SERMÃO 81

Em que sentido devemos deixar o mundo

O que significa — e o que não significa — sair do meio deles e separar-se.

2Co 6.17–18, NAA ⏱ 22 min de leituraVida cristã prática

“Por isso, o Senhor diz: ‘Saiam do meio deles e separem-se deles. Não toquem em coisa impura, e eu os receberei.’ ‘Serei o Pai de vocês, e vocês serão meus filhos e minhas filhas’, diz o Senhor Todo-Poderoso.”

(2Co 6.17–18, NAA)

Antes de ler

Neste sermão, Wesley procura esclarecer o significado da ordem bíblica: “Saiam do meio deles e separem-se deles.” Ele rejeita a interpretação segundo a qual o texto ordenaria necessariamente a separação de uma Igreja institucional. Em seu contexto, a passagem trata da separação moral e espiritual entre os que seguem a Cristo e os que vivem sem temor de Deus.

Wesley não propõe que os cristãos abandonem o trabalho, a sociedade ou todas as relações com pessoas não religiosas. Ele reconhece que os negócios, os deveres familiares, a cortesia e a missão cristã exigem convivência. A advertência é contra relações íntimas e desnecessárias que enfraqueçam a fé e moldem o cristão segundo os valores do mundo.

Alguns de seus conselhos práticos refletem as convenções sociais do século XVIII e são apresentados com grande rigor. Devem ser lidos como expressão de sua preocupação pastoral com a influência moral das amizades, e não como autorização para desprezar, desumanizar ou abandonar pessoas que necessitam de cuidado.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Como são poucas as pessoas no mundo religioso que consideraram devidamente estas palavras solenes! Nós as lemos repetidas vezes, mas nunca as levamos ao coração nem observamos que contêm uma ordem tão clara e expressa quanto qualquer outra em toda a Bíblia.

É de temer que sejam ainda menos numerosos aqueles que compreendem o verdadeiro sentido dessa orientação.

Inúmeras pessoas na Inglaterra a interpretaram como uma ordem para sair da Igreja estabelecida.

No mesmo sentido, foi compreendida por milhares de pessoas nos reinos vizinhos.

Muitos sermões foram pregados e muitos livros escritos com base nessa suposição. De fato, muitos homens piedosos fundamentaram sua separação da Igreja principalmente nesse texto.

“É o próprio Deus”, dizem eles, “quem nos ordena: ‘Saiam do meio deles e separem-se deles.’ Somente sob essa condição ele nos receberá, e seremos filhos e filhas do Senhor Todo-Poderoso.”

Essa interpretação, porém, está completamente distante do propósito do apóstolo, que não está falando desta ou daquela Igreja, mas de um assunto inteiramente diferente.

Nem o próprio apóstolo nem qualquer de seus irmãos extraíram das palavras semelhante conclusão.

Caso tivessem feito isso, estariam em contradição direta tanto com o exemplo quanto com o ensinamento de seu Mestre.

Embora a Igreja judaica estivesse naquele tempo tão impura e profana, interior e exteriormente, quanto qualquer Igreja cristã atualmente existente sobre a terra, nosso Senhor participava constantemente de seus cultos.

Também orientou seus seguidores a andar em seus passos nesse aspecto, assim como em todos os outros.

Isso está claramente implícito nesta passagem extraordinária:

“Na cadeira de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus. Portanto, façam e observem tudo o que eles disserem a vocês, porém não os imitem em suas obras; porque dizem e não fazem” (Mateus 23.2-3).

Mesmo que eles próprios dissessem e não fizessem, que a vida contradissesse sua doutrina e que fossem homens sem piedade, nosso Senhor não apenas permite, mas exige que seus discípulos os ouçam.

Ele ordena que observem e pratiquem aquilo que dizem. Isso seria impossível caso não os ouvissem.

De acordo com isso, enquanto permaneceram em Jerusalém, os apóstolos participavam constantemente do culto público.

Portanto, é certo que as palavras não se referem à separação da Igreja estabelecida.

Também não se referem à orientação apresentada pelo apóstolo em sua Primeira Carta aos Coríntios.

