SERMÃO 77
Adoração espiritual
Jesus Cristo, o verdadeiro Deus — e a vida eterna que há somente nele.
“Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.”
(1Jo 5.20, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley explica que Jesus Cristo é o verdadeiro Deus e a fonte da vida eterna. Ele apresenta Cristo como Criador, Sustentador, Preservador, Redentor, Governador e finalidade de todas as coisas.
O sermão contém algumas ideias científicas comuns no século XVIII, especialmente nas explicações sobre matéria, movimento, fogo etéreo, gravidade e funcionamento do universo. Essas afirmações devem ser compreendidas em seu contexto histórico. Elas não constituem o centro da argumentação de Wesley, que é essencialmente teológica: toda criatura depende continuamente do poder de Deus.
Na segunda parte, Wesley ensina que a vida eterna não começa apenas depois da morte. Ela começa agora, quando Cristo é revelado no coração e passamos a conhecer e amar a Deus. A verdadeira religião não consiste simplesmente em opiniões corretas ou práticas exteriores, mas na comunhão viva com o Pai, por meio do Filho, no Espírito Santo.
— Bispo Ildo Mello
Nesta carta, João não se dirige a uma Igreja específica, mas a todos os cristãos de sua época, embora especialmente àqueles entre os quais então residia. Por meio deles, dirige-se também a toda a Igreja cristã nas gerações posteriores.
Nesta carta, ou melhor, neste tratado — pois ele estava presente entre aqueles aos quais se dirigia mais diretamente e provavelmente já não conseguia pregar por causa de sua idade extremamente avançada —, João não trata diretamente da fé, como Paulo havia feito, nem da santidade interior e exterior, sobre a qual Paulo, Tiago e Pedro haviam falado. Ele trata do fundamento de todas essas coisas: a feliz e santa comunhão que os fiéis possuem com Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
No prefácio, João descreve a autoridade com a qual escrevia e falava e apresenta expressamente o propósito do seu escrito (1 João 1.1-4). Àquele prefácio corresponde exatamente a conclusão da carta, que explica mais amplamente o mesmo propósito e recapitula as características de nossa comunhão com Deus por meio da expressão “sabemos”, repetida três vezes (1 João 5.18-20).
O tratado trata, primeiramente e de modo separado, da comunhão com o Pai (1 João 1.5-10), da comunhão com o Filho (1 João 2—3) e da comunhão com o Espírito (1 João 4). Em segundo lugar, trata conjuntamente do testemunho do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Sobre esse testemunho estão fundamentados a fé em Cristo, o nascimento de Deus, o amor a Deus e aos seus filhos, a obediência aos seus mandamentos e a vitória sobre o mundo (1 João 5.1-12).
A recapitulação começa em 1 João 5.18: “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado”, isto é, aquele que vê e ama a Deus não peca enquanto essa fé que opera pelo amor permanece nele. “Sabemos que somos de Deus”, filhos de Deus pelo testemunho e pelo fruto do Espírito, “e que o mundo inteiro jaz no Maligno” (1 João 5.19). Todos os que não possuem o Espírito estão, vivem e habitam no Maligno, assim como os filhos de Deus habitam no Santo. “Também sabemos que o Filho de Deus já veio e nos tem dado entendimento” espiritual para reconhecermos aquele que é o Verdadeiro. “E nós estamos naquele que é o Verdadeiro”, como os ramos estão na videira. “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1 João 5.20).
Ao considerar essas importantes palavras, podemos perguntar:
I. Em que sentido ele é o verdadeiro Deus?
Em que sentido ele é a vida eterna?
Depois,
Acrescentarei algumas conclusões.
I. 1. Em primeiro lugar, podemos perguntar: em que sentido ele é o verdadeiro Deus? Ele é “Deus sobre todos, bendito para sempre” (Romanos 9.5). Estava com Deus Pai desde o princípio, desde a eternidade, e era Deus. Ele e o Pai são um e, consequentemente, não considerou que ser igual a Deus era algo que deveria reter para si mesmo. Por isso, os escritores inspirados atribuem a ele todos os títulos do Deus Altíssimo. Repetidamente o chamam pelo nome incomunicável, Javé, nunca dado a uma criatura. Atribuem a ele todos os atributos e todas as obras de Deus. Portanto, não precisamos hesitar em declará-lo “Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, igual ao Pai em glória e coeterno em majestade”.
