Capítulo XVIII

O batismo

Páginas 279 a 281 da edição de 1835

A forma em que o batismo era originalmente ministrado tem sido considerada assunto digno de séria disputa. As pessoas eram imergidas ou aspergidas? Pois é certo que bapto e baptizo (em grego no original) significam as duas coisas. “Eram todas imergidas”, dizem alguns. Pode alguém supor que fosse possível a João imergir todos os habitantes de Jerusalém e da Judeia e de toda a região em torno do Jordão? Eram imergidos tanto homens quanto mulheres, já que certamente ambos vinham ao seu batismo? Isso nunca teria sido compatível nem com a segurança nem com a decência. Eram imergidos com a roupa do corpo? Isso teria posto a vida deles em perigo, se não tivessem consigo roupa para trocar. E, como um batismo como o de João (fosse como fosse ministrado) era, em vários aspectos, uma coisa nova na Judeia, não é nada provável que o povo viesse assim preparado. Mas, suponha-se que fossem imergidos, o que creio ser impossível provar: segue-se que, em todas as regiões do mundo, homens e mulheres têm de ser imergidos para serem batizados segundo o evangelho? Nos países orientais, os banhos eram frequentes por causa do calor do clima, sendo ali tão necessários à limpeza e à saúde. Mas poderia o nosso clima, ou outro mais ao norte, permitir isso com segurança durante pelo menos três quartos do ano? Podemos ter certeza de que não. E não podemos presumir que, se João tivesse começado a sua missão no norte da Grã-Bretanha, durante muitos meses do ano não teria imergido nem homem nem mulher, a não ser que conseguisse um banho morno? Os que são imergidos ou mergulhados na água em nome da Santíssima Trindade, creio que são batizados segundo o evangelho. Os que são lavados ou aspergidos com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, creio que o são igualmente; e creio que repetir tal batismo é profano. Outros têm o direito de crer o contrário, se assim lhes parecer. Afinal, o que é essencial no sacramento é a coisa significada, e não o modo.

Embora fossem “crianças”, eram capazes de receber a bênção de Cristo (cf. Mt 19.13-14). Se Cristo as abraçou, por que a sua igreja não as abraçaria? Por que não dedicá-las a Deus pelo batismo, seja ele feito por aspersão, lavagem ou imersão? Não precisamos discutir sobre o modo; neste ponto, cada um tenha opinião bem-definida em sua própria mente (cf. Rm 14.5). Confesso que me parece grosseiramente pagão e bárbaro ver pais que professam crer naquele Cristo que ama as crianças, e entre eles alguns cujo credo não os impede de praticar o batismo infantil, privarem os filhos de uma ordenança de que ninguém pode provar que eles não tirarão proveito, e, por um fanatismo ou um descuido inexplicável, negarem-lhes o privilégio até de uma dedicação nominal a Deus. E, no entanto, essas mesmas pessoas estão bem prontas a correr a chamar um ministro para batizar o filho quando supõem que ele está à beira da morte! Não seria crime orar para que tais pessoas nunca tivessem o privilégio de ouvir “Meu pai!” ou “Minha mãe!” dos lábios do próprio filho.

É fácil levar as coisas a extremos, para a direita e para a esquerda. Nesta controvérsia houve muita aspereza de todos os lados. Já é tempo de acabar com isso. Dizer que o batismo com água não é nada, porque se prometeu um batismo do Espírito, não é correto. O batismo, como quer que seja ministrado, é um rito importantíssimo na igreja de Cristo. Dizer que a aspersão não é batismo evangélico é tão incorreto quanto dizer que a imersão não é. Tais afirmações são tão anticristãs quanto sem caridade, e devem ser cuidadosamente evitadas por todos os que desejam promover o grande propósito do evangelho: glória a Deus e paz e boa vontade entre os homens. Por fim, afirmar que o batismo infantil não é bíblico é tão temerário e censurável quanto qualquer das outras afirmações. Miríades de pessoas conscienciosas escolhem dedicar os seus filhos pequenos a Deus pelo batismo público. Elas estão certas! E, agindo assim, seguem a prática geral da igreja judaica e da cristã, uma prática da qual é tão desnecessário quanto perigoso se afastar.

O batismo é uma prova permanente da autenticidade divina da religião cristã e um selo da verdade da doutrina da justificação pela fé, mediante o sangue da aliança. Ao batismo com água era admitido o homem que se tornava prosélito da religião judaica; e, nesse batismo, ele prometia da maneira mais solene renunciar à idolatria, tomar o Deus de Israel por seu Deus e conformar a sua vida aos preceitos da lei divina. Mas a água usada nessa ocasião era apenas um emblema do Espírito Santo. A alma era considerada num estado de impureza por causa do pecado passado; ora, assim como por aquela água o corpo era lavado, limpo e refrescado, assim também, pelas influências do Espírito Santo, a alma devia ser purificada da sua impureza e fortalecida para andar no caminho da verdade e da santidade.

Quando João veio batizando com água, deu aos judeus as indicações mais claras de que isso não bastaria; de que era apenas figura daquele batismo do Espírito Santo, sob a imagem do fogo, que todos eles deviam receber de Jesus Cristo (cf. Mt 3.11). Por isso o nosso Senhor afirma que é preciso nascer da água e do Espírito (Jo 3.5), isto é, do Espírito Santo, que, representado sob a imagem da água, limpa, refresca e purifica a alma. Leitor, você nunca teve outro batismo além do da água? Se não teve outro, creia na palavra de Jesus Cristo: no seu estado presente, você não pode entrar no Reino de Deus. Eu não lhe diria simplesmente: “Leia o que é nascer do Espírito”; mas: “Ore, ó, ore a Deus sem cessar até que ele o faça sentir o que isso implica!”. Lembre-se de que só Jesus batiza com o Espírito Santo.

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).