John Fletcher · O Último Freio ao Antinomianismo · Seção V

Pedro e Tiago não eram imperfeccionistas

O sr. Hill dá a entender que os apóstolos eram imperfeccionistas. São Pedro e são Tiago, longe de defender um purgatório da morte, tomam a defesa da perfeição cristã.

Depois de ter levantado tão imprudentemente a Igreja da Inglaterra contra nós, é surpreendente ver o sr. Hill recrutar quatro apóstolos, “Pedro, Paulo, Tiago e João”, e levá-los a campo para “cortar (como ele diz) pela raiz e pelos ramos a minha doutrina favorita da perfeição”. Nunca esses santos homens foram postos numa obra menos santa. Parece-me ouvi-los dizer: Que o sr. Hill nos ponha entre os gibeonitas; que faça de nós rachadores de lenha para a congregação para sempre (cf. Js 9.21-27); mas que não nos ponha a cortar pela raiz e pelos ramos a bela e fecunda árvore da perfeição cristã. Para felicidade dessa árvore rara, o sr. Hill apresenta o nome dos lenhadores apostólicos, enquanto nós apresentamos o seu machado e mostramos que eles o põem à raiz do antinomianismo (cf. Mt 3.10). Árvore mortífera esta, que está para a nossa árvore favorita como a árvore fatal do paraíso estava para a árvore da vida. O sr. Hill apela primeiro a Pedro; que Pedro, então, responda primeiro por si mesmo.

I. Onde esse apóstolo defende a imperfeição cristã e um purgatório da morte? Será onde ele diz: Assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem (1Pe 1.15). Tendo purificado a alma etc., amem intensamente uns aos outros de coração puro (1Pe 1.22). Cristo… deixando exemplo para que vocês sigam os seus passos. Ele não cometeu pecado… carregando ele mesmo… os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça (1Pe 2.21-24). Ora, tendo Cristo sofrido na carne, estejam também vocês armados do mesmo pensamento. Pois aquele que sofreu na carne rompeu com o pecado (1Pe 4.1). O Deus de toda a graça etc., depois de vocês terem sofrido por um pouco, ele mesmo irá aperfeiçoar vocês (1Pe 5.10)? Se Pedro fosse contra a nossa doutrina, é provável que incitasse assim os crentes a alcançar a perfeição, desejando-a a eles como nós desejamos aos nossos rebanhos a paz de Deus, que excede todo entendimento (Fp 4.7)?

Se esse apóstolo não defende a permanência necessária do pecado em nós na sua primeira epístola, será que o faz na segunda? Será onde ele diz que ele nos concedeu as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas nos tornemos coparticipantes da natureza divina, tendo escapado da corrupção das paixões que há no mundo (2Pe 1.4)? Existe pecado que habita em nós na natureza divina? E pode-se dizer que as pessoas cujo coração ainda está cheio de pecado e de corrupção interior escaparam da corrupção das paixões que há no mundo? Não se poderia dizer, com a mesma propriedade, que um homem cujos pulmões ainda estão cheios de úlceras perigosas escapou da miséria que há no mundo por causa da tísica? Será onde são Pedro descreve a perfeição cristã e exorta os crentes a alcançá-la, ou a subir mais alto nela, concentrando todos os seus esforços e acrescentando à fé… a virtude; à virtude, o conhecimento… o domínio próprio… a perseverança… a piedade… a fraternidade… o amor (2Pe 1.5-7), que é o fecho da abóbada e o vínculo da perfeição (Cl 3.14)? Será onde ele aponta a diferença entre os crentes caídos, os crentes fracos e os cristãos perfeitos, dando a entender que aos primeiros faltam estas coisas, isto é, as graças cristãs (2Pe 1.9); que essas qualidades estão presentes nos segundos; e que nos terceiros elas aumentam cada vez mais (2Pe 1.8)? Ou será onde ele nos manda nos esforçar para que Deus nos encontre sem mácula, sem culpa (2Pe 3.14)? De minha parte, não vejo aqui a sombra de uma defesa da raiz de todo mal no coração dos crentes até que morram, assim como não vejo defesa alguma do fruto do adultério, do assassinato e do incesto na vida deles até que partam deste mundo.

