Cartas · 1749–1791
“Se ainda não podemos, em tudo, pensar do mesmo modo, ao menos podemos amar do mesmo modo.”
Da Carta a um Católico Romano, 1749
Wesley foi um dos maiores correspondentes do seu tempo: escreveu milhares de cartas — de doutrina, de conselho, de repreensão e de consolo — a pregadores, a mulheres das sociedades, a amigos e a adversários. Reunimos aqui três das mais marcantes, cada uma abrindo uma janela para um lado do seu coração: o pastor que ama através das divisões, o mestre que forma obreiros e o profeta que se levanta contra a injustiça.
A primeira, escrita em Dublin em 1749, é o seu apelo sereno a um católico romano: em vez de guerra de opiniões, um chamado ao amor entre cristãos separados. Um cuidado ao lê-la: o “espírito universal” de Wesley não é indiferença à verdade nem universalismo. Na própria carta ele professa a fé cristã inteira e afirma que a salvação é recebida pela fé; amar quem pensa diferente não é dizer que todos serão salvos. A segunda, ao jovem pregador John Trembath, é um puxão de orelha afetuoso sobre o estudo, a oração e a seriedade no ministério — palavra ainda hoje necessária a quem prega. A terceira é a última carta que Wesley ditou, poucos dias antes de morrer, encorajando o jovem William Wilberforce na luta contra o tráfico de escravos.
São cartas curtas, diretas e cheias de vida. Leia-as como quem ouve, por cima do ombro dos destinatários, a voz de um pai na fé.
— Bispo Ildo Mello
1. Você já ouviu dez mil histórias a respeito de nós, os que comumente se chamam protestantes; e, se acreditar em apenas uma delas entre mil, há de nos julgar muito duramente. Mas isso é bem contrário à regra do nosso Senhor: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Mt 7.1), e traz muitas más consequências, particularmente esta: inclina-nos a pensar com igual dureza a seu respeito. Assim, de ambos os lados, ficamos menos dispostos a ajudar-nos e mais prontos a ferir-nos. Com isso, o amor fraterno é de todo destruído; e cada lado, olhando o outro como monstro, dá lugar à ira, ao ódio, à malícia, a toda afeição maldosa, que muitas vezes irromperam em barbaridades tão desumanas quanto mal se ouvem entre os pagãos.
2. Ora, nada se poderá fazer — mesmo que ambos os lados conservem as suas próprias opiniões — para abrandar o nosso coração um para com o outro, pôr freio a essa enxurrada de má vontade e restaurar ao menos algum pequeno grau de amor entre vizinhos e compatriotas? Você não deseja isso? Não está plenamente convencido de que a malícia, o ódio, a vingança e a amargura, seja em nós, seja em você, no nosso coração ou no seu, são abomináveis ao Senhor? Estejam certas ou erradas as nossas opiniões, essas disposições são inegavelmente erradas. São a estrada larga que leva à perdição, ao mais fundo inferno.
3. Não suponho que toda a amargura esteja do seu lado. Sei que há demais também do nosso — tanto que temo que muitos protestantes (assim chamados) fiquem irados comigo por lhe escrever deste modo, e digam: “É mostrar-lhe favor demais; você não merece tal tratamento das nossas mãos.”
4. Mas eu penso que você merece. Penso que você merece o mais terno respeito que eu possa mostrar, quando não fosse senão porque o mesmo Deus levantou a você e a mim do pó da terra, e nos fez a ambos capazes de amá-lo e desfrutá-lo por toda a eternidade; quando não fosse senão porque o Filho de Deus comprou a você e a mim com o seu próprio sangue. Quanto mais, se você é pessoa que teme a Deus (como, sem dúvida, muitos de vocês são) e se esforça por ter “uma consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens” (At 24.16)!
5. Procurarei, portanto, do modo mais brando e inofensivo que puder, remover em alguma medida a raiz da sua má vontade, declarando com clareza qual é a nossa crença e qual a nossa prática, para que você veja que não somos monstros tão grandes quanto talvez nos imaginasse. Um verdadeiro protestante pode exprimir a sua fé nestas palavras, ou em outras semelhantes:
6. Assim como tenho por certo que há um Ser infinito e independente, e que é impossível haver mais de um, também creio que este único Deus é o Pai de todas as coisas, especialmente dos anjos e dos homens; que é, de modo peculiar, o Pai daqueles a quem regenera pelo seu Espírito, a quem adota no seu Filho como coerdeiros com ele, e coroa com uma herança eterna; mas, em sentido ainda mais alto, o Pai do seu único Filho, a quem gerou desde a eternidade. Creio que este Pai de todos não só é capaz de fazer tudo o que lhe apraz, mas também tem o eterno direito de criar o que, quando e como lhe apraz, e de possuir e dispor de tudo o que fez; e que, pela sua própria bondade, criou o céu e a terra e tudo o que neles há.
