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Parte I · Capítulo XVII

Profecias da Escritura

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A natureza e a força do argumento tirado da profecia já foram expostas (veja o cap. IX); e ficou provado que, onde se proferem predições reais (não conjecturas felizes, que homens perspicazes e observadores às vezes podem fazer, mas predições que implicam previsão de acontecimentos dependentes das várias contingências dos negócios humanos e um conhecimento do caráter, das disposições e das ações de pessoas ainda não nascidas, de modo a determinar infalivelmente a conduta que hão de seguir), elas só podem ser proferidas por homens inspirados, e o autor de tais comunicações não pode ser outro senão o Deus infinito e onisciente, “mostrando aos seus servos as coisas” que hão de acontecer depois (cf. Ap 1.1; 4.1), a fim de autenticar a missão deles e imprimir o selo de sua própria autoridade infalível sobre a doutrina deles.

A autenticidade e a antiguidade dos registros que contêm essas predições já foram estabelecidas; e o único objeto de investigação próprio deste capítulo é o caráter profético das predições que se diz estarem contidas no Antigo e no Novo Testamento. Permitam-se, contudo, antes, algumas observações gerais.

1. Os casos a serem considerados por quem queira satisfazer-se plenamente sobre este ponto não são poucos, mas muitos. Quem crê na autoridade divina do Antigo e do Novo Testamento está pronto a oferecer para exame um grande número de profecias declaradas, relativas a indivíduos, cidades, Estados, à pessoa e aos ofícios do Messias e à igreja cristã, que ele afirma terem sido inequivocamente cumpridas, independentemente das predições que ele crê estarem agora se cumprindo ou que ainda hão de cumprir-se no mundo.

2. Se, quanto ao cumprimento de algumas profecias particulares, as opiniões dos homens divergirem, há abundância de outras cujo cumprimento tem sido tão evidente que desafia qualquer interpretação racional que não implique o seu cumprimento; ao passo que os incrédulos são desafiados a mostrar qualquer predição clara da Sagrada Escritura que tenha sido desmentida pelo acontecimento, em toda a extensão das eras abrangidas pela Bíblia, do Pentateuco ao Apocalipse.

3. As predições da Escritura já foram distinguidas, quanto ao seu caráter, dos oráculos e adivinhações dos pagãos (veja o cap. XVI); e pode-se aqui observar ainda que elas não são, em geral, predições separadas e isoladas do futuro, nascidas de circunstâncias acidentais e ligadas a interesses meramente individuais e a ocasiões temporárias. Pelo contrário, referem-se principalmente a um grande plano para a recuperação moral da raça humana da ignorância, do vício e da miséria, e dele nascem. Falam dos agentes a serem empregados nele e, especialmente, do grande agente, o próprio Redentor; e daqueles atos poderosos e terríveis da providência para com as nações da terra, pelos quais o juízo e a misericórdia são exercidos com referência tanto aos princípios ordinários do governo moral quanto, especialmente, a essa economia restauradora, às suas lutas, às oposições que sofre e aos seus triunfos. Todas se encontram em Cristo, como em seu centro próprio, e somente nele, por mais que muitas das linhas isoladas, consideradas à parte, possam parecer ter outra direção, e embora possam passar por acontecimentos intermediários. “Se olharmos para os escritos proféticos”, diz o bispo Hurd, “veremos que a profecia é de extensão prodigiosa; que começou desde a queda do homem e se estende até a consumação de todas as coisas; que por muitas eras foi transmitida obscuramente, a poucas pessoas, e com grandes intervalos entre a data de uma profecia e a de outra; mas que por fim se tornou mais clara, mais frequente, e foi conduzida uniformemente na linhagem de um só povo, separado do resto do mundo, entre outras razões alegadas, principalmente para esta: ser o depositário dos oráculos divinos; que, com alguma interrupção, o espírito de profecia subsistiu entre esse povo até a vinda de Cristo; que ele mesmo e os seus apóstolos exerceram esse poder da maneira mais conspícua e deixaram muitas predições registradas nos livros do Novo Testamento, que declaram referir-se a acontecimentos muito distantes, e chegam mesmo até o fim dos tempos, ou, na expressão de são João, até aquele período em que ‘se cumprirá o mistério de Deus’ (Ap 10.7). Além disso, além da extensão desse plano profético, merece a nossa consideração a dignidade da pessoa a quem ele diz respeito. Ele é descrito em termos que despertam as ideias mais augustas e magníficas. Fala-se dele, é verdade, às vezes como a descendência da mulher e como o Filho do Homem; mas de tal modo que ao mesmo tempo é de origem mais que mortal. É até representado diante de nós como superior aos homens e aos anjos; como muito acima de todo principado e potestade, acima de tudo o que é tido por grande, seja no céu, seja na terra; como o Verbo e a Sabedoria de Deus; como o Filho eterno do Pai; como o Herdeiro de todas as coisas, por meio de quem ele fez os mundos; como o resplendor da sua glória e a expressão exata do seu ser. Não temos palavras para designar ideias maiores do que estas; a mente do homem não pode elevar-se a concepções mais nobres. De tal valor e excelência transcendentes se diz ser aquele Jesus de quem todos os profetas dão testemunho!

“Por fim, o propósito declarado pelo qual o Messias, prefigurado por tão longa série de profecias, veio ao mundo corresponde a todo o resto da representação. Não foi para livrar uma nação oprimida da tirania civil, nem para erigir um grande império civil, isto é, para realizar um daqueles atos que a história considera mais heroicos. Não: não era um Estado poderoso, um povo vencedor, ‘não o Estado romano e os reinos destinados a perecer’ [N. do T.: Virgílio, Geórgicas 2.498], o que era digno de entrar na contemplação dessa pessoa divina.

“Foi outro propósito, e muito mais sublime, o que ele veio realizar; um propósito em comparação com o qual toda a nossa política é pobre e pequena, e todas as realizações do homem, como nada. Foi livrar um mundo da ruína; abolir o pecado e a morte; purificar e imortalizar a natureza humana; e assim, no sentido mais elevado das palavras, ser o Salvador dos homens e a bênção de todas as nações. Não há exagero neste relato. Exponho o sentido indubitável, se nem sempre as próprias palavras, da Escritura. Considerem, então, a que equivale esta representação. Unamos as suas várias partes e levemo-las a um ponto. Um espírito de profecia que permeia todos os tempos, que caracteriza uma pessoa da mais alta dignidade e que proclama a realização de um propósito, o mais benéfico, o mais divino que a própria imaginação pode conceber. Tal é o delineamento escriturístico, queiramos ou não recebê-lo, daquela economia que chamamos profética.”

