Capítulo XIII

A lei moral

Páginas 228 a 246 da edição de 1835

A entrega da lei no monte Sinai foi o ato mais solene que jamais ocorreu entre Deus e o ser humano, e por isso ela é introduzida da maneira mais solene. Na manhã do dia em que essa lei foi dada (que muitos cronologistas eruditos supõem ter sido 30 de maio do ano do mundo 2513, 1491 anos antes da Encarnação, sendo aquele dia o Pentecostes), a presença de Jeová se manifestou por trovões e relâmpagos, uma nuvem espessa sobre o monte e um som terrível de trombeta, de modo que toda a assembleia ficou tomada de terror e espanto. Pouco depois, todo o monte pareceu em chamas; colunas de fumaça subiam dele como a fumaça de uma fornalha; um terremoto o sacudia de alto a baixo; a trombeta continuava a soar, e os toques ficavam mais longos e cada vez mais fortes. Então Jeová, o Legislador soberano, desceu sobre o monte e chamou Moisés para subir ao alto, onde, antes de entregar essa lei, lhe deu instruções sobre a santificação do povo (cf. Êx 19.16-24).

Há dois pontos de vista sob os quais essa lei de Deus aparece como singular e importante:

1. É o código ou sistema de leis mais antigo jamais dado ao ser humano.

2. Foi escrita em caracteres alfabéticos inventados pelo próprio Deus, já que é muito provável que, antes disso, tais caracteres não fossem conhecidos no mundo.

O primeiro mandamento.

Contra a idolatria mental e teórica. Não devemos tentar conceber o Ser Supremo como se estivesse confinado a uma forma, a qualquer espécie de limite, a um espaço ou lugar determinado. Como Jeová, ele é inconcebível em todos os aspectos; nenhuma mente pode abarcá-lo; ele é um Espírito infinito, igualmente presente em todo lugar e em todos os pontos da duração.

Devemos santificar o Ser divino no nosso coração; isto é, devemos separar da ideia que fazemos dele todas as coisas transitórias, materiais e, particularmente, terrenas.

Este mandamento proíbe também todo apego desordenado às coisas terrenas e sensíveis, isto é, às coisas que são objeto dos nossos sentidos e em cuja posse os nossos apetites e afetos se ocupam intensamente.

O segundo mandamento.

Contra fazer e adorar imagens. O culto às imagens é uma violação direta deste mandamento. Ele tenta humanizar Deus e enche o miserável idólatra da ideia de que Deus é parecido com ele, se não inteiramente igual. Os adoradores de imagens em geral não têm outra ideia de Deus senão a de um homem gigantesco, de dimensões espantosas, de força, sabedoria e habilidade imensas, já que nenhuma outra espécie de ser tem tal força ou sabedoria. Por isso, entre os católicos romanos, Deus é representado como um velho muito grave e venerável, com uma coroa tríplice (que, no entanto, os papas tomam emprestada), para significar a sua soberania sobre o céu, a terra e o inferno, estando-lhe sujeitos os anjos, os homens e os demônios. Tudo isso, assim como a coroa tríplice que é o seu símbolo, os papas de Roma arrogaram a si mesmos pelas suas doutrinas, tradições e pretensões. Têm as chaves dos dois mundos: abrem, e ninguém fecha; fecham, e ninguém abre (cf. Ap 3.7)! É motivo do maior espanto que as pretensões blasfemas desses indivíduos tenham sido reconhecidas e concedidas por tanto tempo por todas as potências da Europa! Levantaram e derrubaram imperadores e reis à vontade; absolveram num momento todos os seus oficiais e súditos dos juramentos de lealdade mais solenes e das suas obrigações de obediência. E, em troca de tudo isso, deram-lhes indulgências, purgatório, transubstanciação, culto às imagens, culto à Virgem Maria como rainha do céu, santos e anjos como mediadores e intercessores, orações pelos mortos e tradições incertas e contraditórias no lugar da Bíblia! Tudo isso tem de ser recebido com base na autoridade deles, e quem contesta a sua autenticidade é herege, isto é, alguém que a igreja de Roma manda queimar vivo. E os que rejeitam a sua autoridade incorrem no desagrado divino e, se não se reconciliarem com eles e com a sua igreja, serão banidos da presença de Deus e da glória do seu poder por toda a eternidade! Que pretensões blasfemas! Que idolatria grosseira!

Este mandamento se dirige também contra a idolatria do Egito e contra toda idolatria, seja a que se encontra entre as tribos selvagens da América do Norte, seja a dos adoradores dos céus visíveis na China, a dos devotos de Brama, Shiva e Mahadeo no Indostão, a dos seguidores de Buda no Ceilão, em Java e em Ava, seja a dos cristãos corrompidos da igreja de Roma.

