John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção II

Calvinistas piedosos e a perfeição cristã

Calvinistas piedosos tiveram, ÀS VEZES, quase as mesmas ideias que nós sobre a perfeição cristã. Divergem de nós principalmente porque confundem a lei antievangélica da inocência com a lei evangélica da liberdade, a pecabilidade com o pecado, a perfeição adâmica com a perfeição cristã; e porque não consideram que a perfeição cristã, ficando infinitamente aquém da perfeição ABSOLUTA de Deus, admite um CRESCIMENTO diário; que os anjos têm as suas “falhas” no céu; e que Cristo teve as suas fraquezas inocentes na terra.

Se fosse necessário, poderíamos apoiar a doutrina da perfeição cristã exposta nas páginas anteriores com citações quase inumeráveis dos calvinistas mais judiciosos e piedosos. As opiniões de dois ou três deles podem edificar o leitor e dar-lhe uma amostra da imparcialidade com que escreveram sobre o assunto quando uma maré alta de verdade evangélica os ergueu acima dos baixios do seu sistema.

“Se o amor for sincero, [diz o piedoso sr. Henry] é aceito como o cumprimento da lei. Certamente servimos a um bom Senhor, que resumiu todo o nosso dever numa só palavra, palavra curta e palavra doce: Amor, a beleza e a harmonia do universo. Amar e ser amado é todo o prazer, toda a alegria e toda a felicidade de um ser inteligente. Deus é amor (1Jo 4.8), e o amor é a imagem dele na alma. Onde há amor, a alma está bem moldada, e o coração, preparado para toda boa obra.” Exposição de Henry, sobre Rm 13.10. E ainda: “Felizmente para nós, em virtude da aliança da graça, por causa da justiça de Cristo, a sinceridade é aceita como a nossa perfeição evangélica.” Henry, sobre Gn 6.9. [Veja a nota sobre a palavra perfeição, na seção I.] [N. do T.: em Gn 6.9, a KJV diz que Noé era perfect (perfeito); a NAA traz “íntegro”.]

O piedoso bispo Hopkins pensa exatamente do mesmo modo. [N. do T.: Ezekiel Hopkins (1634-1690), bispo anglicano de Derry, na Irlanda.] “Considerem, diz ele, para o encorajamento de vocês, que não é tanto a perfeição absoluta e legal da obra quanto a perfeição [evangélica] do obreiro, isto é, a perfeição do coração, que Deus considera e recompensa. Há uma perfeição dupla: a perfeição da obra e a do obreiro. A perfeição da obra se dá quando a obra corresponde de modo tão exato e estrito à santa lei de Deus que não há nela nenhuma irregularidade. A perfeição do obreiro não é outra coisa senão a sinceridade interior e a retidão do coração para com Deus, que pode existir onde há muitas imperfeições e defeitos misturados. Se Deus não aceitasse nem recompensasse nenhuma obra senão a que é absolutamente perfeita em relação à lei, isso tiraria as rodas de todo esforço, pois a nossa obediência fica muito aquém da perfeição legal nesta vida;” (visto que a lei adâmica não faz nenhuma concessão à fraqueza do homem caído.) “Mas não é em termos como esses que estamos com o nosso Deus. Não é tanto o que as nossas obras são, mas o que o nosso coração é, que Deus considera e há de recompensar. Saibam também, porém, que, se o nosso coração for perfeito e sincero, nós nos esforçaremos, com o máximo das nossas forças, para que as nossas obras sejam perfeitas segundo o rigor da lei.”

