SERMÃO 76

Sobre a perfeição

A perfeição cristã explicada mais uma vez: amar a Deus de todo o coração.

Hb 6.1, NAA ⏱ 27 min de leituraSantidade e perfeição

“Avancemos para o que é perfeito.”

(Hb 6.1, NAA)

Antes de ler

Neste sermão, John Wesley apresenta uma de suas exposições mais claras sobre a perfeição cristã. Para ele, perfeição não significa possuir conhecimento absoluto, tornar-se incapaz de cometer erros de julgamento ou alcançar a condição dos anjos ou de Adão antes da queda. Enquanto vivermos neste corpo, continuaremos sujeitos à ignorância, aos equívocos e às fraquezas próprias da condição humana.

A perfeição cristã consiste no amor pleno a Deus e ao próximo, na restauração da imagem moral de Deus e na libertação do domínio do pecado voluntário. Wesley também a descreve como santificação completa, inteira dedicação a Deus e presença do fruto do Espírito em toda a vida.

É importante compreender que Wesley define pecado, neste contexto, como “transgressão voluntária de uma lei conhecida”. Assim, ele distingue pecado propriamente dito das falhas involuntárias decorrentes da ignorância, do erro de julgamento e das limitações humanas. Essa distinção é fundamental para compreender corretamente sua doutrina da santidade.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

A frase completa é esta: “Por isso, deixando os princípios elementares da doutrina de Cristo, avancemos para o que é perfeito, não lançando de novo a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus” (Hebreus 6.1, NAA). Pouco antes, o apóstolo havia chamado essas coisas de “princípios elementares dos oráculos de Deus” e de alimento próprio para crianças, isto é, para aqueles que apenas começaram a experimentar que o Senhor é bondoso.

O apóstolo indica, nas palavras seguintes, que avançar para a perfeição é uma questão da maior importância: “Isso faremos, se Deus o permitir” (Hebreus 6.3). Em seguida, fala daqueles que foram iluminados, provaram a boa Palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, mas caíram, dizendo que é impossível renová-los novamente para arrependimento (Hebreus 6.4-6). É como se dissesse: se não avançarmos para a perfeição, estaremos em extremo perigo de cair; e, caso caiamos, será “impossível”, isto é, extremamente difícil, sermos novamente renovados para o arrependimento.

Para tornar essa passagem tão importante tão fácil de compreender quanto possível, procurarei:

I. Mostrar o que é a perfeição;

Responder a algumas objeções contra ela; e

Argumentar brevemente com aqueles que se opõem a ela.

I. Procurarei mostrar o que é a perfeição.

Em primeiro lugar, não entendo que a perfeição mencionada aqui seja a perfeição dos anjos. Como esses seres gloriosos nunca abandonaram sua condição original nem se afastaram de sua perfeição inicial, todas as suas faculdades naturais permanecem intactas. Seu entendimento, em particular, continua sendo uma lâmpada de luz; sua percepção das coisas é clara e distinta, e seu julgamento é sempre verdadeiro. Embora seu conhecimento seja limitado, pois são criaturas, e embora ignorem inúmeras coisas, não estão sujeitos ao erro. Seu conhecimento é perfeito dentro de sua própria ordem. Como suas afeições são continuamente dirigidas por um entendimento que não erra, todas as suas ações correspondem a ele. A cada momento, não fazem sua própria vontade, mas a boa e agradável vontade de Deus. Isso não é possível ao ser humano, cujo entendimento está obscurecido, para quem o erro é tão natural quanto a ignorância e que somente pode pensar por intermédio de órgãos enfraquecidos e corrompidos, assim como as demais partes de seu corpo corruptível. Não é possível que as pessoas pensem sempre corretamente, compreendam todas as coisas com clareza e julguem tudo com exatidão. Em consequência disso, suas afeições, que dependem do entendimento, ficam de várias maneiras desordenadas. Suas palavras e ações também são influenciadas, em maior ou menor grau, pelas desordens do entendimento e das afeições. Portanto, ninguém, enquanto estiver no corpo, poderá alcançar a perfeição angélica.