A passagem completa diz:

“Já em carta escrevi a vocês que não se associassem com os impuros. Refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, roubadores ou idólatras, pois, nesse caso, vocês teriam de sair do mundo. Mas agora escrevo a vocês que não se associem com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, avarento, idólatra, maldizente, bêbado ou roubador. Com esse tipo de pessoa, vocês nem devem comer” (1 Coríntios 5.9-11).

Essa orientação se refere inteiramente aos membros da mesma comunidade cristã.

O apóstolo declara expressamente que não está orientando a evitar tais pessoas entre os pagãos ou entre os seres humanos em geral.

Acrescenta a clara razão: “Pois, nesse caso, vocês teriam de sair do mundo”, porque não poderiam realizar nele negócio algum.

“Mas, se alguém que se chama irmão”, isto é, que está ligado a vocês na mesma comunidade religiosa, “for impuro, avarento, idólatra, maldizente, bêbado ou roubador, com esse tipo de pessoa vocês nem devem comer.”

Como essa advertência é importante! E como é pouco observada, até mesmo por aqueles que, nos demais aspectos, são cristãos conscientes!

Algumas partes dela, na verdade, não são fáceis de observar pela simples razão de não serem fáceis de compreender.

Não é fácil compreender exatamente a quem essas descrições se aplicam.

Por exemplo, é muito difícil saber, exceto nos casos evidentes, quem deve ser considerado roubador ou avarento.

Dificilmente poderemos reconhecer um ou outro sem pelo menos parecermos intrometidos nos assuntos alheios.

Apesar disso, a proibição contra a convivência com eles é tão forte quanto aquela relacionada aos impuros ou adúlteros.

Podemos apenas agir com simplicidade de coração, sem nos apresentarmos como juízes infalíveis, permanecendo dispostos a receber melhor instrução e agindo segundo a melhor luz que possuímos.

Embora essa orientação se refira somente a nossos irmãos cristãos — pelo menos cristãos por profissão exterior —, a orientação do texto possui alcance muito maior.

Sem dúvida, relaciona-se a toda a humanidade.

Exige claramente que nos conservemos, na medida do possível, afastados de todas as pessoas sem piedade.

Na realidade, parece que a expressão traduzida por “coisa impura”, tou akathartou, poderia ser traduzida por “pessoa impura”, provavelmente em referência à lei cerimonial que proibia tocar numa pessoa legalmente impura.

Mesmo aqui, porém, caso compreendêssemos a expressão literalmente e tomássemos as palavras no sentido mais rigoroso, surgiria o mesmo absurdo: como afirma o apóstolo, teríamos de sair do mundo.

Não conseguiríamos permanecer nas ocupações que a providência de Deus nos designou.

Caso não pudéssemos conversar de maneira alguma com pessoas desse caráter, seria impossível realizar nossos negócios temporais.

Todo cristão consciente não teria alternativa senão fugir para o deserto.

Não seria suficiente tornar-se recluso e fechar-se num mosteiro ou convento, pois mesmo ali seria necessário manter algum relacionamento com pessoas sem piedade para obter as necessidades da vida.

Portanto, as palavras precisam necessariamente ser compreendidas com considerável limitação.

Elas não proíbem que conversemos com qualquer pessoa, boa ou má, durante a realização dos negócios do mundo.

Surgirão milhares de ocasiões nas quais precisaremos conversar com essas pessoas para conduzir assuntos que não podem ser realizados sem elas.

Algumas dessas situações podem exigir contato frequente com pessoas bêbadas ou imorais.

Algumas vezes, pode ser necessário passar tempo considerável na companhia delas. Caso contrário, não conseguiríamos cumprir os deveres de nossas diferentes ocupações.

Essa convivência com pessoas santas ou profanas, exigida pelos deveres da vida, não é de maneira alguma contrária ao conselho do apóstolo.

O que, então, o apóstolo proíbe?

Primeiramente, conversar com pessoas sem piedade quando não existe necessidade, chamado providencial ou negócio que o exija.

Em segundo lugar, conversar com elas com maior frequência do que o negócio necessariamente exige.

Em terceiro lugar, permanecer em sua companhia por mais tempo do que seja necessário para concluir o negócio.

Acima de tudo, em quarto lugar, escolher pessoas que não temem a Deus, por mais inteligentes ou agradáveis que sejam, como companheiras habituais ou amigas íntimas.

