SERMÃO 38

Advertência contra o fanatismo

Sobre a intolerância religiosa e o apego excessivo ao próprio partido.

Mc 9.38–39, NAA ⏱ 23 min de leituraRazão e discernimento

“Disse-lhe João: Mestre, vimos um homem que, em teu nome, expelia demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não segue conosco. Mas Jesus respondeu: Não lho proibais.”

(Mc 9.38–39, NAA)

Antes de ler

Uma nota sobre a palavra: o título original, "bigotry", designa a intolerância nascida de um apego excessivo ao próprio partido, opinião, igreja ou religião — o que Wesley aqui chama de fanatismo sectário. É o tema perfeito para o irmão do "espírito católico": como reagir diante de alguém que faz genuinamente a obra de Deus, mas "não segue conosco"? A resposta de Jesus — "não lho proibais" — é o coração do sermão. Wesley primeiro mostra em que sentido ainda hoje se expulsam demônios (levando pecadores ao arrependimento), depois examina todas as razões pelas quais nos sentimos tentados a proibir alguém (não é do nosso grupo, difere em opinião, em prática, até em igreja), e conclui que ceder a qualquer delas é ser fanático. É um dos textos mais generosos e atuais de Wesley — e note o desfecho magnânimo sobre Lutero.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Nos versículos anteriores, lemos que, depois de os Doze terem discutido “qual deles seria o maior”, Jesus tomou uma criança, colocou-a no meio deles e, tomando-a nos braços, lhes disse: “Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, não recebe a mim”, apenas, “mas ao que me enviou”. Então “João respondeu”, isto é, disse, com referência ao que o Senhor acabara de falar: “Mestre, vimos um homem que, em teu nome, expelia demônios, e nós lho proibimos, porque não segue conosco.” Como se dissesse: “Devíamos tê-lo recebido? Ao recebê-lo, teríamos recebido a ti? Não devíamos antes tê-lo proibido? Não fizemos bem nisso?” “Mas Jesus respondeu: Não lho proibais.”

2. A mesma passagem é recitada por Lucas, e quase nas mesmas palavras. Mas pode-se perguntar: “Que é isto para nós, visto que nenhum homem expele agora demônios? Não foi retirado da igreja o poder de fazer isto, há mil e duzentos ou mil e quatrocentos anos? Como, então, estamos envolvidos no caso aqui proposto, ou na decisão que o nosso Senhor deu?” Talvez mais de perto do que comumente se imagina, sendo o caso proposto um caso nada incomum. Para colhermos todo o proveito dele, pretendo mostrar, primeiro, em que sentido os homens podem, e de fato ainda hoje, expelir demônios; segundo, o que devemos entender por “não segue conosco”; terceiro, explicarei a orientação do nosso Senhor, “não lho proibais”; e concluirei com uma inferência do todo.

I. Em que sentido ainda hoje se expelem demônios

1. Para termos disto a visão mais clara, devemos lembrar que (segundo o relato bíblico), assim como Deus habita e opera nos filhos da luz, também o diabo habita e opera nos filhos das trevas. Assim como o Espírito Santo possui a alma dos homens bons, também o espírito mau possui a alma dos maus. Daí é que o apóstolo o chama de “o deus deste século”, pelo poder incontido que ele tem sobre os homens mundanos. Daí o nosso bendito Senhor o chamar de “o príncipe deste mundo”; tão absoluto é o seu domínio sobre ele. E daí João: “Sabemos que somos de Deus, e” todos os que não são de Deus, “o mundo inteiro, jaz no Maligno”; vivem e se movem nele, como os que não são do mundo o fazem em Deus.

