SERMÃO 134

O verdadeiro cristianismo

“Como se tornou prostituta a cidade fiel!” — manuscrito preparado para Oxford: o chamado de volta ao cristianismo real, a fé que age pelo amor.

Is 1.21, NAA ⏱ 20 min de leituraVida cristã prática

“Como se tornou prostituta a cidade fiel!”

(Is 1.21, NAA)

Antes de ler

Este sermão foi encontrado entre os documentos de John Wesley num manuscrito incompleto, datado de 24 de junho de 1741. Também foi localizada uma versão em latim. Adam Clarke informou que as partes ausentes do manuscrito inglês foram completadas com base no texto latino.

O sermão parece ter sido preparado para a Universidade de Oxford, embora não se saiba com certeza se foi pregado ali. Wesley dirige uma denúncia severa tanto contra o ensino teológico que, segundo ele, comprometia a justificação pela fé quanto contra a falta de santidade entre professores, ministros e estudantes.

Algumas críticas refletem normas universitárias, costumes e debates teológicos do século XVIII. A mensagem central permanece atual: a religião cristã não consiste apenas em opiniões corretas, moralidade exterior, atividades religiosas ou lealdade institucional. O verdadeiro cristianismo é a vida de Cristo operando no coração e manifestando-se em santidade, amor e obediência.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

NOTA EDITORIAL

O sermão seguinte foi encontrado num manuscrito incompleto entre os documentos do senhor Wesley. Está datado de 24 de junho de 1741.

Também foi descoberta cópia em latim do mesmo discurso. O senhor Pawson copiou cuidadosamente o manuscrito inglês, e completei suas partes ausentes com base na versão latina.

Comparando os dois sermões, encontrei diversas diferenças. Embora não sejam de grande importância, considero-as suficientes para justificar a tradução e publicação do texto latino, não somente como curiosidade, mas por sua utilidade.

Sem dúvida, o sermão foi escrito com a intenção de ser pregado diante da Universidade de Oxford. Não se pode, porém, determinar se realmente foi pregado ali.

— Adam Clarke

1. “Quando eu fizer vir a espada sobre uma terra”, declara o Senhor, “e o vigia tocar a trombeta e advertir o povo, todo aquele que ouvir o som da trombeta e não receber a advertência será responsável por aquilo que lhe acontecer. Caso, porém, o vigia veja a espada aproximar-se e não toque a trombeta, e o povo não seja advertido, aquele que for alcançado morrerá em sua iniquidade, mas pedirei ao vigia contas de seu sangue” (Ezequiel 33.2-6).

2. Não se pode duvidar de que essa palavra do Senhor também tenha sido dirigida a todo ministro de Cristo:

“Filho do homem, coloquei você como vigia sobre a casa de Israel. Você ouvirá a palavra de minha boca e os advertirá em meu nome. Quando eu disser ao perverso: ‘Você certamente morrerá’, caso não fale para adverti-lo a abandonar seu caminho, ele morrerá em sua iniquidade, mas pedirei a você contas de seu sangue.”

3. Ninguém, portanto, deverá ser considerado nosso inimigo por dizer-nos a verdade.

Fazer isso constitui expressão de amor ao próximo e de obediência a Deus.

Caso contrário, poucas pessoas assumiriam tarefa tão ingrata, pois já conhecem a resposta que provavelmente receberão.

A Escritura precisa cumprir-se:

“O mundo me odeia”, afirma nosso Senhor, “porque testemunho que suas obras são más.”

4. É por causa de convicção plena e firme de que devo este trabalho de amor aos meus irmãos e à minha terna mãe — a Universidade de Oxford —, que me alimenta há mais de vinte anos e da qual, debaixo de Deus, recebi benefícios pelos quais confio conservar gratidão até que meu espírito retorne a Deus, que o concedeu.

É por convicção plena de que o amor, a gratidão e a responsabilidade do evangelho que me foi confiada exigem isso de mim que, apesar de minha pequenez, assumi a tarefa de falar sobre assunto necessário, embora desagradável.