4. A profecia, neste sentido peculiar e nesta escala ampla, é peculiar ao sistema religioso das Sagradas Escrituras. Nada semelhante se encontra em nenhuma outra parte; e está perfeitamente de acordo com esse sistema que nada semelhante se encontre em outro lugar. “As profecias da Escritura”, diz aquele erudito consumado, Sir W. Jones, “não têm nenhuma semelhança, em forma ou estilo, com quaisquer que se possam apresentar dos acervos do saber grego, indiano, persa ou mesmo árabe. A antiguidade dessas composições nenhum homem de saber põe em dúvida; e a aplicação sem constrangimento delas a acontecimentos muito posteriores à sua publicação é um sólido fundamento para crer que foram predições genuínas e, consequentemente, inspiradas.” A vantagem desta espécie de prova pertence, pois, exclusivamente à nossa revelação. O paganismo nunca fez nenhuma pretensão clara e bem fundada a ela. O maometismo, embora ele mesmo sirva de prova da verdade da profecia da Escritura, não é sustentado por uma única predição própria. “Só ao cristão pertence este testemunho de sua fé, esta prova crescente que ganha força com o passar do tempo e fornece, de geração em geração, novas provas de sua origem divina. Assim como um rio majestoso se alarga mais e mais quanto mais se afasta de sua nascente, assim a profecia, brotando da primeira promessa no paraíso como de sua fonte, adquiriu força e plenitude adicionais à medida que rolava pelas eras sucessivas, e continuará a crescer em extensão e grandeza até que finalmente se perca no oceano da eternidade.”

5. A objeção levantada contra a profecia da Escritura por causa de sua suposta obscuridade não tem fundamento sólido. Há, é verdade, uma linguagem profética de símbolos e emblemas; mas é uma linguagem definida, e não equívoca, em seu significado, e tão facilmente dominada pelas pessoas atentas quanto a linguagem da poesia. Essa linguagem, porém, nem sempre é usada. O estilo das profecias da Escritura muitas vezes em nada difere do estilo ordinário dos poetas hebreus; e, em não poucos casos, e justamente naqueles em que o cristão mais se apoia no argumento, desce à simplicidade da narrativa histórica. Certo grau de obscuridade é essencial à profecia, pois o fim dela não era satisfazer a curiosidade humana com um relato minucioso de acontecimentos e circunstâncias futuros; e clareza e especificidade grandes demais poderiam ter levado a muitas tentativas astutas de cumprir as predições, e nessa medida a prova de seu cumprimento teria sido enfraquecida. Os dois grandes fins da profecia são despertar a expectativa antes do acontecimento e, depois, confirmar a verdade por um cumprimento notável e inequívoco; e é resposta suficiente à alegação da obscuridade das profecias da Escritura que elas alcançaram abundantemente esses objetivos, tanto entre os mais inteligentes e investigadores como entre os simples e iletrados, em todas as eras. Não se pode negar, por exemplo, deixando de lado casos particulares que se poderiam apresentar, que por meio dessas predições se manteve, entre o povo a quem foram dadas, a expectativa da encarnação e do aparecimento de um Restaurador divino, e que ela se espalhou até às nações vizinhas; que, à medida que essas profecias se multiplicavam, a esperança se tornava mais intensa; e que, no tempo da vinda de nosso Senhor, prevalecia a expectativa do nascimento de uma pessoa muito extraordinária, não só entre os judeus, mas entre outras nações. Esse propósito foi, pois, suficientemente alcançado, e com isso se responde à objeção. Do mesmo modo, a profecia serve de base à nossa esperança nas coisas ainda por vir: no triunfo final da verdade e da justiça na terra, no estabelecimento universal do reino de nosso Senhor e nas recompensas da vida eterna a serem concedidas em sua segunda vinda. Nisto todos os verdadeiros cristãos concordam; e a esperança deles não poderia ter sido sustentada tão uniformemente em todas as eras e em todas as circunstâncias se as profecias e as promessas preditivas não tivessem transmitido com suficiente clareza o conhecimento geral do bem que eles esperavam, embora muitos de seus pormenores não tenham sido revelados. O segundo fim da profecia é confirmar a verdade pelo acontecimento subsequente; e aqui está envolvida a questão do cumprimento efetivo da profecia da Escritura, de que trataremos logo a seguir. Observamos agora apenas que não é argumento contra o cumprimento inequívoco de várias profecias o fato de muitos terem duvidado daquilo que os que creem na revelação sustentaram com tanto empenho sobre este assunto, ou o terem negado. Quão poucos dentre os homens leram as Escrituras com atenção séria, ou se deram ao trabalho de comparar as suas profecias com os relatos da história! Quão poucos, especialmente dentre os que objetam contra a Bíblia, a leram dessa maneira! Quantos deles confessaram, sem rubor, o seu desconhecimento de seu conteúdo, ou provaram o que não confessaram pelos erros e deturpações em que caíram! Quanto aos judeus, o domínio evidente de seus preconceitos, a sua aversão geral à discussão e os princípios extravagantes de interpretação que adotaram por muitas eras, que desafiam toda crítica sóbria, tornam nula qualquer autoridade que se possa atribuir à negação, por parte deles, do cumprimento de certas profecias no sentido adotado pelos cristãos. Podemos acrescentar a isso que entre os próprios críticos cristãos pode haver muita discordância. Excentricidades e absurdos encontram-se entre os eruditos em todos os ramos do conhecimento, e muito dessa extravagância e afetação de singularidade contaminou os intérpretes da Escritura. Mas, afinal, há em todo assunto uma verdade e uma razão que o entendimento da generalidade dos homens apreenderá e reconhecerá sempre que for plenamente compreendido e imparcialmente considerado; a isso, em todos esses casos, só se pode apelar, e aqui se pode apelar com confiança.

6. Por falta de uma compreensão correta do significado de um termo um tanto infeliz que se firmou na teologia, o “duplo sentido” de muitas profecias, levantou-se uma objeção de outro tipo, como se nenhum significado definido pudesse ser atribuído às profecias da Escritura. Nada pode ser mais infundado. “O duplo sentido de muitas profecias do Antigo Testamento”, diz um escritor capaz, “tem sido usado por homens mal-intencionados como pretexto para representá-las como de significado incerto e semelhantes à ambiguidade dos oráculos pagãos. Mas quem considerar o assunto com a devida atenção perceberá quão pouco fundamento há para tal acusação. Os equívocos dos oráculos pagãos nasciam manifestamente de sua ignorância dos acontecimentos futuros e de seus esforços para ocultar essa ignorância por expressões tão indefinidas que pudessem aplicar-se igualmente a dois ou mais acontecimentos de natureza contrária. Mas o duplo sentido das profecias da Escritura, longe de se originar em alguma dúvida ou incerteza quanto ao seu cumprimento num ou noutro sentido, brota de uma presciência de seu cumprimento em ambos; por isso a predição é propositalmente formulada de modo a incluir os dois acontecimentos, que, longe de serem contrários um ao outro, são típicos um do outro e assim estão ligados entre si por uma dependência ou relação mútua. Isso tem sido muitas vezes provado de modo satisfatório quanto às profecias que se referiam, em seu sentido primário, aos acontecimentos do Antigo Testamento e, em sua significação ulterior e mais complexa, aos do Novo; e nesse duplo cumprimento de algumas profecias se funda a nossa firme expectativa da realização de outras que ainda não se cumpriram em seu sentido secundário, mas que justamente consideramos tão certas em seu desfecho quanto as que já passaram. Longe, então, de haver alguma objeção válida contra a credibilidade das profecias da Escritura por causa dessas aparentes ambiguidades de significado, podemos apresentá-las como provas adicionais de que procedem de Deus. Pois quem, senão o Ser que é infinito em conhecimento e em conselho, poderia construir predições de modo a dar-lhes dupla aplicação, a acontecimentos distantes um do outro e, para a previsão humana, sem ligação entre si? Que poder menor que o divino poderia formulá-las de modo a fazer do seu cumprimento, num caso, penhor e garantia solene de sua realização em outro caso, de importância ainda mais alta e mais universal? Onde encontrará o zombador algo semelhante a isso nos artifícios dos oráculos pagãos para ocultar a sua ignorância e abusar da credulidade dos homens?”