Ninguém pode também, enquanto estiver em um corpo corruptível, alcançar a perfeição adâmica. Antes da queda, Adão era, sem dúvida, tão puro e livre de pecado quanto os santos anjos. Seu entendimento era tão claro quanto o deles, e suas afeições, igualmente ordenadas. Em virtude disso, como sempre julgava corretamente, podia também falar e agir corretamente. Desde que o ser humano se rebelou contra Deus, porém, sua condição tornou-se completamente diferente. Já não consegue evitar inúmeros erros e, consequentemente, nem sempre pode evitar afeições inadequadas. Também não consegue pensar, falar e agir sempre corretamente. Portanto, em sua condição presente, o ser humano não pode alcançar a perfeição adâmica mais do que pode alcançar a perfeição angélica.

A mais elevada perfeição que uma pessoa pode alcançar enquanto sua alma habita no corpo não exclui a ignorância, o erro e milhares de outras fraquezas. De julgamentos errados surgirão, muitas vezes necessariamente, palavras e ações inadequadas. Em alguns casos, afeições inadequadas também podem nascer da mesma fonte. Posso julgar você de maneira errada. Posso estimá-lo mais ou menos do que deveria; e esse erro de julgamento pode não apenas produzir algo errado em meu comportamento, mas também um efeito mais profundo, causando algo errado em minhas afeições. Em consequência de uma compreensão equivocada, posso amar e estimar você mais ou menos do que deveria. Enquanto permanecer em um corpo corruptível, não poderei ficar inteiramente livre da possibilidade desse erro. Milhares de fraquezas acompanharão meu espírito até que ele volte para Deus, que o deu. Em inúmeros casos, ele deixará de cumprir a vontade de Deus do modo como Adão a cumpria no paraíso. Por isso, até mesmo os melhores seres humanos podem dizer de coração:

A cada momento, Senhor, necessito
Do mérito da tua morte,

por causa de inúmeras violações tanto da lei adâmica quanto da lei angélica. É bom, portanto, que agora não estejamos debaixo dessas leis, mas da lei do amor. “O amor é o cumprimento da lei” (Romanos 13.10), da lei dada ao ser humano caído. Em relação a nós, essa é agora “a lei perfeita”. Contudo, devido à fraqueza presente de nosso entendimento, continuamos sujeitos a transgredi-la involuntariamente. Portanto, toda pessoa viva necessita do sangue da expiação; caso contrário, não poderia permanecer diante de Deus.

Qual é, então, a perfeição que o ser humano pode alcançar enquanto vive em um corpo corruptível? É atender à bondosa ordem: “Meu filho, dê-me o seu coração” (Provérbios 23.26). É amar “o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento” (Mateus 22.37). Essa é a essência da perfeição cristã. Tudo está compreendido em uma única palavra: amor. O primeiro aspecto é o amor de Deus. E, como aquele que ama a Deus também ama seu irmão, esse amor está inseparavelmente ligado ao segundo mandamento: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo” (Mateus 22.39). Ame cada ser humano como sua própria alma, assim como Cristo nos amou. “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mateus 22.40). Eles contêm toda a perfeição cristã.

Outra descrição dessa perfeição encontra-se nas palavras do grande apóstolo: “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” (Filipenses 2.5). Embora essas palavras se refiram imediata e diretamente à humildade de nosso Senhor, podem ser compreendidas em sentido muito mais amplo, incluindo toda a disposição de sua mente, todas as suas afeições e todos os seus sentimentos, tanto em relação a Deus quanto em relação às pessoas. É certo que, assim como não existia nele nenhuma afeição má, também não lhe faltava nenhuma afeição ou disposição boa. Portanto, tudo o que é santo e tudo o que é amável está incluído na mente que houve em Cristo Jesus.

Ao escrever aos gálatas, Paulo apresenta a perfeição sob outro aspecto. Ela consiste no fruto único e indivisível do Espírito, descrito assim: “O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gálatas 5.22-23, NAA). Que constelação gloriosa de graças! Suponham que todas elas estejam reunidas e unidas na alma de uma pessoa que crê: isso é perfeição cristã.