Desejaria realmente que pessoa mais bem recebida tivesse realizado essa tarefa.

Caso todos, porém, permanecessem em silêncio, as próprias pedras clamariam:

“Como se tornou prostituta a cidade fiel!”

5. Que ela foi fiel ao Senhor, com quem havia sido comprometida como virgem pura, não seja testemunhado somente pelos escritos de seus filhos, que serão honrados durante todas as gerações, mas também pelo sangue de seus mártires, testemunho de fidelidade mais forte do que poderia ser transmitido por palavras:

Mais forte do que todos os discursos
Desta terra cheia de vozes.

Como, porém, ela se tornou prostituta! Como se afastou do Senhor! Como o negou e ouviu a voz de estranhos!

Isso aconteceu:

I. Em relação à doutrina;

II. Em relação à prática.

A CORRUPÇÃO DA DOUTRINA

1. Não se pode afirmar que todos os nossos escritores ensinem doutrinas estranhas.

Existem aqueles que interpretam os oráculos de Deus pelo mesmo Espírito mediante o qual foram escritos e que permanecem fielmente sobre o fundamento sólido colocado por nossa Igreja em conformidade com eles.

A respeito desse fundamento, possuímos a palavra daquele que não pode mentir: os portões do inferno não prevalecerão contra ele.

Existem também — bendito seja o Autor de toda boa dádiva — aqueles que, como sábios construtores, edificam sobre ele não madeira, feno ou palha, mas ouro e pedras preciosas: o amor que jamais termina.

2. Também possuímos razão para agradecer ao Pai das Luzes por não ter permanecido sem testemunhas.

Existem aqueles que atualmente anunciam o evangelho da paz, a verdade que há em Jesus.

Como, porém, são poucos quando comparados àqueles que adulteram a Palavra de Deus!

Como recebemos pouco alimento saudável para a alma e quanto veneno nos é oferecido!

Como são poucos os que, escrevendo ou pregando, anunciam o verdadeiro evangelho de Cristo com a simplicidade e a pureza em que é apresentado nos respeitáveis documentos de nossa própria Igreja!

Como estamos cercados por aqueles que, não conhecendo as doutrinas da Igreja, as Escrituras nem o poder de Deus, criaram invenções próprias por meio das quais corrompem continuamente as outras pessoas!

3. Não falo agora daqueles que Wesley chama, em linguagem extremamente severa, de “primogênitos de Satanás”: deístas, arianos ou socinianos.

Esses grupos eram suficientemente desacreditados entre nós e, por isso, não poderiam prestar grande serviço à causa de seu mestre.

O que diremos, porém, daqueles considerados pilares de nossa Igreja e defensores de nossa fé, mas que, na realidade, traem aquela Igreja e enfraquecem os fundamentos da fé ensinada por ela?

4. Como é desagradável demonstrar isso!

Quem é capaz de suportar o peso do preconceito que necessariamente surgirá quando semelhante acusação for apresentada contra pessoas de reputação tão estabelecida e que, sob diversos outros aspectos, realmente prestaram grandes serviços à Igreja de Deus?

Apesar disso, todo ministro fiel precisa dizer:

“Deus não permita que eu seja parcial em favor de pessoa alguma! Não me atrevo a utilizar títulos de bajulação nem a poupar alguém que corrompa o evangelho. Caso agisse assim, meu Criador logo me retiraria.”

5. Procurarei ser tão breve quanto possível nesse assunto.

Mencionarei somente dois ou três homens conhecidos que procuraram, segundo Wesley, enfraquecer o próprio fundamento de nossa Igreja ao atacarem sua doutrina fundamental e, na realidade, a doutrina fundamental de todas as Igrejas da Reforma: a justificação somente pela fé.

Um deles, que ocupou uma das posições mais elevadas de nossa Igreja, escreveu e publicou, antes de morrer, diversos sermões para demonstrar expressamente que não somente a fé, mas também as boas obras são necessárias para a justificação.

A tarefa desagradável de citar passagens específicas é substituída pelo próprio título: A Necessidade da Regeneração — que ele demonstra amplamente incluir santidade tanto do coração quanto da vida — para a Justificação.