Passamos agora a enumerar algumas, dentre o grande número de predições contidas nas Escrituras, que mostram da maneira mais inequívoca um conhecimento perfeito de acontecimentos futuros contingentes e que, portanto, segundo o nosso argumento, provam com igual certeza que os que as proferiram “falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21), pelo Espírito do Deus onisciente e infinitamente presciente.1

A primeiríssima promessa feita ao homem é uma predição que ninguém poderia ter proferido senão aquele cujo olhar penetra as profundezas das eras futuras e conhece o resultado tão bem quanto o princípio de todas as coisas: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar” (Gn 3.15). Em vão se tenta reduzir a alegoria toda a transação a que essa predição está ligada. Tal crítica, se aplicada a qualquer outro livro histórico antigo que trouxesse marcas de narração autêntica tão inequívocas quanto o livro de Gênesis, não seria tolerada pelos próprios defensores dessa concepção absurda, sejam eles incrédulos declarados ou disfarçados. Em vão se alega que ali se enuncia um mero fato da história natural; pois, se as palavras forem entendidas como não exprimindo mais que a inimizade entre a raça humana e as serpentes, seria preciso provar, para estabelecer um castigo especial da serpente, que o homem tem maior hostilidade às serpentes do que a outros animais perigosos, que ele extermina sempre que consegue dominá-los pela força ou pela astúcia; e que as serpentes têm disposição mais forte de causar dano aos homens do que aos animais de que fazem sua presa diária, ou a outros que nunca deixam de picar quando ao seu alcance. Como isso era obviamente falso de fato, Moisés não podia afirmá-lo; e, se fosse verdadeiro na história natural, ter dito isso e nada mais, ter-se limitado ao mero fato literal, um fato sem importância, estaria muito abaixo do caráter de Moisés como escritor, um caráter elevado e sublime, ao qual os pagãos e às vezes os próprios incrédulos fizeram justiça. Em nenhum sentido inteligível se podem entender essas célebres palavras, senão naquele em que são fixadas pelas inumeráveis referências e alusões de outras partes do volume sagrado, as quais deveriam, segundo toda boa crítica, determinar o seu significado. A serpente e a descendência da mulher são os representantes de dois poderes invisíveis e poderosos: um bom, o outro mau; um divino, embora encarnado da mulher, o outro diabólico; entre os quais foi posta uma inimizade que havia de exprimir-se numa longa e terrível luta, no decurso da qual a descendência da mulher sofreria uma ferida e um sofrimento temporários, mas que terminaria com o esmagamento da cabeça, isto é, com a aplicação de um golpe fatal ao poder do seu adversário. O cenário dessa disputa havia de ser o nosso globo, e, em geral, os seus agentes visíveis, os homens, sob os seus respectivos chefes, a serpente de um lado e a descendência da mulher do outro, praticando, defendendo e procurando tornar dominante a verdade ou o erro, a virtude ou o vício, a obediência a Deus ou a rebelião contra a sua autoridade. Perguntamos, então: tal disputa de princípios e poderes ocorreu no mundo, ou não? A resposta tem de ser afirmativa, pois toda era dá testemunho dela. Vemo-la começar em Caim e Abel; na resistência dos antediluvianos à justiça ensinada por Noé; no castigo deles; no surgimento da idolatria e nas lutas da verdade em oposição a ela; na imposição de juízos singulares sobre nações, para castigo e desmascaramento da idolatria, como nas pragas do Egito, na destruição das nações de Canaã etc. Seguimos a disputa através de toda a história da nação judaica até a vinda de nosso Senhor; e de vez em quando a vemos estender-se às nações pagãs vizinhas, embora estas fossem em geral, como parte de seu castigo, deixadas a “andar nos seus próprios caminhos” (At 14.16), e a Satanás, quanto a elas, se permitisse que “todos os seus bens” ficassem “em segurança” (Lc 11.21), até que chegasse o tempo da visitação graciosa. Vemos o Redentor encarnado sofrendo por algum tempo e, por fim, morrendo. Era então “a hora do poder das trevas” (Lc 22.53); então foi ferido o seu calcanhar; mas ele morreu só para reviver, para estabelecer de modo mais visível e poderoso o seu reino e começar as suas conquistas espirituais. Em todas as direções, as regiões onde “está o trono de Satanás” (Ap 2.13) foram penetradas pela luz celestial da doutrina de Cristo; e em toda parte se levantaram as mais tremendas perseguições contra os seus pregadores, desarmados e desprotegidos, e contra os seus convertidos. Mas as portas do inferno não prevaleceram contra a igreja fundada sobre a rocha, e via-se “Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.18), caindo dos tronos, dos templos, dos tribunais e das escolas do antigo mundo civilizado; a idolatria de séculos foi renunciada; Cristo foi adorado em toda a vasta extensão do Império Romano e em muitos dos países situados até além de seu amplo alcance. Sob outras formas o inimigo reviveu, e a disputa se renovou; mas em toda era ela se manteve. Os princípios da pura verdade evangélica nunca se extinguiram; e os “filhos do Reino” foram “reduzidos e humilhados” (Mt 8.12; Sl 107.39) apenas para tornar mais marcante e mais eminentemente obra de Deus a renovação do ataque por agentes inesperados, levantados de modo singular. Não precisamos percorrer nem mesmo os pontos principais da história da igreja: qual é o estado atual das coisas? A disputa ainda continua, mas com zelo crescente da parte dos cristãos, que estão realizando operações ofensivas contra as partes mais distantes do reino das trevas, por tanto tempo imperturbado; implantando ali os princípios da verdade; declarando guerra à idolatria e à superstição; e estabelecendo as instituições da igreja cristã com um êxito que justifica a esperança de que não está longe o tempo em que “a cabeça da serpente será esmagada” em todos os países idólatras, e os ídolos dos Estados pagãos modernos, como os de outrora, jazerão derrubados, para dar lugar ao culto do Salvador universal, “o qual é sobre todos, Deus bendito para sempre” (Rm 9.5).

