John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção VIII

A suposta carnalidade de Paulo

Resposta aos argumentos com que geralmente se defende a suposta carnalidade de são Paulo.

SE o sentido que os nossos opositores dão a Rm 7.14 é verdadeiro, a doutrina da perfeição cristã é um sonho, e o máximo que podemos alcançar na terra é a carnalidade apostólica de são Paulo e a servidão involuntária à lei do pecado, com a esperançosa perspectiva de libertação num purgatório da morte. É, portanto, da maior importância firmar a nossa exposição desse versículo, respondendo aos argumentos que, segundo se supõe, favorecem o sentido antinomiano imposto temerariamente a essa porção da Escritura.

Argumento I. “Se são Paulo não era carnal e vendido à escravidão do pecado quando escreveu aos romanos, por que diz ele: Eu sou carnal? Não poderia ter dito: Eu era carnal antes, mas agora a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte (Rm 8.2)? Você pode dar uma boa razão por que, em Rm 7.14, a frase eu sou carnal tem de significar eu era carnal? É correto pôr assim o tempo passado no lugar do presente?”

Resposta. Já mostramos que esse modo figurado de falar não é incomum nas Escrituras. Admitimos, porém, que não devemos nos afastar do sentido literal de nenhuma frase sem boas razões. Várias dessas razões, creio eu, já foram apresentadas para mostrar a necessidade de tomar as palavras de são Paulo, eu sou carnal, no sentido exposto na seção anterior. Farei mais uma observação sobre este ponto, que, se não me engano, bastaria sozinha para convencer quem não tem preconceito.

Os estados de todas as almas podem, em geral, reduzir-se a três. (1) O dos pecadores não despertados, que dormem tranquilos nas cadeias dos seus pecados e sonham com a justiça própria e com o céu. (2) O dos pecadores despertados, inquietos e relutantes, que tentam em vão romper as cadeias opressivas dos seus pecados. E (3) o dos pecadores libertos, ou crentes vitoriosos, que desfrutam a liberdade dos filhos de Deus. Este último estado é descrito em Rm 7.4,6. O resto desse capítulo foi introduzido com discernimento, para mostrar como o pecador não despertado é despertado e tirado do seu estado carnal e como o pecador despertado é impelido a Cristo, em busca de liberdade, pelo mandamento que açoita e acorrenta. O apóstolo mostra isso observando [v. 7 etc.] como a lei faz o pecador [ou, se você preferir, fez a ele] passar do estado não despertado ao estado despertado. Eu não teria conhecido o pecado, diz ele, a não ser por meio da lei etc. (Rm 7.7). Depois de descrever o seu estado não despertado, sem a lei, e ao começar a descrever o seu estado despertado, debaixo da lei, nada era mais natural do que mudar o tempo do verbo. [N. do T.: a edição de 1792 imprime sense, “sentido”; o contexto pede tense, “tempo verbal”.] Mas, como já tinha usado o tempo passado na descrição do primeiro estado [o não despertado], e como já tinha dito: Sem lei, o pecado estava morto. [N. do T.: a NAA traz “está morto”; Fletcher cita a KJV, no passado (was dead), e o argumento depende do tempo do verbo.] Houve um tempo em que, sem a lei, eu vivia. O pecado reviveu, e eu morri etc. (Rm 7.8-9), ele não podia mais usar esse tempo ao começar a descrever o segundo estado [o despertado]: refiro-me ao estado em que ele se achou quando o mandamento despertou a sua consciência sonolenta e matou as suas esperanças farisaicas. Viu-se, portanto, obrigado a usar outro tempo; e nenhum, nesse caso, era mais apropriado do que o presente. É exatamente como se dissesse: “Quando o mandamento matou o fariseu presunçoso que havia em mim, quando eu morri para as minhas esperanças de justiça própria, não morri sem um gemido, nem passei para a vida de Deus sem dores agudas. Não: lutei com empenho, queixei-me com amargura, e a linguagem do meu coração oprimido era: Eu sou carnal, vendido à escravidão do pecado” etc., até o fim do capítulo1. É, portanto, com a máxima propriedade retórica que o apóstolo diz eu sou, e não eu era carnal etc. Mas propriedade retórica não é exatidão teológica. Davi pode dizer, como poeta: Deus estava irado. Das suas narinas subiu fumaça, e fogo devorador saiu da sua boca; dele saíram brasas ardentes (Sl 18.7-8); mas seria ridículo tomar essas expressões em sentido literal. E não é muito menos absurdo afirmar que as palavras de são Paulo, eu sou carnal, vendido à escravidão do pecado, devem ser entendidas da liberdade cristã e apostólica.

