SERMÃO 4
O cristianismo bíblico
Pregado na igreja de St. Mary, em Oxford, diante da universidade, em 24 de agosto de 1744.
“E todos ficaram cheios do Espírito Santo.”
(At 4.31, NAA)Antes de ler
Este foi o último sermão que Wesley pregou diante da Universidade de Oxford — e o texto explica por quê. Depois de descrever o cristianismo bíblico em três movimentos (como nasce no indivíduo, como se espalha e como um dia cobrirá a terra), ele se volta para os próprios ouvintes, das autoridades aos estudantes, e pergunta sem rodeios: isso existe aqui? A aplicação final foi tão contundente que os púlpitos da universidade se fecharam para ele. Fica a pergunta que atravessa os séculos: a nossa cidade, a nossa igreja, a nossa vida suportariam o mesmo exame?
— Bispo Ildo Mello
Nota do autor à primeira edição: “Não era minha intenção, quando escrevi, publicar a parte final deste sermão. Mas os relatos falsos e difamatórios que dele se espalharam, por quase todos os cantos da nação, obrigam-me a publicá-lo por inteiro, tal como foi pregado, para que as pessoas sensatas julguem por si mesmas.”
1. A mesma expressão aparece no capítulo 2 de Atos, onde lemos: “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar” — os apóstolos, com as mulheres, a mãe de Jesus e os irmãos dele. “De repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso… E apareceram, distribuídas entre eles, línguas como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2.1–4). Um efeito imediato foi que “passaram a falar em outras línguas”, de modo que partos, medos, elamitas e os demais estrangeiros que acorreram, “quando se espalhou a notícia, os ouviam falar, cada um na sua própria língua, das grandezas de Deus” (At 2.5–11).
2. No capítulo 4, lemos que, quando os apóstolos e os irmãos estavam orando e louvando a Deus, “tremeu o lugar onde estavam reunidos, e todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 4.31). Aqui não encontramos manifestação visível como a da primeira ocasião, nem se diz que os dons extraordinários do Espírito tenham sido dados então a todos ou a algum deles — como os dons de “curar, de operar milagres, de profetizar, de discernir os espíritos, de falar diversos tipos de línguas e de interpretá-las” (1Co 12.9–10).
3. Se esses dons do Espírito Santo estavam destinados a permanecer na igreja por todas as eras, e se serão ou não restaurados quando se aproximar a “restauração de todas as coisas” (At 3.21), são perguntas que não precisamos decidir. Mas é preciso observar isto: mesmo na infância da igreja, Deus os distribuiu com mão parcimoniosa. Eram todos profetas, mesmo então? Todos operavam milagres? Todos tinham dons de curar? Todos falavam em línguas? De modo algum. Talvez nem um em mil. Provavelmente apenas os mestres da igreja, e somente alguns deles (1Co 12.28–30). Foi, portanto, para um propósito mais excelente que esse que “todos ficaram cheios do Espírito Santo”.
4. Foi para dar-lhes — o que ninguém pode negar ser essencial a todos os cristãos, em todas as eras — a mente que houve em Cristo, aqueles santos frutos do Espírito sem os quais ninguém é dele; para enchê-los de “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade” (Gl 5.22–24); para revesti-los de fé (talvez se pudesse traduzir “fidelidade”), de mansidão e domínio próprio; para capacitá-los a crucificar a carne, com as suas paixões e desejos; e, em consequência dessa mudança interior, a cumprir toda a justiça exterior — a “andar como ele andou” (1Jo 2.6), na “obra da fé, na paciência da esperança, no trabalho do amor” (1Ts 1.3).
5. Sem nos ocuparmos, pois, de indagações curiosas e desnecessárias sobre os dons extraordinários do Espírito, olhemos mais de perto para os seus frutos ordinários, que temos a certeza de que permanecerão por todas as eras — para aquela grande obra de Deus entre os filhos dos homens que costumamos expressar numa só palavra: cristianismo. Não como um conjunto de opiniões ou um sistema de doutrinas, mas naquilo que diz respeito ao coração e à vida das pessoas. E será útil considerar esse cristianismo sob três ângulos distintos:
I. Começando a existir nos indivíduos;
II. Espalhando-se de uns para outros;
III. Cobrindo a terra.
Pretendo encerrar essas considerações com uma aplicação simples e prática.
I. O cristianismo no seu nascimento
1. Consideremos primeiro o cristianismo no seu início, começando a existir nos indivíduos. Suponha que um dos que ouviram o apóstolo Pedro pregar o arrependimento e a remissão de pecados foi tocado no coração, convencido do pecado, arrependeu-se e creu em Jesus. Por essa fé operada por Deus — que é a própria substância das coisas que se esperam, a prova das coisas que não se veem (Hb 11.1) —, ele recebeu de imediato o Espírito de adoção, pelo qual agora clamava: “Aba, Pai!” (Rm 8.15). Foi então que, pela primeira vez, pôde chamar Jesus de Senhor, pelo Espírito Santo (1Co 12.3), o próprio Espírito testemunhando com o seu espírito que ele era filho de Deus (Rm 8.16). Foi então que pôde dizer com verdade: “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2.20).
