John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção III

Objeções resolvidas pela natureza da perfeição

Várias objeções levantadas contra a nossa doutrina se resolvem simplesmente com a consideração da natureza da perfeição cristã. É absurdo dizer que toda a nossa perfeição cristã está na pessoa de Cristo.

Repito: se os nossos opositores piedosos clamam contra a doutrina da perfeição cristã, é principalmente por um mal-entendido, pois é tão natural que homens piedosos recomendem uma piedade elevada quanto que os avarentos exaltem grandes riquezas. E esse mal-entendido nasce muitas vezes da falta de atenção deles à natureza da perfeição cristã. Para prová-lo, basta-me opor a nossa definição da perfeição cristã às objeções que mais comumente se levantam contra a nossa doutrina.

I. “A sua doutrina da perfeição leva ao orgulho.” Impossível, se a perfeição cristã é “humildade perfeita”!

II. “Ela exalta os crentes, mas só até a condição do fariseu cheio de vanglória.” Impossível! Se a nossa perfeição é “humildade perfeita”, ela nos faz descer mais fundo na condição do publicano humilde e justificado (cf. Lc 18.9-14).

III. “Ela enche as pessoas da presunção da sua própria excelência e as faz dizer a um irmão fraco: Fique onde você está; sou mais santo do que você (Is 65.5).” Impossível outra vez! Não pregamos uma perfeição farisaica, mas a perfeição cristã, que consiste em “perfeita pobreza de espírito” e naquela “caridade perfeita” que não se envaidece (1Co 13.4), trata todos com honra (1Pe 2.17) e suporta as debilidades dos fracos (Rm 15.1).

IV. “Ela põe de lado o arrependimento.” Impossível! Pois ela é “arrependimento perfeito”.

V. “Ela nos fará menosprezar a Cristo.” Cada vez mais improvável! Como pode a “fé perfeita” em Cristo nos fazer menosprezar a Cristo? Seria mais absurdo dizer que o amor perfeito a Deus nos fará desprezar a Deus?

VI. “Ela dispensará o uso da mortificação e da vigilância; pois, se o pecado está morto, que necessidade temos de mortificá-lo e de vigiar contra ele?”

Esta objeção tem alguma plausibilidade; por isso lhe darei várias respostas. (1) Se Adão, no seu estado de perfeição paradisíaca, precisava de vigilância perfeita e de mortificação perfeita, quanto mais precisamos delas nós, que encontramos a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.9) plantada não só no meio dos nossos jardins, mas no meio das nossas casas, dos nossos mercados e das nossas igrejas? (2) Quando somos libertos do pecado, somos libertos da pecabilidade e da tentação? Quando o homem interior do pecado está morto, está morto o Diabo? Foi destruída a corrupção que há no mundo (cf. 2Pe 1.4)? E não temos ainda os nossos cinco sentidos para guardar bem, assim como o nosso coração (Pv 4.23), para que o tentador não entre em nós, nem nós entremos nas suas tentações? Por último: Jesus Cristo, como filho de Maria, era um homem perfeito? Mas como foi guardado assim até o fim? Não foi pondo mordaça à sua boca, enquanto os ímpios estavam na sua presença (Sl 39.1), e guardando todos os seus sentidos com perfeita assiduidade, para que o Maligno não pudesse tocá-los para lhe fazer mal (cf. 1Jo 5.18)? E, se Cristo, a nossa cabeça, só guardou a sua perfeição humana por meio da vigilância e da constante renúncia de si mesmo, não é absurdo supor que os seus membros perfeitos possam guardar a sua perfeição sem seguir os seus passos (cf. 1Pe 2.21)?

VII. Outra objeção provavelmente é um obstáculo no caminho do sr. Hill; ela diz assim: “A sua doutrina da perfeição torna desnecessário que os cristãos perfeitos orem o pai-nosso; pois, se Deus se digna guardar-nos neste dia sem pecado, não teremos necessidade de orar, à noite, para que Deus perdoe as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofendem.” [N. do T.: “Digna-te, Senhor, guardar-nos neste dia sem pecado” é um pedido do Te Deum, da oração da manhã da Igreja da Inglaterra. O pai-nosso vem na forma da liturgia, com trespasses (ofensas); em Mt 6.12, a NAA traz “dívidas” e “devedores”.]