6. Talvez pareça estranho que um anjo da Igreja de Deus — como o grande Pastor chama seus supervisores —, pessoa tão respeitada tanto em nossa nação quanto em muitas outras, fale dessa maneira calma e deliberada.

O que ele representa, porém, quando comparado ao grande bispo Bull?

Quem conseguirá permanecer em pé caso esse eminente estudioso, cristão e bispo tenha escrito e publicado durante a juventude e defendido durante a maturidade as seguintes proposições?

“Diz-se que a pessoa é justificada pelas obras porque as boas obras constituem condição estabelecida, conforme a determinação divina, na aliança do evangelho, exigida e necessária à justificação da pessoa, isto é, à obtenção do perdão dos pecados por meio de Cristo.”

Pouco depois, prestes a apresentar testemunhos para demonstrar essa proposição, afirma:

“A primeira classe de testemunhos será formada por aqueles que falam das boas obras em sentido geral como condição exigida e necessária à justificação.”

Depois de citar alguns textos bíblicos, acrescenta:

“Quem não acredita que nessas passagens sejam exigidas muitas boas obras, sem as quais a pessoa fica inteiramente excluída da esperança de perdão e remissão dos pecados?”

Depois de outras considerações, acrescenta:

“Além da fé, qualquer pessoa poderá perceber que o arrependimento é exigido como necessário à justificação.

“O arrependimento não é somente uma obra, mas, por assim dizer, coleção de muitas obras. Dentro dele encontram-se:

“1. Tristeza por causa do pecado;

“2. Humilhação debaixo da mão de Deus;

“3. Ódio ao pecado;

“4. Confissão do pecado;

“5. Súplica intensa pela misericórdia divina;

“6. Amor a Deus;

“7. Abandono do pecado;

“8. Propósito firme de nova obediência;

“9. Restituição dos bens adquiridos injustamente;

“10. Perdão das ofensas praticadas contra nós;

“11. Obras de generosidade ou ofertas aos necessitados.

“A contribuição dessas coisas para a obtenção da remissão dos pecados aparece suficientemente em Daniel 4.27, onde o profeta aconselha Nabucodonosor, que naquele momento permanecia apegado aos pecados: ‘Abandone seus pecados mediante a prática da justiça e suas iniquidades mediante misericórdia para com os pobres.’”

Adam Clarke observa que o bispo traduziu o verbo hebraico como “resgatar” ou “comprar o perdão”, seguindo a Vulgata, mas seu significado literal é “romper” ou “abandonar”.

7. Para mencionar mais um aspecto: toda a liturgia da Igreja está cheia de orações pela santidade sem a qual, segundo declaram as Escrituras, ninguém verá o Senhor.

Todas elas são resumidas nestas palavras abrangentes, que supostamente repetimos com tanta frequência:

“Purifica os pensamentos de nosso coração pela inspiração de teu Espírito Santo, para que possamos amar-te perfeitamente e magnificar dignamente teu santo nome.”

É evidente que a última parte dessa oração contém toda santidade exterior. Ela não poderá ser levada a altura maior nem expressa por termos mais fortes.

As palavras “purifica os pensamentos de nosso coração” contêm o aspecto negativo da santidade interior, cuja altura e profundidade consistem na pureza do coração pela inspiração do Espírito Santo de Deus.

As palavras restantes, “para que possamos amar-te perfeitamente”, contêm o aspecto positivo da santidade, pois esse amor, que constitui o cumprimento da Lei, inclui toda a mente que houve em Cristo.

8. Como, porém, o fluxo geral de escritores e pregadores — permitam-me evitar a desagradável tarefa de mencionar pessoas específicas — concorda com essa doutrina?

Na realidade, não concorda.

Encontramos pouquíssimos que a ensinem com simplicidade e seriedade.

Muitos escrevem e pregam como se a santidade cristã ou a religião fosse coisa exclusivamente negativa; como se não amaldiçoar nem blasfemar, não mentir nem difamar, não ser dominado pela embriaguez, não roubar, não viver em imoralidade, não falar nem praticar o mal fosse religião suficiente para conceder à pessoa o direito ao céu.