2. Esta era, pois, a própria essência da sua fé: uma evidência ou convicção divina do amor de Deus Pai, por meio do Filho do seu amor, a ele, um pecador, agora aceito no Amado. E, “justificado pela fé, tinha paz com Deus” (Rm 5.1) — mais: a paz de Deus reinando no seu coração; uma paz que, excedendo todo o entendimento, toda concepção meramente racional, guardava o seu coração e a sua mente de toda dúvida e todo medo, pelo conhecimento daquele em quem havia crido. Não podia, portanto, “temer más notícias, pois o seu coração estava firme, confiando no Senhor” (Sl 112.7). Não temia o que o homem lhe pudesse fazer, sabendo que até os cabelos da sua cabeça estavam todos contados. Não temia todos os poderes das trevas, que Deus esmagava diariamente debaixo dos seus pés. Menos ainda temia morrer; antes, desejava “partir e estar com Cristo” (Fp 1.23), que, “por meio da morte, destruiu aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo, e libertou todos os que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2.14–15).
3. Sua alma, portanto, engrandecia ao Senhor, e o seu espírito se alegrava em Deus, seu Salvador. Alegrava-se, “com alegria indizível”, naquele que o havia reconciliado com Deus Pai; “em quem tinha a redenção, por meio do seu sangue, a remissão dos pecados” (Cl 1.14). Alegrava-se no testemunho do Espírito de Deus com o seu espírito de que era filho de Deus; e mais abundantemente ainda “na esperança da glória de Deus” — na esperança da gloriosa imagem de Deus e da plena renovação da sua alma em justiça e verdadeira santidade; na esperança da coroa de glória, da “herança incorruptível, incontaminável e imarcescível” (1Pe 1.4).
4. “O amor de Deus também fora derramado no seu coração pelo Espírito Santo que lhe foi dado” (Rm 5.5). “Porque ele era filho, Deus enviou ao seu coração o Espírito do seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4.6). E esse amor filial a Deus crescia continuamente pelo testemunho que ele tinha em si mesmo (1Jo 5.10) do amor perdoador de Deus; por “ver que grande amor o Pai lhe tinha concedido, a ponto de ser chamado filho de Deus” (1Jo 3.1). De modo que Deus era o desejo dos seus olhos e a alegria do seu coração — a sua porção no tempo e na eternidade.
5. Quem assim amava a Deus não podia deixar de amar também o irmão — e “não de palavra, mas de fato e de verdade” (1Jo 3.18). “Se Deus nos amou assim”, dizia ele, “também nós devemos amar uns aos outros” (1Jo 4.11) — sim, cada alma humana, pois “a misericórdia de Deus está sobre todas as suas obras” (Sl 145.9). Em consonância com isso, o afeto desse amante de Deus abraçava toda a humanidade por causa dele: sem excetuar os que nunca vira na carne, nem aqueles de quem nada sabia além disto — que eram “descendência de Deus”, por cujas almas o seu Filho morreu; sem excetuar os “maus e ingratos” (Lc 6.35) e, menos que todos, os seus inimigos — os que o odiavam, perseguiam ou caluniavam por causa do seu Mestre. Estes tinham lugar especial tanto no seu coração quanto nas suas orações. Ele os amava “como Cristo nos amou”.
6. E “o amor não é orgulhoso” (1Co 13.4): ele abate até o pó toda alma em que habita. Assim, aquele cristão era humilde de coração — pequeno, simples e desprezível aos próprios olhos. Não buscava nem recebia o louvor dos homens, mas somente o que vem de Deus. Era manso e longânimo, gentil com todos e fácil de se deixar persuadir. A fidelidade e a verdade nunca o abandonavam: estavam “atadas ao seu pescoço e escritas na tábua do seu coração” (Pv 3.3). Pelo mesmo Espírito, era temperante em todas as coisas, aquietando a sua alma como criança desmamada (Sl 131.2). Estava “crucificado para o mundo, e o mundo para ele” — superior ao “desejo da carne, ao desejo dos olhos e à soberba da vida” (1Jo 2.16). Pelo mesmo amor todo-poderoso era salvo tanto da paixão quanto do orgulho, da cobiça e da vaidade, da ambição e da avareza — e de todo temperamento que não estivesse em Cristo.
7. É fácil de crer que quem tinha esse amor no coração não praticava mal algum contra o próximo. Era-lhe impossível, consciente e deliberadamente, fazer dano a quem quer que fosse. Estava à maior distância possível da crueldade e da injustiça, de qualquer ação iníqua ou desamorosa. Com o mesmo cuidado “punha guarda à sua boca e vigiava a porta dos seus lábios” (Sl 141.3), para não pecar com a língua contra a justiça, a misericórdia ou a verdade. Lançava fora toda mentira, falsidade e fraude; engano nenhum se achava na sua boca. Não falava mal de ninguém, nem palavra indelicada saía dos seus lábios.