Caso algum exemplo dessa espécie admita menos desculpa do que os outros, é aquele expressamente proibido pelo apóstolo em outra passagem: colocar-se em jugo desigual com um descrente no casamento, com uma pessoa que não possui o amor de Deus no coração nem, pelo menos, o temor de Deus diante dos olhos.

Não conheço coisa alguma que possa justificar isso: nem o bom senso, a inteligência ou a beleza da pessoa; nem a vantagem temporal; nem o medo da pobreza; nem mesmo a ordem de um dos pais.

Caso algum pai ou mãe ordene algo contrário à Palavra de Deus, o filho deve obedecer a Deus antes que aos seres humanos.

O fundamento dessa proibição é apresentado extensamente nos versículos anteriores:

“Que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão há entre a luz e as trevas? Que harmonia pode haver entre Cristo e o Maligno? Ou que união, do crente com o descrente?” (2 Coríntios 6.14-15).

Aqui, compreendo a palavra “descrente” em sentido amplo, referindo-se àquele que não possui nem o amor nem o temor de Deus.

“Porque nós somos santuário do Deus vivo, como ele próprio disse: ‘Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo’” (2 Coríntios 6.16).

Segue-se: “Por isso, saiam do meio deles” — dos injustos, dos filhos das trevas, dos filhos de Belial, dos descrentes — “e separem-se deles. Não toquem em coisa impura, e eu os receberei.”

Eis o resumo da proibição: não manter com pessoas profanas qualquer relação além daquela que seja absolutamente necessária.

Não pode existir comunhão proveitosa entre os justos e os injustos, assim como não pode existir comunhão entre a luz e as trevas, quer compreendamos trevas naturais, quer espirituais.

Assim como Cristo não pode possuir harmonia com Belial, também aquele que crê em Cristo não pode possuir verdadeira harmonia com o descrente.

É absurdo imaginar que possa existir verdadeira união ou concordância entre duas pessoas enquanto uma permanece nas trevas e a outra anda na luz.

Elas são súditas não apenas de dois reinos separados, mas de dois reinos opostos.

Agem segundo princípios completamente diferentes e procuram objetivos completamente diferentes.

Necessariamente caminharão, frequentemente, se não sempre, por caminhos diferentes.

Como poderão andar juntas enquanto não estiverem de acordo, enquanto ambas não servirem a Cristo ou ambas a Belial?

Quais serão as consequências de não obedecermos a essa orientação, de não sairmos do meio das pessoas profanas e não nos separarmos delas, mas estabelecermos ou continuarmos uma convivência familiar com elas?

Provavelmente, isso não produzirá imediatamente consequências más aparentes ou visíveis.

Dificilmente nos conduzirá imediatamente a algum pecado exterior.

Talvez não provoque logo o abandono de algum dever exterior.

Primeiramente, porém, destruirá os fundamentos de nossa religião.

Pouco a pouco, enfraquecerá nosso zelo por Deus e esfriará suavemente o fervor de espírito que acompanhava nosso primeiro amor.

Mesmo que essas pessoas não se oponham abertamente a coisa alguma que dizemos ou fazemos, seu próprio espírito afetará imperceptivelmente o nosso e transmitirá a ele a mesma mornidão e indiferença em relação a Deus e às coisas de Deus.

Enfraquecerá todas as forças da alma, destruirá o vigor do espírito e fará com que diminuamos cada vez mais o ritmo enquanto corremos a carreira que nos está proposta.

Do mesmo modo, todo contato desnecessário com pessoas sem piedade enfraquecerá nossa convicção divina a respeito das coisas invisíveis.

Obscurecerá os olhos da alma pelos quais contemplamos aquele que é invisível e enfraquecerá nossa confiança nele.

Diminuirá gradualmente nossa experiência dos poderes do mundo futuro e enfraquecerá aquela esperança que anteriormente nos fazia assentar nas regiões celestiais em Cristo Jesus.

Esfriará imperceptivelmente a chama de amor que anteriormente nos capacitava a dizer:

“Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra” (Salmo 73.25).

Assim, atinge a raiz de toda religião vital, de nossa comunhão com o Pai e com o Filho.

Pelos mesmos graus e da mesma maneira secreta e despercebida, essa convivência nos preparará para voltar novamente nossos passos em direção à terra.

