John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção VII

Paulo não era carnal: Romanos 7

São Paulo não era dominado por desejos pecaminosos, nem carnal, nem vendido à escravidão do pecado. O verdadeiro sentido de Gl 5.17 e de Rm 7.14 etc. é exposto de modo coerente com o contexto, com o propósito das epístolas aos Gálatas e aos Romanos, com os privilégios dos cristãos e com a doutrina da perfeição.

É mais fácil levantar poeira do que responder a um argumento. Espero, portanto, que os nossos opositores, em vez de responderem com solidez ao conteúdo da seção anterior, afirmem que são Paulo era inimigo declarado da libertação dos desejos pecaminosos e das más disposições antes da morte e, por consequência, um forte adversário da doutrina da perfeição cristã. E, para sustentar a sua afirmação, provavelmente citarão o seguinte texto: A carne deseja contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, de modo que vocês não podem fazer o que querem (Gl 5.17). [N. do T.: Fletcher cita a King James: “the flesh lusteth against the Spirit… so that ye cannot do the things that ye would”, isto é, a carne “deseja”, “cobiça” contra o Espírito, “de modo que não podeis fazer” o que quereis. A NAA traz “a carne luta contra o Espírito” e “para que vocês não façam o que querem”. Como o argumento de toda a seção depende de “lust” (desejo) e de “cannot” (não poder), traduziu-se a redação de Fletcher nas citações deste versículo.] Pois concluem dessas palavras que, enquanto habitarmos em corpos de carne corruptível, não podemos deixar de violar a lei da liberdade (ao menos de tempos em tempos) por meio de desejos interiores pecaminosos. Como essa objeção passa entre eles por irrespondível, talvez não seja fora de propósito dar-lhe uma resposta quádrupla:

1. São Paulo escreveu essas palavras aos gálatas carnais e caídos. A eles disse: de modo que vocês não podem fazer o que querem; e havia uma boa razão para que não pudessem fazer aquilo que desejavam fracamente fazer. Estavam enfeitiçados pela carne e por mestres carnais, que os levavam do poder do Espírito para a fraqueza da letra; sim, e para a letra do judaísmo também. Mas não falou ele de si mesmo aos filipenses num tom muito diferente? Não declarou: Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13)? E não pode todo crente que anda firmemente no Espírito dizer o mesmo? Quem não vê a falha deste argumento? Os crentes desobedientes, caídos e enfeitiçados da Galácia, com os quais são Paulo estava perplexo, não podiam deixar de satisfazer os desejos da carne quando eram guiados pela carne. Nem quentes nem frios, como os laodicenses (cf. Ap 3.15), não podiam ser nem cristãos perfeitos nem mundanos perfeitos, porque não tomavam inteiramente o partido nem do Espírito nem da carne; ou, para usar as palavras do apóstolo, não podiam fazer o que queriam, por causa da oposição que a carne fazia ao Espírito, e o Espírito à carne, já que nenhum desses princípios era ainda plenamente vitorioso nos seus corações vacilantes e divididos. Logo, esse deve ser também o miserável estado de todos os crentes obedientes, fiéis e firmados, em todas as épocas e no mundo inteiro! Que tem essa conclusão antinomiana a ver com as premissas da Escritura? Quando afirmo que todos os que deslocaram os joelhos não podem correr velozmente uma corrida, insinuo eu, por pouco que seja, que nenhum homem pode ser um corredor veloz?

2. É tão contrário à Escritura julgar o poder e a liberdade dos crentes firmados pelo poder e pela liberdade dos gálatas quanto é irracional julgar a liberdade de uma nação livre pela servidão de um povo meio escravizado, ou o vigor de uma criança robusta pela fraqueza de um embrião meio formado. Fundamento esta observação: (1.) Em Gl 5.1, onde o apóstolo repreende indiretamente os seus convertidos judaizantes e briguentos por terem caído da liberdade para a qual Cristo nos libertou e por se terem submetido, de novo, a jugo de escravidão; e (2.) Em Gl 4.19: meus filhos, por quem, de novo, estou sofrendo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vocês. O romper do dia não é mais diferente da luz do meio-dia do que o estado imperfeito descrito nesse versículo é diferente do estado perfeito descrito nas linhas seguintes, que retratam o cristão adulto: Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. E esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus (Gl 2.19-20).

3. O sentido que comumente se atribui ao texto apresentado pelos nossos opositores é inteiramente derrubado pelo contexto. Leia o versículo anterior e você encontrará uma gloriosa, embora condicional, promessa da liberdade que defendemos: Digo, porém, o seguinte: vivam no Espírito e vocês jamais satisfarão os desejos [pecaminosos] da carne (Gl 5.16); isto é, longe de abrigarem qualquer pecado exterior ou interior, vocês, comigo e com todos os que são perfeitos, manterão firmemente o corpo sob domínio (cf. 1Co 9.27) e terão em tudo a inclinação do Espírito, que é vida e paz (Rm 8.6).