Aos cristãos de Éfeso, o apóstolo fala de revestir-se da nova natureza, “criada segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Efésios 4.24). Aos colossenses, fala da nova natureza, “que se renova para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que a criou” (Colossenses 3.10). Ele se refere claramente às palavras de Gênesis: “Assim Deus criou o ser humano à sua imagem” (Gênesis 1.27). A imagem moral de Deus consiste, como observa o apóstolo, em justiça e verdadeira santidade. Essa imagem foi inteiramente destruída pelo pecado. Somente podemos recuperá-la quando somos novamente criados em Cristo Jesus. Isso é perfeição.

Pedro a expressa de maneira diferente, embora com o mesmo significado: “Assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem” (1 Pedro 1.15). Segundo esse apóstolo, perfeição é outro nome para santidade universal: justiça interior e exterior, santidade de vida procedente da santidade do coração.

Caso possam existir expressões ainda mais fortes, são as palavras de Paulo aos tessalonicenses: “O mesmo Deus da paz os santifique em tudo. E que o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5.23, NAA).

Não podemos apresentar essa santificação de maneira mais excelente do que atendendo à exortação do apóstolo: “Que vocês apresentem o seu corpo” — isto é, a si mesmos, alma e corpo, empregando-se uma parte para representar o todo — “por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Romanos 12.1). Vocês foram consagrados a Deus muitos anos atrás, no batismo. Quando aquilo que foi então dedicado é realmente apresentado a Deus, a pessoa de Deus torna-se perfeita.

Pedro diz algo semelhante: “Vocês […] são edificados casa espiritual para serem sacerdócio santo, a fim de oferecerem sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por meio de Jesus Cristo” (1 Pedro 2.5). Mas que sacrifícios ofereceremos agora, visto que a antiga dispensação judaica chegou ao fim? Caso tenham verdadeiramente apresentado a si mesmos a Deus, vocês lhe oferecem continuamente todos os seus pensamentos, palavras e ações, por meio do Filho do seu amor, como sacrifício de louvor e ação de graças.

Assim, vocês experimentam que aquele cujo nome é Jesus não recebeu esse nome inutilmente. Ele realmente “salvará o seu povo dos pecados deles” (Mateus 1.21), tanto da raiz quanto dos ramos. Essa salvação do pecado, de todo pecado, é outra descrição da perfeição. Na verdade, ela expressa apenas o menor e mais baixo aspecto da perfeição: somente a parte negativa da grande salvação.

Propus, em segundo lugar, responder a algumas objeções contra essa descrição bíblica da perfeição.

Uma objeção comum é que não existe promessa dessa perfeição na Palavra de Deus. Caso isso fosse verdade, teríamos de abandonar a doutrina, pois não possuiríamos fundamento sobre o qual edificar. As promessas de Deus são o único fundamento seguro de nossa esperança. Existe, porém, uma promessa muito clara e completa de que amaremos o Senhor, nosso Deus, de todo o coração. Assim lemos: “O Senhor, seu Deus, circuncidará o coração de vocês […] para que vocês amem o Senhor, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma” (Deuteronômio 30.6). Igualmente expressa é a palavra de nosso Senhor, que não é menos uma promessa por assumir a forma de mandamento: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento” (Mateus 22.37). Nenhuma palavra poderia ser mais forte, nenhuma promessa mais explícita. Da mesma forma, “ame o seu próximo como você ama a si mesmo” é uma promessa tão expressa quanto é um mandamento.

Na verdade, aquela promessa geral e ilimitada que atravessa toda a dispensação do evangelho — “Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhes inscreverei” (Hebreus 8.10) — transforma todos os mandamentos em promessas. Isso inclui: “Tenham entre vocês o mesmo modo de pensar de Cristo Jesus” (Filipenses 2.5). O mandamento equivale aqui a uma promessa e nos dá plena razão para esperar que Deus realizará em nós aquilo que exige de nós.

Quanto ao fruto do Espírito, quando o apóstolo declara que “o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio”, ele está afirmando, na prática, que o Espírito Santo produz o amor e todas essas outras disposições naqueles que são guiados por ele. Temos, portanto, terreno firme também aqui. Essa passagem equivale igualmente a uma promessa e nos garante que todas essas graças serão produzidas em nós, desde que sejamos guiados pelo Espírito.

