Um profeta expulso, um movimento que atravessou o mundo

Perguntas que orientam esta biografia.
O que leva um pastor promissor, formado em universidade e apreciado pelo povo, a ser expulso de sua denominação aos 35 anos?
E o que faz esse mesmo homem, em vez de amargurar-se, fundar um movimento que hoje alcança dezenas de países?
Que combinação de santidade pessoal, coragem profética e sensibilidade social explica a vida de B. T. Roberts?
Benjamin Titus Roberts — BTR, nos círculos metodistas livres — viveu quase setenta anos que atravessaram as grandes revoluções políticas, sociais e tecnológicas do século XIX americano, incluindo a Guerra Civil. Sua vida entrelaça três correntes que marcaram profundamente o cristianismo norte-americano daquele século: o avivalismo, o abolicionismo e o perfeccionismo wesleyano — a busca da santidade.
Howard Snyder, seu principal biógrafo, chamou B. T. e sua esposa Ellen de “santos populistas” — populistas no sentido mais nobre do termo: um cristianismo de e para o povo, todo o povo, especialmente os pobres e oprimidos.
A história que segue foi construída a partir das fontes mais confiáveis: a biografia escrita por seu filho Benson H. Roberts (1900), a biografia dupla de Esther M. Roberts, O Bispo e sua Esposa (1962), e a monumental obra de Howard A. Snyder, Populist Saints (2006), além dos escritos do próprio Roberts.
Benjamin Titus Roberts nasceu em 25 de julho de 1823, no oeste do Estado de Nova York, filho de Titus e Sally Roberts, cristãos ativos e dedicados. A família viveu perto de Forestville e depois em Gowanda, na região que os historiadores chamariam de “distrito queimado” (burned-over district), assim apelidada pela intensidade dos avivamentos que a varreram na primeira metade do século XIX.
Desde cedo o menino demonstrou capacidade intelectual notável: aos 16 anos já lecionava enquanto estudava Direito. Quando o pastor presbiteriano John Preston se ofereceu para custear sua formação para o ministério, o adolescente respondeu com honestidade reveladora: “Não posso aceitar, pois ainda não me converti.” Como observa Snyder, o jovem Roberts já se convertera à causa antiescravagista — mas ainda não a Jesus.
“Cristo exigiu uma rendição incondicional. Eu a fiz. As alegrias do perdão e da paz fluíram para a minha alma; meu cálice transbordou; minha felicidade era indizível.”
Por volta de seu vigésimo primeiro aniversário, num culto de oração, um tanoeiro analfabeto levantou-se e, com lábios gaguejantes, contou como Deus o transformara. A humildade simples daquele operário tocou o jovem advogado, que se viu como pecador perdido, necessitado da graça (Rm 3.23–24). Houve luta: Roberts queria ser cristão desde que pudesse manter a carreira jurídica. Mas a questão se pôs como escolha entre a advocacia e Deus — e ele escolheu Deus.
A conversão redirecionou tudo. Ingressou no Seminário Wesleyano de Genesee (1845) e depois na Universidade Wesleyana, em Middletown, Connecticut, onde completou rigorosa formação em artes liberais, sustentando-se como professor. Ali três influências o marcaram: o reitor Stephen Olin, que o manteve rumo ao pastorado (“Há mais gente para ensinar do que para pregar”); o evangelista John Wesley Redfield, sob cujo ministério houve um poderoso avivamento — ao vê-lo, Roberts exclamou: “Isto é o metodismo!”; e amizades duradouras, como a de William C. Kendall. Graduou-se em 1848.