4. Devemos distinguir devidamente entre os desejos lícitos e os desejos pecaminosos da carne. Desejar comer, beber, dormir, casar, descansar, evitar a dor, nos momentos próprios e da maneira devida, não é pecado; tais desejos não são contrários à lei da liberdade. O próprio Senhor satisfez devidamente a maior parte dessas inclinações inofensivas da carne, sem deixar de ser o Cordeiro imaculado de Deus. É por isso que a nossa Igreja exige de nós, no batismo, que renunciemos apenas aos “desejos pecaminosos da carne”, dando-nos tacitamente licença para satisfazer licitamente os seus apetites lícitos. Eu gostaria, por exemplo, de recobrar as forças com uma hora de sono ou com uma onça de alimento, tanto quanto com uma boa noite de descanso ou com uma boa refeição; mas a carne, sem pecado, deseja contra o Espírito, de modo que nesses e em mil casos semelhantes não posso fazer o que quero. Mas cometo pecado quando uso o meu corpo segundo a sua natureza? Mais ainda: se eu fosse solicitado com tanta força a satisfazer ilicitamente os apetites lícitos da minha carne quanto Cristo o foi a transformar pedras em pães quando sentiu fome aguda no deserto (cf. Mt 4.3), não aumentaria essa tentação a glória da minha vitória, em vez do número dos meus pecados? É justo que os nossos opositores se aproveitem do sentido vago e indefinido das palavras carne e desejo para fazer os simples crerem que, enquanto tivermos carne humana e trouxermos em nós desejos ou apetites corporais, o nosso coração há de permanecer necessariamente prenhe de desejos pecaminosos, e teremos “inúmeros desejos (como diz um imperfeccionista que mencionarei em breve) enxameando ao redor do coração”? Não põe essa doutrina um verme na raiz da liberdade cristã, enquanto nutre a liberdade antinomiana, uma liberdade para pecar, até ao adultério e ao homicídio, sem deixar de ser sem pecado e perfeito em Cristo?

5. Duas linhas depois do suposto argumento de são Paulo em favor da permanência necessária do pecado que habita nos crentes, o apóstolo começa uma longa enumeração das obras da carne, a respeito das quais, diz ele, Declaro a vocês, como antes já os preveni, que os [crentes caídos] que fazem tais coisas, ou admitem no coração desejos como inimizades, rixas, discórdias ou invejas, não herdarão o Reino de Deus; ao passo que os que são de Cristo [os que são guiados pelo Espírito de Deus, pois, no entender de são Paulo, somente esses são de Cristo, isto é, pertencem propriamente à dispensação espiritual de Cristo. Ver Rm 8.9-14.] crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos (Gl 5.24). Ora, esses crentes espirituais tudo podem naquele que os fortalece; e, de acordo com isso, o apóstolo observa que, longe de darem o fruto da carne, eles dão o fruto do Espírito, que é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. É todo o cacho das graças inerentes que compõe a perfeição cristã. Então ele observa que contra tais não há lei [porque eles a cumprem]; [N. do T.: Fletcher segue a King James, “against such”, que ele entende das pessoas; a NAA traz “Contra estas coisas não há lei” (Gl 5.23).] porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: “Ame o seu próximo como a você mesmo.” Ver Gl 5.15-23.

6. O sentido que os imperfeccionistas dão a Gl 5.17 é frontalmente contrário não só ao resto do capítulo, mas também ao fim e ao propósito de toda a epístola. O que o apóstolo tem principalmente em vista do começo ao fim é repreender os gálatas pela sua carnalidade em seguirem mestres judaizantes e em darem os frutos da carne, invejas, rixas etc., a tal ponto que estavam prontos a morder e devorar uns aos outros. Ora, se, depois de os repreender severamente como pessoas que, tendo começado no Espírito, acabavam na carne (cf. Gl 3.3), ele tivesse escrito Gl 5.17 no sentido dos nossos opositores, teria simplesmente desculpado aqueles homens enfeitiçados, anulado por completo a sua repreensão e, absurdamente, lhes teria fornecido um excelente pretexto para continuarem no seu mau modo de vida. Pois, se eles não podiam cumprir a lei de Cristo (Gl 6.2), mas tinham de continuar carnais e vendidos ao pecado que neles habita, não teriam o direito de responder assim ao apóstolo: “Se nem nós, a quem chamas gálatas enfeitiçados, nem crente espiritual algum podemos de modo nenhum fazer o que devemos e queremos fazer, porque a carne deseja, pecaminosa e inevitavelmente, contra o Espírito, por que nos censuras pela nossa carnalidade? Por que nos chamas às contas, e não a outros crentes? Não estamos todos presos por cadeias inquebráveis da necessidade carnal a violar a lei de Cristo enquanto estivermos no corpo? Não és tu o próprio homem que nos dá a entender que não podemos fazer o que devemos e queremos fazer, porque a carne, da qual não podemos de modo nenhum separar-nos antes da morte, deseja contra o Espírito? E não é a necessidade absoluta a melhor desculpa do mundo?”