Não podemos perguntar se tudo isso não estava infinitamente acima da previsão humana? Quem poderia afirmar com confiança que uma disputa dessa natureza peculiar continuaria através de eras sucessivas; que os homens não passariam todos para um ou outro dos partidos opostos? Mais ainda, quem poderia conjecturar com confiança, na época de Moisés (quando a tendência à idolatria se tornara tão forte que a própria descendência escolhida, sob a demonstração constante de milagres, visivelmente abençoada enquanto permanecia fiel ao culto de Deus e tão eminente e visivelmente castigada quando se afastava dele, não podia ser preservada do contágio), que a idolatria um dia seria abolida em toda a terra? A experiência passada e todas as probabilidades se opunham à esperança de que a causa da descendência da mulher prevalecesse; e, no entanto, está registrado: “Este [ou melhor, Ele] lhe ferirá a cabeça” [N. do T.: a KJV traz it (“isto”), que Watson corrige para he (“ele”); a NAA já traz “Este”]. Os incrédulos podem zombar de um Redentor e escarnecer da noção de um tentador; mas não podem negar que tal disputa entre partidos e princípios opostos, como aqui se prediz, de fato ocorreu e ainda continua. Essa disputa, tão extensa, tão contínua e com tal desfecho, a previsão humana não podia predizer; e o fato estabelecido é, portanto, o cumprimento de uma profecia que só podia originar-se na presciência divina.

A célebre predição de Jacó, no fim de sua vida, a respeito do tempo do aparecimento de “Siló” (Gn 49.10), pode ser considerada a seguir.

A palavra significa “Aquele que há de ser enviado” ou “O Pacificador”. Em qualquer dos dois sentidos, é evidente a aplicação àquela grande Pessoa por quem todos os patriarcas esperavam e de quem os profetas deram testemunho. Os que duvidam disso têm a obrigação de nos oferecer uma interpretação melhor. Antes de certo acontecimento, certa pessoa haveria de vir, à qual os povos se congregariam. O acontecimento certamente chegou; mas quem é a pessoa? A aplicação da profecia ao Messias não é invenção dos cristãos. Os judeus antigos, como se vê pelos seus comentadores, assim a entendiam; e os modernos não conseguem resistir à prova que dela se tira em favor das reivindicações de nosso Senhor. Que se trata de uma predição, prova-o a sua forma e as circunstâncias em que foi proferida; que ela teve um cumprimento singular na pessoa de Jesus de Nazaré, também é certo; e é igualmente certo que não se pode apresentar nenhum outro indivíduo em quem ela se tenha cumprido em sentido algum. Para uma ilustração ampla da profecia, remetemos o leitor aos comentadores e à conhecida obra do bispo Newton sobre as profecias. Basta aqui alegar que Judá, como tribo, permaneceu até depois da vinda de Jesus Cristo, o que não se pode dizer das dez tribos, há muito dispersas, e mal se pode dizer de Benjamim, que se fundiu na tribo de Judá. Chubb pergunta onde estava a supremacia de Judá quando Nabucodonosor levou toda a nação cativa para a Babilônia, quando Alexandre subjugou a Palestina e quando ela era uma província tributária do Império Romano. A predição, porém, não transmite a ideia de poder independente nem de poder supremo. Esse poder nenhuma tribo o tinha quando todas estavam unidas num só Estado, e cada uma tinha o seu cetro e os seus príncipes ou chefes. Basta, portanto, mostrar que, em meio a todas as suas vicissitudes, a tribo de Judá conservou as suas insígnias, os seus chefes e a sua condição de tribo, até que veio Siló. Não é coisa rara que um país seja conquistado e que seus antigos príncipes e seu governo permaneçam, ainda que como tributários.

Quanto à tribo de Judá durante o cativeiro na Babilônia, Ciro, como sabemos por Esdras 1.8, ordenou que os utensílios do templo fossem restituídos ao “príncipe de Judá”. Isso mostra que a tribo se manteve distinta e que tinha seu próprio governo interno e seu chefe. Sob o domínio dos reis asmoneus, os judeus tinham seus governantes, seus anciãos e seu conselho, e assim também sob os romanos. Mas pouco depois da morte de Cristo, tudo isso foi abolido, a nação foi dispersa e as tribos foram inteiramente confundidas. Até que nosso Senhor viesse e consumasse a sua obra na terra, a tribo de Judá continuou. Isso é fato histórico inquestionável. Pouco tempo depois, ela foi dispersa e misturada à massa comum de judeus de todas as tribos e países: isso é igualmente inquestionável. Ora, perguntamos de novo: poderia a previsão humana determinar isso, ou é fantasiosa a aplicação do acontecimento à profecia? A predição foi proferida na própria infância do Estado de Israel, pelo pai dos pais das tribos daquele povo. Passaram-se séculos; os impérios mais poderosos foram aniquilados; dez das próprias tribos escolhidas foram inteiramente dispersas por países desconhecidos; outra tornou-se tão insignificante que perdeu a sua designação; só uma permaneceu, que impôs o seu próprio nome à nação inteira e foi objeto da observação pública até que veio o Messias; e essa tribo era Judá, a tribo de que fala a predição. Ela permaneceu, por assim dizer, apenas para tornar manifesto o cumprimento, e depois foi confundida com os restos das demais. Que presciência de incontáveis contingências, ocorridas nos séculos intermediários, isso não supõe! Presciência, na verdade, que só pode pertencer a Deus.

As predições relativas à nação judaica, a começar pelas de Moisés e passando por todos os seus profetas, são numerosas demais para serem apresentadas. Um dos exercícios mais instrutivos e convincentes para quem tem alguma dúvida sobre a inspiração das Escrituras seria lê-las com seriedade e imparcialidade e, com o auxílio dos autores que escreveram expressa e extensamente sobre o assunto, comparar as profecias com o cumprimento que se lhes atribui. Três temas se destacam nas predições de Moisés e dos profetas em geral: os frequentes e grosseiros desvios dos judeus em relação à sua própria lei; o seu castigo exemplar em invasões, cativeiros, dispersões, opressões e perseguições; e a sua restauração final à sua própria terra. Tudo isso aconteceu. Até o último se cumpriu no retorno da Babilônia, embora, em seu sentido mais elevado, ainda seja futuro. Prosseguindo no argumento, mostraremos que cada uma dessas coisas estava acima da previsão e da conjectura humanas.

