Cartas públicas · 1780–1784

Cartas Públicas de Wesley

“Que é a erudição, num homem que não tem religião? Como joia em focinho de porco.”

Da carta ao bispo de Londres, 1780

Antes de ler

Já idoso, Wesley não hesitava em falar com franqueza aos poderosos e sobre as grandes questões do seu tempo. Reunimos aqui três cartas dessa têmpera. Ao bispo de Londres, que se recusara a ordenar ministros piedosos para a América, ele contrapõe a piedade à mera erudição e chora pelas “ovelhas espalhadas” do outro lado do mar — foi essa recusa que acabou por levá-lo a ordenar, ele mesmo, obreiros para os Estados Unidos. Ao primeiro-ministro William Pitt, denuncia sem rodeios o custo humano do comércio de bebidas. E, aos pregadores na América, firma a doutrina e a unidade de uma igreja prestes a nascer.

A carta a Pitt é apresentada em trecho, centrada no seu argumento mais forte. A companheira mais célebre destas — a carta a William Wilberforce, contra a escravidão — está nas cartas marcantes. Em todas, o mesmo Wesley: um pastor que via o mundo inteiro como a sua paróquia.

— Bispo Ildo Mello

Piedade acima da erudição

Ao Dr. Robert Lowth, bispo de Londres · 10 de agosto de 1780

Excelência, há algum tempo recebi a bondosa resposta de Vossa Senhoria, pela qual sinceramente lhe agradeço. Aquelas pessoas não recorreram à Sociedade de Propagação do Evangelho porque nada tinham a pedir-lhe: não queriam salário para o seu ministro, pois elas mesmas podiam e queriam sustentá-lo. Recorreram, pois, por meu intermédio, a Vossa Senhoria, como membros da Igreja da Inglaterra e desejosos de assim continuar, suplicando o favor de que Vossa Senhoria, depois de examiná-lo, ordenasse um homem piedoso que pudesse servir-lhes como ministro.

Mas Vossa Senhoria observa: “Já há três ministros naquele país.” É verdade, Excelência; mas que são três para velar por todas as almas de país tão vasto? Permitir-me-á Vossa Senhoria falar com franqueza? Não ouso fazer de outro modo. Estou à beira do túmulo e não sei a hora em que nele cairei. Ainda que houvesse sessenta desses missionários no país, poderia eu, em consciência, confiar-lhes essas almas? Cuidam eles da própria alma? Se cuidam — digo-o com pesar! —, temo que sejam quase os únicos missionários na América que o fazem. Excelência, não falo levianamente: estive na América, e vários com quem há pouco conversei também estiveram; e tanto eu quanto eles sabemos que espécie de homens é a maior parte deles. São homens que não têm nem o poder da religião nem a sua forma — homens que não pretendem piedade, nem sequer decência.

Permita-me, Excelência, falar ainda mais livremente; talvez seja a última vez que importune Vossa Senhoria. Conheço as capacidades e o vasto saber de Vossa Senhoria; e creio, o que é muito mais, que Vossa Senhoria teme a Deus. Ouvi dizer que Vossa Senhoria é, contra a moda, diligente em examinar os candidatos às Ordens Sagradas — sim, que costuma dar-se ao trabalho de examiná-los pessoalmente. Examiná-los! Em quê? Ora, se entendem um pouco de latim e de grego e sabem responder a umas poucas perguntas batidas da ciência da teologia! Ai, de que pouco vale isso! Examina Vossa Senhoria se servem a Cristo ou a Belial? se amam a Deus ou ao mundo? se alguma vez tiveram pensamentos sérios sobre o céu ou o inferno? se têm algum desejo real de salvar a própria alma ou a alma de outros? Se não, que têm eles a ver com as Ordens Sagradas? E que será das almas confiadas ao seu cuidado?

Excelência, de modo algum desprezo a erudição; conheço bem demais o seu valor. Mas que é ela, sobretudo num ministro cristão, comparada à piedade? Que é ela, num homem que não tem religião? “Como joia em focinho de porco” (Pv 11.22). Há algum tempo, recomendei a Vossa Senhoria um homem simples, que eu conhecia havia mais de vinte anos como pessoa de piedade profunda e genuína e de conduta irrepreensível. Mas ele não entendia grego nem latim, e declarou, com todas as letras, que cria ser seu dever pregar, fosse ordenado ou não. Também eu o creio. Vossa Senhoria não houve por bem ordená-lo; houve, porém, por bem ordenar e enviar à América outras pessoas que sabiam algo de grego e latim, mas que sabiam tanto de salvar almas quanto de caçar baleias.