Mas o que mais nos impressiona no apelo do sr. Hill a são Pedro é que, embora Pedro fosse naturalmente levado pelo seu assunto a falar da permanência necessária do pecado no nosso coração durante esta vida, se essa doutrina fosse verdadeira, ele não deixa escapar nem sequer uma insinuação sobre ela. O propósito da sua primeira epístola é, sem dúvida, confirmar os crentes debaixo das provas de fogo que a sua fé enfrenta. Vocês são guardados, diz ele, pelo poder de Deus, mediante a [obediente] fé, para a salvação… Nisso vocês exultam, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejam contristados por várias provações (1Pe 1.5-6). Que bela oportunidade Pedro tinha aqui de dizer, sem nenhum se necessário: “Vocês têm de ser contristados, não só por várias provações, mas também pelas corrupções que ainda restam no seu coração. Os cananeus e os animais selvagens têm de continuar habitando na terra, para serem aguilhões nas suas costas e espinhos nos seus olhos (cf. Nm 33.55), senão vocês se tornariam orgulhosos e descuidados. A lepra do seu coração tem de se pegar a vocês, como a lepra de Geazi se pegou a ele (2Rs 5.27). A morte o curou radicalmente, e nada senão a morte pode curar vocês radicalmente. Até lá, a sua cabeça tem de continuar cheia de justiça imputada, e o seu coração, cheio de pecado que habita em vocês.” Mas, felizmente para a honra do cristianismo, esse evangelho antinomiano e impuro não recebe o menor apoio de são Pedro; e ele lhe corta a própria raiz quando diz: Quem há de maltratá-los, se vocês forem zelosos na prática do bem? (1Pe 3.13). Entreguem a sua alma a Deus, na prática do bem (1Pe 4.19). [O exato oposto de pecar.] Vocês são filhas dele [as filhas daquele a quem Deus disse: Ande na minha presença e seja perfeito (Gn 17.1)], enquanto estiverem praticando o bem e não temendo perturbação alguma (1Pe 3.6), isto é, enquanto a sua conduta e as suas disposições forem dignas do evangelho. E todos sabem que as disposições de um homem são sempre como o seu coração; e que, se o seu coração está cheio de maldade, as suas disposições não podem estar cheias de bondade (Rm 15.14).

II. Se são Pedro, a primeira das testemunhas do sr. Hill, não diz uma só palavra que favoreça o antinomianismo e recomende a imperfeição cristã, vejamos se são Tiago defende a causa de Baal (cf. Jz 6.31) no coração dos crentes perfeitos mais do que a causa de Baal na sua vida. Abram a epístola dele, ó vocês que têm sede de santidade, e, para o seu conforto, verão que no primeiro capítulo ele se mostra um ousado defensor da perfeição cristã. A perseverança, diz ele, deve ter ação completa, para que vocês sejam perfeitos e íntegros, sem que lhes falte nada (Tg 1.4). Em outros lugares ele fala a mesma linguagem. Aquele que atenta bem para a lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera… operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar (Tg 1.25). E ainda: Se alguém não tropeça no falar, é um indivíduo perfeito (Tg 3.2). Nem é difícil demonstrar, pelo seu segundo capítulo, que os crentes firmados, ou cristãos perfeitos, guardam a lei régia, a lei perfeita da liberdade [N. do T.: a “lei régia” (royal law, na KJV) é a que a NAA chama de “lei do Reino” (Tg 2.8).]; e que aqueles que a quebram em um só ponto estão numa situação deplorável (Tg 2.8-10).

Se o sr. Wesley tivesse escrito uma epístola aos crentes antinomianos, para levá-los a avançar para a perfeição cristã, poderia ter-se expressado de modo mais forte do que são Tiago nas passagens seguintes? “Irmãos, não se queixem uns dos outros, para que vocês não sejam condenados [ou seja, condenados à perdição] (Tg 5.9) [N. do T.: a NAA traz “julgados”.]. Irmãos, não falem mal uns dos outros. Aquele que fala mal do irmão ou julga o seu irmão fala mal da lei e julga a lei; ora, se você julga a lei, não é observador da lei, mas juiz. Um só é Legislador e Juiz, aquele que pode salvar e fazer perecer [os crentes que guardam ou quebram a sua lei régia] (Tg 4.11-12). E ainda: Se vocês, de fato, observam a lei do Reino, conforme está na Escritura: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’, fazem bem; mas [se não a observam,] se tratam as pessoas com parcialidade, cometem pecado. Pois quem guarda toda a lei, mas tropeça [isto é, comete pecado] em um só ponto, se torna culpado de todos etc. Assim, falem e vivam como pessoas que serão julgadas pela lei da liberdade” (Tg 2.8-12).

