SERMÃO 109
O que é o ser humano?
“Que é o homem, para que dele te lembres?” — a segunda meditação de Wesley sobre a pequenez e o destino eterno do ser humano.
“Que é o homem?”
(Sl 8.4, NAA)Antes de ler
Este é o segundo sermão de Wesley com o título “O Que É o Ser Humano?”. No Sermão 103, ele considera principalmente a pequenez da humanidade diante da imensidão do universo e da eternidade. Aqui, volta a pergunta para si mesmo: “O que sou eu?”. Examina o corpo, a alma, a liberdade humana, a morte e a finalidade da existência.
As explicações sobre os quatro elementos, o “fogo etéreo”, o funcionamento dos pulmões, a circulação do sangue e a localização da alma refletem teorias científicas do século XVIII e foram superadas pela medicina e pela biologia modernas. São preservadas como parte do raciocínio histórico de Wesley, mas não devem ser tomadas como explicações científicas atuais.
Wesley também apresenta uma antropologia segundo a qual a alma continua existindo conscientemente depois da morte e volta a unir-se ao corpo na ressurreição. Essa concepção é mantida por fidelidade ao original, ainda que o leitor adote outra interpretação bíblica sobre a condição dos mortos.
— Bispo Ildo Mello
1. Mais ainda: o que sou eu? Com a ajuda de Deus, desejo considerar a mim mesmo. Aqui está uma máquina extraordinária, “assombrosamente e maravilhosamente feita”. É uma pequena porção de terra cujas partículas, unidas de um modo que não compreendo, prolongam-se em inúmeras fibras, mil vezes mais finas do que cabelos. Essas fibras, cruzando-se em todas as direções, são admiravelmente trabalhadas em membranas; e essas membranas são, de maneira igualmente admirável, formadas em artérias, veias, nervos e glândulas, que contêm diversos fluidos em constante circulação por toda a máquina.
2. Para a continuidade dessa circulação, é necessária quantidade considerável de ar, continuamente introduzida no organismo por um mecanismo preparado exatamente para essa finalidade. Como, porém, segundo a teoria científica aceita por Wesley, uma partícula de fogo etéreo e uma partícula de água estariam ligadas a cada partícula de ar, o ar, a água e o fogo seriam recebidos juntos nos pulmões. Ali, o fogo seria separado do ar e da água, que seriam novamente expelidos, enquanto o fogo extraído deles seria recebido e misturado ao sangue. Desse modo, o corpo humano seria formado pelos quatro elementos — terra, água, ar e fogo —, devidamente proporcionados e misturados, sendo o último responsável pela chama vital da qual procederia o calor do corpo.
3. Consideremos isso um pouco mais. Não seria a principal função dos pulmões fornecer ao corpo esse fogo continuamente extraído do ar por aquela curiosa “bomba de fogo”? Pela inspiração, ela receberia juntos o ar, a água e o fogo. Em suas numerosas células, geralmente chamadas vasos de ar, separaria o fogo do ar e da água. Esse fogo se misturaria então ao sangue, pois cada vaso de ar estaria ligado a um vaso sanguíneo. Assim que o fogo fosse extraído, o ar e a água seriam expelidos pela expiração.
4. Sem essa fonte da vida, esse fogo vital, não poderia existir circulação do sangue e, consequentemente, movimento de qualquer fluido, especialmente do fluido nervoso — caso este não fosse, como Wesley julgava altamente provável, o próprio fogo do qual falava. Não haveria, portanto, sensação nem movimento muscular. A força do coração, normalmente considerada causa da circulação, parecia-lhe completamente insuficiente para produzir semelhante efeito. Ninguém suporia que a força do coração de um homem vigoroso fosse superior ao peso de três mil libras, enquanto, segundo os cálculos utilizados por Wesley, seria necessária força equivalente a cem mil libras para impulsionar o sangue do coração através de todas as artérias. Concluía, então, que isso somente poderia acontecer pelo fogo etéreo existente no próprio sangue, auxiliado pela força elástica das artérias pelas quais circulava.
5. Além desse estranho composto dos quatro elementos — terra, água, ar e fogo —, encontro em mim alguma coisa de natureza inteiramente diferente, sem parentesco com qualquer um deles. Encontro em mim alguma coisa que pensa, o que nem a terra, a água, o ar, o fogo ou qualquer combinação deles poderia fazer. Existe alguma coisa que vê, ouve, cheira, prova e sente, sendo todas essas coisas diferentes modos de pensar. Essa coisa vai além: depois de perceber objetos por meio dos sentidos, forma ideias interiores a respeito deles; julga-os; percebe se concordam ou discordam uns dos outros; raciocina a respeito deles, isto é, deduz uma afirmação de outra; reflete sobre as próprias operações; é dotada de imaginação e memória; e qualquer uma de suas operações, especialmente o julgamento, pode ser subdividida em muitas outras.
