SERMÃO 125
Sobre viver sem Deus
“Vocês estavam sem Cristo, sem esperança e sem Deus no mundo” — o que é viver como ateu prático e o remédio do evangelho.
“Naquele tempo vocês estavam sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo.”
(Ef 2.12, NAA)Antes de ler
Neste sermão, Wesley distingue o ateísmo teórico do ateísmo prático. O primeiro nega conscientemente a existência de Deus. O segundo poderá confessar que Deus existe, mas vive sem comunhão com ele, sem reconhecê-lo nos pensamentos, nas escolhas e na vida cotidiana.
Wesley ilustra essa condição por meio de uma antiga história sobre um sapo encontrado no interior de um carvalho. Embora aceitasse o relato como verdadeiro, ele não possui confirmação científica e deve ser entendido somente como recurso ilustrativo. O ponto é comparar um animal supostamente isolado do mundo visível com uma pessoa espiritualmente isolada da realidade de Deus.
O sermão contém também uma afirmação teológica importante: Wesley se recusa a condenar todos os pagãos e muçulmanos e declara não possuir autoridade bíblica para julgar aqueles que estão “fora” da revelação cristã. Também afirma que Deus considera a condição do coração mais do que a clareza intelectual das ideias teológicas.
— Bispo Ildo Mello
1. Talvez estas palavras pudessem ser traduzidas de maneira mais adequada: “ateus no mundo”. Essa parece ser expressão um pouco mais forte do que “sem Deus no mundo”, que possui som quase exclusivamente negativo e não implica necessariamente coisa além de não possuir comunhão ou relacionamento com Deus. Ao contrário, a palavra “ateu” geralmente é compreendida de maneira positiva: não somente rejeitar qualquer relacionamento com Deus, mas negar sua própria existência.
2. A condição dessas pessoas infelizes poderá ser ilustrada por um acontecimento então recente, cuja veracidade Wesley considerava razoável por ter sido testemunhado por grande número de pessoas. Quando um carvalho muito antigo foi cortado e aberto no meio, um grande sapo saiu do interior da árvore e afastou-se tão rapidamente quanto conseguiu. Durante quanto tempo poderíamos imaginar que aquela criatura permanecera ali? Não parecia improvável que tivesse permanecido naquele abrigo durante mais de cem anos. Poderia ter praticamente a mesma idade do carvalho, tendo sido de algum modo encerrado dentro dele quando a árvore ainda era pequena. Assim, Wesley considerava razoável supor que tivesse vivido aquela estranha espécie de vida durante pelo menos um século. Dizemos que havia vivido. Que espécie de vida, porém! Como era desejável! Como era digna de inveja! Como diz Cowley:
Ó vida preciosa e muito querida! Ó vida que os amantes do prazer desejariam compartilhar!
Dediquemos alguns pensamentos a caso tão incomum e procuremos extrair dele alguma aplicação.
3. Aquele pobre animal possuía órgãos dos sentidos, mas não experimentava sensação alguma. Possuía olhos, mas nenhum raio de luz jamais entrou em sua escura habitação. Desde o primeiro instante de sua existência ali, permaneceu preso em trevas impenetráveis. Estava separado do Sol, da Lua, das estrelas e da bela aparência da natureza; na realidade, de todo o mundo visível, como se este nem sequer existisse.
4. Como nenhum ar poderia penetrar naquela cavidade escura, consequentemente não poderia ouvir. Quaisquer que fossem seus órgãos, não poderiam possuir utilidade, pois nenhuma onda de ar conseguiria atravessar as paredes que o cercavam. Também não existe razão para acreditar que possuísse algo semelhante aos sentidos do olfato ou do paladar. Numa criatura que não necessitava de alimento, eles não teriam qualquer utilidade. Também não existia caminho pelo qual os objetos do olfato ou do paladar pudessem aproximar-se dela. Provavelmente, possuía pouquíssima, caso alguma, experiência até mesmo do sentido mais geral, o tato. Como permanecia continuamente na mesma posição entre as partes que a cercavam, todas completamente imóveis, nenhuma delas poderia produzir nova impressão. Assim, possuía uma única sensação, hora após hora e dia após dia, durante toda a sua existência.
5. Assim como aquele pobre animal estava destituído de sensações, também precisava estar destituído de reflexão. Sua cabeça, qualquer que fosse sua estrutura, não possuía material sobre o qual trabalhar, nenhuma espécie de ideia derivada dos sentidos e, consequentemente, não poderia produzir qualquer grau de reflexão. Provavelmente, quase não possuía memória ou imaginação. Também não poderia possuir capacidade de deslocamento enquanto permanecesse tão estreitamente fechado por todos os lados. Ainda que possuísse em si mesmo algum princípio de movimento, seria impossível exercer essa capacidade, pois a estreiteza da cavidade não permitia qualquer mudança de lugar.
