SERMÃO 78
A idolatria espiritual
“Filhinhos, guardem-se dos ídolos” — inclusive dos ídolos sutis do coração.
“Filhinhos, cuidado com os ídolos!”
(1Jo 5.21, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley amplia o conceito de idolatria. Ele não trata principalmente da adoração de imagens, divindades pagãs ou santos, mas da idolatria interior: entregar a alguma criatura o lugar que pertence somente a Deus.
Para Wesley, qualquer coisa em que buscamos nossa felicidade independentemente de Deus torna-se um ídolo. Isso inclui prazeres sensoriais, beleza, diversões, conhecimento, reputação, dinheiro e até mesmo os relacionamentos mais legítimos. Não é errado amar pessoas, apreciar a beleza, estudar ou desfrutar os dons da criação. A idolatria começa quando essas coisas passam a ocupar o centro do coração e se tornam nossa fonte principal de segurança, identidade ou felicidade.
Algumas referências à Igreja de Roma refletem a controvérsia protestante do século XVIII e devem ser compreendidas dentro desse contexto. O argumento principal de Wesley é pastoral: somente Deus pode satisfazer plenamente o coração humano.
— Bispo Ildo Mello
Existem duas palavras que aparecem várias vezes nesta carta: paidia e teknia. Ambas foram traduzidas pela mesma expressão: “filhinhos”. Seus significados, porém, são muito diferentes. A primeira é corretamente traduzida por “filhinhos”, pois significa crianças em Cristo, aqueles que recentemente provaram seu amor e ainda são fracos e pouco firmes nele. A segunda poderia ser traduzida mais adequadamente por “filhos amados”, pois expressa simplesmente a afeição daquele que fala por aqueles que gerou no Senhor.
Um historiador antigo relata que, quando o apóstolo estava tão enfraquecido pela idade que já não conseguia pregar, era frequentemente levado à congregação em sua cadeira e apenas dizia: “Filhos amados, amem uns aos outros.” Ele não poderia ter dado conselho mais importante. Igualmente importante é o conselho que temos diante de nós, igualmente necessário para cada parte da Igreja de Cristo: “Filhos amados, cuidado com os ídolos!”
Existe, realmente, estreita ligação entre esses dois conselhos. Um não pode subsistir sem o outro. Assim como não existe fundamento firme para o amor aos irmãos fora do amor de Deus, também não é possível amar a Deus sem nos guardarmos dos ídolos. Mas quais são os ídolos mencionados pelo apóstolo? Essa é a primeira questão a considerar. Em segundo lugar, podemos perguntar: como nos guardaremos deles?
I. 1. Consideremos, em primeiro lugar, quais são os ídolos mencionados pelo apóstolo. Não penso que ele estivesse se referindo, pelo menos não principalmente, aos ídolos adorados pelos pagãos. Aqueles aos quais escrevia, quer fossem anteriormente judeus, quer pagãos, não corriam grande perigo de voltar-se para esses ídolos. Não é provável que os judeus convertidos tivessem participado dessa adoração. Embora os israelitas tivessem se entregado profundamente à idolatria grosseira durante muitas gerações, quase nunca voltaram a envolver-se nela depois do retorno do cativeiro babilônico. Desde aquele período, todo o povo judeu demonstrava profunda e constante aversão a ela. Os pagãos, depois de se voltarem para o Deus vivo, também sentiam extrema repulsa por seus antigos ídolos. Abominavam tocar naquilo que era impuro e preferiam entregar a própria vida a voltar à adoração daqueles deuses que agora sabiam ser demônios.
Também não podemos razoavelmente supor que João estivesse se referindo àqueles ídolos atualmente adorados na Igreja de Roma, fossem anjos, almas de santos falecidos ou imagens de ouro, prata, madeira ou pedra. Nenhum desses ídolos era conhecido na Igreja cristã até alguns séculos depois da época dos apóstolos. É verdade que o próprio João, em certa ocasião, caiu aos pés de um anjo para adorá-lo, provavelmente porque, diante de sua aparência gloriosa, o confundiu com o grande Anjo da Aliança. A forte repreensão que recebeu imediatamente, porém, impediu os cristãos de imitarem aquele mau exemplo: “Não faça isso! […] Sou servo de Deus, assim como são você e os seus irmãos, os profetas. Adore a Deus” (Apocalipse 22.9).
