SERMÃO 14

O arrependimento dos crentes

O arrependimento que continua necessário mesmo depois da conversão.

Mc 1.15, NAA ⏱ 26 min de leituraPecado e arrependimento

“Arrependam-se e creiam no evangelho.”

(Mc 1.15, NAA)

Antes de ler

O arrependimento é necessário somente antes da conversão? Depois de recebermos o perdão e nos tornarmos filhos de Deus, ainda precisamos nos arrepender?

Wesley ensina que existe um arrependimento próprio dos crentes. Não se trata de voltar à condição de condenação, mas de reconhecer, com humildade, o pecado que ainda permanece no coração e se mistura até mesmo às melhores palavras e ações.

O crente percebe orgulho, vontade própria, amor ao mundo, ira, omissões e inúmeras limitações. Entretanto, essa consciência não o conduz ao desespero. Ela o leva a depender continuamente de Cristo, tanto para receber perdão quanto para ser inteiramente purificado.

Nesse processo, arrependimento e fé caminham juntos: o arrependimento reconhece a doença; a fé olha para o Médico. O arrependimento confessa nossa incapacidade; a fé recebe o poder de Cristo. O objetivo é a plena santificação e o amor perfeito.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Geralmente se supõe que o arrependimento e a fé sejam apenas a porta de entrada da religião e que sejam necessários somente no começo da vida cristã, quando iniciamos o caminho para o Reino.

Essa ideia pode parecer confirmada pelo apóstolo, quando exorta os cristãos hebreus a avançarem para a maturidade e a deixarem os princípios elementares da doutrina de Cristo, sem lançar novamente o fundamento do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus (Hb 6.1).

Isso significa, pelo menos, que deveriam deixar de concentrar todos os pensamentos somente naquilo que havia ocupado sua atenção no início, a fim de prosseguirem para o alvo da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.

2. Sem dúvida, existe um arrependimento e uma fé especialmente necessários no começo da vida cristã.

Esse arrependimento consiste na convicção de nossa completa pecaminosidade, culpa e incapacidade. Ele precede o recebimento do Reino de Deus dentro de nós.

A fé é o meio pelo qual recebemos esse Reino: justiça, paz e alegria no Espírito Santo.

3. Apesar disso, existe também um arrependimento e uma fé necessários depois que cremos no evangelho.

As palavras são utilizadas em um sentido um pouco diferente, embora não inteiramente diferente daquele empregado no começo.

Esse arrependimento e essa fé são necessários em todas as etapas posteriores da caminhada cristã. Sem eles, não conseguimos correr a carreira que está diante de nós.

São tão necessários para permanecermos e crescermos na graça quanto o arrependimento e a fé iniciais foram necessários para entrarmos no Reino de Deus.

Mas em que sentido devemos nos arrepender e crer depois de sermos justificados?

Essa é uma questão importante e merece nossa mais cuidadosa atenção.

I. O arrependimento dos que foram justificados

1. Em primeiro lugar, em que sentido devemos nos arrepender?

Arrependimento frequentemente significa uma transformação interior, uma mudança da mente e do coração, deixando o pecado e voltando-se para a santidade.

Agora, porém, falamos de arrependimento em outro sentido.

Trata-se de um tipo de autoconhecimento: reconhecermos que ainda somos pecadores, culpados e incapazes, mesmo sabendo que somos filhos de Deus.

2. Quando encontramos pela primeira vez a redenção pelo sangue de Jesus, quando o amor de Deus é derramado em nosso coração e seu Reino é estabelecido dentro de nós, é natural imaginarmos que já não somos pecadores e que todos os nossos pecados foram não apenas perdoados, mas completamente destruídos.

Como naquele momento não percebemos maldade no coração, facilmente concluímos que nada de mau permanece ali.

Algumas pessoas bem-intencionadas imaginaram isso não somente naquele primeiro momento, mas também depois.

Convenceram-se de que foram inteiramente santificadas quando foram justificadas e transformaram isso em regra geral, apesar do testemunho das Escrituras, da razão e da experiência.

Afirmam sinceramente que todo pecado é destruído no momento da justificação e que não existe pecado no coração do crente, pois ele se torna inteiramente puro naquele instante.

Entretanto, embora reconheçamos que aquele que crê nasce de Deus e que aquele que nasceu de Deus não vive na prática do pecado, não podemos afirmar que ele não percebe o pecado dentro de si.