Conduzirá suavemente ao retorno ao amor do mundo do qual havíamos escapado completamente; ao desejo da carne, isto é, à busca da felicidade nos prazeres dos sentidos; ao desejo dos olhos, isto é, à busca da felicidade nos prazeres da imaginação; e à soberba da vida, isto é, à busca da felicidade na ostentação, nas riquezas ou no louvor das pessoas.

Tudo isso poderá acontecer com a ajuda do espírito que enganou Eva com sua astúcia, antes que percebamos seu ataque ou tenhamos consciência de qualquer perda.

Não é apenas o amor do mundo, em todas as suas manifestações, que necessariamente se introduz em nós enquanto convivemos com pessoas de espírito mundano além daquilo que o dever exige.

Também entram todas as outras paixões e disposições más de que a alma humana é capaz, especialmente orgulho, vaidade, espírito crítico, suspeitas malignas e disposição para a vingança.

Por outro lado, a superficialidade, a alegria frívola e a dissipação entram despercebidas e aumentam continuamente.

Sabemos como todas essas coisas abundam naqueles que não conhecem a Deus.

Elas não podem deixar de se introduzir em todos os que convivem frequente e livremente com essas pessoas.

Penetram mais profundamente naqueles que não percebem perigo algum e, acima de tudo, naqueles que possuem afeição especial e amam além daquilo que o dever exige as pessoas que não amam a Deus com as quais convivem intimamente.

Até aqui, supus que as pessoas com as quais vocês convivem sejam aquilo que costumamos chamar de “boas pessoas”; aquilo que, na expressão vazia da moda, é chamado de “pessoas de bom caráter”, uma das palavras mais tolas e insignificantes que já entraram em uso.

Supus que estejam livres de maldições, blasfêmias e profanação; da quebra do dia do Senhor e da embriaguez; da impureza em palavras ou ações; da desonestidade, mentira e difamação; em resumo, livres de todo vício exterior.

Caso contrário, todo aquele que possui até mesmo o temor de Deus deve conservar distância delas.

Receio, porém, ter feito uma suposição que dificilmente pode ser admitida.

Receio que algumas das pessoas com as quais vocês convivem mais do que os negócios exigem nem sequer mereçam a descrição de boas pessoas, mas sejam dignas apenas de vergonha e desprezo.

Algumas não vivem abertamente no pecado, em maldições, blasfêmias, embriaguez ou impureza?

Vocês não permanecerão ignorantes disso por muito tempo, pois elas pouco fazem para esconder sua conduta.

Não é certo que todo vício possui natureza contagiosa? Quem pode tocar no piche sem ficar manchado?

Portanto, fujam dessas pessoas como fugiriam de uma serpente. Caso contrário, como rapidamente “as más companhias corrompem os bons costumes” (1 Coríntios 15.33)!

Também supus que as pessoas profanas com as quais vocês convivem frequentemente não desejem transmitir-lhes o próprio espírito nem levá-los a seguir seu exemplo.

Essa, porém, também é uma suposição que dificilmente pode ser admitida.

Em muitos casos, os interesses delas poderão ser favorecidos caso vocês se tornem participantes de seus pecados.

Mesmo deixando de lado o interesse, não deseja naturalmente cada pessoa, em maior ou menor grau, conquistar seus conhecidos para a própria opinião ou partido?

Assim como todas as pessoas boas desejam e procuram tornar as outras boas e semelhantes a elas, as pessoas más também desejam e procuram tornar seus companheiros tão maus quanto elas mesmas.

Mesmo que não façam isso, admitindo a suposição quase impossível de que não desejem nem procurem conduzir vocês às suas disposições e práticas, ainda assim é perigoso conviver com elas.

Não falo apenas daqueles que vivem abertamente no vício, mas de todos os que não amam a Deus ou, pelo menos, não o temem nem buscam sinceramente seu Reino e sua justiça.

Admitamos que esses companheiros não procurem torná-los semelhantes a eles. Isso prova que vocês não correm perigo?

Vejam aquele pobre ser humano enfermo pela peste! Ele não deseja nem realiza qualquer esforço para transmitir a vocês sua enfermidade.

Mesmo assim, tenham cuidado! Não o toquem! Nem sequer se aproximem, pois não sabem com que rapidez poderão chegar à mesma condição.

Aplicando a comparação: embora suponhamos que a pessoa do mundo não deseje, planeje nem procure transmitir-lhes sua enfermidade, não a toquem! Não se aproximem demais.

