SERMÃO 80
Sobre a amizade com o mundo
Por que a amizade com o mundo é inimizade contra Deus — e o que isso não significa.
“Gente infiel! Vocês não sabem que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo se torna inimigo de Deus.”
(Tg 4.4, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley explica que a expressão “o mundo” não significa a criação material nem todas as pessoas indistintamente. Refere-se, nesse contexto, àqueles que vivem sem conhecer, amar ou temer a Deus.
Wesley não ensina que os cristãos devam odiar, desprezar ou deixar de servir as pessoas que ainda não seguem a Cristo. Pelo contrário, insiste que devemos amá-las, respeitá-las, falar-lhes com bondade e fazer-lhes todo o bem possível. O que ele condena é a intimidade que transforma pessoas sem compromisso com Deus em nossos companheiros mais próximos e principais influências.
Alguns conselhos, especialmente sobre casamento, amizades e relações familiares, são apresentados com a linguagem rigorosa própria da espiritualidade metodista do século XVIII. Devem ser preservados como parte do pensamento original de Wesley, sem que isso justifique atitudes de desprezo, hostilidade ou isolamento social.
— Bispo Ildo Mello
Existe uma passagem na Carta de Paulo aos Romanos que frequentemente se supõe possuir o mesmo significado desta: “Não vivam conforme os padrões deste mundo” (Romanos 12.2). Entretanto, ela possui pouca ou nenhuma relação com o texto de Tiago, pois trata de outra questão.
A suposta semelhança surge simplesmente porque a palavra “mundo” aparece nos dois lugares. Isso naturalmente nos leva a imaginar que aquilo que Paulo chama de conformidade com o mundo é o mesmo que Tiago chama de amizade com o mundo.
Na realidade, são coisas inteiramente diferentes, assim como as palavras originais também são diferentes. A palavra de Paulo é aiōn; a de Tiago é kosmos.
Apesar disso, as palavras de Paulo contêm uma orientação importante para os filhos de Deus. É como se dissesse:
“Não se conformem com a sabedoria, o espírito ou os costumes da época, sejam os dos judeus não convertidos, sejam os dos pagãos entre os quais vocês vivem.
Por toda a sua vida e conduta, demonstrem que foram renovados no espírito do entendimento, segundo a imagem daquele que os criou, e que sua regra não é o exemplo ou a vontade humana, mas a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
Não é estranho que a advertência de Tiago contra a amizade com o mundo seja tão pouco compreendida, até mesmo entre os cristãos.
Não consegui descobrir que algum autor, antigo ou moderno, tenha escrito sobre esse assunto. Pelo que pude observar, ninguém o fez durante dezesseis ou dezessete séculos.
Até mesmo aquele excelente escritor, William Law, que tratou muito bem de tantos outros assuntos, não escreveu em nenhum de seus tratados práticos sequer um capítulo sobre isso. Não me recordo de que tenha dito uma palavra ou apresentado uma única advertência contra essa amizade.
Nunca ouvi um sermão sobre esse tema, nem diante da universidade nem em qualquer outro lugar. Nunca participei de uma reunião na qual a conversa tivesse tratado expressamente do assunto durante uma hora.
Apesar disso, existem poucos assuntos de importância tão profunda; poucos que estejam tão intimamente relacionados à própria essência da religião, à vida de Deus na alma, à sua permanência e crescimento ou à sua diminuição e completa extinção.
A falta de instrução nesse aspecto produziu consequências profundamente tristes. Essas consequências não atingiram os que permaneciam mortos em suas transgressões e pecados, mas caíram pesadamente sobre muitos que estavam verdadeiramente vivos para Deus.
Atingiram particularmente muitos daqueles chamados metodistas, talvez mais do que qualquer outro povo.
Por não compreenderem esse conselho do apóstolo — espero que por incompreensão, e não por desprezo —, muitos deles estão enfermos, espiritualmente enfermos, e muitos dormem, embora anteriormente estivessem completamente despertos.
E será uma grande bênção se voltarem a despertar antes que sua alma lhes seja exigida.
Frequentemente tive dificuldade para explicar aquilo que observei: muitos que anteriormente estavam intensamente vivos para Deus, cuja cidadania estava nos céus e cujas afeições estavam nas coisas do alto, e não nas da terra, decaíram gradual e imperceptivelmente.