7. Se o sr. Hill perguntar: “Qual é, então, o sentido genuíno de Gl 5.17?”, respondemos que, quando consideramos esse versículo à luz do contexto, não duvidamos de que o seu sentido esteja fielmente expresso nas linhas seguintes: “A carne e o Espírito são dois princípios contrários. Os que estão na carne, ou vivem segundo a carne, não podem agradar a Deus (Rm 8.8). E vocês sem dúvida estão na carne e vivem segundo a carne, enquanto ficam mordendo e devorando uns aos outros (Gl 5.15). Digo, porém, o seguinte: vivam no Espírito; sejam guiados pelo Espírito; e vocês jamais satisfarão os desejos da carne, como agora satisfazem. Porque a carne deseja contra o Espírito, e prevalece em todas as pessoas carnais; e o Espírito deseja contra a carne, e prevalece em todas as pessoas espirituais; e estes dois, longe de se aninharem juntos, como os mestres antinomianos os fazem crer, são opostos entre si. São inimigos irreconciliáveis; de modo que, assim como os crentes obedientes e espirituais, enquanto são guiados pelo Espírito, não podem fazer o que fariam se fossem guiados pela carne, assim vocês, gálatas enfeitiçados, carnais e desobedientes, que são guiados pela carne, não podem fazer o que fariam se fossem guiados pelo Espírito, e o que ainda têm algum desejo de fazer, na medida em que não apagaram de todo o Espírito. Querem, então, voltar à sua liberdade? Voltem ao seu dever; mudem de guia; abandonem a mentalidade carnal; deixem que Cristo seja formado em vocês; sejam guiados pelo Espírito; assim cumprirão a lei de Cristo, e ela não os condenará mais do que a lei de Moisés os obriga. Mas, se são guiados pelo Espírito, vocês não estão debaixo da maldição da lei: vocês estão igualmente livres da escravidão da lei mosaica e da condenação da lei de Cristo” (Gl 5.16-18).

8. Se o sr. Hill disser: “Que pela carne entende não só o corpo, mas também os desejos naturais, os apetites e as aversões que são necessariamente despertados na alma em consequência da sua união íntima com o corpo; e que o corpo do pecado tem de viver e morrer com o corpo que o nosso espírito habita, porque, enquanto continuamos no corpo, somos inevitavelmente provados por uma variedade de situações, paixões, inclinações, aversões e fraquezas que nos sobrecarregam, nos impedem de fazer e de sofrer tudo o que gostaríamos de fazer e de sofrer, e nos levam a fazer ou sentir aquilo que, em certos aspectos, ficaríamos contentes de não fazer ou não sentir”:

Respondo: é um erro grave concluir que todos esses fardos, fraquezas, apetites, paixões e aversões sejam aquelas operações pecaminosas da nossa natureza corrompida que às vezes se chamam a carne. Você não consegue permanecer um dia inteiro em profunda prostração de corpo e alma, nem talvez uma hora de joelhos. O seu estômago se revolta involuntariamente à vista de algum alimento que certas pessoas consideram delicioso; as suas forças falham nos trabalhos exteriores; o seu ânimo se esgota; você desfalece ou adormece quando outros estão ativos e labutam; você precisa dos reconfortos espirituais e corporais que outros podem ministrar; talvez também seja afligido por sensações desagradáveis no homem exterior, pelo jogo natural e necessário das várias molas que pertencem à carne e ao sangue; a sua justa tristeza se desafoga em lágrimas; o seu zelo por Deus vem acompanhado de uma ira apropriada contra o pecado. Mais ainda: aplicando mal o que o apóstolo diz do homem carnal debaixo da lei, você pode declarar com toda a verdade: O bem extenso que quero, não faço; e o mal acidental que não quero, esse faço (cf. Rm 7.19). Eu queria converter todo pecador, aliviar toda pessoa aflita e visitar diariamente todo leito de enfermo do reino, mas não posso fazê-lo. Eu queria nunca pôr à prova a paciência dos meus amigos, nunca despertar a inveja dos meus rivais, nunca provocar a malícia dos meus inimigos; mas não posso deixar de fazer esse mal não intencional sempre que me empenho com vigor no cumprimento do meu dever.