Argumento II. “São Paulo diz aos coríntios: Não pude falar a vocês como a pessoas espirituais, e sim como a pessoas carnais, como a crianças em Cristo (1Co 3.1). Ora, se os coríntios podiam ser ao mesmo tempo santos e carnais, por que são Paulo não poderia ser, ao mesmo tempo, um eminente santo apostólico e um homem carnal e miserável, vendido à escravidão do pecado?”

Resposta. (1) Os coríntios, em geral, de modo nenhum eram crentes firmados, pois o apóstolo conclui a sua última epístola a eles mandando que se examinassem para ver se realmente estavam na fé (2Co 13.5). (2) Se são Paulo ainda se mostrava carnal, e assim devia continuar até a morte, junto com todo o corpo dos crentes cristãos, por que censurou os coríntios por uma carnalidade que seria inevitável? Por que se admirou dela e disse: Vocês ainda são carnais. Porque, se há ciúmes e brigas entre vocês etc., será que isso não mostra que são carnais? (1Co 3.2-3). Não poderiam esses coríntios carnais ter respondido com justiça: Médico carnal, cure-se a si mesmo (cf. Lc 4.23)? (3) Na linguagem do apóstolo, ser carnal, ter a inclinação da carne, andar segundo a carne, não andar segundo o Espírito e estar na carne são frases de igual sentido. Isso fica evidente em Rm 7.14 e 8.1-9; e ele diz, direta ou indiretamente, que para os que estão nesse estado há condenação, que eles não podem agradar a Deus e que estão num estado de morte, porque ser carnal, ou a inclinação da carne, é morte (Rm 8.1,6,8). Ora, se ele mesmo era carnal, não se segue que não podia agradar a Deus e que estava num estado de condenação e de morte? Mas como isso concorda com a declaração que ele faz logo em seguida, de ser guiado pelo Espírito, de andar segundo o Espírito e de ter sido livre da lei do pecado e da morte pelo Espírito da vida, em Cristo Jesus? (4) Não negamos que os restos da inclinação carnal ainda se apegam aos cristãos imperfeitos, nem que, quando a expressão carnal é suavizada e atenuada, ela possa, num sentido mais fraco, aplicar-se a cristãos professos como aqueles coríntios a quem são Paulo disse: Não pude falar a vocês como a pessoas espirituais. Mas não se podia ainda falar ao próprio apóstolo como a um homem espiritual? E ele não admite que, mesmo nas igrejas corrompidas de Corinto e da Galácia, havia alguns homens verdadeiramente espirituais, alguns cristãos adultos e perfeitos? Veja 1Co 14.37 e Gl 6.1. (5) Quando o apóstolo chama de carnais os coríntios divididos, logo suaviza a expressão, acrescentando crianças em Cristo. Se, portanto, a palavra carnal se aplica a são Paulo nesse sentido, segue-se que o apóstolo não passava de uma criança em Cristo; e, se ele não passava de uma criança, não é tão absurdo julgar o crescimento dos cristãos adultos pelo crescimento dele quanto medir a estatura de um homem pela de um bebê? (6) Por fim: o homem descrito em Rm 7.14 não só é chamado carnal sem nenhuma expressão que suavize ou atenue, mas a palavra carnal é logo reforçada por uma expressão incomum, vendido à escravidão do pecado, que descreve o mais forte cativeiro da corrupção (cf. Rm 8.21). Assim, a razão, a Escritura e a crítica concordam em pôr de lado este argumento.

