John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção XX

Palavra aos cristãos perfeitos

Palavra aos cristãos perfeitos.

Vocês não cantaram em vão os hinos precedentes, ó homens de Deus, que misturaram fé aos seus pedidos evangélicos. O Deus que diz: “Abra bem a boca, e eu a encherei” (Sl 81.10); o Deus gracioso que declara: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mt 5.6); esse Deus fiel, que guarda a aliança, agora “encheu vocês de toda justiça, paz e alegria na fé” (cf. Rm 15.13). A manifestação da vinda de Cristo destruiu o homem do pecado que habitava em vocês (cf. 2Ts 2.3, 8). Aquele que matara o leão e o urso (cf. 1Sm 17.36-37) [aquele que já tinha feito coisas tão grandes por vocês] coroou agora todas as suas bênçãos matando o Golias interior. O eu ambicioso e incrédulo caiu diante do vitorioso Filho de Davi. A palavra de Deus, viva e eficaz, mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetrou até o ponto de dividir alma e espírito (Hb 4.12). A mentalidade carnal foi cortada fora; a circuncisão do coração, pelo Espírito (Rm 2.29), realizou-se plenamente no peito de vocês; e agora há em vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus (cf. Fp 2.5). Vocês têm a inclinação do Espírito (cf. Rm 8.6); amando a Deus de todo o coração e ao próximo como a vocês mesmos, estão cheios de bondade (cf. Rm 15.14), guardam os mandamentos, observam a lei da liberdade (cf. Tg 1.25), cumprem a lei de Cristo (cf. Gl 6.2). Dele vocês aprenderam a ser mansos e humildes de coração. Tomaram plenamente sobre vocês o jugo dele e, ao fazê-lo, acharam descanso doce e permanente para a sua alma (cf. Mt 11.29); e, por bendita experiência, podem dizer: “O jugo de Cristo é suave, e o seu fardo é leve (cf. Mt 11.30). Os seus caminhos são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são paz (Pv 3.17). Todas as veredas do Senhor são misericórdia e verdade para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos (Sl 25.10).” As bem-aventuranças são de vocês de modo perceptível; e o amor descrito por são Paulo (cf. 1Co 13.4-7) ocupa no peito de vocês o mesmo lugar que as tábuas da lei ocupavam na arca da aliança. Vocês são templos vivos da Trindade: o Pai é a sua vida; o Filho, a sua luz; o Espírito, o seu amor. Estão verdadeiramente batizados no mistério de Deus, continuam a beber de um só Espírito (cf. 1Co 12.13) e assim desfrutam a graça dos dois sacramentos. Acabou-se o seu Ele está aqui! e Lá está ele! O Reino de Deus está agora estabelecido dentro de vocês (cf. Lc 17.21). A justiça, a paz e a alegria de Cristo (cf. Rm 14.17) estão enraizadas no peito de vocês pelo Espírito Santo que lhes foi dado (cf. Rm 5.5) como guia permanente e Consolador que habita em vocês. O olho da sua fé, voltado para dentro, contempla a Deus, que os guia suavemente com os seus olhos (cf. Sl 32.8) em toda a verdade necessária para que pratiquem a justiça, amem a misericórdia e andem humildemente com o seu Deus (cf. Mq 6.8). A simplicidade de intenção mantém as trevas fora da mente de vocês, e a pureza de afeto mantém fogos indevidos fora do seu peito. Pela primeira, vocês são sem dolo; pela segunda, sem inveja. A vontade passiva de vocês se funde instantaneamente na vontade de Deus, e em todas as ocasiões vocês dizem com mansidão: Pai, não se faça a minha vontade, e sim a tua (cf. Lc 22.42); assim, estão sempre prontos a sofrer o que são chamados a sofrer. A vontade ativa de vocês diz sempre: Fala, Senhor, porque o teu servo ouve (1Sm 3.9); o que devo fazer? (cf. At 22.10); a minha comida e a minha bebida consistem em fazer a vontade do meu Pai celestial (cf. Jo 4.34). Assim, vocês estão sempre prontos a fazer tudo o que estão convencidos de que Deus os chama a fazer; e, quer comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, fazem tudo para a glória de Deus (cf. 1Co 10.31) e em nome do nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Cl 3.17), sempre alegres, orando sem cessar, em tudo dando graças (cf. 1Ts 5.16-18), esperando solenemente e apressando a hora da sua partida e o Dia de Deus, no qual os céus, incendiados, serão desfeitos (cf. 2Pe 3.12), e a alma de vocês, revestida de um corpo celestial, poderá prestar serviços celestiais ao Deus da sua vida.

Neste bendito estado de perfeição cristã, a santa unção que vocês receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine, a não ser como a mesma unção os ensina (cf. 1Jo 2.27). Em conformidade, portanto, com essa unção, que ensina por uma variedade de meios, que outrora ensinou um profeta por meio de uma jumenta (cf. Nm 22.28) e diariamente instrui os filhos de Deus por meio da formiga (cf. Pv 6.6), ousarei expor-lhes algumas orientações importantes, que o Espírito Santo já sugeriu à mente pura de vocês. Pois não deixarei de fazer com que vocês se lembrem destas coisas, embora já as conheçam e tenham sido confirmados na verdade presente (cf. 2Pe 1.12). Sim, considero justo despertar vocês, trazendo-lhes estas coisas à lembrança (cf. 2Pe 1.13) e dando-lhes algumas indicações sobre as quais é seguro meditarem com frequência.

