As principais bênçãos concomitantes da justificação são a regeneração e a adoção. A respeito delas podemos observar, de modo geral, que, embora devamos distingui-las como diferentes entre si e diferentes da justificação, não devemos separá-las. Elas ocorrem ao mesmo tempo e entram todas na experiência da mesma pessoa, de modo que ninguém é justificado sem ser regenerado e adotado, e ninguém é regenerado e feito filho de Deus sem ser justificado. Por isso, sempre que são mencionadas na Escritura, uma envolve e implica as outras; observação que pode nos guardar de alguns erros. Assim, quanto à nossa condição de herdeiros e ao consequente direito à vida eterna, em Tito 3.7 ela se fundamenta na nossa justificação: “a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna”. Em 1Pedro 1.3 ela está ligada à nossa regeneração: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança” etc. E também, em Romanos 8.17, ela se fundamenta na nossa adoção: “se somos filhos, somos também herdeiros”. Essas passagens provam suficientemente que justificação, regeneração e adoção não são títulos distintos e diferentes, mas constituem um só e o mesmo título à herança celestial, pelo dom de Deus em Cristo. São alcançadas, além disso, pela mesma fé. Somos “justificados, pois, mediante a fé” (Rm 5.1), e somos “filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus” (Gl 3.26). Por isso, nas passagens seguintes, todas aparecem unidas como efeito do mesmo ato de fé: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus (designação que inclui a reconciliação e a adoção), a saber, aos que creem no seu nome, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12-13); ou, em outras palavras, foram regenerados.
As observações feitas sobre o assunto no capítulo anterior tornam menos necessário que nos detenhamos aqui longamente sobre a natureza e a extensão da regeneração.
Ela é aquela poderosa mudança no homem, operada pelo Espírito Santo, pela qual o domínio que o pecado exerce sobre ele no seu estado natural, e que ele lamenta e contra o qual luta no seu estado de arrependimento, é quebrado e abolido, de modo que, com plena escolha da vontade e com a energia de afeições retas, ele serve a Deus livremente e “percorre o caminho dos seus mandamentos” (Sl 119.32). “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado, porque nele permanece a semente divina; esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9). “Porque o pecado não terá domínio sobre vocês, pois vocês não estão debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14). “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, o fruto que vocês colhem é para a santificação. E o fim, neste caso, é a vida eterna” (Rm 6.22). A libertação da escravidão do pecado, e o poder e a vontade de fazer todas as coisas que agradam a Deus, tanto nas disposições habituais interiores como nos atos exteriores, são, portanto, as características distintivas desse estado.
Já observamos que o arrependimento não é regeneração. Não vale a pena discutir se a regeneração começa com o arrependimento; pois, se o estado regenerado só tem início na nossa justificação, tudo o que se pode querer dizer com isso, para ser coerente com a Escritura, é que o processo preparatório que conduz à regeneração, assim como conduz ao perdão, começa com a convicção e a contrição e avança até o retorno arrependido ao Senhor. Na ordem que Deus estabeleceu, a regeneração não acontece sem esse processo. É preciso primeiro sentir a convicção do mal e do perigo de um estado não regenerado. Deus determinou que essa mudança fosse efetuada em resposta às nossas orações; e a oração aceitável pressupõe que desejamos a bênção que pedimos; que aceitamos a Cristo como o meio designado de acesso a Deus; que sentimos e confessamos a nossa própria incapacidade de alcançar aquilo que pedimos a outro; e que exercemos fé nas promessas de Deus que nos transmitem o bem que buscamos. É claro que nenhuma dessas coisas é a regeneração, pois todas a pressupõem como um bem em perspectiva, objeto de oração e de desejo ardente. É verdade que uma convicção profunda e séria do pecado, o poder de desejar ser libertado dele, o poder de orar e a luta contra as corrupções de um coração não regenerado são todas provas de uma obra de Deus no coração e de uma importante mudança moral; mas não são essa mudança, porque a regeneração é aquela renovação da nossa natureza que nos dá domínio sobre o pecado e nos capacita a servir a Deus por amor, e não apenas por medo; e ela ainda não foi alcançada, como se reconhece, pois continua sendo objeto de busca e de desejo ardente. Ainda não fomos “criados em Cristo Jesus para boas obras” (Ef 2.10), o que é uma obra de Deus tão especial e instantânea quanto a justificação, e isto porque não é alcançada antes do perdão dos nossos pecados e sempre o acompanha.
Este último ponto pode ser provado: 1. Pela natureza da própria justificação, que remove a pena do pecado; ora, essa pena não é apenas a obrigação de sofrer castigo, mas a perda do Espírito santificador e a maldição de ser deixado na escravidão do pecado e sob o domínio de Satanás. A regeneração é efetuada por esse Espírito que nos é restituído, e é consequência do nosso perdão. Pois, embora a justificação em si mesma seja a remissão do pecado, o estado de justificação implica uma mudança tanto na nossa condição quanto na nossa disposição: na nossa condição, porque estamos num estado de vida, e não de morte, de segurança, e não de condenação; na nossa disposição, porque somos regenerados e novas criaturas.
2. Pela Escritura, que nos oferece prova direta de que a regeneração é concomitante da justificação: “se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Co 5.17). Ela é, pois, o resultado da nossa entrada naquele estado em que se diz que estamos em Cristo; e o sentido dessa expressão é explicado de modo muito satisfatório por Romanos 8.1, considerado em ligação com o capítulo anterior, do qual não deveria ter sido separado na divisão dos capítulos. Esse capítulo descreve claramente o estado de uma pessoa convencida e morta pela lei aplicada pelo Espírito. Podemos de fato descobrir nessa descrição certas mudanças morais, como concordar com a lei, reconhecendo que é boa; ter prazer nela segundo o homem interior; desejos intensos; confissão humilde etc. O estado ali representado, porém, é de fato um estado de culpa, de cativeiro espiritual, de impotência e de miséria; um estado de condenação e de escravidão ao pecado. A condição oposta é a do homem que está “em Cristo Jesus“: para ele “já não existe nenhuma condenação” (Rm 8.1); ele está perdoado; a escravidão ao pecado foi quebrada; ele não vive “segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.4). Estar em Cristo é, portanto, ser justificado, e a regeneração segue-se imediatamente. Vemos então a ordem da operação divina na experiência individual: convicção do pecado, da impotência e do perigo; fé; justificação; e regeneração. O estado regenerado também é chamado na Escritura de santificação, embora o apóstolo Paulo faça distinção entre ele e o ser santificado “em tudo” (1Ts 5.23), doutrina que será considerada mais adiante. Nesse estado regenerado, ou santificado, as antigas corrupções do coração podem permanecer e lutar pelo domínio; mas o que o caracteriza e o distingue do estado do penitente antes da justificação, antes de estar “em Cristo”, é que elas já não constituem sequer a sua disposição habitual interior e não têm domínio. A fé une a Cristo; por ela recebemos “graça e paz da parte de Deus Pai e de seu Filho Jesus Cristo” e desfrutamos “a comunhão do Espírito Santo” (2Co 13.13); e esse Espírito, como Espírito santificador, nos é dado para “habitar conosco e estar em nós” (cf. Jo 14.17), e então não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito.