Respondemos: (1) Embora o cristão perfeito não transgrida voluntariamente nem quebre a lei do amor, ele quebra todos os dias a lei da perfeição adâmica, por causa da imperfeição das suas faculdades físicas e mentais; e muitas vezes tem um senso mais profundo destas transgressões involuntárias do que muitos crentes fracos têm das suas violações voluntárias da lei moral. (2) Embora o cristão perfeito tenha o testemunho de que os seus pecados estão agora perdoados no tribunal da sua consciência, ele conhece o temor do Senhor (2Co 5.11): apressa-se ao encontro do tremendo Dia de Deus; aguarda a manifestação do nosso Senhor Jesus Cristo como justo Juiz; não perde de vista o tremendo tribunal diante do qual em breve terá de ser justificado ou condenado pelas suas palavras (Mt 12.37); tem consciência de que a sua justificação final ainda não chegou; e por isso se consideraria um monstro de estupidez e de orgulho se, tendo em vista a sua absolvição no grande Dia, hesitasse em dizer, até o fim da vida: Perdoa as nossas ofensas. (3) Ele está cercado de pecadores que todos os dias o ofendem e a quem tem o dever de perdoar todos os dias; e a sua oração para ser perdoado, agora e no grande Dia, assim como ele perdoa aos outros, lembra-lhe que pode perder o seu perdão e o obriga cada vez mais a cumprir o importante dever de perdoar os seus inimigos. E (4) a sua caridade é tão ardente que o funde, por assim dizer, na massa comum da humanidade: curvando-se, pois, sob o enorme fardo de todas as transgressões deliberadas que os demais mortais, e em especial os seus parentes e os seus irmãos, cometem todos os dias contra Deus, ele diz, com um fervor que os cristãos imperfeitos raramente sentem: Perdoa as nossas ofensas etc. Sentimos de coração o pesar das nossas más ações (as minhas e as dos meus semelhantes, pecadores como eu); a lembrança delas nos é dolorosa; o fardo delas é insuportável. [N. do T.: as palavras “na massa comum da humanidade: curvando-se, pois, sob” faltam na 4ª edição (1792), por erro de impressão, e foram restauradas da 1ª edição (1775). As palavras citadas depois do pai-nosso vêm da confissão de pecados do culto da Ceia do Senhor, no Livro de Oração Comum da Igreja da Inglaterra.] Nem duvidamos de que, quando o espírito de pranto conduz uma numerosa assembleia de suplicantes ao vale da humilhação, a pessoa que mais prontamente põe o ombro da fé sob o fardo comum do pecado e que faz mais força para rolar essa enorme carga para dentro do sepulcro do Redentor é o penitente mais perfeito, o mais exato cumpridor do preceito apostólico: Levem as cargas uns dos outros e, assim, estarão cumprindo a lei de Cristo (Gl 6.2); e, por consequência, não hesitamos em dizer que essa pessoa é o mais perfeito cristão de toda a assembleia.

Se o sr. Hill considerar estas respostas, não duvidamos de que confessará que a sua oposição à perfeição cristã nasce principalmente da sua falta de atenção à nossa definição dela, que resumo mais uma vez nestes versos tão abrangentes do sr. Wesley.

Original Tradução
O let me gain Perfection’s height! Ó, que eu alcance a altura da perfeição!
O let me into nothing fall! Ó, que eu caia no nada!
(As less than nothing in thy sight) (como menos do que nada aos teus olhos)
And feel that Christ is all in all! e sinta que Cristo é tudo em todos!

[N. do T.: Charles Wesley, Hymns for Those to Whom Christ is All in All (1761), hino LIV, estrofe 7. É a última estrofe (a 28ª) do hino “A Promessa da Santificação” (“The Promise of Sanctification”), publicado em 1741 com o sermão de John Wesley sobre a perfeição cristã. Fletcher troca “Now” (agora) por “O” (ó) no início dos dois primeiros versos e muda o terceiro, que põe entre parênteses e que no original diz “Be less than nothing in thy sight” (seja menos do que nada aos teus olhos).]

VIII. Os nossos opositores apresentam outra objeção plausível, que é a seguinte: “Pela descrição que vocês fazem da perfeição cristã, é evidente que os crentes adultos estão livres do pecado, pois o coração deles foi purificado pela fé perfeita e cheio de amor perfeito. Ora, o pecado é o que nos humilha e nos impele para Cristo; portanto, se estivéssemos livres do pecado que habita em nós, perderíamos um incentivo poderosíssimo à humildade, que é o maior ornamento do verdadeiro cristão.”