Argumento III. “O homem carnal cuja causa defendemos diz, em Rm 7.20: Se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim, isto é, na minha parte não renovada. Portanto, ele podia ser um eminente santo apostólico na sua parte renovada e um homem carnal e miserável, vendido à escravidão do pecado, na sua parte não renovada.”

Resposta. (1) Como o apóstolo fala ali na condição de homem carnal e, contudo, despertado, que tem luz suficiente para ver os seus hábitos pecaminosos, mas não fé e resolução suficientes para vencê-los, o seu sentido é evidentemente este: se eu, como homem carnal, faço o que eu, como homem despertado, não quero, já não sou eu quem o faz, isto é, não o faço de acordo com a minha consciência despertada, pois a minha consciência se levanta contra a minha conduta, e sim o pecado que habita em mim: é o pecado tirano que tomou plena posse de mim e que não faz mais caso dos ditames da minha consciência do que um feitor inexorável faz caso dos gritos de um escravo oprimido.

(2) Se o puro amor de Deus estava derramado no coração de são Paulo e o dominava (cf. Rm 5.5; 2Co 5.14), ele permanecia no amor e, por consequência, em Deus; pois são João diz: Aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele (1Jo 4.16). Aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo (1Jo 4.4). Ora, se Deus habitava em Paulo pelo seu Espírito de amor, cabe aos nossos opositores mostrar que um Deus que habita em nós e o pecado que habita em nós são uma só e a mesma coisa, ou que o apóstolo tinha mudado estranhamente a sua doutrina quando perguntou com indignação: Que harmonia pode haver entre Cristo e Belial? (2Co 6.15). [N. do T.: a NAA traz “o Maligno”; Fletcher segue a KJV, “Belial”, nome em que se apoia o argumento a seguir.] Pois, se era necessário que o pecado que habita em nós [o Belial interior] se aninhasse com Cristo no coração de são Paulo e no coração de todos os crentes, não deveria o apóstolo, antes, ter exclamado com admiração: “Vejam como é grande a harmonia entre Cristo e Belial! Eles são inseparáveis! Vivem sempre juntos no mesmo coração, e nada jamais os separou, senão aquilo que separa marido e mulher, isto é, a morte”?

(3) Se a relutância em servir à lei do pecado prova que somos santos como Paulo era santo, não haverá alegria no céu pela santidade apostólica da maioria dos ladrões e assassinos do reino? Não podem eles, mais cedo ou mais tarde, dizer: “Com a mente [ou consciência] sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, sou escravo da lei do pecado (Rm 7.25). O querer o bem está em mim, mas não o realizá-lo (Rm 7.18). Eu seria honesto e amoroso, se pudesse sê-lo sem negar a mim mesmo; mas encontro esta lei: quando quero fazer o bem, o mal reside em mim” (Rm 7.21)? Pois pode haver algo mais forte sobre este ponto do que as palavras da princesa desumana que, a ponto de cometer um assassinato, exclamou: “A minha mente [isto é, a minha razão ou consciência] me leva a uma coisa, mas a minha paixão nova e impetuosa me arrasta a outra, contra a minha vontade. Vejo o que é certo e o aprovo, mas faço o que é criminoso2.”

Argumento IV. “Do homem cuja experiência é descrita em Rm 7 se diz que, segundo o homem interior, tem prazer na lei de Deus e que com a mente é escravo da lei de Deus (Rm 7.22,25); logo, ele era participante da santidade apostólica.”

Resposta. Ele não diz também: Segundo a carne, sou escravo da lei do pecado? E Medeia não disse o mesmo, à sua maneira, antes de manchar as mãos com sangue inocente? Que mais podia ela querer dizer quando exclamou: “Vejo com a mente o que é certo e o aprovo, embora faça o que é criminoso”? E não é verdade que os fariseus, por algum tempo, quiseram se alegrar com a luz de João Batista, a lâmpada que estava acesa e iluminava (Jo 5.35)? E um evangelista não nos informa que o próprio Herodes ouvia aquele homem de Deus [ἡδέως] com prazer, e fazia muitas coisas também (Mc 6.20)? [N. do T.: Fletcher segue a KJV, “fazia muitas coisas”; a NAA traz “ficava perplexo, embora gostasse de escutá-lo”.] Mas isso prova que Medeia, os fariseus ou Herodes tivessem alcançado a santidade apostólica?