Deixando de lado os ídolos pagãos e romanos, quais são os ídolos contra os quais o apóstolo nos adverte? As palavras anteriores nos mostram seu significado. “Este é o verdadeiro Deus”: a finalidade de todas as almas que criou e o centro de todos os espíritos criados. Ele é “a vida eterna”: o único fundamento da felicidade presente e eterna. Portanto, somente a ele pertence nosso coração. Ele não pode e não abrirá mão desse direito, nem consentirá que o coração seja dado a outra pessoa ou coisa. Ele diz continuamente a cada filho dos seres humanos: “Meu filho, dê-me o seu coração” (Provérbios 23.26). Dar o coração a qualquer outra coisa é clara idolatria. Consequentemente, tudo aquilo que retira nosso coração de Deus ou o divide com ele é um ídolo; em outras palavras, tudo aquilo em que procuramos felicidade independentemente de Deus.
Consideremos um exemplo que ocorre quase todos os dias. Uma pessoa há muito envolvida com o mundo, cercada e cansada por muitos negócios, finalmente adquiriu uma situação financeira confortável. Afasta-se então de todas as atividades e retira-se para o campo, a fim de ser feliz. Feliz em quê? Em descansar. Pretende agora:
Somno et inertibus horis
Ducere solicitae jucunda oblivia vitae:
Dormir e passar o dia
Numa agradável inatividade,
Esquecendo as preocupações da vida!
Será feliz comendo e bebendo tudo aquilo que o coração deseja, talvez alimentos mais requintados do que os do antigo romano que alimentava a imaginação antes de a refeição ser servida e, antes de sair da cidade, consolava-se pensando em “verduras bem preparadas com toucinho gorduroso”:
Uncta satis pingui ponentur oluscula lardo!
Será feliz modificando, ampliando, reconstruindo ou, pelo menos, decorando a antiga mansão que adquiriu; melhorando tudo ao redor dela, os estábulos, os anexos e os terrenos. Enquanto isso, onde Deus entra nesse projeto? Em lugar algum. A pessoa não pensou nele. Não pensou no Rei dos céus mais do que pensou no rei da França. Deus não faz parte do seu plano. O conhecimento e o amor de Deus estão completamente fora de questão. Portanto, todo esse projeto de felicidade no retiro campestre é idolatria, do princípio ao fim.
Descendo aos detalhes, a primeira espécie dessa idolatria é aquilo que João chama de “desejo da carne” (1 João 2.16). Somos inclinados a interpretar essa expressão num sentido excessivamente limitado, como se estivesse relacionada a apenas um dos sentidos. Não é assim. Ela se refere igualmente a todos os sentidos exteriores. Significa buscar felicidade na satisfação de algum ou de todos os sentidos externos, embora se refira especialmente aos três sentidos considerados inferiores: paladar, olfato e tato. Significa buscar felicidade nessas coisas, ainda que não seja de maneira grosseira e indecente, mediante intemperança aberta, glutonaria, embriaguez ou imoralidade vergonhosa. Pode acontecer por meio de um epicurismo regular, de uma sensualidade elegante, de um refinado estilo de autossatisfação que não perturbe a cabeça nem o estômago, não prejudique a saúde e não manche a reputação.
Não devemos imaginar que essa espécie de idolatria esteja limitada aos ricos e poderosos. Também nesse assunto, “o pé do camponês”, como diz nosso poeta, “pisa no calcanhar do cortesão”. Milhares de pessoas das classes mais humildes, assim como das mais elevadas, sacrificam a esse ídolo, procurando sua felicidade, embora de maneira mais simples, na satisfação dos sentidos exteriores. É verdade que seus alimentos, bebidas e demais objetos de satisfação são de qualidade mais simples. Apesar disso, constituem toda a felicidade que possuem ou procuram e ocupam no coração o lugar que pertence a Deus.
A segunda espécie de idolatria mencionada pelo apóstolo é o “desejo dos olhos”, isto é, buscar felicidade na satisfação da imaginação, principalmente por meio dos olhos. A imaginação é um sentido interior tão natural aos seres humanos quanto a visão ou a audição. Ela é satisfeita por objetos grandiosos, belos ou incomuns. Quanto aos objetos grandiosos, parece que deixam de agradar quando já não são novos. Caso contemplássemos diariamente as pirâmides do Egito durante um ano, quanto prazer ainda produziriam? Que prazer um objeto muito mais grandioso:
O oceano que rola sobre a praia coberta de conchas,
produz na pessoa que há muito está acostumada a contemplá-lo? Que prazer geralmente recebemos do objeto mais grandioso do universo:
Aquele amplo céu azul,
Terrivelmente imenso e maravilhosamente brilhante,
Com estrelas incontáveis e luz sem medida?
Os objetos belos constituem outra fonte geral dos prazeres da imaginação, especialmente as obras da natureza. Em todas as épocas, as pessoas se encantaram:
Com paisagens de bosques, montanhas e vales
E o curso líquido de riachos murmurantes.
