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Parte I · Capítulo XI

O uso e os limites da razão na religião

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Tendo indicado o tipo de prova pelo qual uma revelação de Deus pode ser autenticada, e as circunstâncias em que ela deve produzir convicção e impor obediência, parece ser uma ordem natural de proceder examinar o assunto que dá título a este capítulo, visto que uma prova desse tipo, e com esse fim, tem de ser dirigida à nossa razão, a única faculdade capaz de recebê-la. Mas, como a essa função da nossa razão é preciso atribuir limites e regras importantes, será necessário apresentá-los e explicá-los.

Supondo-se que o presente argumento se dirige a alguém que crê em Deus, Senhor e Governador do homem, e crê que ele é um Ser de perfeições infinitas, as nossas observações terão a vantagem de certos primeiros princípios que essa crença concede.

Já apresentamos muitas provas presuntivas de que uma revelação da vontade de Deus é essencial ao seu governo moral, e de que tal revelação de fato foi feita. Também examinamos, além disso, o tipo e o grau de prova necessários para ratificá-la. O ponto diante de nós agora são os meios pelos quais se produz a convicção da sua verdade.

O assunto a ser examinado é a verdade de um sistema religioso e moral que se apresenta como vindo de Deus, embora comunicado por homens que alegam a autoridade dele para promulgá-lo. Se há alguma força nas observações anteriores, não devemos, em primeiro lugar, examinar a doutrina para determinar, pela nossa própria opinião sobre a sua excelência, se ela vem de Deus (pois para isso, se precisamos de uma revelação, somos incompetentes); devemos, isto sim, investigar as credenciais dos mensageiros, em busca de prova suficiente de que Deus falou aos homens por meio deles. Se uma consideração ligeira da doutrina, seja pela sua aparente excelência, seja pelo contrário, nos atrair fortemente a esse exame, tanto melhor. Mas, sejam quais forem os preconceitos a favor ou contra a doutrina que um boato ou uma opinião apressada sobre a sua natureza e tendência possam inspirar, o nosso juízo final só pode repousar com segurança sobre a prova que se possa oferecer da sua autoridade divina. Se essa prova for satisfatória, a questão está decidida, quer a doutrina nos agrade, quer nos desagrade. Se não for oferecida prova suficiente, temos liberdade para receber ou rejeitar o todo ou qualquer parte dela, conforme nos pareça digna da nossa consideração; pois então ela está no mesmo terreno que qualquer outra opinião meramente humana. Devemos, porém, ter cuidado, pois isso se faz sob uma responsabilidade muito solene.

A prova da autoridade divina de um sistema de doutrina comunicado em tais circunstâncias dirige-se à nossa razão; em outras palavras, tem de ser prova razoável de que nessa revelação houve uma intervenção direta e especial de Deus.

Com base, portanto, nos princípios já estabelecidos (que, embora a prova racional de uma doutrina esteja na própria doutrina, a prova racional da autoridade divina de uma doutrina tem de ser externa a ela; e que os milagres e a profecia são atestações apropriadas e satisfatórias dessa autoridade sempre que ocorrem), fica evidente o uso da razão humana nessa investigação. Os próprios milagres alegados devem ser examinados, para determinar se são reais ou fingidos, admitindo-se que tenham sido realizados; o testemunho das testemunhas deve ser investigado, para determinar se eles de fato ocorreram; e, se esse testemunho foi posto por escrito, temos também de determinar se o registro foi feito fielmente desde o princípio e se foi preservado com cuidado e sem corrupção. Quanto à profecia, devemos igualmente examinar se a pretensa profecia é uma predição real de acontecimentos futuros ou apenas um dito ambíguo e equívoco, que pode ser entendido de vários modos; se ela se refere a acontecimentos que estão além das conjecturas de homens sábios e observadores; se foi pronunciada tanto tempo antes dos acontecimentos preditos que eles não poderiam ser previstos na ordem habitual das coisas; se foi pronunciada pública ou particularmente; e se, posta por escrito, esse registro foi guardado com fidelidade. A esses pontos deve dirigir-se a nossa consideração, e verificar a força da prova é a importante esfera da nossa razão ou juízo.