O terceiro mandamento.

Contra o falso juramento, a blasfêmia e o uso irreverente do nome de Deus. Este preceito proíbe não só todos os juramentos falsos, mas todo juramento comum em que se usa o nome de Deus ou se apela a ele como testemunha da verdade. Proíbe também, necessariamente, toda menção leviana e irreverente de Deus ou de qualquer dos seus atributos. E podemos acrescentar com segurança que toda oração, exclamação e súplica que não for acompanhada de profunda reverência e do verdadeiro espírito de piedade é aqui condenada também. Assim também o costume perverso de transformar o nome de Deus, e o do trono da sua glória, em interjeições e palavras para expressar surpresa, admiração, espanto etc., como “Ó Deus!”, “Ó Senhor!”, “Ó céus!”, “Bom Deus!”, “Ó meu Deus!” etc. etc., quando é evidente, pelo caráter das pessoas, pelos seus hábitos e pela natureza das circunstâncias em que estavam, que a sua alma estava tão sem temor de Deus quanto a sua língua estava sem respeito pelos presentes ou reverência pelo seu Criador.

Mas o mandamento pode ser quebrado, e é quebrado, em milhares de casos, nas orações, lidas ou feitas de improviso, de adoradores irrefletidos, ousados e presunçosos. Se todo blasfemador entre nós fosse apedrejado até a morte, quantas pessoas cairiam em cada canto do país! Deus é longânimo; que isso as leve ao arrependimento (cf. Rm 2.4)! Temos excelentes leis contra toda profanação, mas, ai do nosso país!, elas não são aplicadas. E quem tenta fazer aplicar as leis contra os que juram de modo profano etc. é considerado um homem briguento e um perturbador da paz da sociedade. Não castigará Deus essas coisas? Isso não é só desprezo da santa palavra e dos mandamentos de Deus, mas rebelião contra a lei.

Quem jura habitualmente está sempre cometendo perjúrio. Nunca se deve confiar em tal pessoa.

O melhor é ter o mínimo possível a ver com juramentos. Um juramento não prende um velhaco ou um mentiroso, e o homem honesto não precisa de nenhum, porque o seu caráter e a sua conduta juram por ele.

Quem faz qualquer juramento além daquele que o magistrado o chama solenemente a fazer, longe de ser cristão, não merece sequer a reputação de decência ou de bom senso.

O quarto mandamento.

Contra a profanação do dia de descanso e a ociosidade nos outros dias da semana. [N. do T.: Clarke usa sabbath para o dia semanal de descanso consagrado a Deus, que para os cristãos é o domingo. Traduzimos por “dia de descanso” e mantivemos “sábado” nas citações bíblicas e quando ele fala do sábado judaico.] “Lembre-se do dia de sábado, para o santificar” (Êx 20.8). Como esta era a instituição mais antiga, Deus os chama a lembrar-se dela. É como se dissesse: “Não se esqueçam de que, quando terminei a criação dos céus e da terra e de tudo o que neles há, instituí o dia de descanso; e lembrem-se por que o fiz e para que fins”.

A palavra shabath significa “ele descansou”, e daí vem shabath, ou “sábado”: o sétimo dia, ou o dia de descanso, ou simplesmente descanso. “Em seis dias Deus criou os céus e a terra e descansou”, isto é, deixou de criar, “no sétimo dia” (cf. Êx 20.11; Gn 2.2-3), e o consagrou como dia de descanso para o ser humano: descanso para o corpo, do trabalho e da fadiga, e descanso para a alma, de todos os cuidados e ansiedades mundanos. Quem trabalha com a mente no dia de descanso é tão culpado quanto quem trabalha com as mãos na sua ocupação ordinária. É pela autoridade de Deus que o dia de descanso é separado para o repouso e para fins religiosos, assim como os seis dias da semana são designados para o trabalho. Como é sábia essa provisão! Como é gracioso esse mandamento! Ele é essencialmente necessário não só ao corpo humano, mas a todos os animais empregados no seu serviço. Tire-se isso, e o trabalho fica pesado demais; tanto o ser humano quanto o animal sucumbiriam sob ele. Sem esse dia consagrado, a própria religião desapareceria, e a mente humana, tornando-se sensual, logo esqueceria a sua origem e o seu fim.

Mesmo como regulamento político, é um dos mais sábios e benéficos nos seus efeitos que já se instituíram. Os que habitualmente desprezam a sua obrigação moral são, sem exceção, não só imprestáveis, mas também miseráveis em si mesmos, uma maldição para a sociedade, e muitas vezes terminam a vida miseravelmente. O ocioso vem logo depois do que profana o dia de descanso. Assim como Deus formou o corpo e a mente do ser humano sobre princípios de atividade, também lhe destinou uma ocupação apropriada. E é decreto seu que a mente se aperfeiçoe pelo exercício e que o corpo ganhe vigor e saúde pelo trabalho honesto. Quem desperdiça o seu tempo nos seis dias é tão culpado aos olhos de Deus quanto quem trabalha no sétimo. O ocioso costuma andar em trapos; e sempre se observou, em todos os países cristãos, que os que profanam o dia de descanso em geral têm uma morte ignominiosa.

