Cartas sobre a leitura e o estudo · 1780–1781

Cartas sobre a Leitura e o Estudo

“O Autor da nossa natureza não quis que destruíssemos, mas que regulássemos o nosso desejo de conhecer.”

Da carta à sobrinha Sarah Wesley, 8 de setembro de 1781

Antes de ler

O que um cristão deve fazer com a sede de saber? Há quem tema que o estudo esfrie a devoção, e quem trate a leitura como se fosse um fim em si. Wesley não pensava nem de um jeito nem de outro. Nestas três cartas, escritas já perto dos oitenta anos à sobrinha querida, Sarah — a “Sally”, filha de seu irmão Charles —, vemos o velho pregador cuidando da mente e da alma de uma jovem ao mesmo tempo. Ele a chama de volta ao “chamado do céu”, receita-lhe um plano de leitura com hora marcada e coroa tudo, ao fim, com um único alvo.

Para Wesley não havia guerra entre amar a Deus e cultivar o entendimento. Ele manda ler a Bíblia uma hora por dia e, ao mesmo tempo, estudar gramática, história, lógica e poesia — porque toda verdade é de Deus. Mas a ordem importa: o saber é servo, nunca senhor. “Antes de tudo, em tudo e acima de tudo”, escreve ele, o grande alvo é “conhecer o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem ele enviou” (Jo 17.3). Um cuidado ao ler: essa disciplina de leitura é meio de graça, não mérito. Ninguém se salva por acumular conhecimento; a salvação é recebida pela fé em Cristo, que morreu por todos. O estudo bem ordenado apenas serve à fé — nutre, esclarece e fortalece quem já foi alcançado pela graça.

Fica também, nas entrelinhas, um retrato terno: um tio idoso que, em meio a viagens e controvérsias, encontra tempo para orientar, livro por livro, a leitura de uma moça. É a herança wesleyana no seu melhor — piedade e instrução de mãos dadas, algo que todo pregador, professor e pai de família ainda pode imitar.

— Bispo Ildo Mello

Não pela metade, mas por inteiro

À sua sobrinha Sarah Wesley · City Road, 15 de novembro de 1780

Minha querida Sally, alguns anos atrás, quando você estava em Bristol, recebeu de Deus um chamado claro — e não foi surda à visão celestial (At 26.19). Mas em poucos meses aquela impressão feliz se apagou, não sei como. Agora parece que Deus torna a chamá-la. Só que os obstáculos são muitos, e esta é a idade mais perigosa da vida. Se você não quer ser cristã quase, mas por inteiro (At 26.28-29), vai precisar de muita coragem e de muita paciência. Então será capaz de fazer todas as coisas naquele que a fortalece (Fp 4.13).

Você precisa muito de uma amiga piedosa e sensata. No seu canto da cidade quase não conheço nenhuma à altura, a não ser aquela criatura franca e de espírito nobre, Nancy Sharland — uma pessoa “em quem não há dolo” (Jo 1.47). Por enquanto, seus melhores recursos serão a oração e a leitura, talvez seguindo aquele método que expus numa das revistas. Mas você não conseguirá levar isso adiante sem cortar, por assim dizer, a própria mão direita: abrir mão das companhias fúteis. Ajudá-la no que estiver ao meu alcance será sempre uma alegria para o seu tio dedicado.

— John Wesley

Leia os livros certos, e seja cristã inteira

À sua sobrinha Sarah Wesley · Perto de Leeds, 4 de agosto de 1781

Minha querida Sally, sua última carta me deu muita satisfação: convenceu-me de que não trabalhei em vão. Confie naquele que é mais forte do que você! Assim conseguirá perseverar na sua resolução. Sem isso, logo se cansará e recairá na velha rotina sem vida. Sempre que depender de você, vá dormir pouco depois das dez. Mas, para manter isso com constância, você precisará de mais firmeza do que a natureza pode oferecer; nada menos que o poder do Altíssimo a manterá firme nesse ponto.