Um amor que se tornou ministério — e sem o qual não haveria B. T. Roberts.
Pouco antes da formatura, Roberts conheceu Ellen Lois Stowe, jovem de Nova York que visitava o campus. Ellen anotou em seu diário: “Gostei do tom da mente dele.” No dia seguinte à formatura caminharam até o bosque de Pameacha; ele subiu num galho e recitou versos de poesia. Despediram-se — e Ellen temeu nunca mais vê-lo. Mas uma densa neblina forçou o vapor em que ele viajava a retornar ao porto, e na manhã seguinte ele estava de novo à sua porta, pedindo permissão para escrever-lhe. Ela disse sim.
Ellen nascera em 1825, em Windsor, NY. Crescera em Manhattan, na casa dos tios George e Lydia Lane — George era o publicador oficial da Igreja Metodista. Morava perto de Phoebe Palmer, figura central do movimento de santidade, e via na tia Lydia um modelo de piedade e serviço aos pobres: “Como ela orava! Ela trazia o céu para baixo.”
Separados por cerca de 650 quilômetros, cultivaram o relacionamento por cartas e só voltaram a se ver no dia do casamento, em maio de 1849, em Manhattan — cerimônia à qual, diz a tradição, compareceram quatro bispos. Foi um casamento notavelmente feliz e igualitário para os padrões da época: Roberts afirmava que o casamento devia ser uma parceria de iguais. Já no fim da vida, comentava sorrindo: “Ainda não tivemos a primeira briga, não é mesmo?”
Ellen seria intercessora, conselheira, administradora e colaboradora indispensável em tudo o que ele construiu — a ponto de a história de um não poder ser contada sem a do outro (Ec 4.9–12).
“Você é mais preciosa do que casas e terras. Deus me deu você, e eu quero cuidar de você o melhor possível.”

Roberts começou a pregar em 1848, quando o metodismo americano se tornava a maior denominação protestante do país e o pregador itinerante dava lugar ao pastor profissional estabelecido. Como os pastores serviam apenas dois anos em cada igreja, ele passou por sete igrejas em dez anos, todas no Concílio de Genesee: Caryville, Pike, Rushford, Buffalo, Brockport, Albion e Pekin.
Seu primeiro sermão, em Caryville, tratou da pureza de coração a partir de Mateus 5.8 — “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mt 5.8) — tema que se tornaria a nota dominante de toda a sua pregação: a necessidade e a possibilidade da santidade (Hb 12.14). Naquele primeiro ano, cerca de 40 novos membros foram recebidos.
Num acampamento, teve uma visão espiritual decisiva: diante dele se abriam dois caminhos — um de popularidade e facilidade, outro de fidelidade à verdade com aflição e perseguição. Escolheu conscientemente o segundo.
Em Buffalo (1852), enfrentou de perto o sistema de aluguel e venda de bancos (pews), que reservava os melhores lugares a quem pudesse pagar. Propôs quitar as dívidas da igreja se os assentos se tornassem livres para todos; a congregação recusou. Em Brockport (1853–55) liderou avivamento vigoroso e fundou o acampamento de Bergen — mas ali o casal provou sua maior dor: a filha Sarah Georgiana, nascida em janeiro de 1855, morreu em agosto. “Às vezes parece que meu coração vai partir”, escreveu Ellen. Sustentados pela graça, prosseguiram (2Co 1.3–4).
Em Albion (1855–57), começou a publicar. Seus três artigos “Igrejas Livres” (1856) argumentavam, em bases bíblicas, contra o aluguel de bancos: um sistema que humilha o pobre à porta do templo nega o evangelho que Jesus anunciou aos pobres (Lc 4.18; Tg 2.1–9). As nuvens começavam a se acumular.

Seis dias antes do Concílio de 1857, Roberts publicou “Metodismo da Nova Escola” — o estopim de sua expulsão. Sem citar nomes, denunciava o aluguel de bancos e uma “nova teoria de religião” que colocava as boas obras no lugar da fé e confundia justificação com santificação, “muito diferente do ensino dos pais do metodismo”.
Líderes poderosos apresentaram acusações formais de “conduta não cristã e imoral” — por um artigo de opinião. No julgamento, presidido pelo bispo Osman Baker, Roberts usou suas habilidades de advogado, mas foi condenado por 52 a 43 e repreendido. Aceitou a repreensão, mas não a sua justiça, e anunciou que apelaria.
O caso poderia ter morrido ali. Mas um homem do Concílio, George Estes, sem o conhecimento de Roberts, republicou e distribuiu o artigo com um relato inflamado do julgamento. Isso levou ao segundo julgamento (1858). Acusado de participar da republicação — o que não era verdade —, Roberts defendeu-se habilmente, mas foi condenado por 62 a 32 e expulso do ministério e da denominação por 54 a 33. Quando a conferência se encerrou, em 22 de outubro de 1858, ele estava sem igreja, sem denominação, sem nomeação e sem casa pastoral.
Ellen reagiu com serenidade surpreendente: sentia vontade de rir — “o riso de uma criança inocente que não tem preocupação alguma”. No domingo seguinte, o casal assentou-se humildemente entre o povo na igreja de Pekin. Como observa Snyder, o julgamento tratava, na verdade, da direção que o metodismo tomava — e da audácia de Roberts em desafiar o poder estabelecido.
“Aqueles irmãos expulsos estavam entre os melhores homens que o Concílio continha.”