Não são apenas seus argumentos ou persuasões que podem contaminar a alma. Sua própria respiração é contagiosa, especialmente para aqueles que não percebem perigo algum.

Ainda que a convivência livre com pessoas de mentalidade mundana não produza nenhum outro efeito mau, certamente os tornará, por graus imperceptíveis, menos voltados para o céu.

Dará à mente uma inclinação que puxará continuamente a alma em direção à terra.

Sem que percebam, em vez de serem completamente transformados pela renovação da mente, voltarão a conformar-se com este mundo em seu espírito, em suas máximas e em suas conversas vazias.

Voltarão à superficialidade e à dissipação de espírito das quais haviam escapado; ao excesso nas roupas e àquelas conversas insensatas, frívolas e inúteis que eram abomináveis quando a alma estava viva para Deus.

Diariamente se afastarão daquela simplicidade de palavras e comportamento com a qual anteriormente adornavam a doutrina de Deus, nosso Salvador.

Caso avancem até esse ponto na conformidade com o mundo, dificilmente pararão ali.

Em pouco tempo, irão mais longe.

Depois de perderem o equilíbrio e começarem a deslizar, é extremamente improvável que parem antes de chegar ao fim da descida e cair em alguns dos pecados exteriores praticados por seus companheiros diante dos olhos ou ouvidos de vocês.

Por esse meio, o temor e o horror que esses pecados inicialmente lhes causavam diminuirão gradualmente, até que sejam finalmente convencidos a seguir o exemplo deles.

Mesmo que não sejam conduzidos ao pecado exterior, caso seu espírito seja contaminado pelo orgulho, ira ou amor ao mundo, isso já será suficiente.

Sem profundo arrependimento, será suficiente para afogar a alma na perdição eterna, pois, mesmo deixando de lado todo pecado exterior, “a inclinação da carne é morte” (Romanos 8.6).

Por mais perigoso que seja para os homens conviver intimamente com outros homens que não conhecem a Deus, é ainda mais perigoso que convivam com mulheres desse caráter, pois geralmente possuem maior capacidade de influência e persuasão, especialmente quando são atraentes em sua aparência ou agradáveis em suas conversas.

Você precisará ser mais do que humano para conviver com elas sem sofrer alguma perda.

Mesmo que não experimente desejo insensato ou impuro — e quem pode garantir que não experimentará? —, dificilmente deixará de sentir alguma suavidade imprópria, que o tornará menos disposto e menos capaz de perseverar no hábito de negar a si mesmo e tomar diariamente sua cruz, atitudes que caracterizam o bom soldado de Jesus Cristo.

Sabemos que não apenas os sexualmente imorais e adúlteros, mas também os que se tornam excessivamente delicados, seguidores acomodados de um Mestre que negou a si mesmo, não terão parte no Reino de Cristo e de Deus.

Essas são as consequências que certamente, embora talvez lentamente, surgirão quando os filhos de Deus se misturarem intimamente com as pessoas do mundo.

Por esse meio, mais do que por qualquer outro, sim, mais do que por todos os demais reunidos, o povo chamado metodista corre o risco de perder sua força e tornar-se semelhante aos outros.

É verdade que muitos deles permitem a convivência íntima com pessoas que não conhecem a Deus com boa intenção e com verdadeiro desejo de promover a glória de Deus.

Vocês esperam despertá-las do sono e convencê-las a buscar aquilo que contribui para a paz.

Caso, porém, depois de um período razoável de tentativa, não consigam produzir impressão alguma, será sábio entregá-las a Deus.

Caso contrário, é mais provável que vocês sejam prejudicados por elas do que consigam fazer-lhes algum bem.

Caso não elevem o coração delas ao céu, elas puxarão o de vocês em direção à terra.

Portanto, recuem enquanto existe tempo: “Saiam do meio deles e separem-se deles.”

Mas como isso pode ser feito? Qual é o método mais simples e eficaz de nos separarmos de pessoas que não temem a Deus?

Talvez alguns poucos conselhos tornem isso claro para aqueles que desejam conhecer e cumprir a vontade de Deus.

Primeiramente, não convidem para sua casa pessoas sem piedade, a menos que exista alguma ocasião muito especial.

