John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção X
São João é a favor da perfeição cristã, e não de um purgatório da morte. 1Jo 1.8 etc. é explicado de modo coerente com o propósito de são João, com o contexto e com o veio de santa doutrina que percorre o restante da epístola.
A Escritura declara que somos edificados sobre o fundamento dos apóstolos, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular (Ef 2.20). E, como são Paulo é merecidamente considerado o principal dos apóstolos e, por consequência, a pedra principal do fundamento sobre o qual [depois da pedra angular] se edifica a nossa santa religião, quem pode admirar-se do empenho dos nossos opositores em representar essa parte importante do nosso fundamento como carnal, miserável e vendida à escravidão do pecado (cf. Rm 7.14,24)? Não vê todo mundo que tal fundamento convém à estrutura antinomiana que se levanta sobre ele? E não cabe aos opositores do antinomianismo descobrir esse miserável fundamento, removendo os montes de sujeira debaixo dos quais a espiritualidade de são Paulo é sepultada todos os dias, e, desse modo, resgatar o santo apóstolo, que os nossos adversários se esforçam por vender à escravidão do pecado como um miserável carnal? Esse resgate foi tentado nas quatro últimas seções. Se fui bem-sucedido nessa tentativa caridosa, posso passar a defender a santidade de são João, que é o último apóstolo que o sr. Hill chama em socorro do pecado que habita em nós, da imperfeição cristã e de um purgatório da morte.
Antes de mostrar como o apóstolo do amor é recrutado à força para um serviço tão contrário à sua experiência e à sua doutrina do amor perfeito, farei uma observação preliminar. Tirar um texto da Escritura do seu contexto e fazê-lo falar uma linguagem contrária ao propósito evidente do escritor sagrado é o modo de retalhar o corpo da teologia bíblica. Esse procedimento fere a verdade tanto quanto os gálatas se teriam ferido se tivessem literalmente arrancado os próprios olhos para os dar a são Paulo (cf. Gl 4.15). Uma passagem edificante assim deslocada pode tornar-se tão repugnante a uma mente moral quanto um olho sadio, arrancado da órbita sangrenta num rosto bonito, é odioso a um coração terno.
Entre as passagens que foram tratadas desse modo, nenhuma sofreu mais violência do que esta: Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós (1Jo 1.8). “Isso me basta”, [diz um imperfeccionista apressado]. “São João defende claramente a permanência do pecado em nós durante toda a vida, e é tão contrário aos que professam a libertação do pecado e a perfeição cristã nesta vida que não hesita em apresentá-los como mentirosos e enganadores de si mesmos.”
Os nossos opositores supõem que esse argumento não tem resposta. Mas, para convencê-los de que estão enganados, basta provar que o sentido que dão com tanta confiança às palavras de são João é contrário: (1.) Ao seu propósito. (2.) Ao contexto. E (3.) À doutrina pura e rigorosa que ele inculca no restante da epístola.
I. Quanto ao propósito de são João, evidentemente era firmar os crentes que corriam o perigo de ser enganados por sedutores antinomianos e anticristãos. Quando ele escreveu esta epístola, a igreja começava a ser corrompida por homens que, a pretexto de conhecerem os mistérios do evangelho melhor do que os apóstolos, impingiam aos simples fábulas judaicas, sonhos pagãos ou vãs especulações filosóficas, insinuando que as suas peculiaridades doutrinárias eram o próprio cerne do evangelho. Muitos desses surgiram no tempo da Reforma, introduziram sonhos estoicos no protestantismo, e o bispo Latimer e outros se opuseram firmemente a eles sob o nome de adeptos do evangelho. [N. do T.: no inglês, Gospellers.]