Muitos, avançando um pouco além disso, descrevem a religião somente como realidade exterior, como se consistisse principalmente — caso não inteiramente — em praticar o bem, como se costuma dizer, e utilizar os meios da graça.

Caso avancem ainda um pouco mais, o que acrescentam a essa descrição tão pobre da religião?

Talvez afirmem que a pessoa precisa ser ortodoxa em suas opiniões e possuir zelo pela organização da Igreja e do Estado.

Isso é tudo. Essa é toda a religião que conseguem admitir sem que, segundo seu julgamento, se transforme em fanatismo.

Assim, aquilo que a maioria das pessoas chama de bom cristão é formado pela fé intelectual de um demônio e pela vida moral de um pagão.

9. Por que procurar testemunhas mais distantes?

Não existem aqui muitas pessoas que possuem a mesma opinião?

Não acreditam que “homem de boa moral” e “bom cristão” significam a mesma coisa?

Não acreditam que alguém não precisa preocupar-se com mais nada caso pratique tanto cristianismo quanto aquilo que estava escrito sobre o portão de determinado imperador pagão: “Trate os outros como deseja ser tratado”, especialmente caso não seja incrédulo nem herege e acredite ser verdadeiro tudo aquilo que a Bíblia e a Igreja ensinam?

10. Não desejo ser compreendido como alguém que despreza essas coisas ou atribui pequeno valor às opiniões corretas, à verdadeira moralidade ou ao zelo pela constituição recebida de nossos antepassados.

O que, porém, essas coisas representam quando permanecem sozinhas? Qual benefício oferecerão naquele Dia?

Qual será a utilidade de dizer ao Juiz de todos:

“Senhor, eu não era como as outras pessoas: não era injusto, não era adúltero, não era mentiroso nem pessoa imoral”?

Sim, que benefício existirá caso tenhamos praticado todo o bem, além de não praticar o mal; caso tenhamos distribuído todos os bens para alimentar os pobres, mas não tenhamos amor?

Como consideraremos, então, aqueles que nos ensinaram a dormir tranquilamente, embora o amor do Pai não estivesse em nós?

Ou aqueles que, ensinando-nos a procurar salvação pelas obras, impediram-nos de receber livremente aquela fé mediante a qual o amor de Deus poderia ser derramado em nosso coração?

A esses infelizes corruptores do evangelho de Cristo e ao veneno que espalharam deve-se principalmente:

A CORRUPÇÃO DA PRÁTICA

A corrupção geral da prática, assim como da doutrina.

Dificilmente se encontra entre nós — não anunciem isso em Gate nem o proclamem nas ruas de Ascalom! — a forma ou o poder da piedade.

Assim “a cidade fiel tornou-se prostituta”.

1. Falo com tristeza no coração, e não com alegria: dificilmente se encontra entre nós até mesmo a forma da piedade.

Todos somos realmente chamados para ser santos, e o próprio nome “cristão” não significa coisa inferior a isso.

Quem, porém, possui sequer a aparência?

Escolha a primeira pessoa que encontrar; depois, a segunda, a terceira, a quarta ou a vigésima.

Nenhuma delas possui aparência maior de santo do que de anjo.

Observe seu olhar, seu comportamento e seus gestos! Tudo neles respira somente Deus? Demonstram ser templo do Espírito Santo?

Observe sua conversa, não somente durante uma hora, mas dia após dia.

Conseguirá concluir, por algum sinal exterior, que Deus habita no coração daquela pessoa; que ela é espírito eterno caminhando para Deus?

Imaginaria que o sangue de Cristo foi derramado por aquela alma e comprou para ela salvação eterna; e que Deus atualmente espera que ela desenvolva essa salvação com temor e tremor?

2. Alguém poderá dizer: “Qual é a importância da forma da piedade?”

Respondemos prontamente: nenhuma, quando está sozinha.