A adoção é o segundo concomitante da justificação, e é uma bênção ampla e abrangente.
Supor que os apóstolos tomaram esse termo da prática dos gregos, dos romanos e de outros povos que tinham o costume de adotar filhos de outros e de investi-los de todos os privilégios dos seus filhos naturais é, provavelmente, um requinte de interpretação. É muito mais provável que tivessem em vista simplesmente o fato evidente de que os nossos pecados nos privaram da nossa condição de filhos, do favor de Deus e do nosso direito à herança da vida eterna; de que nos tornamos estrangeiros, estranhos e inimigos; e de que, com o nosso retorno a Deus e a nossa reconciliação com ele, os privilégios que havíamos perdido não apenas foram restituídos, mas elevados pelo amor paternal de Deus. Dificilmente teriam esquecido a comovente parábola do filho pródigo; e é sob essa mesma visão simples que são Paulo cita o Antigo Testamento: “Por isso, o Senhor diz: ‘Saiam do meio deles e separem-se deles. Não toquem em coisa impura, e eu os receberei.’ ‘Serei o Pai de vocês, e vocês serão meus filhos e minhas filhas’, diz o Senhor Todo-Poderoso” (2Co 6.17-18).
A adoção, então, é aquele ato pelo qual nós, que estávamos afastados, éramos inimigos e havíamos sido deserdados, somos feitos filhos de Deus e herdeiros da sua glória eterna. “E, se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.17). Deve-se notar aqui que não é por direito próprio, nem por direito de alguma obra feita em nós ou que nós mesmos façamos, ainda que seja uma obra evangélica, que nos tornamos herdeiros, mas juntamente com ele e pelo direito dele.
A esse estado pertencem: a liberdade de um espírito servil, pois não somos servos, mas filhos; o amor e o cuidado especiais de Deus, nosso Pai celestial; uma confiança filial nele; livre acesso a ele em todos os momentos e em todas as circunstâncias; o direito à herança celestial; e o Espírito de adoção, ou o testemunho do Espírito Santo à nossa adoção, que é o fundamento de todo o consolo que podemos tirar desses privilégios, pois é o único meio pelo qual podemos saber que eles são nossos.
O último ponto mencionado precisa ser explicado mais amplamente, tanto mais porque muitas vezes tem sido ridicularizado como entusiasmo e muitas vezes tem sido timidamente esvaziado por pessoas cujas opiniões são, no essencial, corretas.
A doutrina é esta: o testemunho interior do Espírito Santo à adoção, ou filiação, dos crentes, do qual brota uma consoladora persuasão, ou convicção, de que somos aceitos por Deus no presente, e a esperança da nossa glória futura e eterna.
Isso é ensinado em várias passagens da Escritura.
Romanos 8.15-16: “Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai.’ O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus”. [N. do T.: onde a NAA traz “confirma ao nosso espírito”, a versão inglesa usada por Watson diz “beareth witness with our spirit” (“dá testemunho com o nosso espírito”); a discussão que se segue pressupõe essa redação.] Nessa passagem deve-se notar: 1. Que o dom do Espírito ali mencionado remove o “temor”, opondo-se ao espírito personificado da lei, ou antes, talvez, ao Espírito Santo na sua ação de convencer, chamado de “espírito de escravidão”, que produz “temor”, um pavor servil de Deus como ofendido. 2. Que o “Espírito de Deus” aqui mencionado não é o espírito, ou índole, personificado do evangelho, como alguns querem, mas “o próprio Espírito”, ou ele mesmo; e por isso, no texto de Gálatas citado abaixo, ele é chamado “o Espírito de seu Filho”, o que não pode significar a índole do evangelho. 3. Que ele inspira uma confiança filial em Deus como nosso Pai, a qual se opõe ao “temor” produzido pelo “espírito de escravidão”. 4. Que ele produz essa confiança filial e nos capacita a chamar Deus de nosso Pai testificando, isto é, dando testemunho com o nosso espírito, de “que somos filhos de Deus”.
Gálatas 4.4-6: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!'”
Aqui também se devem notar: 1. O meio da nossa redenção de sob (a maldição da) lei: a encarnação e os sofrimentos de Cristo. 2. Que a adoção de filhos se segue à nossa redenção efetiva daquela maldição, ou, em outras palavras, ao nosso perdão. 3. Que, ao sermos perdoados, Deus “enviou o Espírito de seu Filho”, e isso “ao nosso coração”, produzindo o mesmo efeito mencionado na epístola aos Romanos, a confiança filial em Deus: “e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!'” A essas passagens devem-se acrescentar todas aquelas, tão numerosas no Novo Testamento, que exprimem a confiança e a alegria dos cristãos, a sua amizade com Deus, o seu acesso confiante a ele como seu Deus, a sua união completa e o seu deleitoso convívio com ele em espírito.
Essa doutrina tem sido geralmente chamada de doutrina da certeza, e talvez as expressões de são Paulo, “plena certeza de fé” (Hb 10.22) e “plena certeza da esperança” (Hb 6.11), autorizem o uso da palavra. Mas, como há entre as pessoas de convicção calvinista um sentido corrente e geralmente compreendido desse termo, segundo o qual a certeza de que somos aceitos e somos filhos no presente é uma certeza da nossa perseverança final e do nosso direito irrevogável ao céu, é preferível a expressão “uma consoladora persuasão, ou convicção, da nossa justificação e adoção, que nasce do testemunho interior e direto do Espírito”. Pois isso tem sido sustentado como doutrina indubitável da Sagrada Escritura por cristãos que de modo algum aceitam a doutrina da certeza no sentido em que a sustentam os seguidores de Calvino.
Há também outra razão para usar o termo certeza com parcimônia e cautela: ele parece implicar, embora não necessariamente, a ausência de toda dúvida, e exclui todos aqueles graus mais baixos de persuasão que podem existir na experiência dos cristãos. Pois, assim como a nossa fé pode não ser igualmente forte no início ou em todos os momentos, o testemunho do Espírito pode ter os seus graus de força, e a nossa persuasão, ou convicção, ser regulada na mesma proporção. Contudo, se a fé é genuína, Deus leva em conta os seus exercícios mais fracos e estimula o seu crescimento, concedendo medidas de consolo e graus desse testemunho. No entanto, embora isso se admita, a plenitude dessa conquista deve ser insistentemente proposta a todo aquele que crê, segundo a palavra de Deus: “aproximemo-nos”, diz são Paulo a todos os cristãos, “em plena certeza de fé” (Hb 10.22).