Quando o apóstolo diz aos efésios que haviam aprendido a verdade que está em Jesus, sendo ensinados a renovar-se no espírito do entendimento e a revestir-se da nova natureza, criada segundo Deus em justiça e verdadeira santidade (Efésios 4.21-24), não nos deixa espaço para duvidar de que Deus renovará o espírito de nosso entendimento e nos criará novamente à sua imagem, na qual fomos originalmente criados. Caso contrário, não se poderia dizer que essa é “a verdade que há em Jesus”.

A ordem de Deus transmitida por Pedro — “sejam santos vocês também em tudo o que fizerem” (1 Pedro 1.15) — implica a promessa de que seremos assim santos, caso não falhemos em corresponder à graça. Nada faltará da parte de Deus. Como ele nos chamou à santidade, está indiscutivelmente disposto e é capaz de produzir essa santidade em nós. Ele não pode zombar de suas criaturas indefesas, chamando-nos a receber aquilo que nunca pretende conceder. É inegável que ele nos chama à santidade. Portanto, ele a concederá, caso não sejamos desobedientes à vocação celestial.

A oração de Paulo pelos tessalonicenses, para que Deus os santificasse completamente e para que todo o seu ser, espírito, alma e corpo, fosse conservado irrepreensível, será, sem dúvida, ouvida em favor de todos os filhos de Deus, assim como em favor dos cristãos de Tessalônica. Desse modo, todos os cristãos são encorajados a esperar a mesma bênção do Deus da paz: que também sejam inteiramente santificados, em espírito, alma e corpo, e que todo o seu ser seja conservado irrepreensível para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Tessalonicenses 5.23).

A grande questão, porém, é se existe nas Escrituras alguma promessa de que seremos salvos do pecado. Certamente existe. Assim é a promessa: “Ele remirá Israel de todas as suas iniquidades” (Salmo 130.8), que corresponde exatamente às palavras do anjo: “Ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mateus 1.21). Certamente, Cristo “pode salvar totalmente os que por ele se aproximam de Deus” (Hebreus 7.25). Assim também é a gloriosa promessa transmitida pelo profeta Ezequiel: Deus aspergirá água pura, purificará o seu povo de todas as impurezas e de todos os ídolos, dará um coração novo, colocará dentro deles um espírito novo, retirará o coração de pedra, dará um coração de carne e colocará neles o seu Espírito, fazendo-os andar em seus estatutos (Ezequiel 36.25-27). Assim também é a promessa proclamada por Zacarias, referente ao juramento feito a Abraão, de conceder que, libertados das mãos de nossos inimigos — e tais são, sem dúvida, todos os nossos pecados —, sirvamos a Deus sem medo, em santidade e justiça diante dele, todos os nossos dias (Lucas 1.73-75). A última parte dessa promessa merece atenção especial. Para que ninguém dissesse: “É verdade, seremos salvos dos pecados quando morrermos”, foi acrescentada, como se fosse propositalmente para impedir essa desculpa, a expressão “todos os nossos dias”. Com que modéstia, então, alguém pode afirmar que ninguém desfrutará dessa liberdade antes da morte?

“Mas”, dizem alguns, “esse não pode ser o significado dessas palavras, porque isso é impossível.” É impossível para as pessoas, mas as coisas impossíveis para os seres humanos são possíveis para Deus. “Não, isso é impossível por sua própria natureza. Implica contradição dizer que uma pessoa pode ser salva de todo pecado enquanto habita num corpo pecaminoso.” Essa objeção possui muita força aparente, e talvez admitamos grande parte do que se procura afirmar. Já reconhecemos que, enquanto estivermos no corpo, não poderemos ficar inteiramente livres dos erros. Apesar de todo o nosso cuidado, continuaremos sujeitos a julgar incorretamente em muitos casos. Um erro de julgamento produzirá frequentemente um erro na prática. Um julgamento errado poderá até mesmo produzir algo nas disposições ou nas paixões que não seja rigorosamente correto. Poderá produzir medo desnecessário, esperança sem fundamento, amor irracional ou aversão irracional. Nada disso, porém, é incompatível com a perfeição anteriormente descrita.