6. Como é possível estabelecer paralelo exato entre aquela criatura — que dificilmente poderia ser chamada de animal — e uma pessoa que vive “sem Deus no mundo”! Essa é a situação da grande maioria até mesmo daqueles que são chamados cristãos! Não me refiro àqueles que são ateus no sentido comum da palavra. Não acredito que sejam tão numerosos quanto algumas pessoas imaginaram. Depois de todas as investigações e observações que consegui realizar durante mais de cinquenta anos, não encontrei vinte pessoas que realmente negassem a existência de Deus. Na realidade, encontrei somente duas, segundo meu melhor julgamento, nas ilhas britânicas. As duas viviam em Londres e haviam sustentado essa opinião durante muitos anos. Vários anos antes de serem chamadas a comparecer diante de Deus, porém, tanto John S. quanto John B. ficaram plenamente convencidos de que Deus existe. Mais surpreendente ainda: foram convencidos primeiramente de que ele é Deus terrível e, depois, de que é Deus misericordioso. Menciono esses dois casos para mostrar não apenas que existem ateus literais no mundo, mas também que até eles, caso se humilhem e peçam, poderão encontrar “graça para socorro em ocasião oportuna”.
7. Não me refiro a pessoas como essas quando falo daqueles que são ateus ou vivem “sem Deus no mundo”, mas aos ateus práticos: aqueles que não possuem Deus em seus pensamentos; que não procuraram conhecê-lo nem possuem comunhão com ele; que não possuem relacionamento maior com Deus ou com o mundo invisível do que aquele animal possuía com o mundo visível. Procurarei desenvolver o paralelo entre eles. Que Deus o aplique ao coração dessas pessoas!
8. Toda pessoa assim se encontra exatamente na mesma situação em relação ao mundo invisível em que o sapo supostamente se encontrava em relação ao mundo visível. Aquela criatura possuía, sem dúvida, alguma espécie de vida. Certamente, possuía todas as partes interiores e exteriores essenciais à vida animal e fluidos apropriados capazes de manter alguma espécie de circulação. Que vida extraordinária! Exatamente assim é a vida do ateu prático, da pessoa “sem Deus no mundo”. Como é espesso o véu existente entre ela e o mundo invisível, que, para ela, é como se não existisse! Não possui a menor percepção dele nem a mais distante ideia. Não contempla minimamente Deus, o Sol intelectual; não sente qualquer atração por ele nem desejo de conhecer seus caminhos. Embora sua luz tenha alcançado todas as terras e sua voz os limites do mundo, essa pessoa não ouve coisa alguma, assim como não ouve a lendária música das esferas. Não experimenta coisa alguma da bondade de Deus ou dos poderes do mundo que virá. Não sente — segundo a expressão de nossa Igreja — a atuação do Espírito Santo no coração. Em resumo, não possui maior comunhão com o mundo espiritual do que aquela pobre criatura possuía com o mundo natural enquanto permanecia presa em seu compartimento escuro.
9. No momento em que o Espírito do Todo-Poderoso toca o coração daquele que até então vivia sem Deus no mundo, quebra sua dureza e faz novas todas as coisas. O Sol da Justiça aparece e brilha sobre sua alma, mostrando-lhe a luz da glória de Deus na face de Jesus Cristo. Entra num mundo novo. Todas as coisas ao seu redor se fazem novas, de maneira que anteriormente jamais havia entrado em seu coração imaginar. Enxerga, na medida em que seus olhos recentemente abertos conseguem suportar:
Os céus se abrindo ao redor E brilhando com raios de santa felicidade.
Vê que possui “Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” e que possui “redenção em seu sangue, o perdão dos pecados”. Vê “um novo e vivo caminho aberto para o Santo dos Santos pelo sangue de Jesus”, e sua “luz brilha cada vez mais até ser dia perfeito”.
10. Pelo mesmo toque gracioso, aquele que anteriormente possuía ouvidos, mas não ouvia, torna-se capaz de ouvir. Escuta a voz que ressuscita os mortos, a voz daquele que é “a ressurreição e a vida”. Já não permanece surdo aos convites e mandamentos, às promessas e advertências de Deus. Ouve alegremente todas as palavras que procedem de sua boca e, por elas, governa todos os pensamentos, palavras e ações.
11. Ao mesmo tempo, recebe outros sentidos espirituais, capazes de discernir o bem e o mal espiritual. Torna-se capaz de experimentar, assim como de enxergar, que o Senhor é bondoso. Entra no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus e experimenta os poderes do mundo que virá. Descobre que o amor de Jesus é muito melhor do que o vinho, mais doce do que o mel e o favo. Compreende o significado destas palavras: “Todas as suas roupas exalam perfume de mirra, aloés e cássia.” Sente o amor de Deus derramado no coração pelo Espírito Santo que lhe foi dado ou, segundo a expressão de nossa Igreja, “sente a atuação do Espírito de Deus no coração”. Pode-se observar facilmente que a substância de todas essas expressões figuradas se encontra contida numa única palavra: fé, compreendida em seu sentido mais amplo e experimentada, em maior ou menor grau, por todo aquele que crê no nome do Filho de Deus. Essa transformação da morte espiritual para a vida espiritual é propriamente o novo nascimento. Todos os seus aspectos foram belamente expressos pelo doutor Watts numa única estrofe:
Renova meus olhos e abre meus ouvidos; Forma novamente minha alma; Concede-me novas paixões, alegrias e temores E transforma a pedra em carne!