Também pode servir para remover uma objeção às vezes levantada contra a doutrina, e para corrigir um erro que às vezes permeia a maneira de expô-la, observar que essa certeza, persuasão ou convicção, seja qual for o termo adotado, não pertence à essência da fé justificadora; isto é, a fé justificadora não consiste na certeza de que agora estou perdoado por meio de Cristo. Isso seria evidentemente contraditório. Pois precisamos crer antes de podermos ser justificados, e muito mais antes de podermos ter certeza, em qualquer grau, de que somos justificados; essa persuasão, portanto, segue-se à justificação e é um dos seus resultados. Cremos para sermos justificados; mas não podemos estar persuadidos do nosso perdão para sermos justificados, pois a persuasão seria falsa. Mas, embora devamos não apenas distinguir, mas também separar essa persuasão da nossa aceitação da fé que justifica, não devemos separá-la, mas apenas distingui-la, da própria justificação. Com esta vêm, como concomitantes, a regeneração, a adoção e, até onde a Escritura nos informa, o “Espírito de adoção”, embora, como em todos os outros casos, em graus variados de operação.
Sobre o tema desse testemunho do Espírito Santo há quatro opiniões.
A primeira é que ele é duplo. Há um testemunho direto, ou “impressão interior na alma, pela qual o Espírito de Deus testifica ao meu espírito que sou filho de Deus; que Cristo me amou e se entregou por mim; que eu, sim, eu mesmo, estou reconciliado com Deus” (Wesley, Sermons); e há um testemunho indireto, que nasce da obra do Espírito no coração e na vida, ao qual são Paulo chama de testemunho do nosso próprio espírito; pois é o que se infere da sua expressão: “O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito” etc. (cf. Rm 8.16). Esse testemunho do nosso próprio espírito, ou testemunho indireto do Espírito Santo por meio do nosso próprio espírito, é considerado confirmação do primeiro testemunho, e o mesmo autor o explica assim: “Como tenho certeza de que não me engano quanto à voz do Espírito? Pelo testemunho do meu próprio espírito, ‘pela resposta de uma boa consciência para com Deus’ (cf. 1Pe 3.21). Por isso vocês saberão que não estão iludidos, que não enganaram a própria alma. Os frutos imediatos do Espírito que reina no coração são amor, alegria, paz, entranhas de misericórdia, humildade de espírito, mansidão, benignidade, longanimidade. E os frutos exteriores são fazer o bem a todos os homens e uma obediência constante a todos os mandamentos de Deus.”
A segunda opinião também reconhece um testemunho duplo: o testemunho do Espírito, que consiste nos efeitos morais produzidos naquele que crê, também chamados frutos do Espírito; e o testemunho do nosso próprio espírito, isto é, a consciência de que possuímos fé. A isso chamam “o ato reflexo da fé, pelo qual a pessoa, consciente de que crê, raciocina deste modo: sei que creio em Cristo; logo, sei que obterei a vida eterna” (dr. Hill, Lectures).
A terceira opinião é que há um só testemunho, o do Espírito Santo, agindo juntamente com o nosso próprio espírito. “O Espírito de Deus produz em nós aquelas graças que são a prova da nossa adoção; é ele quem, conforme a ocasião exige, ilumina o nosso entendimento e auxilia a nossa memória para descobrirmos e recordarmos em nós mesmos aqueles argumentos de esperança e consolo. Mas o Espírito de Deus testifica com o nosso espírito e entendimento, e não sem eles, servindo-se da nossa razão para considerarmos e refletirmos sobre aqueles fundamentos de consolo que o Espírito de Deus operou em nós, e para tirarmos deles esta conclusão consoladora para nós mesmos: que ‘somos filhos de Deus’.” (Bispo Bull.) A essa noção liga-se geralmente a da completa imperceptibilidade das operações do Espírito, enquanto distintas das operações da nossa própria mente, “de modo que nunca poderíamos saber, a não ser que isso nos tivesse sido comunicado por revelação divina, que a nossa alma é movida por um poder divino quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos” (Commentary de Mant e D’Oyly).
A passagem seguinte, do Commentary do rev. Thomas Scott, concorda com o bispo Bull em fazer o testemunho do Espírito passar mediatamente pelo nosso próprio espírito, e difere sobretudo na fraseologia. Pode ser tomada como a visão de grande parte daqueles que hoje são chamados de clero evangélico. “O Espírito Santo, ao produzir nos crentes as disposições e afeições de filhos, como são descritas na Escritura, atesta da forma mais manifesta a sua adoção na família de Deus. Isso não se faz por meio de alguma voz, revelação imediata ou impulso, nem simplesmente por algum texto trazido à mente (pois todas essas coisas são ambíguas e enganosas), mas pela coincidência com o testemunho da própria consciência deles quanto à sua retidão em abraçar o evangelho e em se entregar ao serviço de Deus. De modo que, enquanto examinam a si mesmos quanto à realidade da sua conversão e encontram prova bíblica dela, o Espírito Santo, de tempos em tempos, faz brilhar a luz sobre a sua própria obra, desperta as santas afeições deles para um exercício vivo, torna-as muito eficazes sobre a sua conduta e assim põe a questão fora de dúvida; pois, enquanto sentem para com Deus o espírito de filhos obedientes, ficam convencidos do amor paternal dele para com eles.”
Uma quarta opinião admite o testemunho direto do Espírito, como foi exposto acima, mas o considera apenas privilégio especial de algumas poucas pessoas favorecidas. Basta para refutar essa noção o fato de que o apóstolo, nos textos já citados, fala dos crentes em geral e não restringe essa conquista a ninguém que a busque. Nesse aspecto ele a coloca no mesmo terreno de todas as outras bênçãos da nova aliança.
Das quatro opiniões que acabamos de apresentar, só a primeira parece exprimir o verdadeiro sentido da palavra de Deus. Mas, para que o assunto seja exposto por inteiro, podemos observar: 1. Que todos os teólogos sensatos admitem que alguma consoladora persuasão, ou pelo menos esperança do favor divino, pode ser alcançada pelos verdadeiros cristãos e é de fato possuída por eles, exceto sob a influência de enfermidades do corpo e em épocas especiais de tentação; e que toda fé verdadeira é, em algum grau (embora divirjam quanto à extensão), pessoal e apropriadora.
