Capítulo XIX

A Ceia do Senhor

Páginas 282 a 289 da edição de 1835

“Façam ISTO em memória de MIM” (1Co 11.24) é um mandamento pelo qual o nosso bendito Senhor pôs à prova tanto o afeto quanto a piedade dos seus discípulos. Se o amam, guardarão os seus mandamentos (cf. Jo 14.15), porque, para os que amam, os seus mandamentos não são difíceis de guardar (1Jo 5.3). É uma excelência particular da economia do evangelho que todos os deveres que ele prescreve se tornam os privilégios mais altos para os que obedecem.

Entre as ordenanças prescritas pelo evangelho, a que se chama comumente “sacramento da Ceia do Senhor” sempre teve lugar de destaque. E a igreja de Cristo, em todos os tempos, apresentou a sua devida celebração religiosa como dever que cabe a toda alma que professa fé em Cristo Jesus e busca a salvação somente pelo seu sangue. Por isso ela sempre foi tida na mais alta estima e reverência. E o grande Sumo Sacerdote da sua igreja mostrou, por influências mais que ordinárias do seu bendito Espírito na alma dos fiéis, que eles não tinham entendido mal o que ele queria dizer nem crido em vão, quando, comendo daquele pão e bebendo daquele cálice, procuravam anunciar a sua morte e tornar reais os benefícios que dela derivam.

Se se deve ter algum respeito pela instituição primitiva na celebração dessa ordenança divina, então se deve usar pão ázimo, sem fermento. Em todo sinal ou tipo, aquilo que significa ou aponta para algo além de si mesmo deve ter certas propriedades, ou vir acompanhado de certas circunstâncias, que impressionem o mais possível quanto às coisas significadas. O pão, considerado simplesmente em si mesmo, pode ser um emblema bastante apropriado do corpo do nosso Senhor Jesus, que foi dado por nós. Mas o propósito de Deus era evidentemente que ele apontasse não só para isso, mas também para a disposição exigida dos que haveriam de celebrar tanto o antítipo quanto o tipo; e isso o apóstolo explica que é a sinceridade e a verdade, o contrário da maldade e da malícia (cf. 1Co 5.8). O próprio sabor do pão era instrutivo. Mostrava a cada comungante que quem viesse à mesa de Deus com malícia ou má vontade contra qualquer pessoa, ou com maldade, com uma vida devassa ou pecaminosa, poderia esperar comer e beber juízo para si, por não discernir que o corpo do Senhor foi sacrificado justamente para este fim: que todo pecado fosse destruído (cf. 1Co 11.29).

Abençoar e tocar o pão são simples cerimônias papistas, não autorizadas nem pelas Escrituras nem pela prática da igreja pura de Deus; necessárias, é claro, aos que pretendem transformar, por uma espécie de encantamento espiritual, o pão e o vinho no corpo e no sangue reais de Jesus Cristo: uma medida a mais grosseira em loucura e a mais estúpida em absurdo a que Deus, em juízo, jamais abandonou o espírito caído do ser humano.

Considero o partir do pão altamente necessário à devida realização dessa cerimônia solene e significativa, porque esse ato foi destinado pelo nosso Senhor a figurar o ferimento, o traspassamento e o quebrantamento do seu corpo na cruz; e tudo isso era essencialmente necessário para fazer uma expiação completa pelo pecado do mundo. Por isso é de grande importância que essa circunstância aparentemente pequena, o partir do pão, seja cuidadosamente observada, para que o comungante piedoso tenha toda a ajuda necessária para discernir o corpo do Senhor enquanto participa da mais importante e mais divina de todas as ordenanças de Deus.

Soube, com extremo pesar, que em muitas igrejas e capelas um composto vil, impiamente chamado de vinho, que não é fruto da videira, mas do sabugueiro, da groselha ou do cassis [N. do T.: o texto impresso traz alder, amieiro; provável lapso por elder, sabugueiro], e não raro produto das varreduras de uma mercearia, é usado no lugar do vinho no sacramento da Ceia do Senhor. Que isso é uma perversão iníqua e terrível da ordenança do nosso Senhor não precisa, estou convencido, de prova.