12. Antes dessa transformação completa, poderão acontecer muitas transformações parciais numa pessoa natural, frequentemente confundidas com o novo nascimento. Por causa disso, muitas pessoas dizem à própria alma: “Paz, paz!”, quando não existe paz. Poderá acontecer não somente transformação considerável na vida, fazendo com que a pessoa abandone pecados públicos e até seu pecado mais persistente, mas também mudança considerável nas disposições, convicção do pecado, desejos intensos e boas decisões. Precisamos tomar muito cuidado para não desprezar, de um lado, o dia das coisas pequenas; e, do outro, para não confundir alguma dessas mudanças parciais com aquela transformação completa e universal que constitui o novo nascimento: a transformação total da imagem do Adão terreno para a imagem do celestial; de uma mente terrena, sensual e demoníaca para a mente que houve em Cristo.
13. Estabeleçam, portanto, firmemente no coração que, embora possam ter sido transformados em muitos outros aspectos, segundo a instituição cristã coisa alguma possui valor sem toda a atitude que houve em Cristo, capacitando-os a caminhar como ele caminhou. Nada é mais certo do que isto: “Se alguém está em Cristo”, sendo verdadeiro crente nele, “é nova criatura; as coisas antigas passaram, e todas se fizeram novas.”
14. Disso podemos perceber claramente a grande diferença existente entre o cristianismo e a moralidade. É absolutamente certo que o verdadeiro cristianismo não poderá existir sem a experiência interior e a prática exterior da justiça, da misericórdia e da verdade. Isso é justamente aquilo que a moralidade ensina. É igualmente certo, porém, que toda moralidade, toda justiça, misericórdia e verdade que possam existir sem o cristianismo não possuem valor espiritual diante de Deus para aqueles que vivem debaixo da dispensação cristã. Observem que acrescento intencionalmente: “para aqueles que vivem debaixo da dispensação cristã”, pois não possuo autoridade da Palavra de Deus para “julgar os que estão de fora”. Também não considero que pessoa alguma possua direito de condenar todo o mundo pagão e muçulmano. É muito melhor deixá-los com aquele que os criou e é “Pai dos espíritos de toda a humanidade”; que é Deus dos pagãos assim como dos cristãos e não odeia coisa alguma que criou. Isso, porém, não altera a condição daqueles que invocam o nome de Cristo. Todos eles, encontrando-se debaixo da lei cristã, serão julgados por ela. Consequentemente, a menos que sejam transformados, recebendo novos sentidos, ideias, paixões e disposições, não são cristãos. Por mais justos, verdadeiros ou misericordiosos que sejam, ainda vivem praticamente sem Deus.
15. Talvez existam pessoas bem-intencionadas que levem a questão ainda mais longe. Afirmam que, independentemente da transformação realizada no coração ou na vida, caso alguém não possua compreensão clara das doutrinas fundamentais — a queda do ser humano, a justificação pela fé, a expiação realizada pela morte de Cristo e a transferência de sua justiça —, não poderá receber benefício algum de sua morte. Não ouso afirmar semelhante coisa. Na realidade, não acredito nisso. Creio que o Deus misericordioso considera a vida e as disposições das pessoas mais do que suas ideias. Creio que considera a bondade do coração mais do que a clareza do entendimento. Caso o coração de alguém esteja, pela graça de Deus e pelo poder de seu Espírito, cheio de amor humilde, gentil e paciente por Deus e pela humanidade, Deus não o lançará no fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos simplesmente porque suas ideias não são claras ou porque suas concepções são confusas. Reconheço que “sem santidade ninguém verá o Senhor”, mas não ouso acrescentar: “nem sem ideias claras”.
16. Voltando ao texto: imploro a todos vocês que ainda vivem “sem Deus no mundo” que considerem seriamente que, apesar de toda a humanidade, benevolência e virtude que possuem, ainda permanecem:
Fechados nas trevas E numa prisão sem luz.
Meus queridos amigos, vocês não enxergam Deus. Não contemplam o Sol da Justiça. Não possuem comunhão com o Pai nem com seu Filho Jesus Cristo. Nunca ouviram a voz que ressuscita os mortos. Não conhecem a voz do Pastor. Não receberam o Espírito Santo. Não possuem sentidos espirituais. Continuam com as antigas ideias, paixões, alegrias e temores naturais; ainda não são novas criaturas. Clamem a Deus para que rasgue o véu que permanece sobre o coração de vocês e os leva a lamentar:
Escuridão, escuridão, ainda preciso dizer, Mesmo em pleno brilho do dia do evangelho!
Que hoje vocês ouçam a voz daquele que fala como ninguém jamais falou, dizendo: “Levante-se, resplandeça, porque chegou a sua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre você!” Não é sua voz que clama: “Olhe para mim e seja salvo”? Ele diz: “Eis que venho!” Amém! Vem depressa, Senhor Jesus!
Rotherham, 6 de julho de 1790.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.