Argumento V. “A pessoa que descreve as suas lutas inúteis sob o poder do pecado exclama por fim: Quem me livrará etc., e logo expressa a esperança de uma libertação futura, dando graças a Deus por ela por Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 7.24-25). Isso não mostra que o homem carnal, vendido à escravidão do pecado, era um crente cristão e, por consequência, o próprio Paulo?”

Resposta. Isso mostra apenas que o homem vendido à escravidão do pecado, que geme pela liberdade evangélica, é sustentado nas suas infelizes circunstâncias por uma esperança de libertação; e que, quando a lei, como um severo mestre-escola, quase o levou a Jesus Cristo (cf. Gl 3.24), quando ele chega às fronteiras de Canaã e não está longe do Reino de Deus (Mc 12.34) e da cidade de refúgio, começa a olhar para Cristo e a ansiar ardentemente por ele, e tem às vezes esperanças consoladoras de libertação por meio dele. Tem uma fé que deseja a liberdade, mas não uma fé que a obtém. Tem certo grau da fé para ser curado, mencionada em At 14.9, mas ainda não tem a fé vitoriosa que de fato cura, aquela que são João chama de vitória (1Jo 5.4) e que é acompanhada de um testemunho interior de que Cristo está formado no nosso coração (cf. Gl 4.19). É absurdo confundir o homem carnal, que luta para entrar em Cristo e na liberdade, dizendo: Quem me livrará etc., com o homem espiritual, que já veio a Cristo, permanece no poder redentor dele e testemunha que a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, o livrou da lei do pecado e da morte (Rm 8.2). O primeiro pode dizer, nos seus momentos de esperança: Graças a Deus [terei a vitória] por Jesus Cristo; mas o segundo pode dizer: Eu a tenho agora. Graças a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (1Co 15.57). Um deseja a liberdade, o outro a desfruta; um tem desejos ineficazes, o outro tem hábitos vitoriosos. Tal é o contraste entre o penitente carnal descrito em Rm 7.14 e o crente obediente descrito em Rm 8. “Há uma grande diferença”, diz o rev. sr. Whitefield, “entre bons desejos e bons hábitos. Muitos têm os primeiros e nunca alcançam os segundos.” [Muitos chegam à experiência de um penitente carnal e nunca alcançam a experiência de um crente obediente.] “Muitos têm bons desejos de subjugar o pecado; e, contudo, por descansarem nesses bons desejos, o pecado sempre teve domínio sobre eles” [segundo a carne, sempre foram escravos da lei do pecado]. “Uma pessoa doente de febre pode desejar ter saúde, mas esse desejo não é a própria saúde.” Obras de Whitefield, vol. 4, p. 7. Se os calvinistas fizessem justiça a esta importante distinção, logo abandonariam o argumento a que respondo e o jugo da carnalidade que tentam pôr no pescoço de são Paulo.

Argumento VI. “Você defende com afinco a espiritualidade do apóstolo; mas a confissão clara dele mesmo mostra que ele era de fato carnal e vendido à escravidão do pecado. Ele não diz aos coríntios que lhe foi posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para o esbofetear, a fim de que não ficasse orgulhoso com a grandeza das revelações que lhe tinham sido concedidas (2Co 12.7)? Ora, o que podia ser esse espinho na carne senão um desejo pecaminoso? E esse mensageiro de Satanás, senão o orgulho ou a ira desmedida? Três vezes ele pediu ao Senhor que esses flagelos se afastassem dele, mas Deus não o atendeu. O pecado que habitava nele devia mantê-lo humilde; e, se são Paulo precisava desse remédio, quanto mais nós?”