7. Creio que Jesus de Nazaré foi o Salvador do mundo, o Messias há tanto tempo predito; que, ungido com o Espírito Santo, foi Profeta, revelando-nos toda a vontade de Deus; que foi Sacerdote, que a si mesmo se deu em sacrifício pelo pecado e ainda intercede pelos transgressores; que é Rei, que tem todo o poder no céu e na terra, e reinará até sujeitar todas as coisas a si mesmo. Creio que ele é o próprio e natural Filho de Deus, Deus de Deus, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; e que é o Senhor de tudo, com domínio absoluto, supremo e universal sobre todas as coisas; mas, de modo mais peculiar, nosso Senhor, dos que creem nele, por conquista, por compra e por obrigação voluntária. Creio que ele se fez homem, unindo a natureza humana à divina numa só pessoa, sendo concebido pela singular operação do Espírito Santo e nascido da bem-aventurada virgem Maria. Creio que ele sofreu dores inexprimíveis, tanto de corpo quanto de alma, e, por fim, a morte, a própria morte de cruz, no tempo em que Pôncio Pilatos governava a Judeia sob o imperador romano; que o seu corpo foi então posto na sepultura, e a sua alma foi ao lugar dos espíritos separados; que ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos; que subiu ao céu, onde permanece no meio do trono de Deus, no mais alto poder e glória, como Mediador até o fim do mundo, e como Deus por toda a eternidade; e que, no fim, descerá do céu para julgar cada homem segundo as suas obras, tanto os que então estiverem vivos quanto todos os que morreram antes daquele dia.
8. Creio que o infinito e eterno Espírito de Deus, igual ao Pai e ao Filho, não só é perfeitamente santo em si mesmo, mas também a causa imediata de toda santidade em nós: iluminando o nosso entendimento, retificando a nossa vontade e os nossos afetos, renovando a nossa natureza, unindo a nossa pessoa a Cristo, assegurando-nos a adoção de filhos, guiando as nossas ações, purificando e santificando a nossa alma e o nosso corpo, para um pleno e eterno gozo de Deus.
9. Creio que Cristo, por meio dos seus apóstolos, reuniu para si uma Igreja, à qual continuamente acrescenta os que hão de ser salvos; que esta Igreja católica (isto é, universal), estendendo-se a todas as nações e a todas as eras, é santa em todos os seus membros, que têm comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo; que eles têm comunhão com os santos anjos, que constantemente servem a estes herdeiros da salvação, e com todos os membros vivos de Cristo na terra, bem como com todos os que partiram na sua fé e no seu temor.
10. Creio que Deus perdoa todos os pecados dos que verdadeiramente se arrependem e creem sem fingimento no seu santo evangelho; e que, no último dia, todos os homens ressuscitarão, cada um com o seu próprio corpo. Creio que, assim como os injustos, após a sua ressurreição, serão atormentados no inferno para sempre, os justos gozarão de inconcebível felicidade na presença de Deus por toda a eternidade.
11. Ora, há algo de errado nisto? Há um só ponto que você não creia tanto quanto nós? Mas você pensa que devíamos crer mais. Não entraremos agora nessa disputa. Só me deixe perguntar: se um homem crê sinceramente em tudo isto, e vive de acordo, poderá alguém convencê-lo de que tal homem há de perecer para sempre?
12. “Mas ele vive de acordo?” Se não vive, concedemos que toda a sua fé não o salvará. E isto me leva a mostrar-lhe, em poucas e claras palavras, qual é a prática de um verdadeiro protestante. Digo, um verdadeiro protestante; pois renego todos os que juram à toa, os profanadores do dia do Senhor, os bêbados; todos os devassos, mentirosos, trapaceiros e extorsionários; numa palavra, todos os que vivem em pecado aberto. Estes não são protestantes; não são cristãos de modo algum. Dê-se-lhes o seu próprio nome: são pagãos declarados. São a maldição da nação, a praga da sociedade, a vergonha da humanidade, a escória da terra.