A ausência da forma, porém, possui grande importância, pois demonstra infalivelmente a ausência do poder.

Embora a forma possa existir sem o poder, o poder não poderá existir sem a forma.

Religião exterior poderá existir onde a interior não existe. Caso, porém, não exista religião exterior, também não poderá existir religião interior.

3. Talvez se diga: “Temos orações públicas pela manhã e à noite em todos os nossos colégios.”

É verdade. Seria desejável que todos os seus membros, especialmente os mais antigos e aqueles que possuem posição e reputação, mediante participação constante demonstrassem como reconhecem o valor desse privilégio.

Todos os que participam, porém, possuem a forma da piedade?

Antes do início daqueles discursos solenes dirigidos a Deus, o comportamento de todos os presentes demonstra que sabem diante de quem permanecem?

Qual impressão parece ficar na mente quando os santos ofícios terminam?

Mesmo durante sua realização, poderemos concluir razoavelmente, observando o comportamento exterior, que o coração está seriamente fixado naquele que permanece no meio deles?

Temo profundamente que, caso pagão que não compreendesse nossa língua entrasse numa dessas reuniões, dificilmente suspeitaria que estivéssemos derramando o coração diante da Majestade do céu e da terra.

O que diremos, então, caso Deus realmente não possa ser tratado com desprezo, além de: “Aquilo que a pessoa semear, isso também colherá”?

4. “Nos domingos, porém”, dizem alguns, “não se poderá negar que possuímos a forma da piedade, pois existem sermões pela manhã e à tarde, além dos cultos matutino e vespertino.”

Santificamos, porém, o restante do Dia do Senhor?

Não existem visitas desnecessárias, conversas superficiais ou palavras inúteis?

Você mesmo não realiza trabalho desnecessário nem permite que pessoas debaixo de sua autoridade violem nesse aspecto as leis de Deus e das pessoas?

Caso faça isso, nem mesmo aqui possui motivo para orgulhar-se. Também nessa questão permanece culpado diante de Deus.

5. Caso possuamos a forma da piedade num dia da semana, não existe nos demais exatamente o contrário?

As melhores horas de conversa não são gastas em palavras insensatas e brincadeiras impróprias, ou até em conversas indecentes que ouvidos modestos não poderiam suportar?

Não existem muitos entre nós que comem e bebem com aqueles que vivem na embriaguez?

Caso isso aconteça, como poderíamos surpreender-nos quando nossa profanação sobe aos céus e nossos juramentos e maldições chegam aos ouvidos do Senhor dos Exércitos?

6. Mesmo as horas destinadas ao estudo são geralmente utilizadas para finalidade melhor?

Não quando são empregadas, como acontece frequentemente, na leitura de peças teatrais, romances ou histórias inúteis, que naturalmente aumentam nossa corrupção interior e tornam a fornalha dos desejos profanos sete vezes mais quente.

Pouco melhor é a ociosidade trabalhosa daqueles que passam dia após dia em jogos e diversões, desperdiçando vergonhosamente tempo cujo valor somente compreenderão depois de atravessarem para a eternidade.

7. Vocês que são chamados pessoas de boa moral não conhecem nem mesmo esta verdade: toda ociosidade é imoralidade?

Não existe desonestidade mais grosseira do que a preguiça.

Toda pessoa que voluntariamente permanece ignorante age desonestamente. Defrauda seus benfeitores, seus pais e o mundo e rouba tanto a Deus quanto a própria alma.

Quantas pessoas assim existem entre nós!

Quantas pessoas preguiçosas, como se tivessem nascido exclusivamente para consumir os frutos da terra!

Quantas possuem ignorância que não procede da incapacidade, mas unicamente da preguiça!

Entre o grande número daqueles que possuem condições para isso, como são poucos — permitam que até pessoa como eu mencione esse ponto delicado — os verdadeiramente instruídos!

Sem mencionar as outras línguas orientais, quem poderá afirmar que compreende hebraico? Não poderia acrescentar até mesmo o grego?