Também nisto choro pela pobre América, pelas ovelhas espalhadas de um lado a outro. Parte delas não tem pastor algum, sobretudo nas colônias do norte; e o caso das demais é pouco melhor, pois os seus próprios pastores não têm pena delas. Não podem tê-la, pois não têm pena de si mesmos: não tomam pensamento nem cuidado da própria alma. Desejando a Vossa Senhoria toda bênção do grande “Pastor e Bispo das almas” (1Pe 2.25), permaneço, Excelência, o seu obediente filho e servo.

— John Wesley

O custo humano da bebida

A William Pitt, primeiro-ministro · setembro de 1784 (trecho)

Perdoe-me, senhor, por sair da minha alçada e insinuar algumas coisas que há muito trago na mente; se esses reparos não merecerem maior atenção, podem ser perdoados e esquecidos. Novos impostos hão de ser criados, sem dúvida; mas não se poderia arrecadar mais com os antigos, cobrando-os com retidão?

Os empregados dos destiladores informam-me que os seus patrões não pagam nem a quadragésima parte do que destilam; e esse imposto, no ano passado, se me informaram bem, não passou de vinte mil libras. Mas não custaram as bebidas destiladas, neste ano, vinte mil vidas de súditos de Sua Majestade? Não se troca, então, vilmente o sangue desses homens por vinte mil libras? — para nada dizer da enorme maldade que daí resultou, e sem sequer supor que esses pobres desgraçados tenham alma. Mas, considerando só o dinheiro: é o Rei um ganhador, ou um imenso perdedor? “Os mortos não pagam impostos.” De modo que, pela morte de vinte mil pessoas por ano (e este cálculo fica muito abaixo do real), a fazenda pública perde muito mais do que ganha.

Mas posso apresentar-lhe outra consideração. O senhor é um homem; não perdeu os sentimentos humanos; não gosta de beber sangue humano. É filho de lorde Chatham. E, se não me engano, é cristão. Ousará, então, sustentar um comércio que faz naufragar uma nação? Será o Deus a quem serve capaz de livrar de dez mil inimigos? Creio que sim; e o senhor também o crê. Ah, que o senhor a nada tema, senão a desagradar a Ele!

Se a sua influência pudesse extinguir a destilação, tornando-a crime, o senhor prestaria ao seu país maior serviço do que qualquer primeiro-ministro nestes cem anos. O seu nome seria precioso a todo verdadeiro inglês enquanto a Inglaterra fosse nação. E, o que é infinitamente mais, um Monarca maior do que o rei Jorge lhe diria: “Muito bem, servo bom e fiel!” (Mt 25.21). Encomendo-o de coração ao seu cuidado, e sou, senhor, o seu solícito servo.

— John Wesley

À jovem igreja do outro lado do mar

Aos pregadores na América · Bristol, 3 de outubro de 1783

Caro irmão:

1. Estejam todos determinados a ater-se à doutrina e à disciplina metodistas, publicadas nos quatro volumes de Sermões e nas Notas sobre o Novo Testamento, junto com as Grandes Atas da Conferência.

2. Cuidado com pregadores que venham da Grã-Bretanha ou da Irlanda sem uma recomendação plena da minha parte. Três dos nossos pregadores itinerantes desejaram ardentemente ir à América; mas de modo algum pude aprová-lo, porque não estou convencido de que apreciem de fato a nossa disciplina e a nossa doutrina — creio que divergem do nosso juízo numa delas, ou em ambas. Portanto, se estes ou quaisquer outros chegarem sem a minha recomendação, tenham cuidado ao recebê-los.

3. Tampouco devem receber pregador algum, por mais recomendado que seja, que não queira sujeitar-se à Conferência americana e conformar-se de bom grado às Atas, tanto da americana quanto da inglesa.

4. Não desejo que os nossos irmãos americanos recebam quem quer que faça dificuldade em aceitar Francis Asbury como Assistente-Geral. Sem dúvida, o maior perigo para a obra de Deus na América há de vir ou de pregadores que cheguem da Europa, ou dos que se levantem entre vocês mesmos, falando coisas perversas ou introduzindo novas doutrinas, particularmente o calvinismo. Guardem-se disso com todo o cuidado possível, pois é bem mais fácil mantê-los fora do que expulsá-los depois. Encomendo todos vocês à graça de Deus, e sou o seu afeiçoado amigo e irmão.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1780–1784. A carta a William Pitt é apresentada em trecho. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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