Vocês dizem: “Sim, isso é incompatível com o último aspecto, pois não pode coexistir com a salvação do pecado.” Respondo que pode perfeitamente coexistir com a salvação do pecado, segundo a definição de pecado que considero bíblica: a transgressão voluntária de uma lei conhecida. “Mas toda transgressão da lei de Deus, voluntária ou involuntária, é pecado, pois João diz: ‘Todo pecado é transgressão da lei.’” É verdade, mas ele não diz que toda transgressão da lei é pecado. Isso eu nego. Que prove quem puder. Na verdade, essa é apenas uma discussão sobre palavras. Vocês dizem que ninguém é salvo do pecado no sentido que atribuem à palavra. Eu não admito esse sentido, porque a palavra nunca é empregada dessa maneira nas Escrituras. E vocês não podem negar a possibilidade de sermos salvos do pecado no sentido em que emprego a palavra. É nesse sentido que a palavra pecado é repetidamente utilizada nas Escrituras.

“Certamente, porém, não podemos ser salvos do pecado enquanto habitamos num corpo pecaminoso.” Corpo pecaminoso! Observem como essa expressão é profundamente ambígua e equivocada. Não existe autoridade bíblica para ela. A expressão “corpo pecaminoso” não se encontra nas Escrituras. Além de totalmente antibíblica, é claramente absurda, pois nenhum corpo ou tipo de matéria pode ser pecaminoso. Somente os espíritos são capazes de pecar. Em que parte do corpo o pecado habitaria? Não pode habitar na pele, nos músculos, nos nervos, nas veias ou nas artérias. Não pode estar nos ossos, mais do que nos cabelos ou nas unhas. Somente a alma pode ser a sede do pecado.

“Mas o próprio Paulo não diz que ‘os que estão na carne não podem agradar a Deus’?” Receio que o som dessas palavras tenha enganado muitas almas desatentas, às quais disseram que a expressão “os que estão na carne” significa o mesmo que “os que estão no corpo”. De modo algum! A palavra “carne”, nessa passagem, não significa o corpo mais do que significa a alma. Abel, Enoque, Abraão e toda aquela nuvem de testemunhas mencionada por Paulo em Hebreus 11 realmente agradaram a Deus enquanto estavam no corpo, como o próprio apóstolo testemunha. Portanto, a expressão significa simplesmente aqueles que não creem, que permanecem em sua condição natural e estão sem Deus no mundo.

Consideremos também a razão. Por que o Todo-Poderoso não poderia santificar a alma enquanto ela está no corpo? Ele não pode santificar você enquanto está nesta casa tão facilmente quanto poderia santificá-lo ao ar livre? As paredes de tijolos ou pedras poderiam impedi-lo? Do mesmo modo, estas paredes de carne e sangue não podem impedi-lo, nem por um instante, de santificar você completamente. Ele pode salvar você de todo pecado dentro do corpo tão facilmente quanto fora dele. “Mas ele prometeu salvar-nos do pecado enquanto ainda estamos no corpo?” Sem dúvida. Uma promessa está implícita em cada mandamento de Deus e, consequentemente, naquele que diz: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento.” Esse e todos os demais mandamentos não são dirigidos aos mortos, mas aos vivos. Isso é expresso nas palavras anteriormente citadas: devemos andar em santidade diante dele todos os dias de nossa vida. Detive-me mais nesse ponto porque esse é o grande argumento daqueles que se opõem à salvação do pecado e porque ele não tem sido respondido com tanta frequência e plenitude. Os argumentos extraídos das Escrituras, por outro lado, já foram respondidos centenas de vezes.

Resta, porém, uma objeção ainda mais plausível, extraída da experiência: não existem testemunhas vivas dessa salvação do pecado. Em resposta, reconheço: (1) que não são muitas. Mesmo nesse sentido, não existem muitos pais na fé. Tal é nossa dureza de coração e nossa lentidão para crer naquilo que os profetas e apóstolos disseram, que existem poucas, pouquíssimas testemunhas verdadeiras da grande salvação. (2) Reconheço que existem testemunhas falsas, que enganam sua própria alma e falam de coisas que não conhecem ou “falam mentiras pela hipocrisia” (1 Timóteo 4.2). Frequentemente me admiro por não existirem mais pessoas das duas espécies. Não é estranho que pessoas de imaginação exaltada enganem a si mesmas nesse assunto. Muitas fazem o mesmo em relação à justificação: imaginam que estão justificadas, quando não estão. Contudo, embora muitas imaginem falsamente que estão justificadas, existem algumas que verdadeiramente estão. Do mesmo modo, embora muitas imaginem que estão santificadas, sem realmente estar, existem algumas que verdadeiramente estão santificadas. (3) Reconheço que algumas pessoas que anteriormente desfrutavam da salvação plena agora a perderam totalmente. Em algum momento, caminharam em gloriosa liberdade, entregando todo o coração a Deus, alegrando-se sempre, orando sem cessar e dando graças em todas as circunstâncias. Isso, porém, passou. Agora perderam sua força e tornaram-se como as demais pessoas. Talvez não tenham abandonado inteiramente a confiança e ainda conservem alguma percepção do amor perdoador de Deus. Até mesmo essa percepção, porém, é frequentemente atacada por dúvidas e temores, de modo que se apegam a ela com mãos trêmulas.