O arcebispo Leighton também defende a perfeição que sustentamos e, supondo à maneira calvinista que a perseverança é necessária à perfeição cristã, eleva-a acima da perfeição paradisíaca de Adão. Eis as suas próprias palavras, abreviadas: “Por obediência se indica aqui a santificação (cf. 1Pe 1.2): significa tanto a obediência habitual como a atual, a renovação do coração e a conformidade com a vontade divina. A mente é iluminada pelo Espírito Santo para conhecer a vontade divina e crer nela; sim, esta fé é a grande e principal parte desta obediência (Rm 1.8). [N. do T.: a expressão “obediência da fé” está em Rm 1.5 e 16.26; a referência impressa é Rm 1.8.] A verdade da doutrina é impressa na mente, e daí brota uma obediência agradável e cheia” [ele não diz de pecado, mas] “de amor: daí todas as afeições, e o corpo inteiro com os seus membros, aprendem a prestar uma obediência voluntária e a submeter-se a Deus, ao passo que antes lhe resistiam, estando sob o estandarte de Satanás. Esta obediência, embora imperfeita” [quando medida pela lei da inocência paradisíaca, sem Cristo], “tem, contudo, uma certa, se assim posso dizer, perfeição imperfeita.” [Não é perfeita no sentido legal, mas no evangélico.] “Ela é universal” [ou perfeita] “de três maneiras: (1) No sujeito: não está só na língua, ou na mão etc., mas tem a sua raiz no coração. (2) No objeto: abrange a lei inteira etc. Não considera pequeno nenhum mandamento que venha de Deus, porque ele é grande e altamente estimado; nem difícil nenhum mandamento, ainda que contrário à carne, porque ao Amor todas as coisas são fáceis; há a mesma autoridade em todos, como são Tiago argumenta divinamente (cf. Tg 2.10-11). E essa autoridade é a corrente de ouro que liga todos os mandamentos” [da lei da liberdade pregada por são Tiago], “a qual, se for quebrada em qualquer elo, se desfaz em pedaços. (3) Na duração: o homem inteiro se sujeita à lei inteira, e isso constantemente. Que essa tríplice perfeição da obediência não é um quadro pintado pela fantasia, é evidente em Davi (Sl 119).” Comentário do arcebispo Leighton sobre são Pedro, página 15.

Aquele prelado erudito, como homem piedoso, não podia deixar de ser perfeccionista, embora, como calvinista, falasse frequentemente a linguagem dos imperfeccionistas. Eis mais uma citação, em que ele concede tudo o que defendemos. “Estar sujeito a ele (Deus) é felicidade mais verdadeira do que comandar o mundo inteiro. O amor puro faz essa conta, ainda que nenhuma outra recompensa viesse depois; a obediência a Deus (a perfeição da sua criatura e a própria felicidade dela) traz no próprio seio a sua plena recompensa. Sim, o amor se deleita mais nos serviços mais difíceis etc. Amar o trabalho do amor, e o serviço do amor, é que é de fato amá-lo; e isso não tanto porque leva ao descanso e termina nele, mas porque é serviço àquele a quem amamos. Sim, esse trabalho é em si mesmo um descanso: é tão natural e doce para a alma que ama quanto a revolução dos céus, que é movimento no repouso e repouso no movimento; não muda de lugar, embora corra sem cessar. Assim, o movimento do amor é verdadeiramente celestial, e sempre circular em Deus: começa nele e termina nele; e assim não termina, mas continua a mover-se sem cansaço etc. Conforme é o amor, assim é a alma: ela se torna semelhante àquilo que ama, sim, torna-se uma só coisa com ele etc. Pelo amor a Deus, ela se torna divina, é uma só com ele etc. Ora, embora tenhamos caído desse estado, somos convidados a ele; embora degenerados e amaldiçoados na nossa natureza pecaminosa, somos, contudo, renovados em Cristo, e este mandamento é renovado nele, e um novo modo de cumpri-lo [a saber, o caminho da fé em nosso Redentor] nos é mostrado.” Obras seletas do arcebispo Leighton, página 461. Onde foi que o sr. Wesley ultrapassou alguma vez esta elevada descrição da perfeição cristã?

Admito que este piedoso prelado frequentemente confunde a nossa perfeição celestial de glória com a nossa perfeição progressiva de graça e, por isso, supõe que esta última não é alcançável nesta vida; mas, mesmo então, ele nos exorta a nos portarmos como perfeccionistas sinceros. “Embora os homens, diz ele, fiquem aquém do seu alvo, é bom, contudo, mirar alto: atirarão tanto mais alto, ainda que não tão alto quanto miram. Assim, devemos ter diante dos olhos o estado de perfeição, decididos a não1 nos contentar com nada abaixo dele e a chegar tão perto dele quanto pudermos, mesmo antes de alcançá-lo (Fp 3.11-12). Isso é agir como quem tem tal esperança, tal estado em vista, e continua avançando para ele.” Ibid., página 184. O erro do arcebispo será apontado em detalhe onde eu mostrar o verdadeiro sentido de Fp 3.11, a passagem atrás da qual ele abriga os restos dos seus preconceitos calvinistas.