Embora continuassem praticando todas as ordenanças de Deus, abundando em boas obras, abstendo-se de todo pecado conhecido e até mesmo da aparência do mal, agora estão menos vivos para Deus do que estavam dez, vinte ou trinta anos atrás.
Isso, porém, é facilmente explicado quando observamos que, à medida que aumentaram seus bens, aumentaram também sua amizade com o mundo, o que sempre acontecerá, a menos que o poderoso poder de Deus intervenha.
Na mesma proporção em que cresceu essa amizade, diminuiu a vida de Deus em sua alma.
Seria estranho que ela diminuísse, caso estas palavras realmente estejam nos oráculos de Deus: “Gente infiel! Vocês não sabem que a amizade do mundo é inimizade contra Deus?”
Qual é o significado dessas palavras? Consideremos seriamente.
Que Deus abra os olhos de nosso entendimento para que, apesar de toda a neblina com que a sabedoria do mundo procura nos envolver, possamos discernir qual é a boa e agradável vontade de Deus.
Consideremos, em primeiro lugar, o que o apóstolo entende aqui pela palavra “mundo”.
Ele não se refere à estrutura exterior das coisas, chamada nas Escrituras de céus e terra, mas aos habitantes da terra, aos filhos dos seres humanos ou, pelo menos, à maior parte deles.
Mas a qual parte? Isso é plenamente determinado tanto pelo próprio Senhor quanto pelo discípulo amado.
Primeiramente, pelo próprio Senhor:
“Se o mundo odeia vocês, saibam que, antes de odiar vocês, odiou a mim. Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu. Mas vocês não são do mundo; pelo contrário, eu dele os escolhi, e por isso o mundo odeia vocês. […] Se perseguiram a mim, também perseguirão vocês. […] Tudo isso, porém, farão contra vocês por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou” (João 15.18-21).
Aqui, “o mundo” é colocado de um lado, e aqueles que “não são do mundo”, do outro.
Aqueles que Deus escolheu para fora do mundo, pela santificação do Espírito e pela fé na verdade, são diretamente contrastados com aqueles que não foram escolhidos dessa maneira.
Mais uma vez, nosso Senhor diz que aqueles que não conhecem aquele que o enviou são “o mundo”.
Igualmente claras são as palavras do discípulo amado:
“Meus irmãos, não se admirem se o mundo odeia vocês. Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1 João 3.13-14).
É como se dissesse: “Vocês não devem esperar ser amados, exceto por aqueles que passaram da morte para a vida.”
Segue-se que aqueles que não passaram da morte para a vida e não estão vivos para Deus são “o mundo”.
Aprendemos a mesma coisa nestas palavras: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno” (1 João 5.19).
Aqui, “o mundo” significa claramente aqueles que não são de Deus e que, consequentemente, jazem no Maligno.
Por outro lado, são de Deus aqueles que amam a Deus ou, pelo menos, o temem e guardam seus mandamentos.
Essa é a característica mais elementar daqueles que são de Deus. Ainda não são propriamente filhos, mas servos. Afastam-se do mal, procuram fazer o bem e andam em todas as suas ordenanças, porque possuem o temor de Deus no coração e um desejo sincero de agradá-lo.
Gravem no coração este significado claro da expressão “o mundo”: aqueles que não temem a Deus dessa maneira.
Que ninguém engane vocês com palavras vazias. O termo não significa nem mais nem menos do que isso.
Compreendendo o termo nesse sentido, que espécie de amizade podemos ter com o mundo?
Podemos e devemos amar essas pessoas como a nós mesmos, pois também estão incluídas na palavra “próximo”. Devemos ter por elas verdadeira boa vontade e desejar sua felicidade tão sinceramente quanto desejamos a felicidade de nossa própria alma.
Em certo sentido, devemos honrá-las, pois o apóstolo nos orienta a honrar todas as pessoas.
Devemos honrá-las como criaturas de Deus e como espíritos imortais, capazes de conhecê-lo, amá-lo e desfrutar dele por toda a eternidade.
Devemos honrá-las como pessoas redimidas pelo sangue daquele que provou a morte por todos.
Devemos ter terna compaixão quando as vemos abandonando as próprias misericórdias, afastando-se do caminho da vida e correndo para a destruição eterna.
