Entretanto, esses odiados restos de depravação, com frequência demais, como prisioneiros num calabouço, se arrastam até a janela (embora acorrentados) e se mostram através das grades. Mais ainda: não sei se as lutas da corrupção inerente pelo domínio não são muitas vezes mais violentas numa pessoa regenerada do que mesmo em alguém que está morto em transgressões (cf. Ef 2.1), assim como as feras às vezes ficam mais desenfreadas e furiosas por terem sido feridas.” Ver Advertência contra doutrinas falsas, página 65. Quando leio esse evangelho, não posso deixar de lançar uma advertência contra a Advertência do sr. Toplady. Pois, se a dele não é falsa, todos hão de admitir que é desconsoladora e insegura. Quem não acharia terrivelmente perigoso morar com uma fera que não pode ser morta sem que antes sejamos mortos nós mesmos? Mas quanto mais perigoso é ser condenado a morar a vida inteira com um bando delas, que não só são imortais enquanto vivermos, mas às vezes ficam mais desenfreadas e furiosas por terem sido feridas! O Salvador pregado pelo sr. Toplady apenas fere o Dragão egípcio, o Faraó interior, e o enfurece; mas o nosso Jesus o afoga no mar do seu próprio sangue, simplesmente estendendo a vara do seu poder (cf. Êx 14.27), quando estendemos a ele os nossos braços de fé. O Redentor do sr. Hill apenas faz Agague prisioneiro, como fez o vacilante Saul; mas o nosso Redentor o despedaça, como o íntegro Samuel (1Sm 15.33). O Cristo dos calvinistas diz: “Prendam o inimigo, ainda que ele talvez fique mais feroz do que antes.” Mas o nosso expulsa os inimigos de diante de nós e diz: Destrua-os (Dt 33.27). Ó pregadores da salvação consumada, deixamos à franqueza de vocês decidir qual dessas doutrinas traz mais glória ao nome salvador de Jesus.

IX. A doutrina da nossa permanência necessária no pecado que habita em nós até os nossos últimos momentos nos leva naturalmente a desprezar, ou a deixar passar despercebidas, as preciosas e mui grandes promessas que nos foram concedidas, para que por elas nos tornemos coparticipantes da natureza divina [isto é, da perfeita santidade de Deus], tendo escapado da corrupção das paixões que há no mundo (2Pe 1.4); e, desse modo, frustra naturalmente o efeito pleno das verdades evangélicas e dos trabalhos ministeriais, efeito este que são Paulo descreve assim: ensinando a cada um em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos cada pessoa perfeita em Cristo Jesus, isto é, perfeita segundo a mais rica dispensação da graça divina, que é o evangelho de Cristo Jesus (Cl 1.28). E ainda: Toda a Escritura é… útil… para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2Tm 3.16-17). Ora, entendemos que a perfeição que habilita perfeitamente os crentes para toda boa obra é uma perfeição que produz todas as boas obras [no sentido evangélico, bem como no providencial] que Deus de antemão preparou para que andássemos nelas antes da morte (cf. Ef 2.10); porque (insinue o sr. Hill o que quiser em contrário na Inglaterra, e o padre Walsh em Paris) a Escritura diz: Tudo o que vier às suas mãos para fazer, faça-o conforme as suas forças, porque [na morte, isto é,] na sepultura, que é para onde você vai, não há obra, nem projetos (Ec 9.10). Pois, como a árvore cai, assim fica (cf. Ec 11.3): se cair cheia de podridão, com uma ninhada de víboras e um verme que nunca morre no seu centro oco, continuará exatamente nesse estado; e ai do homem que confia que as dores da morte matarão o verme, ou que um fogo purgativo poupará a madeira podre e consumirá as víboras.

X. Ela frustra em parte o fim dos preceitos do evangelho, para cujo cumprimento as promessas do evangelho não passam de um meio. Toda a Lei e os Profetas, e os escritos apostólicos, dependem destes dois mandamentos (Mt 22.40): “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, e o seu próximo como a si mesmo (Mt 22.37,39), por meio da fé penitente, à luz da sua dispensação”; isto é, em duas palavras: Você será perfeito no sentido evangélico. Ora, se cremos que é absolutamente impossível ser assim perfeito guardando pela fé esses dois benditos mandamentos, não podemos deixar de crer também que Deus, que exige que os guardemos, é falho em sabedoria, equidade e bondade, por exigir de nós o que é absolutamente impossível; e representamos a nossa igreja como uma madrasta perversa, que leva traiçoeiramente todos os seus filhos a cometer levianamente perjúrio, ao exigir de cada um deles, no sacramento do batismo, um voto soleníssimo, pelo qual se comprometem, na presença de Deus e da congregação, a guardar a santa vontade e os mandamentos de Deus [isto é, a guardar a lei evangélica de Deus] e a andar neles todos os dias da sua vida.