Resposta. (1) A ira que habita em nós nos mantém irados, e não mansos; o orgulho que habita em nós nos mantém orgulhosos, e não humildes. Os riachos correspondem à fonte. É absurdo supor que uma fonte salgada jorre água doce.

(2) Você se engana inteiramente quanto ao sentido do apóstolo. Enquanto tenta fazer dele um modesto imperfeccionista, sem perceber o apresenta como um antinomiano descarado. Pois, falando do seu espinho na carne e das bofetadas do mensageiro de Satanás, ele os chama de suas fraquezas e diz: “De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas” (2Co 12.9). Ora, se as suas fraquezas eram o orgulho, uma disposição irascível e um desejo imundo, não fez ele o papel de um antinomiano imundo, ao dizer que se gloriava nelas? Não teria até mesmo o homem carnal de Paulo corado de falar assim? Longe de se gloriar no seu orgulho, na sua ira ou no desejo que habitava nele, não gemia ele: Miserável homem que sou! (Rm 7.24)?

(3) O apóstolo, falando ainda do seu espinho na carne e de Satanás, que o esbofeteava por meio de outros, e chamando ainda essas provações de suas fraquezas, explica-se melhor nestas palavras: Por isso, sinto prazer nas fraquezas, nos insultos, nas perseguições etc., por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então é que sou forte (2Co 12.10). O poder de Cristo se aperfeiçoa na minha fraqueza (cf. 2Co 12.9). Aquelas fraquezas, aquele espinho na carne, aquelas bofetadas de Satanás não podem, então, ser o pecado que habita em nós, nem alguma irrupção dele; pois o próprio diabo não poderia fazer mais do que sentir prazer na sua maldade; e [em Rm 7] o próprio penitente carnal, segundo o homem interior, tem prazer na lei de Deus (Rm 7.22), em vez de sentir prazer no pecado que habita nele.

(4) As fraquezas em que são Paulo se gloria e sente prazer eram as que lhe tinham sido dadas para mantê-lo humilde depois das suas revelações: foi-me posto um espinho na carne etc. (2Co 12.7). Aquelas fraquezas e aquele espinho não eram, então, o pecado que habita em nós, porque o pecado que habita em nós não lhe foi dado depois das suas visões, visto que já estava firmemente cravado nele muito antes de ele ir a Damasco. É absurdo, portanto, supor que Deus lhe tenha dado depois o espinho do pecado que habita em nós, ou, na verdade, que o tenha dado alguma vez.

(5) Se o sr. Hill deseja saber o que entendemos pelo espinho na carne de são Paulo e pelo mensageiro de Satanás que o esbofeteava, respondemos que entendemos as suas fraquezas físicas: a grande debilidade e a violenta dor de cabeça de que, segundo nos informam Tertuliano e são Crisóstomo, o apóstolo sofria. O mesmo Deus que disse a Satanás a respeito de Jó: Você pode fazer com ele o que quiser, tocar nos ossos e na carne dele, mas poupe-lhe a vida (Jó 2.5-6); o mesmo Deus que permitiu àquele adversário trazer presa uma filha de Abraão com um espírito de enfermidade [física] havia já dezoito anos (Lc 13.11,16); esse mesmo Deus gracioso, repito, permitiu que Satanás afligisse o corpo de são Paulo com dores incomuns e, às vezes, ao que parece, com uma fraqueza sobrenatural, que tornava a sua aparência e a sua fala desprezíveis aos olhos dos seus adversários. Que isso não é conjectura fundada em tradição incerta fica evidente pelas próprias palavras do apóstolo duas páginas antes: Alguns dizem [os que me esbofeteiam em nome de Satanás]: “As cartas são graves e fortes, mas a presença pessoal dele é fraca e a sua palavra é desprezível” (2Co 10.10). E logo depois, descrevendo esses emissários do diabo, ele diz: Porque esses tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçando-se em apóstolos de Cristo [para se oporem a mim e para indisporem vocês contra o meu ministério]. E não é de admirar, porque o próprio Satanás [que os incita] se disfarça de anjo de luz (2Co 11.13-14). Mas, se o espinho na carne é a mesma coisa que o mensageiro de Satanás que esbofeteia, o sentido de são Paulo é evidentemente este: “Deus, que permitiu que os cananeus fossem açoite nas costas dos israelitas e espinhos nos seus olhos (Js 23.13), permitiu que Satanás me ferisse o calcanhar enquanto eu lhe firo a cabeça; e esse adversário me aflige assim com os seus espinhos e os seus ferrões, isto é, com falsos apóstolos, que me esbofeteiam com deturpações maliciosas, as quais me tornam desprezível aos olhos de vocês.” Esse sentido recebe forte apoio destas palavras de Ezequiel: Para a casa de Israel já não haverá espinho que a pique, nem ferrão que cause dor, entre todos os vizinhos que a tratam com desprezo; e saberão que eu sou o Senhor Deus (Ez 28.24).