Nunca devemos entristecer voluntariamente seu espírito nem lhes causar sofrimento. Pelo contrário, devemos proporcionar-lhes todo prazer que inocentemente pudermos, pois devemos agradar a todos para o bem e para a edificação.
Nunca devemos aumentar seus defeitos, mas reconhecer prontamente todo o bem que existe nelas.
Podemos e devemos falar com elas em todas as ocasiões da maneira mais bondosa e atenciosa possível.
Não devemos falar mal delas quando estiverem ausentes, a menos que seja absolutamente necessário, quando essa for a única maneira que conhecemos de impedir que causem algum dano.
Fora desse caso, devemos falar delas com todo o respeito possível, sem ultrapassar os limites da verdade.
Quando estiverem presentes, devemos tratá-las com toda cortesia, demonstrando toda consideração possível, sem apoiá-las no pecado.
Devemos fazer-lhes todo o bem que estiver ao nosso alcance e que estejam dispostas a receber de nós.
Assim seguiremos o exemplo do Amigo universal, nosso Pai celestial, que, enquanto não se dispõem a receber bênçãos maiores, oferece-lhes aquelas que estão dispostas a aceitar, fazendo nascer o seu sol sobre maus e bons e derramando chuva sobre justos e injustos.
“Mas que espécie de amizade não podemos ter com o mundo? Não podemos conversar de maneira alguma com pessoas que não temem a Deus? Devemos evitar inteiramente sua companhia?”
De modo nenhum. O contrário já foi admitido.
Caso não pudéssemos conversar de maneira alguma com elas, precisaríamos sair do mundo. Também não poderíamos prestar-lhes os serviços de bondade anteriormente mencionados.
Podemos certamente conversar com elas, primeiramente, a respeito de negócios, nas diversas atividades desta vida, segundo a posição na qual a providência de Deus nos colocou.
Em segundo lugar, quando a cortesia exigir, embora devamos tomar grande cuidado para não ir longe demais.
Em terceiro lugar, quando possuirmos esperança razoável de fazer-lhes bem.
Nesse caso, porém, também necessitamos de cuidado especial e de muita oração. Caso contrário, poderemos facilmente nos queimar enquanto procuramos retirar outras pessoas do fogo.
Podemos facilmente prejudicar a própria alma ao escorregarmos para uma ligação íntima com qualquer pessoa que não conhece a Deus.
Essa é a amizade que constitui inimizade contra Deus.
Não podemos vigiar excessivamente a nós mesmos, para que não caiamos nessa armadilha mortal e, antes mesmo de percebermos, passemos a sentir prazer e satisfação nessas pessoas.
Somente pisamos em terreno seguro quando podemos dizer com o salmista: “Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer” (Salmo 16.3).
Não deveríamos manter com pessoas que não temem a Deus conversas desnecessárias. É nosso dever e nossa sabedoria não estar com elas com maior frequência nem durante mais tempo do que seja estritamente necessário.
Durante todo o tempo, precisamos lembrar e seguir o exemplo daquele que disse: “Pus uma mordaça à minha boca enquanto o ímpio estava diante de mim” (Salmo 39.1).
Não devemos estabelecer com elas ligação alguma além do absolutamente necessário.
Quando Josafá se esqueceu disso e estabeleceu uma ligação com Acabe, qual foi a consequência?
Primeiramente, perdeu seus bens: os navios enviados por eles foram destruídos em Eziom-Geber.
Quando não se contentou com essa advertência, nem com a do profeta Micaías, e decidiu acompanhá-lo a Ramote-Gileade, quase perdeu a própria vida.
Acima de tudo, deveríamos tremer diante da simples ideia de entrar numa aliança matrimonial, a mais íntima de todas, com qualquer pessoa que não ame ou, pelo menos, não tema a Deus.
Essa é a mais terrível insensatez e a mais lamentável loucura na qual um filho de Deus pode mergulhar, pois implica todas as espécies de ligação com pessoas que não temem a Deus das quais o cristão está obrigado, pela consciência, a afastar-se.
Não é de admirar que isso seja tão diretamente proibido por Deus e que a proibição seja tão absoluta e decisiva: “Não se ponham em jugo desigual com os descrentes” (2 Coríntios 6.14).
Nada poderia ser mais claro.