O que se segue demonstra que os crentes caídos, se não se arrependerem e não subirem ao estado da perfeição cristã, serão condenados por um só pecado. São Tiago toma, com razão, como exemplo o pecado da falta de amor, porque ele é diretamente contrário ao novo mandamento do nosso Senhor, de amarmos uns aos outros assim como ele nos amou (Jo 13.34), e porque o cumprimento da lei régia é o amor (Rm 13.10), o vínculo da perfeição (Cl 3.14). Será que essa fé pode salvá-lo (o crente sem amor)?, pergunta são Tiago. “Se um irmão ou uma irmã estiverem com falta de roupa e necessitando do alimento diário, e um de vocês [crentes] lhes disser: ‘Vão em paz! Tratem de se aquecer e de se alimentar bem’, mas não lhes dão o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras (e, por consequência, o crente caído, se tem pecado de que não se arrependeu), por si só está morta” (Tg 2.14-17). Esse tal procede do diabo, porque pratica o pecado (1Jo 3.8), e o pecado é a transgressão da lei (1Jo 3.4) da liberdade, pela qual ele será julgado (Tg 2.12); sim, pela qual o juízo será sem misericórdia sobre ele, que (assim) não usou de misericórdia (Tg 2.13), quer tenha pecado por omissão, não socorrendo de fato o seu irmão pobre, embora lhe tenha dado boas palavras, quer tenha pecado por ação, tratando as pessoas com parcialidade ou queixando-se do seu irmão. Compare-se Tg 2.13 etc. com 1Jo 3.4 etc., até o fim de ambos os capítulos, que são duas fortes baterias levantadas de propósito para defender a doutrina da perfeição cristã e demolir a doutrina da imperfeição cristã, que é o mesmo que antinomianismo.

Se alguém objetar que, “a esse preço, nenhum crente cristão está seguro enquanto não tiver alcançado a perfeição cristã”, respondemos que estão seguros todos os crentes cristãos que estão firmes nela ou prosseguem para ela. E, se não fazem nem uma coisa nem outra, estamos prontos a provar que eles se contam entre os crentes caídos e correm um perigo tão iminente de ser vomitados da boca de Cristo quanto o dos laodicenses (Ap 3.16). Leia o sr. Hill com sinceridade a Epístola aos Hebreus, a segunda epístola de são Pedro e a primeira de são João, e duvide disso, se puder.

Se o sr. Hill objetar que “o próprio são Tiago diz: Todos tropeçamos em muitas coisas (Tg 3.2), e que só essa frase prova abundantemente que ele era um forte imperfeccionista”, peço licença para envolver o meu honrado opositor no seguinte dilema. Os tropeços de que são Tiago fala são involuntários? Ou são voluntários? Se o sr. Hill disser que são involuntários, respondo: então não são transgressões propriamente ditas da lei da liberdade que são Tiago pregava, porque a lei não nos amaldiçoa por nenhum tropeço involuntário. Portanto, tais tropeços [como o de são Paulo, quando repreendeu o sumo sacerdote com mais aspereza do que o teria feito se soubesse de que alta dignidade estava revestido o seu injusto juiz (cf. At 23.3-5)], tais tropeços, digo, não são pecados segundo a lei régia e evangélica do nosso Melquisedeque; e, portanto, não provam que todos os crentes permanecem cheios do pecado que habita neles até a morte. Se o sr. Hill responder que “os muitos tropeços de que são Tiago fala são tropeços voluntários e, portanto, verdadeiras transgressões da lei da liberdade”, respondo que esse sentido genuíno das palavras, tomado em conexão com o contexto, confirma a nossa doutrina da perfeição cristã e a nossa oposição ao antinomianismo; e o provo assim:

