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Parte II · Capítulo XIV

Os atos atribuídos a Cristo, provas da sua divindade

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Este argumento confirma o anterior; pois, se não só os nomes próprios de Deus, os seus títulos majestosos e peculiares e os seus atributos são atribuídos a nosso Senhor, mas se também foram realizados por ele atos que, pela natureza das coisas, não podem ser realizados por nenhuma criatura, por mais elevada que seja, então aquele que os realizou tem de ser verdadeiramente Deus.

O primeiro ato desse tipo é a criação, a criação de todas as coisas. Não é necessário entrar aqui em nenhum argumento para provar que a criação, no seu sentido próprio, isto é, a produção das coisas a partir do nada, só é possível ao poder divino. Os próprios socinianos o reconhecem; e por isso empregam as suas críticas distorcidas, mas fracas, numa tentativa vã de provar que a criação de que Cristo, no Novo Testamento, é apresentado como autor deve ser entendida como uma criação moral, ou como a ordenação de todas as coisas na dispensação evangélica. Não apresentarei muitas passagens para provar que se atribui a nosso Senhor uma criação propriamente dita, pois elas estão suficientemente presentes na memória do leitor. Basta que se exibam apenas duas ou três delas, que não podem ser tomadas, sem manifesto absurdo, em nenhum outro sentido senão como atribuindo a ele toda a criação física.

A atribuição da criação de “todas as coisas”, no sentido físico, ao Verbo divino, na introdução do evangelho de são João, já foi defendida contra a interpretação sociniana numa página anterior. Farei sobre ela apenas mais esta observação: primeiro, que, se são João tivesse em vista uma criação moral e não física, não poderia ter-se expressado como se expressa sem a intenção de induzir ao erro, suposição igualmente contrária à sua inspiração e à sua piedade. Ele afirma que “todas as coisas”, e isso sem limitação nem restrição, “foram feitas por ele”; que, “sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3); o que significa claramente que não existe nenhum objeto criado que não tenha tido Cristo por Criador, afirmação que contém a revelação de uma doutrina importantíssima e fundamental. Se, porém, for tomada no sentido sociniano, é um truísmo lastimável, que afirma que Cristo nada fez, ao estabelecer a sua religião, que ele não tenha feito; pois é nesse sentido que a própria versão deles a exprime: “todas as coisas foram realizadas por ele, e sem ele nada se realizou do que foi realizado”; ou, como poderiam ter traduzido, para tornar a insensatez ainda mais manifesta: “sem ele nada se realizou do que foi realizado por ele, ou do que ele mesmo realizou”. Infelizmente, porém, para a noção de organizar ou ordenar a nova dispensação, o apóstolo acrescenta uma plena confirmação da sua doutrina anterior, de que a criação física foi resultado do poder do Verbo divino, ao afirmar que “o mundo foi feito por meio dele” (Jo 1.10);1 aquele mundo ao qual ele veio como “a luz”, aquele mundo em que ele estava quando se fez carne, aquele mundo que “não o conheceu”. Para o argumento, não importa se “o mundo” é entendido como os homens ou como o mundo material; em qualquer das suposições, ele foi feito por ele, e a criação foi, portanto, física. Em nenhum dos casos a criação poderia ser moral, pois o mundo material é incapaz de renovação moral; e o mundo que “não conheceu” Cristo, se entendido como os homens, não foi renovado, mas permaneceu sem regeneração; do contrário, ele teria sido “conhecido”, isto é, reconhecido por eles.