O pecado já não reina, mas permanece.

A convicção do pecado que continua presente no coração é uma parte essencial do arrependimento de que estamos falando.

3. Geralmente não demora muito para aquele que imaginava que todo pecado havia desaparecido perceber que ainda existe orgulho em seu coração.

Reconhece que, em muitos aspectos, pensou a respeito de si mesmo além do que deveria.

Também percebe que atribuiu a si mesmo o louvor por coisas que recebeu de Deus, gloriando-se como se não as houvesse recebido.

Apesar disso, sabe que permanece no favor de Deus.

Não pode e não deve abandonar sua confiança. O Espírito ainda confirma ao seu espírito que é filho de Deus.

4. Também não demora para perceber vontade própria em seu coração: uma vontade contrária à vontade de Deus.

Todo ser humano necessariamente possui vontade enquanto possui entendimento. Isso é parte essencial da natureza humana e de todo ser inteligente.

Nosso bendito Senhor possuía uma vontade humana; caso contrário, não teria sido verdadeiramente humano.

Entretanto, sua vontade humana estava invariavelmente submetida à vontade do Pai.

Em todas as ocasiões, mesmo no sofrimento mais profundo, podia dizer:

“Não seja como eu quero, e sim como tu queres.”

(Mt 26.39, NAA)

Isso nem sempre acontece até mesmo com um verdadeiro crente.

Frequentemente, ele percebe sua vontade levantando-se, em maior ou menor grau, contra a vontade de Deus.

Deseja alguma coisa porque é agradável à natureza, embora não agrade a Deus.

Também rejeita alguma coisa porque é dolorosa à natureza, embora seja a vontade de Deus para sua vida.

Se permanece na fé, luta contra essa vontade com toda a força. Mas a própria necessidade de lutar demonstra que ela existe e que ele a percebe.

5. A vontade própria, assim como o orgulho, é uma forma de idolatria. Ambas são diretamente contrárias ao amor de Deus.

O mesmo pode ser dito a respeito do amor ao mundo.

Verdadeiros crentes ainda podem percebê-lo dentro de si. Mais cedo ou mais tarde, todos o sentem, em maior ou menor grau, em uma de suas manifestações.

É verdade que, quando passa pela primeira vez da morte para a vida, o crente não deseja nada além de Deus.

Pode dizer sinceramente:

“Todo o meu desejo está diante de ti.”

(Sl 38.9, NAA)

E:

“Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra.”

(Sl 73.25, NAA)

Entretanto, nem sempre essa experiência permanece com a mesma intensidade.

Com o passar do tempo, o crente pode voltar a sentir, ainda que por poucos momentos, o desejo da carne, o desejo dos olhos ou a soberba da vida.

Se não vigiar e orar continuamente, pode perceber desejos pecaminosos revivendo e pressionando-o intensamente para fazê-lo cair, até que quase não tenha força.

Pode sentir o ataque de afeições desordenadas e uma forte tendência para amar a criatura mais do que o Criador, seja um filho, pai, mãe, marido, esposa ou amigo tão próximo como a própria alma.

De muitas maneiras, pode desejar coisas e prazeres terrenos.

Na mesma proporção, esquece-se de Deus, deixa de buscar sua felicidade nele e se torna amante dos prazeres mais do que amante de Deus.

6. Se não vigiar a cada momento, voltará a sentir o desejo dos olhos: o desejo de satisfazer a imaginação com alguma coisa grandiosa, bela ou diferente.

De quantas maneiras esse desejo ataca a alma!

Talvez se manifeste em coisas insignificantes, como roupas, móveis ou objetos que jamais poderiam satisfazer o desejo de um espírito imortal.

Mesmo depois de provarmos os poderes do mundo vindouro, como é natural voltarmos a esses desejos pequenos e insensatos por coisas que desaparecem com o uso!

Até mesmo para aqueles que sabem em quem têm crido, como é difícil vencer uma única manifestação do desejo dos olhos: a curiosidade.

Como é difícil mantê-la continuamente debaixo dos pés e não desejar alguma coisa simplesmente porque é nova!

7. Como é difícil, até mesmo para os filhos de Deus, vencer completamente a soberba da vida!

João parece referir-se ao que o mundo chama de “senso de honra”.