6. Por qual meio descobrirei em qual parte do corpo está alojado esse princípio pensante? Alguns homens importantes afirmaram que ele está “todo no todo e todo em cada parte”. Nada, porém, aprendo com isso; parecem palavras sem significado determinado. Apelando da melhor maneira possível para a própria experiência, percebo que esse princípio pensante não está localizado em minhas mãos, pés, pernas ou braços. Também não está alojado no tronco. Uma breve reflexão poderá convencer qualquer pessoa disso. Não consigo imaginar que esteja nos ossos ou em qualquer parte da carne. Tanto quanto posso julgar, parece localizar-se em alguma parte da cabeça. Não consigo determinar, porém, se está na glândula pineal ou em alguma parte do cérebro.
7. Esse princípio interior, onde quer que esteja alojado, é capaz não somente de pensar, mas também de amar, odiar, alegrar-se, entristecer-se, desejar, temer e esperar, juntamente com toda uma sequência de emoções interiores normalmente chamadas paixões ou afeições. Elas são designadas de maneira geral pela palavra “vontade” e são combinadas e diversificadas de milhares de maneiras. Parecem constituir a única fonte de ação daquele princípio interior que chamo de alma.
8. Mas o que é minha alma? Essa é pergunta importante e difícil de responder. Seria ela apenas um produto de origem inferior, formada por partículas separadas de uma matéria mais refinada, um simples efeito que a natureza necessariamente produziria pelo movimento e pelo encontro dos átomos? De modo algum posso acreditar nisso. Minha razão rejeita essa ideia. Não consigo aceitar que a alma seja terra, água ou fogo, nem uma composição de todos esses elementos, ainda que fosse somente por esta razão evidente: todos eles, separados ou combinados de qualquer maneira possível, permanecem inteiramente passivos. Nenhum possui o menor poder de mover a si mesmo. Alguém pergunta: “Aquele navio não se move?”. Sim, mas não por si mesmo; é movido pela água sobre a qual flutua. “A água, porém, se move.” É verdade, mas é movida pelo vento, pela corrente de ar. “O ar também se move.” Ele é movido pelo fogo etéreo ligado às suas partículas; e esse fogo é movido pelo Espírito todo-poderoso, fonte de todo movimento no universo. Minha alma, porém, recebeu dele um princípio interior de movimento mediante o qual governa, segundo sua vontade, cada parte do corpo.
9. Ela governa cada movimento do corpo, com uma única exceção, que constitui exemplo admirável da sábia e bondosa providência do grande Criador. Existem movimentos corporais absolutamente necessários à continuidade da vida, como a expansão e a contração dos pulmões, os movimentos do coração, a pulsação das artérias e a circulação do sangue. Esses movimentos não são governados por mim conforme minha vontade; não esperam minhas ordens. É bom que seja assim. É profundamente apropriado que todos os movimentos vitais sejam involuntários e continuem quer prestemos atenção a eles, quer não. Caso fosse diferente, poderiam surgir graves inconvenientes: a vida poderia ser interrompida por uma decisão momentânea ou perdida por simples desatenção. Com exceção desses movimentos vitais, dirijo os movimentos de todo o corpo. Por um único ato da vontade, movimento a cabeça, os olhos, as mãos ou qualquer parte do corpo, embora compreenda tão pouco como realizo isso quanto compreendo como “os três que dão testemunho no céu são um”.
10. Mas o que sou eu? Sem dúvida, sou alguma coisa distinta de meu corpo. Parece evidente que meu corpo não está necessariamente incluído em minha identidade. Quando meu corpo morrer, segundo Wesley, eu não morrerei, mas continuarei existindo tão realmente quanto existia antes. Não posso deixar de acreditar que esse princípio pensante e capaz de movimento próprio, com todas as suas paixões e afeições, continuará existindo mesmo quando o corpo tiver voltado ao pó. Atualmente, porém, o corpo está tão intimamente ligado à alma que pareço ser formado pelos dois. Em meu presente estado de existência, sou, sem dúvida, constituído de alma e corpo; e assim serei novamente, depois da ressurreição, por toda a eternidade.
11. Tenho consciência de possuir mais uma propriedade, geralmente chamada liberdade. Ela é frequentemente confundida com a vontade, mas possui natureza muito diferente. Também não é propriedade da vontade, mas propriedade distinta da alma, capaz de ser exercida em relação a todas as capacidades da alma e a todos os movimentos do corpo. É o poder de determinar a si mesmo. Embora não se estenda a todos os pensamentos e imaginações, estende-se às palavras e ações em geral, com poucas exceções. Estou tão certo de possuir liberdade em relação a essas coisas — de falar ou não falar, agir ou não agir, fazer isto ou seu contrário — quanto estou certo da própria existência. Não possuo apenas aquilo que se chama “liberdade de contradição”, poder fazer ou deixar de fazer, mas também “liberdade de contrariedade”, poder agir de uma maneira ou da maneira oposta. Negar isso seria negar a experiência constante de toda a humanidade. Cada pessoa percebe possuir poder interior para mover esta ou aquela parte do corpo, movê-la ou não e fazê-lo numa direção ou na direção contrária, segundo sua vontade. Posso, conforme escolho — assim como toda pessoa nascida de mulher —, abrir ou fechar os olhos, falar ou permanecer em silêncio, levantar-me ou sentar-me, estender a mão ou recolhê-la e utilizar qualquer membro e todo o corpo segundo minha vontade. Embora não possua poder absoluto sobre a mente por causa da corrupção da natureza humana, mediante a graça de Deus que me auxilia, possuo capacidade para escolher e praticar o bem, assim como o mal. Sou livre para escolher a quem servirei e, caso escolha a melhor parte, para perseverar nela até a morte.