Se você disser: “Todas essas coisas, ou a maior parte delas, são inteiramente incompatíveis com a perfeição que você defende”, pergunto: Nessa base, não era imperfeito o próprio Senhor? Nunca lhe faltaram as forças do corpo na oração agonizante ou no trabalho intenso? Mantinha-se o seu ânimo sempre com a mesma vivacidade? Não lemos que ele dormia no barco enquanto os seus discípulos lutavam contra um mar tempestuoso? Não cumpriu ele o preceito: Fiquem irados e não pequem (Ef 4.26)? Não teve as sensações penosas da tristeza junto ao túmulo de Lázaro, da fome no deserto, do cansaço no poço de Jacó e da sede na cruz? Se ele foi feito em semelhança de carne pecaminosa e tentado em todas as coisas, à nossa semelhança (Rm 8.3; Hb 4.15), não é altamente provável que não fosse de todo estranho aos outros apetites naturais e às sensações incômodas próprias da carne e do sangue? É pecado senti-los? Não é antes uma virtude negá-los totalmente, ou não os satisfazer fora da linha do dever, ou não se entregar a eles de modo excessivo dentro dessa linha? Ainda: não manifestou a sua santa carne uma aversão natural e inocente ao sofrimento? Não desfaleceu o seu corpo sagrado no jardim? Não estava o seu ânimo tão abatido que ele precisou da assistência fortalecedora de um anjo (cf. Lc 22.43)? Fez ele todo o bem que queria? Supor que ele não desejasse a conversão dos seus amigos e irmãos é supô-lo totalmente desprovido de afeição natural; mas foram todos eles convertidos? Você nunca leu: Nem mesmo os irmãos de Jesus criam nele (Jo 7.5); e: quando os parentes de Jesus ouviram isto, saíram para prendê-lo, porque diziam: Está fora de si (Mc 3.21)? Para concluir: não provocou ele acidentalmente o mal que não queria, quando deu ocasião à inveja dos fariseus, ao desprezo de Herodes, aos temores de Pilatos e à fúria da multidão judaica? E, quando orou para que, se fosse possível, passasse dele o amargo cálice (Mt 26.39), não manifestou um desejo resignado de escapar à dor e à vergonha? Se todo desejo desse tipo é pecado que habita em nós, ou a carne desejando pecaminosamente contra o Espírito, não passou ele pelo conflito pecaminoso, tanto quanto aqueles a quem chamamos homens perfeitos em Cristo? E, por consequência, não caiu ele de uma só vez da perfeição mediadora, da adâmica e da cristã, já que o pecado que habita em nós é igualmente incompatível com todas essas perfeições? Que verdadeiro crente não estremece diante da simples suposição? E, se o nosso Senhor sem pecado sentiu a fraqueza da carne desejando, sem pecado, contra a prontidão do espírito, segundo a sua própria doutrina, o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca (Mt 26.41), não é evidente que o conflito de que falamos (se o Espírito mantém o seu desejo superior e vitorioso contra a carne e, por esse meio, a mantém firmemente no seu devido lugar), não é evidente, digo, que esse conflito não é mais incompatível com a perfeição cristã do que o sofrer, agonizar, desfalecer, clamar e morrer, que foram a sorte do nosso Salvador sem pecado e perfeito até o fim?

Se não me engano muito, as observações anteriores provam: (1) Que, quando os nossos opositores pretendem demonstrar, a partir de Gl 5.17, a permanência necessária do pecado em todos os crentes, arrancam miseravelmente esse texto do seu contexto, para fazê-lo falar uma linguagem que são Paulo abomina. (2) Que esse texto, tomado com honestidade junto com o contexto e com o propósito de toda a epístola, é prova de que os crentes obedientes e espirituais podem fazer o que os gálatas enfeitiçados (cf. Gl 3.1) não podiam fazer, isto é, podem crucificar a carne, com as suas paixões e os seus desejos (Gl 5.24), e andar como cristãos perfeitos, que destroem inteiramente todo o corpo do pecado e cumprem a lei de Cristo (Gl 6.2). E (3) Que apresentar Gálatas 5 contra a doutrina da perfeição cristã é tão absurdo quanto citar o Sermão do Monte em defesa das ilusões antinomianas. Detive-me tanto neste ponto porque tenho diante de mim 1 um Ensaio sobre Gálatas 5.17, publicado há pouco por um teólogo engenhoso, que dá por certo que o apóstolo defende nesse versículo a permanência necessária do pecado em nós.

O sr. Hill provavelmente dirá: “Que ele não apoia a doutrina da imperfeição cristã tanto na experiência dos gálatas caídos quanto na do próprio são Paulo, que, em Romanos 7, reconhece com franqueza que ainda era um miserável homem (Rm 7.24), carnal, vendido à escravidão do pecado (Rm 7.14), e que, segundo a carne, era escravo da lei do pecado (Rm 7.25). Daí se segue que é grande presunção dos crentes de hoje aspirar a mais perfeição, e a maior libertação do pecado na terra, do que a alcançada por são Paulo, que em nada foi inferior a esses ‘superapóstolos’ (2Co 12.11), mas trabalhou muito mais do que todos eles (1Co 15.10).” A essa objeção comum respondo:

(1) A perfeição que pregamos não é outra coisa senão arrependimento perfeito, fé perfeita e amor perfeito, que produz as disposições cheias de graça que o próprio são Paulo descreve em 1Co 13. Vemos essas benditas disposições brilharem nas suas epístolas, nos seus discursos e na sua conduta; e provei na seção anterior que ele mesmo professava a perfeição cristã. Essa objeção, portanto, nos parece uma tentativa pouco generosa de fazer são Paulo contradizer-se grosseiramente. Pois o que pode haver de menos generoso do que aproveitar-se de um modo figurado de falar para manchar o caráter de um homem bom e difamá-lo como escravo das suas paixões carnais, servo da carnalidade, um miserável vendido à escravidão do pecado? Que pensaria de mim o sr. Hill se, sob o pretexto plausível de engrandecer a graça de Deus para com o principal dos pecadores e de provar que não há libertação do pecado nesta vida, eu fizesse o seguinte discurso?