“Ora”, dizem algumas pessoas piedosas e sensatas, “isso é exatamente o que afirmamos. Admitimos que Deus pode tornar alguns de seus filhos indescritivelmente santos e felizes durante algum tempo. Não negamos que possam desfrutar toda a santidade e felicidade de que você fala. Mas isso acontece apenas por algum tempo. Deus nunca planejou que continuasse até o fim da vida. Consequentemente, o pecado é apenas suspenso, não destruído.” Isso é o que vocês afirmam. Trata-se, porém, de uma questão de importância tão profunda que não pode ser admitida sem provas claras e convincentes. Onde estão essas provas? Sabemos que, de modo geral, “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Romanos 11.29). Deus não se arrepende dos dons concedidos aos filhos dos seres humanos. Como se pode provar o contrário em relação a esse dom específico? Por que imaginaríamos que Deus faria uma exceção quanto ao mais precioso de todos os seus dons deste lado do céu? Ele não é capaz de concedê-lo continuamente, assim como foi capaz de concedê-lo uma vez? Não é capaz de concedê-lo por cinquenta anos tão facilmente quanto por um dia? Como se pode provar que ele não deseja continuar essa sua bondade? Como a suposição de que não deseja fazê-lo pode ser conciliada com a declaração positiva do apóstolo? Depois de exortar os cristãos de Tessalônica — e, neles, os cristãos de todas as épocas — a alegrarem-se sempre, orarem sem cessar e darem graças em todas as circunstâncias, ele acrescenta imediatamente, como se quisesse responder especificamente aos que negam não o poder, mas a vontade de Deus de realizar isso: “Pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus” (1 Tessalonicenses 5.18). É também notável que, depois de apresentar a gloriosa promessa de que o Deus da paz os santificaria completamente e conservaria todo o seu ser irrepreensível para a vinda do Senhor, Paulo acrescente: “Fiel é aquele que os chama, o qual também o fará” (1 Tessalonicenses 5.23-24). Ele não apenas os santificará completamente, mas também os conservará nesse estado até que venha recebê-los para si.

Isso também está de acordo com os fatos. Várias pessoas desfrutaram dessa bênção sem interrupção durante muitos anos. Várias a desfrutam atualmente. E não poucas a desfrutaram até a morte, como declararam em seu último suspiro, testemunhando serenamente que Deus as havia salvado de todo pecado até que seu espírito retornasse a ele.

Quanto a todas as objeções extraídas da experiência, desejo que se observe também o seguinte: ou as pessoas contra as quais se apresentam essas objeções alcançaram a perfeição cristã, ou não a alcançaram. Caso não a tenham alcançado, todas as objeções dirigidas contra elas erram completamente o alvo, pois não são as pessoas das quais estamos falando. Tudo aquilo que são ou fazem não pertence à questão. Caso tenham alcançado a perfeição e correspondam à descrição apresentada nos artigos anteriores, nenhuma objeção razoável poderá ser feita contra elas. Estão acima de toda censura, e condenarão toda língua que se levantar contra elas.

“Mas nunca vi alguém”, continua o opositor, “que correspondesse à minha ideia de perfeição.” Pode ser verdade. E é provável, como observei em outro lugar, que você nunca veja. Sua ideia inclui muito mais do que deveria, incluindo até mesmo a libertação daquelas fraquezas inseparáveis de um espírito ligado à carne e ao sangue. Caso, porém, permaneça dentro da descrição apresentada anteriormente e leve em conta a fraqueza do entendimento humano, poderá ver, ainda hoje, exemplos inegáveis da genuína perfeição bíblica.