12. Mas diga-me, natureza amedrontada: o que é a morte? É apenas o sangue que deixa de circular e a respiração que termina? É o limite final de uma vida curta e até mesmo do movimento que começou juntamente com ela? A morte é propriamente a separação entre a alma e o corpo. Disso estamos certos. Não estamos certos, porém, pelo menos em muitos casos, do momento em que essa separação acontece. Acontece quando termina a respiração, segundo a conhecida máxima: Nullus spiritus, nulla vita — “Onde não existe respiração, não existe vida”? Não podemos afirmar isso de maneira absoluta, pois são conhecidos casos de pessoas que deixaram completamente de respirar e depois se recuperaram. Acontece quando o coração deixa de bater ou quando cessa a circulação do sangue? Também não, pois o coração poderá voltar a bater, e a circulação, mesmo depois de interrompida, poderá começar novamente. A alma separou-se do corpo quando o corpo se encontra inteiramente rígido e frio? Nos dias de Wesley, haviam sido relatados diversos casos de pessoas que se encontravam nessa condição, sem sinais aparentes de vida, e que, mediante os recursos então disponíveis, recuperaram a vida e a saúde. Portanto, não podemos afirmar mais do que isto: a morte é a separação entre a alma e o corpo, mas, em muitos casos, somente Deus conhece o momento dessa separação.
13. Aquilo que realmente precisamos conhecer e considerar profundamente é a finalidade da vida. Com que finalidade a vida foi concedida aos filhos dos seres humanos? Por que fomos enviados ao mundo? Por uma única finalidade e nenhuma outra: preparar-nos para a eternidade. Somente para isso vivemos. Para esse propósito, e nenhum outro, a vida nos foi concedida e continua sendo preservada. Agradou ao Deus plenamente sábio, no momento que considerou melhor, levantar-se na grandeza de seu poder e criar os céus, a terra e tudo aquilo que neles existe. Depois de preparar todas as coisas para o ser humano, “criou o homem à sua imagem e semelhança”. Qual foi a finalidade de sua criação? Uma única: que conhecesse, amasse, desfrutasse e servisse seu grande Criador por toda a eternidade.
14. O ser humano, porém, “estando em posição de honra, não permaneceu”, mas caiu abaixo até mesmo dos animais que perecem. Rebelou-se voluntária e abertamente contra Deus e rejeitou sua lealdade à Majestade do céu. Desse modo, perdeu imediatamente tanto o favor de Deus quanto a imagem divina na qual havia sido criado. Como já não era capaz de alcançar a felicidade pelo antigo caminho, Deus estabeleceu com ele uma nova aliança, cujas condições já não eram: “Faça isto e viva”, mas: “Creia e você será salvo”. A finalidade humana, porém, permanece exatamente a mesma, embora agora esteja fundamentada sobre outra base. O sentido claro da nova aliança é: “Creia no Senhor Jesus Cristo, a quem Deus entregou como propiciação por seus pecados, e você será salvo”; primeiramente da culpa do pecado, recebendo redenção por meio de seu sangue; depois, de seu poder, para que já não domine sobre você; e, finalmente, de sua raiz, sendo restaurado à plena imagem de Deus. Restaurado ao favor e à imagem divina, você conhecerá, amará e servirá a Deus por toda a eternidade. Portanto, a finalidade da vida de toda pessoa nascida no mundo continua sendo conhecer, amar e servir seu grande Criador.
15. Observe-se que, assim como essa é a finalidade da vida, é também sua finalidade completa e exclusiva. Foi para isso que cada pessoa na face da terra e cada um de vocês veio ao mundo e recebeu uma alma viva. Lembrem-se: vocês não nasceram para coisa alguma além disso. Não vivem para coisa alguma além disso. Sua vida é conservada na terra somente para que conheçam, amem e sirvam a Deus aqui e desfrutem dele por toda a eternidade. Considerem: vocês não foram criados para agradar aos sentidos, satisfazer a imaginação, ganhar dinheiro ou receber elogios humanos; nem para procurar felicidade em qualquer bem criado ou em alguma coisa debaixo do Sol. Tudo isso é “andar numa sombra vã”; é levar vida inquieta e infeliz em direção a uma eternidade igualmente infeliz. Pelo contrário, vocês foram criados para isto, e para nenhuma outra finalidade: procurando e encontrando felicidade em Deus na terra, alcançar a glória de Deus no céu. Portanto, que seu coração diga continuamente: “Uma coisa faço”. Conservando uma única coisa diante dos olhos e lembrando-se por que nasceram e por que sua vida continua, “prossigo para o alvo”. Busco a única finalidade de minha existência: Deus; sim, “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. Ele será meu Deus para todo o sempre e meu guia até a morte!
Bradford, 2 de maio de 1788.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.