Cartas às mulheres · 1761–1789

Cartas às Mulheres

“Penso que a força da causa está justamente aí: em você ter um chamado extraordinário.”

Da carta a Mary Bosanquet, 13 de junho de 1771

Antes de ler

Podia uma mulher pregar no metodismo nascente? A pergunta perseguiu Wesley por trinta anos, e a resposta que ele foi dando, carta após carta, mudou a história. O avivamento metodista abriu às mulheres um espaço raro para a época: elas lideravam classes e “bandas”, visitavam os enfermos, ensinavam — e algumas, com dons evidentes, passaram a exortar e a pregar. Três nomes se destacam, e as três cartas reunidas aqui são delas: Sarah Crosby, tida como a primeira pregadora metodista; Mary Bosanquet, mais tarde esposa de John Fletcher; e Sarah Mallet, a primeira que a Conferência, por ordem de Wesley, reconheceu oficialmente, em 1787, “enquanto pregasse a doutrina metodista e observasse a nossa disciplina”.

Vale ver como a posição de Wesley amadurece. Em 1761, ele aconselha Crosby a não tomar para si o título de “pregadora”, mas a dizer com simplicidade “o que traz no coração”. Em 1771, é mais ousado: diz a Bosanquet que toda a causa repousa sobre o seu “chamado extraordinário”. E, já perto do fim, em 1789, defende a jovem Sally Mallet, vendo na fala dela “algum propósito da divina Providência”. O argumento é sempre o mesmo, e é profundamente wesleyano: assim como aprovava que homens leigos pregassem sem ordenação — porque o metodismo era uma “dispensação extraordinária” da providência de Deus —, ele reconhecia que Deus também chama e capacita mulheres, e que os dons do Espírito não pedem licença aos costumes.

É preciso honestidade histórica: Wesley foi homem do seu século. Em outras ocasiões, também conteve a pregação feminina, e a sua posição não era ainda a igualdade plena que o metodismo posterior viria a afirmar. Mas ele abriu uma porta real — e a tradição que nasceu dele, incluindo a nossa Igreja Metodista Livre, atravessou essa porta, reconhecendo e ordenando mulheres ao ministério. Minha convicção, ao entregar estas cartas, é esta: honrar essas mulheres é honrar a própria lógica da graça, que reparte dons a quem quer e diante da qual “não há homem nem mulher, porque todos são um em Cristo Jesus” (Gl 3.28) — sendo a salvação, para todos, recebida pela fé. Que a igreja de hoje faça o que Wesley aprendeu a fazer: não apagar o Espírito, mas reconhecer e liberar os dons que Deus levanta, seja em quem for.

— Bispo Ildo Mello

Diga apenas o que traz no coração

A Sarah Crosby · Londres, 14 de fevereiro de 1761

Minha querida irmã, a srta. Bosanquet me entregou a sua carta na quarta-feira à noite. Até aqui, penso, você não foi longe demais; dificilmente poderia ter feito menos. O máximo que ainda pode fazer é, quando se reunirem de novo, dizer-lhes com simplicidade: “Vocês me põem numa grande dificuldade. Os metodistas não admitem mulheres pregadoras, e eu tampouco tomo para mim semelhante função. Mas vou apenas, sem rodeios, dizer a vocês o que trago no coração.” Isso, em boa medida, contornará a grande objeção e preparará o terreno para a vinda de J. Hampson. Não vejo que você tenha infringido lei alguma. Prossiga com calma e firmeza. Se tiver tempo, pode ler-lhes as Notas sobre algum capítulo antes de falar umas poucas palavras, ou um dos sermões mais tocantes — como outras mulheres já faziam há muito tempo.

A obra de Deus avança aqui com força, tanto em convicção quanto em conversão. Só esta manhã falei com quatro ou cinco pessoas que parecem ter sido postas em liberdade neste último mês. Creio que, em cinco semanas, seis de uma mesma classe receberam o perdão dos pecados, e cinco de uma mesma banda receberam uma segunda bênção. A paz esteja com todos vocês! Sou o seu afeiçoado irmão.

— John Wesley

Um chamado extraordinário

A Mary Bosanquet · 13 de junho de 1771

Minha querida irmã, penso que a força da causa está justamente aí: em você ter um chamado extraordinário. Estou convencido de que assim é com cada um dos nossos pregadores leigos; do contrário, eu não poderia de modo algum aprovar que pregassem. É claro para mim que toda a obra de Deus a que se chama metodismo é uma dispensação extraordinária da sua providência. Por isso não me admira que nela ocorram várias coisas que não se enquadram nas regras comuns de disciplina.

A regra comum de Paulo era: “Não permito que a mulher fale na congregação” (cf. 1Co 14.34). E, no entanto, em casos extraordinários, ele mesmo abriu algumas exceções — em Corinto, particularmente (cf. 1Co 11.5). Sou, minha querida irmã, o seu afeiçoado irmão.

— John Wesley

Talvez um propósito da Providência

A Sarah (“Sally”) Mallet · Londres, 21 de fevereiro de 1789

Minha querida irmã, como o seu falar na casa do sr. Hunt não foi coisa premeditada, não vejo nisso mal algum; e, de fato, você estava tão cercada por um concurso de circunstâncias que não sei como poderia tê-lo evitado. Talvez houvesse aí algum propósito da divina Providência, para nós desconhecido, a ser cumprido. Por isso não lamento nem um pouco que as coisas tenham acontecido assim. Mas você deve esperar ser censurada por isso.

Fiquei um tanto surpreso, tempos atrás, quando alguém, falando de você, comentou: “Sally Mallet não é tão séria quanto Betty Reeve.” Eu tinha você por tão séria quanto qualquer jovem de Norfolk. Seja prudente em tudo o que fizer, e nunca lhe faltará qualquer auxílio que esteja ao alcance de, minha querida Sally, o seu afeiçoado.

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford), domínio público: cartas a Sarah Crosby (14 de fevereiro de 1761), a Mary Bosanquet (13 de junho de 1771) e a Sarah Mallet (21 de fevereiro de 1789). Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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