Assim como a Páscoa devia ser celebrada todos os anos, para manter na memória o acontecimento original e mostrar o verdadeiro Cordeiro pascal, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29), assim também, depois da oferta única de Cristo, nosso Cordeiro pascal (1Co 5.7), na cruz, ele mesmo ordenou que o pão e o vinho fossem usados para manter “em memória aquela sua preciosa morte, até a sua vinda”. Ora, assim como o cordeiro pascal, sacrificado todos os anos, trazia à memória do povo a maravilhosa libertação dos seus pais da escravidão e da tirania do Egito, assim também o pão e o vinho, consagrados e recebidos segundo a santa instituição do nosso Salvador Jesus Cristo, foram destinados por ele mesmo a manter uma lembrança contínua e uma representação viva da grande expiação feita pela sua morte na cruz. [N. do T.: a expressão entre aspas e a fórmula “segundo a santa instituição do nosso Salvador Jesus Cristo” vêm da oração de consagração da Santa Comunhão no Livro de Oração Comum anglicano.] Fazer isso não se destina simplesmente a manter uma lembrança de Cristo como amigo bondoso e benevolente, que é o máximo que alguns admitem, mas a manter em memória o seu corpo partido por nós e o seu sangue derramado por nós. Pois, como o caminho para o Santuário sempre foi pelo seu sangue, e ninguém pode vir ao Pai senão por ele (cf. Jo 14.6), e ninguém pode vir com proveito sem ter fé no seu sangue, era necessário que essa grande ajuda para crer fosse fornecida com frequência, já que em todas as épocas seguintes haveria pecadores a serem salvos e santos a serem confirmados e firmados na sua santa fé. Os que rejeitam a Ceia do Senhor pecam, portanto, contra a misericórdia que lhes é oferecida [N. do T.: alusão a Jn 2.8 na King James, forsake their own mercy; a NAA diz “abandonam aquele que lhes é misericordioso”] e tratam o seu Criador com a mais vil ingratidão.

Que ninguém engane a própria alma imaginando que pode ter todos os benefícios da morte de Cristo sem ter nada a ver com o sacramento. É um mandamento do Deus vivo, fundado na mesma autoridade que “Não mate” (Êx 20.13); ninguém, portanto, pode desobedecer a ele e ser inocente. Além disso, que ninguém se iluda supondo que pode participar espiritualmente dessa ceia sem usar o que muitos, demais, chamam impiamente de “ordenança carnal”, isto é, sem comer o pão e beber o vinho em memória da morte de Cristo. Não é isso uma ilusão? O que diz a vontade soberana de Deus? “Façam ISTO.” O que é ISTO? Ora: “Tomem o pão, partam e comam. Tomem o cálice e bebam dele todos”. ISTO, e só isto, é cumprir a vontade de Deus. Portanto, comer o pão sacramental e beber o vinho consagrado são essenciais ao cumprimento religioso do mandamento do nosso Senhor.

Toda instituição tem a sua letra e o seu espírito, assim como toda palavra tem de se referir a alguma coisa de que é sinal ou significação. O evangelho tem a sua letra e o seu espírito; e multidões de professos cristãos, descansando na letra, não recebem a vida que ele é destinado a comunicar. A água, no batismo, é a letra que aponta para a purificação da alma. Os que descansam na letra ficam sem essa purificação e, morrendo nesse estado, morrem eternamente. O pão e o vinho, no sacramento da Ceia do Senhor, são a letra; a eficácia expiatória da morte de Jesus, e a graça que por ela se comunica à alma do crente, são o espírito. Multidões descansam nessa letra, recebendo simplesmente esses símbolos sem referência à expiação ou à sua própria culpa, e assim perdem o benefício da expiação e a salvação da alma.

