Cartas sobre o dinheiro · 1780–1786

Cartas sobre o Dinheiro e as Riquezas

“É sabedoria fazer pleno uso dos talentos que você já tem — sem confiar em si mesmo, mas naquele que ressuscita os mortos.”

Da carta a Josiah Dornford, 1º de agosto de 1786

Antes de ler

Pode o dinheiro servir a Deus, ou é sempre um perigo? A resposta de Wesley não cabia num slogan. Por um lado, ele tratava os bens como um “talento” — algo que Deus confia para ser usado com fidelidade, não enterrado (cf. Mt 25.14-30). Por outro, poucas coisas o alarmavam tanto quanto a prosperidade dos crentes. “Os que têm mais dinheiro costumam ter menos graça”, escreveu, e via com tristeza que, à medida que os metodistas enriqueciam, esfriavam. O seu conselho constante era, portanto, duplo: usar bem o que se tem e, sobretudo, não ajuntar na terra o que só no céu está seguro (Mt 6.19-20).

Reunimos aqui três cartas dessa preocupação. A um pregador, Wesley confessa que dos membros ricos é que ele teme não poder dar boa conta — mas logo acrescenta a esperança: “para Deus todas as coisas são possíveis” (Mt 19.26). A um missionário na América, faz um diagnóstico severo: “os pobres é que são os cristãos”; cuidemos, pois, de entesourar no céu. E a um leigo ativo, resume a boa mordomia: use com afinco o que Deus já lhe deu, confiando não em si, mas nele. Um cuidado ao ler: nada disso é evangelho de mérito. Ninguém compra a salvação com esmolas; ela é recebida pela fé em Cristo, que morreu por todos. A generosidade não é o preço da graça — é o seu fruto. O dinheiro, bem usado, deixa de ser senhor e vira servo; mal usado, promete segurança e entrega escravidão.

Fica o exame para cada um de nós, tenhamos pouco ou muito: de quem, afinal, é o que tenho nas mãos — e para onde estou, dia após dia, mandando o meu tesouro?

— Bispo Ildo Mello

Até dos ricos, para Deus tudo é possível

A John Valton · Londres, 31 de dezembro de 1780 (trecho)

Meu querido irmão, o terceiro pregador foi acrescentado justamente para isto: dar a você a liberdade de passar algum tempo onde quer que a obra de Deus o exija. Você deixou de fora um item do plano — os novos membros; desses, suponho, você me dará conta mais adiante.

Não duvido de que poderá me dar boas notícias de todos — menos, talvez, dos membros ricos; e quem sabe, de alguns destes também. Pois é justamente a respeito deles que o nosso Senhor diz: “Para Deus todas as coisas são possíveis” (Mt 19.26). Sou o seu afeiçoado amigo e irmão.

— John Wesley

Entesourem no céu

A Freeborn Garrettson · Londres, 30 de setembro de 1786 (trecho)

Meu querido irmão, os que se puseram a arar não olhem para trás; peçam continuamente ao Senhor da seara que envie mais trabalhadores para a sua seara (Mt 9.38). É melhor você me mandar os seus diários como estão do que não os mandar de todo.

A maioria dos que na Inglaterra têm riquezas ama o dinheiro — até mesmo os metodistas, ou, ao menos, os que assim se chamam. Os pobres é que são os cristãos. Confesso que quase perdi a boa impressão que tinha de quase todos os que possuem os bens deste mundo. Cuidemos, pois, de entesourar o nosso tesouro no céu (Mt 6.19-20). A paz esteja com o seu espírito!

— John Wesley

Use com fidelidade o que já tem

A Josiah Dornford · Bristol, 1º de agosto de 1786

Prezado senhor, siga em frente, em nome de Deus e no poder da sua força (Ef 6.10). Se ele achar por bem, e quando achar, porá mais talentos nas suas mãos. Enquanto isso, é sabedoria fazer pleno uso dos que você já tem — tomando apenas o cuidado de não confiar em si mesmo, mas naquele que ressuscita os mortos (2Co 1.9). Sou o seu afeiçoado irmão.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1780–1786; as cartas a John Valton e a Freeborn Garrettson são apresentadas em trecho. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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