Outra passagem, igualmente impossível de referir a qualquer coisa que não seja uma criação física, encontra-se em Hb 1.2: “pelo qual também fez o universo” [N. do T.: Watson segue a KJV, made the worlds, “fez os mundos”, tradução literal do plural grego τοὺς αἰῶνας, sobre o qual argumenta adiante]. “Deus”, diz o apóstolo, “nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas”; e então passa a dar mais informações sobre a natureza e a dignidade da personagem assim denominada “Filho” e “herdeiro”; e a sua primeiríssima declaração a respeito dele, nessa exposição do seu caráter, a fim de provar que ele é maior do que os anjos, que são os maiores de todos os seres criados, é que “por meio dele também Deus fez os mundos”. Recorreu-se a dois métodos para afastar a força desse testemunho decisivo da divindade de Cristo, fundado nos seus atos criadores. O primeiro é traduzir as palavras assim: “por causa de quem ele fez os mundos”, referindo desse modo a criação diretamente ao Pai e fazendo a preposição διά, com genitivo, significar a causa final, a razão ou o fim, para o qual “os mundos” foram criados. Ainda que se admitisse isso, seria uma doutrina estranha afirmar que por causa de um mero homem, por causa do exercício do ministério de um mero homem, como Cristo é considerado na hipótese sociniana, “os mundos”, toda a criação visível, com as suas várias ordens de seres intelectuais, foram criados. Essa é uma posição quase tão oposta àquela hipótese corrompida quanto a própria doutrina ortodoxa, e é mais um exemplo que prova que as dificuldades se multiplicam, em vez de diminuir, quando nos afastamos do sentido evidente da Escritura. Mas não se encontra em todo o Novo Testamento nenhum exemplo do uso de διά com genitivo para exprimir a causa final; e, no versículo seguinte, são Paulo usa a mesma construção para exprimir a causa eficiente: “havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados” (Hb 1.3) [N. do T.: assim na KJV, by himself, δι’ ἑαυτοῦ; a NAA traz apenas “depois de ter feito a purificação dos pecados”]. “Essa interpretação”, diz Whitby, com razão, “é contrária à regra de todos os gramáticos, contrária à exposição de todos os Pais gregos e, além disso, sem exemplo no Novo Testamento”.

O segundo recurso, portanto, é entender “os mundos”, τοὺς αἰῶνας, no sentido literal da expressão, como “as eras”, ou a dispensação do evangelho. Mas “οἱ αἰῶνες, empregado de modo absoluto, nunca significa a Igreja ou o estado evangélico; nem a Escritura jamais fala do mundo vindouro no plural, mas somente no singular” (Whitby). A expressão οἱ αἰῶνες foi adotada ou como equivalente da divisão judaica de toda a criação em três partes, este mundo inferior, a região das estrelas e o terceiro céu, morada de Deus e dos seus anjos; ou como expressão da duração do mundo, que se estende por um número indefinido de eras, em oposição à vida breve dos seus habitantes. “Αἰών significa primeiro um longo tempo, depois a eternidade; nos escritores do Novo Testamento, porém, significa κόσμον, o mundo, por um hebraísmo, pois עולם e עולמים se tomam pelo mundo, visto que o mundo perdura continuamente depois de tantas gerações de homens” (Rosenmüller). O apóstolo, escrevendo aos hebreus, usou portanto um modo de expressão que não só lhes era familiar, mas que eles não podiam deixar de entender como referente à criação natural. Isso, porém, fica fora de toda dúvida pelo uso da mesma expressão no capítulo 11: “Pela fé, entendemos que o universo [τοὺς αἰῶνας, os mundos] foi formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não são visíveis” (Hb 11.3); palavras que só podem ser entendidas como referentes à criação física. Outra consideração, que põe a declaração “pelo qual também fez os mundos” fora do alcance de toda a crítica capciosa e pueril que comentamos, é que, no fim do capítulo, o apóstolo reitera a doutrina da criação do mundo por Jesus Cristo: “Mas, a respeito do Filho, diz” não só: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre”, mas também: “No princípio, Senhor (Jeová), lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos” (Hb 1.8,10); palavras às quais a habilidade pervertida dos hereges não conseguiu atribuir sentido algum quando tomadas em qualquer outro sentido que não o de dirigidas a Cristo, e que lhe vincularão para sempre, pela autoridade da inspiração, o título de “Jeová”, e o revestirão de toda a majestade do poder e da glória criadores. É, de fato, um argumento muito conclusivo a favor dos três grandes pontos da doutrina cristã, tais como compreendidos na fé ortodoxa, que é impossível interpretar este célebre capítulo, segundo qualquer regra justa de interpretação natural e costumeira, sem admitir que Cristo é Deus, o Filho divino de Deus e o Mediador. Este último ponto se indica por ser ele o meio pelo qual, nestes últimos dias, a vontade de Deus é comunicada à humanidade (“Deus […] nos falou” por ele) e por ter sido ele “ungido” sacerdote e rei “como a nenhum dos seus companheiros”. O segundo se exprime tanto pelo seu título, “o Filho“, quanto pela superioridade que, em virtude desse nome, ele tem sobre os anjos, e pela adoração que, como Filho, eles recebem ordem de lhe prestar. Ele é também chamado Deus, e esse termo é fixado no seu significado mais elevado pela declaração de que ele é “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser” e pelos atos criadores que lhe são atribuídos; ao passo que o seu caráter de Filho, como sendo do Pai, continua preservado pelas duas metáforas, “resplendor” e “expressão exata”, e pela expressão “Deus, o teu Deus”. Só com base nesses princípios o apóstolo se torna inteligível; com base em quaisquer outros, o capítulo inteiro não admite exposição coerente.