Isso não é outra coisa senão o desejo e o prazer de receber honra das pessoas; o desejo e o amor pelo elogio, acompanhados pelo medo proporcional da crítica.

Ligada a isso está a vergonha pecaminosa: envergonhar-se daquilo em que deveríamos nos gloriar.

Ela quase sempre está acompanhada pelo medo das pessoas, que arma inúmeras ciladas para a alma.

Onde está aquele que, mesmo parecendo forte na fé, não encontra em si algum grau dessas disposições?

Essas pessoas estão crucificadas para o mundo apenas parcialmente, pois a raiz do mal ainda permanece no coração.

8. Não percebemos também outras disposições igualmente contrárias ao amor ao próximo?

O amor não pensa mal. Mas não encontramos dentro de nós ciúmes, julgamentos maliciosos ou suspeitas sem fundamento?

Aquele que está completamente livre dessas coisas pode lançar a primeira pedra contra seu próximo.

Quem nunca sente movimentos interiores contrários ao amor fraternal?

Talvez não exista maldade, ódio ou amargura declarada. Mas não existe nenhum sinal de inveja, especialmente em relação àqueles que possuem algum bem verdadeiro ou imaginado que desejamos, mas não conseguimos alcançar?

Não sentimos ressentimento quando somos feridos ou ofendidos, especialmente por pessoas que amávamos e procurávamos ajudar?

A injustiça ou a ingratidão nunca despertam em nós desejo de vingança ou vontade de retribuir o mal com o mal, em vez de vencer o mal com o bem?

Tudo isso mostra quanto ainda existe em nosso coração de contrário ao amor ao próximo.

9. A avareza, em qualquer forma ou grau, também é contrária ao amor ao próximo e ao amor de Deus.

Pode manifestar-se como amor ao dinheiro, que frequentemente é raiz de todos os males, ou simplesmente como desejo de possuir mais e aumentar os bens.

Como são poucos, até mesmo entre os verdadeiros filhos de Deus, os inteiramente livres dessas duas formas!

Martinho Lutero costumava dizer que nunca havia sentido avareza, nem mesmo antes de sua conversão.

Caso isso fosse verdade, não hesitaria em dizer que, com exceção daquele que era Deus e homem, Lutero teria sido a única pessoa nascida de mulher que nunca sentiu essa inclinação.

Creio que ninguém nasceu de Deus e viveu por um período considerável sem perceber, muitas vezes, algum grau de avareza, especialmente no sentido de desejar possuir mais.

Podemos considerar uma verdade indiscutível que a avareza, juntamente com o orgulho, a vontade própria e a ira, permanece no coração até mesmo daqueles que foram justificados.

10. Essa experiência levou muitas pessoas sinceras a interpretar a parte final de Romanos 7 não como descrição daqueles que estão debaixo da lei e convencidos do pecado — que é certamente o sentido do apóstolo —, mas como descrição daqueles que estão debaixo da graça e foram justificados gratuitamente pela redenção que há em Cristo.

Eles estão corretos pelo menos neste aspecto: mesmo naqueles que foram justificados ainda permanece uma mente em alguma medida carnal.

Paulo disse aos crentes de Corinto: “Vocês ainda são carnais.”

Permanece um coração inclinado a se afastar e pronto a abandonar o Deus vivo.

Existe tendência para o orgulho, a vontade própria, a ira, a vingança, o amor ao mundo e todo tipo de mal.

Há uma raiz de amargura que, se a restrição divina fosse retirada por um único momento, imediatamente brotaria.

Existe uma profundidade de corrupção que não podemos compreender sem que Deus nos conceda luz.

A convicção de todo esse pecado que permanece no coração constitui o arrependimento próprio daqueles que foram justificados.

11. Devemos também reconhecer que, assim como o pecado permanece no coração, ele se mistura com nossas palavras e ações.

É de temer que muitas de nossas palavras não estejam apenas misturadas com o pecado, mas sejam inteiramente pecaminosas.

Isso se aplica a toda conversa sem amor, que não nasce do amor fraternal e não está de acordo com a regra:

“Tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles.”

(Mt 7.12, NAA)

Inclui falar mal pelas costas, espalhar histórias, cochichar e repetir os defeitos de pessoas ausentes.