I. Adão, como vocês sabem, perdeu no paraíso a sua perfeição humana; Satanás perdeu no céu a sua perfeição angélica; o diabo investiu duramente contra Cristo no deserto, para derrubá-lo da sua perfeição de Mediador; e são Paulo, nas mesmas epístolas em que professa não só a perfeição cristã, mas também a apostólica [Fp 3.15; 1Co 2.6; 2Co 12.11], nos informa que continuava a correr pela coroa da perfeição celestial como um homem que podia não apenas perder a sua coroa de perfeição cristã, mas também tornar-se réprobo e ser desqualificado (1Co 9.25, 27). Por isso, corram também vocês de tal maneira que ninguém tome a sua coroa de perfeição cristã neste mundo (Ap 3.11), e que ganhem a sua coroa de perfeição angélica no mundo vindouro (1Co 9.24). Continuem a dominar o seu corpo. Continuem a guardar os seus sentidos. Continuem a vigiar o seu próprio coração; e, firmes na fé, continuem a resistir ao diabo, para que ele fuja de vocês (cf. Tg 4.7; 1Pe 5.9), lembrando-se de que, se o próprio Cristo [como Filho do homem] tivesse dado ouvidos à carne e ao sangue, recusado negar-se a si mesmo e evitado tomar a sua cruz, teria perdido a sua perfeição e selado a nossa apostasia original.

“Não encontramos”, [diz o sr. Wesley na sua Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã], “nenhum estado geral descrito na Escritura do qual o homem não possa recair no pecado. Se houvesse algum estado em que isso fosse impossível, seria o daqueles que estão santificados, que são pais em Cristo, que estão sempre alegres, oram sem cessar e em tudo dão graças (1Ts 5.16-18). Mas não é impossível que estes recaiam. Os que estão santificados ainda podem cair e perecer (Hb 10.29). Até os pais em Cristo precisam desta advertência: Não amem o mundo (1Jo 2.15). Os que estão sempre alegres, oram e dão graças sem cessar podem, apesar disso, apagar o Espírito (1Ts 5.16-19). Mais ainda: até os que foram selados para o dia da redenção ainda podem entristecer o Espírito Santo de Deus (Ef 4.30) [N. do T.: a edição de 1792 imprime “Ef 5.30”.].”1

A doutrina da perseverança absoluta dos santos é a primeira carta que o diabo jogou contra o homem: “É certo que vocês não morrerão (Gn 3.4), se quebrarem a lei da sua perfeição.” Essa carta fatal ganhou a partida. A humanidade e o paraíso se perderam. A serpente astuta tinha tido sucesso grande demais na sua primeira partida para esquecer aquela carta feliz na segunda. Vejam-na disfarçando-se de anjo de luz (cf. 2Co 11.14) sobre o pináculo do templo (Mt 4.5). Ali ela joga outra vez a sua velha partida contra o Filho de Deus. Da Bíblia ela tira justamente a carta que venceu os nossos primeiros pais e levou a aposta, o paraíso; sim, varreu-o com a vassoura da destruição. Jogue-se daqui, diz ela, porque está escrito que todas as coisas cooperarão para o seu bem (cf. Rm 8.28), sem excetuar as suas próprias quedas: Aos seus anjos ele dará ordens a seu respeito. E eles o sustentarão nas suas mãos, para que você não tropece em alguma pedra (Mt 4.6). O tentador [graças a Cristo] perdeu a partida daquela vez; mas não perdeu a sua carta, e é provável que a jogue, um por um, contra todos vocês, só que com alguma variação. Deixem-me mencionar uma entre mil. Ele prometeu ao nosso Senhor que os anjos de Deus o sustentariam nas suas mãos, se ele se jogasse dali; e não é improvável que prometa a vocês coisas ainda maiores. Nem eu me admiraria se ele tivesse a ousadia de insinuar que, quando vocês se jogarem, o próprio Deus os sustentará nas mãos dele, sim, nos seus braços de amor eterno. Ó homens de Deus, aprendam a sabedoria com a queda de Adão. Ó filhos ungidos do Altíssimo, aprendam a vigilância com a conduta de Cristo. Se ele teve medo de pôr à prova o Senhor, seu Deus (Mt 4.7), vocês ousarão fazê-lo? Se ele rejeitou como veneno o anzol da perseverança absoluta dos santos, embora estivesse iscado com a Escritura, vocês o engolirão como se fosse mel que escorre da Rocha eterna (cf. Sl 81.16)? Não: as sagradas letras tornaram vocês sábios para a salvação pela fé em Cristo (2Tm 3.15). Vocês não só fugirão com toda a pressa do mal, mas até da própria aparência do mal (cf. 1Ts 5.22); e, quando estiverem à beira de uma tentação, longe de entrar nela sob qualquer pretexto, saltarão de volta para o seio daquele que diz: Vigiem e orem, para que não caiam em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26.41). Admito que [falando segundo o evangelho] a fraqueza da carne não é pecado; mas o engano do pecado (Hb 3.13) se insinua por essa porta, e por esse meio não poucos filhos de Deus, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento santificador de Cristo, sob pretextos plausíveis, se deixaram enredar de novo e foram vencidos (2Pe 2.20). Que as quedas deles os tornem cautelosos. Vocês se vestiram com toda a armadura de Deus (cf. Ef 6.11): ó, conservem-na vestida e usem-na com todo tipo de oração (Ef 6.18), para que possam até o fim permanecer completos em Cristo (cf. Cl 2.10) e ser mais que vencedores por meio daquele que os amou (Rm 8.37).

II. Lembrem-se de que todo aquele que for perfeito será como o seu mestre (Lc 6.40) [N. do T.: a NAA traz “todo aquele, porém, que for bem-instruído será como o seu mestre”; Fletcher segue a King James, “every one that is perfect”.]. Ora, se o seu Mestre foi tentado e assaltado até o fim; se até o fim vigiou e orou, usando ele mesmo todos os meios de graça e impondo o seu uso aos outros; se até o fim combateu o mundo, a carne e o diabo, e não tirou a armadura antes de deixar o corpo, não se julguem acima dele; antes, vão e façam o mesmo (Lc 10.37). Se ele não reconquistou o paraíso sem passar pela renúncia mais completa a todos os bens deste mundo e sem se submeter mansamente ao golpe severo do seu último inimigo, a morte (cf. 1Co 15.26), contentem-se em ser perfeitos como ele foi. E não imaginem que a sua carne e o seu sangue podem herdar o reino celestial de Deus (cf. 1Co 15.50), quando a carne e o sangue que o próprio Emanuel assumiu de uma virgem pura não puderam herdá-lo sem passar sob a espada flamejante do querubim; quero dizer, sem atravessar as portas da morte.