O segundo uso da razão diz respeito à interpretação da revelação assim autenticada. Aqui se devem aplicar as mesmas regras que na interpretação de qualquer outra declaração ou registro. Pois, como o nosso único objetivo, depois de estabelecida a autenticidade da revelação, é descobrir o seu sentido, ou, em outras palavras, verificar o que Deus nos declara nela, a nossa razão ou juízo é chamada exatamente à mesma função que exerce quando está em questão o significado de qualquer outro documento. Os termos do registro devem ser tomados no seu sentido claro e comumente aceito; as figuras de linguagem devem ser interpretadas com referência às particularidades locais do país em que residiam os agentes que escreveram o registro; as expressões idiomáticas devem ser entendidas segundo o gênio da língua empregada; se ocorrerem discursos alegóricos ou místicos, a chave deles deve ser buscada no próprio livro, e não nas nossas fantasias; o que é obscuro deve ser interpretado pelo que é claro; deve-se levar em conta o propósito e o teor de um discurso, e não tirar nenhuma conclusão de passagens separadas do seu contexto, a não ser que tenham sentido completo ou sejam evidentemente intencionadas como axiomas e apotegmas. Essas e outras regras, relativas ao tempo e ao lugar em que o registro foi escrito, às circunstâncias do escritor e daqueles a quem ele se dirigiu imediatamente, aos costumes locais etc., parecem, neste e em todos os outros casos, tão justas e razoáveis que se recomendam por si mesmas a todo homem sensato. E usamos corretamente a nossa razão na interpretação de uma revelação aceita quando conduzimos a investigação do seu significado por aquelas regras claras de bom senso que toda a humanidade adota quando se trata de verificar o significado de outros escritos.

Acrescentou-se, como regra de interpretação, que, quando uma revelação está suficientemente atestada e, em consequência disso, é aceita, nada se deve deduzir dela que seja contrário à razão. Como essa regra está sujeita a ser muito mal compreendida, e às vezes foi levada a consequências prejudiciais, vamos examiná-la com certa extensão e indicar o sentido em que pode ser admitida com segurança.

Algumas pessoas que defendem esse princípio de interpretação parecem confundir a razão do homem com a razão ou natureza das coisas e as relações que subsistem entre elas. Estas, porém, só podem ser plenamente conhecidas por Deus; e usar o termo razão nesse sentido é o mesmo que usá-lo no sentido da razão de Deus, a cuja igualdade a razão humana não pode aspirar. Ela pode ser o reverso da razão divina, ou uma tênue irradiação dela, mas nunca pode ser plena e perfeita como a razão de uma mente de conhecimento perfeito. Admite-se que Deus não pode revelar como verdade nada que contradiga o seu conhecimento e a natureza das próprias coisas; mas disso não se segue que essa revelação não deva conter nada que contradiga a razão limitada e frequentemente falível do homem.1