As doutrinas de todos esses adeptos do evangelho convergiam em fazer de Cristo, ao menos indiretamente, ministro do pecado, e em apresentar os pregadores de um cristianismo prático e de renúncia de si como pessoas que não conhecem a liberdade cristã. Na verdade, não parece que os gnósticos, ou os que sabem [pois assim se chamavam os antigos adeptos do evangelho], tenham chegado a ponto de dizer abertamente que os crentes podiam ser filhos amados de Deus no próprio ato de cometer adultério e homicídio, ou enquanto adoravam Milcom e Astarote. Mas é certo que já conseguiam conciliar com a verdadeira fé a negação verbal de Cristo, a prostituição e os banquetes idólatras, direta ou indiretamente ensinando e seduzindo os servos de Cristo a praticar a prostituição e a comer coisas sacrificadas aos ídolos (Ap 2.20). Contra esses antinomianos são Pedro, são Tiago e são Judas dirigiram as suas epístolas. São Paulo advertiu vigorosamente Timóteo, Tito e os efésios contra eles. (Veja Ef 4.14-5.6.) E são João escreveu a sua primeira epístola para prevenir os crentes que ainda não tinham sido seduzidos pelo erro deles: erro terrível, embora agradável, que pouco a pouco levou alguns a negar a lei de Cristo e, depois, o seu próprio nome; daí o triunfo do espírito do anticristo. Ora, como esses homens insinuavam que os crentes podiam ser justos sem praticar a justiça, e como supunham que a justiça de Cristo, ou o nosso próprio conhecimento e a nossa fé, supririam a falta da santificação interior e da obediência exterior, são João sustenta contra eles a necessidade daquela piedade prática que consiste em não cometer pecado e em andar assim como Cristo andou (cf. 1Jo 2.6). Mais ainda, ele afirma que o sangue de Cristo, pela fé que é a nossa vitória (cf. 1Jo 5.4), purifica de todo pecado e de toda injustiça (cf. 1Jo 1.7,9). Fazê-lo, portanto, defender a continuação necessária do pecado que habita em nós, ou da injustiça do coração, até entrarmos num purgatório da morte é evidentemente fazê-lo derrotar o seu próprio propósito.
II. Para nos convencermos ainda mais disso, basta ler o texto controvertido em ligação com o contexto, ilustrando ambos com algumas notas entre colchetes. São João abre a sua comissão assim [1Jo 1.5-7]: A mensagem que dele [de Cristo] ouvimos e que anunciamos a vocês é esta: Deus é luz, [pureza brilhante e transcendente] e não há nele treva [impureza] nenhuma. Se [nós, crentes,] dissermos que mantemos comunhão com ele [que estamos unidos a ele por uma fé realmente viva] e andarmos nas trevas, [na impureza, ou no pecado,] mentimos e não praticamos a verdade. Se andarmos na luz, como ele está na luz, [se vivermos à altura da nossa luz cristã e praticarmos a justiça,] mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. [Pois: Não se deixem enganar por ninguém. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele, Cristo, é justo; e nele não existe pecado (1Jo 3.5,7).] Até aqui não vemos nenhuma defesa, nem do pecado nem do purgatório calvinista.
Se o sr. Hill replicar: “Quando são João diz: O sangue de Cristo nos purifica de todo pecado (1Jo 1.7), o apóstolo não quer dizer todo o pecado que habita em nós, porque este é um pecado do qual só a morte pode nos purificar”, pedimos uma prova e, enquanto isso, respondemos que são João, nas passagens citadas acima, diz que aquele que pratica a justiça, no pleno sentido da palavra, é justo, assim como Cristo é justo, observando que nele [em Cristo] não existe pecado. Tão certo, então, como não há pecado que habite em Cristo, não há pecado que habite no crente que pratica a justiça no pleno sentido da palavra, pois ele é aperfeiçoado no amor (cf. 1Jo 4.18) e purificado de todo pecado. Nem o próprio são João se envergonhava de professar essa gloriosa liberdade, pois disse: O amor é aperfeiçoado em nós, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois, assim como ele [Cristo] é [perfeito no amor e, por consequência, sem pecado], também nós somos neste mundo (1Jo 4.17). E todo o contexto mostra que o discípulo amado proferiu essas grandes palavras sobre a semelhança com Cristo a respeito do amor perfeito que cumpre a lei (cf. Rm 13.10), elimina o medo que atormenta (cf. 1Jo 4.18) e capacita o crente a estar de pé com confiança no Dia do Juízo, como alguém que foi perdoado e feito conforme à imagem do Filho de Deus (cf. Rm 8.29).