2. Pois o diabo não deve ser considerado só como “um leão que ruge, procurando alguém para devorar”, nem apenas como um inimigo astuto, que vem de surpresa sobre as pobres almas e “as leva cativas à sua vontade”, mas como aquele que habita nelas e anda nelas; que governa as trevas ou a maldade deste mundo, mantendo posse dos seus corações, erigindo ali o seu trono e levando todo pensamento à obediência a si mesmo. Assim, “o valente armado guarda a sua casa”; e, se este “espírito imundo” às vezes “sai de um homem”, contudo, muitas vezes volta com “sete espíritos piores do que ele, e entram e ali habitam”. Nem pode ficar ocioso na sua morada. Está continuamente “operando nestes filhos da desobediência”. Opera neles com poder, com poderosa energia, transformando-os à sua própria semelhança, apagando todos os restos da imagem de Deus e preparando-os para toda má palavra e obra.

3. É, portanto, verdade inquestionável que o deus e príncipe deste mundo ainda possui todos os que não conhecem a Deus. Só que a maneira pela qual os possui agora difere daquela pela qual o fazia antigamente. Então, frequentemente atormentava-lhes tanto o corpo quanto a alma, e isso abertamente, sem disfarce algum; agora, atormenta-lhes só a alma (a não ser em casos raros), e isso do modo mais encoberto possível. A razão dessa diferença é clara: era então o seu alvo lançar a humanidade na superstição; por isso, operava tão abertamente quanto podia. Mas o seu alvo agora é lançar-nos na incredulidade; por isso, opera tão secretamente quanto pode: pois, quanto mais secreto é, mais prevalece.

4. Ele reina, portanto, embora de modo diferente, tão absoluto numa terra quanto na outra. Tem o alegre incrédulo italiano entre os dentes, tão certamente quanto o tártaro selvagem. Mas este dorme profundamente na boca do leão, que é sábio demais para acordá-lo. Assim, ele apenas brinca com ele por ora e, quando lhe apraz, o traga! O deus deste mundo segura os seus adoradores tão firmemente quanto os da Lapônia. Mas não é do seu interesse assustá-los, para que não fujam ao Deus do céu. O príncipe das trevas, portanto, não aparece enquanto governa sobre esses seus súditos voluntários. O conquistador segura os seus cativos tanto mais seguros porque eles se imaginam em liberdade.

5. Todo esse tempo ele opera com energia neles. Cega os olhos do seu entendimento, para que a luz do glorioso evangelho de Cristo não resplandeça sobre eles. Acorrenta-lhes a alma à terra e ao inferno, com as cadeias das suas próprias afeições vis. Prende-os à terra pelo amor ao mundo, ao dinheiro, ao prazer, ao louvor. E, pelo orgulho, pela inveja, pela ira, pelo ódio, pela vingança, faz com que a sua alma se aproxime do inferno, atuando com tanto mais segurança e sem freio porque eles não sabem que ele atua.

6. Mas quão facilmente podemos conhecer a causa pelos seus efeitos! Estes são às vezes grosseiros e palpáveis. Assim eram entre as mais refinadas nações pagãs. Não vá além dos admirados e virtuosos romanos, e você os achará, no auge da sua erudição e glória, “cheios de toda injustiça, imoralidade, malícia, avareza; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade; caluniadores, difamadores, soberbos, presunçosos, desobedientes aos pais, sem entendimento, sem afeição natural, implacáveis, sem misericórdia”.

7. Tão grosseiras e palpáveis são as obras do diabo entre muitos (se não todos) os pagãos modernos. A religião natural de nações inteiras que fazem fronteira com os nossos assentamentos do sul é torturar todos os seus prisioneiros de manhã até a noite, até enfim assá-los até a morte; e, à mais leve provocação não intencional, vir por trás e matar qualquer dos seus próprios compatriotas. Quisera Deus que só os pagãos houvessem praticado tais grosseiras e palpáveis obras do diabo. Mas não ousamos dizê-lo. Mesmo em crueldade e derramamento de sangue, quão pouco os cristãos ficaram atrás deles! E não só os espanhóis ou portugueses, massacrando milhares na América do Sul; os nossos próprios compatriotas também se saciaram de sangue e exterminaram nações inteiras — provando claramente com isso que espírito é o que habita e opera nos filhos da desobediência.