Outra distinção necessária para a correta aplicação dessa regra é que uma doutrina que não pode ser provada pela nossa razão não é, por isso, contrária nem à natureza das coisas, nem mesmo à própria razão. Às vezes se perde isso de vista, e aquilo que não tem prova da parte da nossa razão é precipitadamente presumido como contrário a ela. Ora, a investigação racional é um processo pelo qual indagamos a verdade ou a falsidade de qualquer coisa comparando-a com aquilo que sabemos ser verdadeiro, intuitivamente ou por experiência, ou com aquilo que antes demonstramos ser verdadeiro. “Pela razão”, diz Cícero, “somos conduzidos das coisas apreendidas e compreendidas às coisas não apreendidas.” A prova racional, portanto, consiste na concordância ou discordância daquilo que se compara com verdades que se supõem já estabelecidas. Mas pode haver verdades cuja prova só pode ser plenamente conhecida pela mente divina, e sobre as quais a faculdade de raciocinar ou de comparar de uma natureza inferior não pode ser empregada, por causa da sua vastidão ou obscuridade. E verdades assim tem de haver em qualquer revelação que trate da natureza e das perfeições de Deus, da sua vontade a nosso respeito e das relações em que estamos para com ele e para com outro estado de existência. Como fatos e doutrinas, elas são tão capazes de ser reveladas como se toda a razão das coisas em que se fundamentam também fosse posta na revelação. Mas podem ser reveladas como declarações de autoridade, cujo processo de prova está oculto, ou porque transcende as nossas faculdades, ou por outras razões; e por isso não temos prova racional da sua verdade além da prova racional de que vêm de Deus, o que de fato é uma demonstração mais poderosa. Que uma revelação pode conter verdades dessa natureza transcendente, todos os que admitiram a sua necessidade têm de reconhecer, se quiserem ser coerentes consigo mesmos; pois a sua necessidade repousa, em grande parte, sobre a fraqueza da razão humana. Se as nossas faculdades naturais pudessem ter alcançado as verdades que assim nos são apresentadas, não haveria necessidade de instrução sobrenatural; e, se ela foi concedida, o seu grau depende da vontade divina, e Deus pode dar uma doutrina com as suas razões ou sem elas. Pois certamente o fundamento da nossa obrigação de crer na sua palavra não repousa sobre a nossa percepção da prova racional das verdades que ele exige que creiamos. Se, então, doutrinas são dadas sem as razões em que repousam, isto é, sem nenhuma concordância aparente com o que já se sabe, porque o processo de prova, em muitos casos, teria de ser uma comparação daquilo que é vasto demais para ser plenamente apreendido por nós com alguma outra coisa que, por ser conhecida por nós, há de ser relativamente pequena, ou talvez de natureza diferente em algumas das suas qualidades ou relações, de modo que não se pode instituir nenhuma comparação adequada entre coisas tão dessemelhantes, essa circunstância prova a ausência de prova racional para nós. Mas de modo nenhum se segue que a doutrina seja incapaz de prova racional, embora provavelmente nenhuma razão senão a de Deus, ou a de um ser mais elevado do que o homem no seu estado presente, seja adequada para desvendá-la.

Sustentou-se, na verdade, que, embora a nossa razão possa ser inadequada para descobrir as verdades que o tipo de revelação que supusemos necessária tem de conter, ela, quando auxiliada por essa revelação, é elevada a uma condição tão perfeita que aquilo que lhe parece incongruente deve ser concluído como contrário à própria revelação. Isso, até certo ponto, é verdade. Quando uma doutrina nos é claramente revelada, apoiada como está numa autoridade infalível, nenhuma doutrina contrária pode ser verdadeira, quer se encontre fora do registro da revelação, quer seja deduzida dele. Pois isso, de fato, não é mais do que dizer que as opiniões humanas devem ser provadas pela autoridade divina, e que a revelação tem de ser coerente consigo mesma. O critério ao qual, nesse caso, submetemos uma doutrina contraditória, enquanto nos apegamos à revelação, é formado de princípios que a nossa razão não forneceu, mas que nos foram comunicados por intervenção sobrenatural; e o juiz a quem recorremos não é, propriamente falando, a razão, mas a revelação.