Os comungantes indignos estão num estado muito terrível. Podem ser divididos em duas classes: os irrefletidos e os ímpios. Da primeira classe há multidões entre as diversas sociedades de cristãos. Não conhecem o Senhor e não discernem a obra das suas mãos. Por isso vão à mesa do Senhor por simples senso de dever ou de decoro, sem considerar o que os Sagrados Elementos representam e sem sentir nenhuma fome do pão que permanece para a vida eterna (cf. Jo 6.27). Esses realmente profanam a ordenança, ou por não a dedicarem ao fim para o qual foi instituída, ou por perverterem esse fim. Entre eles talvez se possam incluir os que não creem nos sofrimentos e na morte substitutivos do bendito Redentor. Eles também recebem a Ceia do Senhor, mas a recebem como testemunho de respeito e lembrança amiga. Esses não discernem o corpo do Senhor; não veem que esse pão representa o seu corpo, que foi partido por eles, e o seu sangue, que foi derramado para a remissão dos pecados.

Dos ímpios, que compreendem os transgressores de todas as espécies, pouco é preciso dizer para provar a sua indignidade. Esses, vindo à mesa do Senhor, comem e bebem a própria condenação, pois professam por esse ato religioso reconhecer a virtude daquele sangue que purifica de toda injustiça, enquanto eles mesmos são escravos do pecado. Nenhum desses deveria jamais ter permissão de se aproximar da mesa do Senhor. Se, por aquela ignorância grosseira que é a companheira inseparável da devassidão, eles estão decididos a se destruir, que os ministros de Deus cuidem de que a ordenança não seja profanada pela admissão de convidados tão desacreditados e iníquos! Pois pode-se esperar que Deus manifeste a sua aprovação quando a cerca do seu santuário é derrubada e os animais da floresta são introduzidos no Santo dos Santos?

Pode-se perguntar aqui: “Quem, então, deve se aproximar dessa ordenança tremenda?”. Respondo: todo crente em Cristo Jesus que foi salvo dos seus pecados tem direito de vir. Esses são da família de Deus, e esse pão pertence aos filhos. Sobre isso só pode haver uma opinião. 2. Todo penitente sincero é convidado a vir e, por consequência, tem direito, porque precisa do sangue expiatório, e por essa ordenança o sangue derramado para a remissão dos pecados é expressamente representado. “Mas eu não sou digno.” E quem é? Não há santo na terra nem arcanjo no céu digno de se sentar à mesa do Senhor. Ninguém é excluído senão os impenitentes, os transgressores e os profanos. Os crentes, por mais fracos que sejam, têm direito de vir; e os mais fortes na fé precisam da graça dessa ordenança. Os penitentes devem vir, porque todas as promessas de perdão mencionadas na Bíblia são feitas a eles; e quem tem sede pode receber de graça a água da vida (cf. Ap 22.17). Ninguém é digno do banquete, embora todos esses participem dele dignamente. Mas ele é preparado gratuitamente por aquele que é o Cordeiro de Deus, que foi morto por nós e é digno de receber glória e majestade, domínio e poder, para todo o sempre (cf. Ap 5.12).

Toda alma que não quer renunciar ao seu direito aos benefícios da paixão e morte de Cristo deve fazer questão, diante de Deus e da sua consciência, de participar dessa ordenança, se não doze vezes, pelo menos quatro ou seis vezes por ano, e continuar assim a anunciar a morte do Senhor até que ele venha (cf. 1Co 11.26).

O ministro credenciado, o homem separado segundo o costume da sua comunidade, foi sempre o único considerado com direito de ministrar essa ordenança, já que só ele podia julgar quais pessoas eram aptas para serem admitidas. Onde pessoas particulares assumiram essa função importante, trouxeram desprezo à ordenança de Deus, e elas e os seus seguidores iludidos em geral terminaram em confusão e apostasia.