8. Esses monstros poderiam quase fazer-nos ignorar as obras do diabo que se praticam no nosso próprio país. Mas, ai! não podemos abrir os olhos nem aqui sem vê-las por todos os lados. É pequena prova do seu poder que blasfemos habituais, bêbados, adúlteros, ladrões, assassinos ainda se achem em toda parte da nossa terra? Quão triunfante reina o príncipe deste mundo em todos esses filhos da desobediência! Ele, de modo menos aberto, mas não menos eficaz, opera nos dissimulados, nos mexeriqueiros, nos mentirosos, nos caluniadores; nos opressores e extorsionários, nos perjuros, no que vende o amigo, a honra, a consciência, a pátria. E, contudo, estes ainda podem falar de religião ou de consciência, de honra, virtude e espírito público! Mas não podem enganar a Satanás mais do que podem enganar a Deus. Ele também conhece os que são seus.

9. Se você considera isto, não pode senão ver em que sentido os homens ainda hoje podem expelir demônios; sim, e todo ministro de Cristo de fato os expele, se a obra do seu Senhor prospera na sua mão. Pelo poder de Deus que acompanha a sua palavra, ele leva esses pecadores ao arrependimento — uma inteira mudança interior e exterior, de todo o mal para todo o bem. E isto é, em sentido são, expelir demônios das almas em que eles até então habitavam. O valente já não pode guardar a sua casa. Um mais forte do que ele veio sobre ele, expulsou-o, tomou posse para si e a fez morada de Deus pelo seu Espírito. Aqui, então, a energia de Satanás termina, e o Filho de Deus “destrói as obras do diabo”. O entendimento do pecador é agora iluminado, e o seu coração docemente atraído a Deus. Os seus desejos são refinados, os seus afetos purificados; e, cheio do Espírito Santo, ele cresce na graça, até ser santo, não só de coração, mas em todo o seu procedimento.

10. Tudo isto é, de fato, obra de Deus. Só Deus pode expulsar Satanás. Mas ele geralmente se compraz em fazê-lo por meio do homem, como instrumento na sua mão — de quem se diz então que expele demônios em nome dele, pelo seu poder e autoridade. E ele envia a quem quer enviar para esta grande obra; mas geralmente tais que o homem jamais teria pensado: pois “os seus caminhos não são como os nossos, nem os seus pensamentos como os nossos”. Assim, ele escolhe os fracos para confundir os fortes, os loucos para confundir os sábios, por esta clara razão: para assegurar a glória a si mesmo, para que “nenhum ser humano se glorie na sua presença”.

II. O que é “não segue conosco”

1. Mas não devemos proibir aquele que assim “expele demônios”, se “não segue conosco”? Este, ao que parece, era tanto o juízo quanto a prática do apóstolo, até que ele levou o caso ao seu Mestre. O sentido mais baixo que podemos entender por essa expressão “não segue conosco” é: ele não tem conexão exterior conosco. Não trabalhamos em conjunto uns com os outros. Ele não é nosso companheiro de trabalho no evangelho. E, de fato, sempre que o nosso Senhor se compraz em enviar muitos obreiros à sua seara, eles não podem todos agir em subordinação ou conexão uns com os outros. Aliás, não podem sequer ser conhecidos uns dos outros. Muitos haverá, necessariamente, em diferentes partes da seara, tão longe de ter qualquer trato mútuo que serão tão absolutos estranhos uns aos outros como se tivessem vivido em eras diferentes. E de qualquer destes que não conhecemos, podemos, sem dúvida, dizer: “Ele não segue conosco.”

2. Um segundo sentido dessa expressão pode ser: ele não é do nosso partido. Há muito é matéria de melancólica consideração, para todos os que oram pela paz de Jerusalém, que tantos partidos diversos ainda subsistam entre os que são todos chamados cristãos. As mais triviais circunstâncias deram origem a partidos diferentes, que continuaram por muitas gerações; e cada um destes estaria pronto a objetar a alguém que estivesse do outro lado: “Ele não segue conosco.”