A instituição do dia de descanso é o primeiro mandamento jamais dado ao ser humano. E podemos aprender, pelas várias repetições dessa lei, que a sua santificação era de grande importância aos olhos de Deus; e podemos observar que ela ainda tem por objetivo não só o bem da alma, mas também a saúde e o conforto do corpo.

Porque este mandamento não foi mencionado de modo particular no Novo Testamento como preceito moral que obriga a todos, alguns concluíram com presunção que não há dia de descanso na dispensação cristã. Se não houvesse, o próprio cristianismo logo se extinguiria e a religião logo chegaria ao fim. Mas por que o nosso Senhor e os apóstolos não insistem na sua obrigação moral? Eles insistiram suficientemente: todos o guardaram como sagrado, e assim também, invariavelmente, todos os cristãos primitivos (embora alguns observassem o último dia da semana, o sábado judaico, em vez do primeiro dia), em memória não só do descanso de Deus da sua obra da criação, mas também da ressurreição de Cristo dentre os mortos. Mas insistir na necessidade de observá-lo não era preciso, porque ninguém duvidava da sua obrigação moral; a questão nunca tinha sido levantada. Não era assim com a circuncisão e outros ritos mosaicos. A verdade é que ele é considerado um tipo, e todos os tipos têm plena força até que se realizem as coisas que eles significam. Mas a coisa significada pelo dia de descanso é aquele repouso na glória que resta para o povo de Deus (cf. Hb 4.9), e é evidentemente nessa luz que o apóstolo o considera em Hebreus 4. Portanto, como o antítipo ainda está por vir, a obrigação moral do dia de descanso tem de continuar até que o tempo seja tragado pela eternidade. O mundo nunca esteve sem um dia de descanso, e nunca estará. E quase não há povo na face da terra, civilizado ou não, que não tenha concordado sobre a conveniência de ter um dia de descanso, ou algo análogo a ele. Mas objetou-se que o dia de descanso só poderia ter obrigação parcial, atingindo apenas aqueles cujo dia e noite se dividem em vinte e quatro horas, e que nunca teria sido destinado aos habitantes das regiões polares, onde os dias e as noites duram, alternadamente, vários meses cada. Essa objeção é muito fraca. O objetivo do Ser divino é evidentemente levar as pessoas a dedicar ao descanso a sétima parte do tempo, e isso pode ser feito tão facilmente em Spitzbergen quanto em qualquer lugar sob o equador. Também não tem muita importância onde uma nação ou povo comece as suas observâncias do dia de descanso, coincida ele com o nosso, com o judaico ou mesmo com o maometano, contanto que sejam regulares na observância e consagrem a usos religiosos essa sétima parte do tempo.

Na sua misericórdia, o Ser divino limitou o nosso trabalho a seis dias em sete. Para destruir a instituição de Deus, a “Assembleia Nacional Francesa” dividiu o tempo em décadas e mandou guardar cada décimo dia como dia de lazer, dissipação e folia. O Deus ofendido não operou milagre nenhum para restabelecer a sua instituição; mas, no curso da sua providência, aniquilou a eles e aos seus planos e restaurou o dia de descanso, apesar das leis em contrário. E o povo, por pior que fosse, alegrou-se por recuperar o dia de descanso que Deus consagrara ao repouso e aos usos religiosos desde a fundação do mundo. [N. do T.: referência ao calendário revolucionário francês, adotado pela Convenção Nacional em 1793 e abolido em 1806.]

Mas lembremo-nos, como já se observou, de que, enquanto descansamos no dia de descanso, não devemos desperdiçar os outros seis dias. O Senhor ordena: “Seis dias você trabalhará e fará toda a sua obra” (Êx 20.9). Por isso já se observou com razão que quem desperdiça o tempo nos seis dias é tão culpado diante de Deus quanto quem faz o seu trabalho ordinário no dia de descanso.

O ocioso, ainda que saiba discursar como um anjo ou orar como um apóstolo, não pode ser cristão. Todos esses são hipócritas e enganadores; os verdadeiros membros da igreja de Cristo andam, trabalham e se esforçam.