Ninguém desejaria que seus próprios defeitos fossem repetidos quando não está presente.

12. Como são poucos, mesmo entre os crentes, os completamente livres dessas práticas!

Como são poucos os que observam firmemente a antiga regra: “Dos mortos e dos ausentes, diga somente aquilo que é bom.”

Mesmo supondo que façam isso, também evitam toda conversa inútil?

Palavras inúteis são pecaminosas e entristecem o Espírito Santo. Jesus declarou que, no dia do juízo, as pessoas prestarão contas de toda palavra inútil que pronunciarem (Mt 12.36).

Suponhamos, porém, que vigiem e orem continuamente e não entrem nessa tentação.

Suponhamos que coloquem guarda diante da boca e vigiem a porta dos lábios, procurando fazer com que sua palavra seja sempre agradável, temperada com sal e capaz de transmitir graça aos ouvintes.

Ainda assim, não caem diariamente em conversas inúteis, apesar de todo cuidado?

Mesmo quando procuram falar em favor de Deus, suas palavras estão completamente livres de misturas impuras?

Não encontram nada de errado em sua própria intenção?

Falam somente para agradar a Deus, ou também desejam agradar a si mesmos?

Seu único propósito é cumprir a vontade de Deus, ou também procuram realizar a própria vontade?

Mesmo que comecem com uma intenção pura, continuam olhando para Jesus e mantendo comunhão com ele durante toda a conversa?

Quando repreendem o pecado, não sentem ira ou falta de bondade em relação ao pecador?

Quando ensinam os que não sabem, não percebem algum orgulho ou sentimento de superioridade?

Quando consolam os aflitos ou incentivam outros ao amor e às boas obras, nunca sentem dentro de si uma voz elogiando-os: “Você falou muito bem”?

Nunca desejam que as outras pessoas também reconheçam isso e os estimem?

Em alguns ou em todos esses aspectos, quanto pecado se mistura até mesmo com as melhores conversas dos crentes!

Reconhecer isso é outra parte do arrependimento próprio daqueles que foram justificados.

13. Quanto pecado uma consciência plenamente desperta também pode perceber em nossas ações!

Não existem muitas ações que o mundo não condenaria, mas que não podem ser elogiadas nem desculpadas quando julgadas pela Palavra de Deus?

Não realizamos muitas coisas que sabemos não terem sido feitas para a glória de Deus?

Quantas ações foram iniciadas sem que nossos olhos estivessem voltados para ele!

Mesmo entre aquelas iniciadas com intenção de glorificá-lo, quantas foram realizadas sem mantermos os olhos exclusivamente fixados em Deus!

Quantas vezes fazemos nossa vontade tanto quanto a vontade dele e procuramos agradar a nós mesmos tanto ou mais do que agradar a Deus!

Mesmo quando procuramos fazer o bem ao próximo, não sentimos disposições erradas de diversas espécies?

Assim, nossas chamadas boas ações estão longe de ser inteiramente boas, pois são contaminadas por uma mistura de mal.

Isso acontece até mesmo com nossas obras de misericórdia.

Não existe também a mesma mistura nas obras de piedade?

Enquanto ouvimos a Palavra que pode salvar nossa alma, não encontramos pensamentos que nos levam a temer que aquele momento resulte em condenação, em vez de salvação?

O mesmo não acontece frequentemente quando procuramos oferecer nossas orações a Deus, em público ou em particular?

Mesmo durante a mais solene celebração, à mesa do Senhor, que tipo de pensamentos surge?

Nosso coração não vagueia até os lugares mais distantes?

Não fica cheio de imaginações que nos fazem temer que nosso sacrifício seja desagradável ao Senhor?

Por isso, algumas vezes sentimos mais vergonha de nossos melhores deveres do que anteriormente sentíamos de nossos piores pecados.

14. Quantos pecados de omissão também cometemos!

Sabemos o que o apóstolo declarou:

“Aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, nisso está pecando.”

(Tg 4.17, NAA)

Não conhecemos inúmeras ocasiões em que poderíamos ter feito o bem a inimigos, desconhecidos ou irmãos, em relação ao corpo ou à alma, e não o fizemos?

Quantas vezes deixamos de cumprir nossos deveres para com Deus!

Quantas oportunidades de participar da Ceia, ouvir sua Palavra, orar em público ou em particular foram negligenciadas!