“A terceira parte do arrependimento é a fé, pela qual apreendemos e nos apegamos às promessas de Deus quanto ao perdão e à remissão gratuita dos nossos pecados; promessas que nos são seladas pela morte e pelo derramamento de sangue do seu Filho Jesus Cristo. Pois de que nos valeria e aproveitaria entristecer-nos pelos nossos pecados, lamentar e chorar por termos ofendido o nosso Pai tão generoso e misericordioso, ou confessar e reconhecer as nossas ofensas e transgressões, por mais sinceramente que o façamos, se não crermos firmemente e não estivermos plenamente persuadidos de que Deus, por amor de seu Filho Jesus Cristo, nos perdoará todos os nossos pecados e os apagará da sua memória e de diante da sua vista? Portanto, os que ensinam o arrependimento sem uma fé viva em nosso Salvador Jesus Cristo não ensinam outra coisa senão o arrependimento de Judas.” (Homilia sobre o arrependimento.)
“A fé não é apenas um reconhecimento especulativo, mas prático, de Jesus como o Cristo; um esforço e movimento da mente em direção a Deus, quando o pecador, convencido do pecado, aceita com gratidão as condições de perdão que lhe são oferecidas e, em humilde confiança, aplicando individualmente a si mesmo o benefício da expiação geral, bebe, na linguagem elevada de um venerável Pai da Igreja, da corrente que flui do lado do Redentor. O efeito é que, dentro em pouco, ele se enche daquele perfeito amor de Deus que lança fora o medo; apega-se a Deus com toda a afeição da alma.” (Bispo Horsley.)
“É propriedade da fé salvadora ter a força de apropriar-se de Cristo e torná-lo nosso. Sem isso, uma crença geral e distante teria sido um consolo frio. ‘Ele me amou e se entregou por mim’, diz são Paulo. Que diz são Crisóstomo? ‘Cristo morreu só por são Paulo? Não; non excludit, sed appropriat‘; ele não exclui os outros, mas quer assegurar-se a si mesmo.” (Bispo Brownrigg.)
2. Os que admitem que, mediante contrição prévia e fé em Cristo, ocorre um ato de justificação pelo qual somos reconciliados com Deus e adotados na sua família, doutrina que já foi estabelecida pela Escritura, têm também de admitir que esse ato de misericórdia da parte de Deus ou é mantido inteiramente em segredo para nós ou, por algum meio, se torna conhecível por nós. No primeiro caso, não há remédio algum para a dúvida, para o medo e para a expectativa atormentadora, que hão de ser tanto maiores quanto mais profundo e genuíno for o nosso arrependimento; e assim não pode haver consolo, nem liberdade, nem alegria de espírito na religião, o que contradiz os sentimentos de todas as igrejas e de todos os seus principais teólogos. E, o que é ainda mais importante, contradiz a Escritura.
A todos os verdadeiros crentes o Todo-Poderoso é apresentado como “o Deus da paz e da consolação”; como “Pai” (2Co 6.18); como aquele que “habitará e andará” neles (cf. 2Co 6.16). Mais ainda, há uma distinção marcante entre as garantias de graça e favor feitas aos penitentes e as feitas aos crentes. As declarações quanto aos primeiros são altamente consoladoras; mas referem-se constantemente a algum bem futuro que o Deus diante do qual eles se humilham lhes reserva, para encorajar as suas orações de busca e os seus esforços de confiança. “Mas eis para quem olharei (hebraísmo que significa mostrar favor)”, diz o Senhor: “para o aflito e abatido de espírito” (Is 66.2). Os “cansados e sobrecarregados” são convidados a ir a Cristo, para que achem “descanso para a sua alma” (Mt 11.28-29). Os apóstolos exortavam os homens a se arrependerem e a serem batizados para a remissão dos pecados. Mas a todos os que, no sentido cristão, são crentes, ou que têm a fé pela qual somos justificados, a linguagem é muito mais elevada. “Temos paz com Deus” (Rm 5.1). “Nos gloriamos em Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo, mediante o qual recebemos, agora, a reconciliação” (Rm 5.11). São exortados: “Alegrem-se sempre no Senhor” (Fp 4.4). O “espírito de escravidão” é trocado pelo “Espírito de adoção” (Rm 8.15). Eles são “de Cristo” (1Co 3.23). São “filhos”, “herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.17). Eles “se gloriam na esperança da glória de Deus” (Rm 5.2). Têm “sempre confiança” e sabem que, “enquanto no corpo”, estão “ausentes do Senhor”, mas que, ao deixar o corpo, irão “habitar com o Senhor” (2Co 5.6-8).
3. Se, então, chegamos a saber que esse grande ato de perdão aconteceu em nosso favor, que ele nos é concedido a nós em particular, e se sabemos disso com aquele grau de convicção que estabelece um fundamento suficiente de consolo e alegria, a simples pergunta é: por que meio alcançamos esse conhecimento? Em todos os sistemas que acabamos de expor, reconhece-se que só a promessa geral de perdão é insuficiente para esse fim; pois, como essa promessa depende de condições, todos eles pretendem explicar o meio pelo qual podemos concluir que temos parte, real e pessoalmente, no benefício da promessa geral, tendo nós, pessoalmente, cumprido as condições. A primeira opinião atribui isso a um testemunho duplo: um direto, do Espírito Santo à nossa mente, e outro indireto, do mesmo Espírito, por meio da nossa própria mente e fundado na sua obra moral nela; ou, o que é a mesma coisa, o testemunho do nosso próprio espírito. Julgamos que esse testemunho duplo fica claramente estabelecido pelos textos citados acima. Quanto ao primeiro, “o próprio Espírito” e “o Espírito de seu Filho” é manifestamente o Espírito de Deus; o seu ofício é dar testemunho, e o objeto do testemunho é declarar que somos filhos de Deus. E, quando o apóstolo, em Romanos 8.16, diz que esse Espírito dá testemunho “com” o nosso espírito, ele faz da nossa própria mente uma testemunha juntamente com ele do mesmo fato, embora de maneira diferente. Pois, embora alguns autores entendam que aqui se usa o verbo composto em lugar da forma simples, e o traduzam por “testificar ao nosso espírito”, e embora ocorram no Novo Testamento exemplos desse uso do verbo composto, concorda tanto com a tradução literal da palavra quanto com outras passagens ligar esse testemunho do Espírito Santo àquelas provas confirmatórias da nossa adoção que nascem da sua obra em nós, e que, ao examinarmos o nosso estado, podem ser chamadas de testemunho da nossa própria mente ou consciência. [N. do T.: o verbo grego é symmartyrei, “testifica juntamente com”; a NAA, ao traduzir “confirma ao nosso espírito”, segue a leitura que Watson aqui rejeita.] A esse testemunho o apóstolo Paulo se refere no mesmo capítulo: “os que vivem segundo o Espírito se inclinam para as coisas do Espírito” (Rm 8.5). “Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9). “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14). E de novo, em Gálatas: “Mas, se são guiados pelo Espírito, vocês não estão debaixo da lei” (Gl 5.18). “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria” etc. (Gl 5.22).