Resta apenas, em terceiro lugar, argumentar brevemente com aqueles que se opõem a essa perfeição. Permitam-me perguntar: por que estão tão irritados com aqueles que afirmam tê-la alcançado e tão furiosos — não posso dar um nome mais brando a essa atitude — contra a perfeição cristã, o mais glorioso dom que Deus já concedeu aos filhos dos seres humanos na terra? Considerem-na sob cada um dos aspectos anteriores e vejam o que ela contém de odioso ou aterrorizante, o que poderia provocar ódio ou medo em alguma criatura racional. Que objeção racional podem apresentar contra amar o Senhor, seu Deus, de todo o coração? Por que teriam aversão a isso? Por que teriam medo? Isso lhes faria algum mal? Diminuiria sua felicidade neste mundo ou no mundo futuro? Por que não desejariam que outras pessoas entregassem a Deus todo o coração ou amassem o próximo como a si mesmas, sim, como Cristo nos amou? Isso é detestável? É um objeto apropriado para o ódio? Ou é a coisa mais amável debaixo do sol? Deveria provocar terror? Não é, pelo contrário, desejável no mais alto grau?

Por que vocês têm tanta aversão a possuir em si mesmos toda “a mente que houve em Cristo Jesus”, todas as afeições, sentimentos e disposições que existiram nele enquanto habitou entre os seres humanos? Por que teriam medo disso? Seria pior para vocês caso Deus produzisse, nesta mesma hora, toda a mente de Cristo em seu interior? Caso não fosse, por que impediriam os outros de buscar essa bênção ou ficariam descontentes com aqueles que pensam tê-la alcançado? Existe algo mais amável ou mais desejável para cada filho dos seres humanos?

Por que vocês têm aversão a possuir todo o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, mansidão, benignidade, fidelidade, bondade e domínio próprio? Por que teriam medo de possuir todas essas graças plantadas no íntimo da alma? Assim como não existe lei contra elas, não pode existir objeção razoável. Certamente, nada é mais desejável do que todas essas disposições criarem raízes profundas no coração de vocês, no coração de todos os que invocam o nome de Cristo e, sim, de todos os habitantes da terra.

Que razão possuem para temer ou ter aversão a serem inteiramente renovados segundo a imagem daquele que os criou? Não é isso mais desejável do que qualquer outra coisa debaixo do céu? Não é supremamente amável? O que poderiam desejar em comparação com isso, seja para a própria alma, seja para aqueles pelos quais possuem a afeição mais forte e terna? Quando desfrutarem disso, o que restará senão serem “transformados, de glória em glória, na mesma imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito” (2 Coríntios 3.18)?

Por que teriam aversão à santidade universal, que é a mesma coisa sob outro nome? Por que alimentariam preconceito ou olhariam com receio para ela, quer entendam por esse termo a conformidade interior com toda a imagem e vontade de Deus, quer uma conduta exterior que corresponda, em todos os aspectos, a essa conformidade? Conseguem imaginar algo mais amável ou desejável? Abandonem o preconceito, e certamente desejarão vê-la espalhada por toda a terra.

A perfeição, para variar a expressão, consiste em ser inteiramente santificado no espírito, na alma e no corpo? Que pessoa que ama a Deus e ao próximo poderia ter aversão a isso ou alimentar pensamentos assustadores a esse respeito? Não é desejo de vocês, em seus melhores momentos, serem inteiramente coerentes, totalmente fé, mansidão e amor? E, caso possuíssem essa liberdade gloriosa, não desejariam permanecer nela e ser conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo?

Por que vocês, que são filhos de Deus, teriam aversão ou medo de apresentar a si mesmos, alma e corpo, como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, seu Criador, Redentor e Santificador? Poderia existir alguma coisa mais desejável do que essa inteira dedicação a ele? Não desejam que toda a humanidade se una nesse culto racional? Certamente, ninguém pode ter aversão a isso sem tornar-se inimigo de toda a humanidade.