3. Essa expressão pode significar, terceiro: ele difere de nós nas opiniões religiosas. Houve um tempo em que todos os cristãos eram de uma só mente, bem como de um só coração, tão grande graça havia sobre todos eles, quando foram pela primeira vez cheios do Espírito Santo! Mas por quão curto espaço durou essa bênção! Quão cedo se perdeu aquela unanimidade, e a diferença de opinião brotou de novo, mesmo na igreja de Cristo — e isso não em cristãos nominais, mas em cristãos reais; aliás, nos próprios principais deles, os apóstolos! Não é, portanto, de modo algum surpreendente que infinitas variedades de opinião se achem agora na igreja cristã. É consequência muito provável disto que, sempre que virmos alguém “expelindo demônios”, ele seja um que, nesse sentido, “não segue conosco” — isto é, não é da nossa opinião. Muito provavelmente ele pensará de modo diferente de nós, mesmo em vários assuntos de importância, como a natureza e o uso da lei moral, os decretos eternos de Deus, a suficiência e eficácia da sua graça e a perseverança dos seus filhos.

4. Ele pode diferir de nós, quarto, não só em opinião, mas também em algum ponto de prática. Pode não aprovar aquele modo de adorar a Deus que se pratica na nossa congregação, e julgar mais proveitoso para a sua alma o que teve origem em Calvino ou em Martinho Lutero. Pode ter muitas objeções àquela liturgia que aprovamos acima de todas as outras; muitas dúvidas sobre aquela forma de governo eclesiástico que estimamos ser tanto apostólica quanto bíblica. Talvez vá ainda mais longe: pode, por princípio de consciência, abster-se de várias das que cremos ser as ordenanças de Cristo. A consequência inevitável de qualquer dessas diferenças será que aquele que assim difere de nós deve separar-se, quanto a esses pontos, da nossa sociedade. Nesse respeito, portanto, “ele não segue conosco”: não é (como dizemos) “da nossa Igreja”.

5. Mas, em sentido muito mais forte, “não segue conosco” aquele que não só é de uma Igreja diferente, mas de tal Igreja que temos por, em muitos aspectos, antibíblica e anticristã — uma Igreja que cremos ser totalmente falsa e errônea nas suas doutrinas, bem como muito perigosamente errada na sua prática; culpada de grosseira superstição, bem como de idolatria; uma Igreja que acrescentou muitos artigos à fé que uma vez foi entregue aos santos. Ora, certíssimo é que “não segue conosco” quem está a tão grande distância de nós.

6. E, contudo, pode haver diferença ainda maior do que esta. Aquele que difere de nós no juízo ou na prática pode, possivelmente, estar a maior distância de nós no afeto do que no juízo. E isto, de fato, é efeito muito natural e muito comum do outro. As diferenças que começam em pontos de opinião raramente terminam aí. Geralmente se espalham para os afetos e, então, separam os amigos mais chegados. Nem há animosidades tão profundas e irreconciliáveis quanto as que nascem da discordância em religião. Por isso, os mais amargos inimigos de um homem são os da sua própria casa. Por isso o pai se levanta contra os próprios filhos, e os filhos contra o pai, e talvez se persigam uns aos outros até a morte, pensando o tempo todo que estão prestando culto a Deus. Não é, portanto, mais do que podemos esperar, se os que diferem de nós, seja nas opiniões, seja na prática religiosa, logo contraem uma aspereza, sim, uma amargura para conosco; se ficam cada vez mais preconceituosos contra nós, até conceberem tão má opinião das nossas pessoas quanto dos nossos princípios. Aquele que pensa, fala e age dessa maneira, no mais alto sentido, “não segue conosco”.

7. Não creio, de fato, que a pessoa de quem o apóstolo fala no texto tenha ido tão longe assim. Não temos fundamento para supor que houvesse qualquer diferença material entre ele e os apóstolos, muito menos que tivesse algum preconceito contra eles ou contra o seu Mestre. Parece que podemos concluir isto das próprias palavras do nosso Senhor, que imediatamente seguem o texto: “Ninguém há que faça milagre em meu nome e, logo a seguir, possa falar mal de mim.” Mas propositadamente ponho o caso na luz mais forte, acrescentando todas as circunstâncias que se possam conceber, para que, prevenidos da tentação em toda a sua força, em caso algum cedamos a ela e lutemos contra Deus.