13. Um verdadeiro protestante crê em Deus, tem plena confiança na sua misericórdia, teme-o com temor filial e ama-o de toda a alma. Adora a Deus em espírito e em verdade, em tudo lhe dá graças, invoca-o com o coração tanto quanto com os lábios, em todo tempo e em todo lugar, honra o seu santo nome e a sua Palavra, e o serve fielmente todos os dias da sua vida. Ora, você mesmo não aprova isto? Há um só ponto que possa condenar? Não o pratica, tanto quanto o aprova? Pode você ser feliz, se não o fizer? Meu caro amigo, considere: não estou persuadindo-o a deixar ou mudar a sua religião, mas a buscar aquele temor e amor de Deus sem os quais toda religião é vã. Não lhe digo uma palavra sobre as suas opiniões ou o seu modo exterior de culto. Mas digo: todo culto é abominação ao Senhor, a menos que você o adore em espírito e em verdade, com o coração tanto quanto com os lábios, com o seu espírito e também com o seu entendimento. Seja qual for a sua forma de culto, em tudo dê-lhe graças, do contrário tudo é trabalho perdido. Use as observâncias exteriores que quiser; mas ponha toda a sua confiança nele, honre o seu santo nome e a sua Palavra, e o sirva fielmente todos os dias da sua vida.
14. Ainda: um verdadeiro protestante ama o seu próximo — isto é, todo homem, amigo ou inimigo, bom ou mau — como a si mesmo, como ama a sua própria alma, como Cristo nos amou. E, assim como Cristo deu a vida por nós, também ele está pronto a dar a vida pelos irmãos. Mostra esse amor fazendo a todos, em tudo, o que gostaria que lhe fizessem. Ama, honra e obedece a pai e mãe, e os socorre com toda a sua força. Honra e obedece ao rei e a todos os que estão em autoridade. Submete-se de bom grado a todos os seus governantes, mestres e pastores. Não fere ninguém por palavra ou obra. É verdadeiro e justo em todos os seus negócios. Não guarda malícia nem ódio no coração. Abstém-se de toda maledicência, mentira e calúnia; nem se acha engano na sua boca. Sabendo que o seu corpo é “templo do Espírito Santo” (1Co 6.19), conserva-o em sobriedade, temperança e castidade. Não cobiça os bens alheios, mas se contenta com o que tem, trabalha para ganhar o próprio sustento e para fazer toda a vontade de Deus no estado de vida a que Deus houve por bem chamá-lo.
15. Você tem algo a reprovar nisto? Não é, nisto mesmo, tal como ele? Se não é (diga a verdade), não está condenado tanto por Deus quanto pela sua própria consciência? Pode ficar aquém de um só destes pontos sem ficar aquém de ser cristão? Venha, meu irmão, e raciocinemos juntos. Você está certo, se apenas ama o amigo e odeia o inimigo? Não fazem o mesmo até os pagãos e os publicanos? Você é chamado a amar o seu inimigo, a abençoar os que o amaldiçoam e a orar pelos que o maltratam e perseguem (Mt 5.44). Você está pronto a dar a vida pelos irmãos? E faz a todos o que gostaria que lhe fizessem? Você fala a verdade do coração a todos, e isso com ternura e amor? É um “israelita de fato, em quem não há dolo” (Jo 1.47)? Aprendeu, em todo estado em que se acha, a estar com isso contente? Trabalha para ganhar o próprio sustento, aborrecendo a ociosidade como aborrece o fogo do inferno? O diabo tenta os outros homens; mas o homem ocioso tenta o diabo. Faça o que a sua mão encontrar para fazer com toda a força, e faça tudo como para o Senhor, como sacrifício a Deus, agradável em Cristo Jesus. Esta, e só esta, é a antiga religião. Este é o cristianismo verdadeiro e primitivo. Ah, quando se espalhará ele por toda a terra? Quando se achará tanto em nós quanto em você? Sem esperar pelos outros, emende-se cada um de nós, pela graça de Deus.
16. Não estamos, pois, ao menos até aqui, de acordo? Demos graças a Deus por isto, e recebamo-lo como novo sinal do seu amor. Mas, se Deus ainda nos ama, também nós devemos amar-nos uns aos outros. Devemos, sem essa interminável briga por opiniões, “estimular-nos ao amor e às boas obras” (Hb 10.24). Fiquem de lado os pontos em que diferimos: aqui há o bastante em que concordamos — o bastante para ser o fundamento de toda disposição cristã e de toda ação cristã. Ó irmãos, não fiquemos brigando pelo caminho! Espero vê-lo no céu. E, se eu pratico a religião acima descrita, você não ousará dizer que irei para o inferno; não pode pensá-lo; a sua própria consciência lhe diz o contrário. Então, se ainda não podemos, em tudo, pensar do mesmo modo, ao menos podemos amar do mesmo modo. Nisto de modo algum podemos errar. Pois de um ponto ninguém pode duvidar um só momento: “Deus é amor; e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1Jo 4.16).