A única passagem adicional que é necessário apresentar, a fim de mostrar que Cristo é o Criador de todas as coisas, e que a criação de que ele é o autor não é uma criação moral mas física, não a estruturação da dispensação cristã, mas a formação de todo o universo das criaturas a partir do nada, é Cl 1.15-17: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste“. Os socinianos interpretam isso como “aquela grande mudança que foi introduzida no mundo moral, e particularmente na situação relativa de judeus e gentios, pela dispensação do evangelho” (Improved Version). Mas:

1. O apóstolo introduz esta passagem como razão pela qual temos “a redenção” pelo seu sangue (v. 14); por que, em outras palavras, a morte de Cristo foi eficaz; e evidentemente atribui essa eficácia à dignidade da sua natureza. Esse é o propósito do seu argumento. 2. Por isso afirma que ele é “a imagem” (εἰκών), a representação ou semelhança exata do Deus invisível; o que, comparado com Hb 1.3, “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu Ser” [N. do T.: Watson indica Hb 1.2], mostra que o apóstolo usa a palavra num sentido em que ela não é aplicável a nenhum ser humano ou angélico; “o primogênito de toda criatura”, ou, mais literalmente, “o primogênito de toda a criação”. Os arianos tomaram isso no sentido de primeira criatura feita; mas isso é refutado pelo próprio termo, que não é “o primeiro feito”, mas “o primogênito”, e pelo versículo seguinte, que prova que ele é o primogênito porque (ὅτι) “nele foram criadas todas as coisas”. Quanto à data do seu ser, ele existia antes de todas as coisas criadas, pois elas foram criadas por ele; quanto ao modo do seu ser, ele era por geração, não por criação. O apóstolo não diz que ele foi criado como a primeira de todas as criaturas, mas que nasceu antes delas (veja-se Wolf, sobre o texto); alusão clara à geração do Filho antes que o tempo começasse e antes que existissem criaturas. Wolf mostrou também que, entre os judeus, Jeová é às vezes chamado primogenitum mundi, “o primogênito do mundo”, porque atribuíam a criação do mundo ao Logos, a Palavra do Senhor, o Jeová visível do Antigo Testamento, a quem certamente nunca pretenderam incluir entre as criaturas; e que também o chamavam o Filho de Deus. Foi, então, em perfeito acordo com a linguagem teológica dos próprios judeus que o apóstolo chama nosso Senhor “o primogênito de toda a criação”.