Os dois anos seguintes foram tempo de espera e discernimento. Roberts fixou residência em Buffalo e viajou pregando onde era convidado. Dois acontecimentos foram decisivos. Em janeiro de 1860, fundou a revista The Earnest Christian (“O Cristão Zeloso”), que circularia pelo nordeste dos EUA, Canadá e além — durante a Guerra Civil, chegou às mãos de soldados da União. Roberts a editaria por 33 anos, até a morte.
E fundou a primeira igreja metodista livre — em St. Louis, Missouri, onde ainda havia leilões de escravos. Vendo “uma leva de escravos atravessando as ruas”, escreveu: “A praga da escravidão estende-se a tudo… Deus me ajude a fazer tudo o que puder em favor da pobre humanidade sofredora.” A igreja proibia estritamente a posse de escravos. Ali o termo “livre” ganhou seu sentido mais amplo (Gl 5.1).
Em maio de 1860, o Concílio Geral metodista, reunido em Buffalo, negou o apelo de Roberts. Estava claro que uma nova denominação teria de nascer. A Igreja Metodista Livre teve dupla fundação: em 2 de julho de 1860, em Illinois, e em 23 de agosto de 1860, em Pekin, NY — data tradicionalmente lembrada. Em ambas, Roberts, então com 37 anos, foi eleito por unanimidade Superintendente Geral (mais tarde, “bispo”).
A convenção afirmou “inabalável apego às doutrinas próprias da Igreja Metodista Episcopal”: não pretendia inovar, mas manter o metodismo original. Suas marcas eram práticas: assentos gratuitos em todas as casas de culto; proibição da posse de escravos; proibição de sociedades secretas; representação igual de ministros e leigos; simplicidade; e liberdade para o Espírito no culto, sempre “com decência e ordem” (1Co 14.40).
“Manter o padrão bíblico do cristianismo e pregar o evangelho aos pobres.”
O crescimento foi imediato. Em 1864, três concílios anuais somavam 3.655 membros e 67 pregadores; seis anos depois, eram 6.556 membros, com novos concílios em Michigan e Kansas. Durante os 33 anos da liderança de Roberts (1860–1893), organizaram-se cerca de trinta concílios anuais. A igreja logo ampliou a superintendência para três: B. T. Roberts, E. P. Hart e George W. Coleman.

Abolição, igualdade racial, missão urbana e a causa dos fazendeiros.
A fé de Roberts nunca foi privatista: para ele, o evangelho da santidade desembocava necessariamente em justiça (Mq 6.8). Abolicionista antes mesmo de converter-se a Cristo, fez da oposição à escravidão uma marca de seu ministério. Após a Guerra Civil, protestou contra a falta de educação e oportunidades para os ex-escravos; o Concílio de Illinois, em 1865, aprovou resolução defendendo direitos civis iguais para todos, independentemente da cor da pele — um século à frente de seu tempo.
“Você não pode ir aonde o amor de Deus já não tenha ido antes de você, pelo seu bendito Espírito, para conduzir pecadores a Cristo.”
Um episódio dos anos 1870, contado por seu filho Benson, ilustra o homem. Num trem, um passageiro furioso exigiu que jovens negros bem-vestidos fossem transferidos para a segunda classe. Roberts levantou-se e os defendeu; eles tomaram seus assentos. Ao descer, cercaram-no, agradeceram e cantaram “uma belíssima canção”. Eram os famosos Jubilee Singers da Universidade Fisk. “Ele tomava o partido do oprimido”, resumiu Benson.
A mesma sensibilidade estendeu-se aos agricultores esmagados por monopólios e ferrovias. Roberts proferiu a palestra “Uma conspiração contra os fazendeiros” e foi o principal articulador da Aliança dos Fazendeiros de Nova York, modelo para a Aliança Nacional. E quando uma taverna se instalou perto de sua escola, organizou um comício de temperança, levantou cerca de 500 dólares, comprou o estabelecimento e o fechou.