As apostasias e idolatrias desse povo foram preditas por Moisés antes da sua morte: “Porque sei que, depois da minha morte, vocês certamente se deixarão corromper e se desviarão do caminho que lhes tenho ordenado. Então, nos últimos dias, este mal os alcançará” (Dt 31.29); e, de acordo com isso, ele declara profeticamente o castigo deles. Talvez seja quase impossível apontar uma circunstância mais forte do que essa predição para provar que Moisés foi de fato comissionado por Deus e que não alegava uma sanção divina a fim de dar peso às suas leis e à sua autoridade pessoal. A geração rebelde que ele conduzira primeiro ao deserto ali morrera, e a nova geração estava muito mais disposta a obedecer ao seu líder. No momento em que ele escreveu essas palavras, as aparências eram favoráveis quanto à obediência futura do povo. Mesmo que não fosse assim, o último pensamento a que um homem meramente político se entregaria seria o de que as suas próprias instituições prediletas cairiam em desuso e desprezo; e muito menos encerraria ele a sua vida pública dizendo abertamente ao povo que previa esse acontecimento, ainda que o temesse. Pode-se dizer, é verdade, que ele expressou essa convicção a fim de dar cor às ameaças que pronuncia contra a desobediência à sua lei, e que o objetivo dessas ameaças terríveis era impedir o povo de se afastar de costumes e regras que ele, por amor à própria fama, desejava que observassem. A isso respondemos que Moisés não podia esperar que os israelitas dessem peso algum à sua ameaça de que os juízos divinos cairiam sobre eles por não obedecerem às suas leis, a menos que as suas rebeliões anteriores tivessem sido marcadas, imediata e exemplarmente, por esses castigos. Sem isso para apoiá-lo, ele teria parecido ridículo, e não imponente e sublime, diante do povo reunido para ouvir as suas últimas ordens. Durante quarenta anos as suas instituições tinham sido frequentemente desobedecidas; e, se nenhum castigo do desagrado divino se seguira, que razão teriam eles para dar crédito às ameaças de Moisés quanto ao futuro? Mas, se tais castigos tinham resultado da desobediência deles, tudo é racional e coerente nessa parte da conduta do seu líder. Escolha o incrédulo a posição que preferir. Se pensa que Moisés quis impedi-los de abandonar as suas instituições por meio de ameaças vazias, atribui um absurdo incrível a um homem inquestionavelmente sábio e, como os próprios incrédulos sustentam, muito hábil em política; mas, se as suas ameaças preditivas se fundavam em intervenções anteriores da Divina Providência, marcantes e reconhecidas, que era a única circunstância capaz de lhes dar peso, então ele era o líder comissionado por Deus e, como professava ser, um profeta inspirado.

É uma circunstância de grande peso, nas predições de Moisés acerca do castigo dos judeus, que essas fomes, pestes, invasões, sujeições a inimigos estrangeiros, cativeiros etc. sejam apresentadas unicamente como consequências dos seus desvios viciosos de Deus e das suas leis. Ora, quem poderia prever, a não ser um homem inspirado, que tais males em nenhum caso aconteceriam, que nenhuma fome, nenhuma praga nas lavouras, nenhuma invasão ocorreria na Judeia, senão como castigo evidente das suas ofensas contra a sua lei? Que havia no curso comum das coisas para impedir que um pequeno Estado, embora observante dos preceitos da sua própria religião, caísse sob o domínio de nações vizinhas mais poderosas, senão a proteção especial de Deus? E que, senão isso, poderia guardá-los das pragas e fomes a que os seus vizinhos estavam sujeitos? Se as predições de Moisés não foram inspiradas, elas pressupõem um princípio que a mera sabedoria e política humanas nunca levam em conta em seus cálculos: o de que a prosperidade nacional de um povo está ligada, de modo inseparável e infalível, à obediência aos seus escritos sagrados. E, precisamente porque pressupõem esse princípio singular, a conclusão é favorável à sua inspiração. Pois voltemo-nos para os fatos. Os livros sagrados dos judeus são históricos tanto quanto proféticos. A história, além disso, é distinta da profecia; muitas vezes foi escrita por outros autores, e não há sinal algum de acomodação proposital de uma à outra. A singular simplicidade da narrativa histórica o desmente, assim como a circunstância de que grande parte dela, tal como registrada no Antigo Testamento, é transcrição dos seus registros públicos. Consulte-se, então, essa história, e em todo caso de calamidade singular veremos um desvio anterior da lei de Moisés, um vindo depois do outro quase com a regularidade e a certeza dos efeitos e causas naturais. Nisso as predições de Moisés e dos profetas se cumprem de modo impressionante, e fica provada uma previsão mais que humana.

Examinemos mais a fundo o pormenor desses castigos anunciados. Além dos castigos comuns de colheitas frustradas e doenças graves em seu próprio país, eles deveriam, segundo as profecias de Moisés (Dt 28), ser espalhados “entre todos os povos, de uma até a outra extremidade da terra” (Dt 28.64). E onde está a nação comerciante em que eles não se encontrem, na Ásia, na África e na Europa? Muitos se acham até nas Índias Ocidentais e nas regiões comerciais da América. Quem poderia prever isso senão Deus, sobretudo quando também está implícita a sua singular preservação como povo distinto, caso único na história das nações?2 Entre essas nações eles não teriam “descanso” (Dt 28.65); e as perseguições quase constantes e prolongadas, os roubos e os assassinatos de judeus, não só entre as nações antigas, mas especialmente entre as nações cristãs da Idade Média, e nos Estados maometanos até hoje, são um cumprimento admirável disso. Haveriam de ser objeto “de provérbio e de escárnio entre todos os povos” (Dt 28.37), o que se cumpriu em toda parte, mas certamente estava acima da inteligência humana prever; e “os estrangeiros que estão no meio de vocês se elevarão cada vez mais, e vocês cada vez mais descerão” (Dt 28.43). Como comentário a isso, lembre-se a conduta dos “estrangeiros”, turcos e outros que habitam a Palestina, para com os judeus que ali permanecem: uma das partes de fato se “elevou cada vez mais”, e a outra “desceu cada vez mais”. Outras partes desse capítulo singular apresentam predições igualmente impressionantes, proferidas há mais de três mil anos e notavelmente cumpridas; mas há nele algumas passagens que se referem, em termos tão particulares, a um acontecimento então distante, a completa subversão da sua organização política e da sua nação pelos romanos, que demonstram da maneira mais inequívoca a presciência daquele a quem todos os acontecimentos, os mais contingentes, minuciosos e distantes, são conhecidos com certeza absoluta. É extremamente provável que os romanos sejam aqueles de quem se fala no versículo 49, a nação trazida “da extremidade da terra”, distinguida pela sua conhecida insígnia, “a águia”, e pela sua disposição feroz e cruel. E é notável que o relato que Moisés faz dos horrores do “cerco” de que fala corresponda exatamente àquelas conhecidas passagens em que Josefo descreve o cerco de Jerusalém pelo exército romano. O último versículo do capítulo parece, de fato, fixar a referência das passagens anteriores à destruição final da nação pelos romanos, e ao mesmo tempo contém uma predição cujo cumprimento não pode de modo algum ser atribuído ao acaso: “O Senhor fará com que vocês voltem ao Egito em navios, pelo caminho de que eu lhes disse: ‘Nunca mais vocês o verão.’ Ali vocês serão oferecidos para venda como escravos e escravas aos seus inimigos, mas não haverá quem queira comprá-los” (Dt 28.68). Sobre isso, o dr. Hales observa, com base na autoridade do historiador nacional deles, Josefo: “Dos cativos tomados no cerco de Jerusalém, os de mais de dezessete anos de idade, alguns foram enviados acorrentados ao Egito, a maior parte foi distribuída pelas províncias para ser morta nos teatros, pela espada e pelas feras; os demais, com menos de dezessete anos, foram vendidos como escravos, e isso por uma ninharia, em razão do grande número dos que estavam à venda e da escassez de compradores; de modo que afinal se cumpriu a profecia de Moisés: ‘não haverá quem queira comprá-los’. Os que foram reservados para abrilhantar o triunfo de Vespasiano foram provavelmente transportados para a Itália ‘em navios’, ou por mar, para evitar uma enorme viagem por terra até lá através da Ásia e da Grécia, circunstância que distinguiu essa invasão e esse cativeiro dos anteriores, feitos pelos assírios e pelos babilônios. Na rebelião que se seguiu, parte dos cativos foi enviada por mar ao Egito, e vários dos navios naufragaram na costa.”