Isso é especialmente verdadeiro caso entendamos por “descrente” uma pessoa que está muito longe de ser crente no sentido evangélico; que não pode dizer: “Esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”; e que nem sequer possui a fé de um servo, pois não teme a Deus nem pratica a justiça.
Mas por quais razões a amizade com o mundo é tão absolutamente proibida? Por que somos orientados de modo tão rigoroso a afastar-nos dela?
Por duas razões gerais: primeiramente, porque é pecado em si mesma; em segundo lugar, porque é acompanhada das consequências mais terríveis.
Primeiramente, é pecado em si mesma e, na verdade, um pecado de natureza nada comum.
Segundo os oráculos de Deus, a amizade com o mundo não é nada menos do que adultério espiritual.
Todos os que são culpados disso são chamados pelo Espírito Santo de “gente infiel” ou “adúlteros”.
Trata-se claramente de violar nossa aliança matrimonial com Deus, amando a criatura mais do que o Criador, em contradição direta com a bondosa ordem: “Meu filho, dê-me o seu coração” (Provérbios 23.26).
É pecado da mais grave natureza, pois não implica apenas ignorância, esquecimento ou desatenção em relação a Deus, mas verdadeira inimizade contra ele.
É aberta e evidentemente isso.
“Vocês não sabem”, diz o apóstolo — seria possível ignorarem uma verdade tão clara e inegável? —, “que a amizade do mundo é inimizade contra Deus?”
Como é terrível a conclusão que ele extrai daí!
“Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo” — as palavras, traduzidas corretamente, significam “aquele que deseja ser amigo do mundo”, dos que não conhecem a Deus, consiga ou não realizar seu desejo — torna-se, por esse próprio fato, inimigo de Deus.
O simples desejo, seja ou não realizado, já lhe dá direito a esse nome.
Assim como é pecado, e pecado extremamente grave, a amizade com o mundo também é acompanhada das consequências mais terríveis.
Frequentemente, volta a envolver as pessoas na prática daqueles pecados dos quais haviam escapado completamente.
Geralmente, torna-as participantes dos pecados dos outros, mesmo daqueles que elas próprias não praticam.
Gradualmente, diminui seu horror e temor diante do pecado em geral, preparando-as para se tornarem presa fácil de qualquer tentação forte.
Expõe essas pessoas a todos os pecados de omissão praticados por seus conhecidos mundanos.
Imperceptivelmente, diminui sua exatidão na oração particular, no culto familiar, no jejum, na participação no culto público e na Ceia do Senhor.
A indiferença daqueles que estão próximos delas em relação a todas essas coisas as influenciará gradualmente.
Mesmo que seus companheiros não digam uma palavra — o que dificilmente pode ser imaginado — para recomendar a própria conduta, seu exemplo fala e, muitas vezes, possui mais força do que qualquer linguagem.
Por meio desse exemplo, elas são inevitável e quase continuamente levadas a conversas inúteis e até destituídas de amor.
Deixam de colocar uma guarda diante da boca e de vigiar a porta dos lábios.
Passam a participar de difamações, intrigas e maledicência sem qualquer repreensão da consciência, tendo entristecido tantas vezes o Espírito Santo de Deus que ele já não as repreende por isso.
Sua conversa já não é, como anteriormente, temperada com sal e apropriada para transmitir graça aos ouvintes.
Essas, porém, não são todas as consequências mortais que procedem da convivência íntima com pessoas que não temem a Deus.
Ela não apenas impede que nossa conduta seja corretamente ordenada, mas tende diretamente a corromper o coração.
Tende a criar ou aumentar em nós todo o orgulho e autossuficiência, toda a irritabilidade e disposição para o ressentimento, sim, toda paixão desordenada e toda disposição errada tolerada por nossos companheiros.
Conduz suavemente à indulgência habitual consigo mesmo e à falta de disposição para negar-se.
Produz falta de prontidão para suportar ou tomar alguma cruz; conduz à fraqueza e à delicadeza excessivas, à vergonha indevida e ao medo das pessoas, que traz inúmeras armadilhas.
Arrasta novamente para o amor do mundo, para desejos insensatos e prejudiciais, para o desejo da carne, o desejo dos olhos e a soberba da vida, até que sejam completamente engolidos por essas coisas.