III. Vocês não são completos em sabedoria. O amor perfeito não implica conhecimento perfeito, mas humildade perfeita e perfeita disposição de receber instrução. Lembrem-se, portanto, de que, se algum dia mostrarem que estão acima de ser instruídos, mesmo por um pescador que ensina segundo a unção divina, mostrarão que caíram de uma perfeição de humildade numa perfeição de orgulho.

IV. Não confundam a perfeição angélica com a perfeição cristã. Arroubos ininterruptos de louvor e êxtases incessantes de alegria não pertencem à perfeição cristã, mas à angélica. A nossa frágil constituição só suporta algumas gotas daquele cálice glorioso. Em geral, esse vinho novo é forte demais para os nossos odres velhos (cf. Mt 9.17); esse poder é excelente demais para os nossos vasos de barro rachados (cf. 2Co 4.7). Mas, fracos como são, eles suportam a plenitude da mansidão, da resignação, da humildade e daquele amor que está disposto a obedecer até a morte (cf. Fp 2.8). Se Deus lhes conceder êxtases e revelações extraordinárias, sejam gratos por elas; mas não se exaltem demais por causa delas (cf. 2Co 12.7); tenham cuidado para que ilusões fanáticas não se misturem com elas; e lembrem-se de que a sua perfeição cristã não consiste tanto em fazer uma tenda (cf. Mt 17.4) no monte Tabor para ali descansar e desfrutar visões raras, quanto em tomar resolutamente a cruz e seguir a Cristo até o palácio de um Caifás orgulhoso, até o pretório de um Pilatos injusto e até o alto de um Calvário ignominioso. Vocês nunca leram na sua Bíblia: “Esteja em vocês a glória que esteve também em santo Estêvão, quando ele fitou os olhos no céu e disse: Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem, em pé à direita de Deus (At 7.55-56).” Mas leram ali muitas vezes: Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus, que se esvaziou, assumindo a forma de servo; e, reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.5-8).

Vejam-no naquele patíbulo ignominioso. Ele está pendurado ali, abandonado pelos amigos, cercado pelos inimigos, condenado pelos ricos, insultado pelos pobres. Está pendurado ali, verme e não um ser humano, afrontado pelos homens e desprezado pelo povo. Todos os que o veem zombam dele; fazem caretas e balançam a cabeça, dizendo: Confiou no Senhor! Ele que o livre! Salve-o, pois nele tem prazer (cf. Sl 22.6-8). Não há quem o ajude: um dos seus apóstolos o nega, outro o vende, e os demais fogem. Muitos touros o cercam; fortes touros de Basã o rodeiam; contra ele abrem a boca, como o leão que despedaça e ruge. Ele se derrama como água; o seu coração se faz como cera e se derrete dentro dele; o seu vigor se seca como um caco de barro; a língua se lhe apega ao céu da boca; ele está descendo ao pó da morte. Cães o cercam, e um bando de malfeitores o rodeia; traspassaram-lhe as mãos e os pés; vocês podem contar todos os seus ossos; eles estão olhando para ele e o encarando; repartem entre si as suas roupas e lançam sortes sobre o único resto dos seus bens, a sua túnica simples e sem costura (cf. Sl 22.11-18). Os dois sóis, o visível e o invisível, parecem eclipsados. Nenhum raio animador de luz criada doura o seu horizonte sombrio. Nenhum sorriso do seu Pai celestial ampara a sua alma agonizante. Nenhum cordial [a não ser o vinagre e o fel] reanima o seu espírito desfalecido. Nada lhe resta, exceto o seu Deus. Mas o seu Deus lhe basta. No seu Deus ele tem todas as coisas. E, embora a sua alma esteja tomada de tristeza até a morte (cf. Mt 26.38), ela se prende mais firmemente ao seu Deus por uma fé despojada do que o seu corpo dilacerado se prende à cruz pelos cravos rebatidos. A perfeição do seu amor brilha em toda a sua glória cristã. Ele não só perdoa os inimigos que o insultam e os perseguidores sanguinários, mas, no ponto mais alto da sua paixão, esquece as próprias necessidades e tem sede da felicidade eterna deles. Junto com o seu sangue, derrama a sua alma por eles e, desculpando a todos, diz: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23.34). Ó filhos adultos de Deus, com o rosto descoberto, contemplem todos neste espelho a glória do amor perdoador e intercessor do seu Redentor; e, ao contemplá-la, sejam transformados na mesma imagem, de glória em glória, pelo Espírito amoroso do Senhor (cf. 2Co 3.18).

V. Esta lição é profunda, mas ele pode ensinar a vocês uma mais profunda ainda. Por uma forte comunhão com ele em todos os seus sofrimentos, ele pode chamá-los a conhecê-lo crucificado de todos os modos. A severa Justiça troveja do céu: Levante-se, ó espada, e ataque aquele que é o meu companheiro! (Zc 13.7). A espada se levanta, a espada atravessa a alma dele, a espada flamejante se apaga no seu sangue. Mas será que um só nervo da sua fé perfeita é cortado, uma só fibra da sua perfeita resignação é ferida por esse golpe espantoso? Não: o seu Deus o mata, e ainda assim ele confia no seu Deus. Pela mais nobre de todas as ousadias, na mais terrível de todas as tempestades, ele inclina mansamente a cabeça e abriga a sua alma que parte no seio do seu Deus. “Deus meu! Deus meu!, diz ele, embora todos os meus consolos me tenham abandonado e todas as tuas tempestades e ondas passem sobre mim, nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23.46). Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, à tua direita [onde em breve me assentarei] há delícias perpetuamente (Sl 16.10-11).” Que modelo de confiança perfeita! Ó cristãos perfeitos, tenham a santa ambição de subir até essas alturas espantosas da perfeição de Cristo: Porque para isto mesmo vocês foram chamados, pois também Cristo sofreu no lugar de vocês, deixando exemplo para que vocês sigam os seus passos. Ele não cometeu pecado; quando insultado, não revidava com insultos; quando maltratado, não fazia ameaças, mas se entregava àquele que julga retamente (1Pe 2.21-23). Se esta é a sua alta vocação na terra, não descansem, ó pais em Cristo, até que a sua esperança paciente e a sua perfeita confiança em Deus tenham alcançado a última vitória sobre o seu último inimigo, o rei dos terrores.