Ele é o verdadeiro Deus, a única causa e o único Criador de todas as coisas. “Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra” (Colossenses 1.16), sim, a própria terra e os próprios céus. Os habitantes são especificamente mencionados por serem mais nobres do que sua habitação: “as visíveis e as invisíveis”, cujas diferentes ordens são acrescentadas: “sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades”. João também declara: “Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (João 1.3). Paulo aplica a Cristo aquelas poderosas palavras do salmista: “No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos” (Hebreus 1.10).
Como verdadeiro Deus, ele também sustenta todas as coisas que criou. Carrega, preserva e mantém todas as criaturas pela palavra de seu poder, pela mesma palavra poderosa que as chamou do nada. Assim como essa palavra foi absolutamente necessária para o início de sua existência, é igualmente necessária para sua continuidade. Caso sua influência todo-poderosa fosse retirada, não poderiam continuar existindo por mais um instante. Segure uma pedra no ar. No momento em que retirar a mão, ela naturalmente cairá no chão. Do mesmo modo, caso Cristo retirasse sua mão por um instante, toda a criação cairia novamente no nada.
Como verdadeiro Deus, ele também é o Preservador de todas as coisas. Não somente as mantém na existência, mas também as conserva naquele grau de bem-estar apropriado às suas diferentes naturezas. Preserva suas relações, conexões e dependências, de modo que componham um único sistema de seres, formando um universo completo, segundo o conselho de sua vontade. Como isso é expresso de maneira forte e bela: Ta panta en autō synestēken: “Nele, tudo subsiste” (Colossenses 1.17), ou, mais literalmente, “por ele e nele todas as coisas são reunidas num único sistema”. Ele não é apenas o sustentáculo, mas também o elemento que mantém unido todo o universo.
Desejo observar particularmente algo que talvez não tenha recebido atenção suficiente: ele é o verdadeiro Autor de todo movimento existente no universo. Aos espíritos, realmente concedeu uma pequena capacidade de mover a si mesmos, mas não à matéria. Toda matéria, seja de que espécie for, é absoluta e inteiramente inerte. Não pode, em caso algum, mover a si mesma. Sempre que alguma parte da matéria parece mover-se, é, na realidade, movida por outra coisa. Vejam aquele tronco que, segundo o modo comum de falar, move-se no mar. Na verdade, ele é movido pela água. A água é movida pelo vento, isto é, por uma corrente de ar. E o próprio ar deve todo o seu movimento ao fogo etéreo, uma partícula do qual, segundo se pensava, estaria ligada a cada partícula do ar. Retirem esse fogo, e o ar deixará de mover-se. Tornar-se-á imóvel e tão inerte quanto a areia. Retirem da água sua fluidez, atribuída à mistura do fogo etéreo, e ela não terá mais movimento do que o tronco. Introduzam fogo no ferro, martelando-o enquanto está em brasa, e, depois que o fogo for fixado nele, o ferro não possuirá mais movimento do que o ar imóvel ou a água congelada. Mas, quando o fogo é liberado e está em seu estado mais ativo, o que lhe concede movimento? Até os pagãos responderão:
Totam Mens agitans molem, et magno se corpore miscens.
“A Alma universal vive nas partes
E movimenta o todo.”
Prossigamos um pouco mais. Dizemos que a Lua se move ao redor da Terra, que a Terra e os outros planetas se movem ao redor do Sol e que o Sol se move ao redor do próprio eixo. Essas são, porém, apenas expressões comuns. Falando com rigor, nem o Sol, nem a Lua, nem as estrelas movem a si mesmos. Todos são movidos a cada momento pela mão todo-poderosa que os criou. “Sim”, diz Isaac Newton, “o Sol, a Lua e todos os corpos celestes se movem, gravitam, uns em direção aos outros.” Gravitam? O que significa isso? “Todos se atraem uns aos outros proporcionalmente à quantidade de matéria que contêm.” “Isso é absurdo”, diz o senhor Hutchinson, “um conjunto de palavras contraditórias. Alguma coisa pode agir onde não está? Não. Eles são continuamente impulsionados uns em direção aos outros.” Impulsionados por quê? “Pela matéria sutil, pelo éter ou fogo elétrico.” Lembrem-se, porém: por mais sutil que seja, continua sendo matéria e, consequentemente, é tão inerte em si mesma quanto a areia ou o mármore. Não pode mover a si mesma. É provável, porém, que seja o primeiro agente material, a mola principal pela qual o Criador e Preservador de todas as coisas se agrada em movimentar o universo.