8. E, profundamente cônscio da verdade daquela palavra — “sem mim, vocês não podem fazer nada” (Jo 15.5) — e, portanto, da necessidade de ser regado por Deus a cada momento, ele perseverava diariamente em todas as ordenanças de Deus, os canais estabelecidos da sua graça para o homem: “na doutrina dos apóstolos”, recebendo aquele alimento da alma com toda a prontidão de coração; “no partir do pão”, que ele experimentava como comunhão do corpo de Cristo; e “nas orações” e louvores da grande congregação (At 2.42). E assim crescia diariamente na graça, aumentando em força, no conhecimento e no amor de Deus.
9. Mas não lhe bastava apenas abster-se de fazer o mal. Sua alma tinha sede de fazer o bem. A linguagem do seu coração era, continuamente: “‘Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também’ (Jo 5.17). Meu Senhor andou por toda parte fazendo o bem — e eu não hei de seguir as suas pisadas?” Conforme tinha oportunidade, portanto, quando não podia fazer bem de ordem mais alta, alimentava os famintos, vestia os nus, socorria o órfão e o estrangeiro, visitava e ajudava os doentes e os presos. Dava tudo o que tinha para sustentar os pobres. Alegrava-se em trabalhar ou sofrer por eles; e, onde quer que pudesse beneficiar a outro, ali especialmente “negava a si mesmo”. Nada considerava caro demais para dar por eles, lembrando bem a palavra do seu Senhor: “Sempre que fizeram isso a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram” (Mt 25.40).
10. Assim era o cristianismo no seu nascimento. Assim era um cristão nos dias antigos. Assim era cada um daqueles que, ao ouvirem as ameaças dos principais sacerdotes e anciãos, “unânimes, levantaram a voz a Deus, e todos ficaram cheios do Espírito Santo. Da multidão dos que creram, um era o coração e uma era a alma” — tanto o amor daquele em quem haviam crido os constrangia a amarem-se uns aos outros! “Ninguém dizia que era sua qualquer das coisas que possuía; tudo entre eles era comum” — tão plenamente estavam crucificados para o mundo, e o mundo para eles! “E perseveravam unânimes na doutrina dos apóstolos, no partir do pão e nas orações. Em todos eles havia abundante graça. Não havia entre eles nenhum necessitado, porque os que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o valor da venda e o depositavam aos pés dos apóstolos; e se distribuía a cada um conforme a sua necessidade” (At 4.31–35).
II. O cristianismo espalhando-se pelo mundo
1. Consideremos, em segundo lugar, esse cristianismo espalhando-se de uns para outros e abrindo gradualmente caminho pelo mundo. Pois essa era a vontade de Deus a seu respeito: ele não “acende uma candeia para colocá-la debaixo de um cesto, mas no velador, para que ilumine a todos os que estão na casa”. Foi o que o Senhor declarou aos seus primeiros discípulos: “Vocês são o sal da terra”, “a luz do mundo” — dando ao mesmo tempo aquela ordem geral: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem o Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5.13–16).
2. De fato, supondo que alguns desses amantes da humanidade vissem “o mundo inteiro jazendo no Maligno” (1Jo 5.19), podemos crer que ficariam indiferentes diante desse espetáculo — diante da miséria daqueles por quem o seu Senhor morreu? Não se comoveriam as suas entranhas por eles, não se derreteria o seu coração de aflição? Poderiam ficar de braços cruzados o dia inteiro, ainda que não houvesse ordem alguma daquele a quem amavam? Não trabalhariam antes, por todos os meios possíveis, para arrancar do fogo alguns desses tições? Sem dúvida trabalhariam: não poupariam esforço algum para trazer de volta quantos pudessem daquelas pobres “ovelhas desgarradas ao grande Pastor e Bispo das suas almas” (1Pe 2.25).
3. Assim fizeram os cristãos de outrora. Trabalhavam, conforme tinham oportunidade, para “fazer o bem a todos” (Gl 6.10), advertindo-os a fugir da ira vindoura — agora, agora mesmo, a escapar da condenação do inferno. Declaravam: “Deus não levou em conta os tempos da ignorância; agora, porém, ordena que todos, em toda parte, se arrependam” (At 17.30). Clamavam em alta voz: “Convertam-se, convertam-se dos seus maus caminhos, para que a iniquidade não seja a ruína de vocês” (Ez 18.30). “Dissertavam” com eles sobre “o domínio próprio e a justiça” — as virtudes opostas aos pecados que neles reinavam — “e sobre o juízo vindouro”, a ira de Deus que certamente será executada sobre os que praticam o mal, no dia em que ele julgar o mundo (At 24.25).