Mas, se com isso se quer dizer que a nossa razão, uma vez iluminada pelo anúncio das grandes verdades da revelação, pode descobrir ou completar, em todos os casos, o processo da sua prova racional, isto é, da sua conformidade com a natureza e a verdade das coisas, e está assim autorizada a rejeitar tudo o que não se possa harmonizar com as nossas próprias deduções a partir das verdades principais assim reveladas, uma concessão tão grande não pode ser feita à capacidade humana. Em muitas das regras da moral, e também nas doutrinas da religião, pode-se admitir que se abre uma linha de pensamento que pode ser seguida para ampliar a prova racional das doutrinas ensinadas; mas não no que diz respeito a muitos dos atributos de Deus, aos seus propósitos a respeito do gênero humano, a alguns dos seus procedimentos mais importantes para conosco e ao destino futuro do homem. Uma vez revelado que o homem é criatura, não podemos deixar de perceber que é razoável sermos governados pela lei do nosso Criador; que isso se funda no direito dele e no nosso dever; e que, tratando com um Governador sábio, bondoso e justo, aquilo que é o nosso dever tem necessariamente de promover a nossa felicidade. Mas, se a revelação contiver alguma declaração sobre a natureza do próprio Criador, como a de que ele é eterno, existe por si mesmo e está em todo lugar, e a de que sabe todas as coisas, os pensamentos assim sugeridos e as doutrinas assim enunciadas, de modo despojado e com autoridade, são misteriosos demais para serem apreendidos por nós com distinção. E somos incapazes, comparando-os com qualquer outra coisa (pois não conhecemos nada com que possamos compará-los), de adquirir qualquer visão clara do modo como tal ser existe, ou de por que tais perfeições decorrem necessariamente da sua natureza peculiar. Se, portanto, a própria revelação não declarar, além dos simples fatos de que ele existe por si mesmo, é onipresente, onisciente etc., o modo como a existência de tais atributos se harmoniza com a natureza e a razão das coisas, não podemos preencher essa lacuna. E, ainda que captemos alguma visão da prova racional (o que não se nega), somos incapazes de completá-la. A nossa razão não está iluminada até a plena medida dessas verdades, nem, em tais assuntos, estamos inteiramente certos de que algumas das nossas deduções mais racionais sejam perfeitamente sólidas; e por isso não podemos usá-las como padrões para provar qualquer doutrina além do grau em que nos são claramente reveladas e enunciadas com autoridade. Outros exemplos poderiam ser dados, mas estes bastam para ilustrar.

Feitas essas observações, será fácil fixar limites definidos à regra “de que nenhuma doutrina de uma revelação aceita deve ser entendida num sentido contrário à razão”. O único modo pelo qual tal regra pode ser recebida com segurança é este: nada deve ser tomado como interpretação verdadeira quando, quanto ao assunto em questão, temos conhecimento suficiente para afirmar que a interpretação é contrária à natureza das coisas; e, nesse caso, também é necessário ter certeza de que fomos capazes de verificá-la. De algumas coisas conhecemos a natureza sem revelação, visto que estão dentro do alcance da nossa própria observação e experiência; por exemplo, que um corpo humano não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. De outras coisas conhecemos a natureza pela revelação, e por ela o nosso conhecimento é ampliado. Se, portanto, a partir de algumas passagens figuradas de uma revelação, alguém, como os papistas, afirmasse que o vinho é sangue humano, ou que um corpo humano pode estar em dois lugares ao mesmo tempo, isso é contrário à nossa razão, isto é, não a uma mera opinião, mas à natureza de algo que conhecemos tão bem que somos obrigados a rejeitar a interpretação como um absurdo. Se, por outro lado, alguém interpretasse as passagens que falam de Deus como tendo a forma de homem no sentido de que ele tem apenas uma presença local, a nossa razão foi ensinada pela revelação que Deus é espírito e existe em toda parte. Isto é, até esse ponto fomos ensinados sobre a natureza das coisas no que diz respeito a Deus, de modo que rejeitamos a interpretação como contrária ao que foi tão claramente revelado, e reduzimos toda expressão antropomórfica que encontremos na revelação a linguagem figurada e acomodada. Na aplicação dessa regra, mesmo assim limitada, é preciso, porém, ter o cuidado de distinguir o que pode ser provado por ela. Se comparamos uma coisa com outra, a fim de determinar se concorda ou difere dela, não basta que tenhamos conhecimento suficiente daquilo com que a comparamos e que tomamos como padrão de julgamento. Também é necessário que as coisas comparadas sejam da mesma natureza, e que a comparação seja feita sob os mesmos aspectos. Tomemos para ilustração o caso que acabamos de dar. De dois corpos podemos afirmar que não podem estar no mesmo lugar ao mesmo tempo; mas não podemos afirmar isso de um corpo e de um espírito, pois sabemos que relação os corpos têm com o lugar e entre si, mas não sabemos que relação os espíritos têm entre si ou com o espaço. Isso pode ilustrar a primeira regra. A segunda exige que a comparação seja feita sob o mesmo aspecto. Se afirmamos de dois corpos, um de forma redonda e outro de forma quadrada, que a sua forma é a mesma, a comparação decide o caso e detecta o erro imediatamente; mas desses corpos, tão diferentes na forma, pode-se afirmar sem contradição que têm o mesmo peso específico, pois a diferença de forma não é aquilo sob cujo aspecto se faz a comparação. Apliquemos isso à interpretação de uma revelação de Deus e da sua vontade. A regra que nos manda rejeitar, como interpretação verdadeira dessa revelação, tudo o que é contrário à razão pode ser admitida em todos os casos em que conhecemos a natureza real das coisas e conduzimos a comparação com as cautelas que acabamos de dar. Mas seria extremamente enganosa, e frustraria a intenção da própria revelação ao abalar a sua autoridade, se fosse aplicada de qualquer outro modo. Pois:

1. Em todos os casos em que a natureza das coisas não é conhecida de modo claro e satisfatório, não se pode afirmar que uma doutrina a contradiz e é, por isso, contrária à razão.

2. Quando aquilo sobre o que queremos formar um juízo racional não é, ele mesmo, apreendido com distinção, não pode ser comparado de modo satisfatório com as coisas cuja natureza conhecemos adequadamente, e por isso não se pode dizer que seja contrário à razão.

Ora, numa revelação como a que supusemos necessária para o homem, há muitos fatos e doutrinas que não podem ser comparados com nada que conheçamos adequadamente, e por isso ficam inteiramente fora do alcance da regra em questão. Supomos que ela declare o que Deus, a infinita Causa Primeira, é. Mas é da natureza de tal ser ser, em muitos aspectos, peculiar a si mesmo; e, como nesses aspectos ele não admite comparação com nenhum outro, aquilo que pode ser falso se afirmado de nós mesmos, por contradizer o que sabemos da natureza humana, pode ser verdadeiro a respeito dele, para quem a natureza das coisas é a sua própria natureza, e só a sua própria natureza. A mesma observação pode ser feita a respeito de muitos dos seus atributos naturais: são atributos de uma natureza peculiar e, por isso, peculiares em si mesmos, seja em espécie, seja em grau; não admitem comparação, sendo cada um, como ele mesmo, sui generis (único no seu gênero); e a natureza das coisas, quanto a cada um deles, é a sua própria natureza. O mesmo raciocínio pode ser aplicado, em parte, aos propósitos gerais de Deus ao criar e governar as suas criaturas. Eles não podem, em todos os aspectos, ser comparados com algo que conheçamos adequadamente, a fim de determinar se são razoáveis. As criaturas não estão umas para com as outras em todas as relações em que estão para com ele, e nenhum raciocínio a partir das relações mútuas entre elas pode nos ajudar a julgar os planos que ele formou a respeito do todo, cuja extensão, de fato, desconhecemos, ou muitas vezes a respeito de uma parte cujas relações com o todo não conhecemos. Se submetêssemos ao critério da razoabilidade aquilo que ele nos ordenou fazer ou deixar de fazer, muitas vezes não saberíamos como começar a investigação. Pois o mandamento pode ter uma razão que nasce da natureza dele, a qual ou não conhecemos de modo nenhum, ou conhecemos apenas nas revelações parciais e autorizadas que ele fez de si mesmo; ou dos seus planos gerais, dos quais não somos juízes, pelas razões que acabamos de dar; ou a sua razão pode estar na nossa própria natureza, que conhecemos apenas em parte, porque a vemos afetada de modos diferentes pelas circunstâncias, e não podemos saber em que circunstâncias seremos postos em qualquer tempo futuro.