A interpretação ariana, que faz da primeira criatura feita o Criador das demais, fica assim destruída. A noção sociniana é igualmente absurda. Se a criação aqui é a nova dispensação, a Igreja cristã, então chamar Cristo o primogênito dessa criação é fazer o apóstolo dizer que Cristo foi o primeiro membro feito da Igreja cristã; e a razão dada para isso é que ele fez ou constituiu a Igreja! Se com isso querem dizer simplesmente que ele foi o autor do cristianismo, temos de novo um truísmo pueril posto nos lábios do apóstolo. Se querem dizer que o apóstolo declara que Cristo foi o primeiro cristão, é difícil conceber como isso possa ser afirmado com seriedade como comentário das palavras; se querem dizer qualquer outra coisa, é impossível descobrir alguma ligação no argumento, isto é, entre a proposição de que Cristo é o primogênito de toda a criação e a prova que dela se apresenta, de que nele foram criadas todas as coisas. Os anotadores da New Version dizem: “Fica claro, comparando esta passagem com o versículo 18 (onde Cristo é chamado o primogênito dentre os mortos), que Cristo é chamado o primogênito de toda a criação porque é o primeiro que foi ressuscitado dentre os mortos para uma vida imortal”. Isso está longe de ser “claro”; mas o que fica claro é que, nesses dois versículos, o apóstolo fala de Cristo em dois estados diferentes: primeiro, no seu estado “antes de todas as coisas” e como sustentador de todas as coisas; e depois, no seu estado na “igreja” (v. 18), em que se acrescenta aos pormenores anteriores a respeito dele que “ele é a cabeça do corpo, que é a igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos”. Além disso, se nos versículos 15, 16 e 17 o apóstolo está falando do que Cristo é na Igreja e para a Igreja, sob a figura de uma criação de todas as coisas nos céus e na terra, quando abandona a figura e nos ensina que Cristo é a cabeça da Igreja, o primogênito dentre os mortos, faz uma mera tautologia; nem há razão aparente para que não tivesse enunciado logo a sua proposição nos mesmos termos simples, sem recorrer a expressões que, nessa maneira de ver, seriam rebuscadas e enganosas. Na “igreja” ele era a “cabeça” e “o primogênito dentre os mortos”, o único que jamais ressuscitou para não morrer mais e que dá vida imortal àqueles a quem vivifica; mas, antes que a Igreja existisse, ou que ele mesmo se encarnasse, “antes de todas as coisas”, diz o apóstolo, ele era o “primogênito de toda a criação”, isto é, como os Pais da Igreja o entenderam, nasceu ou foi gerado antes de toda criatura. Mas os próprios termos do texto são uma refutação abundante da noção de “que a criação aqui mencionada não é a criação de substâncias naturais”. Diz-se que as coisas criadas são “todas as coisas, nos céus e sobre a terra”; e, para que não se pensasse que os espíritos invisíveis do céu estavam excluídos, o apóstolo acrescenta “as visíveis e as invisíveis”; e, para que as coisas invisíveis não fossem entendidas como anjos inferiores ou seres espirituais, e não se suspeitasse que os seres elevados e gloriosos, “valorosos em poder” (Sl 103.20), e revestidos na Escritura de outras propriedades elevadas, eram exceções, o apóstolo se torna ainda mais específico e acrescenta: “sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades”, termos pelos quais os judeus exprimiam as diferentes ordens de anjos, e que são usados nesse sentido por este mesmo apóstolo em Ef 1.21. É uma crítica desavergonhada dos autores da New Version, e mostra quão apertados se viram diante desta passagem decisiva, dizer que “o apóstolo não especifica aqui as próprias coisas, a saber, substâncias celestes e terrestres, mas apenas estados de coisas, a saber, tronos, soberanias etc., que são somente categorias e ordens de seres no mundo racional e moral”. Esqueceram-se, então, de que, antes de são Paulo falar das coisas por categoria e ordem, fala coletivamente de todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis? Se é assim, então ele sem dúvida fala das “próprias coisas”, ou não fala de nada. Nem é verdade que, na enumeração de tronos, soberanias etc., fale da criação de categorias e ordens. Ele não fala “apenas de estados de coisas, mas de coisas em estados; não diz que Cristo criou tronos, soberanias, principados e potestades, o que serviria melhor ao propósito deles, mas que criou todas as coisas, ‘sejam’ (εἴτε) ‘tronos’ etc.”. O apóstolo acrescenta que todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele, como fim; o que não se poderia dizer de Cristo, ainda que se tivesse em vista uma criação moral, visto que, na hipótese sociniana de que ele é um mero homem, um profeta de Deus, ele não passa do instrumento para restaurar o homem à obediência e à sujeição, para a glória de Deus e no cumprimento dos propósitos de Deus. Mas como se pode tornar toda essa descrição aplicável a uma criação figurada, à restauração moral de seres caídos? Ela é tão claramente histórica quanto as palavras de Moisés: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1.1). “As coisas visíveis” e “as coisas sobre a terra” compreendem, naturalmente, todos aqueles objetos que, não sendo nem sencientes nem racionais, são incapazes de regeneração moral, ao passo que “as coisas nos céus” e “as coisas invisíveis” compreendem os anjos que nunca pecaram e que não precisam de arrependimento nem de renovação. Tais são as grosseiras perversões da palavra de Deus a que leva essa heresia; e com tal evidência indelével é declarada a divindade de nosso Senhor pelos seus atos de poder e glória como Criador universal. As admiráveis observações do bispo Pearson podem, com propriedade, concluir o que se disse sobre esta importante passagem do texto inspirado.