4. Ficam, pois, suficientemente estabelecidas duas testemunhas e um testemunho duplo; mas a principal questão é se o Espírito Santo dá o seu testemunho diretamente à mente, por impressão, por sugestão ou por qualquer outro termo com que se queira chamá-lo, ou mediatamente, por meio do nosso próprio espírito, de algum modo como o descrito pelo bispo Bull no trecho citado acima: “iluminando o nosso entendimento e auxiliando a nossa memória para examinarmos e recordarmos em nós mesmos aqueles argumentos de esperança e consolo” que nascem “das graças que ele produziu em nós”; ou, como o exprime o sr. Scott, “fazendo brilhar a luz sobre a sua própria obra, despertando as afeições deles para um exercício vivo, tornando-as muito eficazes sobre a sua conduta”, e “assim põe a questão fora de dúvida; pois, enquanto sentem para com Deus o espírito de filhos obedientes, ficam convencidos do amor paternal dele para com eles”.
A essa maneira de expor a doutrina objetamos que ela faz do testemunho do Espírito Santo, na prática, apenas o testemunho do nosso próprio espírito; e, ao admitir uma só testemunha, contradiz são Paulo, que, como vimos, admite duas. Pois o testemunho é o da nossa própria consciência de certas mudanças morais que ocorreram; nenhum outro é admitido; e, portanto, é um único testemunho. E o Espírito Santo nem sequer entra em cena, a não ser para habilitar o nosso próprio espírito a dar testemunho, auxiliando o seu “discernimento e memória”, segundo o bispo Bull, e “fazendo brilhar a luz sobre a sua própria obra”, segundo o sr. Scott; e assim há uma só testemunha, e essa testemunha somos nós mesmos. Pois, embora outra pessoa possa ajudar uma testemunha a preparar e ordenar as suas provas, continua havendo um só depoimento e um só depoente. Isso fica ainda mais forte porque ambos os autores supõem que não há nenhuma impressão ou revelação do Espírito sobre o fato da nossa adoção, e que ele não nos ajuda a preparar essa prova de nenhum modo que possamos distinguir da operação da nossa própria mente. Pois, se fosse possível averiguar que esse auxílio, ou esse brilho sobre a sua própria obra, vem distintamente dele, e com a intenção de nos assegurar, a partir dessas mudanças morais, de que fomos adotados na família de Deus, então se suporia uma impressão ou revelação imediata e paralela, que ambos rejeitam. Segue-se, portanto, que não temos outro fundamento para concluir que aquelas “graças e virtudes” que discernimos em nós mesmos são obra do Espírito senão o fundamento geral de que todo bem no homem é produzido por ele; e, com base nesse fundamento geral, poderíamos igualmente concluir que o nosso arrependimento e a nossa contrição são prova de perdão, embora nasçam da consciência da nossa culpa e da nossa necessidade de perdão. O argumento dessa opinião, pura e simplesmente, é que o Espírito Santo opera mudanças morais no coração e que estas são a prova da nossa filiação. Não vai além disso. Essa opinião não exclui o Espírito Santo como fonte do bem no homem; não o exclui como aquele que habilita a nossa mente a apresentar provas de que certas mudanças foram operadas em nós; mas o exclui como testemunha, embora o apóstolo diga tão explicitamente que ele dá testemunho do fato, não de uma mudança moral, mas da nossa adoção.
5. Mas, além disso, suponhamos que a nossa mente seja auxiliada pelo Espírito Santo de modo a discernir a realidade da sua obra em nós, e que, numa investigação sobre se somos ou não aceitos por Deus, perdoados pela sua misericórdia e adotados na sua família, apresentemos isso como prova. Até que grau essa obra do Espírito em nós deve ter avançado para poder ser prova desse fato? Vimos que seria absurdo alegar a contrição, a penitência e o medo como provas do nosso perdão, pois eles supõem que ainda estamos sob condenação. Que obra ulterior do Espírito, então, é a prova? A resposta costuma ser que, embora o arrependimento não deva ser prova de perdão, ele se torna prova quando a fé se lhe acrescenta, pois Deus declarou na sua palavra que somos “justificados, pois, mediante a fé” e que “todo aquele que crê será salvo”.
A isso respondemos que, ainda que viéssemos a ter consciência tanto do arrependimento como da fé, seja por “um ato reflexo da nossa própria mente”, seja pelo auxílio do Espírito “que faz brilhar a luz sobre a sua própria obra”, isso não seria prova do nosso perdão. Nesse caso, o nosso espírito testemunharia o fato de nos arrependermos e crermos, mas isso não seria testemunho do fato da nossa adoção. A justificação é um ato de Deus; é secreta e invisível; passa-se na mente dele; não é declarada por nenhum sinal exterior; e ninguém, exceto o Espírito Santo, que conhece a mente de Deus, pode saber se somos perdoados ou não. Isso só seria possível se estivesse declarado na sua palavra que, em todos os casos, o perdão é concedido quando o arrependimento e a fé chegam a um grau definido, claramente indicado, de modo que não pudéssemos deixar de averiguar que chegaram a esse grau; e, além disso, se estivéssemos expressamente autorizados a ser nós mesmos os juízes deste caso e a concluir, com confiança e consolo, a nossa justificação. Pois não basta que tenhamos fé. A fé, tanto como assentimento quanto como confiança, admite todos os graus possíveis; pode misturar-se com a dúvida e com a confiança em si mesmo; e, se não se atribuíssem à fé justificadora certas características definidas e particulares, jamais poderíamos tirar com alguma confiança uma conclusão sobre a nossa. Mas não temos tal descrição particular da fé; nem estamos autorizados em parte alguma a fazer-nos juízes do fato de se o ato de perdão, quanto a nós, já se passou na mente de Deus. O apóstolo, nas passagens citadas acima, atribuiu esse ofício ao Espírito Santo; mas em parte alguma da Escritura ele é confiado a nós.
Se, pois, não temos autorização de Deus para concluir que somos perdoados quando a fé, num grau incerto, se acrescenta ao arrependimento, tudo se torna uma questão de inferência; e argumentamos que, tendo “arrependimento e fé”, estamos perdoados; em outras palavras, que estes são as provas suficientes do perdão. Mas o arrependimento e a fé são exercidos para obter o perdão; este, portanto, tem de vir depois de ambos, e por essa razão eles não podem ser a prova dele; do contrário, a prova do perdão poderia ser desfrutada antes de o perdão ser de fato recebido, o que é absurdo. Mas já se disse “que temos o testemunho de Deus na sua palavra de que, quando existem arrependimento e fé, Deus ligou infalivelmente a eles o perdão, desde o momento em que se percebe que existem, e assim ele pode ser deduzido deles com segurança”. A resposta é que não temos tal testemunho. Temos, pela misericórdia de Deus, a promessa de perdão a todos os que se arrependem e creem; mas o arrependimento não é o perdão, e a fé não é o perdão: são os seus pré-requisitos. Cada um deles é uma condição indispensável, mas certamente não é o próprio perdão; nem, como acabamos de ver, qualquer deles pode ser considerado prova do perdão sem cair num absurdo. São meios para esse fim, e nada mais. E, embora Deus tenha “ligado infalivelmente” a bênção do perdão ao arrependimento e à fé, não a ligou a qualquer tipo de arrependimento nem a qualquer tipo de fé, nem a todo grau de arrependimento nem a todo grau de fé. Como, então, saberemos algum dia se o nosso arrependimento e a nossa fé foram aceitos, a menos que o perdão de fato se siga a eles? E, como esse perdão não pode ser atestado por eles, pela razão dada acima, e precisa, portanto, de um atestado de autoridade mais alta e de natureza distinta, o único atestado concebível que resta é o testemunho direto do Espírito Santo. Ou se reconhece isso, ou há de permanecer por toda a vida uma dolorosa incerteza quanto à autenticidade, ou à medida e ao grau exigidos, do nosso arrependimento e da nossa fé, incerteza totalmente destruidora do “consolo”.