III. “Não lho proibais”

1. Suponha, então, que um homem não tenha trato conosco; suponha que não seja do nosso partido; suponha que se separe da nossa Igreja; sim, e que difira amplamente de nós, no juízo, na prática e no afeto; ainda assim, se virmos até este homem “expelindo demônios”, Jesus diz: “Não lho proibais.”

2. Se virmos este homem expelindo demônios: mas já é muito se, em tal caso, crêssemos até no que víssemos com os próprios olhos, se não desmentíssemos os nossos próprios sentidos. Pouco conhece a natureza humana quem não percebe de imediato quão extremamente relutantes seríamos em crer que qualquer homem expele demônios se “não segue conosco” em todos ou na maioria dos sentidos acima; quase disse, em qualquer deles, visto que podemos facilmente aprender, mesmo do que se passa em nosso próprio peito, quão relutantes são os homens em admitir algo de bom nos que não concordam com eles em todas as coisas.

3. “Mas o que é prova suficiente e razoável de que um homem (no sentido acima) expele demônios?” A resposta é fácil. Há prova plena: (1) de que uma pessoa diante de nós era um pecador grosseiro e declarado? (2) de que agora não o é — de que rompeu com os seus pecados e vive uma vida cristã? E (3) de que essa mudança se operou por ela ouvir este homem pregar? Se estes três pontos forem claros e inegáveis, então você tem prova suficiente e razoável, tal que não pode resistir sem pecado deliberado, de que este homem expele demônios.

4. Então, “não lho proibais”. Cuidado em como você tenta estorvá-lo, seja pela sua autoridade, seja por argumentos, seja por persuasões. De modo algum se esforce por impedir que ele use todo o poder que Deus lhe deu. Se você tem autoridade sobre ele, não use essa autoridade para deter a obra de Deus. Não lhe forneça razões pelas quais não deva mais falar em nome de Jesus. Satanás não deixará de supri-lo com estas, se você não o secundar nisso. Não o persuada a apartar-se da obra. Se ele desse lugar ao diabo e a você, muitas almas poderiam perecer na sua iniquidade, mas o seu sangue Deus o requereria das suas mãos.

5. “Mas e se ele for apenas um leigo, que expele demônios? Não devo proibi-lo, então?” O fato é admitido? Há prova razoável de que este homem expele, ou expeliu, demônios? Se há, não lho proíba; não, nem sob o perigo da sua alma. Não há de Deus operar por quem quer? Nenhum homem pode fazer estas obras se Deus não estiver com ele; se Deus não o houver enviado para esta mesma coisa. Mas, se Deus o enviou, você o chamará de volta? Você lhe proibirá ir?

6. “Mas eu não sei se ele é enviado por Deus.” “Nisto é de admirar” (pode dizer qualquer dos selos da sua missão, qualquer a quem ele trouxe de Satanás para Deus): “que vós não saibais donde ele é, e, contudo, ele me abriu os olhos! Se este homem não fosse de Deus, nada poderia fazer.” Se você duvida do fato, mande chamar os pais do homem, os seus irmãos, amigos, conhecidos. Mas, se você não pode duvidar disto, se precisa reconhecer “que um sinal notório foi realizado”, então, com que consciência, com que cara pode você ordenar àquele a quem Deus enviou “que não fale mais no nome dele”?

7. Admito que é altamente conveniente que quem prega em nome dele tenha um chamado tanto exterior quanto interior; mas que seja absolutamente necessário, isso nego. “Ora, a Escritura não é expressa: ‘Ninguém toma para si esta honra, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão’ (Hb 5.4)?” Inúmeras vezes este texto foi citado a propósito, como se contivesse a própria força da causa; mas certamente nunca houve citação tão infeliz. Pois, primeiro, Arão não foi chamado a pregar de modo algum: foi chamado “a oferecer dons e sacrifícios pelo pecado”. Essa era a sua ocupação peculiar. Segundo, estes homens não oferecem sacrifício algum, mas só pregam, o que Arão não fazia. Portanto, não é possível achar em toda a Bíblia um texto mais distante do ponto do que este.