Se o sr. Hill insistir: “O sangue de Cristo, aplicado com poder pelo Espírito, de fato nos purifica da culpa, mas não da imundícia do pecado, pois o sangue se refere à justificação e ao perdão, e não à santificação e à santidade”, respondemos que esse argumento é contrário não só à resposta anterior, mas também ao texto, ao contexto e a outras passagens claras da Escritura. (1) Ao texto, onde o sermos purificados de todo pecado depende evidentemente do nosso andar humilde e fiel: Se andarmos na luz, como ele está na luz, o sangue de Cristo nos purifica etc. Ora, todo principiante na graça do evangelho sabe que os verdadeiros protestantes não fazem depender a justificação de um pecador do seu andar na luz, como Deus está na luz. (2) É contrário ao contexto, pois, dois versículos adiante, onde são João distingue claramente o perdão e a santidade, ele aplica de modo particular a palavra purificar à segunda dessas bênçãos: Ele é fiel para nos perdoar os pecados [tirando a nossa culpa] e nos purificar de toda injustiça [tirando toda a imundícia do pecado que habita em nós] (1Jo 1.9). E (3) É contrário a outras passagens da Escritura, onde o sangue de Cristo é apresentado como relacionado tanto à purificação quanto ao perdão. O próprio Deus diz: Lavem-se e purifiquem-se! Tirem a maldade dos seus atos; parem de fazer o mal! Aprendam a fazer o bem (Is 1.16-17). O lavar e o purificar de que se fala aqui se referem, sem dúvida, à remoção da imundícia tanto quanto da culpa do pecado. Assim lemos que todos os que estão em pé diante do trono não só lavaram suas vestes, mas também as alvejaram no sangue do Cordeiro (Ap 7.9,14). Isto é, são justificados pelo seu sangue e santificados com ele. Por isso a nossa Igreja ora “para que comamos de tal modo a carne de Cristo e bebamos o seu sangue que os nossos corpos pecaminosos sejam purificados pelo seu corpo, e as nossas almas lavadas [isto é, também purificadas] pelo seu preciosíssimo sangue”. [N. do T.: da oração que precede a comunhão na Santa Ceia, no Livro de Oração Comum da Igreja da Inglaterra.] Roubar ao sangue de Cristo o seu poder santificador e limitar a sua eficácia à expiação é, portanto, um equívoco antinomiano, pelo qual os nossos opositores ofendem gravemente o Salvador que pretendem exaltar.
Se o sr. Hill afirmar: “Quando são João diz: Se andarmos na luz etc., o sangue de Cristo nos purifica de todo pecado, o apóstolo do amor não quer dizer que o sangue de Cristo nos purifica radicalmente, mas apenas que ele gera e leva adiante uma purificação de todo pecado, a qual será completada num purgatório da morte”, respondemos: (1) Essa afirmação deixa a doutrina do sr. Hill exposta a todas as dificuldades mencionadas acima. (2) Ela derruba a doutrina dos protestantes, que sempre sustentaram que nada é absolutamente necessário à salvação eterna, e, por consequência, à nossa purificação perfeita, senão uma fé obediente e firme, que se apropria de toda a virtude do sangue purificador de Cristo, segundo At 15.8-9: Deus, concedendo o Espírito Santo a eles, não estabeleceu distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes o coração por meio da fé; não por meio da morte. (3) É contrária aos fatos, pois Enoque e Elias foram trasladados para o céu e, portanto, foram perfeitamente purificados, até no corpo, sem passar pelo purgatório calvinista. Mas (4) o que mais nos desagrada no argumento evasivo a que respondo é que ele lança o maior desprezo sobre o sangue de Cristo e engana do pior modo os crentes fracos que esperam sinceramente ser aperfeiçoados no amor agora, para que agora engrandeçam dignamente o santo nome de Deus.