Talvez ainda recordemos pequena parte de Homero ou Xenofonte. Como são poucos, porém, os capazes de ler e compreender com facilidade uma única página de Clemente de Alexandria, Crisóstomo ou Efrém, o Sírio!

Quanto à filosofia — sem mencionar a matemática ou seus ramos mais complexos —, como são poucos os que colocaram o fundamento, que dominam até mesmo a lógica e compreendem plenamente as regras do silogismo, seus modos e figuras!

O que é mais raro do que o conhecimento, além da religião?

8. Na realidade, o verdadeiro conhecimento raramente será encontrado sem a religião.

A experiência demonstra que objetivos meramente temporais raramente são suficientes para conduzir alguém através do trabalho necessário para tornar-se estudioso completo.

Poderemos esconder o fato de que frequentemente existe deficiência naqueles aos quais o cuidado dos jovens é confiado?

A seguinte orientação solene dos estatutos recebe consideração suficiente?

“Que o tutor instrua diligentemente os estudantes confiados aos seus cuidados numa moralidade rigorosa e, especialmente, nos primeiros princípios da religião e nos artigos da doutrina.”

Aqueles que receberam essa importante responsabilidade trabalham diligentemente para colocar esse bom fundamento?

Fixam os verdadeiros princípios da religião na mente dos jovens confiados a eles mediante suas aulas?

Recomendam a prática desses princípios pela influência poderosa e agradável do próprio exemplo?

Fortalecem isso mediante conselhos particulares frequentes e intensos?

Observam o progresso e investigam cuidadosamente o comportamento de cada um?

Resumindo: cuidam da alma deles como pessoas que precisarão prestar contas?

9. Permitam-me, já que comecei a falar sobre esse assunto, avançar um pouco mais.

Existe cuidado suficiente para que conheçam e observem os estatutos que todos nos comprometemos a cumprir?

Como, então, são violados tão abertamente todos os dias?

Mencionarei somente alguns exemplos:

Quanto aos cultos e à pregação, determina-se:

“Todos deverão participar publicamente. Graduados e estudantes comparecerão pontualmente e permanecerão até que tudo termine, com a devida reverência, desde o princípio até o fim.”

Também se determina:

“Os estudantes de todas as classes deverão afastar-se de toda espécie de jogo no qual se aposte dinheiro, como cartas, dados e jogos de bolas. Também não deverão estar presentes em jogos públicos dessa espécie.”

Determina-se:

“Todos — exceto os filhos da nobreza — deverão acostumar-se a roupas pretas ou escuras e permanecer o mais distante possível da ostentação e da extravagância.”

Determina-se ainda:

“Os estudantes de todas as classes deverão afastar-se de cervejarias, hospedarias, tavernas e de todos os lugares da cidade onde vinho ou qualquer outra bebida alcoólica seja normalmente vendido.”

10. Talvez alguém responda: “Essas são coisas pequenas.”

Não! O perjúrio não é coisa pequena. Consequentemente, não é pequena a violação intencional de qualquer regra que juramos solenemente observar.

Certamente, aqueles que falam assim se esqueceram destas palavras:

“Você empenhará sua fé para observar todos os estatutos desta Universidade. Assim Deus o ajude e os santos Evangelhos inspirados de Cristo!”

11. Esse juramento recebe consideração suficiente daqueles que o fazem? Ou algum dos juramentos determinados pela autoridade pública?

Esse ato solene de religião — chamar Deus como testemunha sobre nossa alma — não é geralmente tratado como coisa insignificante?

Isso não acontece especialmente com aqueles que juram pelo Deus vivo que “nem pedidos nem recompensas, nem ódio nem amizade, nem esperança nem medo os levarão a testemunhar em favor de pessoa indigna”?

E com aqueles que juram:

“Sei que esta pessoa é apropriada e qualificada, em moralidade e conhecimento, para receber o elevado título ao qual está sendo apresentada”?

12. Ainda existe mais uma questão.

Todos nós testemunhamos diante de Deus que todos os Artigos de nossa Igreja, assim como o Livro de Oração Comum e a ordenação de bispos, presbíteros e diáconos, estão de acordo com a Palavra de Deus.