6. Mas, se nem o nosso arrependimento, nem mesmo a consciência da fé unida a ele, podem ser a prova do fato da nossa adoção, tem-se alegado que, quando se encontram na nossa experiência todas aquelas graças que são chamadas frutos do Espírito, essas ao menos devem ser prova suficiente do fato, sem que se suponha um testemunho mais direto do Espírito Santo. Os “frutos” a que assim se faz referência são os enumerados por são Paulo na sua epístola aos Gálatas: “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade” etc. (Gl 5.22). Duas coisas serão aqui concedidas, e elas fortalecem muito o argumento em favor de um testemunho direto do Espírito Santo: que esses frutos só se encontram naqueles que, pela remissão dos seus pecados, foram recebidos no favor divino; e que são frutos do Espírito de adoção. A primeira prova-se pela ligação com as palavras que se seguem: “E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne” etc. (Gl 5.24). Pois ser “de Cristo” e estar “em Cristo” são, para o apóstolo, expressões equivalentes a estar em estado de justificação: “já não existe nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). A segunda prova-se pela ligação dessas palavras com o versículo 18: “Mas, se são guiados pelo Espírito, vocês não estão debaixo da lei”; pois essas palavras são exatamente paralelas a 4.5-6: “para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!'” (Gl 4.5-6). Esses são, portanto, os frutos que se seguem a um estado de perdão e de adoção e ao recebimento do Espírito de adoção. Admitimos que pressupõem o perdão; mas então pressupõem com a mesma clareza o Espírito de adoção, “enviado ao nosso coração”, que clama: “Aba, Pai!”; isto é, não só pressupõem o nosso perdão, mas um perdão previamente atestado e dado a conhecer a nós. A persuasão desse perdão, transmitida à mente, não por esses frutos, mas pelo Espírito de adoção, é o fundamento deles; pelo menos daquele “amor, alegria e paz”, que são mencionados em primeiro lugar e que, no argumento, não devem ser separados dos outros. Nem podem esses “frutos” resultar de outra coisa senão do perdão manifestado; eles mesmos não podem manifestar o nosso perdão, pois não podem existir antes que este seja manifestado. Se “amamos a Deus”, é porque o conhecemos como Deus reconciliado; se temos “alegria em Deus”, é porque “recebemos, agora, a reconciliação” (Rm 5.11); se temos paz, é porque, “justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1). Deus, concebido como irado, não pode ser objeto de amor filial; um perdão que não se sente supõe que a culpa e o medo ainda pesam sobre a mente, e a culpa não pode coexistir com a “alegria” e a “paz”. Mas, pelo argumento dos que fazem desses frutos os meios de averiguar o fato do nosso perdão e da nossa adoção, teríamos de supor que amamos a Deus enquanto ainda o sentimos irado conosco, que nos alegramos e temos paz enquanto não foram removidas as temerosas apreensões das consequências do pecado não perdoado. E, se isso é impossível, então o fundamento do nosso amor, da nossa alegria e da nossa paz é o perdão revelado e testemunhado, direta e imediatamente, pelo Espírito de adoção.
Já se disse, é verdade, que o amor a Deus pode ser produzido pela consideração do amor geral de Deus à humanidade no seu Filho, e que, portanto, a força do argumento acima fica quebrada. Mas respondemos que, na Escritura, fala-se dos cristãos como “reconciliados com Deus”, como “transportados para o Reino do seu Filho amado” (cf. Cl 1.13), como “filhos”, “herdeiros” etc.; e, em correspondência com essas relações, fala-se do seu amor como amor a Deus como seu Pai, amor a Deus como seu Deus na aliança, que se chama a si mesmo “o seu Deus” e a eles “o meu povo”. Esse é o amor a Deus apresentado no Novo Testamento; e a questão é se um amor a Deus como esse pode brotar do conhecimento do seu “amor geral ao homem” ou se nasce, sob a influência do Espírito, da persuasão do seu amor que nos perdoa “individualmente”. Para esclarecer isso, podemos dividir os que ouvem o evangelho, ou os cristãos de profissão, nas seguintes classes: os carnais e descuidados; os desesperados; os penitentes, que buscam a Deus com esperança e também com desejo, ora desanimados pelos seus temores e abatidos sob o peso da culpa de que têm consciência, ora animados por algum grau de esperança; e, por último, os que são “justificados mediante a fé” e têm “paz com Deus”. A primeira classe conhece o “amor geral de Deus ao homem”, mas ninguém alegará que eles o amam. A segunda conhece o “amor geral de Deus ao homem”, mas, julgando-se excluída da sua misericórdia, não pode amá-lo por esse motivo. A terceira admite o mesmo “amor geral de Deus ao homem”, e ele é o fundamento da sua esperança; mas isso produz amor? A contemplação da sua misericórdia no dom do seu Filho e na promessa geral pode produzir algum grau dessa emoção, ou talvez, mais propriamente, de gratidão; mas amam eles a sua justiça, sob cuja condenação se sentem, e a sua santidade, cuja tremenda pureza os enche de medo? Se não, não amam a Deus como Deus, isto é, como um todo, em todas as suas perfeições, as terríveis tanto quanto as atraentes, as que alarmam tanto quanto as que animam; e esse é, sem dúvida, o caráter do amor dos que são justificados pela fé. Mas, deixando de lado essa distinção mais sutil, a questão principal é: amam-no eles como Pai, como seu Deus na aliança, com o amor que conduz consigo as afeições de “paz e alegria”, bem como de “benignidade, bondade e fidelidade”? Pois é nessa companhia, por assim dizer, que o apóstolo coloca essa graça, quando ela é um “fruto do Espírito”, do “Espírito que os que nele cressem haviam de receber” (Jo 7.39). Isso é impossível; pois esses penitentes que buscam, embora tenham esperança, não consideram Deus como seu Pai naquele sentido especial em que a palavra é correlata de “filhos e herdeiros”; não o consideram como seu Deus naquela aliança que diz: “para com as suas iniquidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei”; “eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Hb 8.12,10). É isso o que buscam, mas ainda não encontraram; e não podem amar a Deus sob relações nas quais sabem, e sentem dolorosamente, que ele ainda não está para com eles. Conhecem o seu “amor geral ao homem”, mas não o seu amor que os perdoa; e, portanto, não podem amá-lo como reconciliado com eles pela morte do seu Filho. Segue-se, portanto, que só a última classe, os “justificados mediante a fé”, tem para com Deus aquele amor que é marcado pelas características que os apóstolos lhe imprimem. Ele é o Pai deles, e eles o amam como seus filhos; ele é o seu Deus na aliança, e, como podem, nesse sentido apropriador, chamá-lo de seu Deus, amam-no de modo correspondente, embora não adequado. O seu amor, portanto, repousa na persuasão de que têm parte pessoal e individual na misericórdia dele, que os perdoa, os adota e cumpre para com eles a aliança; e, onde esses benefícios não são desfrutados pessoalmente, esse tipo de amor a Deus não pode existir. Julgamos, pois, que isso estabelece suficientemente o fato de que as Escrituras do Novo Testamento, quando falam do amor dos crentes a Deus, sempre supõem que ele nasce da persuasão do amor especial de Deus por eles como indivíduos, e não apenas do conhecimento do seu “amor geral” à humanidade.