Até mesmo o santo arcebispo Ussher, depois de tantos trabalhos realizados para Deus, teve motivos para clamar quase no último suspiro:

“Senhor, perdoa meus pecados de omissão!”

15. Além dessas omissões exteriores, não encontramos em nós inúmeros defeitos interiores?

Não possuímos o amor, o temor e a confiança em Deus no grau que deveríamos possuir.

Não amamos adequadamente nosso próximo e cada ser humano.

Nem mesmo amamos nossos irmãos, cada filho de Deus, como deveríamos, estejam eles distantes ou diretamente ligados a nós.

Não possuímos as disposições santas no grau que deveríamos.

Somos deficientes em tudo.

Profundamente conscientes disso, estamos prontos a declarar:

“Sou como um terreno completamente coberto de espinhos.”

Ou, como Jó:

“Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.”

(Jó 42.6, NAA)

16. A convicção de nossa culpa é outra parte do arrependimento próprio dos filhos de Deus.

Isso deve ser cuidadosamente compreendido em um sentido específico.

É certo que já nenhuma condenação existe para os que estão em Cristo Jesus, que creem nele e, pelo poder dessa fé, não caminham segundo a carne, mas segundo o Espírito.

Apesar disso, eles não conseguem suportar a justiça rigorosa de Deus agora mais do que antes de crerem.

Considerados em si mesmos e por causa de tudo o que foi mencionado, ainda merecem a morte.

A justiça os condenaria, se não existisse o sangue da expiação.

Por isso, estão profundamente convencidos de que continuam merecendo castigo, embora esse castigo seja afastado deles.

Existem dois extremos neste ponto, e poucos conseguem evitá-los.

Alguns pensam que estão condenados quando já não estão. Outros imaginam que, por seus próprios méritos, merecem ser absolvidos.

A verdade está entre os dois extremos.

Considerados em si mesmos, ainda merecem condenação. Entretanto, aquilo que merecem não recai sobre eles porque possuem um Advogado junto ao Pai.

Sua vida, morte e intercessão permanecem entre eles e a condenação.

17. A convicção de nossa completa incapacidade é outra parte desse arrependimento.

Isso significa duas coisas.

Primeiro, reconhecemos que, por nós mesmos, não somos mais capazes agora de pensar um pensamento realmente bom, formar um desejo santo, pronunciar uma palavra boa ou praticar uma obra agradável a Deus do que éramos antes da justificação.

Continuamos sem qualquer força própria, sem poder natural para fazer o bem ou resistir ao mal, vencer ou enfrentar o mundo, o diabo ou nossa natureza corrompida.

É verdade que podemos realizar essas coisas. Mas não pela própria força.

Possuímos poder para vencer esses inimigos, pois o pecado já não exerce domínio sobre nós.

Esse poder, porém, não vem da natureza, nem em sua totalidade nem em parte. É inteiramente um dom de Deus.

Também não é concedido de uma vez por todas, como se recebêssemos um estoque suficiente para muitos anos. É concedido de momento em momento.

18. Em segundo lugar, nossa incapacidade significa que não podemos libertar a nós mesmos da culpa e daquilo que merecemos por causa do pecado que ainda percebemos.

Também não conseguimos, por toda a graça que já recebemos — sem sequer falar das forças naturais —, eliminar o orgulho, a vontade própria, o amor ao mundo, a ira e a tendência geral para nos afastarmos de Deus.

Sabemos por experiência que essas coisas ainda permanecem até mesmo no coração dos regenerados.

Também não conseguimos eliminar inteiramente o mal que, apesar de todos os esforços, se mistura às nossas palavras e ações.

Somos incapazes de evitar completamente toda conversa sem amor e, ainda mais, toda conversa inútil.

Não conseguimos evitar todos os pecados de omissão nem suprir os inúmeros defeitos que reconhecemos, especialmente nossa falta de amor e de disposições corretas para com Deus e as pessoas.

19. Aquele que não está convencido disso e acredita que toda pessoa justificada possui poder para eliminar esses pecados do coração e da vida deve fazer a experiência.

Tente expulsar, apenas pela graça que já recebeu, o orgulho, a vontade própria e todo o pecado interior.

Tente purificar suas palavras e ações de qualquer mistura de mal.

Tente evitar toda conversa sem amor ou inútil e todos os pecados de omissão.