Uma ilustração o provará. Suponho que Cristo esteja agora na Inglaterra, fazendo tantas curas maravilhosas quanto fez outrora na Judeia. O meu benévolo oponente corre ao Hospital de Salop [N. do T.: Salop é outro nome do condado de Shropshire, onde ficava Madeley, a paróquia de Fletcher.] e diz a todos os pacientes que o grande médico, o Filho de Deus, visitou mais uma vez a terra; que ele de novo cura todo tipo de doenças e enfermidades entre o povo (Mt 4.23) e purifica da lepra mais inveterada com um toque ou com uma palavra. Todos os pacientes acreditam no sr. Hill; uns vão mancando até esse Salvador maravilhoso, e outros são carregados até os pés dele. Tocam-no e tornam a tocá-lo; ele passa a mão sobre eles uma vez e outra; mas nenhum deles é curado. As feridas de alguns, é verdade, criam pele por algum tempo; mas logo se vê que continuam a supurar no fundo e que em cada chaga permanece um carnegão doloroso que não foi extraído. As pobres criaturas se queixam ao sr. Hill: “O senhor não nos assegurou, pela sua honra de cavalheiro cristão, que Cristo cura todo tipo de doenças e purifica de toda espécie de lepra?” “É verdade”, diz o sr. Hill, “mas vocês devem saber que essas palavras não significam que ele cura radicalmente alguma doença ou purifica de alguma lepra; significam apenas que ele começa a curar toda doença e continua a purificar de todas as lepras. Contudo, apesar de todas as suas curas começadas e continuadas, ninguém é curado antes da morte. Por isso, meus amigos, vocês têm de suportar como puderem as suas chagas supurantes, até que a morte venha purificá-los e curá-los radicalmente de todas elas.” Em vez de exclamar “Doce graça! Rica graça!” e de aplaudir o sr. Hill pela sua mensagem evangélica, os pacientes desapontados lhe pedem que os leve de volta ao Hospital, dizendo: “Lá temos alguma chance de cura antes da morte; mas o seu grande médico nos declara incuráveis, a menos que a morte venha em auxílio da arte dele; e achamos que qualquer cirurgião poderia fazer o mesmo, se é que não faria mais.” [Ver seção XII, arg. 20.]
Se o sr. Hill disser que estou desferindo golpes no ar (cf. 1Co 9.26) e que o texto que ele cita no seu Credo para Perfeccionistas, para mostrar que é impossível ser purificado de todo pecado antes da morte, não é 1Jo 1.7, mas o versículo seguinte, respondo: se são João afirma no versículo 7 que o sangue de Cristo, aplicado com poder pelo espírito da fé, nos purifica de todo pecado, esse escritor inspirado não pode ser tão extremamente incoerente a ponto de se contradizer logo no versículo seguinte.
Se o leitor perguntar: “Então qual pode ser o sentido de são João naquele versículo em que declara: Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós (1Jo 1.8)? Como é possível que essas palavras concordem com a doutrina de uma purificação perfeita de todo pecado?”
Respondemos que são João, tendo dado o seu primeiro golpe nos crentes antinomianos do seu tempo, desfere de passagem um golpe nos que professam a fé ao modo farisaico. Havia no tempo de são João, como há no nosso, muitos homens que nunca tinham sido devidamente convencidos do pecado e que se gabavam [como Paulo outrora fez] de que, quanto à justiça que há na lei, eram irrepreensíveis (Fp 3.6). Serviam a Deus, cumpriam o seu dever, davam esmolas, nunca tinham feito mal a ninguém; davam graças a Deus por não serem como os demais homens (cf. Lc 18.11); mas sobretudo por não serem como aqueles que choram em Sião, os quais sem dúvida eram muito maus, já que faziam tanto alarde da misericórdia de Deus e de uma aplicação poderosa do sangue do Redentor, que purifica de tudo. Como era oportuno, então, que são João informasse aos seus leitores que esses cristãos sãos de coração, esses fariseus perfeitos, não passavam de mentirosos e de enganadores de si mesmos; e que a verdadeira justiça cristã é sempre acompanhada de uma genuína convicção da nossa depravação inata e de um humilde reconhecimento das nossas transgressões atuais.