“O fundamento de mil erros”, [diz o sr. Wesley], “é não considerar profundamente que o amor é o mais alto dom de Deus: o amor humilde, manso e paciente; que todas as visões, revelações e manifestações, quaisquer que sejam, são coisas pequenas comparadas com o amor. Seria bom que vocês estivessem plenamente convencidos disto: o céu dos céus é amor. Não há nada mais alto na religião; na verdade, não há nada mais. Se vocês buscam qualquer coisa além de mais amor, estão mirando longe do alvo, estão saindo do caminho real. E, quando perguntam aos outros: Você recebeu esta ou aquela bênção?, se querem dizer qualquer coisa além de mais amor, estão enganados: estão desviando-os do caminho e pondo-os numa pista falsa. Fixem, pois, isto no coração: desde o momento em que Deus os salvou de todo pecado, vocês não devem visar a nada senão a mais daquele amor descrito no capítulo treze de Coríntios (1Co 13). Não podem ir mais alto do que isto até serem levados ao seio de Abraão.”

VI. O amor é humilde. “Revistam-se, portanto, de humildade (1Pe 5.5)”, diz o sr. Wesley. “Que ela não só os encha, mas os cubra por inteiro. Que a modéstia e a desconfiança de si mesmos apareçam em todas as suas palavras e ações. Que tudo o que vocês dizem e fazem mostre que são pequenos, baixos, insignificantes e vis aos seus próprios olhos. Como exemplo disso, estejam sempre prontos a reconhecer qualquer falta em que tenham caído. Se em algum momento pensaram, falaram ou agiram mal, não hesitem em reconhecê-lo. Nunca imaginem que isso prejudicará a causa de Deus: não, isso a fará avançar. Sejam, portanto, abertos e francos quando forem acusados de alguma coisa: deixem que ela apareça exatamente como é; e assim vocês não estorvarão, mas adornarão o evangelho.” Por que vocês haveriam de ser mais lentos em reconhecer as suas falhas do que em confessar que não pretendem ser infalíveis? São Paulo era perfeito no amor que lança fora o medo (cf. 1Jo 4.18) e, por isso, repreendeu ousadamente o sumo sacerdote; mas, quando o repreendeu com mais aspereza do que o quinto mandamento permite, confessou imediatamente o seu engano e pôs o seu selo na importância do dever em que, por inadvertência, havia falhado. “Paulo respondeu: Eu não sabia, irmãos, que ele é sumo sacerdote. Porque está escrito: ‘Não fale mal de uma autoridade do seu povo’” (At 23.5). São João era perfeito no amor cortês e humilde que nos põe aos pés de todos. A sua cortesia, a sua humildade e a glória deslumbrante que irradiava de um mensageiro divino [que ele julgou ser mais do que uma criatura] o levaram a uma falta contrária à de são Paulo; mas, longe de escondê-la, ele a confessou abertamente e publicou a sua confissão para a edificação de todas as igrejas. Depois de ter ouvido e visto [diz ele], prostrei-me diante dos pés do anjo que me mostrou essas coisas, para adorá-lo. Mas ele me disse: Não faça isso! Sou um servo de Deus, assim como você (Ap 22.8-9). A perfeição cristã brilha tanto na simplicidade de criança com que os perfeitos reconhecem prontamente as suas faltas quanto na firmeza viril com que resistem até o sangue na luta contra o pecado (Hb 12.4).

VII. Se o amor humilde nos leva a confessar com franqueza as nossas faltas, muito mais nos inclina a reconhecer que somos pecadores, pecadores miseráveis diante daquele Deus a quem tantas vezes ofendemos. Não preciso lembrar a vocês que o seu corpo está morto por causa do pecado (Rm 8.10). Vocês o veem e o sentem; e por isso, enquanto habitarem numa prisão de carne e sangue que a morte [a vingadora do pecado] há de derrubar; enquanto a sua justificação final [como pecadores perdoados e santificados] não tiver acontecido; sim, enquanto vocês quebrarem a lei da perfeição paradisíaca, sob a qual foram originalmente colocados, é digno, justo e dever de vocês considerar-se pecadores que [como transgressores da lei da inocência e da lei da liberdade] são réus de morte, de morte eterna. Assim fez são Paulo depois que tinha chegado ao monte Sião … e aos espíritos dos justos aperfeiçoados (Hb 12.22-23). Ele ainda se considerava o principal dos pecadores, porque tinha sido um blasfemo atrevido contra Cristo e um perseguidor feroz do seu povo. Cristo, diz ele, veio para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal (1Tm 1.15). A razão é clara. Um fato é um fato, e continuará a ser um fato por toda a eternidade. Segundo as doutrinas da graça e da justiça, e diante do trono da misericórdia e da santidade de Deus, um pecador perdoado e santificado precisa, pela própria natureza das coisas, ser considerado um pecador; pois, se vocês o considerarem como santo, totalmente separado do caráter de pecador, como poderá ele ser um pecador perdoado e santificado? Por toda a eternidade, portanto, mas muito mais enquanto a morte [o salário do pecado] (cf. Rm 6.23) estiver nos seus calcanhares, e enquanto vocês caminham para comparecer diante do tribunal de Cristo, para receber a sua sentença final de absolvição ou de condenação (2Co 5.10), convirá que digam com são Paulo: Todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente [como pecadores], por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (Rm 3.23-24); embora sejamos justificados judicialmente, como crentes, pela fé; como crentes obedientes, pela obediência da fé; e como cristãos perfeitos, pela perfeição cristã.