O verdadeiro Deus é também o Redentor de todos os filhos dos seres humanos. Agradou ao Pai colocar sobre ele as iniquidades de todos nós, para que, por meio da única oferta de si mesmo, realizada de uma vez por todas, quando provou a morte por todos, fizesse um sacrifício, oferta e satisfação plena e suficiente pelos pecados do mundo inteiro.
O verdadeiro Deus é também o Governador de todas as coisas: “O seu Reino domina sobre tudo” (Salmo 103.19). O governo está sobre seus ombros em todas as épocas. Ele é o Senhor e Administrador de toda a criação e de cada parte dela. E de que maneira extraordinária governa o mundo! Como seus caminhos estão acima dos pensamentos humanos! Quão pouco sabemos sobre seus métodos de governo! Sabemos apenas isto: Ita praesides singulis sicut universis, et universis sicut singulis! “Tu governas cada criatura como se ela fosse todo o universo e governas todo o universo como se fosse uma única criatura.” Detenham-se um pouco nesse pensamento. Que mistério glorioso ele contém! Ele é parafraseado nestas palavras:
Pai, quão amplamente brilha tua glória!
Senhor do universo e Senhor meu!
Tua bondade cuida do conjunto inteiro
Como se todo o mundo fosse uma única alma;
E, ainda assim, protege cada fio dos meus cabelos
Como se eu fosse teu único cuidado!
Existe, porém, como já foi dito, uma diferença no governo providencial de Cristo sobre os filhos dos seres humanos. Um escritor piedoso observa que existem três círculos da providência divina. O círculo mais externo inclui todos os filhos dos seres humanos: pagãos, muçulmanos, judeus e cristãos. Deus faz seu sol nascer sobre todos. Concede chuva e estações frutíferas, derrama sobre eles milhares de benefícios e enche seu coração de alimento e alegria. Com um círculo mais interior, envolve toda a Igreja cristã visível, todos aqueles que invocam o nome de Cristo. Possui consideração adicional por eles e presta atenção mais próxima ao seu bem-estar. O círculo mais interno da providência, porém, inclui somente a Igreja invisível de Cristo: todos os verdadeiros cristãos espalhados pelos diferentes lugares da terra; todos aqueles que, qualquer que seja sua denominação, adoram a Deus em espírito e em verdade. Ele os guarda como a menina dos olhos e os esconde debaixo da sombra de suas asas. É a eles, particularmente, que nosso Senhor diz: “Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (Mateus 10.30).
Finalmente, sendo o verdadeiro Deus, ele é a finalidade de todas as coisas, segundo a solene declaração do apóstolo: “Porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas” (Romanos 11.36). Dele, como Criador; por meio dele, como Sustentador e Preservador; e para ele, como a finalidade suprema de todas as coisas.
Em todos esses sentidos, Jesus Cristo é o verdadeiro Deus. Mas em que sentido ele é a vida eterna?
A intenção direta dessa expressão não é simplesmente afirmar que ele será nossa vida eterna, embora essa seja uma verdade grandiosa e importante, que nunca deve ser esquecida. “Ele se tornou o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hebreus 5.9). Ele adquiriu a coroa da vida, que será concedida a todos os que forem fiéis até a morte, e será a própria alma de todas as alegrias dos santos na glória:
A chama do amor dos anjos
Acende-se diante do rosto de Jesus;
E toda a alegria celestial
Consiste em contemplá-lo extasiados!
A intenção direta também não é simplesmente afirmar que ele é a ressurreição, embora isso igualmente seja verdade, segundo sua própria declaração: “Eu sou a ressurreição e a vida” (João 11.25). De acordo com isso são as palavras de Paulo: “Assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Coríntios 15.22). Portanto, podemos dizer: bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo sua grande misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula e que não perde o seu valor (1 Pedro 1.3-4).