Assim, à distância de quinze séculos, essas circunstâncias contingentes foram registradas com exatidão pelo espírito profético de Moisés: a captura de inumeráveis judeus; o seu transporte ao Egito; a sua venda até que os mercados de escravos ficaram abarrotados e não se acharam mais compradores; e o seu embarque em navios, quer para abrilhantar o triunfo do seu conquistador, quer para encontrar mercado em diferentes portos marítimos. É possível atribuir essas numerosas e minuciosas circunstâncias a conjecturas felizes ou à previsão humana?

Mas Moisés e outros profetas concordam em que, depois de todos os seus cativeiros e dispersões, os judeus serão de novo restaurados à sua própria terra. Isso, como dissemos, cumpriu-se num caso, na sua restauração por Ciro e seus sucessores, depois da qual voltaram a ser um Estado considerável. Mas quem poderia predizer isso senão AQUELE que determina os acontecimentos do mundo pelo seu poder e pela sua sabedoria? Jeremias fixa a duração do cativeiro em setenta anos; e o fez de modo tão inequívoco que os judeus na Babilônia, quando o tempo se aproximou, começaram a preparar-se para o acontecimento. Mas nada havia nas circunstâncias do Império Babilônico, quando a predição foi proferida, que justificasse essa esperança, e muito menos que sustentasse uma conjectura confiante. Poderia o homem ter previsto a subversão daquele poderoso império por um povo então obscuro, circunstância que quebrou o jugo dos judeus? Ou, quando consideramos o acontecimento como cumprimento de uma profecia tão clara, pode ele ser reduzido a uma interpretação imaginosa? Uma restauração futura, porém, aguarda esse povo e será para o mundo uma gloriosa demonstração da verdade da profecia. Sendo futura, não podemos argumentar com base nela. Três coisas, porém, são certas: os próprios judeus a esperam; eles são preservados pela providência de Deus como povo distinto para a sua terra; e a sua terra, que de fato não é possuída por ninguém, é preservada para eles.

Sem mencionar as numerosas profecias relativas a nações e cidades antigas,3 cujo cumprimento admirável e exato foi apontado por diversos escritores, e que oferecem numerosos e eminentes exemplos da presciência de acontecimentos contingentes e improváveis, cuja evidência é tão esmagadora que, como no caso das ilustres profecias de Daniel, os incrédulos se viram obrigados a recorrer ao subterfúgio de afirmar, contra as provas mais diretas, que as profecias foram escritas depois dos acontecimentos, encerraremos os nossos exemplos voltando-nos para as profecias relativas ao Messias, o grande fim e objeto da dispensação profética. Destas não se trata de apresentar um ou dois exemplos isolados, de tipo equívoco, expressos apenas em linguagem figurada ou simbólica; mas mais de cem predições, em geral de sentido muito claro e explícito, cada uma referente a alguma circunstância diferente ligada à vinda de Cristo, à sua pessoa, à sua história e ao seu ministério, foram selecionadas pelos teólogos, excluídas as predições típicas e alusivas,4 e aquelas que, num sentido último e remoto, se crê terminarem nele. Que fazer com todas elas, se se nega a inspiração das Escrituras que as contêm? É certo que essas predições estão em livros escritos muitos séculos antes do nascimento do nosso Salvador: o testemunho dos judeus que rejeitam Cristo o prova amplamente. Que não houve interpolações para acomodá-las a ele, prova-o o fato de que as mesmas predições se encontram nas cópias que estão nas mãos dos judeus e que lhes chegaram desde antes da era cristã. Por outro lado, a história de Jesus corresponde a essas predições e mostra o seu cumprimento exato. O Messias haveria de ser da descendência de Davi; nascido em Belém; nascido de uma virgem; uma encarnação da Divindade, Deus conosco; um mestre eminente, mas sem êxito. Haveria de abrir os olhos dos cegos, curar os coxos e os enfermos e ressuscitar os mortos; haveria de ser desprezado e rejeitado pelos seus compatriotas, acusado com falsas acusações, privado de justiça e condenado a uma morte violenta; haveria de ressuscitar dos mortos, subir à direita de Deus e ali, investido de poder e autoridade, castigar os seus inimigos e estabelecer o seu reino espiritual, que não terá fim. Não entramos em predições mais minuciosas, pois o argumento é irresistível quando fundado apenas nestas; e podemos afirmar que nenhum homem, ou grupo de homens, poderia ter feito tais conjecturas. Consideradas em si mesmas, isso é impossível. Que homem racional, ou grupo de homens racionais, se encontraria hoje disposto a arriscar a conjectura de que uma encarnação da Divindade ocorreria num lugar e num tempo determinados, que essa Pessoa divina ensinaria sabedoria, operaria milagres, seria injustamente morta, ressuscitaria e estabeleceria a sua religião? São pensamentos que nunca entram na mente dos homens, porque não são sugeridos por nenhuma experiência nem por nenhuma probabilidade nascida do curso habitual dos negócios humanos; e, no entanto, se os profetas não foram inspirados, ter-lhes-ia sido tão impossível conceber tais expectativas quanto a nós; na verdade, muito mais, visto que hoje estamos familiarizados com uma religião que afirma que tais acontecimentos já ocorreram uma vez. Se, portanto, tais acontecimentos estavam fora do alcance não só da previsão humana, mas até do pensamento humano, só podem ser atribuídos à inspiração. Mas a questão não se encerra aqui. Como explicaremos, em seguida, que todas essas circunstâncias, por estranhas que sejam, se tenham reunido numa só pessoa, e numa só entre todos os milhões de homens nascidos de mulher, e que essa pessoa seja Jesus de Nazaré? Ele era da casa e da linhagem de Davi; nasceu, e isso por um acontecimento singular, em Belém; declarou ser “Deus conosco” e operou milagres para comprovar essa reivindicação. À sua palavra ou ao seu toque, “se abriram os olhos dos cegos”, “os coxos saltaram como as corças” (Is 35.5-6), os mudos falaram, os enfermos foram curados e os mortos viveram, como os profetas haviam predito. Da sabedoria do seu ensino dão testemunho os seus discursos registrados. A sua rejeição e a sua morte injusta pelos seus compatriotas são fatos históricos; a sua ressurreição e ascensão repousam sobre as elevadas provas já apresentadas; a destruição da nação judaica, segundo as suas próprias predições, seguiu-se como prova do terror da sua majestade ofendida; e o seu “reino” entre os homens continua até hoje. Não há meio possível de fugir à prova do cumprimento dessas predições na pessoa de nosso Senhor, a menos que se pudesse mostrar que Jesus e os seus discípulos, por alguma espécie de conluio, fizeram os acontecimentos da sua vida e morte corresponderem às profecias, a fim de comprovar a sua reivindicação de ser o Messias. Nenhum incrédulo jamais foi tão absurdo a ponto de arriscar essa opinião, exceto lorde Bolingbroke; e as suas observações podem ser tomadas como prova triunfante da força dessa evidência tirada da profecia, já que uma mente perspicaz recorreu a uma hipótese tão extravagante para fugir a ela. Esse nobre escritor afirma que Jesus Cristo provocou a própria morte por uma série de medidas voluntárias e combinadas de antemão, apenas para dar aos seus discípulos o triunfo de poderem apelar às antigas profecias! Mas a sua hipótese não alcança o caso; e, para ter êxito, ele deveria ter mostrado que nosso Senhor combinou de antemão a sua descendência de Davi, o seu nascimento de uma virgem, o seu nascimento em Belém e os seus admiráveis dons de eloquência e sabedoria; que, por um meio ou outro, tornou deliberadamente os judeus ingratos para com aquele que lhes curava os enfermos e purificava os leprosos; e que não só tramou a própria morte, mas também a sua ressurreição e a sua ascensão, e a propagação da sua religião contra a opinião e o poder humanos, a fim de dar aos seus discípulos o triunfo de poderem apelar às profecias! Esses subterfúgios dos incrédulos concedem o ponto e mostram que a verdade não pode ser negada senão fazendo a maior violência ao entendimento.