4. Nisso procuravam falar a cada pessoa, individualmente, conforme a sua necessidade. Aos descuidados, aos que jaziam despreocupados nas trevas e na sombra da morte, trovejavam: “Desperte, você que dorme, levante-se dentre os mortos, e Cristo lhe dará luz” (Ef 5.14). Mas, para os que já haviam despertado do sono e gemiam sob o senso da ira de Deus, a linguagem era outra: “Temos um Advogado junto ao Pai… e ele é a propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 2.1–2). Entretanto, aos que haviam crido, eles os estimulavam “ao amor e às boas obras” (Hb 10.24); à perseverança paciente no bem; e a abundarem cada vez mais naquela santidade sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14).
5. E o trabalho deles não era vão no Senhor. A sua palavra corria e era glorificada; crescia poderosamente e prevalecia. Mas tanto mais prevaleciam também os escândalos. O mundo em geral se ofendia, “porque eles testemunhavam que as suas obras eram más” (Jo 7.7). Os homens dados aos prazeres se ofendiam — não só porque aqueles homens pareciam feitos para censurar os seus pensamentos (“Ele professa ter o conhecimento de Deus e se chama filho do Senhor; a sua vida não é como a dos outros, os seus caminhos são de outra feição; ele se abstém dos nossos caminhos como de imundícias e proclama que Deus é seu Pai”), mas muito mais porque tantos dos seus companheiros lhes eram tirados e já não corriam com eles “no mesmo desenfreio de dissolução” (1Pe 4.4). Os homens de reputação se ofendiam porque, à medida que o evangelho se espalhava, eles declinavam na estima do povo, e porque muitos já não ousavam dar-lhes títulos lisonjeiros nem prestar ao homem a homenagem devida somente a Deus. Os homens de negócios convocavam uns aos outros e diziam: “Senhores, vocês sabem que deste ofício vem a nossa riqueza; e estão vendo e ouvindo que esses homens têm persuadido e desviado muita gente, de modo que este nosso ofício corre o risco de cair em descrédito” (At 19.25–27). Acima de todos, os homens de religião — assim chamados, os da religião exterior, “os santos do mundo” — ofendiam-se e estavam prontos, em toda oportunidade, a gritar: “Homens de Israel, socorro! Descobrimos que estes homens são pestilentos, promotores de sedição pelo mundo inteiro” (At 24.5); “são estes que ensinam a todos, em toda parte, contra o povo e contra este lugar” (At 21.28).
6. Foi assim que os céus se cobriram de nuvens negras e a tempestade se armou depressa. Pois, quanto mais o cristianismo se espalhava, mais dano se fazia — na avaliação dos que não o recebiam; e crescia o número dos que se enfureciam cada vez mais contra esses “homens que transtornavam o mundo” (At 17.6), a ponto de clamarem mais e mais: “Tira tais homens da terra, porque não convém que vivam!” — e criam sinceramente que quem os matasse estaria prestando culto a Deus (Jo 16.2).
7. Enquanto isso, não deixavam de “rejeitar o nome deles como indigno” (Lc 6.22), de modo que dessa “seita por toda parte se falava mal” (At 28.22). Diziam contra eles todo tipo de mal, como se fizera aos profetas antes deles (Mt 5.12). E o que quer que alguém afirmasse, outros acreditavam, de modo que as ofensas se multiplicavam como as estrelas do céu. Daí se levantou, no tempo preordenado pelo Pai, a perseguição em todas as suas formas. Alguns, por um tempo, sofreram apenas vergonha e opróbrio; outros, “o confisco dos seus bens”; outros “experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões”; e outros “resistiram até o sangue” (Hb 10.34; 11.36–37; 12.4).
8. Foi então que as colunas do inferno foram abaladas e o Reino de Deus se espalhou cada vez mais. Por toda parte os pecadores se “convertiam das trevas para a luz e do poder de Satanás para Deus” (At 26.18). Ele dava aos seus filhos “boca e sabedoria a que não podiam resistir todos os seus adversários” (Lc 21.15) — e as suas vidas tinham a mesma força das suas palavras. Mas, acima de tudo, os seus sofrimentos falavam ao mundo inteiro. Eles se mostravam “servos de Deus: nas aflições, nas necessidades, nas angústias, nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos; nos perigos no mar, nos perigos no deserto, no cansaço e na dor, na fome e na sede, no frio e na nudez” (2Co 6.4–5; 11.26–27). E quando, tendo combatido o bom combate, eram levados como ovelhas ao matadouro e oferecidos como libação sobre o sacrifício e serviço da sua fé, então o sangue de cada um encontrava voz, e os pagãos reconheciam: “Ele, mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4).
9. Assim o cristianismo se espalhou pela terra. Mas quão cedo apareceu o joio junto com o trigo, e o mistério da iniquidade passou a operar junto com o mistério da piedade! Quão cedo Satanás achou assento até no templo de Deus, “até que a mulher fugiu para o deserto” e “os fiéis de novo minguaram entre os filhos dos homens” (Sl 12.1)! Aqui pisamos um caminho já batido: as corrupções incessantes das gerações seguintes foram amplamente descritas, de tempos em tempos, pelas testemunhas que Deus levantou para mostrar que ele “edificou a sua igreja sobre a rocha, e as portas do inferno não” haveriam de prevalecer inteiramente “contra ela” (Mt 16.18).
