Cartas sobre os pobres · 1780–1781

Cartas sobre Servir aos Pobres

“Você viu muito pouco da parte mais seleta da sociedade de Londres: refiro-me aos pobres.”

Da carta ao reverendo Collins, junho de 1780

Antes de ler

O que a fé tem a ver com os pobres? Para Wesley, quase tudo. Ele não os via de longe, como um problema a ser aliviado com dinheiro; ia até eles. Visitar os pobres — entrar nos porões e sótãos onde viviam, sentar-se com os doentes, conhecer nome por nome — era, para ele, um dos grandes meios de graça, tão necessário à alma de quem visita quanto ao corpo de quem é visitado. Por isso escrevia a pessoas de posses e de saúde frágil recomendando, como “passatempo verdadeiramente cristão”, a visita aos pobres do bairro.

Estas três cartas breves mostram esse lado de Wesley. A um pastor recém-chegado a Londres, ele diz que ainda não conheceu “a parte mais seleta” da cidade — os pobres. A uma jovem em retiro, receita a visita aos enfermos e necessitados como remédio para a própria alma. E a Nancy Bolton, cercada de aflições, lembra que nenhum tempo livre é mais bem empregado do que junto dos vizinhos pobres. Há aqui um cuidado que vale guardar: Wesley não romantiza a pobreza nem faz do pobre um mérito para quem o socorre. A salvação, para o rico e para o pobre, continua sendo dom recebido pela fé em Cristo. O que ele ensina é mais simples e mais exigente: que o amor de Deus derramado no coração (Rm 5.5) transborda, necessariamente, em mãos que servem — e que muitas vezes é no rosto do pobre que enxergamos melhor o rosto do Senhor.

Fica o convite, também para nós: que a nossa piedade não seja só de templo e de estante, mas desça à rua, ao hospital, à casa humilde — “para salvar algumas almas”, e para que a nossa própria seja curada da frieza.

— Bispo Ildo Mello

A parte mais seleta da cidade

Ao reverendo Sr. Collins · Londres, junho de 1780 (trecho)

Há poucos anos, o povo de Everton e dos arredores estava profundamente vivo para Deus, simples como criancinhas. Bom será que você ainda os encontre assim; e, se não, talvez, com a ajuda de Deus, você mesmo os torne assim de novo. O senhor Hicks, em especial, era uma luz que ardia e iluminava (Jo 5.35), cheio de amor e zelo por Deus. Espero que você o veja o mais que puder e, se for preciso, levante as mãos que pendem (Hb 12.12), animando-o a recomeçar na grande obra, disposto a gastar-se e desgastar-se nela (2Co 12.15).

Você viu muito pouco da parte mais seleta da sociedade de Londres: refiro-me aos pobres. Venha comigo aos porões e sótãos onde eles vivem, e então provará do espírito deles. Sou, prezado senhor, o seu afeiçoado amigo e irmão.

— John Wesley

Um passatempo verdadeiramente cristão

A Elizabeth Morgan · Bristol, 13 de março de 1781 (trecho)

Minha querida srta. Morgan, admiro a sua firmeza. Como é possível que você conserve alguma estima por mim, quando o seu convívio recai tantas vezes entre os que pensam prestar culto a Deus falando todo tipo de mal a meu respeito? Não atribuo isso a bondade natural — pouca coisa boa vem da natureza —, mas à graça daquele que a guardou desde a infância e que agora a sustenta nos caminhos escorregadios da juventude.

Com uma dose equilibrada de leitura, meditação, oração e boa conversa, você pode aproveitar bem o seu presente retiro. Mas acrescente a cada dia um pouco de exercício ao ar livre, conforme as forças permitirem. E por que não acrescentar também aquele passatempo verdadeiramente cristão: visitar os pobres, doentes ou não? Quem sabe se o Senhor não a enviou a Wotton justamente para salvar algumas almas (cf. Tg 5.20)?

— John Wesley

Nenhum tempo é mais bem empregado

A Ann Bolton (“Nancy”) · Bristol, 9 de setembro de 1781 (trecho)

Minha querida Nancy, de uma coisa temos absoluta certeza: boa é a vontade do Senhor! Onde você passa o seu tempo, e como se ocupa? Quando tiver algum tempo livre, certamente não poderá empregá-lo melhor do que em visitar quantos puder dos seus vizinhos pobres. Receio que essas pressões sobre a sua mente aumentem os seus males do corpo. Não creio que você murmure ou se irrite com coisa alguma; mas não consegue evitar a tristeza — a não ser quando o poder do Altíssimo a cobre de modo extraordinário. E até isso abala a frágil tenda de barro que somos.

Minha querida Nancy, partilhe todas as suas tristezas com o seu verdadeiro amigo.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1780–1781, apresentadas em trecho. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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