VIII. O amor humilde se faz tudo [menos pecado] para com todos (1Co 9.22), embora se deleite mais nos que são mais santos. Vocês podem e devem pôr o seu amor de especial complacência nos filhos mais queridos de Deus, naqueles que, como vocês, se destacam na virtude, porque refletem com mais força a imagem do Deus de amor, o Santo de Israel. Mas, se desprezarem os fracos e se acharem acima de lhes estender a mão para ajudá-los, vocês terão caído da perfeição cristã, que nos ensina a levar as cargas uns dos outros (Gl 6.2), especialmente as cargas dos fracos (cf. Rm 15.1). Imitem, então, a ternura e a sabedoria do bom Pastor, que carrega no colo os cordeirinhos, guia mansamente as ovelhas que amamentam (Is 40.11), alimenta com leite os que não podem suportar comida sólida (cf. 1Co 3.2) e diz aos seus discípulos imperfeitos: Tenho ainda muito para lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora (Jo 16.12).

IX. Onde está o Espírito amoroso do Senhor, aí há liberdade (2Co 3.17). Mantenham-se, portanto, o mais longe possível dos grilhões de um espírito estreito, preconceituoso e sectário. No momento em que vocês restringem o seu amor às pessoas que pensam exatamente como vocês, e a sua estima aos pregadores que se ajustam exatamente ao seu gosto, vocês caem da perfeição e se tornam sectários. “Eu lhes suplico [diz o sr. Wesley, em Uma Clara Explicação da Perfeição Cristã]: guardem-se do sectarismo. Que o seu amor ou a sua beneficência não se restrinjam apenas aos metodistas (assim chamados); muito menos àquela pequeníssima parte deles que parece estar renovada no amor; ou aos que creem no testemunho de vocês e no deles. Ah, não façam disso o seu xibolete.” Pelo contrário, conforme tiverem tempo e meios, façam o bem a todos (Gl 6.10). Que a sua benevolência brilhe sobre todos; que a sua caridade envie os seus raios acolhedores a todos, nos graus devidos. Assim vocês serão perfeitos como o seu Pai celestial, que faz o seu sol nascer sobre todos (cf. Mt 5.45, 48), embora ele envie os raios mais brilhantes e mais cálidos do seu favor sobre a família da fé (Gl 6.10) e reserve as suas dádivas mais ricas para os que empregam da melhor maneira os seus cinco talentos.

X. O amor, o amor puro, se satisfaz com o Bem supremo, com Deus. “Guardem-se, então, de desejar qualquer coisa além dele. Agora vocês não desejam nada mais. Todo outro desejo foi expulso: cuidem para que nenhum volte a entrar. Conserve-se puro (1Tm 5.22); que os seus olhos continuem bons, e todo o seu corpo continuará cheio de luz (cf. Mt 6.22). Não admitam nenhum desejo de comida agradável ou de qualquer outro prazer dos sentidos; nenhum desejo de agradar os olhos ou a imaginação; nenhum desejo de dinheiro, de louvor ou de estima; de felicidade em qualquer criatura. Vocês podem trazer esses desejos de volta; mas não precisam; podem não senti-los nunca mais. Ah, permaneçam firmes na liberdade para a qual Cristo os libertou (Gl 5.1). Sejam modelo para todos em negar a si mesmos e tomar cada dia a sua cruz (cf. Lc 9.23). Que eles vejam que vocês não fazem caso de nenhum prazer que não os aproxime de Deus, nem se importam com nenhuma dor que os aproxime dele; que vocês visam simplesmente a agradá-lo, seja fazendo, seja sofrendo; que a linguagem constante do seu coração, quanto ao prazer ou à dor, à honra ou à desonra, à riqueza ou à pobreza, é:

Original Tradução
All’s alike to me, so I Tudo me é indiferente, contanto que eu
In my Lord may live and die!” no meu Senhor possa viver e morrer!”

[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1749), vol. 2, peça CXIV (Hinos para os que Aguardam a Plena Redenção, hino XII), estrofe 8.]

XI. Os melhores soldados são enviados às expedições mais difíceis e perigosas; e, como vocês são os melhores soldados de Jesus Cristo, provavelmente serão chamados a beber mais fundo do seu cálice e a carregar os fardos mais pesados. “Esperem contradição e oposição” [diz o judicioso teólogo que acabo de citar], “junto com cruzes de vários tipos. Considerem as palavras de são Paulo: Vocês receberam a graça, por causa de Cristo, por amor dele, como fruto da sua morte e da sua intercessão por vocês, de sofrer por Cristo, e não somente de crer nele (Fp 1.29) [N. do T.: a edição de 1792 imprime “Fp 1.23”.]. É uma graça dada! Deus lhes dá esta oposição ou esta afronta: é um novo sinal do seu amor. E vocês vão renegar o doador? Ou desprezar o seu dom e tê-lo por desgraça? Não dirão antes: ‘Pai, é chegada a hora de seres glorificado. Agora tu dás ao teu filho sofrer alguma coisa por ti. Faze comigo segundo a tua vontade’ (cf. Jo 17.1)? Saibam que estas coisas, longe de serem obstáculos à obra de Deus ou à sua alma, a não ser por culpa de vocês mesmos, não são apenas inevitáveis no curso da providência, mas proveitosas, e até necessárias para vocês. Portanto, recebam-nas de Deus (não do acaso) com boa vontade e gratidão. Recebam-nas dos homens com humildade, mansidão, condescendência, brandura e doçura.”

O amor nunca pode fazer nem sofrer demais pelo seu objeto divino. Tenham, então, a ambição de ser, como são Paulo, aperfeiçoados nos sofrimentos (cf. Hb 2.10). Já observei que o apóstolo, não satisfeito em ser um cristão perfeito, queria também ser um mártir perfeito, desejando ardentemente tomar parte nos [extremos] sofrimentos de Cristo (Fp 3.10). Sigam-no, como ele seguiu o seu Senhor sofredor e crucificado. Os seus pés estão calçados com a preparação do evangelho da paz (Ef 6.15): corram atrás dos dois na carreira da obediência, rumo à coroa do martírio, se essa coroa estiver reservada para vocês. E, se vocês perderem a coroa dos que são mártires de fato, receberão, contudo, a recompensa dos que são mártires de intenção: a coroa da justiça (cf. 2Tm 4.8) e da perfeição angélica.