“Quanto mais crescemos na graça, mais claramente vemos os nossos pecados e mais de boa vontade os reconhecemos diante de Deus e dos homens. Isso se comprova abundantemente pelas confissões que os homens mais santos fizeram da sua maldade. O próprio Paulo, o santo Paulo, não se envergonha de humilhar-se pelos pecados que cometeu até depois da sua conversão. Roubei outras igrejas, diz ele, recebendo salário, para poder servir a vocês (2Co 11.8). [N. do T.: a NAA traz “Tirei de outras igrejas”.] Daí se vê que o apóstolo se comprometera a servir algumas igrejas por um salário adequado; mas, sendo carnal, vendido à escravidão do pecado, faltou com a palavra: tosquiou os rebanhos, mas recusou-se a apascentá-los; e, roubando as igrejas, foi ter com os coríntios, talvez para ver o que conseguiria tirar também deles no fim, porque enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto (Jr 17.9). Mais ainda: parcial como era para com esses coríntios, por amor dos quais se fez ladrão de igrejas, mostrou que o seu amor por eles não era sem pecado nem livre de ira, pois certa vez ameaçou ir até eles com um chicote (1Co 4.21) e entregou um deles a Satanás para a destruição da carne (1Co 5.5). Com toda a propriedade, portanto, o santo Paulo disse até o fim: eu sou o principal dos pecadores (1Tm 1.15). E agora, quando o principal dos apóstolos se humilha assim diante de Deus e testifica publicamente, por palavras e por obras, que não há libertação do pecado, não há perfeição nesta vida, quem não se assustará com o orgulho farisaico dos homens que ousam ensinar a doutrina da perfeição sem pecado?”

Duvido que o próprio sr. Hill, ao ler essa defesa pouco generosa e absurda (ainda que, em certo sentido, bíblica) da imperfeição de são Paulo, não ficasse tão desgostoso com a minha explicação fictícia de 2Coríntios 11 quanto eu fico com a sua exposição calvinista de Romanos 7. Nem penso que seja mais criminoso apresentar o apóstolo como ladrão de igrejas do que difamá-lo como um miserável homem, carnal, vendido à escravidão do pecado: outro Acabe, isto é, um homem que fez o que era mau aos olhos do Senhor, mais do que todos os que vieram antes dele (1Rs 16.30).

(2) São Paulo não se declara de fato um homem carnal em Rm 7.7, assim como não se declara de fato um mentiroso em Rm 3.7, onde diz: E, se a minha mentira faz com que aumente a verdade de Deus para a sua glória, por que ainda sou condenado como pecador? Ele não se declara um homem de fato vendido à escravidão do pecado, assim como são Tiago e os seus irmãos na fé não se declaravam uma raça de víboras e gente que de fato amaldiçoa os homens, quando um escreveu e os outros leram: A língua ninguém é capaz de domar; é cheia de veneno mortal; com ela amaldiçoamos as pessoas (Tg 3.8-9). Quando são Paulo repreende a parcialidade de alguns coríntios por este ou aquele pregador, ele introduz Apolo e a si mesmo, embora pareça que a sua repreensão se dirigia principalmente a outros pregadores, que fomentavam o espírito de partido na igreja corrompida de Corinto. E então diz: Meus irmãos, apliquei estas coisas figuradamente a mim mesmo e a Apolo, por causa de vocês, para que por nosso exemplo vocês aprendam isto: “Não ultrapassem o que está escrito” (1Co 4.6). Pela mesma figura, ele diz de si mesmo o que poderia ter dito de qualquer outro homem, ou de toda a humanidade: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa (1Co 13.1). Três vezes em três versículos ele fala de não ter amor; e, ainda que o tivesse feito trezentas vezes, isso não provaria que ele fosse de fato sem amor, assim como o fato de dizer em Romanos 7: sou vendido à escravidão do pecado, não prova que ele servia à lei do pecado com o seu corpo, como o escravo é obrigado a servir ao senhor que o comprou.