Finalmente, tente suprir os incontáveis defeitos que ainda encontra em si.

Não desanime depois de uma ou duas tentativas. Repita a experiência muitas vezes.

Quanto mais tentar, mais profundamente ficará convencido de sua completa incapacidade em todos esses aspectos.

20. Essa verdade é tão evidente que quase todos os filhos de Deus espalhados pelo mundo, embora discordem em outros assuntos, geralmente concordam neste ponto:

Por meio do Espírito, podemos mortificar as obras do corpo, resistir e vencer o pecado exterior e interior e enfraquecer nossos inimigos diariamente.

Entretanto, não conseguimos expulsá-los completamente apenas pela graça recebida na justificação.

Por mais que vigiemos e oremos, não conseguimos purificar inteiramente o coração e as mãos.

Isso somente acontece quando agrada ao Senhor falar novamente ao coração:

“Fique limpo!”

Então a enfermidade é purificada.

Somente então a raiz do mal, a mentalidade carnal, é destruída, e o pecado interior deixa de existir.

Caso não exista essa segunda transformação; caso não exista libertação instantânea depois da justificação, mas apenas uma obra gradual de Deus — e ninguém nega que existe uma obra gradual —, teríamos de permanecer cheios de pecado até a morte.

Nesse caso, também permaneceríamos culpados até a morte e merecendo continuamente castigo.

A culpa não poderia ser removida enquanto todo esse pecado permanecesse no coração e se misturasse às palavras e ações.

Considerados segundo a justiça rigorosa, tudo o que pensamos, dizemos e fazemos aumentaria continuamente nossa culpa.

II. A fé dos que foram justificados

1. É nesse sentido que devemos nos arrepender depois de sermos justificados.

Enquanto não o fizermos, não poderemos avançar. Enquanto não reconhecemos a doença, não podemos receber a cura.

Entretanto, quando nos arrependemos dessa maneira, somos chamados novamente a crer no evangelho.

2. Essa fé também deve ser compreendida em um sentido específico, diferente da fé pela qual fomos inicialmente justificados.

Creia nas boas-novas da grande salvação que Deus preparou para todos.

Creia que aquele que é o resplendor da glória do Pai e a expressão exata de seu ser pode salvar completamente aqueles que se aproximam de Deus por meio dele (Hb 7.25).

Ele pode salvar você de todo pecado que ainda permanece em seu coração.

Pode salvá-lo do pecado que se mistura às palavras e ações.

Pode salvá-lo dos pecados de omissão e suprir tudo aquilo que falta em você.

É verdade que isso é impossível aos seres humanos, mas todas as coisas são possíveis ao Deus-homem.

O que poderia ser difícil demais para aquele que possui toda a autoridade no céu e na terra?

Entretanto, o simples fato de possuir poder para fazer isso não seria fundamento suficiente para crermos que realmente o fará, se ele não houvesse prometido.

3. Mas Deus prometeu repetidas vezes e nos termos mais fortes.

Concedeu-nos promessas extremamente grandes e preciosas no Antigo e no Novo Testamento.

Na lei, lemos:

“O Senhor, seu Deus, circuncidará o seu coração […] para que você ame o Senhor, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma.”

(Dt 30.6, NAA)

Nos Salmos:

“Ele remirá Israel de todas as suas iniquidades.”

(Sl 130.8, NAA)

No profeta Ezequiel, Deus promete aspergir água pura, purificar seu povo de toda impureza e idolatria, colocar dentro dele seu Espírito e salvá-lo de todas as suas impurezas (Ez 36.25–29).

No Novo Testamento, Zacarias louva a Deus por visitar e redimir seu povo, levantando poderosa salvação, para que, libertos das mãos de nossos inimigos, o sirvamos sem medo, em santidade e justiça, todos os nossos dias (Lc 1.68–75).

Temos, portanto, boas razões para crer que Deus não apenas pode, mas deseja realizar essa obra.

Ele deseja purificar você de toda impureza da carne e do espírito.

É por isso que sua alma agora anseia.

Esta é a fé de que necessita: a convicção de que o grande Médico, aquele que ama sua alma, deseja purificá-lo.

Mas ele deseja fazer isso amanhã ou hoje?

Deixe que ele mesmo responda:

“Hoje, se ouvirem a sua voz, não endureçam o coração.”