Pouco depois da fundação da igreja, Roberts sonhava com uma escola “onde meninos e meninas pobres pudessem ser ajudados a obter educação”. Em 1866, ele e Ellen compraram uma fazenda de 145 acres em North Chili, perto de Rochester, e começaram na própria casa o Seminário Chili. Sua filosofia unia piedade e labor: “As crianças devem também ser treinadas na prática do trabalho, pois o trabalho é bênção, não maldição” — educação integral, corpo e mente (2Ts 3.10; Cl 3.23).
A escola cresceu: 56 alunos em 1869–70, 102 no ano seguinte. Em 1885, um legado de 30 mil dólares deu-lhe o nome de A. M. Chesbrough Seminary. Tornou-se, com o tempo, o Roberts Wesleyan College e, hoje, a Roberts Wesleyan University — a primeira instituição norte-americana de ensino superior batizada em honra de B. T. Roberts.
Ellen foi a alma espiritual do campus: liderava a reunião de classe das terças-feiras à noite e, nas longas ausências do marido, carregava boa parte do peso administrativo e financeiro da escola.
O impulso educacional e missionário multiplicou-se. A denominação formou uma Junta Geral de Missões, e missionários metodistas livres partiram para a Índia (1880), África (1885 — Moçambique, África do Sul e Libéria), República Dominicana (1889) e, depois da morte de Roberts, Japão, Egito e China. Seu livro Fishers of Men (“Pescadores de Homens”, 1878) destila sua paixão evangelística.

Desde cedo Roberts destoou da maioria quanto ao ministério feminino. Já no Concílio de Genesee, contra resoluções que proibiam a pregação de mulheres, seu diário registra: “Falei contra elas.” No Concílio Geral metodista livre de 1890, sustentou que, se as mulheres já faziam o trabalho pastoral, deviam receber a mesma ordenação e reconhecimento que os homens. O Concílio votou primeiro a favor e, reconsiderando, votou contra. Foi uma das maiores decepções de sua vida: “Não sei se desejo assistir a mais outro Concílio Geral.”
Sua resposta foi um livro: Ordaining Women (“Ordenando Mulheres”, 1891), uma das defesas mais vigorosas da ordenação feminina do século XIX, fundamentada em Gl 3.28; At 2.17–18; Rm 16. A dedicatória revela a raiz da convicção: Ellen, que por 42 anos permanecera fielmente ao seu lado no ministério do evangelho.
“Seria melhor que os homens se ocupassem da edificação do templo de Deus, em vez de gastar seu tempo empurrando suas irmãs para fora dos andaimes — sendo elas tão capazes quanto desejosas de trabalhar lado a lado com eles.”

Que teologia sustentava tudo isso? Roberts foi, do início ao fim, um wesleyano convicto. Sua bandeira era a doutrina da inteira santificação — o amor perfeito — tal como ensinada por João Wesley: embora imperfeito em conhecimento, o cristão pode ser perfeito no amor (Mt 5.48; 1Jo 4.17–18); a santidade é obra da graça, recebida pela fé, e não conquista moral; e o novo nascimento deve ser seguido de uma obra mais profunda do Espírito, que purifica o coração (At 15.8–9).
Três acentos marcam sua espiritualidade: a simplicidade — culto, vestes e templos simples, para que o pobre nunca se sinta estrangeiro na casa de Deus; a liberdade do Espírito — cultos fervorosos, mas “com decência e ordem” (1Co 14.40); e o evangelho aos pobres como teste de fidelidade: uma igreja que se organiza para agradar aos ricos já apostatou na prática, ainda que sua doutrina permaneça ortodoxa (Tg 2.5–6).
“Deus está transtornando, transtornando, e em breve veremos harmonia por toda parte. Amém.”