Vocês poderão dizer: “Mas a cortesia exige isso, e certamente a religião não é inimiga da cortesia. O próprio apóstolo nos orienta a ser compassivos e corteses.”

Respondo: vocês podem ser corteses, suficientemente corteses, e ainda assim mantê-las à distância apropriada.

Podem demonstrar cortesia em milhares de ocasiões e, mesmo assim, não estabelecer intimidade.

Nunca foi intenção do apóstolo recomendar uma cortesia que necessariamente se transforme numa armadilha para a alma.

Em segundo lugar, não aceitem, por motivo algum, convite de uma pessoa sem piedade.

Não sejam convencidos a realizar uma visita, a menos que desejem que ela seja retribuída.

Talvez uma pessoa desejosa de sua amizade repita a visita duas ou três vezes.

Caso, porém, vocês permaneçam firmes e não retribuam, logo se cansará.

É possível que fique ofendida e talvez demonstre ressentimento.

Estejam preparados para isso, a fim de que, quando algo dessa espécie acontecer, não fiquem surpresos nem desanimados.

É melhor agradar a Deus e desagradar às pessoas do que agradar às pessoas e desagradar a Deus.

Em terceiro lugar, provavelmente vocês possuíam conhecidos do mundo antes de conhecerem pessoalmente a Deus.

O que deve ser feito a respeito deles? Como poderão abandonar essa convivência com maior facilidade?

Primeiramente, concedam tempo suficiente para verificar se, por meio de argumentos e persuasão apresentados nos momentos mais oportunos, não poderão convencê-los a escolher a melhor parte.

Não poupem esforços! Empreguem toda a fé e todo o amor e lutem com Deus em favor deles.

Caso, depois de tudo, não percebam impressão alguma, será dever de vocês afastar-se suavemente, para que não fiquem presos.

Isso poderá ser feito em pouco tempo, de maneira simples e tranquila, deixando de retribuir as visitas.

Vocês, porém, deverão esperar ser acusados de arrogância e falta de bondade, se não diretamente, pelo menos na ausência.

Isso poderão suportar por causa de uma boa consciência. É propriamente o sofrimento de Cristo.

Quando agradou a Deus conceder-me uma firme decisão de ser não apenas um cristão nominal, mas um cristão verdadeiro — eu tinha então cerca de vinte e dois anos —, meus conhecidos eram tão ignorantes a respeito de Deus quanto eu.

Existia, porém, esta diferença: eu conhecia minha própria ignorância; eles não conheciam a deles.

Procurei ajudá-los, embora de maneira fraca, mas inutilmente.

Enquanto isso, descobri por triste experiência que até mesmo suas chamadas conversas inofensivas enfraqueciam todas as minhas boas resoluções.

A questão era como conseguiria afastar-me deles. Refleti repetidas vezes sobre isso.

Não percebia caminho possível, a menos que agradasse a Deus transferir-me para outro colégio.

Ele fez isso de maneira inteiramente contrária a toda probabilidade humana.

Fui eleito membro de um colégio no qual não conhecia uma única pessoa.

Previ que muitas pessoas viriam visitar-me, por amizade, cortesia ou curiosidade, e que receberia propostas de amizades antigas e novas.

Eu, porém, já havia estabelecido meu plano.

Entrando, por assim dizer, num mundo novo, decidi não estabelecer amizade por acaso, mas por escolha, selecionando somente aqueles que eu tivesse razão para acreditar que me ajudariam em meu caminho para o céu.

Por isso, observei atentamente a disposição e o comportamento de todos os que me visitavam.

Não vi razão para imaginar que a maioria deles amasse ou temesse verdadeiramente a Deus.

Portanto, não escolhi essas amizades, pois não poderia esperar que me fizessem algum bem.

Quando algum deles vinha visitar-me, eu o tratava com toda a cortesia possível.

À pergunta: “Quando você irá visitar-me?”, porém, não apresentava resposta.

Depois de virem algumas vezes e perceberem que eu continuava recusando-me a retribuir a visita, deixava de vê-los.

Bendigo a Deus porque essa tem sido minha regra invariável durante cerca de sessenta anos.

Eu sabia que surgiriam muitas críticas, mas isso não me abalava, pois sabia muito bem que minha vocação era caminhar “por honra e por desonra, por infâmia e por boa fama” (2 Coríntios 6.8).