Pelas citações anteriores, e por mais duas, dos reverendos srs. Whitefield e Romaine, que o leitor encontrará no fim da seção IX, vê-se que os calvinistas piedosos chegam às vezes muito perto da doutrina da perfeição cristã; e, se não a inculcam constantemente, é [ao que nos parece] principalmente pelas razões seguintes.

(1) Eles geralmente confundem a lei da inocência, sem Cristo, com a lei evangélica de Cristo; e, como a primeira não pode ser cumprida pelos crentes, concluem que a obediência pura à segunda é impraticável.

(2) Eles confundem a pecabilidade com o pecado, isto é, o poder de pecar com o uso efetivo desse poder. E, enquanto supuserem que uma simples capacidade natural de pecar é ou pecado original ou uma propensão má, não nos admira que creiam que o pecado original, ou as propensões más, devem permanecer no nosso coração até que a morte nos tire deste mundo cheio de tentações. Mas em que argumento eles fundamentam essa noção? Deus não criou pecáveis os anjos e o homem? Ou, em outros termos, não os dotou do poder de pecar ou de não pecar, de desobedecer ou de obedecer, como lhes aprouvesse? O que aconteceu não mostrou que eles tinham esse tremendo poder? Mas não seria “blasfemo” afirmar que Deus os criou cheios de pecado original e de propensões más? Se um crente adulto cede à tentação e cai em pecado, como os nossos primeiros pais, será isso prova de que ele nunca foi purificado do pecado inato? Se pecar demonstra necessariamente que o coração sempre esteve fervilhando de depravação, não se seguirá que Adão e Eva estavam contaminados pelo pecado antes que a sua vontade começasse a desviar-se da justiça original? Não é, porém, indubitável, pela natureza de Deus, pela Escritura e pela triste experiência, que, depois de terem sido criados à imagem sem pecado de Deus e à sua santa semelhança, os nossos primeiros pais, assim como alguns anjos, foram atraídos pela sua própria cobiça, concebida por eles mesmos (Tg 1.14), e se tornaram maus pelo poder do seu próprio livre-arbítrio? É razoável pensar que os cristãos mais santos, enquanto durar o dia da sua visitação e da sua provação neste deserto cheio de tentações, estejam nesse aspecto acima de Adão no paraíso e acima dos anjos no céu? E não podemos concluir que, assim como Satanás e Adão caíram imperceptivelmente no pecado, um da altura da sua perfeição celestial e o outro do cume da sua excelência paradisíaca, sem nenhuma tendência prévia que o inclinasse à corrupção, assim também aqueles crentes cujo coração foi completamente purificado pela fé podem afastar-se gradualmente da fé e cair tão baixo a ponto de profanar o sangue da aliança com o qual foram santificados (Hb 10.29)?

(3) Os preconceitos dos nossos opositores aumentam porque eles confundem a perfeição adâmica2 com a perfeição cristã, duas perfeições tão distintas entre si quanto o jardim do Éden e a igreja cristã. A perfeição adâmica veio de Deus, nosso Criador, no paraíso, antes de qualquer prova da obediência fiel de Adão; e a perfeição cristã vem de Deus, nosso Redentor e Santificador, na igreja cristã, depois de uma severa prova da obediência da fé. A perfeição adâmica podia ser perdida por uma afronta ao amor preservador de Deus, nosso Criador; e a perfeição cristã pode ser perdida por uma afronta ao amor redentor de Deus, nosso Salvador. A perfeição adâmica estendia-se ao homem inteiro: o seu corpo era perfeitamente são em todas as suas partes, e a sua alma, em todas as suas faculdades. Mas a perfeição cristã se estende principalmente à vontade, que é a faculdade capital e moral da alma, deixando o entendimento ignorante de dez mil coisas, e o corpo morto por causa do pecado (Rm 8.10).