Nenhum trabalho que possa ser feito no dia anterior, ou adiado para a semana seguinte, deve ser feito no dia de descanso. Só se excetuam as obras de necessidade absoluta e de misericórdia. Quem trabalha por meio dos seus empregados ou dos seus animais é tão culpado quanto se trabalhasse ele mesmo, porque Deus ordenou que tanto os animais quanto os servos e as servas descansem também (Dt 5.14). Sim, até o escravo está incluído, pois é isso que a palavra original muitas vezes significa. Mas em que estado de depravação moral hão de estar os senhores de escravos que reduzem os seus escravos a tal miséria que só lhes concedem o dia de descanso para cultivar as terras de onde devem tirar o seu sustento, não lhes dando outro alimento senão o que conseguem tirar da terra justamente no dia em que o Senhor supremo ordenou aos seus senhores que lhes dessem descanso e não exigissem deles trabalho de espécie alguma! Tais inimigos de Deus não devem esperar um juízo comum da justiça do Altíssimo, seja qual for o país em que vivam.

Onde as pessoas não têm misericórdia da sua própria espécie, não admira que não tenham sentimento pelos animais que perecem. Alugar cavalos etc. para passeio ou negócios, fazer viagens, fazer visitas mundanas ou dar passeios no dia do Senhor são violações desta lei. “Por acaso Deus está preocupado com bois?” (1Co 9.9). Sim, e ele os menciona com ternura: “para que descanse também o seu boi e o seu jumento” (Êx 23.12). Como é criminoso empregar os animais de trabalho no dia de descanso, assim como nos outros dias da semana! Nas diligências e nos canais, os cavalos estão em trabalho contínuo. Em geral, os proprietários desses veículos não guardam dia de descanso nenhum. E, no entanto, alguns proprietários são tão delicados e escrupulosos que não fariam nenhuma dessas coisas pessoalmente por nada deste mundo; mas podem ser sócios de diligências, carroças, barcos de canal etc. etc., onde o dia de descanso é constantemente profanado e dos quais tiram um lucro anual! Boas almas! Vocês não fariam essas coisas pessoalmente; apenas pagam outros para fazê-las e vivem do lucro! Cuidem de lançar tudo isso pontualmente no seu livro-razão, porque está próximo o dia em que vocês terão de prestar contas rigorosas. Na Inglaterra se destroem mais animais pelo trabalho contínuo, proporcionalmente, do que em qualquer outra parte do mundo. O nobre cavalo, em geral, não tem dia de descanso. Será que Deus olha para isso com indiferença? Certamente não. “A Inglaterra”, disse um estrangeiro, “é o paraíso das mulheres, o purgatório dos criados e o inferno dos cavalos.”

Sobre este ponto, concluo assim: Leitor, lembre-se de santificar o dia de descanso. Você precisa do seu repouso para o corpo e das suas ordenanças religiosas para a alma. Deus o santificou para esses fins. Guarde-o como deve, e ele trará saúde ao seu corpo e paz à sua mente. Assim seja! Amém.

O quinto mandamento.

Veja o capítulo “Pais e filhos”.

O sexto mandamento.

Contra o homicídio e a crueldade. Deus é a Fonte e o Autor da vida. Nenhuma criatura pode dar vida a outra: um arcanjo não pode dar vida a um anjo; um anjo não pode dar vida ao ser humano; o ser humano não pode dar vida nem ao mais humilde dos animais. Assim como só Deus dá a vida, só ele tem o direito de tirá-la, e quem tira a vida sem a autoridade de Deus é propriamente um homicida. Este mandamento, que é geral, proíbe o homicídio de toda espécie:

Todas as ações pelas quais a vida dos nossos semelhantes pode ser tirada de repente ou abreviada.

Todas as guerras para ampliar impérios, comércio etc.

Todas as leis sanguinárias, por cuja aplicação a vida de pessoas pode ser tirada por ofensas de demérito relativamente pequeno.

Todas as más disposições que levam as pessoas a desejar o mal umas às outras ou a tramar dano umas contra as outras, pois a Escritura diz: “Todo aquele que odeia o seu irmão no coração é assassino” (cf. 1Jo 3.15; Lv 19.17).

Toda falta de caridade e humanidade para com os desamparados e aflitos. Pois quem tem poder para salvar a vida de outro, por meio de socorro, alimento, roupa, remédio etc. dado a tempo, e não o faz, e por isso a vida dessa pessoa se perde ou se abrevia, é homicida aos olhos de Deus. Quem deixa de salvar uma vida é, segundo uma máxima incontestável do direito, o mesmo que quem a tira.

Todos os que, por jejuns imoderados e supersticiosos, mortificações do corpo e descuido voluntário da saúde, destroem ou abreviam a vida são homicidas. Diga deles o que disser uma religião falsa e sacerdotes ignorantes e supersticiosos, Deus não aceita homicídio como sacrifício.