XII. Mas não desejem seguir a Cristo até o jardim do Getsêmani a ponto de se recusarem a segui-lo agora até a oficina do carpinteiro, se a providência agora os chama para lá. Não percam o dia presente olhando ociosamente para ontem, nem antecipando tolamente os cuidados de amanhã (cf. Mt 6.34); mas usem sabiamente cada hora, gastando-as como quem está na beira do tempo, na fronteira da eternidade, e tem o seu trabalho talhado de momento a momento por uma sábia providência. Nunca deixem, portanto, de usar os dois talentos que vocês têm agora e de cumprir o dever que agora lhes cabe. Se forem tentados a isso, sob o pretexto plausível de esperar por um número maior de talentos, lembrem-se de que Deus dobra os nossos talentos no caminho do dever, e de que é uma máxima proposta pelo próprio Elisha Coles: use a graça e terá [mais] graça. Portanto, “à vigilância e à oração contínuas, acrescentem uma ocupação contínua, diz o sr. Wesley, pois a graça tem horror ao vazio tanto quanto a natureza: o diabo enche tudo o que Deus não enche.” “Assim como foi pelas obras que a fé se consumou (Tg 2.22), assim também o completar ou o destruir a obra da fé, e o desfrutar o favor ou o sofrer o desagrado de Deus, depende em grande parte de cada ato isolado de obediência.” Se vocês se esquecerem disso, dificilmente farão agora tudo o que vier às suas mãos para fazer. Muito menos o farão com todas as suas forças (cf. Ec 9.10), por Deus, pela eternidade.

XIII. O amor é modesto: inclina-se antes à timidez e ao silêncio do que a um atrevimento falador. Quem fala demais acaba caindo em transgressão (Pv 10.19); sejam, portanto, tardios para falar (Tg 1.19); nem joguem as suas pérolas diante (Mt 7.6) dos que não sabem distingui-las de seixos. Contudo, quando forem chamados solenemente a dar testemunho da verdade e a contar tudo o que Deus fez por vocês (cf. Lc 8.39), seria covardia ou falsa prudência não o fazer com humildade. Estejam, então, sempre preparados para responder a todo aquele que [devidamente] pedir razão da esperança que vocês têm. Mas façam isso com mansidão [sem ansiedade agitada] e temor [com uma reverência a Deus que tome conta do seu espírito] (1Pe 3.15-16). Os perfeitos são lâmpadas acesas que iluminam (cf. Jo 5.35), e o nosso Senhor dá a entender que, assim como não se acende uma lamparina para colocá-la debaixo de um cesto, mas num lugar adequado onde ilumina bem todos os que estão na casa (Mt 5.15), assim também Deus não acende a lâmpada do amor perfeito para escondê-la num canto, mas para dar luz a todos os que estão ao alcance do seu brilho. Se os diamantes cintilam, se as estrelas brilham, se as flores exibem as suas cores e os perfumes espalham a sua fragrância, para a honra do Pai das luzes e Autor de toda boa dádiva (cf. Tg 1.17); se, sem buscar a si mesmos, eles revelam a glória dele até o limite das suas forças, por que vocês não haveriam de ir e fazer o mesmo (Lc 10.37)? O ouro cumpre o seu fim mais valioso quando é trazido à luz e posto em circulação para usos caridosos e piedosos, e não quando jaz escondido no cofre de um avarento ou no seio escuro de uma mina. Mas, quando vocês empregarem o seu ouro espiritual nos usos devidos, guardem-se de imitar a vaidade daqueles janotas que, toda vez que vão pagar uma ninharia, tiram um punhado de ouro só para fazer exibição da sua riqueza.

XIV. O amor, ou a caridade, se alegra com a [manifestação de uma] verdade [edificante] (1Co 13.6). Um fato é um fato em qualquer parte do mundo. Se vocês podem dizer, para a glória de Deus, que estão vivos e se sentem muito bem, quando é esse o caso, por que não poderiam também testemunhar, para honra dele, que já não vivem, mas que Cristo vive em vocês (cf. Gl 2.20), se de fato descobrem que essa é a sua experiência? Não disse são João: O amor é aperfeiçoado em nós […] pois, assim como ele é, também nós somos neste mundo (1Jo 4.17)? Não escreveu são Paulo: A exigência da lei se cumpre em nós, que […] vivemos segundo o Espírito (Rm 8.4)? Não afirmou ele, com a mesma simplicidade, que, embora nada tivesse e estivesse entristecido, possuía tudo e estava sempre alegre (cf. 2Co 6.10)?

Daí se vê que, quanto a declarar ou ocultar o que Deus fez pela sua alma, a linha do seu dever passa exatamente entre o atrevimento orgulhoso de alguns fariseus rígidos e a humildade voluntária de alguns místicos rígidos. Os primeiros se gabam em vão de mais do que experimentam e, desse modo, erguem o ídolo maldito, o eu; os segundos escondem com ingratidão as grandezas de Deus, das quais os cristãos primitivos falavam publicamente em várias línguas (cf. At 2.11), e, desse modo, recusam-se a exaltar o seu gracioso Benfeitor, Cristo. O primeiro erro é sem dúvida mais odioso que o segundo; mas que necessidade há de pender para qualquer um deles? Querem evitar os dois? Que as suas disposições e as suas vidas declarem sempre que o amor perfeito é alcançável nesta vida. E, quando tiverem um chamado apropriado para declará-lo com os lábios e com a pena, façam-no sem atrevimento, para a glória de Deus; façam-no com simplicidade, para a edificação do próximo; façam-no com santo zelo sobre si mesmos, para que não mostrem os tesouros da graça divina que há no seu coração com a mesma complacência consigo mesmos com que o rei Ezequias mostrou os seus tesouros e os vasos de ouro do templo aos embaixadores do rei da Babilônia. Lembrem-se da terrível maldição que essa vaidade fez cair sobre ele: Então Isaías disse a Ezequias: Ouça a palavra do Senhor: Eis que virão dias em que tudo o que houver no seu palácio […] será levado para a Babilônia; não ficará coisa alguma, diz o Senhor (2Rs 20.16-17). Se Deus castigou tão severamente o orgulho de Ezequias, com quanta razão são Pedro ordena aos crentes que deem com temor razão da graça que há neles (cf. 1Pe 3.15-16)! E com quanto cuidado vocês devem observar esta importante ordem!