III. O cristianismo cobrindo a terra
1. Mas não veremos coisas maiores do que essas? Sim — maiores do que quantas já houve desde o princípio do mundo. Pode Satanás fazer falhar a verdade de Deus, ou anular as suas promessas? Se não pode, virá o tempo em que o cristianismo prevalecerá sobre tudo e cobrirá a terra. Detenhamo-nos um pouco para contemplar (é o terceiro ponto proposto) esse espetáculo estranho: um mundo cristão. Sobre isso indagaram e pesquisaram diligentemente os profetas de outrora (1Pe 1.10–11); disso testificou o Espírito que neles estava: “Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do Senhor será estabelecido no cume dos montes e se elevará sobre as colinas, e para ele afluirão todas as nações… Transformarão as suas espadas em relhas de arado e as suas lanças em podadeiras; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Is 2.2–4). “Naquele dia, a raiz de Jessé se porá como bandeira dos povos; as nações a buscarão, e glorioso será o lugar do seu repouso. Naquele dia, o Senhor tornará a estender a mão para resgatar o remanescente do seu povo; levantará uma bandeira para as nações, ajuntará os desterrados de Israel e reunirá os dispersos de Judá desde os quatro confins da terra” (Is 11.10–12). “Então o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará… Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Is 11.6–9).
2. No mesmo sentido vão as palavras do grande apóstolo — que, é evidente, ainda não se cumpriram: “Será que Deus rejeitou o seu povo? De maneira nenhuma!… Pela transgressão deles, veio a salvação aos gentios… Ora, se a transgressão deles é a riqueza do mundo, e o seu abatimento, a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude!… Porque não quero, irmãos, que vocês ignorem este mistério: o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado. E, assim, todo o Israel será salvo” (Rm 11.1, 11–12, 25–26).
3. Suponha agora que a plenitude dos tempos tenha chegado e as profecias se tenham cumprido. Que panorama! Tudo é paz, “tranquilidade e segurança para sempre” (Is 32.17). Não há estrondo de armas, nem “ruído confuso”, nem “manto revolvido em sangue” (Is 9.5). “As destruições chegaram ao fim perpétuo” (Sl 9.6). As guerras cessaram da terra. Nem restam discórdias internas: nenhum irmão se levanta contra irmão; nenhum país ou cidade dividida contra si mesma, rasgando as próprias entranhas. A discórdia civil acabou para sempre, e não sobrou ninguém para destruir ou ferir o próximo. Não há opressão que “enlouqueça até o sábio” (Ec 7.7), nem extorsão que “esmague o rosto dos pobres” (Is 3.15); não há roubo nem injustiça, rapina nem iniquidade — pois todos estão “contentes com o que possuem” (Hb 13.5). Assim “a justiça e a paz se beijaram” (Sl 85.10); “lançaram raízes e encheram a terra”; “a justiça brota da terra, e a paz olha lá dos céus”.
4. E, com a justiça, encontra-se também a misericórdia. A terra já não está cheia de moradas de crueldade. O Senhor destruiu tanto o sanguinário quanto o malicioso, o invejoso e o vingativo. Se houvesse alguma provocação, ninguém sabe mais retribuir mal com mal — na verdade, ninguém pratica o mal, nem um sequer, pois todos são inofensivos como pombas. E, cheios de paz e alegria no crer, unidos num só corpo por um só Espírito, todos se amam como irmãos; um é o coração e uma é a alma de todos. “Ninguém diz que é sua qualquer das coisas que possui.” Não há entre eles nenhum necessitado, porque cada um ama o próximo como a si mesmo. E todos andam por uma só regra: “Tudo quanto vocês querem que os outros lhes façam, façam vocês também a eles” (Mt 7.12).
5. Segue-se que nenhuma palavra rude jamais se ouve entre eles: nenhuma contenda de línguas, nenhuma disputa de espécie alguma, nenhum insulto ou maledicência. Cada um “abre a boca com sabedoria, e na sua língua está a lei da bondade” (Pv 31.26). São igualmente incapazes de fraude ou engano: o amor deles é sem fingimento; as suas palavras são sempre a expressão exata dos seus pensamentos — uma janela aberta no peito, de modo que quem quiser pode olhar-lhes o coração e ver que ali só existem o amor e Deus.
6. Assim, onde o Senhor Todo-Poderoso toma para si o seu grande poder e reina, ele “sujeita todas as coisas a si mesmo”, faz transbordar de amor cada coração e enche de louvor cada boca. “Feliz o povo a quem assim sucede; feliz o povo cujo Deus é o Senhor!” (Sl 144.15). “Levante-se, resplandeça”, diz o Senhor, “porque chegou a sua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre você… Você saberá que eu, o Senhor, sou o seu Salvador e o seu Redentor, o Poderoso de Jacó. Farei da paz os seus inspetores, e da justiça, os seus exatores. Nunca mais se ouvirá de violência na sua terra, de desolação ou destruição dentro das suas fronteiras; mas você chamará às suas muralhas Salvação, e às suas portas, Louvor… Todos os do seu povo serão justos; herdarão a terra para sempre — renovo da minha plantação, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado… Nunca mais o sol será a sua luz durante o dia, nem com o seu resplendor a lua o iluminará; mas o Senhor será a sua luz perpétua, e o seu Deus, a sua glória” (Is 60.1, 16–19).
