Cartas pastorais · 1780–1781

Cartas Pastorais de Wesley

“Enquanto tendes a luz, andai na luz — e ela crescerá continuamente.”

Da carta a Ann Loxdale, 1781

Antes de ler

Ao lado das grandes cartas públicas, Wesley foi, por décadas, um paciente diretor espiritual pela pena. Escreveu milhares de cartas de aconselhamento e consolo — muitas a mulheres das sociedades metodistas —, acompanhando de perto a caminhada de cada alma rumo ao amor perfeito. São textos breves, íntimos e cheios de ternura, em que o pregador dos estádios lotados aparece como um pai atento a um só coração.

Reunimos aqui quatro cartas do fim da sua vida (1780–1781). Numa, ele examina com uma irmã os recantos do coração, à procura de qualquer resíduo de orgulho, ira ou vontade própria. Noutra, alegra-se por Deus ter firmado uma jovem no seu puro amor. Numa terceira, exorta a não parar, mas a “avançar para o alvo”, andando na luz sem se conformar ao juízo do mundo. E, na última, une a piedade prática à missão: leitura, oração, ar livre e a visita aos pobres. Em todas, a mesma convicção wesleyana: a graça de Deus quer encher o coração e governar toda a vida.

— Bispo Ildo Mello

A uma irmã, sobre o exame do coração

A Sarah Crosby · Newcastle, maio de 1780

Minha querida irmã, antes mesmo que você o mencionasse, já era este o meu propósito: não deixar ninguém saber que você me escreve. Por isso, transcrevo o que quero guardar e queimo os originais. Nem o testemunho deve suprimir os frutos, nem os frutos, o testemunho do Espírito. Falem os outros o que falarem, a palavra do Senhor há de permanecer.

Creio que passar um pouco de tempo naquele lugar pode ser útil; provavelmente removerá o preconceito daquela gente contra a perfeição cristã. Quanto à nossa amiga, se quiserem casá-la, penso que nem você nem eu havemos de favorecer isso: ela é bem mais feliz permanecendo livre.

Você percebe em si alguma tendência ao orgulho? Sente algo parecido com a ira? A sua mente nunca se perturba, nunca se desafina? Nunca sente algum desejo inútil — algum desejo de prazer, de comodidade, de aprovação, ou de aumentar a fortuna? Não acha em si nenhuma teimosia, preguiça ou vontade própria, nenhuma incredulidade? Sem dúvida, quanto mais livremente você me falar, melhor. O que me disse na sua última carta foi proveitoso. É de grande utilidade ter a mente despertada pela lembrança, mesmo daquilo que já sabemos.

Falo muito pouco de mim mesmo a quem quer que seja, quando não fosse senão por receio de prejudicar as pessoas. Achei pouquíssimos que o pudessem suportar; por isso sou obrigado a reprimir a minha natural franqueza. Quase não sinto tentação de coisa alguma no mundo; o meu perigo vem das pessoas.

Ah, quem me dera um coração para louvar o meu Deus,
um coração do pecado liberto!

Querida Sally, adeus.

— John Wesley

A uma jovem firmada no amor de Deus

A Ann Bolton (“Nancy”) · Epworth, 22 de junho de 1780

Minha querida Nancy, as suas cartas são sempre bem-vindas para mim; mas nenhuma tão bem-vinda quanto a última. Dá-me imenso prazer ouvir que Deus a livrou daquela dor torturante e que estabeleceu a sua alma no seu puro amor, dando-lhe o testemunho permanente disso. Receio que você não tenha, no circuito de Oxford, muitas pessoas com quem possa conversar sobre esse assunto. Creio que as duas que têm a mesma experiência profunda são Hannah Ball (de High Wycombe) e Patty Chapman. Gostaria que você pudesse conversar com elas, por escrito ou de viva voz; penso que uma poderia aproveitar da outra.

Tenho andado um pouco inquieto desde que a vi, com receio de que lhe falte alguma coisa. Se você me esconde alguma dificuldade em que se encontra, não me trata como seu amigo. Não quer me dar toda a alegria que puder? Não sei dizer quão indizivelmente cara você é para mim, minha querida Nancy.

Sou, com todo o afeto, o seu — John Wesley

Avança para o alvo

A Ann Loxdale · Sheffield, 15 de agosto de 1781

Minha querida srta. Loxdale, a sua carta me deu muita satisfação. Àquilo que você já alcançou, apegue-se firme, e “avance para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.14). Não vejo razão para duvidar de que você já provou o puro amor de Deus. Mas parece ser ainda apenas uma criança nesse estado, e por isso precisa avançar continuamente. É fazendo e sofrendo toda a vontade do nosso Senhor que crescemos naquele que é a nossa Cabeça; e, se você escutar com diligência a sua voz, ele lhe mostrará o caminho por onde deve ir.

Mas precisa ser extremamente fiel à luz que ele lhe dá. “Enquanto tendes a luz, andai na luz” (Jo 12.35), e ela crescerá continuamente. Não dê atenção ao juízo do mundo, nem mesmo dos que se chamam “o mundo religioso”. Você não deve conformar-se ao juízo dos outros, mas seguir a sua própria luz — aquela que o bendito Espírito lhe dá de tempos em tempos, que é verdade e não mentira. Que ele guie você e sua irmã a toda a verdade e a toda a santidade, é a oração de, minha querida srta. Loxdale, a sua muito afeiçoada.

— John Wesley

Piedade e serviço aos pobres

A Elizabeth Morgan · Bristol, 13 de março de 1781

Minha querida srta. Morgan, eu me admiro de você; surpreende-me a sua firmeza. Como é possível que conserve algum apreço por mim, quando o seu lugar tantas vezes está no meio dos que pensam prestar serviço a Deus dizendo todo tipo de mal a meu respeito? Não atribuo isso a uma generosidade natural (pouco bem se deve à natureza), mas à graça daquele que a guardou desde a infância e que agora a sustém nos caminhos escorregadios da juventude. Confio que ele ainda a capacitará a ser, contra o exemplo dos demais, singularmente boa.

Por uma prudente combinação de leitura, meditação, oração e conversa, você pode aproveitar bem o seu presente retiro. Mas acrescente, cada dia, um pouco de exercício ao ar livre, conforme as forças permitirem. E por que não acrescentar também aquela diversão verdadeiramente cristã que é visitar os pobres, doentes ou sãos? Quem sabe se o nosso Senhor não a enviou a Wotton com o propósito de salvar algumas almas?

Uma carta que recebi há pouco de Yorkshire me informa: “Os nossos amigos acham que a srta. Ritchie está à morte.” Se ela continuar assim até eu chegar a Manchester, farei um desvio para vê-la. Nunca acharia grande coisa percorrer cem milhas para ver você ou ela. Uma linha sua sempre será bem recebida por, minha querida srta. Morgan, o seu afeiçoado servo.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1780–1781. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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