XV. Se quiserem manter-se o mais longe possível da vaidade que foi tão fatal ao bom rei Ezequias, sigam uma excelente orientação do sr. Wesley. Quando tiverem feito alguma coisa para Deus, ou recebido dele algum favor, recolham-se, se não ao seu quarto (cf. Mt 6.6), ao seu coração, e digam: “Venho, Senhor, devolver-te o que me deste, e renuncio a isso livremente, para entrar de novo no meu próprio nada. Pois o que é a criatura mais perfeita no céu ou na terra, na tua presença, senão um vazio capaz de ser cheio de ti e por ti, como o ar, que é vazio e escuro, é capaz de ser cheio da luz do sol? Concede, pois, Senhor, que eu jamais me aproprie da tua graça, assim como o ar não se apropria da luz do sol, que a retira todos os dias para devolvê-la no dia seguinte, pois não há no ar nada que se aproprie dessa luz ou lhe resista. Ah, dá-me a mesma facilidade de receber e de devolver a tua graça e as tuas boas obras! Digo tuas, pois reconheço que a raiz da qual elas brotam está em ti, e não em mim.” O verdadeiro meio de ser cheio de novo das riquezas da graça é despojar-se dela desse modo; sem isso, é extremamente difícil não desfalecer na prática das boas obras. “E, portanto, para que as suas boas obras recebam a sua última perfeição, que elas se percam em Deus. Isso é para elas uma espécie de morte, semelhante à do nosso corpo, que não alcançará a sua vida mais elevada, a sua imortalidade, enquanto não se perder na glória da nossa alma, ou antes, na glória de Deus, de que será cheio. E as boas obras só perdem, por esta morte espiritual, o que tinham de terreno e de mortal.”

XVI. Querem ver este preceito profundo posto em prática? Considerem são Paulo. Já de posse da perfeição cristã, ele faz boas obras de manhã à noite; admoesta, noite e dia, com lágrimas, cada um (cf. At 20.31). Leva o evangelho do Oriente ao Ocidente. Onde quer que pare, planta uma igreja com risco da própria vida. Mas, em vez de descansar na sua perfeição presente e nas boas obras que dela brotam, ele cresce na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 2Pe 3.18), prosseguindo incansavelmente para conquistar aquilo [a perfeição] para o que também foi conquistado por Cristo Jesus (cf. Fp 3.12), aquela perfeição celestial da qual recebeu vivas ideias quando foi arrebatado até o terceiro céu e ouviu palavras indizíveis, que homem nenhum tem permissão para repetir (2Co 12.2, 4). Com que ardor assombroso ele corre a sua carreira de perfeição cristã em busca do prêmio daquela perfeição mais elevada! Como esquece as obras de ontem, quando hoje se consagra a Deus! Mesmo depois de morto, ainda fala (cf. Hb 11.4), e nenhuma palavra seria mais apropriada que a dele para encerrar uma exortação aos cristãos perfeitos. Irmãos, diz ele, sejam meus imitadores (Fp 3.17). Não julgo havê-lo alcançado [a minha perfeição angélica], mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficam para trás [sem me firmar em nenhuma das minhas experiências anteriores, sem descansar em nenhuma das minhas boas obras] e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, para o [celestial] prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este modo de pensar; e, se em alguma coisa vocês pensam de modo diferente, também isto Deus revelará para vocês (Fp 3.13-15) [N. do T.: a NAA traz “maduros”; Fletcher segue a King James, “perfect”.]. Enquanto isso, vocês podem cantar o seguinte hino do rev. sr. Charles Wesley, que descreve a destruição da vontade própria corrompida e exprime a resignação absoluta que caracteriza o crente perfeito.

Original Tradução
To do, or not to do; to have, Fazer, ou não fazer; ter,
Or not to have, I leave to Thee: ou não ter, deixo a teu critério;
To be, or not to be, I leave: ser, ou não ser, deixo também;
Thy only will be done in me: faça-se em mim só a tua vontade;
All my requests are lost in one, todos os meus pedidos se resumem num só:
Father, thy only will be done. Pai, faça-se só a tua vontade.
Original Tradução
Suffice, that for the season past, Baste que no tempo passado
Myself in things divine I sought, busquei a mim mesmo nas coisas divinas,
For comforts cried with eager haste, clamei por consolos com pressa ávida,
And murmur’d that I found them not: e murmurei por não os encontrar;
I leave it now to thee alone, agora deixo tudo só a ti,
Father, thy only will be done. Pai, faça-se só a tua vontade.
Original Tradução
Thy gifts I clamour for no more, Não clamo mais pelos teus dons,
Or selfishly thy grace require, nem, egoísta, exijo a tua graça
An evil heart to varnish o’er; para dar verniz a um coração mau;
Jesus the Giver I desire; a Jesus, o Doador, é que eu desejo,
After the flesh no longer known: não mais conhecido segundo a carne;
Father, thy only will be done. Pai, faça-se só a tua vontade.
Original Tradução
Welcome alike the crown or cross, Bem-vindas por igual a coroa ou a cruz;
Trouble I cannot ask, nor peace, não posso pedir aflição, nem paz,
Nor toil, nor rest, nor gain, nor loss, nem labor, nem descanso, nem ganho, nem perda,
Nor joy, nor grief, nor pain, nor ease, nem gozo, nem tristeza, nem dor, nem alívio,
Nor life, nor death: but ever groan, nem vida, nem morte; mas sempre gemo:
Father, thy only will be done. Pai, faça-se só a tua vontade.

[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1749), vol. 2, hino XVI, “O Último Desejo”.]