Todos os duelistas são homicidas, quase os piores dos homicidas: cada um vai ao encontro do outro com o propósito de matá-lo. Quem mata o seu adversário a tiro é homicida; quem morre baleado também é homicida. O sobrevivente deveria ser enforcado; o morto deveria ser enterrado numa encruzilhada, e o homicida enforcado posto ao seu lado.

Todos os que põem fim à própria vida pela corda, pelo aço, pelo veneno, pelo afogamento etc. são homicidas, diga deles o que disser o inquérito oficial sobre a morte, a menos que se prove claramente que o falecido estava inteiramente fora do juízo.

Todos os que se entregam à desordem e ao excesso, à embriaguez e à glutonaria, aos prazeres extravagantes, à inatividade e à preguiça; em suma, todos os que são dominados pela indolência, pela intemperança e por paixões desordenadas, pelas quais a vida é arruinada e abreviada, são homicidas.

O homem cheio de paixões ferozes e furiosas, que não tem domínio sobre o próprio gênio, pode num momento destruir a vida até do seu amigo, da sua esposa ou do seu filho. Todos esses homens cruéis e ferozes são homicidas: carregam sempre consigo a inclinação homicida e não estão orando a Deus para que a subjugue e destrua.

O homem vingativo exclui a si mesmo de toda esperança de vida eterna e sela ele mesmo a sua condenação.

A malícia e a inveja nunca ficam ociosas; perseguem sem cessar a pessoa que pretendem fazer sua presa.

Leitor, você tem um filho, ou um empregado, que o ofendeu e humildemente pede perdão? Tem um devedor, ou um inquilino, que está insolvente e pede um pouco mais de prazo? E não perdoou esse filho ou empregado? Não deu prazo a esse devedor ou inquilino? Como pode, então, esperar ver algum dia o rosto do Deus justo e misericordioso? O seu filho está banido, ou mantido à distância; o seu devedor foi lançado na prisão, ou o seu inquilino teve os bens leiloados. E, no entanto, o filho se ofereceu para cair aos seus pés; e o devedor ou inquilino, inteiramente insolvente, pediu um pouco mais de prazo, esperando que Deus o capacitasse a pagar tudo. Mas o seu coração de pedra e a sua consciência cauterizada não fizeram caso disso! Ó monstro de ingratidão! Escândalo da natureza humana e afronta a Deus! Se puder, vá esconder-se, até no inferno, da face do Senhor!

O sétimo mandamento.

Contra o adultério, a fornicação e a impureza. Uma parte principal da criminalidade do adultério está na sua injustiça. 1. Ele rouba ao marido o seu direito, privando-o do afeto da sua esposa. 2. Ele lhe faz um mal ao atribuir-lhe uma descendência ilegítima, obrigando-o a sustentar como seu um filho que não é dele. O ato em si, e tudo o que leva a ele, é aqui proibido; e também a fornicação, assim como todos os livros, canções, pinturas etc. impuros, que tendem a inflamar e corromper a mente.

O oitavo mandamento.

Contra o furto e a desonestidade. Toda rapina e todo furto são aqui proibidos, tanto as injustiças nacionais e comerciais quanto o pequeno furto, o assalto nas estradas, o arrombamento de casas, o furto às escondidas, a velhacaria, a trapaça e as fraudes de toda espécie. Também aproveitar-se da ignorância de quem compra ou de quem vende para dar a um menos, e fazer o outro pagar mais, do que a mercadoria vale é uma violação desta lei sagrada. Toda retenção do que é devido e toda prática do que é injusto vão contra o seu espírito.

Mas a palavra se aplica principalmente ao furto às escondidas, embora sem dúvida possa incluir toda injustiça política e todo dano particular. E, por consequência, todo sequestro de pessoas, todo aliciamento forçado e todo tráfico de escravos são proibidos aqui, sejam praticados por indivíduos, pelo Estado ou pelas suas colônias. Duvido muito que o recrutamento forçado para a marinha fique isento aqui. Os crimes não diminuem no seu demérito pelo número ou pela importância política dos que os cometem. Um Estado que promulga leis más é tão criminoso diante de Deus quanto o indivíduo que quebra leis boas.

O furto, a esperteza desonesta, a fraude, o desvio etc. não são compatíveis com nenhuma espécie de religião que reconheça o verdadeiro Deus. Se o cristianismo não torna as pessoas honestas, não faz nada por elas. Os que não são salvos da desonestidade não temem a Deus, embora possam temer o homem.

Ninguém, por um chamado princípio de caridade ou generosidade, deve dar como esmola o que pertence aos seus credores. A generosidade é coisa divina, mas a justiça sempre teve, tanto na lei quanto no evangelho, o primeiro direito.