(Hb 3.15, NAA)

Adiar para amanhã é endurecer o coração e recusar-se a ouvir sua voz.

Creia, portanto, que ele deseja salvá-lo hoje. Deseja salvá-lo agora.

“Eis agora o tempo oportuno! Eis agora o dia da salvação!”

(2Co 6.2, NAA)

Agora ele diz: “Fique limpo!”

Apenas creia, e descobrirá que tudo é possível ao que crê.

4. Continue crendo naquele que o amou e se entregou por você, carregando seus pecados em seu corpo sobre a cruz.

Por meio de seu sangue continuamente aplicado, ele o salva de toda condenação.

É assim que permanecemos justificados.

Quando avançamos de fé em fé e cremos que podemos ser purificados do pecado interior e salvos de todas as impurezas, também somos salvos da culpa e do merecimento de castigo que anteriormente percebíamos.

Então podemos dizer não apenas:

A cada momento, Senhor, necessito dos méritos de tua morte,

mas também, com plena certeza da fé:

A cada momento, Senhor, recebo os méritos de tua morte!

Pela fé continuamente renovada na vida, na morte e na intercessão de Cristo em nosso favor, somos purificados.

Já não existe condenação e também é removida aquela consciência anterior de merecimento de castigo, pois o Senhor purifica o coração e a vida.

5. Pela mesma fé, sentimos continuamente o poder de Cristo repousando sobre nós.

Somente por esse poder somos aquilo que somos e continuamos vivos espiritualmente.

Sem ele, apesar de toda santidade presente, no momento seguinte estaríamos completamente entregues ao mal.

Enquanto conservamos a fé em Cristo, tiramos água das fontes da salvação.

Apoiados em nosso Amado — Cristo em nós, a esperança da glória —, que habita em nosso coração pela fé e intercede por nós à direita de Deus, recebemos ajuda para pensar, falar e agir de maneira agradável a ele.

Cristo vai adiante daqueles que creem em todas as suas ações e os acompanha com sua ajuda contínua.

Assim, seus projetos, suas palavras e suas ações começam, continuam e terminam nele.

Ele purifica os pensamentos do coração pela inspiração do Espírito Santo, para que amem perfeitamente a Deus e glorifiquem dignamente seu santo nome.

6. Dessa maneira, nos filhos de Deus, o arrependimento e a fé correspondem perfeitamente um ao outro.

Pelo arrependimento, percebemos o pecado que permanece no coração e se mistura às palavras e ações.

Pela fé, recebemos o poder de Deus em Cristo, purificando o coração e limpando as mãos.

Pelo arrependimento, reconhecemos que, considerados em nós mesmos, merecemos castigo por nossas disposições, palavras e ações.

Pela fé, sabemos que nosso Advogado junto ao Pai intercede continuamente por nós, afastando a condenação.

Pelo arrependimento, permanecemos convencidos de que não existe socorro em nós mesmos.

Pela fé, recebemos misericórdia e graça para ajudar no momento da necessidade.

O arrependimento rejeita a possibilidade de qualquer outro socorro.

A fé recebe toda a ajuda necessária daquele que possui toda a autoridade no céu e na terra.

O arrependimento diz:

“Sem mim vocês não podem fazer nada.”

(Jo 15.5, NAA)

A fé responde:

“Tudo posso naquele que me fortalece.”

(Fp 4.13, NAA)

Por meio de Cristo, posso não apenas vencer, mas expulsar todos os inimigos de minha alma.

Por meio dele, posso amar o Senhor, meu Deus, de todo o coração, toda a mente, toda a alma e todas as forças.

Posso andar em santidade e justiça diante dele todos os dias de minha vida.

III. Conclusões

1. Podemos compreender como é prejudicial a opinião de que somos inteiramente santificados no momento em que somos justificados e que nosso coração é então purificado de todo pecado.

É verdade que, nesse momento, somos libertos do domínio do pecado exterior.

O poder do pecado interior também é quebrado, de modo que já não precisamos segui-lo ou ser governados por ele.

Entretanto, não é verdade que o pecado interior seja imediatamente destruído por completo.

As raízes do orgulho, da vontade própria, da ira e do amor ao mundo ainda não foram totalmente retiradas.