Ao fazermos isso, também testemunhamos que o Primeiro e o Segundo Livro de Homilias contêm doutrina piedosa e saudável.

Com base em quais provas muitos de nós declararam isso? Não afirmamos aquilo que não conhecíamos?

Caso tenha sido assim, por mais verdadeiras que essas coisas sejam, tornamo-nos testemunhas falsas diante de Deus.

A maioria de nós alguma vez utilizou algum meio para saber se essas coisas são realmente verdadeiras?

Alguma vez consideramos seriamente, durante uma única hora, os Artigos que assinamos?

Caso não, como frustramos vergonhosamente o propósito daqueles que os organizaram “para remover diferenças de opinião e estabelecer unidade na verdadeira religião”!

13. Metade de nós leu inteiramente o Livro de Oração Comum e o livro da ordenação de bispos, presbíteros e diáconos?

Caso não, o que confirmamos de maneira tão solene?

Falando claramente: não sabemos.

Quanto aos dois Livros de Homilias, já seria alguma coisa caso a décima parte daqueles que os assinaram — não digo que os tenham considerado antes de fazê-lo — pelo menos os tivesse lido inteiramente até hoje.

Meus irmãos, como harmonizaremos essas coisas até mesmo com a honestidade comum ou com a simples moralidade pagã?

Como estão distantes até mesmo da forma da piedade cristã aqueles que praticam essas coisas e talvez ainda as defendam!

14. Deixando de lado todas essas questões, onde está o poder?

Quem são suas testemunhas vivas?

Quem entre nós — que Deus testemunhe ao nosso coração — conhece por experiência o poder da santidade interior?

Quem sente dentro de si a operação do Espírito de Cristo, elevando a mente para as coisas superiores e celestiais?

Quem poderá testemunhar:

“Deus purificou os pensamentos de meu coração pela inspiração de seu Espírito Santo”?

Quem conhece a paz de Deus que excede todo entendimento?

Quem se alegra com alegria indescritível e cheia de glória?

Quem coloca os afetos nas coisas do alto, e não nas coisas da terra?

A vida de quem está escondida com Cristo em Deus?

Quem poderá declarar:

“Fui crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”?

No coração de quem o amor de Deus foi derramado pelo Espírito Santo que lhe foi concedido?

15. A própria ideia dessa religião não está quase perdida?

Não existe profunda e transbordante ignorância a respeito dela?

Mais ainda: ela não é completamente desprezada? Não é considerada sem valor e pisada?

Caso alguém testemunhasse essas coisas diante de Deus, não seria considerado desequilibrado e fanático?

Ao falar dessa maneira, não pareço estrangeiro para vocês?

Meus irmãos, meu coração sofre por vocês!

Quem dera finalmente percebessem e compreendessem que estas são palavras de verdade e equilíbrio!

Quem dera conhecessem, pelo menos neste dia, as coisas que conduzem à paz!

16. Hoje fui mensageiro de notícias pesadas.

O amor de Cristo, porém, me constrange.

A tarefa foi menos dolorosa para mim porque era necessária para a segurança de vocês.

Não desejo acusar os filhos de meu povo. Por isso, também não falo dessa maneira aos ouvidos daqueles que se assentam sobre os muros como simples espectadores.

Procuro falar a verdade em amor diretamente a vocês, como ministro fiel de Jesus Cristo.

Atualmente, posso chamar vocês como testemunhas de que estou livre do sangue de todos, pois não deixei de lhes anunciar todo o conselho de Deus.

17. Que o Deus de toda graça, paciente e cheio de misericórdia, grave essas coisas no coração de vocês e regue a semente que ele mesmo semeou com o orvalho do céu!

Que corrija tudo aquilo que enxergar de errado em nós!

Que complete tudo aquilo que estiver faltando!

Que aperfeiçoe aquilo que está de acordo com sua vontade!

Que nos estabeleça, fortaleça e firme de tal modo que este lugar volte a ser cidade fiel ao seu Senhor e, sim, louvor de toda a terra!

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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