17. Em nome de Deus, pois, e na sua força, resolvamos, primeiro, não nos ferir um ao outro, não fazer nada de maldoso ou hostil um contra o outro, nada que não quiséssemos que nos fizessem; antes, esforcemo-nos por toda mostra de um comportamento bondoso, amigo e cristão um para com o outro. Resolvamos, segundo, com a ajuda de Deus, não falar nada de áspero ou maldoso um do outro. O modo seguro de evitá-lo é dizer todo o bem que pudermos, tanto um do outro quanto um ao outro; em toda a nossa conversa, usar apenas a linguagem do amor, falando com toda a doçura e ternura. Resolvamos, terceiro, não acolher nenhum pensamento maldoso, nenhuma disposição hostil, um para com o outro. Ponhamos “o machado à raiz da árvore” (Mt 3.10); examinemos tudo o que se levanta no coração e não deixemos ali disposição alguma contrária à terna afeição. Resolvamos, quarto, ajudar-nos um ao outro em tudo o que, de comum acordo, conduz ao reino. Tanto quanto pudermos, alegremo-nos sempre de fortalecer as mãos um do outro em Deus. Acima de tudo, cuide cada um de si mesmo (pois cada um há de dar conta de si a Deus), para que não fique aquém da religião do amor, para que não seja condenado naquilo mesmo que aprova. Ó, prossigamos você e eu (façam os outros o que fizerem) “para o prêmio da nossa soberana vocação” (Fp 3.14)! Para que, “justificados pela fé, tenhamos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1), e nos gloriemos em Deus por Jesus Cristo, por quem recebemos a reconciliação; para que “o amor de Deus se derrame em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5). Tenhamos tudo por perda “pela sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, nosso Senhor” (Fp 3.8), prontos a, por amor dele, sofrer a perda de todas as coisas, tendo-as por escória, para ganharmos a Cristo.
Sou o seu afeiçoado servo, por amor de Cristo.
O que muito o prejudicou no passado — e, receio, até hoje — é a falta de leitura. Raramente conheci um pregador que lesse tão pouco. E talvez, por descuidá-la, você tenha perdido o gosto por ela. Daí o seu talento na pregação não aumentar: está igual ao que era há sete anos. É vivo, mas não profundo; há pouca variedade, não há amplitude de pensamento. Só a leitura pode suprir isso, junto com a meditação e a oração diária. Você faz grande mal a si mesmo ao omiti-la. Nunca poderá ser um pregador profundo sem ela, tampouco um cristão inteiro.
Ah, comece! Reserve alguma parte de cada dia para os exercícios particulares. Você pode adquirir o gosto que ainda não tem: o que a princípio é enfadonho depois se torna agradável. Goste ou não, leia e ore diariamente. É pela sua vida; não há outro caminho; do contrário, será um homem fútil todos os seus dias, e um pregador raso e superficial. Faça justiça à sua própria alma; dê-lhe tempo e meios para crescer. Não a deixe passar fome por mais tempo. Tome a sua cruz e seja cristão por inteiro.
— John Wesley
Prezado senhor,
A menos que o poder divino o tenha levantado para ser como Atanásio contra o mundo, não vejo como poderá levar a cabo a sua gloriosa empresa de opor-se àquela execrável vilania que é o escândalo da religião, da Inglaterra e da natureza humana. A menos que Deus o tenha suscitado para esta mesma coisa, você será desgastado pela oposição de homens e demônios. Mas, “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31). Serão todos eles juntos mais fortes do que Deus? Ah, não se canse de fazer o bem! Prossiga, em nome de Deus e no poder da sua força, até que mesmo a escravidão americana (a mais vil que já viu o sol) desapareça diante dele.
Lendo esta manhã um folheto escrito por um pobre africano, fiquei particularmente impressionado com esta circunstância: que um homem de pele negra, ofendido ou ultrajado por um branco, não pode obter reparação alguma, sendo uma “lei”, nas nossas colônias, que o juramento de um negro contra um branco não vale nada. Que vilania é esta!
Que aquele que o guiou desde a juventude continue a fortalecê-lo nisto e em todas as coisas — é a oração de, prezado senhor, o seu afeiçoado servo,
John Wesley
Traduções para o português a partir dos textos em domínio público de John Wesley: a Carta a um Católico Romano (1749) e a Carta a William Wilberforce (1791) na íntegra; a carta a John Trembath (1760) em trecho. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.