Deixando, porém, de considerar aquilo que ele será no futuro, somos aqui chamados a considerar aquilo que ele é agora. Ele é agora a vida de tudo o que vive, em qualquer espécie ou grau. É a fonte da forma mais simples de vida, a vida vegetal, porque é a fonte de todo o movimento do qual a vegetação depende. É a fonte da vida dos animais, o poder pelo qual o coração bate e os fluidos circulam. É a fonte de toda a vida que o ser humano possui em comum com os outros animais. E, caso distingamos a vida racional da vida animal, ele é igualmente a fonte da vida racional.
Como tudo isso, porém, está infinitamente distante da vida diretamente mencionada aqui, a respeito da qual o apóstolo fala tão claramente nos versículos anteriores! “E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho. Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1 João 5.11-12). É como se ele dissesse: “Esta é a essência do testemunho que Deus deu a respeito de seu Filho: Deus nos concedeu não somente o direito à vida eterna, mas seu verdadeiro início. Essa vida foi adquirida por seu Filho e está depositada nele, que possui em si mesmo todas as suas fontes e toda a sua plenitude, para comunicá-la ao seu corpo, a Igreja.”
Essa vida eterna começa quando agrada ao Pai revelar seu Filho em nosso coração; quando conhecemos Cristo pela primeira vez e somos capacitados a chamá-lo Senhor pelo Espírito Santo; quando podemos testemunhar, com a consciência confirmada pelo Espírito Santo: “A vida que agora vivo no corpo, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2.20). É então que começa a felicidade, a felicidade real, sólida e substancial. É então que o céu se abre na alma e começa a verdadeira condição celestial. O amor de Deus por nós é derramado em nosso coração e produz imediatamente amor por toda a humanidade, benevolência geral e pura, juntamente com seus verdadeiros frutos: humildade, mansidão, paciência, contentamento em toda situação e concordância inteira, clara e plena com toda a vontade de Deus. Assim somos capacitados a alegrar-nos sempre e a dar graças em todas as circunstâncias.
À medida que nosso conhecimento e nosso amor por Cristo aumentam, no mesmo grau e na mesma proporção, o reino do céu interior também necessariamente aumenta, enquanto crescemos em tudo naquele que é a Cabeça. Quando somos completos nele — ou, mais propriamente, quando somos cheios dele —; quando Cristo em nós, a esperança da glória, é nosso Deus e nosso tudo; quando tomou posse plena de nosso coração; quando reina nele sem rival e é Senhor de cada movimento interior; quando habitamos em Cristo e Cristo habita em nós, de modo que somos um com Cristo e Cristo é um conosco, então somos completamente felizes. Então vivemos plenamente a vida que está escondida com Cristo em Deus. Então, e não antes, experimentamos propriamente o significado destas palavras: “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1 João 4.16).
Resta-me apenas acrescentar algumas conclusões extraídas das observações anteriores.
Podemos aprender, em primeiro lugar, que, assim como existe um só Deus no céu e na terra, existe também uma só felicidade para os espíritos criados, tanto no céu quanto na terra. Esse único Deus criou nosso coração para si mesmo, e ele não poderá descansar enquanto não descansar em Deus. É verdade que, enquanto estamos no vigor da juventude e da saúde, enquanto o sangue corre vivamente nas veias, enquanto o mundo sorri para nós e possuímos todas as comodidades e até mesmo os excessos da vida, frequentemente temos sonhos agradáveis e desfrutamos certa espécie de felicidade. Ela, porém, não pode continuar. Passa como uma sombra e, mesmo enquanto permanece, não é sólida nem substancial. Não satisfaz a alma. Continuamos desejando alguma outra coisa, algo que não possuímos. Deem a uma pessoa tudo aquilo que o mundo pode oferecer e, ainda assim, como Horácio observou há quase dois mil anos:
Curtae nescio quid semper abest rei.
Ainda assim:
Em meio à abundância, algo continua faltando
A mim, a você e a todas as pessoas!
Esse algo não é mais nem menos do que o conhecimento e o amor de Deus, sem os quais nenhum espírito pode ser feliz, seja no céu, seja na terra.