IV. Aplicação prática
1. Tendo assim considerado brevemente o cristianismo no seu começo, no seu avanço e cobrindo a terra, resta apenas encerrar tudo com uma aplicação simples e prática. Primeiro, eu perguntaria: onde existe agora esse cristianismo? Onde, por favor, vivem os cristãos? Qual é o país cujos habitantes estão todos assim “cheios do Espírito Santo”? — todos com um só coração e uma só alma, incapazes de deixar que alguém entre eles passe necessidade, dando continuamente a cada um conforme a sua carência; todos, sem exceção, com o amor de Deus enchendo o coração e constrangendo-os a amar o próximo como a si mesmos; todos “revestidos de entranhada misericórdia, de humildade, de mansidão, de longanimidade” (Cl 3.12); que não ofendem de modo algum, nem por palavra nem por obra, contra a justiça, a misericórdia ou a verdade, mas em tudo tratam os outros como querem ser tratados? Com que propriedade podemos chamar de “cristão” um país que não corresponde a essa descrição? Confessemos, então: nunca vimos, até hoje, um país cristão sobre a terra.
2. Rogo-lhes, irmãos, pelas misericórdias de Deus: se vocês me têm por louco ou insensato, ainda assim suportem-me como a um insensato. É absolutamente necessário que alguém lhes fale com toda a franqueza — e é especialmente necessário neste momento. Pois quem sabe se não é o último? Quem sabe quão cedo o justo Juiz pode dizer: “Não intercederei mais por este povo; ainda que Noé, Daniel e Jó estivessem nesta terra, livrariam apenas as suas próprias almas” (Ez 14.14, 20)? E quem usará dessa franqueza, se eu não usar? Portanto eu — eu mesmo — falarei. E os conjuro, pelo Deus vivo, que não endureçam o peito contra a bênção que lhes possa vir das minhas mãos. Não digam no coração: “Não nos persuadirás, ainda que nos convenças”; ou, em outras palavras: “Senhor, não enviarás por quem queres enviar; prefiro perecer no meu sangue a ser salvo por este homem!”
3. Irmãos, “estou persuadido de coisas melhores a respeito de vocês, ainda que fale assim” (Hb 6.9). Permitam-me então perguntar, com terno amor e em espírito de mansidão: esta cidade é uma cidade cristã? O cristianismo — o cristianismo bíblico — encontra-se aqui? Nós, considerados como comunidade, estamos de tal modo “cheios do Espírito Santo” que desfrutamos no coração, e mostramos na vida, os frutos genuínos desse Espírito? Todos os magistrados, todos os reitores e dirigentes de colégios, com as suas respectivas comunidades (para não falar dos moradores da cidade), têm “um só coração e uma só alma”? “O amor de Deus foi derramado nos nossos corações”? Os nossos temperamentos são os mesmos que houve nele? E a nossa vida está de acordo com isso? Somos “santos em todo o nosso procedimento, como é santo aquele que nos chamou” (1Pe 1.15)?
4. Peço-lhes que observem: não estão em pauta noções peculiares; a questão levantada não diz respeito a opiniões duvidosas desta ou daquela espécie, mas aos ramos indubitáveis e fundamentais — se é que algum o é — do nosso cristianismo comum. E, para decidi-la, apelo à consciência de cada um, guiada pela Palavra de Deus. Aquele, portanto, que não for condenado pelo próprio coração, saia livre.
5. No temor, pois, e na presença do grande Deus, diante de quem tanto vocês quanto eu em breve compareceremos, rogo aos que exercem autoridade sobre nós, a quem reverencio por causa do seu ofício: considerem — e não à maneira dos que fingem com Deus — vocês estão “cheios do Espírito Santo”? São retratos vivos daquele a quem foram designados representar entre os homens? “Eu disse: vocês são deuses” (Sl 82.6) — vocês, magistrados e governantes, tão intimamente ligados, pelo ofício, ao Deus do céu! Nas suas posições e graus, cabe-lhes manifestar-nos “o Senhor, nosso Governador”. Todos os pensamentos do coração de vocês, todos os seus temperamentos e desejos, condizem com essa alta vocação? Todas as suas palavras se parecem com as que saem da boca de Deus? Há em todas as suas ações dignidade e amor — uma grandeza que as palavras não podem exprimir, que só pode fluir de um coração cheio de Deus, e, contudo, compatível com o caráter de “homem, que é verme, e filho de homem, que é vermezinho” (Jó 25.6)?