Há outros que, ao tratar desses frutos do Espírito, deixam de lado o “amor, alegria e paz” e fixam a atenção apenas na “benignidade, bondade, mansidão, fidelidade e domínio próprio”, como as graças que compõem a nossa santidade prática, e assim deduzem a justificação a partir da regeneração, que é sem dúvida um concomitante dela. A resposta é que o fruto do Espírito é indiviso; que, portanto, todas as tentativas de separá-lo são culpáveis e enganosas; e que, onde não há “amor, alegria e paz”, não temos razão bíblica para concluir que haja aquela benignidade, aquela bondade, aquela mansidão etc. de que fala o apóstolo, ou, em outras palavras, que haja aquele estado de regeneração que a Escritura descreve; pelo menos não de ordinário, pois deixamos que as épocas de profundo exercício espiritual e os casos de depressão física sejam tratados segundo as suas particularidades. Assim esse argumento cai por terra. Mas chega-se à mesma conclusão por outro caminho. As pessoas dessa opinião deduziriam o perdão a partir da santidade; mas a santidade consiste em disposições habituais e atos cujo princípio é o amor a Deus, pois primeiro “amamos a Deus” e depois “praticamos os seus mandamentos” (cf. 1Jo 5.2). A santidade, portanto, é precedida pelo amor como sua raiz, e o amor, como vimos, pelo perdão manifestado. Pois esse amor é o amor de um pecador perdoado a Deus como Pai, como Deus numa aliança efetiva, oferecida de um lado e aceita do outro; e ele existe antes da santidade, assim como o princípio existe antes do ato e da disposição habitual. No processo, então, de deduzir o nosso estado de justificação a partir de mudanças morais, se encontramos aquilo que julgamos ser santidade sem amor, essa é a santidade de um fariseu, sem princípio. Se lhe acrescentamos o amor que se supõe poder brotar do amor geral de Deus ao homem, esse é um princípio de que a Escritura não toma conhecimento e que, na melhor das hipóteses, se é que existe, deve ser um sentimento muito misturado e deficiente, incapaz de dar origem a uma santidade como a que distingue a “nova criatura” (2Co 5.17). Não é, portanto, uma prova legítima nem de regeneração nem de justificação. Mas, se encontramos amor a Deus como Deus reconciliado, como Pai, como Deus que “nos ama”, é evidente que, sendo esse amor a raiz da santidade, ele a precede; e temos de considerar Deus sob essas amáveis relações com base em alguma outra prova que não “o testemunho do nosso próprio espírito”, e essa prova não pode ser outra senão a do Espírito de Deus.
Fica assim estabelecido que o testemunho do Espírito é direto, e não mediato; e os trechos seguintes mostrarão que essa não é uma doutrina nova nem sem respaldo. Lutero “foi fortalecido pelas palavras de um velho monge agostiniano a respeito da certeza que podemos ter de que os nossos pecados estão perdoados. Deus também lhe deu muito consolo nas suas tentações por meio daquele dito de são Bernardo: ‘É necessário crer, antes de tudo, que você não pode ter perdão senão pela misericórdia de Deus; e, em seguida, que, pela misericórdia dele, os seus pecados estão perdoados.’ Esse é o testemunho que o Espírito Santo dá no seu coração: ‘Os seus pecados estão perdoados.’ E assim é que, segundo o apóstolo, o homem é justificado gratuitamente pela fé.” (Life of Martin Luther, de John Daniel Hersmchmid [N. do T.: assim no original; o nome do autor alemão é provavelmente Johann Daniel Herrnschmid].)
“No salmo 88 está contida a oração de alguém que, embora sentisse em si mesmo que não só os homens, mas também Deus estava irado contra ele, ainda assim recorreu humildemente a Deus pela oração, como ao único porto de consolação; e, no meio do seu estado desesperado de aflição, pôs a esperança da sua salvação naquele que sentia como seu inimigo. Contudo, ninguém pode fazer isso por si mesmo; mas o Espírito de Deus, que fere de medo o coração do homem, ora pelo homem ferido e amedrontado com gemidos inexprimíveis. E, quando você sentir isso em si mesmo e souber de algum outro oprimido dessa maneira, alegre-se; pois, depois que Deus lhe fez saber o que você é por si mesmo, ele sem dúvida lhe mostrará consolo e lhe declarará o que você é em Cristo, seu único Filho. E use a oração com frequência, pois esse é o meio pelo qual Deus quer ser buscado para conceder os seus dons.” (Bispo Hooper. Ver Fox, Acts and Monuments.)
“O efeito próprio do sangue de Cristo é purificar a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo; e, se vemos que ele o faz, Cristo veio a nós como há de vir; e o Espírito veio e põe o seu teste (testemunho). E, se temos o seu teste, podemos seguir o nosso caminho em paz; celebramos para ele uma festa verdadeira, em memória da sua vinda. Assim, vem, Senhor Jesus, e vem, ó bendito Espírito, e dá testemunho ao nosso espírito de que temos parte na água de Cristo e no seu sangue, em ambos: tanto na fonte aberta para remover o pecado e a impureza como no sangue da nova aliança, cujo legado é a vida eterna no teu reino de glória.” (Bispo Andrew, Sermon of the sending of the Holy Ghost.)