Outras sentem prazer em acrescentar arte à natureza, como nos jardins com seus diversos ornamentos. Outras preferem obras puramente artísticas, como edifícios e representações da natureza em estátuas ou pinturas. Muitas também sentem prazer em roupas bonitas ou em móveis de diversos tipos. A novidade, porém, precisa ser acrescentada à beleza, assim como à grandeza. Caso contrário, o prazer logo perde sua força.
Devemos incluir entre os prazeres da beleza aquele que muitas pessoas encontram em seu animal favorito, seja um pardal, um papagaio, um gato ou um cachorrinho? Em alguns casos, talvez o prazer resulte da beleza. Em outros, somente a pessoa que gosta do animal consegue perceber alguma beleza nele. Pode ser, aos olhos de todas as outras pessoas, extraordinariamente feio. Nesse caso, o prazer parece nascer de simples fantasia ou capricho, isto é, de uma espécie de loucura.
Não devemos atribuir principalmente à novidade o prazer encontrado na maior parte das diversões e entretenimentos? Caso fossem repetidos diariamente por apenas alguns meses, não se tornariam inteiramente sem graça e insípidos? À mesma categoria pertence o prazer de colecionar curiosidades naturais ou artificiais, antigas ou novas. Isso adoça o trabalho do colecionador e torna leve todo o seu esforço.
Não devemos, porém, atribuir principalmente à novidade o prazer recebido da música. A música possui certamente beleza própria e, muitas vezes, grandeza própria. Trata-se de beleza e grandeza de natureza particular, difíceis de expressar, intimamente relacionadas ao sublime e ao belo da poesia, que proporcionam prazer requintado. Ainda assim, podemos admitir que a novidade aumenta o prazer procedente de todas essas fontes.
Do estudo das línguas, da crítica literária e da história, recebemos prazer de natureza mista. Em todas essas coisas existe sempre algo novo e, frequentemente, algo belo ou sublime. A história não apenas satisfaz a imaginação nesses aspectos, mas também nos agrada ao tocar nossas paixões: amor, desejo, alegria e compaixão. A última produz intenso prazer, embora estranhamente misturado com certa dor. Por isso, não devemos admirar-nos com a exclamação de um excelente poeta:
O que é toda alegria senão turbulência profana,
Quando comparada aos encantos
Da melancolia celestial?
O amor à novidade é satisfeito de maneira imensurável pela filosofia experimental e, na verdade, por cada ramo da filosofia natural, que abre um campo imenso para descobertas sempre novas. Não existe também nesses estudos, assim como nos estudos matemáticos e metafísicos, um prazer que não procede da imaginação, mas do exercício do entendimento? A menos que digamos que a novidade das descobertas feitas por pesquisas matemáticas ou metafísicas seja pelo menos uma das razões, se não a principal, do prazer que recebemos delas.
Podemos observar que todos os prazeres anteriormente mencionados, relacionados à satisfação dos sentidos exteriores ou da imaginação, constituem uma parte da felicidade natural. Aquele que procura neles sua felicidade pratica idolatria espiritual. Não quero dizer que seja errado recebê-los e apreciá-los de maneira subordinada. Podemos receber com gratidão todo prazer inocente oferecido pela providência de Deus. O mal consiste em colocar neles o coração, buscá-los como nossa felicidade e permitir que ocupem o lugar de Deus.
A terceira espécie de amor ao mundo é mencionada pelo apóstolo por meio da expressão incomum hē alazoneia tou biou, traduzida como “a soberba da vida” (1 João 2.16). Geralmente se supõe que ela signifique a pompa e o esplendor das pessoas pertencentes às classes elevadas. Não possui, porém, um sentido mais amplo? Não significa buscar a felicidade no louvor das pessoas, que, acima de todas as coisas, produz orgulho? Quando essa aprovação é procurada de maneira mais pomposa por reis ou pessoas ilustres, chamamos isso de “sede de glória”. Quando é procurada de maneira inferior pelas pessoas comuns, recebe o nome de “cuidado com a reputação”. Em palavras simples, é buscar a honra que vem dos seres humanos, em lugar daquela que vem somente de Deus.
Existe, porém, uma dificuldade aqui. Somos ordenados não apenas a não causar tropeço a ninguém e a procurar fazer o que é correto diante de todas as pessoas, mas também a agradar a todos para o bem e para a edificação. Como é difícil fazer isso tendo os olhos fixos somente em Deus! Devemos fazer tudo aquilo que estiver ao nosso alcance para impedir que o bem existente em nós seja difamado. Devemos valorizar uma reputação limpa, caso Deus a conceda, perdendo somente para uma boa consciência. Caso, porém, procuremos nela nossa felicidade, corremos o risco de perecer em nossa idolatria.