No final, sua última condição se torna muito pior do que a primeira.
Caso os filhos de Deus se liguem às pessoas do mundo, ainda que estas não procurem torná-los semelhantes a si mesmas — hipótese que dificilmente pode ser admitida —, mesmo que não tenham esse propósito nem esse desejo, na realidade acabarão fazendo isso, quer pretendam, quer não.
Não sei como explicar, mas é fato real que o próprio espírito dessas pessoas é contagioso.
Enquanto estamos próximos delas, corremos o risco de absorver seu espírito, ainda que elas não queiram.
Muitos médicos observaram que não apenas a peste e as febres malignas, mas quase todas as enfermidades às quais os seres humanos estão sujeitos são, em maior ou menor grau, contagiosas.
Sem dúvida, todas as enfermidades espirituais também o são, embora apresentem grande variedade.
Algumas transmitem sua influência mais rapidamente do que outras. Em qualquer dos casos, a pessoa enferma não deseja nem pretende contaminar outra.
A pessoa atingida pela peste não pretende transmitir a doença a você. Isso, porém, não significa que você esteja seguro. Mantenha-se distante, ou certamente será contaminado.
A experiência não demonstra que acontece o mesmo com as enfermidades da mente?
Suponham que os orgulhosos, vaidosos, irritados e impuros não desejem contaminá-los com as próprias enfermidades. Mesmo assim, é melhor conservar distância. Vocês não estarão seguros caso se aproximem demais.
Perceberão — e será bom que não seja tarde demais — que até sua respiração é contagiosa.
Foi recentemente descoberto, dizia-se na época de Wesley, que existe uma atmosfera ao redor de cada corpo humano que naturalmente afeta todos os que entram em seus limites.
Não existe algo semelhante em relação ao espírito humano?
Caso permaneçam muito tempo dentro da atmosfera dessas pessoas, por assim dizer, dificilmente escaparão de ser contaminados.
O contágio se espalha de alma para alma, assim como de corpo para corpo, ainda que as pessoas enfermas não pretendam nem desejem transmiti-lo.
Mas seria razoável aceitar essa hipótese? Não é fato conhecido que as pessoas do mundo, com pouquíssimas exceções, desejam intensamente tornar seus companheiros semelhantes a elas mesmas e empregam todo meio, habilidade e esforço para realizar esse desejo?
Portanto, fujam para preservar a vida! Não brinquem com o fogo. Escapem antes que as chamas se acendam sobre vocês.
Quantos argumentos são apresentados em favor da amizade com o mundo! E como são fortes as tentações que conduzem a ela!
Consideraremos algumas das mais perigosas e, ao mesmo tempo, mais comuns.
Comecemos com a mais perigosa de todas, que não é de modo algum incomum.
“Reconheço”, diz alguém, “que a pessoa com quem pretendo me casar não é religiosa. Ela não faz qualquer declaração nesse sentido e pensa muito pouco a respeito disso. Entretanto, é uma pessoa muito bonita, extremamente agradável e, penso, será uma companheira encantadora.”
Essa é verdadeiramente uma armadilha, talvez uma das maiores às quais a natureza humana está sujeita.
É uma tentação que nenhum poder humano consegue vencer. Nada menos do que o poderoso poder de Deus poderá abrir um caminho de escape.
Esse poder pode produzir completa libertação. Sua graça é suficiente.
Isso, porém, não acontecerá a menos que você coopere com ele, negue a si mesmo e tome a sua cruz.
E aquilo que precisa fazer deve ser feito imediatamente. Nada pode ser realizado gradualmente.
Tudo aquilo que deve ser feito nesse caso importante precisa acontecer de uma só vez.
Caso realmente queira fazê-lo, terá de cortar imediatamente a mão direita e lançá-la para longe.
Não existe tempo para consultar a carne e o sangue. Vença imediatamente ou pereça!
Invertamos a situação.
Suponhamos que uma mulher que ama a Deus seja cortejada por um homem agradável, educado, animado, interessante e apropriado a ela em todos os demais aspectos, embora não seja religioso.
O que deveria fazer nesse caso?
Aquilo que deveria fazer, caso creia na Bíblia, é suficientemente claro. Mas o que conseguirá fazer?
Isso não seria:
Uma prova severa demais para a fragilidade humana?