Posto isso, vê-se que o texto tão caro a nós, e tão mal entendido pelos nossos oponentes, tem este sentido justo e bíblico: “Se [nós, seguidores daquele que não veio chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento (Lc 5.32)] dissermos que não temos pecado nenhum, [nenhuma depravação inata herdada dos nossos primeiros pais e nenhum pecado atual, ou ao menos nenhum pecado que mereça a ira de Deus, imaginando que não precisamos assegurar uma aplicação pessoal do sangue expiatório e purificador de Cristo] a nós mesmos enganamos, e a verdade [do arrependimento e da fé] não está em nós.”
Que essas palavras visam o erro monstruoso dos fariseus cheios de si mesmos e aperfeiçoados por si mesmos, e não a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rm 8.21), parece-nos indubitável pelas seguintes razões: (1.) O versículo imediatamente anterior afirma com vigor essa liberdade. (2.) O versículo imediatamente seguinte também a assegura e derruba a doutrina dos nossos oponentes, sendo este, evidentemente, o sentido do apóstolo: “Embora eu lhes escreva que, se dissermos que somos livres de pecado desde a origem e que nunca fizemos mal algum, a nós mesmos enganamos, não me entendam mal: não quero dizer que precisemos continuar sob a culpa ou na infecção moral de algum pecado, original ou atual. Pois, se confessarmos ambos com arrependimento e fé, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1Jo 1.9), seja ela inata ou contraída por nós mesmos, interior ou exterior. Portanto, se alcançamos a liberdade da glória dos filhos de Deus, não precisamos, por uma humildade voluntária, dizer que não fazemos outra coisa senão pecar. Bastará, quando estivermos purificados de toda injustiça, continuar profundamente humilhados pelas nossas fraquezas presentes e pelos nossos pecados passados, confessando ambos com tristeza segundo Deus e com vergonha filial. Pois, se disséssemos que nunca pecamos, [note-se: são João não escreve se disséssemos que não pecamos agora] fazemos dele um mentiroso, e a verdade não está em nós (1Jo 1.10) [N. do T.: a NAA traz “não cometemos pecado”; Fletcher segue a KJV, “we have not sinned”, no passado, e o argumento depende desse tempo verbal.], pois o bom senso diz que, se nunca pecamos, faltamos com a verdade quando professamos que Cristo perdoou os nossos pecados.” Este nos parece o verdadeiro sentido de 1Jo 1.8, quando considerado com imparcialidade à luz do contexto.
III. Esperamos humildemente que o próprio sr. Hill venha a pensar como nós, se comparar o versículo em debate com a doutrina pura e rigorosa que são João inculca em toda a sua epístola. No segundo capítulo, ele diz: Sabemos que o temos conhecido, se guardamos os seus mandamentos (1Jo 2.3) etc. Quem guarda a sua palavra, nele verdadeiramente tem sido aperfeiçoado o amor de Deus (1Jo 2.5). Quem permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou (1Jo 2.6) etc. Quem ama o seu irmão permanece na luz [onde o sangue de Cristo purifica de todo pecado] e nele não há nenhum tropeço (1Jo 2.10).
A mesma doutrina percorre também o capítulo seguinte. Todo o que tem essa esperança nele purifica a si mesmo, assim como ele (Cristo) é puro. Todo aquele que comete pecado também transgride a lei etc. E vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados [isto é, para destruí-los pela raiz e pelos ramos] e nele não existe pecado. Todo aquele que permanece nele não peca; todo aquele que peca não o vê [propriamente], nem o conhece. Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele [Cristo] é justo. Aquele que comete pecado [isto é, como mostra o contexto, aquele que transgride a lei] procede do diabo, porque o diabo peca desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo. Todo aquele que é nascido de Deus [todo aquele que se tornou participante da santidade de Deus, segundo a perfeição da dispensação cristã] não comete pecado [isto é, não transgride a lei], porque nele permanece a semente divina [a palavra implantada, tornada viva e eficaz pelo Espírito que habita nele], e [moralmente falando] não pode pecar, porque é [assim] nascido de Deus [N. do T.: nos v. 4, 6, 8 e 9, mantém-se a redação da KJV (“committeth sin”, “sinneth not”, “sinneth”, “doth not commit sin”, “cannot sin”), da qual depende o argumento de Fletcher; a NAA traz “pratica o pecado”, “não vive pecando”, “vive pecando”, “não vive na prática de pecado” e “não pode viver pecando”.]. Pois, se vocês sabem que ele é justo, sabem que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele, e que aquele que não pratica a justiça, aquele que comete pecado, ou transgride a lei, nessa medida procede do diabo, porque o diabo transgride a lei, isto é, peca desde o princípio. Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo. 1 Todo aquele que não pratica a justiça [isto é, todo aquele que peca, tomando a palavra no seu sentido evangélico] não procede de Deus (1Jo 3.3-11; 2.29).
