Cartas doutrinárias · 1782–1785
“Que é a religião? É a felicidade em Deus… um coração e uma vida devotados a Deus.”
Da carta ao seu sobrinho Charles, 1784
Nem toda carta de Wesley era de consolo: muitas foram escritas para firmar a doutrina e responder a controvérsias. Reunimos aqui três em que ele expõe, com franqueza, o essencial do que cria. Numa, insiste na doutrina que chamava de “o testemunho próprio do metodismo”: a perfeição cristã, recebida agora e pela simples fé. Noutra, distingue a verdadeira religião — o coração devotado a Deus — das meras opiniões e formas de culto. Na terceira, explica por que, até o fim, recusou separar os metodistas da Igreja da Inglaterra.
Um cuidado ao ler a carta ao sobrinho: escrita quando um jovem da família se tornou católico romano, ela tem um tom polêmico que soa forte a ouvidos de hoje. Não a confunda com a irênica Carta a um Católico Romano (nas cartas marcantes): ali Wesley ama a pessoa através das diferenças; aqui ele rejeita o que tinha por erros de doutrina e de culto. As duas coisas convivem nele. E note que a lâmina não corta só para um lado: Wesley volta a mesma pergunta contra os parentes protestantes — “deram vocês a Deus o coração?”. O ponto não é sectário, e sim o de sempre: sem o novo nascimento e a santidade, nenhuma religião, seja qual for o rótulo, salva.
— Bispo Ildo Mello
Minha querida Betsy, de vários dos nossos irmãos, em diversas partes da Inglaterra e da Irlanda, recebo relatos muito animadores das incomuns bênçãos que muitos receberam ao renovar a sua aliança com Deus. Alegro-me de saber que vocês, em Otley, também tiveram a sua parte.
Aquele ponto — a inteira salvação do pecado que nos é inato — quase nunca pode ser insistido, seja na pregação, seja na oração, sem uma bênção especial. Quando houver oportunidade, gostaria que você encorajasse os nossos pregadores: primeiro, a pregar a perfeição cristã de modo constante, forte e explícito; segundo, a afirmar e provar com clareza que ela pode ser recebida agora; e, terceiro (o que já está implícito nisso), que é recebida pela simples fé.
Em todo estado de alma — na convicção, na justificação ou na santificação — creio que toda pessoa pode ou retroceder sensivelmente, ou parecer parar, ou avançar. Inclino-me a pensar que todas as pessoas que você menciona foram plenamente santificadas; mas algumas, vigiando em oração, avançaram “de fé em fé”, enquanto outras, menos vigilantes, pareciam parar, mas na verdade retrocediam sem o perceber. Desejando que todos vocês cresçam com o crescimento que vem de Deus, sou, sempre, seu.
— John Wesley
Caro Charles, não duvido de que tanto Sarah quanto você estejam aflitos porque Samuel “mudou de religião”. Não; ele mudou de opiniões e de modo de culto. Mas isso não é religião; é coisa bem diversa. “Então”, você poderá perguntar, “ele não sofreu perda alguma com a mudança?” Sofreu, sim — perda indizível; pois a sua nova opinião e o seu novo modo de culto são de tal forma desfavoráveis à religião que a tornam, se não impossível para quem um dia conheceu coisa melhor, ao menos extremamente difícil.
“Que é, então, a religião?” É a felicidade em Deus, ou no conhecimento e no amor de Deus. É “a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6), produzindo “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Por outras palavras, é um coração e uma vida devotados a Deus; é a comunhão com Deus, o Pai e o Filho; é “a mente que houve em Cristo Jesus” (Fp 2.5), capacitando-nos a andar como ele andou. Ora, ou ele tem essa religião, ou não a tem. Se a tem, não perecerá no fim, apesar das opiniões absurdas e antibíblicas que abraçou e dos modos de culto supersticiosos e idólatras; mas estes são outras tantas algemas, que muito o retardarão na corrida que lhe está proposta.
Se ele não tem essa religião, se não deu a Deus o seu coração, o caso é indizivelmente pior. Duvido que algum dia a tenha, pois os seus novos amigos continuamente procurarão impedi-lo, pondo outra coisa em seu lugar, encorajando-o a repousar na forma, nas noções ou nos aspectos exteriores, sem nascer de novo, sem ter Cristo em si, a esperança da glória, sem ser renovado à imagem daquele que o criou. Este é o mal mortal. Muitas vezes lamentei que ele não tivesse aquela santidade “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Mas, ainda que não a tivesse, nas suas horas de reflexão serena ele não esperava ir ao céu sem ela; agora, porém, ensinar-lhe-ão que, tendo apenas a fé correta — isto é, certas noções — e acrescentando-lhe certos ritos exteriores, ele está seguro: quando muito, poderá rolar alguns anos no fogo do purgatório, mas por fim há de chegar ao céu!