Quanto às perfeições morais de Deus, visto que são mais capazes de uma comparação completa com o que encontramos nas criaturas inteligentes (pois a noção de infinidade se aplica a elas num sentido diferente daquele em que se aplica aos seus atributos naturais, e ideias adequadas de justiça, misericórdia e bondade estão ao nosso alcance), essa regra é muito mais aplicável em todos os casos que envolvam interpretações coerentes com essas ideias ou opostas a elas; e qualquer dedução claramente contrária a elas deve ser rejeitada, como fundada não na revelação, mas numa falsa interpretação. Isso se confirmará ainda mais se encontrarmos na própria revelação algo na forma de um apelo às nossas próprias ideias sobre assuntos morais, como, por exemplo, de justiça e equidade, para justificar os procedimentos divinos. Pois então temos a autoridade do próprio Doador da revelação para atribuir à sua justiça e equidade as ideias que estão implícitas nos mesmos termos na linguagem dos homens.2 Não se deve, portanto, deduzir de tal revelação uma doutrina que impugne esses atributos; mas aqui a regra só pode ser aplicada aos casos que compreendemos plenamente. Pode haver num caso uma aparente injustiça que, se conhecêssemos o todo, se mostraria em harmonia com a mais estrita equidade; e a prova de conformidade com os atributos morais de Deus que agora lhe falta pode ser manifestada num estado futuro, seja por uma informação superior que então nos seja concedida, seja, quando o sujeito do procedimento é um ser imortal, pelas diferentes circunstâncias de compensação em que ele possa ser posto.

No conjunto, então, ficará claro que essa regra de interpretação de uma revelação tem necessariamente uma aplicação apenas limitada, e diz respeito principalmente às partes do registro em que ocorrem passagens obscuras e linguagem figurada. Na maioria das outras, uma revelação, se for abrangente, se mostrará intérprete de si mesma, submetendo todo caso duvidoso à decisão dos seus próprios princípios gerais incontestáveis e das suas declarações explícitas. O uso da razão em matéria de revelação, portanto, é investigar as provas em que ela se funda e interpretá-la com justiça e imparcialidade, segundo as regras comuns de interpretação usadas em outros casos. O seu limite é a autoridade de Deus. Quando ele estabeleceu explicitamente uma doutrina, essa doutrina deve ser recebida com humildade, seja qual for o grau de prova racional da sua verdade que nos seja oferecido ou negado. E não se pode, sem culpa, recorrer a críticas que torturam ou pervertem o texto para pôr uma doutrina em melhor acordo com as nossas opiniões e sistemas preferidos, assim como não se pode fazer um preceito dobrar-se ao amor e à prática das nossas indulgências viciosas. Certamente não se pode atribuir à razão humana, em matéria de revelação, um campo mais amplo do que esse, quando ela é elevada à função de juiz: juiz das provas sobre as quais repousa uma pretensa revelação, e juiz do seu significado depois de aplicadas as regras de interpretação estabelecidas para outros casos.3 Mas, se a razão for considerada como aprendiz, ela pode ter um campo muito mais amplo naquelas regiões do saber que uma revelação genuína de Deus abrirá diante de nós. Toda verdade, mesmo a que para nós é mais abstrusa e misteriosa, é capaz de demonstração racional, embora não para a razão do homem no estado presente, e em alguns casos provavelmente para nenhuma razão abaixo da natureza divina. A verdade se funda na realidade, e por isso é verdade. Algumas verdades, portanto, que só uma revelação poderia dar a conhecer, muitas vezes nos parecerão racionais, por serem coerentes com o que já sabemos. A meditação sobre elas, ou a experiência da sua realidade em novas circunstâncias em que sejamos postos, pode ampliar essa prova; e assim a nossa visão da conformidade de muitas das doutrinas reveladas com a natureza e a realidade das coisas pode adquirir uma clareza e uma distinção crescentes. As observações de outros também podem, pela leitura e pela conversa, somar-se às nossas, e muitas vezes servem para levar a nossa mente a algum veio de pensamento novo e mais rico. É assim que a razão, em vez de ser acorrentada por ser regulada, como alguns alegam, é iluminada pela revelação, e capacitada, a partir dos primeiros princípios e pelos grandes marcos que ela fornece, a levar as suas investigações sobre muitos assuntos a uma extensão que enriquece e enobrece o intelecto humano e fornece alimento contínuo para a força do princípio religioso. Isso, porém, não acontece com todos os assuntos. Muitos, como já vimos, são, pela sua própria natureza, inteiramente incapazes de investigação. Ao primeiro passo mergulhamos nas trevas e encontramos, na religião como na filosofia natural, além de certos limites, barreiras intransponíveis que desafiam a penetração humana. E, mesmo onde a prova racional de uma verdade apenas enunciada de modo despojado na revelação, ou desenvolvida de modo muito parcial, pode ser estendida pelas faculdades humanas, essa circunstância não nos qualifica para julgar a verdade de outra doutrina que é enunciada pela simples autoridade do dispensador da revelação, e da qual não há prova nenhuma para a nossa razão. Ela pode pertencer a assuntos de outra classe, mais elevada; e, se for encontrada no Registro, não deve ser descartada por meio de explicações tiradas de princípios que possamos ter deduzido de outras verdades, ainda que reveladas. Pois essas inferências não têm autoridade maior do que a força das nossas próprias faculdades falíveis, e por isso não podem ser postas em concorrência com as declarações de um mestre infalível, verificadas por regras justas de interpretação gramatical e literária.