6. Vocês, homens veneráveis, chamados de modo especial a formar as mentes tenras da juventude, a dissipar delas as sombras da ignorância e do erro e a criá-las sábias para a salvação: vocês estão “cheios do Espírito Santo” — de todos aqueles “frutos do Espírito” que o seu importante ofício tão indispensavelmente requer? O coração de vocês está inteiro com Deus — cheio de amor e zelo por estabelecer o Reino dele na terra? Vocês lembram continuamente aos que estão sob os seus cuidados que o único fim racional de todos os nossos estudos é conhecer, amar e servir “o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo, a quem ele enviou” (Jo 17.3)? Vocês lhes inculcam, dia após dia, que só o amor jamais acaba (ao passo que, havendo línguas, cessarão; havendo ciência filosófica, desaparecerá), e que, sem amor, toda erudição é apenas ignorância esplêndida, insensatez pomposa, aflição de espírito? Tudo o que vocês ensinam tende, de fato, ao amor de Deus — e de toda a humanidade por causa dele? Vocês têm esse alvo em vista em tudo o que prescrevem quanto ao tipo, ao modo e à medida dos estudos deles, desejando e trabalhando para que, onde quer que a sorte desses jovens soldados de Cristo os lance, sejam outras tantas luzes acesas e brilhantes, adornando em tudo o evangelho de Cristo? E permitam-me perguntar: vocês empregam toda a sua força na vasta obra que empreenderam? Trabalham nela com todo o vigor, exercitando cada faculdade da alma, usando cada talento que Deus lhes emprestou — e isso até o limite do seu poder?
7. Não se diga que falo aqui como se todos os que estão sob os cuidados de vocês devessem tornar-se clérigos. Não: falo apenas como se todos devessem tornar-se cristãos. Mas que exemplo lhes damos nós, que desfrutamos da beneficência dos nossos antepassados — os fellows, os estudantes, os bolsistas, especialmente os de alguma posição e eminência? Nós, irmãos, abundamos nos frutos do Espírito: na humildade de espírito, na abnegação e mortificação, na seriedade e compostura, na paciência, mansidão, sobriedade, temperança, e em esforços incansáveis de fazer todo tipo de bem a todos, de socorrer as suas carências exteriores e de conduzir as suas almas ao verdadeiro conhecimento e amor de Deus? É esse o caráter geral dos fellows dos colégios? Temo que não. Antes, não nos têm sido lançados em rosto o orgulho e a altivez de espírito, a impaciência e a irritabilidade, a preguiça e a indolência, a glutonaria e a sensualidade — e até uma inutilidade proverbial? E talvez nem sempre pelos nossos inimigos, nem inteiramente sem fundamento. Oh, queira Deus remover de nós esse opróbrio, para que a própria memória dele pereça para sempre!
8. Muitos de nós estão mais imediatamente consagrados a Deus, chamados a ministrar nas coisas santas. Somos nós, então, modelo para os demais, “na palavra, no procedimento, no amor, no espírito, na fé, na pureza” (1Tm 4.12)? Está escrito na nossa testa e no nosso coração: “Santidade ao Senhor”? Por quais motivos assumimos este ofício? Foi de fato com o olhar posto unicamente em servir a Deus, confiando que éramos movidos interiormente pelo Espírito Santo a tomar sobre nós este ministério, para a promoção da sua glória e a edificação do seu povo? E “decidimos claramente, pela graça de Deus, entregar-nos por inteiro a este ofício”? Abandonamos e pomos de lado, tanto quanto está em nós, todos os cuidados e estudos mundanos? Aplicamo-nos inteiramente a esta única coisa, dirigindo para cá todos os nossos cuidados e estudos? Somos “aptos para ensinar” (1Tm 3.2)? Somos ensinados por Deus, para podermos ensinar também aos outros? Conhecemos a Deus? Conhecemos a Jesus Cristo? “Aprouve a Deus revelar o seu Filho em nós” (Gl 1.16)? E ele “nos tornou ministros capazes da nova aliança” (2Co 3.6)? Onde estão, então, os “selos do nosso apostolado” (1Co 9.2)? Quem, estando morto em delitos e pecados, foi vivificado pela nossa palavra? Temos um zelo ardente por salvar almas da morte, a ponto de, por causa delas, muitas vezes esquecermos até de comer o nosso pão? Falamos com clareza, “recomendando-nos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade” (2Co 4.2)? Estamos mortos para o mundo e para as coisas do mundo, “ajuntando todo o nosso tesouro no céu”? Dominamos sobre a herança de Deus (1Pe 5.3)? Ou somos os menores, os servos de todos? Quando carregamos o opróbrio de Cristo, ele nos pesa — ou nos alegramos nele? Quando somos feridos numa face, ressentimo-nos? Somos impacientes com as afrontas? Ou oferecemos também a outra, não resistindo ao mal, mas vencendo o mal com o bem (Rm 12.21)? Temos um zelo amargo, que nos incita a contender áspera e apaixonadamente com os que estão fora do caminho? Ou o nosso zelo é a chama do amor, de modo a dirigir todas as nossas palavras com doçura, humildade e mansidão de sabedoria (Tg 3.13)?