Ambos os sentidos concordam com a razão e com a piedade, com o texto e com o contexto. Satanás feria diretamente o corpo do apóstolo com dores sobrenaturais; e, pela malícia de falsos irmãos, pela oposição de falsos apóstolos dentro da igreja e pela fúria de perseguidores cruéis fora dela, procurava, de modo indireto, abater ou destruir o zeloso apóstolo. [N. do T.: a edição de 1792 imprime immediately nas duas ocorrências; o contraste pede mediately, “por meio de outros”.] Mas Paulo andava no caminho perfeito, e bem podemos dizer dele o que foi dito de Jó em ocasião semelhante: Em tudo isto Paulo não pecou (cf. Jó 1.22). É o que se vê pelas próprias palavras dele nesta mesma epístola: Transbordo de alegria em meio a toda a nossa tribulação (2Co 7.4). Não tivemos nenhum alívio. Pelo contrário, em tudo fomos atribulados: lutas por fora da igreja, temores por dentro [tínhamos oposição furiosa dos pagãos por fora; e, por dentro, temíamos que os nossos irmãos desanimassem diante do número e da violência dos nossos adversários]. Porém Deus, que consola os abatidos, nos consolou (2Co 7.5-6). Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; ficamos perplexos, porém não desanimados; somos perseguidos, porém não abandonados; somos derrubados, porém não destruídos. Levamos sempre no corpo o morrer de Jesus (2Co 4.8-10). Por isso não desanimamos. Pelo contrário, mesmo que o nosso ser exterior se desgaste [por causa dos espinhos na nossa carne e das bofetadas de Satanás], o nosso ser interior se renova dia a dia (2Co 4.16): torna-se cada vez mais forte no Senhor. Quando vejo são Paulo resistir com tão intrépida coragem sob a mão dos mensageiros de Satanás, que o machucava, e sob a ação pungente dos espinhos na sua carne, parece-me ver o general dos cristãos agitando o estandarte da perfeição cristã e bradando: Sejam meus imitadores (1Co 11.1). Sejam inteiramente espirituais. Peguem toda a armadura de Deus, para que vocês possam resistir no dia mau e, depois de terem vencido tudo, permanecer inabaláveis (Ef 6.13), e para testemunhar comigo que, em todas estas coisas, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou (Rm 8.37).

Argumento VII. “Você exalta demais o apóstolo. Ele certamente ainda era um homem carnal, pois são Lucas nos informa que houve tal desavença [παροξυσμος] entre Barnabé e ele, que vieram a separar-se (At 15.39). Ora, o amor [ου παροξυνεται] não se irrita (1Co 13.5), ou não contende. A discórdia, ou contenda, é um dos frutos da carne (cf. Gl 5.20); e, se são Paulo produziu esse fruto, não vejo por que você hesitaria em chamá-lo de homem carnal e miserável, vendido à escravidão do pecado.”