Quem é capaz de permanecer firme diante de tal prova? Quem pode resistir a semelhante tentação?
Somente aquela que conserva firmemente o escudo da fé e clama fervorosamente ao Forte pedindo força.
Somente aquela que se entrega à vigilância e à oração e permanece nelas com toda perseverança.
Caso faça isso, será uma feliz testemunha, em meio ao mundo descrente, de que, assim como todas as coisas são possíveis para Deus, todas as coisas também são possíveis àquela que crê.
Um homem ou uma mulher pode perguntar:
“E se a pessoa que procura minha amizade possuir forte entendimento natural, cultivado por grande aprendizado? Não poderei adquirir muitos conhecimentos úteis por meio da convivência íntima com ela? Não poderei aprender muitas coisas e desenvolver consideravelmente meu próprio entendimento?”
Sem dúvida, você poderá desenvolver o entendimento e adquirir muito conhecimento.
Ainda assim, caso essa pessoa não possua pelo menos o temor de Deus, sua perda será muito maior do que seu ganho.
Dificilmente conseguirá evitar diminuir em santidade tanto quanto aumenta em conhecimento.
Caso perca um único grau de santidade interior ou exterior, todo o conhecimento adquirido não será equivalente a essa perda.
“Mas seu entendimento forte e refinado pela educação não é sua principal qualidade. Possui características ainda mais valiosas. É extraordinariamente bem-humorada, possui espírito compassivo e humano e demonstra grande generosidade.”
Por causa dessas próprias características, caso não tema a Deus, essa pessoa é infinitamente mais perigosa.
Caso conviva intimamente com alguém de semelhante caráter, certamente absorverá seu espírito.
Será quase impossível evitar parar exatamente onde ela para.
Durante toda a minha vida, não encontrei coisa alguma mais difícil do que conversar com pessoas dessa espécie — geralmente chamadas de “boas pessoas” — sem ser prejudicado por elas.
Tenham cuidado com elas!
Conversem somente na medida em que os negócios exigirem, e não além disso.
Caso contrário, mesmo que não percebam nenhum prejuízo imediato, elas os ligarão novamente às coisas terrenas, por graus lentos e imperceptíveis, e enfraquecerão a vida de Deus na alma.
Talvez as pessoas que desejam sua amizade, embora não possuam experiência religiosa, compreendam muito bem a religião, de modo que vocês frequentemente recebam benefícios de suas conversas.
Caso isso realmente aconteça — e conheci alguns poucos exemplos dessa espécie —, parece que podem conversar com elas, mas de maneira muito limitada e cuidadosa.
Caso contrário, perderão mais de sua vida espiritual do que vale todo o conhecimento adquirido.
“Mas as pessoas em questão são úteis para mim na administração de meus negócios temporais. Em muitas ocasiões, são até necessárias, de modo que dificilmente conseguiria conduzir os negócios sem elas.”
Casos desse tipo acontecem frequentemente.
Essa é, sem dúvida, razão suficiente para manter alguma relação, talvez frequente, com pessoas que não temem a Deus.
Não é, porém, de maneira alguma razão para estabelecer com elas uma amizade íntima.
Pode existir uma razão ainda mais plausível para alguma intimidade com uma pessoa que não teme a Deus.
Você pode dizer:
“Eu a ajudei. Prestei-lhe auxílio quando estava em dificuldades. Ela se recorda disso com gratidão, estima-me e ama-me, embora não ame a Deus. Não deveria amá-la? Não deveria retribuir amor com amor? Até os pagãos e publicanos não fazem isso?”
Respondo: certamente você deve retribuir amor com amor. Não se segue, porém, que deva manter intimidade com ela.
Isso colocaria sua alma em risco.
Permita que seu amor se expresse em oração constante e fervorosa. Lute com Deus em favor dessa pessoa.
Não permita, porém, que o amor por ela o conduza ao ponto de enfraquecer ou destruir a própria alma.
“Mas não devo ser íntimo de meus parentes, quer temam a Deus, quer não? A providência divina não os confiou a mim?”
Sem dúvida. Existem, porém, parentes mais próximos e mais distantes.