“Nestas palavras o nosso Salvador é expressamente chamado ‘o primogênito de toda criatura’, isto é, gerado por Deus, como ‘o Filho do seu amor’ [N. do T.: Cl 1.13; a NAA traz “seu Filho amado”], antes de todas as outras emanações, antes que qualquer coisa procedesse dele ou fosse formada e criada por ele. E essa precedência é logo provada por este argumento inegável: que todas as outras emanações ou produções vêm dele, e tudo o que recebeu o seu ser por criação foi por ele criado; afirmação que é feita nas expressões mais próprias, plenas e frequentes que se possam imaginar. Primeiro, na linguagem simples de Moisés, por ser a mais conforme à sua descrição: ‘pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra’, significando com isso que fala da mesma criação. Segundo, por uma divisão que Moisés nunca usou, pois descrevia apenas a produção de substâncias corpóreas: para que, portanto, aqueles seres imateriais não parecessem isentos da criação do Filho, por terem sido omitidos na descrição de Moisés, ele acrescenta ‘as visíveis e as invisíveis’; e, para que naquele mundo invisível, entre os muitos graus da hierarquia celeste, nenhuma ordem parecesse isenta de uma dependência essencial em relação a ele, nomeia as de maior eminência, ‘sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades’, e sob elas compreende todas as demais. Nem basta ainda estender assim o objeto do seu poder, afirmando que todas as coisas foram feitas por ele, a não ser que isso se entenda de modo a reconhecer a soberania da sua pessoa e a autoridade da sua ação. Pois, para que não concebêssemos o Filho de Deus formando o mundo como mera causa instrumental, que opera por outro e para outro, ele o mostra como causa final tanto quanto eficiente; pois ‘tudo foi criado por meio dele e para ele’. Por fim, visto que todas as coisas recebem primeiro o seu ser pela criação e, depois de o terem recebido, nele continuam em virtude da conservação de Deus, ‘pois nele vivemos, nos movemos e existimos’ (At 17.28), para que em coisa alguma deixássemos de depender imediatamente do Filho de Deus, ele é descrito como o conservador, tanto quanto o Criador, pois ‘ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste’. Se, então, considerarmos esses dois últimos versículos em si mesmos, não podemos negar que são uma descrição completíssima do Criador do mundo; e, se fossem ditos de Deus Pai, não poderiam de modo algum ofender a sua majestade, pois em parte alguma ele nos é apresentado mais clara ou plenamente como o Criador do mundo.”

Mas nosso próprio Senhor declara realizar outros atos, além do grande ato de criar, que são peculiares a Deus; e tais atos lhe são também atribuídos pelos seus apóstolos inspirados. A sua preservação de todas as coisas feitas por ele já foi mencionada, e ela implica não só um poder divino, mas também ubiquidade, visto que ele tem de estar presente a todas as coisas para que sejam constantemente conservadas. A destruição final de toda a estrutura da natureza material também lhe é atribuída tão expressamente quanto a sua criação: “No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces; […] como manto tu os enrolarás, e, como roupas, serão igualmente mudados” (Hb 1.10-12). Aqui se vê o poder onipotente “mudando”, removendo e tirando de cena o vasto universo das coisas materiais com a mesma facilidade com que ele foi chamado à existência pela palavra e, no início, disposto em ordem. De modo geral, também, nosso Senhor afirma realizar as obras do seu Pai: “Se não faço as obras do meu Pai, não acreditem em mim. Mas, se faço, e vocês não creem em mim, creiam pelo menos nas obras” (Jo 10.37-38). Ainda que isso fosse restringido à operação de milagres, o argumento continua o mesmo. Nenhum profeta, nenhum apóstolo, jamais usou tal linguagem ao falar dos seus dons miraculosos. Aqui Cristo declara que realiza as obras do seu Pai; não apenas que o Pai operava por meio dele, mas que ele mesmo fazia as obras de Deus; o que só pode significar obras próprias ou peculiares a Deus, e que só um poder divino poderia efetuar.2 Assim o entenderam os judeus, pois, diante dessa declaração, “tentaram outra vez prendê-lo” (Jo 10.39). Que esse poder de operar milagres era nele um poder original, fica evidente também pelo fato de conceder esse poder aos seus discípulos: “Eis que eu dei a vocês autoridade para pisarem cobras e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, lhes causará dano” (Lc 10.19). “Tendo Jesus convocado os doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças” (Lc 9.1). Os milagres deles, portanto, deviam ser realizados em seu nome, pelo que o poder de efetuá-los ficava expressamente reservado a ele: “em meu nome, expulsarão demônios” (Mc 16.17); “Pela fé no nome de Jesus é que esse mesmo nome fortaleceu a este homem” (At 3.16).