Aquela admirável série de profecias particulares acerca de nosso Senhor, contida em Isaías 53, ilustrará as observações anteriores e pode encerrar adequadamente este capítulo.

A essa profecia não se pode objetar que a sua linguagem seja simbólica, nem que seja sequer figurada, a não ser em umas poucas e belas metáforas, de fácil compreensão. O seu estilo é o da narrativa; além disso, é completa em si mesma, não se mistura com nenhum outro assunto e evidentemente se refere a uma única pessoa. Assim a entendiam os judeus antigos, que a aplicavam ao Messias; e, embora os judeus modernos, para fugir à sua força na discussão com os cristãos, aleguem que ela descreve os sofrimentos da sua nação, e não de um indivíduo, a objeção é refutada pelos próprios termos da profecia. O povo judeu não pode ser o sofredor, porque este haveria de levar as enfermidades deles, carregar as dores deles e ser traspassado pelas transgressões deles: “Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si” (Is 53.4) etc.; de modo que a pessoa do sofredor se distingue claramente da nação judaica. Além disso, fala-se da sua morte e do seu sepultamento, e os seus sofrimentos são apresentados (versículo 12) como voluntários, o que de modo algum se pode aplicar aos judeus. “De si mesmo ou de outra pessoa” (At 8.34), portanto, como corretamente entendeu o eunuco etíope, o profeta havia de ter falado. A algum indivíduo ela tem de ser aplicada; a ninguém senão a nosso Senhor pode ser aplicada; e, aplicada a ele, a profecia se converte na própria história. O profeta declara que a sua vinda e as suas obras seriam uma revelação do “braço do Senhor”, uma singular manifestação do poder e da bondade divinos; e, no entanto, que um povo cego e incrédulo não creria na “pregação” (Is 53.1). Aparecendo numa condição baixa e humilde, e não, como eles esperavam do seu Messias, na pompa de uma monarquia oriental, a sua falta de “formosura” e de “beleza que nos agradasse” aos olhos dos seus compatriotas, e a sua rejeição por eles, são declaradas explicitamente: “era desprezado, e dele não fizemos caso” (Is 53.2-3). Ele é ainda descrito como “homem de dores e que sabe o que é padecer”; contudo, os seus sofrimentos foram considerados pelos judeus como judiciais, um castigo legal, como eles sustentam até hoje, por ter procurado afastar os homens da lei, para o que tinham a autorização do próprio Deus nas ordens dadas por meio de Moisés de que tais sedutores fossem mortos. Com que exatidão esses sentimentos dos judeus estão assinalados na profecia! Citamos da tradução do bispo Lowth. [N. do T.: a versão de Isaías do bispo Robert Lowth (1778), que Watson segue nesta e nas próximas citações, difere em vários pontos da NAA; traduzimos a redação de Lowth, da qual o argumento depende.]

“E nós o consideramos ferido por sentença judicial,

ferido de Deus, e afligido” (Is 53.4).

Cristo mesmo e os seus apóstolos apresentaram sempre a sua morte como vicária e propiciatória; e isso é predito e confirmado, por assim dizer, pela evidência desta profecia.

“Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões,

Foi golpeado por causa das nossas iniquidades;

O castigo pelo qual se efetua a nossa paz foi posto sobre ele;

E por suas contusões somos sarados.

Todos nós, como ovelhas, nos desgarramos;

Desviamo-nos, cada um para o seu próprio caminho;

E Jeová fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós.

Foi exigido, e ele se fez responsável” (Is 53.5-7).

Quem pode ler a passagem seguinte sem pensar em Jesus diante do conselho dos judeus e do tribunal de Pilatos?

“Como cordeiro que é levado ao matadouro,

E como ovelha diante dos seus tosquiadores

Fica muda, assim ele não abriu a boca.

Por um juízo opressivo ele foi arrebatado” (Is 53.7-8).

As próprias circunstâncias do seu sepultamento são indicadas:

“E a sua sepultura foi designada com os ímpios,

Mas com o rico esteve o seu túmulo” (Is 53.9).

Todavia, embora assim posto na sepultura, o olhar do profeta contempla a sua ressurreição, “a alegria que lhe estava proposta” e na qual ele entrou; a distribuição de bênçãos espirituais ao seu povo; e a sua conquista espiritual das nações da terra, apesar da oposição dos “poderosos”. E ele enumera esses pormenores com uma clareza tão admirável que, bastando alterar os tempos dos verbos, o conjunto se converteria num resumo do que aconteceu, e do que está acontecendo agora, sob a dispensação cristã, no avanço da salvação humana: “Se a sua alma fizer um sacrifício propiciatório, Ele verá uma descendência que prolongará os seus dias,

E o propósito gracioso de Jeová prosperará em suas mãos.

Do trabalho da sua alma ele verá (o fruto) e ficará satisfeito;

Pelo conhecimento dele, o meu servo justificará a muitos;

Pois o castigo das iniquidades deles ele levará.

Por isso lhe darei as multidões como sua porção;

E o povo poderoso ele repartirá como seu despojo;

Porque derramou a sua alma até a morte;

E foi contado com os transgressores;

E levou o pecado de muitos,

E intercedeu pelos transgressores” (Is 53.10-12).