Resposta. (1) Nem toda contenda é pecaminosa. O próprio apóstolo diz: “lutem pela fé” (Jd 1.3); “fiquem irados e não pequem” (Ef 4.26); “é bom ser sempre zeloso pelo bem” (Gl 4.18). Jesus Cristo não violou a lei do amor quando olhou em volta, indignado, para os fariseus, entristecido com a dureza de coração deles (Mc 3.5). Nem Moisés atribui pecado a Deus quando diz: Com ira, indignação e grande furor, o Senhor os arrancou de sua terra (Dt 29.28). Se são Paulo tivesse contendido de maneira contrária ao amor, eu admitiria de imediato que naquela hora ele caiu da perfeição cristã. Pois afirmamos que, assim como alguém que professa a fé, mas ainda é carnal, pode ocasionalmente atravessar o Jordão, dar uma volta pela boa terra e voltar para o deserto, como fizeram os espias nos dias de Josué, assim também um homem espiritual que vive em Canaã pode ocasionalmente recuar e dar uma volta pelo deserto, especialmente antes de ser fortalecido, firmado e estabelecido debaixo da sua videira celestial, na boa terra que mana leite e mel espirituais. Mas não era esse o caso do apóstolo. Não há o menor indício de que ele tenha pecado nesse episódio. Barnabé, diz o historiador, resolveu levar com eles o seu próprio sobrinho, João Marcos; mas Paulo não achava justo levá-lo, porque, quando o haviam posto à prova antes, ele não os acompanhou no trabalho, mas se afastou deles desde a Panfília (At 15.38). Ora, por toda regra da razão e da Escritura, Paulo estava certo. Pois devemos provar os espíritos (1Jo 4.1) e, com amor, ter cuidado com os homens (Mt 10.17), especialmente com aqueles que já nos fizeram sofrer com a sua inconstância covarde, como João Marcos tinha feito quando deixou os apóstolos itinerantes no meio dos seus perigos.

(2) Quanto à palavra [παροξυσμος], contenda ou provocação, ela é usada em bom sentido, tanto quanto em mau. Assim, em Hb 10.24, lemos sobre [παροξυσμον αγαπης] uma contenda, ou uma provocação, ao amor e às boas obras. [N. do T.: a NAA traz: “Cuidemos também de nos animar uns aos outros no amor e na prática de boas obras”.] Portanto, mesmo admitindo que um grão de parcialidade para com o sobrinho tenha levado Barnabé a estender demais aquele belo dito, o amor tudo espera (1Co 13.7), ainda assim, das circunstâncias da separação entre Barnabé e são Paulo, não temos a menor prova de que são Paulo tenha manchado de algum modo a sua perfeição cristã nesse episódio.

Se o leitor pesar devidamente estas respostas aos argumentos com que os nossos adversários procuram manchar o caráter de são Paulo como homem espiritual, verá, espero, que o apóstolo é tão deturpado pela doutrina do sr. Hill quanto a perfeição cristã o é pelo credo fictício dele.

Notas de Fletcher

1. Algum tempo depois de escrever isto, consultando as Preleções de Teologia do dr. Doddridge, p. 451, tive a agradável surpresa de descobrir que aquilo que esse calvinista criterioso e moderado apresenta como o sentido mais plausível de Rm 7.14 é exatamente o sentido que defendo nestas páginas. Eis as suas próprias palavras: “São Paulo representa primeiro um homem ignorante da lei e, por isso, insensível ao pecado; depois, já familiarizado com ela, lançado numa espécie de desespero pela sentença de morte que ela pronuncia por causa dos pecados que ele agora tem consciência de ter cometido; e mostra ainda que, mesmo onde há uma disposição tão boa a ter prazer na lei, os motivos são fracos demais para sustentar aquele teor uniforme de obediência que o homem bom deseja intensamente e que o evangelho, por seus motivos e sua graça superiores, de fato produz.”

2.

Original Tradução
Sed trahit invitam nova vis, aliudque cupido, Mas uma força nova me arrasta contra a vontade; o desejo aconselha uma coisa,
Mens aliud suadet. Video meliora, proboque, a mente, outra. Vejo o melhor e o aprovo,
Deteriora sequor. OVÍDIO. e sigo o pior.

[N. do T.: Ovídio, Metamorfoses VII, 19-21; palavras de Medeia.]

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.