O modo como nosso Senhor promete o Espírito Santo prova também que ele realiza atos peculiares à Divindade. Ele fala de “enviar o Espírito” na linguagem de quem tinha um direito original e um poder inerente de conceder aquele dom maravilhoso, que haveria de comunicar às mentes humanas energias miraculosas e sabedoria, consolo e pureza celestiais. O Pai envia o Espírito? Ele reivindica o mesmo poder: “o Consolador, que eu enviarei a vocês” (Jo 15.26). Por isso o Espírito é chamado “o Espírito de Cristo” e “o Espírito de Deus” (Rm 8.9). Assim, o dar o Espírito é atribuído indistintamente ao Filho e ao Pai; mas, quando esse dom é concedido mediatamente pelos apóstolos, eles não assumem tal linguagem: oram a Cristo, e ao Pai em seu nome, e ele, o seu Mestre exaltado, derrama a bênção: “Exaltado, pois, à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vocês estão vendo e ouvindo” (At 2.33).

Outro dos atos indiscutivelmente peculiares a Deus é o perdão dos pecados. Pela razão evidente da coisa, ninguém pode perdoar senão a parte ofendida; e, como o pecado é a transgressão da lei de Deus, só ele é a parte ofendida, e só ele, portanto, pode perdoar. Mediatamente, outros podem declarar os atos de perdão de Deus, ou as condições em que ele determina perdoar; mas, com autoridade, não pode haver perdão efetivo de pecados cometidos contra Deus a não ser pelo próprio Deus. Ora, Cristo perdoa pecados com autoridade e é, portanto, Deus. Uma só passagem basta para prová-lo. Ele “disse ao paralítico: Coragem, filho; os seus pecados estão perdoados”. Os escribas presentes entenderam que ele fazia isso com autoridade e que assumia, nesse caso, os direitos da Divindade. Por isso disseram entre si: “Ele está blasfemando”. Qual é, então, a conduta de nosso Senhor? Admite ele que apenas declarou, como ministro, em consequência de alguma revelação, que Deus havia perdoado os pecados do paralítico? Pelo contrário, opera um milagre para lhes provar que o próprio direito que contestavam estava investido nele, que ele tinha essa autoridade: “Mas isto é para que vocês saibam que o Filho do Homem tem autoridade sobre a terra para perdoar pecados. Então disse ao paralítico: Levante-se, pegue o seu leito e vá para casa” (Mt 9.2-6).

Tais foram os atos realizados por nosso Salvador nos dias da sua permanência na terra, e que os seus apóstolos inspirados o apresentam como continuando a realizar constantemente, ou como tendo poder para realizar. Se alguma criatura é capaz de fazer as mesmas obras poderosas, então fica destruída toda distinção entre as naturezas criadas e finitas e o Infinito incriado. Se tal distinção de fato existe; se nem a criação, nem a preservação, nem a salvação são possíveis a uma mera criatura, vimos que são possíveis a Cristo, porque ele de fato cria, preserva e salva; e a conclusão inevitável é que ele é verdadeiro Deus.

Notas de Richard Watson

1. “O mundo foi iluminado por ele”, diz a New Version; tradução inteiramente gratuita, que já foi comentada antes. ↩

2. “Se não faço aquelas mesmas obras divinas que meu Pai faz; se as que faço não trazem a marca do poder divino” (Rosenmüller). “As obras de meu Pai, isto é, as que são próprias do Pai, ou de Deus, e que não podem ser feitas por nenhum outro” (Poli Synopsis). ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).