Respondemos: o pecado nunca humilhou alma alguma. Quem tem mais pecado do que Satanás? E quem é mais orgulhoso? O pecado tornou humildes os nossos primeiros pais? Se não tornou, como supõem os nossos irmãos que a natureza dele mudou para melhor? Quem foi mais humilde do que Cristo? Mas devia ele a sua humildade ao pecado? Não vemos todos os dias que, quanto mais pecadores são os homens, tanto mais orgulhosos são também? Nunca observou o sr. Hill que, quanto mais santo é um crente, tanto mais humilde se mostra? E que é a santidade senão o oposto do pecado? Se o pecado é necessário para nos tornar humildes e para nos manter perto de Cristo, não se segue que os santos glorificados, que todos reconhecem estar sem pecado, são todos orgulhosos desprezadores de Cristo? Se a humildade é obediência, e se o pecado é desobediência, não é tão absurdo dizer que o pecado nos tornará humildes, isto é, obedientes, quanto afirmar que a rebelião nos tornará leais, e o adultério, castos? Não vemos pecado bastante, quando olhamos dez ou vinte anos para trás, para nos humilhar até o pó para sempre, se é que o pecado pode fazê-lo? Precisamos advogar em favor de ainda mais pecado no nosso coração e na nossa vida? Se os pecados da nossa juventude não nos humilham, é provável que os pecados da nossa velhice o façam? Se lutamos pela vida do homem do pecado, para que ele subjugue o nosso orgulho, não seguimos a passos largos aqueles que dizem: “Pequemos, para que a graça aumente ainda mais (cf. Rm 6.1). Continuemos cheios do pecado que habita em nós, para que a humildade aumente”? Afinal, qual é o método evangélico de adquirir humildade? Não é olhar para Cristo na manjedoura, no Getsêmani ou na cruz; considerá-lo quando lava os pés dos discípulos; e ouvi-lo com obediência quando ele diz: Aprendam de MIM a ser mansos e humildes de coração (cf. Mt 11.29)? Onde o evangelho defende a causa do Barrabás e dos ladrões que há dentro de nós? Onde diz que eles podem, sim, ser pregados na cruz e ter as pernas quebradas (Jo 19.31-32), mas que a vida deles deve ser deixada inteira dentro deles, para que não nos orgulhemos da sua morte? Por último, que é o pecado que habita em nós senão o orgulho que habita em nós? Pelo menos, não é o orgulho inato um dos principais ingredientes do pecado que habita em nós? E como pode o orgulho produzir humildade? Pode uma serpente gerar uma pomba? E não se colherão antes uvas de espinheiros (cf. Mt 7.16) do que humildade de coração da altivez de espírito?

IX. O estranho erro que denuncio não seria tão comum entre os nossos irmãos cheios de preconceito, se eles não fossem enganados pela plausibilidade do seguinte argumento: “Quando os crentes são humilhados por causa de uma coisa, são humilhados por ela; ora, os crentes são humilhados por causa do pecado; logo, são humilhados pelo pecado.”

A falha deste argumento está na primeira proposição. Concedemos de bom grado que os penitentes são humilhados por causa do pecado, ou, em outras palavras, que se arrependem humildemente do pecado; mas negamos que sejam humilhados pelo pecado. Para mostrar o absurdo de todo o argumento, basta-me apresentar um sofisma exatamente paralelo: “Quando as pessoas são sangradas por causa de uma coisa, são sangradas por ela; ora, às vezes as pessoas são sangradas por causa de um resfriado; logo, às vezes as pessoas são sangradas por um resfriado.”

X. “Não afirmamos que toda perfeição seja imaginária. O que queremos dizer é que toda a perfeição cristã está em Cristo, e que somos perfeitos na pessoa dele, e não na nossa.”

Resp. Se, ao dizerem que somos perfeitos somente em Cristo, vocês querem dizer que não podemos alcançar a perfeição cristã de nenhum outro modo senão estando perfeitamente enxertados nele, a videira verdadeira (Jo 15.1), e extraindo, como ramos vigorosos, a seiva perfeita da sua justiça perfeita, que nos capacita a levar fruto à perfeição, estamos inteiramente de acordo; pois afirmamos continuamente que nada senão Cristo em nós, a esperança da glória (Cl 1.27), nada senão Cristo habitando, pela fé, no nosso coração (Ef 3.17), ou, o que é o mesmo, nada senão a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, pode nos livrar da lei do pecado (Rm 8.2) e nos aperfeiçoar no amor (cf. 1Jo 4.18).