XI. Ela tende necessariamente a tirar o vigor das nossas orações mais profundas. Como podemos pedir com fé que Deus nos ajude a fazer a sua vontade, assim na terra como no céu (cf. Mt 6.10), ou que purifique os pensamentos do nosso coração, para que o amemos perfeitamente e engrandeçamos dignamente o seu santo nome? Como podemos, repito, pedir isso com fé, se não cremos sequer na possibilidade de essas petições serem atendidas? E que pobre estímulo teria tido Epafras, no sistema a que nos opomos, para estar sempre lutando pelos colossenses em oração, para que se conservassem perfeitos e completos em toda a vontade de Deus (Cl 4.12) [N. do T.: a NAA traz “maduros e plenamente convictos”.]; ou são Paulo, para desejar que o próprio Deus da paz santificasse os tessalonicenses em tudo e que o espírito, a alma e o corpo deles fossem conservados íntegros e irrepreensíveis (1Ts 5.23) [N. do T.: a edição de 1792 imprime “a própria paz de Deus”.], se esses pedidos não pudessem ser atendidos antes da morte e tivessem de ser atendidos inevitavelmente, a eles e a todos os crentes, na hora da morte?

XII. Ela acalma os professos mornos e não santificados e os anima a sentar-se tranquilamente debaixo da videira de Sodoma (cf. Dt 32.32) e debaixo da sua própria figueira estéril; refiro-me: debaixo da influência funesta da sua incredulidade e do pecado que habita neles; pois nada agrada mais à mente carnal do que este canto de sereia: “É absolutamente impossível que os pensamentos do coração de vocês sejam purificados nesta vida. O próprio Deus não espera que vocês sejam purificados de toda iniquidade deste lado da sepultura. Convém que o pecado habite no coração de vocês pela incredulidade, para tornar Cristo precioso para vocês e assim cooperar para o seu bem” (cf. Rm 8.28). Os pregadores da mera moralidade insinuam que Deus não perdoa os pecados antes da morte. Essa doutrina perigosa e desconsoladora abafa a fé dos penitentes, que acham absurdo esperar antes da morte o que lhes ensinam que só podem receber na morte. E, como acontece com o perdão dos pecados, acontece também com a purificação de toda injustiça (cf. 1Jo 1.9). Os pregadores da imperfeição cristã dizem aos seus ouvintes que ninguém pode ser purificado do pecado do coração antes da morte. Essa nova doutrina os leva a confiar secretamente num purgatório da morte e os impede de reivindicar com fé a promessa da plena santificação antes que a morte os encare de frente; enquanto outros, como Agague, que fora poupado (cf. 1Sm 15.32-33), lançam-se loucamente contra a lança do rei dos terrores (cf. Jó 18.14) com o coração cheio do pecado que neles habita. Os mortos agora não contam histórias; mas será bom se, no dia da ressurreição, os que defendem a permanência necessária do pecado em nós durante todo o tempo da vida não encontrarem, no grande dia, algumas almas enganadas que não lhes agradecerão por as terem entregado traiçoeiramente, até os seus últimos momentos, nas mãos do pecado que habitava nelas, insinuando que não pode haver libertação das nossas más disposições antes de estarmos prestes a trocar o leito de morte pelo caixão.

XIII. Ela desanima muito os israelitas dispostos e enfraquece as mãos dos espias fiéis, que querem conduzir adiante os crentes fracos e tomar à força o reino (cf. Mt 11.12) que consiste em justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17); pois nada é mais próprio para abafar o seu ardor do que um discurso como este: “Vocês podem lutar contra as suas corrupções e más disposições quanto quiserem, mas nunca se livrarão delas. A Jericó interior é inexpugnável: tem muralhas que chegam até os céus (cf. Dt 9.1) e é guarnecida pelos altos, invencíveis e imortais filhos de Anaque (cf. Nm 13.33). Esses adversários são tão fortes que os doze apóstolos, com a ajuda de Cristo e do Espírito Santo, nunca conseguiram desalojar um só deles do seu posto. Mais ainda: eles esbofetearam (cf. 2Co 12.7) e subjugaram de tal modo são Paulo, o mais zeloso dos apóstolos, que o fizeram prisioneiro de fato, o venderam à escravidão do pecado (Rm 7.14) e o fizeram gemer até o fim: Miserável homem carnal que sou! Quem me livrará da lei das minhas corrupções inatas, que me faz prisioneiro da lei do pecado? Graças a Deus por meio da morte! De maneira que, segundo a carne, vocês, assim como são Paulo, têm de ser escravos da lei do pecado até morrer (cf. Rm 7.23-25). E não precisam afligir-se com essas notícias, porque elas são o puro evangelho de Cristo, as genuínas doutrinas da graça livre e da liberdade cristã. Em Cristo vocês são livres, mas em si mesmos têm de continuar a ser escravos da lei do pecado. E, de fato, por que não o seriam, uma vez que os pecados de um cristão são para o seu bem e até o esterco de uma ovelha de Cristo tem alguma utilidade? Ou melhor, a mais excelente utilidade, se crermos no sr. Hill; pois as quedas mais graves (quedas em repetidos atos de adultério e em homicídio deliberado) servem para nos fazer conhecer o nosso lugar, para nos levar mais perto de Cristo e para nos fazer cantar mais alto os louvores da graça restauradora.” Além disso, esse cavalheiro representa os que pregam a libertação do pecado que habita em nós antes de entrarmos num purgatório da morte como homens de feitio farisaico: cegos, que nunca viram o próprio coração; orgulhosos, que se opõem à justiça de Deus (cf. Rm 10.3); vaidosos, que aspiram a roubar a Cristo a glória de ser o único sem pecado; em suma, homens que sustentam doutrinas que são chocantes, para não dizer blasfemas.

