Contra a predestinação · 1782–1783

Cartas contra a Predestinação

“Ele morreu por todos, para salvá-los de todo pecado.”

Da carta a Richard Williams, 1783

Antes de ler

Wesley combateu a vida inteira a predestinação absoluta e incondicional — a ideia de que Deus, desde a eternidade e sem levar em conta a fé, teria escolhido uns poucos para a salvação e destinado os demais à perdição. O seu grande argumento está no tratado A Predestinação Serenamente Considerada, que também consta deste site. As três cartas reunidas aqui mostram o outro lado: não a controvérsia acadêmica, mas o modo pastoral como ele lidava com a questão no dia a dia.

Numa, responde a fiéis inquietos porque o seu pároco pregava os “Decretos Absolutos” e ridicularizava a perfeição cristã, e ensina como agir com serenidade. Noutra, resume em uma linha o ponto que jamais perdia de vista: Cristo morreu por todos. E, na terceira, aconselha os pregadores a opor-se ao calvinismo não pela polêmica, mas pela visita amorosa, de casa em casa. Note-se: Wesley resiste à doutrina, não às pessoas — manteve a amizade com calvinistas como Whitefield toda a vida. Esta é a nossa herança arminiana-wesleyana: a graça é para todos e pode ser resistida, e a eleição de Deus leva em conta a fé.

— Bispo Ildo Mello

Sobre os “Decretos Absolutos”

A um amigo (resposta à sociedade de Baildon) · Lewisham, 9 de janeiro de 1782

1. No verão passado, recebi uma carta de Yorkshire, assinada por vários homens sérios, que me expunham uma dificuldade em que se achavam e sobre a qual não sabiam como agir. E, na verdade, eu tampouco sabia bem como aconselhá-los. Por isso adiei uma resposta definitiva até poder levar o assunto aos nossos irmãos na Conferência seguinte.

2. A dificuldade era esta: “O senhor aconselha todos os membros das nossas sociedades a frequentar constantemente o culto da Igreja. Assim temos feito por bastante tempo. Mas, muito frequentemente, o sr. R., o nosso ministro, prega não só o que cremos ser falso, mas perigosamente falso: afirma e procura provar que não podemos ser salvos dos nossos pecados nesta vida, e que não devemos esperar ser aperfeiçoados no amor deste lado da eternidade. A nossa natureza está bem disposta a receber isso; por isso, tal ensino é muito capaz de nos prejudicar. Daí termos a dúvida se é nosso dever ouvir essa pregação, que a experiência mostra enfraquecer as nossas almas.”

3. Apresentei essa carta à Conferência, e logo percebemos que a dificuldade proposta dizia respeito não só à sociedade de Baildon, mas a muitas outras em diversas partes do reino. Foi, pois, considerada amplamente, e todos os nossos irmãos foram convidados a falar livremente. Na conclusão, concordaram por unanimidade: primeiro, que era altamente conveniente que todos os metodistas (assim chamados) que ali foram criados frequentassem o culto da Igreja tantas vezes quantas fosse possível; mas, segundo, que, se o ministro começasse ou a pregar os Decretos Absolutos, ou a insultar e ridicularizar a perfeição cristã, eles deveriam, quieta e silenciosamente, sair da igreja, voltando a frequentá-la na oportunidade seguinte.

4. Desde então, tenho revolvido este assunto vez após vez em minha mente; e quanto mais o considero, mais me convenço de que esta foi a melhor resposta que se podia dar. Continuo a aconselhar todos os nossos amigos, quando isso ocorrer, a sair quieta e silenciosamente. Só devo adverti-los com veemência a não ser críticos demais: não fazer de um homem um ofensor por uma palavra — não, nem por umas poucas frases, que qualquer um que creia nos decretos pode deixar escapar sem intenção. Mas, se tal ministro, em algum momento, deliberadamente e de propósito, procurar estabelecer a predestinação absoluta ou refutar a perfeição segundo as Escrituras, então aconselho todos os metodistas presentes a se retirarem em silêncio.

— John Wesley

Ele morreu por todos

A Richard Williams · Londres, 9 de novembro de 1783

Caro irmão, conheço os talentos que Deus me emprestou, e não ouso enterrar nenhum deles na terra. Sou devedor tanto aos doutos quanto aos indoutos; e, na Revista, dirijo-me a ambos — principalmente, porém, aos indoutos, por serem de longe os mais numerosos. E não perco de vista os meus pontos fundamentais: ele morreu por todos, para salvá-los de todo pecado. Sou, caro Richard, o seu afeiçoado irmão.

— John Wesley

Como opor-se ao calvinismo

A William Sagar · Londres, 12 de agosto de 1782

Meu caro irmão, certamente nada pode deter mais eficazmente a obra de Deus do que a irrupção do calvinismo entre vocês. Espero que os seus três pregadores o oponham com calma e diligência — não tanto pela pregação, porém, quanto pela visita às pessoas, de casa em casa, espalhando os pequenos tratados, por assim dizer, com ambas as mãos. Sou o seu afeiçoado irmão.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1782–1783. O tratado completo sobre o tema é A Predestinação Serenamente Considerada, também disponível neste site. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada). Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

← Voltar para Cartas de John Wesley