Não só os sagrados elementos devem ser da mais pura e melhor qualidade, mas também os vasos sagrados, de qualquer metal que sejam, devem estar perfeitamente limpos e dispostos com decência sobre a mesa. Os comungantes, ao receber o pão e o vinho, não devem ser apressados, para não correrem o risco de deixar cair um ou derramar o outro, pois acidentes desse tipo tiveram consequências terríveis para algumas mentes fracas. Nenhum comungante deve receber de luvas; isso é indecente, para não dizer irreverente. Talvez a melhor maneira de receber o pão seja abrir a mão e deixar que o ministro o ponha na palma, de onde o comungante possa tomá-lo com prontidão e facilidade.

Na preparação dessa festa, nunca se deve deixar de fazer uma coleta para o sustento dos pobres. Esse foi um costume religiosamente observado desde a mais remota antiguidade da era cristã.

Algumas razões para frequentar a mesa do Senhor e tirar proveito dessa ordenança:

1. Jesus Cristo ordenou aos seus discípulos que fizessem isso em memória dele; e, se não houvesse outra razão, esta certamente deve ser considerada suficiente por todos os que respeitam a sua autoridade como seu Mestre e Juiz.

2. Assim como os sacrifícios repetidos da igreja judaica, e particularmente a Páscoa, se destinavam a apontar para o Filho de Deus até que ele viesse, parece que o nosso bendito Senhor quis que a eucaristia fosse um meio principal de manter em memória a sua paixão e morte, e assim anunciar aquele que morreu pelas nossas ofensas, como os outros anunciavam aquele que, na plenitude dos tempos, haveria de morrer.

3. Assim como é dever de todo cristão receber a santa eucaristia, é dever de todo ministro cristão cuidar para que o povo de Deus não negligencie nem perca de vista essa ordenança.

4. Ela é uma prova permanente e inexpugnável da autenticidade da religião cristã.

Aqui se deve considerar uma questão de grande importância: a impiedade do ministro prejudica a ordenança em si, ou o comungante piedoso? Respondo: 1. Ninguém que seja ímpio deveria jamais ter permissão de ministrar coisas santas, sob pretexto algum; e, nesta ordenança em particular, nenhuma mão profana deveria ser vista. 2. Como o benefício que se tira da eucaristia depende inteiramente da presença e da bênção de Deus, não se pode esperar razoavelmente que ele opere por meio de um devasso ou de um profano. Muitos perderam tempo tentando provar “que a impiedade do ministro não prejudica o comungante digno”. Mas Deus o desmentiu em dez mil casos, nos quais, de modo geral, reteve a sua influência divina por causa da maldade ou da falta de valor de quem ministrava, fosse bispo, presbítero, ministro ou pregador.

A profanação e o pecado certamente impedirão o Espírito divino de tornar real o sinal na alma dos ministros indignos e dos comungantes pecadores. Mas a falta de ordenação episcopal na pessoa, ou de consagração no lugar, nunca pode impedir aquele que não está confinado a templos feitos por mãos humanas (cf. At 17.24), e que envia por quem quer enviar, de derramar o seu Espírito sobre os que o invocam fielmente e vão ao seu encontro nos caminhos que ele designou.

Eu preferiria que o sacramento fosse ministrado na nossa forma. Temos de ceder um pouco, em coisas inocentes, ao preconceito arraigado, mas mantenham-se o mais perto possível do nosso modelo. O metodismo, na Escócia, foi arruinado por ser edificado sobre um modelo presbiteriano. Tenham isso em vista. Vocês devem, de todo modo, dar o sacramento a todos os que estão unidos a vocês; não os mandem a outros lugares para recebê-lo. Que a Santíssima Trindade os guarde sempre! [N. do T.: este parágrafo é, ao que parece, trecho de uma carta de Clarke, que Dunn não identifica; o original não deixa claro se ela se dirige a um ou a vários pregadores.]

Quase nada é mais inconveniente do que ver a maioria dos comungantes, assim que recebem os elementos, saindo às pressas da igreja ou da capela, de modo que, ao fim da ordenança, são pouquíssimos os que se unem numa ação de graças geral a Deus pelos benefícios conferidos pela paixão e morte de Cristo por meio dessa ordenança bendita.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).