Como esse discurso abafaria o nosso desejo de ser salvos do pecado que habita em nós! Como nos faria abraçar as malditas cadeias das nossas corrupções inatas, se o pé fendido da imperfeita e impura Diana, que ele expõe à vista do público sem as sandálias do evangelho, não bastasse para nos fazer recuar, chocados, deste evangelho impuro para o puro evangelho de Jesus Cristo! E, no entanto (se não me engano), esse discurso perigoso apenas desdobra o alcance do Credo para Perfeccionistas do sr. Hill.

XIV. Para concluir: a doutrina da moda, a da imperfeição cristã e do purgatório da morte, é engendrada de tal modo que os homens carnais sempre preferirão o purgatório dos calvinistas ao dos papistas. Pois os papistas prescrevem não sei quantos cálices de ira divina e de terrível vingança, que devem ser bebidos pelas almas dos crentes que morrem purificados pela metade, ou limpos em três quartos. Essas criaturas meio condenadas, ou condenadas em um quarto, têm de passar por uma disciplina severa e por uma salvação pelo fogo nos próprios arrabaldes do inferno, antes de poderem ser perfeitamente purificadas. Mas os nossos opositores descobriram um meio de livrar de todo temor, nesse ponto, os crentes de coração dividido. Tais crentes não precisam destruir inteiramente o corpo do pecado (cf. Rm 6.6) neste mundo. O homem do pecado que nasceu conosco não apenas pode, mas há de viver tanto quanto nós. Talvez você pergunte: “Que será desse hóspede pecaminoso? Ele nos levará para o inferno, ou nós o levaremos para o céu? Se ele não pode morrer neste mundo, Cristo o destruirá no outro?” Não: aqui Cristo é quase deixado fora da questão por aqueles que alegam ter decidido nada saber, a não ser Cristo, e este, crucificado (cf. 1Co 2.2). O nosso adversário interior não é destruído pelo resplendor da manifestação espiritual do Redentor (cf. 2Ts 2.8), mas pela escuridão da aparição da Morte. Assim, eles encontraram outro Jesus (cf. 2Co 11.4), outro Salvador do pecado. O rei dos terrores vem em socorro da graça santificadora de Jesus e livra instantaneamente o crente carnal do orgulho, da incredulidade, da cobiça, da irritabilidade, da falta de caridade, do amor ao mundo e da afeição desordenada que habitam nele. Assim, ao que parece, os suores frios e pegajosos provocados pelo monstro voraz matam a árvore do pecado, da qual o sangue de Cristo só podia matar os brotos! O alento do pecador moribundo faz a obra capital do Espírito de santidade! E, pelo mais assombroso de todos os milagres, o último suspiro, fraco e contagioso, de um crente pecador remove com um sopro, num abrir e fechar de olhos (cf. 1Co 15.52), o grande monte da corrupção interior (cf. Zc 4.7), que todos os meios de graça, toda a fé, as orações e os sacramentos de vinte, talvez de quarenta anos, com todo o amor no coração do nosso Zorobabel, todo o sangue nas suas veias, todo o poder nas suas mãos e toda a fidelidade no seu peito, nunca foram capazes de remover! Se essa doutrina é verdadeira, quanto são Paulo se enganou ao dizer: O aguilhão da morte é o pecado etc. (1Co 15.56); Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de Cristo, nosso Senhor! (cf. 1Co 15.57) Não deveria ele ter dito: A morte é a cura do pecado, em vez de dizer: o pecado é o aguilhão da morte? E não deveriam os seus louvores correr assim: Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio da Morte, nosso grande e único Libertador do nosso maior e mais feroz inimigo, o pecado que habita em nós?

Notas de Fletcher

1. Aqui, e em alguns outros lugares, são Paulo entende por obras apenas as obras de uma lei sem Cristo e contrária à mediação, e a obediência prestada à aliança judaica, que muitas vezes é chamada a lei, em oposição à aliança cristã, que comumente é chamada o evangelho, isto é, o evangelho de Cristo, porque o evangelho de Cristo é a mais excelente de todas as dispensações do evangelho. Portanto, o apóstolo, com a expressão não de obras, de modo algum exclui da salvação final a lei da fé (cf. Rm 3.27) e as obras feitas em obediência a essa lei. Pois no versículo anterior ele garante a obediência da fé (cf. Rm 1.5) quando diz: Vocês são salvos, isto é, feitos participantes das bênçãos da dispensação cristã, pela graça, mediante a fé. Aqui, então, a expressão pela graça garante o primeiro axioma do evangelho, e a expressão mediante a fé garante o segundo.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.