NOTA A.

“De qualquer ponto de vista que se coloque o assunto”, diz um hábil autor vivo, “os mesmos argumentos que mostram a incapacidade do homem de descobrir a verdade religiosa pela luz da natureza servirão também para mostrar que, quando ela lhe é revelada, ele não tem autorização para julgá-la apenas pelas noções que formara antes. Pois não é um solecismo afirmar que a razão natural do homem é um padrão adequado para medir a sabedoria ou a verdade de coisas que ela desconhece inteiramente, exceto na medida em que lhe foram reveladas de modo sobrenatural?”

“Mas qual é, então”, dirá um objetor, “a esfera da razão? É ela completamente inútil? Ou devemos ser impedidos de usá-la neste que é o mais importante de todos os assuntos, para nos garantir contra o erro?”

A nossa resposta é que não diminuímos nem a utilidade nem a dignidade da razão humana ao confinar assim o seu exercício dentro dos limites naturais que o próprio Criador lhe designou. Admitimos, com o deísta, que “a razão é o fundamento de toda certeza”; e admitimos, portanto, que ela é plenamente competente para julgar a credibilidade de qualquer coisa que lhe seja proposta como revelação divina. Mas negamos que ela tenha direito de contestar (porque sustentamos que ela não tem capacidade de refutar) a sabedoria ou a verdade das coisas que a revelação propõe à sua aceitação. A razão deve julgar se essas coisas foram de fato reveladas assim; e esse juízo ela deve formar a partir da prova apresentada nesse sentido. Sob esse aspecto, ela é “o fundamento da certeza”, porque nos permite verificar o fato de que Deus nos falou. Mas, uma vez estabelecido esse fato, a credibilidade, ou melhor, a certeza das coisas reveladas segue-se como consequência necessária; pois nenhuma dedução da razão pode ser mais indubitável do que esta: tudo o que Deus revela tem de ser verdadeiro. Aqui, então, cessa a autoridade da razão. O seu juízo fica definitivamente determinado pelo fato da própria revelação, e daí em diante ela não tem mais nada a fazer senão crer e obedecer.

“Mas devemos crer em toda doutrina, por mais incompreensível, por mais misteriosa, e até por mais aparentemente contraditória aos sentidos e à razão que seja?”