Mas, como nunca afirmamos que a perfeição cristã possa ser alcançada de outro modo senão por uma fé que nos enraíza e alicerça em Cristo (cf. Ef 3.17), suspeitamos que algum mistério da iniquidade (cf. 2Ts 2.7) se esconde debaixo destas expressões ambíguas: “Toda a nossa perfeição está na pessoa de Cristo. Somos perfeitos nele, e não em nós mesmos.”

Se aqueles que as usam insinuarem, com essa linguagem, que não precisamos nem podemos ser perfeitos por uma conformidade pessoal e inerente com a santidade de Deus, porque Cristo é assim perfeito por nós; ou se quiserem dizer que somos perfeitos nele do mesmo modo que os proprietários rurais, inteiramente alheios aos negócios de Estado, são políticos perfeitos nos cavaleiros do condado que os representam no Parlamento; como os doentes de um hospital são perfeitamente sadios no médico que os atende; como o cego gozava de vista perfeita em Cristo quando via as pessoas andando como árvores em movimento (cf. Mc 8.24); como o leproso imundo estava perfeitamente limpo em nosso Senhor antes de ter sentido o poder das palavras cheias de graça de Cristo: Quero, sim. Fique limpo! (Mt 8.3); ou como o faminto Lázaro era perfeitamente alimentado na pessoa do rico, a cuja porta jazia morrendo de fome (cf. Lc 16.20-21): se for este, digo, o sentido de vocês, somos obrigados em consciência a combatê-lo, pelas razões contidas nas perguntas seguintes.

(1) Se os crentes são perfeitos porque Cristo é perfeito por eles, por que o apóstolo os exorta a avançar para o que é perfeito (Hb 6.1)?

(2) Se toda a nossa perfeição é inerente a Cristo, não é estranho que são Paulo nos exorte a aperfeiçoar a nossa santidade no temor de Deus, purificando-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito (2Co 7.1)? Não aperfeiçoou Cristo a sua própria santidade? E será imperfeita a santidade pessoal dele enquanto não tivermos purificado a nós mesmos de toda contaminação?

(3) Se Cristo é perfeito por nós, por que são Tiago diz: A perseverança deve ter a sua obra perfeita, para que vocês sejam perfeitos (Tg 1.4)? [N. do T.: a NAA traz “a perseverança deve ter ação completa”.] A perfeição de Cristo depende da obra perfeita da nossa perseverança?

(4) No sistema que combato, que quer dizer são Pedro quando diz: Depois de vocês terem sofrido por um pouco, o Senhor irá aperfeiçoar vocês (1Pe 5.10)? Que tem o nosso sofrer por um pouco a ver com a perfeição de Cristo? Não foi Cristo aperfeiçoado por meio dos seus próprios sofrimentos (Hb 2.10)?

(5) Se os crentes fossem perfeitos na pessoa de Cristo, seriam todos igualmente perfeitos. Mas é isso o que acontece? Não fala são João de alguns que são aperfeiçoados e de outros que ainda não são aperfeiçoados no amor (cf. 1Jo 4.17-18)? Além disso, o apóstolo nos exorta a ser perfeitos, não em noções antinomianas, mas em toda a vontade de Deus (Cl 4.12) e em toda boa obra (Hb 13.21); e o senso comum nos diz que há alguma diferença entre as nossas boas obras e a pessoa de Cristo. [N. do T.: em Cl 4.12, a NAA traz “maduros” em vez de “perfeitos”; em Hb 13.21, “em todo o bem” em vez de “em toda boa obra”.]

(6) Não mostra o nosso Senhor, ele mesmo, que a sua justiça pessoal de modo algum será aceita no lugar da nossa perfeição pessoal, quando diz: “Todo ramo que, estando em mim, não der fruto (ou cujo fruto nunca chega a perfeição alguma. Veja Lc 8.14.) meu Pai o corta” (Jo 15.2), longe de lhe imputar a sua perfeita fecundidade? [N. do T.: em Lc 8.14, onde a KJV diz “bring no fruit to perfection” (não levam o fruto à perfeição), a NAA traz “os seus frutos não chegam a amadurecer”.]