Aconselho seriamente todos os que estão decididos a ser não quase, mas inteiramente cristãos, que adotem o mesmo plano, por mais contrário que seja à carne e ao sangue.

Observem cuidadosamente quais das pessoas que encontram possuem a mesma disposição de vocês.

Quais delas vocês possuem razão para acreditar que temem a Deus e praticam a justiça?

Considerem-nas dignas de sua amizade. Conversem com elas alegre e livremente em todas as oportunidades.

Quanto àquelas que não correspondem a essa descrição, deixem que se afastem de maneira suave e tranquila.

Por mais bondosas e sensatas que sejam, não lhes prestarão verdadeiro serviço.

Ainda que não as conduzam ao pecado exterior, serão um peso contínuo para a alma e impedirão que corram com vigor e alegria a carreira que lhes está proposta.

Caso algum de seus amigos que anteriormente corria bem volte atrás, afastando-se do santo mandamento que lhe foi transmitido, utilizem primeiramente todos os métodos que a prudência possa sugerir para conduzi-lo novamente ao bom caminho.

Caso não consigam, deixem-no ir, embora continuem entregando-o a Deus em oração.

Abandonem toda convivência familiar com ele e salvem a própria alma.

Em quarto lugar, aconselho que andem cuidadosamente em relação aos seus parentes.

Com seus pais, sejam religiosos ou não, certamente deverão conversar, caso eles desejem; e também com seus irmãos e irmãs, especialmente se necessitarem de seus serviços.

Não sei se existe a mesma obrigação em relação aos parentes mais distantes.

A cortesia e a afeição natural poderão exigir que vocês os visitem algumas vezes.

Caso, porém, não conheçam nem busquem a Deus, isso certamente deverá acontecer o mínimo possível.

Quando estiverem com eles, não permaneçam um dia além daquilo que a decência exige.

Além disso, com qualquer parente que estejam, lembrem-se da solene advertência do apóstolo:

“Não saia da boca de vocês nenhuma palavra suja, mas unicamente a que for boa para edificação, conforme a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Efésios 4.29).

Vocês não possuem autorização para afastar-se dessa regra. Caso o façam, entristecerão o Espírito Santo de Deus.

Caso a cumpram rigorosamente, aqueles que não possuem religião logo dispensarão sua companhia.

É dessa maneira que aqueles que temem ou amam a Deus devem “sair do meio” de todos os que não o temem.

Assim, num sentido bíblico claro, devem “separar-se” deles, afastando-se de toda convivência desnecessária.

Sim, “não toquem”, diz o Senhor, “em coisa impura” ou em pessoa impura, além daquilo que a necessidade exige, “e eu os receberei” na família e na casa de Deus.

“Serei o Pai de vocês”, abraçando-os com afeição paternal, “e vocês serão meus filhos e minhas filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso.”

A promessa é expressamente dirigida a todos os que renunciam à companhia íntima das pessoas sem piedade, desde que seu espírito e sua conduta também correspondam, nos demais aspectos, ao seu dever.

Deus compromete-se absolutamente a conceder-lhes todas as bênçãos preparadas para seus filhos amados, tanto no tempo quanto na eternidade.

Portanto, todos os que possuem alguma consideração pelo favor e pela bênção de Deus devem, primeiramente, tomar cuidado para não estabelecer amizade ou ligação com pessoas sem piedade além daquilo que os negócios necessários ou algum outro chamado providencial exijam.

Em segundo lugar, devem romper, com toda rapidez possível e na medida permitida pela natureza da situação, todas as amizades desnecessárias já estabelecidas e todas as ligações já formadas.

Que nenhum prazer resultante dessa convivência e nenhum ganho obtido ou esperado por meio dessas ligações sejam considerados quando colocados na balança contra uma ordem clara e positiva de Deus.

Num caso como esse, “arranque o olho direito”: rompa com a amizade que lhe proporciona maior prazer e lance-a para longe, abandonando todo pensamento e projeto de procurá-la novamente.

“Corte a mão direita”: renuncie completamente à ligação que lhe proporciona maior benefício e lance-a para longe.

“É melhor que você entre na vida com um só olho” ou uma só mão “do que, tendo os dois, seja lançado no fogo do inferno” (Mateus 18.8-9).

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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