(3) Acontece também com frequência que, por uma figura de retórica chamada hipotipose, os escritores narram coisas passadas ou futuras no tempo presente, para que a narração seja mais viva e cause impressão mais forte. Assim, em Gn 6.17, lemos: Eis que eu, eu mesmo, trago [isto é, trarei daqui a 120 anos] um dilúvio sobre a terra para destruir toda carne. Assim também em 2Sm 22.1, 35, 48: Quando o Senhor livrou Davi da mão de todos os seus inimigos e lhe deu paz em todas as suas fronteiras, ele falou as palavras deste cântico. Ele adestra [isto é, adestrou] as minhas mãos para a guerra, de modo que um arco de aço é [isto é, foi] quebrado pelos meus braços. É Deus quem me vinga [isto é, quem me vingou], e quem me tira [isto é, quem me tirou] do meio dos meus inimigos. [N. do T.: o argumento depende do presente da versão do rei Tiago; a NAA traz o futuro em Gn 6.17 e o passado em 2Sm 22.] Mil expressões assim, ou essa figura levada ao longo de mil versículos, jamais provariam diante de pessoas sem preconceito que o rei Saul estava vivo e que Davi ainda não fora livrado de uma vez por todas das suas mãos sanguinárias. Ora, se são Paulo, por uma figura semelhante, que ele leva ao longo de parte de um capítulo, narra no tempo presente a sua experiência passada; se o apóstolo cristão, para humilhar-se e para tornar a sua descrição mais viva, e mais marcante o contraste entre a escravidão do pecado e a liberdade cristã; se o apóstolo, digo, com um propósito como esse, aparece no palco do ensino com a sua antiga roupa judaica, roupa com a qual podia servir a Deus dia e noite e, no entanto, como outro Acabe, respirar ameaças e morte (At 9.1) contra os filhos de Deus; e se, nessa roupa, ele diz: sou carnal, vendido à escravidão do pecado etc., não é ridículo medir o seu crescimento como apóstolo de Cristo pela medida da sua estatura quando era um fanático judeu, um zelote ardente, cheio de boas intenções e de más realizações?

(4) Tirar uma passagem da Escritura do seu contexto é muitas vezes como tirar do lugar a pedra que trava um arco: já não se sabe o que fazer com ela. Mais ainda: pode-se dar a ela um uso inteiramente contrário àquele para o qual foi destinada. É o que fazem os nossos opositores quando separam Romanos 7 da sua ligação com Romanos 6 e Romanos 8, a ponto de fazê-lo significar exatamente o contrário do que o apóstolo pretendia. São Paulo, em Romanos 5 e 6 e no começo do capítulo 7, descreve a liberdade da glória dos filhos de Deus (Rm 8.21) sob a dispensação cristã. E, como um pintor hábil põe sombras nos seus quadros para realçar o efeito das luzes, assim o criterioso apóstolo introduz, na última parte de Romanos 7, uma descrição viva do poder dominador do pecado e do peso insuportável da culpa. Esse peso ele o sentira com muita intensidade quando o Espírito que convence lhe fez pesar o pecado sobre a consciência, depois de ter quebrado as suas boas resoluções; mas sobretudo durante os três dias da sua cegueira e do seu jejum em Damasco. Então gemia: Miserável homem que sou! etc., suspenso dia e noite entre o desespero e a esperança, entre a incredulidade e a fé, entre a escravidão e a liberdade, até que Deus o introduziu na liberdade cristã pelo ministério de Ananias. Dessa liberdade o apóstolo nos dá um relato mais amplo e mais completo em Romanos 8. Portanto, a descrição do homem que geme sob o jugo doloroso do pecado é introduzida apenas por contraste, para fazer ressaltar a espantosa diferença que existe entre a escravidão do pecado e a liberdade da santidade do evangelho, assim como os generais que entravam em Roma em triunfo costumavam exibir o príncipe que tinham vencido. Nessas ocasiões, o vencedor ia num carro triunfal, coroado de louros, enquanto o rei cativo o seguia a pé, carregado de correntes, e era, depois do vencedor, a parte mais impressionante do espetáculo. Ora, se num triunfo romano alguns espectadores tivessem tomado o rei acorrentado a pé pelo general vitorioso no carro, porque um vinha logo atrás do outro, teriam cometido um engano não muito diferente do engano dos nossos opositores, que tomam o judeu carnal, vendido à escravidão do pecado e gemendo pelo caminho, pelo crente cristão que anda no Espírito (cf. Gl 5.25), exulta na liberdade dos filhos de Deus e em Cristo, é sempre conduzido em triunfo (2Co 2.14).