9. Mais uma vez: que diremos da juventude deste lugar? Vocês têm a forma, ou o poder, da piedade cristã? São humildes, dóceis, abertos ao conselho — ou teimosos, obstinados, precipitados e arrogantes? Obedecem aos seus superiores como a pais — ou desprezam aqueles a quem devem a mais terna reverência? São diligentes na sua tarefa, que é leve, dedicando-se aos estudos com todas as forças? Vocês remem o tempo, enchendo cada dia com todo o trabalho que ele comporta? Ou, antes, não estão cônscios de que desperdiçam dia após dia — seja lendo o que não tem nenhuma relação com o cristianismo, seja em jogos, seja… vocês nem sabem em quê? São melhores administradores do seu dinheiro do que do seu tempo? Cuidam, por princípio, de não dever nada a ninguém? “Lembram-se do sábado, para o santificar”, dedicando-o de modo mais direto ao culto de Deus? Quando estão na casa dele, consideram que Deus está ali? Portam-se “como quem vê aquele que é invisível” (Hb 11.27)? Sabem “possuir o próprio corpo em santificação e honra” (1Ts 4.4)? Não se acham entre vocês a embriaguez e a impureza? Mais: não há entre vocês quem “se glorie na sua vergonha” (Fp 3.19)? Não tomam muitos de vocês “o nome de Deus em vão” — talvez habitualmente, sem remorso nem temor? E não há uma multidão de perjuros entre vocês? Temo que uma multidão que cresce depressa. Não se espantem, irmãos: diante de Deus e desta congregação, confesso que estive nesse número — jurando solenemente observar todos aqueles costumes que eu então desconhecia, e aqueles estatutos que eu nem sequer havia lido, nem então, nem por alguns anos depois. O que é perjúrio, se isso não é? E, se é, oh, que peso de pecado — e pecado de tintura nada comum — jaz sobre nós! E não haveria o Altíssimo de levar isso em conta?
10. Não será uma das consequências disso que tantos de vocês sejam uma geração de frívolos — frívolos com Deus, uns com os outros e com a própria alma? Pois quão poucos de vocês passam, de uma semana à outra, uma única hora em oração pessoal! Quão poucos têm qualquer pensamento de Deus no teor geral das suas conversas! Quem de vocês conhece, em alguma medida, a obra do Espírito de Deus — a sua obra sobrenatural na alma dos homens? Vocês suportam, a não ser de vez em quando na igreja, qualquer conversa sobre o Espírito Santo? Se alguém começasse tal conversa, vocês não dariam por certo que se tratava de hipocrisia ou fanatismo? Em nome do Senhor Deus Todo-Poderoso, eu pergunto: qual é a religião de vocês? Nem sequer a conversa sobre o cristianismo vocês podem — ou querem — suportar. Ó meus irmãos, que bela cidade cristã é esta! “Já é tempo, Senhor, de agires com a tua mão!” (Sl 119.126).
11. Pois, de fato, que probabilidade — que possibilidade, antes, falando à maneira dos homens — existe de que o cristianismo, o cristianismo bíblico, volte a ser a religião deste lugar? De que todas as classes de pessoas entre nós falem e vivam como homens “cheios do Espírito Santo”? Por quem haveria de ser restaurado esse cristianismo? Pelos que dentre vocês exercem autoridade? Vocês estão convencidos, então, de que isso é o cristianismo bíblico? Desejam que ele seja restaurado? E não consideram a sua fortuna, a sua liberdade e a sua vida caras demais, contanto que sejam instrumentos dessa restauração? Mas, supondo que tenham esse desejo, quem tem poder proporcional ao efeito? Talvez alguns de vocês tenham feito umas poucas e tímidas tentativas — mas com que pequeno sucesso! Será então o cristianismo restaurado por homens jovens, desconhecidos, insignificantes? Não sei se vocês mesmos o suportariam. Não gritariam alguns: “Jovem, falando assim, você nos insulta”? Mas não há perigo de que sejam postos à prova: de tal modo a iniquidade nos alagou como uma inundação. Quem, então, Deus haverá de enviar? A fome, a peste (os últimos mensageiros de Deus a uma terra culpada) ou a espada — “os exércitos dos estrangeiros romanos” — para nos reconduzir ao nosso primeiro amor? Não! “Caiamos, antes, nas mãos do Senhor, e não caiamos nas mãos dos homens” (2Sm 24.14). Senhor, salva-nos, ou perecemos! Tira-nos do lamaçal, para que não afundemos! Ajuda-nos contra estes inimigos, pois vão é o socorro do homem! Para ti todas as coisas são possíveis. Segundo a grandeza do teu poder, preserva os que estão condenados à morte; e preserva-nos do modo que te parecer bom — não como nós queremos, mas como tu queres!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.