A qual das categorias anteriores pertence o amor ao dinheiro? Talvez, em alguns casos, a uma e, em outros, a outra, pois o dinheiro é um meio de conseguir satisfações para o desejo da carne, o desejo dos olhos ou a soberba da vida. Nesses casos, o dinheiro é procurado visando outra finalidade. Algumas vezes, porém, é procurado por si mesmo, sem qualquer objetivo posterior. A pessoa verdadeiramente avarenta ama e procura o dinheiro por ele mesmo. Não olha além, mas coloca sua felicidade em adquiri-lo ou possuí-lo. Essa é uma espécie de idolatria distinta de todas as anteriores e, na verdade, a mais baixa e degradante idolatria de que a alma humana é capaz. Buscar felicidade na satisfação desse ou de qualquer dos desejos anteriormente mencionados significa, na prática, renunciar ao verdadeiro Deus e colocar um ídolo em seu lugar. Em resumo, existem tantos ídolos no coração quantos são os objetos do mundo nos quais as pessoas procuram felicidade em vez de procurá-la em Deus. Existem tantas espécies de idolatria quantos são esses objetos.
Desejo mencionar apenas mais uma espécie de idolatria. Embora, em certa medida, esteja relacionada a várias das anteriores, distingue-se de todas elas em muitos aspectos. Refiro-me à idolatria de uma criatura humana. É, sem dúvida, vontade de Deus que amemos uns aos outros. É sua vontade que amemos nossos parentes e irmãos cristãos com amor especial, particularmente aqueles que ele tornou especialmente úteis à nossa alma. Somos ordenados a amá-los intensamente, mas ainda assim “de coração puro” (1 Pedro 1.22). Não seria impossível aos seres humanos conservar toda a força e ternura da afeição e, ao mesmo tempo, permanecer sem qualquer mancha na alma, em perfeita pureza? Não me refiro apenas à pureza em relação aos desejos sexuais. Sei que isso é possível. Sei que uma pessoa pode possuir afeição indescritível por outra sem qualquer desejo dessa espécie. Mas esse amor está livre da idolatria? Não é amar a criatura mais do que o Criador? Não é colocar um homem ou uma mulher no lugar de Deus e entregar-lhe o coração? Isso deve ser cuidadosamente considerado até mesmo por aqueles que Deus uniu: maridos e esposas, pais e filhos. Não se pode negar que devem amar uns aos outros com ternura. São ordenados a fazer isso. Não são, porém, ordenados nem autorizados a amar uns aos outros de maneira idólatra. Apesar disso, como isso é comum! Com que frequência o marido, a esposa ou o filho é colocado no lugar de Deus! Quantas pessoas consideradas boas cristãs fixam suas afeições umas nas outras de modo que não deixam lugar algum para Deus! Procuram a felicidade na criatura, não no Criador. Uma pode dizer verdadeiramente à outra:
Vejo em você o senhor e a finalidade de todos os meus desejos.
Isso significa: “Não desejo coisa alguma além de você! Você é aquilo por que suspiro! Todo o meu desejo está em você e na lembrança de seu nome.” Caso isso não seja idolatria evidente, não sei o que poderia ser.
Depois de considerar amplamente quais são os ídolos mencionados pelo apóstolo, passo agora a perguntar, o que pode ser feito mais brevemente, como podemos nos guardar deles.
Para isso, aconselho, em primeiro lugar, que vocês se convençam profundamente de que nenhum desses ídolos traz felicidade; nenhuma coisa, nenhuma pessoa debaixo do sol e nem mesmo todas elas reunidas podem oferecer felicidade sólida e satisfatória a algum filho dos seres humanos. O próprio mundo, esse mundo instável e irrefletido, reconhece isso sem perceber, quando admite e até mesmo sustenta com veemência: “Ninguém na terra está satisfeito.” A mesma observação foi feita há quase dois mil anos:
Nemo quam sibi sortem
Seu ratio dederit, seu fors objecerit, illa
Contentus vivat.
Seja a posição concedida pela escolha ou pelo acaso,
Ninguém na terra vive satisfeito com ela.
Caso ninguém na terra esteja satisfeito, certamente ninguém é feliz, pois, qualquer que seja nossa situação, o descontentamento é incompatível com a felicidade.
Não apenas a parte irrefletida, mas também a parte pensante do mundo admite que ninguém está satisfeito. Vemos por toda parte as melancólicas provas disso, entre pessoas de posição elevada e humilde, ricas e pobres. Em geral, quanto mais entendimento possuem, mais insatisfeitas se tornam, pois:
Sabem distinguir melhor suas razões para lamentar
E possuem sensibilidade superior para sentir a dor.