Permitam-me apresentar minha própria experiência como confirmação disso. Recordo-me claramente de que, até mesmo na infância, quando estava na escola, muitas vezes dizia: “Afirmam que a vida de um estudante é a mais feliz do mundo. Tenho certeza, porém, de que não sou feliz, porque não estou satisfeito e, portanto, não posso ser feliz.” Quando vivi mais alguns anos e estava no vigor da juventude, sem conhecer a dor ou a enfermidade e especialmente sem conhecer a depressão — que não me recordo de ter experimentado nem mesmo durante quinze minutos desde que nasci —, possuindo abundância de todas as coisas, cercado de amigos sensíveis e amáveis que me amavam e a quem eu amava, seguindo um modo de vida que correspondia perfeitamente às minhas inclinações, ainda assim não era feliz. Perguntava por que não era e não conseguia imaginar a razão. A razão certamente era que eu não conhecia a Deus, a fonte da felicidade presente e eterna. Uma prova clara de que eu não era feliz é que, depois da mais tranquila reflexão, não conseguia recordar uma única semana que considerasse valer a pena viver novamente, recebendo-a com todas as sensações interiores e exteriores exatamente como ocorreram, sem alteração alguma.
Uma pessoa piedosa, porém, afirma: “Quando eu era jovem, era feliz, embora estivesse inteiramente sem Deus no mundo.” Não acredito em você, embora não duvide que acredite em si mesmo. Você está enganado, assim como eu estive repetidas vezes. Essa é a condição da vida humana:
Flores e murta perfumada parecem nascer;
À distância, tudo parece belo;
Mas, quando nos aproximamos, a alegre ilusão
Zomba dos olhos desejosos
Com espinhos, campos desertos e areia estéril.
Olhem para alguma paisagem distante. Como parece bela! Aproximem-se, e sua beleza desaparece; ela se torna áspera e desagradável. Assim é a vida. Quando, porém, aquela cena já passou, recupera sua antiga aparência, e acreditamos seriamente que éramos muito felizes, embora, na realidade, estivéssemos muito longe disso. Assim como ninguém é feliz agora sem o conhecimento amoroso do verdadeiro Deus, ninguém jamais foi.
Aprendemos, em segundo lugar, que esse feliz conhecimento do verdadeiro Deus é apenas outro nome para religião. Refiro-me à religião cristã, que é a única que merece verdadeiramente esse nome. A religião, em sua natureza e essência, não consiste neste ou naquele conjunto de opiniões, geralmente chamado de fé, nem em uma sequência de deveres, ainda que cuidadosamente purificados de erros e superstições. Não consiste em qualquer número de ações exteriores. Não! Ela consiste própria e diretamente no conhecimento e no amor de Deus, manifestado no Filho do seu amor, por meio do Espírito eterno. Isso conduz naturalmente a toda disposição celestial e a toda boa palavra e boa obra.
Aprendemos, em terceiro lugar, que ninguém, a não ser um cristão, é feliz; e não apenas um cristão exterior, mas um verdadeiro cristão interior. Um glutão, um bêbado ou um jogador pode estar alegre, mas não pode ser feliz. O homem elegante e a mulher da sociedade podem comer, beber e levantar-se para divertir-se, mas continuam sentindo que não são felizes. Homens e mulheres podem adornar sua preciosa pessoa com todas as cores do arco-íris. Podem dançar, cantar, correr de um lado para outro e agitar-se por toda parte. Podem circular em carruagens magníficas e conversar insipidamentе uns com os outros. Podem correr de uma diversão para outra. A felicidade, porém, não está ali. Continuam andando como uma sombra e inquietando-se inutilmente. Um de seus próprios poetas disse com verdade, a respeito de toda a vida desses filhos dos prazeres:
É uma comédia enfadonha e um espetáculo vazio:
Pó, espelho de bolso e elegância.
Não posso deixar de observar que esse excelente escritor chegou perto do alvo, mas não o alcançou. Em seu poema Salomão, uma das obras mais nobres da língua inglesa, mostra claramente onde a felicidade não se encontra: não está no conhecimento natural, no poder, nos prazeres dos sentidos ou na imaginação. Não mostra, porém, onde ela pode ser encontrada. Não poderia, pois ele mesmo não sabia. Ainda assim, chegou perto quando escreveu:
Restaura, grande Pai, teu filho instruído;
E que, em minhas ações, tua grande vontade seja cumprida!