8. “Mas qual foi a prática da era apostólica?” Você pode facilmente vê-lo nos Atos dos Apóstolos. No capítulo 8, lemos: “Levantou-se grande perseguição contra a igreja de Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria” (At 8.1). “Os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At 8.4). Ora, foram todos estes exteriormente chamados a pregar? Nenhum homem em seu juízo pode pensar assim. Eis, então, prova inegável do que foi a prática da era apostólica. Aqui você vê, não um, mas uma multidão de pregadores leigos, homens que eram apenas enviados por Deus.

9. De fato, tão longe está a prática da era apostólica de inclinar-nos a pensar que era ilícito um homem pregar antes de ordenado, que temos razão para pensar que se tinha então isso por necessário. Certamente a prática e a orientação do apóstolo Paulo eram provar um homem antes de ordená-lo: “Sejam estes” (os diáconos), diz ele, “primeiramente experimentados; depois, exerçam o diaconato” (1Tm 3.10). Experimentados como? Fazendo uma clara e aberta prova (como ainda se faz na maioria das Igrejas protestantes da Europa), não só se a sua vida é santa e irrepreensível, mas se têm dons tais que são absoluta e indispensavelmente necessários para edificar a igreja de Cristo.

10. Mas e se um homem tem estes dons, e trouxe pecadores ao arrependimento, e, contudo, o bispo não quer ordená-lo? Então o bispo lhe proíbe expelir demônios. Mas eu não ouso proibi-lo. Publiquei as minhas razões a todo o mundo. Contudo, ainda se insiste que eu deveria fazê-lo. Vocês que insistem nisso, respondam a essas razões. Enquanto isto não for feito, devo dizer: quando tenho prova razoável de que um homem expele demônios, faça o que os outros fizerem, eu não ouso proibi-lo, para não ser achado até a lutar contra Deus.

11. E quem quer que você seja que teme a Deus, “não lho proíba”, nem direta nem indiretamente. Há muitos modos de fazê-lo. Você o proíbe indiretamente se, ou nega totalmente, ou despreza e faz pouco caso da obra que Deus operou pelas suas mãos. Você o proíbe indiretamente quando o desanima na sua obra, atraindo-o a disputas sobre ela, levantando objeções, ou assustando-o com consequências que muito possivelmente nunca virão. Você o proíbe quando mostra qualquer desamor para com ele, seja na linguagem, seja no comportamento; e muito mais quando fala dele a outros de modo desamoroso ou desdenhoso. Você o está proibindo todo o tempo em que fala mal dele, ou não faz caso dos seus labores. Ó, não o proíba de nenhum desses modos; nem proibindo outros de ouvi-lo, desanimando os pecadores de ouvir aquela palavra que é capaz de salvar as suas almas!

12. Sim, se você quiser observar a orientação do nosso Senhor em todo o seu sentido e extensão, então lembre-se da sua palavra: “Quem não é por nós é contra nós; e quem comigo não ajunta espalha.” Pois não pode haver neutro nesta guerra. Cada um está, ou do lado de Deus, ou do de Satanás. Você está do lado de Deus? Então você não só não proibirá qualquer homem que expele demônios, mas trabalhará, até o limite do seu poder, para ajudá-lo na obra. Você prontamente reconhecerá a obra de Deus e confessará a sua grandeza. Removerá do caminho dele, tanto quanto possível, todas as dificuldades e objeções. Fortalecerá as suas mãos, falando honrosamente dele diante de todos os homens e declarando as coisas que viu e ouviu. Encorajará outros a atender à sua palavra, a ouvir aquele que Deus enviou. E não omitirá prova alguma de terno amor que Deus lhe der oportunidade de mostrar-lhe.