Tenho pensado se haveria algum outro estorvo a impedir que você receba a bênção que a espera, e estou certo de que não vai se ofender se eu lhe disser tudo o que me passa pela mente. Quando algum jovem me procurava em Oxford, eu lhe dizia com toda a franqueza: “Meu caro, não posso me comprometer a fazer de você nem um erudito nem um cristão, a menos que você me prometa duas coisas: primeira, ler os livros que eu indicar; segunda, enquanto for meu aluno, não ler nenhum outro.” Ora, minha Sally, não era uma condição dura? E, no entanto, eles logo descobriam a vantagem dela. O mesmo aconteceria com você, se tivesse a coragem de ler somente os livros recomendados por mim ou por meu irmão.

Eu quero que você não seja cristã pela metade, mas por inteiro! Que haja em você o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Fp 2.5). E apresente a sua alma e o seu corpo como sacrifício vivo, agradável a Deus, por meio dele (Rm 12.1). Sou, minha querida Sally, o seu tio que muito a estima.

— John Wesley

Um plano de estudos, coroado por um só alvo

À sua sobrinha Sarah Wesley · Bristol, 8 de setembro de 1781

Minha querida Sally, é certo que o Autor da nossa natureza não quis que destruíssemos, mas que regulássemos o nosso desejo de conhecer. Vou lhe apontar, em poucas linhas, o caminho para isso.

1Você quer conhecer a Deus, a fim de desfrutá-lo no tempo e na eternidade.

2Tudo o que você precisa saber a respeito dele está contido num só livro, a Bíblia. E tudo o mais que você aprender deve ser remetido a ela, direta ou indiretamente.

3Não seria bom, então, dedicar pelo menos uma hora por dia à leitura e à meditação da Bíblia — lendo, de manhã e à noite, uma porção do Antigo e do Novo Testamento, com as Notas Explicativas?

4Você não poderia ler duas ou três horas de manhã e uma ou duas à tarde? Quando se cansar dos estudos mais sérios, descanse a mente com um pouco de história ou de poesia.

5A primeira coisa de que convém ter alguma noção é a Gramática. Leia primeiro a Gramática Inglesa de Kingswood e, depois, a Introdução do bispo Lowth.

6Convém adquirir (se ainda não tem) algum conhecimento de Aritmética. A Aritmética de Dilworth bastaria.

7Para Geografia, creio que basta percorrer a Gramática Geográfica de Randal ou de Guthrie.

8A Lógica de Watts não é das melhores, mas creio que você não encontrará outra melhor.

9Em Filosofia Natural, você tem tudo o que precisa saber no Panorama da Sabedoria de Deus na Criação; pode acrescentar o resumo das obras do sr. Hutchinson.

10A qualquer um desses estudos, ou a todos, você pode intercalar o da História. Comece pela História Antiga de Rollin; depois leia, em ordem, a História Concisa da Igreja, a História da Reforma de Burnet, a História Concisa da Inglaterra, a História da Rebelião de Clarendon, a História dos Puritanos de Neal e a sua História da Nova Inglaterra, e a História da América de Robertson.

11Em Metafísica, você pode ler o Ensaio sobre o Entendimento Humano, de Locke, e a Busca da Verdade, de Malebranche.

12Em Poesia, você pode ler A Rainha das Fadas, de Spenser, trechos escolhidos de Shakespeare, a Jerusalém Libertada, o Paraíso Perdido, os Pensamentos Noturnos e os Poemas Morais e Sacros de Young.

13Você pode começar e terminar pela Teologia; nela acrescento apenas, aos livros já mencionados, o tratado do bispo Pearson Sobre o Credo e a Biblioteca Cristã.

Por esse plano de estudos você adquirirá todo o conhecimento de que qualquer cristão sensato precisa. Mas lembre-se: antes de tudo, em tudo e acima de tudo, o seu grande alvo é conhecer o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem ele enviou (Jo 17.3). Sou, minha querida Sally, o seu tio dedicado.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1780–1781. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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