Conheci muitas pessoas decentes e respeitáveis, que temiam a mentira e tremiam diante de um juramento, e que, levadas por um fracasso nos negócios, pela queda repentina de alguma mercadoria ou por especulações comerciais, na esperança do que consideravam um lucro honesto com que pudessem pagar a cada um o que lhe era devido, foram levadas a falsificar letras, tomar dinheiro emprestado, enganar até os próprios parentes e cobrir uma letra ruim com outra igualmente ruim, esperando que antes do vencimento pudessem, pelas especulações ou promessas ainda pendentes, pagar a cada um o que lhe era devido. Leitor, se você é homem de negócios ou de comércio e está para ficar em aperto, ore com todo fervor a Deus para que não caia na pobreza extrema, para não completar a sua desgraça com mentiras, trapaças, falsas promessas, falsos juramentos e outros atos sujos, pelos quais muitos, antes respeitáveis, honestos e retos, foram afogados na destruição dos bens e na perdição do caráter e da vida. E então, que o Senhor tenha misericórdia da sua alma!

Entre todos os ladrões e velhacos, o mais execrável é aquele que procura roubar a outro a reputação para aumentar a sua; diminuir o próximo para engrandecer a si mesmo. Essa é aquela peste da sociedade que está cheia de afirmações bondosas enfeitadas com “mas”: “Ele é um tipo de homem bom e bondoso, mas… todo feijão tem o seu olho preto!”; “Fulano é muito amigo, mas… do jeito dele!”; “O meu vizinho N. pode ser muito generoso, mas… tem de pegá-lo no dia certo”. Pessoas assim falam bem do próximo só para ter oportunidade de anular todos os seus elogios e tornar suspeitos aqueles cujo caráter estava merecidamente limpo antes que o difamador começasse a furtar a sua propriedade. Quem não se arrepende dessas injúrias, nem faz restituição, se possível, ao próximo defraudado, ouvirá, quando Deus vier tomar a sua alma, estas palavras, mais terríveis que o dobre de finados: “Não furte” (Êx 20.15).

Suponha-se, por exemplo, que se diga que um homem de bom caráter fez algo de mau. A história se espalha, e os caluniadores, os mexeriqueiros e os maledicentes a levam de um lado para outro. E assim o homem é despojado do seu bom nome, da sua veste de justiça, verdade e honestidade. E, no entanto, todo o relato pode ser falso; ou a pessoa, numa hora do poder das trevas, pode ter sido tentada e vencida; pode ter sido ferida no dia nublado e escuro; e agora chora profundamente a sua queda diante de Deus! Quem, que não tenha coração de demônio, não se esforçaria antes por cobrir do que por expor a falta, em tais circunstâncias? Os que, como diz o provérbio, “se alimentam como as moscas, passando por cima de todas as partes sãs de um homem para pousar nas suas feridas” pegarão a história e a levarão adiante. Gente assim, no curso da sua obra diabólica, leva a história escandalosa, entre outros, ao justo, àquele que ama o seu Deus e o seu próximo. Mas que acolhida tem o mexeriqueiro? O homem bom não a recolhe; não a quer carregar; ela não será propagada por ele nem a partir dele. Ele não pode impedir o difamador de largá-la, mas está em seu poder não recolhê-la; e assim o avanço da calúnia pode ser detido. “Não recolhe injúria contra o seu vizinho” (cf. Sl 15.3), e por esse meio o mexeriqueiro pode ser desanimado de levá-la a outra porta. [N. do T.: Clarke segue a King James em Sl 15.3, nor taketh up a reproach against his neighbour, “nem recolhe injúria contra o seu vizinho”; a NAA diz “nem lança injúria contra o seu vizinho”.] Se não houvesse quem recolhesse a difamação, haveria menos difamadores no país. Se não houvesse receptadores de bens roubados, não haveria ladrões. Daí outro provérbio, fundado no princípio mais justo: “O receptador é tão mau quanto o ladrão”. E não é o mexeriqueiro, o maledicente e o fofoqueiro o pior dos ladrões, roubando a reputação não só de indivíduos, mas de famílias inteiras, lançando fogo, flechas e morte (cf. Pv 26.18)? Sim, são os piores criminosos. Ó, quantas boas reputações foram manchadas por essa prática satânica! Mas, por pior que seja o propagador ocasional da calúnia, pior ainda é quem faz disso o seu negócio, andando por aí a recolher histórias escandalosas e procurando ter testemunhas das suas calúnias, sejam as histórias verdadeiras ou falsas, façam elas o relato simples ou exagerem o fato, apresentem uma lente simples pela qual ver o caráter que exibem ou uma anamorfose pela qual cada feição é distorcida, de modo que, numa aparência monstruosa, se perde todo traço de semelhança com a bondade. E então o próprio relator se aproveita das suas inferências: “Ah, senhor, como isso é mau! Mas… mas há coisa pior por trás”. Essa insinuação é como uma rede de arrasto, que vai juntando à medida que avança e trazendo tudo para o seu redemoinho: os bons e os maus se acham numa só assembleia indistinta.