(5) Para ver a justeza da observação anterior, basta notar o contraste que há entre a escravidão do penitente carnal, descrita em Rm 7.14ss, e a liberdade do homem espiritual, descrita no começo desse mesmo capítulo. Um diz: Quem me livrará? O pecado revive; desperta nele todo tipo de cobiça; sim, opera nele a morte; ele é carnal, vendido à escravidão do pecado; é forçado pelos seus maus hábitos àquilo de que se envergonha e impedido de fazer o que vê ser o seu dever. Nele, isto é, na sua carne, não habita bem nenhum. O pecado habita nele. Realizar o bem, ele não consegue. Embora deseje ser melhor, ainda assim não faz o bem, faz o mal; o mal reside nele. O seu homem interior, a sua razão e a sua consciência aprovam a lei de Deus, sim, têm prazer na lei de Deus, isto é, naquilo que é reto; mas, ainda assim, ele não o pratica. Mal toma as suas boas resoluções, já as quebra, porque outra lei, nos seus membros, guerreia contra a lei da sua mente, isto é, os seus apetites carnais se opõem aos ditames da sua consciência e o fazem prisioneiro da lei do pecado. Assim, como um pobre escravo acorrentado, ele tem apenas a liberdade de sacudir as correntes e dizer: Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte (Rm 7.24), deste conjunto completo de corrupções, miséria e morte? Não é ridículo concluir que, porque esse escravo que geme tem de vez em quando uma esperança de libertação, e às vezes dá graças a Deus por Jesus Cristo (Rm 7.25) por essa esperança, ele participa de fato da liberdade que é assim descrita no começo do capítulo? Vocês morreram para a lei [a dispensação mosaica], para que pertençam àquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que [em vez de deixar de fazer o bem e de fazer o mal] frutifiquemos para Deus. Porque, quando vivíamos segundo a carne [no estado do homem carnal, vendido à escravidão do pecado, prova segura de que o apóstolo já não estava nesse estado], as paixões pecaminosas despertadas pela lei [separada da promessa do evangelho] operavam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte. Agora, porém, estamos livres da lei [isto é, da maldição da lei moral, bem como da escravidão da lei mosaica], pois morremos para aquilo a que estávamos sujeitos, para que sirvamos da maneira nova, segundo o Espírito, e não da maneira antiga, segundo a letra (Rm 7.4-6). Logo depois dessa gloriosa profissão de liberdade, o apóstolo, na sua própria pessoa e por contraste, descreve até o fim do capítulo a obediência pobre, manca e pecaminosa dos que servem a Deus da maneira antiga, segundo a letra, de modo que nada pode ser mais irracional do que tomar essa descrição pela descrição da obediência dos que servem a Deus da maneira nova, segundo o Espírito. Temos, portanto, em Rm 7.4-6 uma forte muralha contra o engano que os nossos opositores constroem sobre o resto do capítulo.

(6) Esse engano parecerá ainda mais espantoso se lermos Romanos 6, onde o apóstolo descreve em particular a liberdade dos que servem a Deus da maneira nova, segundo o Espírito, conforme os gloriosos privilégios da nova aliança. As trevas são mais contrárias à luz do que a descrição anterior do judeu carnal é contrária à seguinte descrição do cristão espiritual? Como viveremos ainda no pecado, nós, que já morremos para ele? A nossa velha natureza foi crucificada com Cristo, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sejamos mais escravos do pecado [note-se: o judeu carnal, ainda que contra a sua consciência, continua “escravo da lei do pecado” (Rm 7.25)]. Pois quem morreu está livre do pecado. [N. do T.: a NAA traz “justificado do pecado”.] Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado. Ofereçam a si mesmos a Deus, como pessoas que passaram da morte para a vida [note-se: o judeu carnal diz: “o pecado reviveu, e eu morri” (Rm 7.9); mas o cristão espiritual passou da morte para a vida]. O pecado não terá domínio sobre vocês [agora vocês são espirituais; não precisam dizer: “Faço o que detesto, e o mal que não quero, esse faço”], pois vocês não estão debaixo da lei [debaixo da fraca dispensação da lei de Moisés], e sim da graça [debaixo da poderosa e graciosa dispensação de Cristo]. Graças a Deus que, [embora] tendo sido escravos do pecado [quando vocês serviam a Deus carnalmente, da maneira antiga, segundo a letra], vocês vieram a obedecer de coração à forma de doutrina a que foram entregues [isto é, abraçaram de coração a doutrina de Cristo, que dá descanso a todos os que vão a ele cansados e sobrecarregados]. E, uma vez libertados do pecado, foram feitos servos da justiça. Porque, quando vocês eram escravos do pecado, estavam livres em relação à justiça. Agora, porém, carnais, vendidos à escravidão do pecado, vocês são escravos da lei do pecado! Não: exatamente o contrário. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, o fruto que vocês colhem é para a santificação. E o fim, neste caso, é a vida eterna (Rm 6.2-22). É possível conciliar essa descrição da liberdade cristã com a descrição anterior da escravidão judaica? Pode alguém, ao mesmo tempo, exultar numa e gemer debaixo da outra? Quando os nossos opositores o afirmam, não confundem a dispensação mosaica com a cristã, a ação do espírito de escravidão com a ação do Espírito de adoção? E, no entanto, coisa espantosa, eles nos acusam de confundir lei e evangelho!