Por que teriam medo ou aversão àquilo que está naturalmente incluído nisso: oferecer todos os nossos pensamentos, palavras e ações como sacrifício espiritual a Deus, aceitável a ele por meio do sangue e da intercessão de seu Filho amado? Certamente, vocês não podem negar que isso é bom e proveitoso para as pessoas, assim como agradável a Deus. Não deveriam, portanto, orar fervorosamente para que vocês e toda a humanidade o adorem desse modo em espírito e em verdade?

Permitam-me fazer mais uma pergunta. Por que alguma pessoa racional e religiosa teria medo ou aversão à salvação de todo pecado? O pecado não é o maior mal deste lado do inferno? Nesse caso, não se segue naturalmente que a libertação completa do pecado é uma das maiores bênçãos deste lado do céu? Com que fervor, portanto, todos os filhos de Deus deveriam orar por ela! Por pecado, quero dizer a transgressão voluntária de uma lei conhecida. Vocês têm aversão a ser libertados disso? Têm medo de tal libertação? Amam tanto o pecado que não desejam separar-se dele? Certamente não. Vocês não amam o diabo nem suas obras. Pelo contrário, desejam ser inteiramente libertados deles e ter o pecado arrancado tanto da vida quanto do coração.

Tenho observado frequentemente, e não sem surpresa, que os opositores da perfeição se tornam mais violentos contra ela quando é apresentada sob esse aspecto do que sob qualquer outro. Eles admitem tudo o que dizemos sobre o amor de Deus e do próximo, a mente de Cristo, o fruto do Espírito, a imagem de Deus, a santidade universal, a inteira dedicação pessoal, a santificação do espírito, da alma e do corpo e até mesmo a oferta de todos os pensamentos, palavras e ações como sacrifício a Deus. Admitirão tudo isso, desde que admitamos que o pecado, pelo menos um pouco de pecado, permaneça em nós até a morte.

Comparem isso com aquela notável passagem de A guerra santa, de John Bunyan. “Quando Emanuel”, diz ele, “expulsou Diabolus e todas as suas forças da cidade de Alma Humana, Diabolus apresentou a Emanuel uma petição, pedindo que lhe fosse permitido conservar apenas uma pequena parte da cidade. Quando isso foi rejeitado, pediu apenas um pequeno espaço dentro das muralhas. Emanuel, porém, respondeu que ele não teria lugar algum, nem sequer onde colocar a planta do pé.” O bom e velho homem não teria se esquecido de si mesmo? A força da verdade não teria prevalecido sobre ele de tal maneira que derrubou completamente seu próprio sistema e afirmou a perfeição do modo mais claro? Caso isso não seja salvação do pecado, não sei o que poderia ser.

“Não”, diz um grande homem, “esse é o erro dos erros. Odeio-o de todo o coração. Persigo-o pelo mundo inteiro com fogo e espada.” Por que tanta violência? Vocês realmente acreditam que não existe debaixo do céu nenhum erro semelhante a esse? Aqui existe algo que não consigo compreender. Por que aqueles que se opõem à salvação do pecado, com poucas exceções, são tão exaltados, quase diria furiosos? Estão lutando pro aris et focis, “por Deus e pela pátria”, por tudo o que possuem no mundo, por tudo o que lhes é próximo e precioso, pela liberdade e pela vida? Em nome de Deus, por que são tão apegados ao pecado? Que bem o pecado alguma vez lhes fez? Que bem poderá fazer, neste mundo ou no mundo futuro? Por que são tão violentos contra aqueles que esperam ser libertados dele? Tenham paciência conosco, caso estejamos enganados. Permitam-nos até mesmo desfrutar nosso engano. Caso não alcancemos essa libertação, a própria esperança dela nos proporciona consolo presente e nos concede forças para resistir aos inimigos que esperamos vencer. Caso nos convencessem a desistir da esperança dessa vitória, abandonaríamos a luta. Agora somos salvos pela esperança; dessa esperança brota uma medida de salvação. Não fiquem irritados com aqueles que são felices errore suo, “felizes em seu engano”. Caso contrário, esteja nossa opinião certa ou errada, a disposição de vocês será inegavelmente pecaminosa. Suportem-nos, portanto, assim como nós suportamos vocês, e vejam se o Senhor não nos libertará, se ele não é capaz e está disposto a salvar completamente aqueles que se aproximam de Deus por meio dele!

Tunbridge Wells, 6 de dezembro de 1784.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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