Respondemos que se supõe que a revelação trate de assuntos com os quais a razão natural do homem não está familiarizada. É de esperar, portanto, que ela comunique algumas verdades que não podem ser plenamente compreendidas pelo entendimento humano. Mas estas podemos receber com segurança, pela autoridade que as declara, sem perigo de violar a verdade. Contradições reais e evidentes, de fato, nenhum homem de intelecto são e lúcido pode crer. Mas tais contradições não nos são propostas para crer, assim como não nos são impostas impossibilidades para praticar; embora coisas difíceis de entender, assim como coisas difíceis de fazer, talvez nos sejam exigidas para a prova da nossa fé e da nossa resolução. Também podem ocorrer contradições aparentes; mas estas podem parecer tais porque são consideradas de modo ligeiro ou superficial, ou porque são julgadas por princípios inaplicáveis ao assunto, e sem um conhecimento tão claro da natureza das coisas reveladas que nos leve a formar delas uma concepção adequada. Essas contradições, porém, não oferecem nenhum argumento sólido contra a verdade do que nos é proposto para crer. Pois, a menos que tivéssemos de fato tal discernimento das partes misteriosas da revelação que nos permitisse provar que são contraditórias e falsas, não temos bom fundamento para rejeitá-las; e só revelamos a nossa própria ignorância e perversidade ao recusar aceitar a palavra de Deus sobre a verdade de coisas que ultrapassam o entendimento do homem.

A questão simples a ser considerada, de fato, é esta: é razoável crer, com base em autoridade competente, em coisas que não podemos descobrir por nós mesmos nem, uma vez descobertas, compreender plena e claramente? Ora, toda pessoa de observação comum há de perceber que, se não se contentasse em receber unicamente pelo testemunho de outros uma grande variedade de informações, muitas das quais talvez seja totalmente incapaz de explicar ou justificar, dificilmente obteria um conhecimento suficiente para conduzi-la com segurança pelos assuntos comuns da vida. E, quanto às verdades científicas, os maiores mestres da filosofia sabem muito bem que muitas coisas devem razoavelmente ser cridas, ou melhor, têm de ser cridas com base em fundamentos seguros e certos de convicção, embora sejam absolutamente incompreensíveis para o nosso entendimento, e até tão difíceis de conciliar com outras verdades de igual certeza que têm a aparência de serem contraditórias e impossíveis. Isso servirá para mostrar que não é contrário à razão crer, com base em autoridade suficiente, em algumas coisas que não podem ser compreendidas, e em algumas coisas que, pelas visões estreitas e limitadas que somos capazes de ter delas, parecem repugnar às nossas noções de verdade. O fundamento sobre o qual cremos em tais coisas é a força e a certeza da prova que as acompanha. E esse é exatamente o fundamento sobre o qual se exige que creiamos nas verdades da religião revelada. A prova de que elas vêm de Deus é, para a própria razão, uma prova tão incontestável de que são verdadeiras quanto seria, em matéria de ciência humana, a prova dos sentidos ou da demonstração matemática.

Notas de Richard Watson

1. “É erro dos que sustentam que toda verdade necessária pode ser descoberta ou demonstrada pela razão afirmarem da razão humana em particular o que só é verdadeiro da razão em geral, ou da razão em abstrato. Dizer que tudo o que é verdadeiro tem de poder ser descoberto ou demonstrado pela razão só se pode afirmar de uma razão perfeitíssima; e, por isso, não se predica senão do intelecto divino. De modo que, a menos que se possa mostrar que a razão humana é igual à razão divina em grau, e não só em espécie, isto é, proporcional a ela quanto às suas capacidades e igualmente incapaz de erro, a inferência da razão em abstrato para a razão humana é claramente inconclusiva. Nada mais é necessário para mostrar a falácia desse modo de argumentar do que insistir na verdade indiscutível de que Deus é mais sábio do que o homem, e dotou o homem de apenas uma porção daquela faculdade que ele mesmo, e nenhum outro além dele, possui em perfeição absoluta.” (Van Mildert, Sermons at Boyle’s Lecture.) ↩

2. Assim, nas Escrituras encontramos numerosos apelos desse tipo: “Julguem entre mim e a minha vinha” (Is 5.3). “Será que são os meus caminhos que não são retos?” (Ez 18.29). “Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça?” (Gn 18.25). Todas essas passagens supõem que a equidade e a justiça em Deus concordam com as ideias associadas aos mesmos termos entre os homens. [N. do T.: Watson cita a KJV, “Are not my ways equal?”, em que equal significa “equitativo”, palavra que sustenta o seu argumento sobre a equidade divina.] ↩

3. Ver a nota A no fim deste capítulo, na qual se respondem duas objeções comuns. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).