O texto e o contexto dizem assim: Meus irmãos, não sejam, muitos de vocês, mestres [isto é, não se assenhoreiem uns dos outros], sabendo que nós [que fazemos isso] receberemos maior condenação (ou perdição) [N. do T.: na KJV, masters (mestres ou senhores) e the greater condemnation (maior condenação); a NAA traz “seremos julgados com mais rigor”.], se não aprendermos a humildade. Digo nós porque não quero que vocês pensem que Deus, o nosso juiz, faz acepção de pessoas e poupará um apóstolo que quebra a lei da liberdade e não se arrepende, mais do que pouparia vocês. Pois, se eu apresentasse Deus como um juiz parcial, a maior condenação de Judas provaria que estou enganado. E insisto tanto mais nesta tremenda doutrina porque todos tropeçamos em muitas coisas, especialmente no falar, até sermos aperfeiçoados no amor, naquele amor que é o cumprimento da lei (Rm 13.10) e nos torna capazes de guardar a língua como que com freio o dia inteiro. Se o sr. Hill perguntar por que meio posso mostrar que esse é realmente o sentido de são Tiago, respondo: pela regra clara da teologia e da crítica, que manda tomar o começo de um versículo em conexão com o fim. E, se fizermos isso aqui, encontraremos a doutrina da perfeição cristã neste mesmo texto, assim: Receberemos maior condenação se não nos arrependermos e não deixarmos de ser muitos mestres; porque todos [de tempos em tempos] tropeçamos em muitas coisas [especialmente com as nossas palavras, até sermos aperfeiçoados no amor]. Se alguém não tropeça no falar, é [o que cada um de nós deveria ser] um indivíduo perfeito, capaz de refrear também todo o corpo (Tg 3.1-2). Portanto, tão certo como há homens capazes de refrear a língua e todo o corpo, há homens perfeitos no corpo, perfeitos antes da morte, segundo a doutrina contida nas passagens controvertidas de são Tiago.

“Mas são Tiago também diz: O espírito que habita em nós deseja com inveja (Tg 4.5).” [N. do T.: Fletcher segue a KJV, “The spirit that dwelleth in us lusteth to envy”; a NAA traduz de outro modo: “É com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em nós”.]

Respondo: (1) É costume dos mestres modestos incluir-se entre as pessoas de quem dizem algo desagradável; e fazem isso para tirar a aspereza da sua doutrina e abrir caminho para a severidade das suas acusações. Assim Pedro escreve: Basta-nos o tempo passado da nossa vida para termos feito a vontade dos gentios, quando andávamos em práticas libertinas, desejos carnais, bebedeiras, orgias, embriaguez e detestáveis idolatrias (1Pe 4.3) [N. do T.: Fletcher segue a KJV, que diz “us” e “we” (nos, nós); a NAA traz “vocês”: “basta que, no passado, vocês tenham feito a vontade dos gentios”.]; embora seja evidente que Pedro, judeu pobre, trabalhador e piedoso, nunca andou em detestáveis idolatrias, fazendo a vontade dos gentios. Ora, a mesma delicadeza do amor que levou são Pedro a incluir-se entre os pagãos que andavam em bebedeira, prostituição e grosseira idolatria leva são Tiago a incluir-se entre os cristãos carnais, dominados por um espírito invejoso.

(2) Mais ainda: o próprio são Tiago, usando a mesma figura de linguagem, diz: A língua é mal incontido, cheio de veneno mortal etc. Com ela amaldiçoamos as pessoas, criadas à semelhança de Deus (Tg 3.8-9). Mas seria razoável deduzir dessas palavras que a língua dele ainda estava cheia de veneno mortal e que ele continuava a amaldiçoar o próximo com ela? Portanto, tudo o que está implícito nas suas palavras sobre a inveja é que, até sermos aperfeiçoados no amor que não inveja, não se envaidece (1Co 13.4) [N. do T.: a NAA traz “não arde em ciúmes”.], o espírito que há em nós deseja com inveja e com orgulho. E que nós, que ainda não alcançamos a perfeição cristã, não precisamos estar sempre invejosos e orgulhosos, é evidente pelas palavras que vêm logo a seguir: Mas ele nos dá cada vez mais graça. Por isso diz: “Deus resiste aos soberbos [ao homem invejoso], mas dá graça aos humildes.”… Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês… vocês que são indecisos, purifiquem o coração. Reconheçam a sua miséria, lamentem e chorem. Que o riso de vocês se transforme em pranto, e que a alegria de vocês se transforme em tristeza (Tg 4.6-9). Tão severo era são Tiago com aqueles adúlteros e adúlteras (Tg 4.4), aqueles crentes refinados que pararam antes de chegar à perfeição cristã, amavam o mundo e invejavam uns aos outros! Portanto, alistá-lo a serviço do solifidianismo é uma tentativa tão temerária quanto chamar a sua epístola de epístola de palha, digna de ser lançada às chamas; e (se as observações anteriores são justas) o sr. Hill se engana tanto quando apela para são Tiago quanto quando cita são Pedro em defesa da imperfeição cristã.

Tradução para o português a partir de John Fletcher, The Last Check to Antinomianism. A Polemical Essay on the Twin Doctrines of Christian Imperfection and a Death Purgatory, 4ª edição, Londres, 1792 (exemplar digitalizado no Internet Archive), conferida com a edição das Obras de Fletcher publicada em Nova York; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.