Portanto, você e a minha querida Sarah têm boa razão para chorar por ele. Mas não têm também razão para chorar por vocês mesmos? Pois deram vocês a Deus o coração? São santos de coração? Têm em vocês o reino de Deus — “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”, a única religião verdadeira debaixo do céu? Ah, clamem Àquele que é poderoso para salvar por esta “única coisa necessária” (Lc 10.42)! Usem, com fervor e diligência, todos os meios que Deus pôs abundantemente em suas mãos! De outro modo, eu não me admiraria nem um pouco se Deus permitisse que vocês também fossem entregues a um forte engano. Mas, quer o sejam, quer não, quer sejam protestantes, quer papistas, nem você nem ele jamais poderão entrar na glória, a menos que sejam agora purificados “de toda impureza da carne e do espírito”, aperfeiçoando “a santidade no temor de Deus” (2Co 7.1). Sou, caro Charles, o seu afeiçoado tio.
— John Wesley
Caro irmão, vou dizer-lhe o que penso com toda a simplicidade, e aguardo melhor esclarecimento. Se você concordar comigo, ótimo; se não, podemos (como dizia o sr. Whitefield) “concordar em discordar”.
Por estes quarenta anos, tenho estado em dúvida quanto àquela questão: que obediência se deve a “sacerdotes pagãos e prelados incrédulos”? De tempos em tempos, propus as minhas dúvidas aos clérigos mais piedosos e sensatos que conheci; mas não me deram satisfação — antes, pareciam tão perplexos quanto eu. Sempre prestei alguma obediência aos bispos, em obediência às leis do país; mas não vejo que esteja obrigado a obedecer-lhes além do que essas leis exigem. Foi em obediência a essas leis que nunca exerci, na Inglaterra, o poder que creio que Deus me deu. Creio firmemente que sou tão bispo, no sentido bíblico, quanto qualquer homem na Inglaterra ou na Europa; pois a “sucessão apostólica ininterrupta” sei que é uma fábula, que homem algum jamais provou nem pode provar. Mas isso de modo algum me impede de permanecer na Igreja da Inglaterra, da qual não tenho mais desejo de separar-me do que tinha há cinquenta anos. Continuo a participar de todas as ordenanças da Igreja em toda oportunidade, e desejo, constante e ardentemente, que todos os que estão ligados a mim façam o mesmo.
Mas aqui surge outra questão: “Que é a Igreja da Inglaterra?” Não é “todo o povo da Inglaterra” — papistas e dissidentes não fazem parte dela. Segundo o nosso Vigésimo Artigo, uma igreja particular é “uma congregação de fiéis” (coetus credentium, nas palavras da nossa edição latina), “entre os quais se prega a palavra de Deus e se administram devidamente os sacramentos”. Eis uma verdadeira definição, contendo tanto a essência quanto as propriedades de uma igreja. Que é, então, a Igreja da Inglaterra, segundo essa definição? São todos os crentes na Inglaterra entre os quais se prega a palavra de Deus e se administram devidamente os sacramentos.
Todas as razões contra uma separação da Igreja, nesse sentido, eu ainda subscrevo. De que, então, você tem medo? Não me separo dela agora mais do que me separava em 1758. Submeto-me ainda, embora às vezes com a consciência em dúvida, a esses “prelados incrédulos”. Difiro deles, é verdade, em alguns pontos de doutrina e de disciplina — pregando ao ar livre, por exemplo, orando de improviso e formando sociedades —, mas nem um fio de cabelo além do que creio ser justo, reto e meu estrito dever. Ando ainda pela mesma regra que segui por quase cinquenta anos. Não faço nada precipitadamente; não é provável que o fizesse: o auge do meu sangue já passou. Se você quiser andar de mãos dadas comigo, ande; mas não me atrapalhe, se não quiser ajudar. Talvez, se você tivesse ficado bem perto de mim, eu tivesse feito melhor. Contudo, com ajuda ou sem ela, vou seguindo devagar. E, como tenho sido até aqui, assim confio que sempre serei, o seu afeiçoado amigo e irmão.
— John Wesley
Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1782–1785. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.