(4) Outro erro capital está na raiz da oposição que os nossos irmãos calvinistas fazem à perfeição cristã. Eles imaginam que, segundo os nossos princípios, a graça de um cristão adulto é como o corpo de um homem adulto, que não pode crescer mais. Mas essa consequência decorre da imaginação deles, e não da nossa doutrina. Exortamos os crentes mais fortes a crescer em tudo em Cristo (cf. Ef 4.15), afirmando que não há no céu (muito menos na terra) santidade nem felicidade que não admitam crescimento, exceto a santidade e a felicidade do próprio Deus; porque, pela própria natureza das coisas, a um ser absolutamente perfeito, e infinito em todos os sentidos, nunca se pode acrescentar coisa alguma. Mas acréscimos infinitos podem ser feitos a seres finitos em todos os aspectos, como são os santos glorificados e os santos anjos.

Daí se vê que a comparação que fazemos entre a madureza de um fruto e a maturidade da graça de um crente não pode ser levada a um paralelo exato. Pois um cristão perfeito cresce muito mais do que um crente fraco, cujo crescimento ainda é obstruído pelos espinhos do pecado, que lhe fazem sombra, e pelos brotos ladrões da iniquidade, que lhe sugam a seiva. Além disso, um fruto que chegou à sua perfeição, em vez de crescer, cai e apodrece, ao passo que uma criança em Cristo (1Co 3.1) é chamada a crescer até se tornar um cristão perfeito; o cristão perfeito, até se tornar um espírito separado do corpo; o espírito separado do corpo, até alcançar a perfeição de um santo glorificado em corpo e alma; e esse santo, até ter sondado as profundezas infinitas da perfeição divina, isto é, por toda a eternidade. Pois, se avançamos de fé em fé (Rm 1.17) e somos espiritualmente transformados de glória em glória (2Co 3.18) contemplando a Deus como num espelho, de forma obscura (1Co 13.12), aqui na terra, muito mais experimentaremos mudanças que nos aperfeiçoem quando o virmos como ele é (1Jo 3.2) e o contemplarmos face a face (1Co 13.12), em revelações de si mesmo variadas, inumeráveis e cada vez mais brilhantes, no céu. Se o sr. Hill ao menos considerasse isso, não suporia mais que a perfeição cristã é o raquitismo farisaico que detém o crescimento dos crentes e os transforma em “monstros temporários”. Mais ainda:

Um engano bem-intencionado contamina a consciência? Você, sem perceber, incentiva a preguiça e a embriaguez ao socorrer bondosamente um mendigo preguiçoso e beberrão que abusa da sua caridade com mentiras plausíveis: esse erro feito por amor é pecado? Um boticário desastrado lhe manda arsênico em vez de alúmen; você o usa como alúmen e envenena o seu filho; mas será você um assassino, se der a dose fatal por amor? Suponha que o Tentador tivesse misturado secretamente um pouco do fruto proibido com outros frutos que Eva havia colhido licitamente para uso; teria ela pecado, se tivesse comido dele sem perceber e dado uma parte ao marido? Depois de confessar humildemente e lamentar o seu erro não intencional, a sua falta oculta, a sua ofensa acidental, a sua transgressão involuntária, não teria ela ficado tão inocente quanto antes? Vou ainda mais longe e pergunto: não pode um homem que sustenta muitas opiniões certas ser um amante perfeito do mundo? E, pela mesma razão, não pode um homem que sustenta muitas opiniões erradas ser um amante perfeito de Deus? Não morreram alguns calvinistas com o coração transbordando de amor perfeito e a cabeça cheia da ideia de que Deus lançou o seu ódio eterno e absoluto sobre miríades de homens antes da fundação do mundo? E mais: não é até possível que um homem cujo coração foi renovado no amor se oponha, por humildade equivocada ou por fraqueza de entendimento, ao nome de perfeição cristã, quando deseja, e talvez desfrute, a própria coisa?