É verdade que todos possuem, para empregar uma expressão comum de nossos dias — e uma excelente expressão —, seu “cavalinho de brinquedo”: algo que agrada a grande criança durante algumas horas ou dias e no qual espera encontrar felicidade. Mas, embora:
A esperança floresça eternamente no peito humano;
O ser humano nunca é feliz,
Mas espera sempre vir a ser.
Ainda assim, caminha numa sombra vazia, que logo desaparecerá. Portanto, a experiência universal, tanto a nossa quanto a de todos os nossos amigos e conhecidos, prova claramente que, assim como Deus criou nosso coração para si, ele não poderá descansar enquanto não descansar em Deus; e que, enquanto não conhecermos a Deus, não poderemos estar em paz. Assim como “o zombador procura a sabedoria e não a encontra” (Provérbios 14.6), aquele que despreza a felicidade que está em Deus procura a felicidade, mas não a encontra.
Quando estiverem profundamente convencidos disso, aconselho, em segundo lugar, que parem e considerem o que estão fazendo. Continuarão sendo tolos e insensatos durante toda a vida? Não está mais do que na hora de recuperarem o bom senso? Finalmente, despertem do sono e sacudam o pó! Libertem-se dessa miserável idolatria e escolham a melhor parte! Decidam firmemente procurar a felicidade onde ela pode ser encontrada, onde não pode ser buscada inutilmente. Decidam procurá-la no verdadeiro Deus, a fonte de toda felicidade, e não adiem! Coloquem imediatamente em prática aquilo que decidiram! Como todas as coisas estão preparadas, “reconcilie-se com Deus e tenha paz” (Jó 22.21).
Não tomem essa decisão nem tentem colocá-la em prática confiando na própria força. Caso façam isso, serão inteiramente derrotados. Vocês não são capazes de lutar contra o mundo mau, muito menos contra o próprio coração mau e, menos ainda, contra os poderes das trevas. Clamem, portanto, ao Forte pedindo força. Com profunda consciência da própria fraqueza e impotência, confiem no Senhor Deus, em quem existe força eterna. Aconselho especialmente que clamem a ele por arrependimento; não apenas por plena consciência da própria incapacidade, mas por uma percepção penetrante da enorme culpa, indignidade e loucura da idolatria que há tanto tempo os domina. Clamem por conhecimento completo de si mesmos, de toda a sua pecaminosidade e culpa. Orem para serem inteiramente revelados a si mesmos, para conhecerem a si mesmos como são conhecidos por Deus. Quando possuírem essa convicção verdadeira, todos os seus ídolos perderão o encanto. E vocês se admirarão por terem se apoiado durante tanto tempo naquelas canas quebradas que tantas vezes cederam debaixo de vocês.
O que devem pedir em seguida?
Jesus, agora que perdi tudo,
Deixa-me cair sobre teu peito!
Deixa-me agora ver-te
Com as vestes mergulhadas em sangue!
Apresenta-te diante de mim
Com todas as tuas feridas
E envolve-me em teu manto vermelho!
Tu não disseste: “Se você crer, verá a glória de Deus”? Senhor, eu quero crer! Ajuda-me na minha falta de fé. Ajuda-me agora! Ajuda-me agora a entrar no descanso que permanece para o povo de Deus, para aqueles que te entregam o coração, todo o coração, e te recebem como seu Deus e seu tudo. Ó tu, que és mais belo do que os filhos dos seres humanos, em cujos lábios se derramou a graça! Fala, para que eu te veja! E, assim como as sombras fogem diante do Sol, que todos os meus ídolos desapareçam diante de tua presença!
Desde o momento em que começar a experimentar isso, combata o bom combate da fé. Apodere-se do Reino dos Céus com violência! Tome-o, por assim dizer, de assalto! Negue a si mesmo todo prazer que você não tenha consciência de que o aproxima de Deus. Tome diariamente sua cruz. Não considere sofrimento algum quando ele estiver no caminho que conduz a Deus. Caso seja chamado a fazê-lo, não hesite em arrancar o olho direito e lançá-lo para longe. Nada é impossível ao que crê. Você pode todas as coisas por meio de Cristo, que o fortalece. Seja corajoso e permaneça firme na liberdade com que Cristo o libertou. Prossiga em seu nome e no poder de sua força, até conhecer todo o amor de Deus que ultrapassa o conhecimento. Depois disso, somente restará esperar até que ele o chame para o seu Reino eterno!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.