Os parentes mais próximos são maridos e esposas. Como receberam um ao outro, para o melhor ou para o pior, devem procurar fazer o melhor possível um pelo outro. Visto que Deus os uniu, ninguém pode separá-los, exceto em caso de adultério ou quando a vida de um deles estiver em perigo imediato.
Os pais estão quase tão intimamente ligados aos filhos.
Não podem afastar-se deles enquanto são jovens, pois é dever dos pais ensiná-los cuidadosamente no caminho em que devem andar.
A frequência com que devem conviver com eles depois de adultos deverá ser determinada pela prudência cristã.
Essa prudência também determinará até quando é apropriado que os filhos, caso a escolha lhes pertença, continuem morando com os pais.
De modo geral, caso os pais não temam a Deus, vocês deveriam deixar sua casa assim que isso fosse conveniente.
Onde quer que estejam, porém, cuidem, se estiver ao alcance de vocês, para que não lhes faltem as necessidades e os confortos da vida.
Quanto aos parentes mais distantes, até mesmo irmãos ou irmãs, caso sejam do mundo, vocês não estão obrigados a manter intimidade com eles.
Podem ser corteses e amigáveis, mantendo a devida distância.
Admitindo-se que a amizade com o mundo seja inimizade contra Deus e, consequentemente, que evitar toda intimidade com pessoas do mundo seja o caminho mais excelente, na realidade o único caminho para o céu, quem possui firmeza para andar por ele, mesmo entre aqueles que amam ou temem a Deus? Somente estes estão envolvidos na presente questão.
Conheci alguns poucos que, também nesse aspecto, foram luzes numa terra escurecida.
Eles não estabeleceram nem continuaram qualquer amizade íntima com pessoas de entendimento altamente refinado e desenvolvido e de disposições extremamente atraentes, simplesmente porque eram do mundo, porque não estavam vivas para Deus.
Agiram assim embora essas pessoas fossem capazes de ampliar seu conhecimento ou ajudá-los nos negócios; e mesmo quando admiravam e estimavam neles exatamente aquela religião que elas próprias não experimentavam, caso que alguém dificilmente julgaria possível, mas do qual existem atualmente muitos exemplos.
Por causa da consciência, abstiveram-se firme e resolutamente até mesmo da convivência familiar com essas pessoas.
Vá e faça o mesmo, seja você quem for, caso seja filho de Deus pela fé!
Qualquer que seja o preço, fuja do adultério espiritual.
Não mantenha amizade com o mundo.
Por mais que seja tentado pelo lucro ou pelo prazer, não estabeleça intimidade com pessoas de mentalidade mundana.
Caso já tenha estabelecido alguma, rompa-a sem demora.
Sim, mesmo que o amigo que não teme a Deus lhe seja tão precioso quanto o olho direito ou útil como a mão direita, não consulte a carne e o sangue.
Arranque o olho direito, corte a mão direita e lance-os para longe.
Essa não é uma questão indiferente. Sua vida está em jogo: vida eterna ou morte eterna.
Não é melhor entrar na vida com um olho ou uma mão do que, possuindo os dois, ser lançado no fogo do inferno?
Quando você não conhecia coisa melhor, Deus não levou em conta os tempos da ignorância.
Agora, porém, seus olhos foram abertos e a luz chegou. Ande na luz!
Não toque naquilo que contamina.
A qualquer custo, conserve-se puro!
Independentemente daquilo que os outros façam, quer ouçam, quer deixem de ouvir, escutem isto todos vocês que são chamados metodistas:
Por mais que sejam pressionados ou tentados, não mantenham amizade com o mundo.
Olhem ao redor e vejam os tristes efeitos que ela produziu entre seus irmãos!
Quantos poderosos caíram! Quantos foram derrubados exatamente por isso!
Não aceitaram advertência alguma. Continuaram convivendo intimamente com pessoas de mentalidade terrena até que refizeram seus passos em direção à terra.
“Saiam do meio deles e separem-se deles” (2 Coríntios 6.17), afastem-se de todas as pessoas que não temem a Deus, por mais inofensivas que pareçam.
Separem-se pelo menos o suficiente para não manter intimidade com elas.
Assim como a comunhão de vocês é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo, que também seja com aqueles, e somente com aqueles, que ao menos buscam o Senhor Jesus Cristo com sinceridade.
Então, num sentido especial, vocês serão filhos e filhas do Senhor Todo-Poderoso.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.