(7) Veremos o engano deles sob uma luz ainda mais evidente se passarmos a Romanos 8 e considerarmos a descrição que são Paulo continua a nos dar da gloriosa liberdade dos que deixaram a maneira antiga [judaica], segundo a letra, e servem a Deus da maneira nova, segundo o Espírito. O pobre judeu, preso carnalmente à letra, é condenado por tudo o que faz, se a sua consciência estiver desperta. Agora, porém, já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus [que chegaram aos privilégios da dispensação cristã], que não vivem segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus [o poder do Espírito vivificante, dado a mim e aos meus irmãos na fé, sob a dispensação espiritual e perfeita de Cristo Jesus], livrou-me da lei do pecado e da morte. [N. do T.: Fletcher segue a versão do rei Tiago; a NAA não traz em Rm 8.1 “que não vivem segundo a carne, mas segundo o Espírito” e, em 8.2, diz “livrou você”.] Porque aquilo que a lei [a letra da dispensação mosaica] não podia fazer, por causa da fraqueza da carne, isso Deus fez, enviando o seu próprio Filho; e assim condenou o pecado na carne, a fim de que a exigência da lei [a obediência espiritual que a lei moral de Moisés, adotada por Cristo, requer] se cumprisse em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito. Pois [longe de professar que sou “carnal e vendido à escravidão do pecado”, declaro que] a inclinação da carne é morte [bem pode, então, o judeu carnal gemer: “Quem me livrará do corpo desta morte?”], mas a do Espírito é vida e paz. Portanto, os que estão na carne [isto é, carnais, vendidos à escravidão do pecado] não podem agradar a Deus. Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele [é, quando muito, um discípulo de Moisés, um pobre judeu carnal, e continua alheio aos gloriosos privilégios da dispensação cristã]. Se, porém, Cristo está em vocês, o corpo, na verdade, está morto [fraco e cheio das sementes da morte] por causa do pecado [original], mas o Espírito é vida [forte e cheio de imortalidade] por causa da justiça [implantada e viva]. Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados [como o pobre homem carnal que, por medo e angústia, geme: “Miserável homem que sou!”], mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual [nós, que andamos segundo a maneira nova do Espírito e agradamos a Deus; nós, que temos o Espírito de Cristo] clamamos: “Aba, Pai.” O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus [a quem agradamos] e coerdeiros com Cristo [por meio de quem agradamos a Deus] (Rm 8.1-17).

Essa gloriosa liberdade, de que os filhos de Deus desfrutam na alma sob a perfeição da dispensação cristã, um dia se estenderá ao seu corpo, que está morto [isto é, fraco e condenado a morrer] por causa do pecado [original]. E é só com relação ao corpo que o apóstolo diz, em Rm 8.23: Também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos [do nosso homem exterior], a redenção do nosso corpo. Porque [com relação ao corpo, cuja imperfeição é um estorvo tão grande para a alma] na esperança fomos salvos. [Enquanto isso,] sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Quem nos separará [a nós, que amamos a Deus e não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito] do amor de Cristo? Será a tribulação, ou a angústia etc.? Não: em todas estas coisas [e muito mais no que diz respeito ao pecado e à inclinação da carne], somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou (Rm 8.23-37).

E que essa vitória abundante se estende à destruição da mentalidade carnal, nós o provamos com estas palavras do contexto: a inclinação da carne é morte, mas a do Espírito é vida e paz. Porque a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeita à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Portanto, os que estão na carne [os que têm a inclinação da carne] não podem agradar a Deus. Vocês, porém, não estão na carne [não têm a inclinação da carne], mas no Espírito [têm a inclinação do Espírito], se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. [Porque, onde está o Espírito do Senhor, e onde ele habita como Espírito de adoção,] aí há constante liberdade (2Co 3.17). E, se alguém não tem esse Espírito, ou se o tem apenas como espírito de escravidão, que o faz gemer: Miserável homem!, pode até ser um servo de Deus na terra do seu cativeiro espiritual, mas esse tal não é um dos libertos de Cristo: pode servir a Deus da maneira antiga, segundo a letra, como judeu, mas não o serve da maneira nova, segundo o Espírito, como cristão. Pois, repito, onde está o Espírito de Cristo, e onde ele habita segundo a plenitude da dispensação cristã, aí há liberdade, uma gloriosa liberdade, que é exatamente o contrário da escravidão que o sr. Hill defende para toda a duração da vida. Veja-se Rm 8.14-21.

Quer consideremos, portanto, Romanos 7, Romanos 6 ou Romanos 8, parece indubitável que o sentido que os nossos opositores atribuem a Rm 7.14ss é inteiramente contrário à intenção do apóstolo, ao contexto e ao propósito de toda a epístola, que é exaltar os privilégios dos que são de Cristo acima dos privilégios dos que são de Noé ou de Moisés; ou, se preferirem, exaltar os privilégios dos cristãos espirituais, que servem a Deus da maneira nova, segundo o Espírito, acima dos privilégios dos pagãos e judeus carnais, que o servem apenas da maneira antiga, segundo a letra.

Notas de Fletcher

1. Os argumentos com que esse Ensaio sustenta a doutrina da permanência necessária do pecado em todos os crentes até a morte serão examinados na Seção XIV.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.