A todas essas predições aplicam-se as palavras de um escritor moderno: “Medite agora o incrédulo, ou o leitor cético, a fundo e com sobriedade, sobre essas predições. A anterioridade dos registros em relação aos acontecimentos não admite dúvida. O cumprimento é evidente para todo investigador competente. Aqui estão, pois, os fatos. Somos chamados a explicar esses fatos com base em princípios racionais e adequados. Está a previsão humana à altura da tarefa? O entusiasmo? A conjectura? O acaso? A artimanha política? Se nenhum destes, nem qualquer outro princípio que a sagacidade humana possa inventar, explica os fatos, então a verdadeira filosofia, assim como a verdadeira religião, os atribuirá à inspiração do Todo-Poderoso. Todo efeito tem de ter uma causa.”5

As ruínas examinadas pelo sr. Rich dão testemunho da imensa extensão da cidade, tal como descrita pelos autores antigos. Enormes massas de alvenaria, de tijolos cozidos e crus e de betume, foram observadas em várias escavações nessas imensas montanhas de ruínas, que estão separadas umas das outras por várias milhas. Uma é chamada pelos árabes Birs Nimrond; outra, o Kasr, ou Palácio; e uma terceira, que alguns julgaram ser as ruínas da torre de Belo, é chamada pelos nativos Mugelib, isto é, derrubado, termo expressivo que às vezes também se aplica aos montes do Kasr.

Notas de Richard Watson

1. “As correspondências entre tipos e antítipos, embora não sejam provas propriamente ditas da verdade de uma doutrina, podem, contudo, ser confirmações muito razoáveis da presciência de Deus, da visão uniforme da Providência sob diferentes dispensações, da analogia, harmonia e concordância entre o Antigo Testamento e o Novo. As palavras da lei a respeito de um tipo particular de morte, o que for pendurado no madeiro é maldito de Deus, dificilmente se pode conceber que tenham sido ali postas por outro motivo que não fosse a vista e a previsão da aplicação que delas fez são Paulo. As analogias entre o cordeiro pascal e o Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo; entre a escravidão no Egito e a tirania do pecado; entre o batismo dos israelitas no mar e na nuvem e o batismo dos cristãos; entre a travessia do deserto e a travessia do mundo presente; entre Josué introduzindo o povo na terra prometida e Jesus Cristo sendo o Autor da salvação para os que creem; entre o repouso sabático prometido ao povo de Deus na Canaã terrena e o repouso eterno prometido ao povo de Deus na Canaã celestial; entre a liberdade concedida, a partir da morte do sumo sacerdote, àquele que fugira para uma cidade de refúgio, e a redenção comprada pela morte de Cristo; entre o sumo sacerdote que entrava no lugar santo todos os anos com sangue alheio e Cristo, que entrou uma vez por todas com o seu próprio sangue no próprio céu, para comparecer nas sombras das coisas que haviam de vir, dos bens vindouros, as sombras das coisas celestiais, a presença de Deus por nós [N. do T.: assim no original; a frase parece embaralhada, com as expressões “sombra das coisas que haviam de vir”, “bens vindouros” e “sombra das coisas celestiais” (Cl 2.17; Hb 10.1; Hb 8.5) interrompendo “para comparecer por nós diante de Deus” (Hb 9.24).] Essas, digo, e inumeráveis outras analogias entre as figuras para a época então presente, os modelos das coisas que estão nos céus, e as próprias coisas celestiais, não podem, sem a força de um forte preconceito, ser concebidas como tendo acontecido por mero acaso, sem nenhuma previsão ou desígnio. Não se encontram tais analogias, e muito menos tais séries de analogias, nos livros de escritores meramente entusiastas que viveram em épocas tão distantes umas das outras. É muito mais crível e razoável supor o que são Paulo afirma: que estas coisas se tornaram exemplos para nós; e que, naquele curso uniforme do governo de Deus sobre o mundo, todas as coisas aconteceram com os antigos para servir de exemplo e foram escritas como advertência a nós, para quem o fim dos tempos tem chegado. Daí vem aquela propriedade de semelhança, na aplicação de diversas práticas legais à moralidade do evangelho, que dificilmente se pode supor que não tenha sido intencional desde o princípio.” (Dr. S. Clarke, Evidences of Natural and Revealed Religion, p. 263.) ↩

2. “Eles foram dispersos por todos os países. Não têm nenhum laço comum de localidade ou de governo que os mantenha unidos. Todos os princípios ordinários de assimilação, que fazem da lei, da religião e dos costumes uma questão tão dependente da geografia, estão suspensos no caso deles. E, em exceção a tudo o que a história registrou das revoluções da espécie humana, vemos nessa raça admirável um vigoroso princípio de identidade, que permaneceu com força não diminuída por quase dois mil anos e ainda permeia cada pedaço e fragmento da sua população amplamente espalhada.” (Chalmers, Evidences.) ↩

3. Nenhuma obra expôs de maneira tão agradável e abrangente o cumprimento das principais profecias da Escritura, e especialmente do Antigo Testamento, quanto as Dissertations on the Prophecies do bispo Newton; e a sua leitura pode ser vivamente recomendada, sobretudo aos jovens. As suas explicações das profecias relativas à antiga Babilônia são extremamente interessantes e satisfatórias; e provas ainda maiores do cumprimento admiravelmente exato dessas profecias podem ser vistas numa interessantíssima Memoir on the Ruins of Babylon, de Claudius J. Rich, publicada em 1815. Ele visitou ruínas imensas perto do suposto local da antiga Babilônia, as quais provavelmente são, embora o fato não possa ser averiguado com certeza, os restos daquela cidade assombrosa, agora de fato varrida “com a vassoura da destruição” (Is 14.23). Diz-nos também que a vizinhança é, até hoje, habitação apenas de aves e animais de rapina; que em muitos lugares se veem as tocas dos leões, com as suas vítimas abatidas; e que a maior parte das cavidades é ocupada por morcegos e corujas. É, portanto, impossível refletir sem temor reverente sobre a passagem de Isaías, escrita durante a prosperidade da Babilônia, em que ele diz: “Porém, nela, os animais do deserto repousarão, e as suas casas se encherão de corujas. Ali habitarão os avestruzes, e os bodes selvagens pularão ali” (Is 13.21). As ruínas atuais daquela cidade demonstram também que o curso do Eufrates foi mudado, provavelmente em consequência do canal aberto por Ciro; e a natureza branda do solo demonstra que tal operação poderia ter sido realizada por um grande exército com muita facilidade e rapidez. ↩

4. Ver a nota, p. [N. do T.: Watson remete à nota de Samuel Clarke sobre tipos e antítipos, que nesta tradução é a nota 1.] ↩

5. Simpson, Key to the Prophecies. Ver também uma grande coleção de profecias com o seu cumprimento no Apêndice do vol. I da Introduction to the Scriptures de Horne. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).