Mais uma vez: não vale a regra de são Paulo nas coisas espirituais, assim como nas temporais: a oferta será aceita conforme o que a pessoa tem e não segundo o que ela não tem (2Co 8.12)? Será que o nosso Senhor exige de fato dos crentes mais do que eles podem de fato fazer pela sua graça? E, quando eles fazem o melhor que podem, não vê ele alguma perfeição nas suas obras, por insignificantes que sejam essas obras? Removam este imenso monte de pedras, diz um pai indulgente aos seus filhos, e sejam diligentes conforme as suas forças. Enquanto o mais velho, um homem forte, remove rochas, o caçula, uma criancinha, está tão alegremente ocupado quanto qualquer um dos outros em carregar areia e pedrinhas. Ora, não pode a sua obediência de criança ser tão excelente no seu grau e, por consequência, tão aceitável ao pai quanto a obediência de homem feito do seu irmão mais velho? Mais ainda: embora ele não faça quase nada, não podem os seus esforços, se partirem mais do coração, despertar um sorriso de aprovação maior no seu Pai amoroso, que olha mais para a disposição do coração do que para a aparência da obra? Se os crentes de Sardes tivessem empregado de coração todos os seus talentos, teria o nosso Senhor se queixado de não ter achado as suas obras perfeitas diante de Deus (Ap 3.2)? [N. do T.: a KJV diz perfect (perfeitas); a NAA traz “as obras que você realiza não são íntegras na presença do meu Deus”.] E não foi segundo essa regra de perfeição que Cristo testificou que a viúva pobre, que tinha dado apenas duas pequenas moedas, tinha, no entanto, lançado na caixa de ofertas mais do que todos os ricos, embora eles tivessem depositado grandes quantias, porque, a juízo do próprio Senhor, ela tinha dado tudo o que possuía (Mc 12.41-44)? Ora, podia ela dar, ou Deus exigia, mais do que o seu tudo? E, quando ela deu assim de coração o seu tudo, não realizou ela (falando segundo o evangelho) uma obra perfeita, de acordo com a sua dispensação e as suas circunstâncias?

Queremos crer que, se estas observações bíblicas e estas perguntas racionais não removerem o preconceito do sr. Hill, ao menos abrirão caminho para uma leitura mais imparcial das páginas seguintes.

Notas de Fletcher

1. Creio ter dito num dos Freios que o arcebispo Leighton duvidava de que tivessem a graça salvadora aqueles que não aspiram sinceramente à perfeição. Essa dúvida (se agora me lembro bem) é do sr. Alleyne [N. do T.: provavelmente Joseph Alleine (1634-1668), pastor puritano inglês.], embora esta citação do arcebispo mostre que ele não estava longe da opinião de Alleyne, se é que não a partilhava. O piedoso dr. Doddridge é explícito sobre este ponto: “Permitir a si mesmo”, diz ele, “acomodar-se deliberadamente, satisfeito com quaisquer conquistas imperfeitas na religião, e considerar um estado mais firme e mais adiantado dela como algo que você não deseja, ou melhor, como algo que você resolve secretamente não buscar, é um dos sinais mais fatais que bem podemos imaginar de que você é inteiramente estranho aos primeiros princípios dela.” Doddridge, Princípio e progresso, cap. 20. [N. do T.: Philip Doddridge (1702-1751), The Rise and Progress of Religion in the Soul (1745).]

2. Entre a perfeição adâmica e a cristã colocamos a inocência que as criancinhas têm pela graça. Elas não só estão cheias de pecabilidade, como Adão, mas também estão debilitadas em todas as suas faculdades animais e racionais e, por consequência, sujeitas a se tornar presa fácil de toda tentação, pela fraqueza da sua razão e pela corrupção das suas potências concupiscível e irascível. Apesar disso, até que comecem a preferir pessoalmente o mal moral ao bem moral, podemos considerá-las inocentes no sentido evangélico, ou pela graça. Digo inocentes pela graça porque, se as considerarmos na descendência do Adão caído, nós as encontraremos por natureza na condição de filhos da ira (Ef 2.3) e debaixo da maldição; mas, se as considerarmos no descendente da mulher (cf. Gn 3.15), que foi prometido a Adão e à sua posteridade, nós as encontraremos colocadas, pela graça, num estado de redenção e de salvação evangélica. Pois a graça, que veio sobre todos para a justificação (Rm 5.18), pertence primeiro a elas, visto que Cristo santificou primeiro a infância. Por isso, não hesitamos em dizer, com o nosso Senhor: Dos tais é o Reino dos Céus (Mt 19.14). Ora, o Reino dos Céus não é dos pecadores como pecadores, mas das criancinhas, por serem inocentes por meio dessa graça, ou dos adultos, por serem penitentes, isto é, por se terem convertido dos seus pecados a Cristo.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.