Suponha-se que as histórias sejam verdadeiras, ou fundadas na verdade: que proveito a sociedade ou a igreja tiram desse relato às escondidas? Nenhum. São poucos os casos em que o desentendimento entre membros da igreja de Cristo deva ser levado diante de duas testemunhas, e muito menos diante da igreja. Mas há alguns assim, e o nosso Senhor nos manda tratá-los com a maior cautela e paciência (cf. Mt 18.15-17).

Todos os que foram mencionados acima, com toda a família dos difamadores, falsos acusadores, caluniadores, detratores, destruidores da boa reputação alheia, maledicentes e libelistas, seja qual for a posição que tenham aqui, terão uma só sorte no mundo eterno. Nenhum deles morará no santo monte de Deus (cf. Sl 15.1), e não se deveria permitir que habitassem aqui no seu tabernáculo, isto é, na igreja militante. Leitor, ore a Deus para que o livre do espírito e da conduta desses homens maus. Não tenha comunhão com eles, afaste-os da sua porta, mas procure convertê-los, se puder. Mas, se eles continuarem a perturbar a paz da sociedade, a harmonia das famílias e a união da igreja de Cristo, que sejam para você como gentios e publicanos (cf. Mt 18.17): os mais baixos, os mais rebaixados, os mais abatidos, os mais pisoteados e esmagados vassalos da perdição.

Há os intrometidos, que se metem impertinentemente nos negócios alheios, bisbilhotando as circunstâncias e os assuntos domésticos dos outros, aumentando ou diminuindo, entendendo mal ou depreciando tudo; boateiros e fofoqueiros; uma raça abominável, a maldição de toda vizinhança em que vivem e uma peste para a sociedade religiosa.

Não abra o ouvido ao mexeriqueiro, ao caluniador que vem a você com acusações contra os seus irmãos, ou com suspeitas e maledicências. Esses são demônios humanos. Podem ser o meio de deixá-lo irado, mesmo sem nenhum pretexto sólido; por isso não lhes dê lugar, para que não fique irado em momento algum. Mas, se infelizmente você for surpreendido nessa falta, não deixe que o sol se ponha sobre a sua ira (cf. Ef 4.26). Vá ao seu irmão contra quem você sentiu o seu espírito irritado, diga-lhe o que ouviu e o que receia; abra o ouvido para receber a versão dele; escute com atenção a sua explicação; e, se possível, que a questão fique resolvida de vez, para que Satanás não leve vantagem sobre nenhum dos dois.

A grande máxima do direito e do governo romanos, de não condenar ninguém sem ouvi-lo e de pôr os acusadores frente a frente com o acusado, deveria ser uma máxima sagrada para todo magistrado e todo ministro, e entre todos os cristãos particulares. Quantos julgamentos severos e censuras sem caridade isso evitaria! Praticada com consciência em todas as sociedades cristãs, a detração, a calúnia, o mexerico, a maledicência, os desentendimentos, com toda afeição que não é fraterna, seriam necessariamente banidos da igreja de Deus.

O nono mandamento.

Contra o falso testemunho, o perjúrio, a mentira e o engano. Não só são proibidos aqui os falsos juramentos para privar alguém da sua vida ou do seu direito, mas também todo mexerico, toda fofoca, toda calúnia e toda difamação que tenham por objetivo trazer ao próximo dor, prejuízo ou castigo. Numa palavra, tudo o que se afirma como verdade, sendo de fato falso, e que tende a prejudicar outro no seu corpo, nos seus bens ou na sua influência, é contra o espírito e a letra desta lei.

O que é uma mentira? É qualquer ação feita ou palavra dita, verdadeira ou falsa em si mesma, que quem a faz ou diz quer que o observador ou ouvinte entenda num sentido contrário ao que ele sabe ser verdadeiro. É, numa palavra, qualquer ação feita ou fala proferida com a intenção de enganar, ainda que ambas possam ser absolutamente verdadeiras e corretas em si mesmas.

Não enganem uns aos outros; falem a verdade em todos os seus negócios (cf. Ef 4.25). Não digam “a minha mercadoria é assim e assim” quando sabem que é diferente. Não desvalorizem a mercadoria do próximo quando a consciência lhes diz que vocês não estão falando a verdade. “‘Não presta! Não vale tanto!’, diz o comprador; mas, quando vai embora, então se gaba do negócio que fez” (Pv 20.14). Isto é, ele deprecia a propriedade do próximo até persuadi-lo a se desfazer dela por menos do que vale, e, depois de obtê-la assim, se gaba do bom negócio que fez. Um velhaco desses não fala a verdade com o seu próximo.