Este hino convém a todos os crentes que estão ao pé do monte Sião e começam a unir-se aos espíritos dos justos aperfeiçoados (cf. Hb 12.22-23). Mas, quando o carro triunfal do amor perfeito os levar gloriosamente ao alto da colina da perfeição; quando vocês forem elevados muito acima das alturas comuns dos perfeitos; quando estiverem quase trasladados para a glória, como Elias (cf. 2Rs 2.11), então poderão cantar outro hino do mesmo poeta cristão, com o rev. sr. Madan e o numeroso grupo de imperfeccionistas que usam a coletânea de Salmos etc. organizada por ele.

Original Tradução
Who in Jesus confide, Os que confiam em Jesus
They are bold to out-ride ousam cavalgar por sobre
All the storms of affliction beneath: todas as tempestades da aflição aqui embaixo;
With the prophet they soar com o profeta se elevam
To that heavenly shore, àquela praia celestial,
And out-fly all the arrows of death. e transpõem voando todas as flechas da morte.
Original Tradução
By faith we are come Pela fé chegamos
To our permanent home; ao nosso lar permanente;
And by hope we the rapture improve: e pela esperança desfrutamos o êxtase;
By love we still rise, pelo amor sempre nos erguemos,
And look down on the skies, e olhamos de cima os céus,
For the heaven of heavens is love! pois o céu dos céus é amor!
Original Tradução
Who on earth can conceive! Quem na terra pode conceber
How happy we live quão felizes vivemos
In the city of God the great King; na cidade de Deus, o grande Rei!
What a concert of praise, Que concerto de louvor,
When our Jesus’s grace quando a graça do nosso Jesus
The whole heavenly company sing! toda a companhia celestial canta!
Original Tradução
What a rapturous song, Que cântico arrebatador,
When the glorified throng quando a multidão glorificada
In the spirit of harmony join! no espírito da harmonia se une!
Join all the glad choirs, Unem-se todos os coros alegres,
Hearts, voices, and lyres, corações, vozes e liras,
And the burden is mercy divine! e o refrão é a misericórdia divina!

[N. do T.: Charles Wesley, Hinos e Poemas Sagrados (1749), vol. 2, peça CCXXXI (Hinos para os Amigos Cristãos, hino XLI), estrofes 2 a 5; no hino, a primeira destas estrofes está na primeira pessoa (“We are bold”, ousamos).]

Mas, quando não puderem acompanhar o sr. Madan e os imperfeccionistas da capela do Lock até essas alturas arrebatadoras da perfeição, vocês não precisam abandonar o seu escudo. Ainda podem contar-se entre os perfeitos, se puderem unir-se de coração a esta versão do Salmo 131.

Original Tradução
Lord, thou dost the grace impart! Senhor, tu concedes a graça!
Poor in spirit, meek in heart, Pobre de espírito, manso de coração,
I shall as my Master be serei como o meu Mestre,
Rooted in humility. enraizado em humildade.
Original Tradução
Now, dear Lord, that thee I know, Agora, querido Senhor, que te conheço,
Nothing will I seek below, nada buscarei aqui embaixo,
Aim at nothing great or high, não visarei nada grande ou elevado,
Lowly both in heart and eye. humilde tanto no coração como no olhar.
Original Tradução
Simple, teachable, and mild, Simples, dócil e brando,
Awed into a little child, reduzido, no temor, a uma criancinha,
Quiet now without my food, agora quieto, sem o meu sustento,
Weand from every creature good. desmamado de todo bem criado.
Original Tradução
Hangs my new-born soul on thee, Pende de ti a minha alma recém-nascida,
Kept from all idolatry; guardada de toda idolatria;
Nothing wants beneath, above, de nada carece, embaixo ou no alto,
Resting in thy perfect love. descansando no teu amor perfeito.

[N. do T.: Charles Wesley, Coleção de Salmos e Hinos (1743), Salmo CXXXI, estrofes 1 a 4, com variantes no texto transcrito por Fletcher; no salmo de 1743, o último verso da estrofe 4 é “Happy, happy in thy love” (feliz, feliz no teu amor).]

Que os seus vasos de barro (cf. 2Co 4.7) sejam cheios deste amor até se quebrarem, e que vocês desfrutem o objeto divino da sua fé sem o véu interposto de carne e sangue grosseiros: este é o desejo de alguém que sinceramente louva a Deus por causa de vocês e ardentemente ora:

Original Tradução
“Make up thy jewels, Lord, and show “Prepara as tuas joias, Senhor, e mostra
The glorious, spotless church below: a gloriosa igreja sem mácula aqui embaixo;
The fellowship of saints make known; dá a conhecer a comunhão dos santos;
And Oh! my God, might I be one! e, ó meu Deus, quem me dera ser um deles!
Original Tradução
O might my lot be cast with these, Ó, recaísse a minha sorte com estes,
The least of Jesu’s witnesses! o menor das testemunhas de Jesus!
O that my Lord would count me meet Ó, se o meu Senhor me julgasse digno
To wash his dear disciples feet! de lavar os pés dos seus amados discípulos!
Original Tradução
To wait upon his saints below! Servir aos seus santos aqui embaixo!
On gospel-errands for them go! Ir em missões do evangelho a serviço deles!
Enjoy the grace to angels given; Gozar da graça dada aos anjos,
And serve the royal heirs of heaven!” e servir os régios herdeiros do céu!”

[N. do T.: Charles Wesley, O Cristianismo Primitivo (1743), parte II, estrofes 10 a 12 e 14, com cortes e variantes no texto transcrito por Fletcher.]

Notas de Fletcher

1. Não negamos com isto que alguns crentes tenham no próprio peito o testemunho de que não cairão finalmente de Deus. “Eles podem tê-lo”, [diz o sr. Wesley no mesmo tratado], “e esta persuasão de que nem a vida nem a morte poderá separá-los de Deus (cf. Rm 8.38-39), longe de ser prejudicial, pode em certas circunstâncias ser extremamente útil.” Mas onde quer que esse testemunho seja divino, ele vem acompanhado daquela graça que liga inseparavelmente a santidade e as boas obras [os meios] à perseverança e à salvação eterna [o fim]. E, neste ponto, a nossa doutrina difere muito da dos calvinistas, que rompem a ligação necessária entre a santidade e a salvação infalível, abrindo espaço para as quedas mais sujas: o adultério, o homicídio e o incesto.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.