Se o sr. Hill exclamar: Que escândalo! Quem são esses homens que não pecam?, respondo: todos aqueles de quem são João fala alguns versículos abaixo: Amados, se o nosso coração nos acusar [e ele nos acusará se pecarmos, e Deus muito mais, pois] Deus é maior do que o nosso coração etc. Amados, se o coração não nos acusar, temos confiança diante de Deus etc. porque guardamos os seus mandamentos e fazemos diante dele o que lhe é agradável (1Jo 3.20-22). Ora, entendemos que todos os sofismas do mundo nunca provarão que, falando segundo o evangelho, guardar os mandamentos de Deus e fazer o que lhe agrada seja pecar. Portanto, quando são João declarava guardar os mandamentos de Deus e fazer diante dele o que lhe é agradável, declarava aquilo que os nossos oponentes chamam de perfeição sem pecado e que nós chamamos de perfeição cristã.
O sr. Hill é tão infeliz na escolha de são João para fechar o rol das suas testemunhas apostólicas em favor da imperfeição cristã que, não fossem algumas cláusulas da sua primeira epístola, a severidade antissolifidiana desse apóstolo poderia levar ao desespero todos os cristãos imperfeitos. E o mais notável é que essas poucas cláusulas encorajadoras são todas condicionais: Se alguém pecar (1Jo 2.1) [pois não há necessidade de que peque]; ou melhor [segundo o sentido mais literal da palavra αμαρτη, que, estando no aoristo, tem geralmente a força de um tempo passado], Se alguém tiver pecado. Se não tiver cometido pecado que leva à morte (cf. 1Jo 5.16). Se confessarmos os nossos pecados (1Jo 1.9). Se o que vocês ouviram permanecer em vocês (1Jo 2.24). Se vocês andarem na luz (cf. 1Jo 1.7). Então gozamos, segundo o evangelho, do benefício da intercessão do nosso Advogado. Acrescente-se a isso que a primeira dessas cláusulas é precedida destas palavras: Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem (1Jo 2.1); e todas juntas são cercadas por estas declarações terríveis: Aquele que diz: “Eu o conheço”, mas não guarda os seus mandamentos, esse é mentiroso (1Jo 2.4). Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele (1Jo 2.15). Se alguém disser: “Amo a Deus”, e não ama o seu irmão [note-se: quem ama o próximo cumpre a lei (Rm 13.8)], esse é mentiroso (1Jo 4.20). Há pecado que leva à morte, e por esse não digo que se deva pedir (1Jo 5.16). Não se deixem enganar por ninguém. Aquele que pratica a justiça é justo (1Jo 3.7). Aquele que comete pecado [ou transgride a lei] procede do diabo (1Jo 3.8). Portanto, apresentar são João como inimigo da doutrina da perfeição cristã não nos parece menos absurdo do que apresentar Satanás como amigo da santidade completa.
1. Essa doutrina de são João está em perfeita concordância com a de nosso Senhor, que disse que Judas tinha um diabo (cf. Jo 6.70), porque deu lugar ao amor ao dinheiro, e que chamou o próprio Pedro de Satanás quando este levava em consideração as coisas dos homens, em oposição às coisas de Deus (Mt 16.23).
Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.