A mentalidade carnal e o coração inclinado a se afastar de Deus ainda não foram completamente extirpados.

Imaginar o contrário não é um erro inocente e inofensivo.

Produz um dano imenso, pois bloqueia o caminho para qualquer transformação posterior.

Jesus declarou que os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes.

Se imaginamos que já estamos completamente curados, não existe razão para buscarmos cura adicional.

Nessa situação, torna-se incoerente esperar nova libertação do pecado, gradual ou instantânea.

2. Ao contrário, uma profunda convicção de que ainda não estamos inteiramente curados; de que nosso coração ainda não foi completamente purificado; de que permanece em nós uma mentalidade carnal que, por sua própria natureza, é inimiga de Deus; e de que um corpo de pecado ainda permanece enfraquecido, mas não destruído, demonstra claramente a necessidade absoluta de outra transformação.

Reconhecemos que, no momento da justificação, nascemos de novo.

Experimentamos a transformação das trevas para a maravilhosa luz, da imagem do animal e do diabo para a imagem de Deus, da mente terrena, sensual e diabólica para a atitude de Cristo Jesus.

Mas somos, naquele momento, inteiramente transformados?

Somos completamente renovados segundo a imagem daquele que nos criou?

Ainda não.

Permanece dentro de nós uma profundidade de pecado. A consciência dessa realidade nos faz clamar por plena libertação àquele que é poderoso para salvar.

Por isso, os crentes que não estão convencidos da profunda corrupção do coração, ou que possuem somente uma compreensão superficial e teórica, demonstram pouco interesse pela inteira santificação.

Talvez aceitem a ideia de que isso acontecerá na morte ou em algum momento indefinido antes dela.

Entretanto, não se incomodam profundamente com a ausência dessa santificação nem sentem grande fome e sede por ela.

Não podem sentir esse desejo enquanto não conhecerem melhor a si mesmos e não se arrependerem no sentido explicado.

Quando Deus revela o monstro interior e mostra a verdadeira condição da alma, somente então sentem o peso e clamam por libertação:

Quebra o jugo do pecado interior e liberta completamente meu espírito! Não descansarei enquanto não for puro e inteiramente perdido em ti.

3. Aprendemos também que uma profunda convicção de nossa falta de mérito, mesmo depois de sermos aceitos por Deus — o que em determinado sentido pode ser chamado de culpa —, é absolutamente necessária para compreendermos o verdadeiro valor do sangue da expiação.

Precisamos reconhecer que necessitamos do sangue de Cristo depois da justificação tanto quanto necessitávamos antes.

Sem essa convicção, corremos o risco de tratar como comum o sangue da aliança, imaginando que já não necessitamos tanto dele porque os pecados passados foram apagados.

Entretanto, se nosso coração e nossa vida ainda possuem tanta impureza, considerados em nós mesmos continuaríamos sujeitos à condenação a cada momento, se Cristo não vivesse eternamente para interceder por nós.

Ele vive eternamente no alto para interceder por nós; seu amor que tudo expia e seu sangue precioso falam em nosso favor.

Esse arrependimento e a fé intimamente ligados a ele podem ser expressos assim:

Em cada respiração percebo minha fraqueza; não cumpro tua vontade como os anjos no céu. Mas a fonte permanece aberta: lava meus pés, meu coração e minhas mãos, até que eu seja aperfeiçoado no amor.

4. Finalmente, uma profunda convicção de nossa completa incapacidade — de que não conseguimos conservar por nós mesmos aquilo que recebemos e muito menos libertar-nos do mundo de pecado que permanece no coração e na vida — ensina-nos a viver verdadeiramente pela fé em Cristo, não somente como nosso Sacerdote, mas também como nosso Rei.

Assim aprendemos a exaltá-lo verdadeiramente, dando-lhe toda a glória de sua graça.

Reconhecemos Cristo como Salvador completo e colocamos a coroa sobre sua cabeça.

Essas expressões frequentemente são usadas com pouco significado. Entretanto, tornam-se realidade profunda quando saímos, por assim dizer, de nós mesmos para sermos absorvidos nele; quando nos tornamos nada para que ele seja tudo em todos.

Então sua graça poderosa destrói tudo aquilo que se levanta contra ele.

Toda disposição, pensamento, palavra e ação é levada à obediência de Cristo.

Londonderry, 24 de abril de 1767.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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