“O Espírito que Deus nos deu para nos assegurar de que somos filhos de Deus, para nos capacitar a invocá-lo como nosso Pai.” (Hooker, Sermon of Certainty of Faith.)
“A vocês, porque são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de vocês, a fim de que saibam que Cristo os edificou sobre uma rocha inabalável, que ele registrou os nomes de vocês no Livro da Vida.” (Hooker, Sermon on Jude.)
“Da adoção brota toda a alegria dos cristãos; pois o Espírito de adoção é, primeiro, uma testemunha (Rm 8.16); segundo, um selo (Ef 4.30); terceiro, o penhor e a garantia da nossa herança (Ef 1.14), que firma na alma uma santa segurança, pela qual ela se alegra até na aflição, na esperança da glória.” (Arcebispo Usher, Sum and Substance of Christian Religion.)
“Este é um grande ofício do Espírito Santo: ratificar e selar para nós o perdão dos nossos pecados. ‘Tendo nele também crido, receberam o selo do Espírito Santo da promessa’ (Ef 1.13) etc.” (Bispo Brownrigg, Sermon on Whitsunday.)
“É ofício do Espírito Santo assegurar-nos da adoção de filhos, criar em nós o senso do amor paternal de Deus para conosco, dar-nos o penhor da nossa herança eterna. O amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5.5). Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus (Rm 8.14). E, porque somos filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!’ (Gl 4.6). Porque não recebemos um espírito de escravidão, para vivermos outra vez atemorizados, mas recebemos o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai.’ O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus (cf. Rm 8.15-16). Assim, pois, como nascemos de novo pelo Espírito e dele recebemos a nossa regeneração, assim também somos assegurados da nossa adoção pelo mesmo Espírito; e, porque, sendo filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (Rm 8.17), pelo mesmo Espírito temos o penhor, ou antes, a garantia da nossa herança. Pois aquele que nos confirma em Cristo e que nos ungiu é Deus, que também pôs o seu selo em nós e nos deu o penhor do Espírito em nosso coração (2Co 1.21-22); de modo que recebemos o selo do Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança, até o resgate da sua propriedade (Ef 1.13-14).” (Bispo Pearson, sobre o Credo.)
“Este é aquele πνεῦμα υἱοθεσίας, aquele Espírito de adoção que nos constitui filhos de Deus, habilitando-nos a sê-lo por disposições semelhantes às de Deus e por afeições filiais para com ele; que nos certifica de que o somos e nos leva, por um impulso livre, a clamar: Aba, Pai, correndo para o seu seio de amor e refugiando-nos sob as asas da sua misericórdia em todas as nossas necessidades e aflições. Por isso, todos os que são guiados pelo Espírito, esses (diz Paulo) são filhos de Deus, e o próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus.” (Dr. Isaac Barrow, Sermon on the Gift of the Holy Ghost.)
O segundo testemunho é o do nosso próprio espírito, “e é a consciência de termos recebido, no Espírito de adoção e por meio dele, as disposições que a palavra de Deus menciona como próprias dos seus filhos adotivos; de que somos interiormente conformados pelo Espírito de Deus à imagem do seu Filho, e de que andamos diante dele em justiça, misericórdia e verdade, fazendo as coisas que lhe são agradáveis.” (Wesley, Sermons.) Mas observe-se que esse testemunho não se refere diretamente ao fato da nossa adoção, e sim ao fato de que recebemos de verdade o Espírito de adoção e de que não estamos sob impressões ilusórias. Isso nos permitirá responder a uma objeção comum à doutrina do testemunho direto do Espírito. A objeção é que, quando o depoimento de uma primeira testemunha precisa ser sustentado pelo de uma segunda antes que se possa confiar plenamente nele, parece que de modo algum ele tem um “caráter decisivo e satisfatório; e que seria igualmente bom recorrer de uma vez ao depoimento que, afinal de contas, parece sustentar o peso principal da causa”. A resposta não é difícil; e, se o fosse, a objeção nada pesaria contra um texto expresso da Escritura que fala do testemunho do Espírito Santo e do testemunho do nosso próprio espírito. Ambos, portanto, devem ser tidos por necessários, ainda que não víssemos como eles se acompanham e se relacionam mutuamente. O caso, porém, não está envolto em completa obscuridade. O nosso próprio espírito não pode ter conhecimento algum da mente de Deus quanto ao nosso perdão efetivo, e não pode dar testemunho desse fato. Só o Espírito Santo, que conhece a mente de Deus, pode ser essa testemunha; e, se o fato de que Deus está reconciliado conosco só pode ser conhecido por ele, só por ele pode ser atestado a nós. Não pode, portanto, ser “igualmente bom para nós recorrer de uma vez ao depoimento do nosso próprio espírito”, porque, quanto a esse fato, o nosso próprio espírito não tem depoimento algum a dar. Não pode dar um depoimento direto sobre ele, pois não sabemos o que se passa na mente do Deus invisível; e não pode dar um depoimento indireto sobre o fato, pois a Escritura não apresenta nenhuma mudança moral de que o nosso espírito possa ter consciência como prova do nosso perdão. Essas mudanças provam que há uma obra de Deus no nosso coração, mas não são provas do nosso perdão efetivo. O nosso próprio espírito é testemunha competente de que foram produzidos no nosso coração e no nosso caráter os efeitos morais que é ofício do Espírito Santo produzir; prova, portanto, a realidade da presença do Espírito Santo conosco e em nós. Aquela testemunha competente e infalível deu o seu testemunho de que Deus se tornou nosso Pai; derramou o seu santo consolo, o consolo que nasce do senso do perdão; e a sua operação moral dentro de nós, que acompanha esse consolo ou se segue imediatamente a ele, fazendo de nós novas criaturas em Cristo Jesus, é a prova de que não estamos iludidos quanto à testemunha que dá esse testemunho, que é, de verdade, o Espírito de Deus.
Das quatro opiniões sustentadas pelos teólogos sobre este assunto, só a primeira é plenamente conforme à Escritura e deve, portanto, ser crida e ensinada. A segunda opinião fica refutada no nosso exame da terceira; pois aquilo que se chama “o ato reflexo da fé” é apenas a consciência de crer, e mostramos que a fé tem de ser exercida para obter o perdão, mas não pode ser prova dele. A terceira opinião foi examinada em todas as suas partes, exceto a referência a “vozes e impulsos” na citação do Commentary de Scott, que parece ter sido lançada ali apenas para impressionar o leitor. A isso podemos responder que, seja qual for o modo pelo qual o Espírito Santo revela ao homem o fato da sua adoção, ele o faz pela sua influência e pela sua operação inexplicável, que produz clara satisfação e convicção de que Deus está reconciliado, de que as nossas “transgressões são perdoadas” e os nossos “pecados são cobertos” (cf. Rm 4.7). A quarta opinião foi refutada quando foi exposta pela primeira vez.