IV. A inferência: guarda-te do fanatismo

1. Se falharmos deliberadamente em qualquer destes pontos, se, direta ou indiretamente, o proibirmos “porque não segue conosco”, então somos fanáticos. Esta é a inferência que tiro do que foi dito. Mas o termo “fanatismo”, temo, por mais frequentemente que seja usado, é quase tão pouco entendido quanto “entusiasmo”. É um apego, ou uma afeição, forte demais pelo nosso próprio partido, opinião, igreja e religião. Portanto, é fanático aquele que é tão apegado a qualquer destes, tão fortemente ligado a eles, que proíbe qualquer que expele demônios, porque difere dele em algum ou em todos esses pontos.

2. Acautele-se disto. Cuide (1) de não convencer você mesmo de fanatismo pela sua relutância em crer que qualquer homem expele demônios, que difere de você. E, se você está limpo até aqui, se reconhece o fato, então examine-se: (2) Não estou convicto de fanatismo nisto, em proibi-lo direta ou indiretamente? Não o proíbo diretamente por este motivo, porque ele não é do meu partido, porque não concorda com as minhas opiniões, ou porque não adora a Deus segundo aquele esquema de religião que recebi dos meus pais?

3. Examine-se: Não o proíbo, ao menos indiretamente, por algum destes motivos? Não me entristeço de que Deus assim reconheça e abençoe um homem que sustenta opiniões tão errôneas? Não o desanimo, porque não é da minha Igreja, disputando com ele sobre ela, levantando objeções e perturbando a sua mente com consequências remotas? Não mostro ira, desprezo ou desamor de nenhum tipo, seja nas minhas palavras, seja nas minhas ações? Não menciono, pelas costas, as suas faltas (reais ou supostas), os seus defeitos ou fraquezas? Não estorvo os pecadores de ouvir a sua palavra? Se você faz alguma destas coisas, é fanático até hoje.

4. “Sonda-me, ó Deus, e prova-me. Examina o meu íntimo e o meu coração! Vê se há em mim algum caminho de” fanatismo, “e guia-me pelo caminho eterno.” Para nos examinarmos a fundo, ponha-se o caso da maneira mais forte. E se eu visse um papista, um ariano, um sociniano expelindo demônios? Se o visse, não poderia proibir sequer a ele, sem convencer-me a mim mesmo de fanatismo. Sim, se se pudesse supor que eu visse um judeu, um deísta ou um muçulmano fazendo o mesmo, se eu o proibisse direta ou indiretamente, não seria melhor do que um fanático ainda.

5. Ó, guarde-se disto! Mas não se contente com não proibir qualquer que expele demônios. É bom ir até aqui; mas não pare aqui. Se você quiser evitar todo fanatismo, prossiga. Em cada caso desse tipo, seja qual for o instrumento, reconheça o dedo de Deus. E não só reconheça, mas alegre-se na sua obra e louve o seu nome com ações de graças. Encoraje quem quer que Deus se compraza em empregar a entregar-se inteiramente à obra. Fale bem dele onde quer que esteja; defenda o seu caráter e a sua missão. Amplie, tanto quanto puder, a sua esfera de ação; mostre-lhe toda bondade em palavra e obra; e não cesse de clamar a Deus em favor dele, para que ele salve tanto a si mesmo quanto aos que o ouvem.

6. Só preciso acrescentar uma cautela: não pense que o fanatismo de outro seja alguma desculpa para o seu. Não é impossível que aquele que expele demônios ele mesmo, contudo, o proíba de fazê-lo. Você pode observar que este é o próprio caso mencionado no texto. Os apóstolos proibiam a outro o que eles mesmos faziam. Mas acautele-se de retribuir. Não é a sua parte devolver mal por mal. O não observar outrem a orientação do nosso Senhor não é razão para você a negligenciar. Antes, deixe-o ficar com todo o fanatismo para si. Se ele o proíbe, não o proíba você. Antes, trabalhe, vigie e ore ainda mais, para firmar o seu amor para com ele. Se ele fala todo tipo de mal de você, fale todo tipo de bem (que seja verdade) dele. Imite nisto aquela gloriosa frase de um grande homem (quisera Deus que ele sempre houvesse respirado o mesmo espírito!): “Que Lutero me chame de cem demônios; ainda assim, eu o reverenciarei como um mensageiro de Deus.”

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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