Aprendemos, em quarto lugar, que todo cristão é feliz e que aquele que não é feliz não é cristão. Caso, como observamos, religião seja felicidade, todos os que possuem religião necessariamente são felizes. Isso decorre da própria natureza da coisa. Caso religião e felicidade sejam realmente a mesma coisa, é impossível que alguém possua a primeira sem possuir também a segunda. Não pode possuir religião sem possuir felicidade, porque elas são inteiramente inseparáveis. É igualmente certo, por outro lado, que aquele que não é feliz não é cristão, pois, caso fosse um verdadeiro cristão, não poderia deixar de ser feliz. Admito uma exceção em favor daqueles que estão debaixo de violentas tentações e também daqueles que sofrem de profundos transtornos nervosos, que constituem realmente uma espécie de perturbação mental. As nuvens e trevas que envolvem a alma suspendem sua felicidade, especialmente quando Satanás recebe permissão para agravar essas enfermidades lançando seus dardos inflamados. Excluídos esses casos, porém, a observação permanece e deve receber cuidadosa atenção: quem não é feliz, sim, feliz em Deus, não é cristão.
Você não é uma prova viva disso? Não continua andando de um lado para outro, procurando descanso sem encontrá-lo, perseguindo a felicidade sem jamais alcançá-la? E quem poderia culpá-lo por procurá-la? Ela é a própria finalidade de sua existência. O grande Criador não fez coisa alguma para ser infeliz, mas criou cada criatura para ser feliz segundo sua própria natureza. Depois de contemplar de modo geral as obras de suas mãos, declarou que tudo era muito bom. Não poderia ter dito isso caso toda criatura inteligente, e mesmo toda criatura capaz de experimentar prazer e dor, não fosse feliz ao cumprir a finalidade para a qual foi criada. Caso você esteja infeliz agora, isso acontece porque se encontra em uma condição contrária à natureza. Não suspirará por libertação? Toda a criação, agora sujeita à vaidade, geme e suporta dores juntamente. Não o censuro, ou melhor, tenho compaixão de você por seguir um caminho errado em direção a um objetivo correto, procurando a felicidade onde nunca foi e nunca poderá ser encontrada. Você procura a felicidade nas criaturas, em vez de procurá-la no Criador. Elas não podem fazê-lo feliz mais do que poderiam torná-lo imortal. Caso possua ouvidos para ouvir, cada criatura grita: “A felicidade não está em mim.” Todas elas são, na verdade, cisternas rachadas que não conseguem reter água. Volte para seu descanso! Volte para aquele em quem estão escondidos todos os tesouros da felicidade! Volte para aquele que dá generosamente a todos, e ele lhe dará gratuitamente da água da vida.
Você não encontrará a felicidade tão procurada em todos os prazeres do mundo. Eles não são enganosos na balança? Não são mais leves do que a própria vaidade? Até quando você se alimentará daquilo que não é pão, que pode divertir, mas não pode satisfazer? Também não a encontrará na religião do mundo, seja em opiniões, seja numa simples sequência de deveres exteriores. Trabalho inútil! Deus não é espírito e, portanto, não deve ser adorado em espírito e em verdade? Somente nisso você encontrará a felicidade procurada: na união do seu espírito com o Pai dos espíritos, no conhecimento e no amor daquele que é a fonte da felicidade, suficiente para todas as almas que criou.
Mas onde ele pode ser encontrado? Subiremos ao céu ou desceremos ao abismo para procurá-lo? Tomaremos as asas da alvorada e o buscaremos nos lugares mais distantes do mar? Não! Quod petis, hic est! Que palavra extraordinária saída da pena de um pagão: “Aquilo que você procura está aqui!” Deus está ao redor de sua cama e de seu caminho. Ele o cerca por trás e pela frente e coloca sobre você sua mão. Veja! Deus está aqui, não está distante. Creia agora e perceba que ele está perto! Que ele se revele agora em seu coração! Conheça-o, ame-o, e você será feliz!
Você já é feliz nele? Então conserve firmemente aquilo que alcançou. Vigie e ore, para que jamais seja removido de sua firmeza. Tenha cuidado para não perder aquilo que conquistou, mas receber plena recompensa. Fazendo isso, espere crescimento contínuo na graça e no conhecimento amoroso de nosso Senhor Jesus Cristo. Espere que o poder do Altíssimo repentinamente o cubra com sua sombra, que todo pecado seja destruído e nada permaneça no coração, a não ser santidade ao Senhor. Neste momento e em todos os momentos, apresente-se como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus e glorifique-o no corpo e no espírito, que pertencem a Deus!
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.