O Concílio de 1890 deixou Roberts esgotado. Ele sabia que seu coração estava seriamente doente e, com serenidade, pôs em ordem suas contas. Ainda assim, organizou o Concílio do Sul da Califórnia e viajou ao Sul e à Nova Inglaterra. Na sexta-feira, 24 de fevereiro de 1893, partiu para Cattaraugus, NY, a fim de dirigir um concílio distrital, pernoitando em Gowanda para visitar a mãe, que aos noventa anos ainda gozava de boa saúde.
Na manhã seguinte, ao fazer baldeação em Dayton, sofreu um ataque cardíaco. Durante dois dias recitou promessas bíblicas e hinos. Na segunda-feira, 27 de fevereiro de 1893, após uma última crise, exclamou: “Louvado seja o Senhor! Amém!” — e partiu, aos 69 anos. Ellen e Benson, avisados por terceiros, esperavam o trem em Buffalo na hora de sua morte.
O funeral realizou-se no auditório do recém-concluído Cox Memorial Hall, com mais de quarenta pastores presentes; os estudantes encerraram a cerimônia junto à sepultura, cantando e lançando ramos de sempre-vivas. Por toda a denominação perguntava-se: “Quem poderá preencher o seu lugar?”
Ellen sobreviveu-lhe quinze anos, mantendo profunda vida de oração, e faleceu em paz em 28 de janeiro de 1908, aos 82 anos. E em 1910 veio a reparação histórica: o Concílio de Genesee reconheceu a injustiça e devolveu as credenciais de ordenação a seu filho Benson — dezessete anos após a morte do pai, cinquenta e dois anos após a expulsão. A história, como tantas vezes, absolveu o profeta que a instituição condenara (cf. Mt 5.10–12).

Do oeste de Nova York a mais de cem países — inclusive o Brasil.
Seguindo a análise de Howard Snyder, o legado de B. T. e Ellen Roberts organiza-se em quatro dimensões. Primeiro, o legado de suas vidas e testemunho: uma paixão integrada por Jesus, pelos pobres, pela igualdade, pela justiça e pela santidade, vivida com coerência no lar, no púlpito e na praça pública — movidos pelo serviço, não pelo status. Segundo, o legado institucional: a Igreja Metodista Livre, hoje presente em dezenas de países (inclusive o Brasil, onde a IMeL chegou em 1928 pela obra missionária japonesa e norte-americana), a Roberts Wesleyan University e a rede de escolas, hospitais, orfanatos e missões urbanas.
Terceiro, o legado de esperança: o “otimismo da graça” herdado de Wesley, a confiança de que Deus renova a sua igreja. Quarto, o legado de seu “populismo santo”: a convicção de que o evangelho é de e para todo o povo — escravos e ex-escravos, mulheres, agricultores, pobres das cidades — não como ideologia política, mas como aplicação direta das boas-novas do Reino (Lc 4.18–19).
Roberts não foi um homem sem defeitos — tinha, como todos, os seus “pés de barro”. Podia ser polemista duro, e a jovem denominação sofreu com tensões que ele nem sempre conseguiu moderar. Mas a grandeza de sua vida está na combinação rara que Snyder chamou de “paradoxo gracioso”: um espírito de alma larga unido a um compromisso radical com Jesus e seu Reino.

Roberts viu os dois caminhos — popularidade ou verdade com perseguição — e escolheu o segundo. Quem serve a Cristo precisa estar pronto para ser justificado apenas pela história, ou apenas pela eternidade (1Co 4.3–5).
O mesmo homem que pregava a pureza de coração (Mt 5.8) comprava tavernas para fechá-las, organizava fazendeiros e defendia negros no trem. O amor não é perfeito enquanto não alcança o próximo oprimido (1Jo 3.17–18).
Toda vez que a igreja se estrutura para o conforto de quem pode pagar, ela trai o evangelho que anuncia (Tg 2.1–9). Vale perguntar: quais são os nossos “bancos alugados” de hoje?
Sem Ellen — intercessora, conselheira e cooperadora — não haveria B. T. Roberts. O ministério frutífero é sempre parceria: no lar, na igreja, no Reino (Ec 4.9–12; Rm 16.3).
Para nós, da Igreja Metodista Livre do Brasil, conhecer Roberts não é exercício de nostalgia, mas de identidade: somos herdeiros de um movimento que nasceu para manter o padrão bíblico do cristianismo e pregar o evangelho aos pobres. Enquanto formos fiéis a essa dupla vocação, o velho bispo continuará vivo entre nós.
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