(7) Pela natureza das coisas, pode a perfeição de Cristo suprir a falta daquela perfeição à qual ele nos chama? Não há uma diferença mais essencial entre a perfeição de Cristo e a de um crente do que entre a perfeição de uma rosa e a da erva do campo, entre a perfeição de uma águia que voa alto e a de um inseto que rasteja? Se nosso Senhor é a cabeça da igreja, e nós os membros, não é absurdo supor que a perfeição dele nos convenha em todos os aspectos? Se me fosse permitido levar adiante uma metáfora bíblica, eu perguntaria: Não é a perfeição da cabeça muito diferente da perfeição da mão? E não nos aproveitamos da credulidade dos simples quando os fazemos crer que um adúltero e assassino impenitente é perfeito em Cristo; ou, se preferirem, que uma perna torta e um pé fendido são perfeitamente belos, contanto que pertençam de algum modo a um rosto bonito?

(8) Ilustremos isto um pouco mais. Não consiste a perfeição pessoal do Redentor em ele ser Deus e homem numa só pessoa; em ser eternamente gerado pelo Pai como Filho de Deus, e não gerado no tempo por um pai, como Filho do Homem; em ter dado a sua vida em resgate por todos (cf. Mc 10.45; 1Tm 2.6); em tê-la recebido outra vez (Jo 10.17); e em estar em pé no meio do trono (Ap 5.6), podendo salvar totalmente todos os que por ele se aproximam de Deus (Hb 7.25)? Considere isto, crente imparcial, e diga se algum homem ou anjo pode decentemente esperar que uma perfeição tão incomunicável venha algum dia a lhe caber.

(9) Assim como a perfeição pessoal do Redentor não pode convir aos redimidos, tampouco a perfeição pessoal dos redimidos pode ser encontrada no Redentor. A perfeição de um crente consiste num grau de fé que atua pelo amor perfeito (cf. Gl 5.6). E esse alto grau de fé não implica principalmente: (1) uma ininterrupta desconfiança de si mesmo, renúncia de si mesmo e desespero de si mesmo? (2) Um recurso incessante, do fundo do coração, ao sangue, aos méritos e à justiça de Cristo? E (3) um amor agradecido a ele, porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19), e uma caridade fervorosa para com toda a humanidade, por amor dele? São três coisas que, pela própria natureza das coisas, ou não podem estar de modo algum no Salvador, ou não é possível que estejam nele da mesma maneira em que precisam estar nos crentes.

(10) Não está prenhe de males a doutrina de que somos perfeitos na pessoa de Cristo? Não abre ela um refúgio da mentira (Is 28.17) aos fanáticos mais licenciosos do país? Não há quem diga: somos perfeitos na pessoa de Cristo; nele temos perfeita castidade e honestidade, perfeita temperança e mansidão; e seríamos culpados de insolência farisaica se remendássemos a perfeição dele com os trapos imundos da nossa santidade pessoal (cf. Is 64.6)? E não tem esta doutrina uma tendência direta a pôr de lado a piedade e a favorecer o antinomianismo grosseiro?

Por último. Quando nosso Senhor pregou a doutrina da perfeição, não o fez de tal modo que demonstrasse que a nossa perfeição tem de ser pessoal? Disse ele alguma vez: Se você quer ser perfeito, apenas creia que eu sou perfeito por você? Pelo contrário, não declarou: Se você quer ser perfeito, venda os seus bens; [desfaça-se de tudo o que estiver no seu caminho;] e siga-me (Mt 19.21) no caminho da perfeição? E ainda: Façam o bem aos que odeiam vocês, para demonstrarem que são filhos do Pai de vocês, que está nos céus; porque ele faz vir chuvas sobre justos e injustos etc. (Mt 5.44-45). Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu (Mt 5.48)? [N. do T.: as palavras “façam o bem aos que odeiam vocês” estão em Mt 5.44 na KJV, mas a NAA, que segue outro texto grego, só as traz em Lc 6.27.] Quem pode ler estas palavras sem ver que a perfeição que Cristo prega é uma perfeição de disposições santas, que produz ações santas em todos os seus seguidores? E que, por consequência, é uma perfeição pessoal, tão inerente a nós, e no entanto tão derivada dele e dependente dele, quanto a perfeição da nossa saúde física? A principal diferença está nisto: a perfeição da nossa saúde nos vem de Deus em Cristo, como o Deus da natureza, ao passo que a nossa perfeição cristã nos vem de Deus em Cristo, como o Deus da graça.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.