O mentiroso sempre desconfia de que o seu testemunho não é aceito, porque tem consciência da própria falsidade, e por isso é naturalmente levado a apoiar as suas afirmações com juramentos. Fingir muito amor e afeição por aqueles por quem não temos nem uma coisa nem outra, e usar para com eles frases de cortesia às quais não damos sentido nenhum, a não ser o de não significarem nada, é altamente ofensivo aos olhos daquele Deus que pesa as ações (cf. 1Sm 2.3) e julga as palavras.

O décimo mandamento.

Contra a cobiça. A cobiça proibida e condenada aqui é a que se dirige a objetos proibidos. Cobiçar, neste sentido, é desejar intensamente, para desfrutar como propriedade, a pessoa ou a coisa cobiçada. Quebra este mandamento quem, por qualquer meio, procura privar alguém da sua casa ou do seu sítio por meio de algum acordo secreto e às escondidas com o proprietário original, o que em alguns países se chama “tomar a casa e o sítio de alguém por cima da cabeça dele”. Quebra-o também quem deseja a mulher do próximo e procura insinuar-se nos afetos dela tentando diminuir o marido na estima dela. E quebra-o também quem procura apossar-se dos empregados, dos animais etc. de outro, de qualquer modo secreto ou injustificável.

Pela cobiça muitas vidas e muitas almas foram destruídas, e, no entanto, os vivos não põem isso no coração! Quem teme o amor ao dinheiro (cf. 1Tm 6.10), contanto que consiga riquezas? Pela intensidade desse desejo, cada parte da superfície da terra e, tanto quanto possível, as suas entranhas são revolvidas para obter riqueza. E só Deus, que vê todas as coisas, pode dizer a quantos crimes ocultos, fraudes e dissimulações isso dá origem, pelos quais a ira de Deus desce sobre a comunidade em geral! Quem é inimigo do seu país? O pecador contra o seu Deus. Um inimigo declarado pode ser enfrentado e repelido, porque é conhecido; mas o cobiçoso, que, até onde a sua segurança pessoal permite, está ultrajando todas as exigências da justiça, é uma peste invisível, semeando as sementes da desolação e da ruína na sociedade. A cobiça de Acã, que o levou a quebrar a lei de Deus, quase foi a destruição do arraial israelita (Js 7), e o Senhor não desviou o seu desagrado até que o mal fosse descoberto e o criminoso punido.

O espírito da cobiça anula todos os laços e obrigações, faz do errado certo e não se importa nem com pai nem com irmão.

O cobiçoso é, na prática e aos olhos de Deus, um homicida. Quer obter todo o lucro que possa caber a qualquer um ou a todos os que estão no mesmo ramo de negócio que ele; não lhe importa quantas famílias passem fome por causa disso. É exatamente o caso de quem abre loja atrás de loja, em diferentes partes da mesma cidade ou vizinhança, para o mesmo negócio, e procura vender mais barato que os outros do mesmo ramo, para concentrar tudo nas próprias mãos.

Como as pessoas tendem a depreciar as mercadorias que querem comprar, para obtê-las mais baratas; e, depois de fechar o negócio e levá-las, a se gabar aos outros de quão abaixo do valor as conseguiram! São essas pessoas honestas? Essa velhacaria é passível de ação judicial? Só pode ser punida no outro mundo? Santo Agostinho conta uma história divertida sobre isso: “Certo charlatão anunciou, no teatro cheio, que no espetáculo seguinte mostraria a cada um dos presentes o que havia no seu coração. Chegou o dia, e a afluência foi imensa. Todos esperavam, em silêncio mortal, ouvir o que ele diria a cada um. Ele se levantou e, numa só frase, cumpriu a promessa: ‘Todos vocês querem comprar barato e vender caro’. Foi aplaudido, porque cada um sentiu que aquilo descrevia o seu próprio coração e ficou convencido de que todos os outros eram iguais”. [N. do T.: Agostinho conta essa história no livro XIII de A Trindade.]

Quantas vezes a caridade serve de capa para a cobiça! Às vezes Deus é roubado no que lhe é devido, a pretexto de se destinar o que se retém a algum fim caridoso ao qual nunca houve a intenção de dá-lo.

Se você for minucioso demais ao tentar descobrir quem são os impostores entre os que dizem estar em necessidade, a pessoa realmente necessitada pode perecer, quando você poderia tê-la socorrido e talvez salvado a sua vida. As pessoas muito meticulosas e escrupulosas, que querem esmiuçar tudo em todos os casos e, antes de agir, precisam estar plenamente satisfeitas em todos os pontos, raramente fazem algum bem e em geral não servem para nada. Enquanto elas observam as nuvens e a chuva (cf. Ec 11.3-4), outros “deram as mãos a Deus e fizeram um pobre viver”.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).