Cartas sobre a comunhão com Deus · 1781–1787

Cartas sobre a Comunhão com Deus

“Quando você começa a conhecer a Deus como o seu Deus, então, e só então, começa a ser feliz.”

Da carta a Nancy Taylor, 8 de março de 1787

Antes de ler

Onde mora a felicidade da alma, e de onde lhe vem a força? A resposta de Wesley é constante: na comunhão com Deus — alimentada pelos meios da graça e traduzida em amor que se entrega. Estas três cartas de direção espiritual, escritas a jovens que ele acompanhava de perto, mostram três faces dessa mesma vida.

À sobrinha Sarah, atormentada por sentir-se “indigna” da Ceia, ele desfaz o medo: “comer indignamente” não é ter o coração seco ou distraído — é outra coisa. Deus, às vezes, deixa a pessoa entregue ao próprio coração frio justamente à Mesa, “para que você conheça a si mesma a fim de conhecê-lo”. A resposta não é fugir da Ceia, mas continuar. A Nancy Taylor, previne contra a grande tentação da juventude: buscar a felicidade em alguma criatura. “A felicidade não está no ser humano”; e a oração particular “você jamais deve omitir”. E a Ann Loxdale, aponta o coração de tudo: leia 1Coríntios 13, o retrato da perfeição cristã, pois a religião nada mais é do que “amor humilde, manso e paciente” — que se resume numa palavra, resignação, e numa frase do próprio Senhor: “Não como eu quero, mas como tu queres.”

Um cuidado ao ler: essa comunhão não é técnica que se domina nem mérito que se acumula. Ela é fruto da graça, recebida pela fé em Cristo. Os meios — a Ceia, a oração, a Palavra — não nos compram a Deus; são os canais pelos quais ele, que já nos amou primeiro, se dá a nós. Leia, pois, menos como quem busca uma emoção e mais como quem aprende a ficar, com o coração fixo em Deus, faça sol ou faça sombra.

— Bispo Ildo Mello

Aproximar-se da Mesa com o coração seco

À sua sobrinha Sarah Wesley · Manchester, 31 de março de 1781 (trecho)

Minha querida Sally, a expressão “comer e beber indignamente” tem um sentido, e um só, atribuído por Paulo — o único escritor inspirado que a usa. Ele se refere àquele pecado específico de que os coríntios então eram culpados: cada um tomar antes dos outros a sua própria ceia, de modo que um passava fome e o outro se embriagava (1Co 11.20-22). Ora, é certo que você não corre esse risco, tanto quanto não corre o de cometer um assassinato. Morte interior, frieza, pensamentos que vagueiam — tudo isso é coisa totalmente distinta. E, quando o pior desses males ocorrer, você pode responder, com o piedoso Tomás de Kempis: “Vai, vai, espírito imundo. Estes não são os meus pensamentos, mas os teus; e tu prestarás contas deles a Deus.”

Em tudo o que faz com você, Deus tem agora um alvo: levá-la a conhecer-se como alguém em quem, por natureza, não habita bem algum (Rm 7.18). E é isso, particularmente, o que ele busca quando você se aproxima da sua Mesa. Se ali lhe desse grande alegria ou doçura, isso não atenderia ao seu propósito; nem tampouco se lhe desse muita contrição e quebrantamento. Por isso ele a deixa, em boa medida, entregue ao seu próprio coração seco e insensível — para que você conheça a si mesma a fim de conhecê-lo. Mas é este mesmo o caminho: ande por ele, e, a seu tempo, ceifará, se não desfalecer (Gl 6.9). Peço a Deus que você o escolha, com toda a resolução, como a sua porção.

— John Wesley

A felicidade só está em Deus

A Nancy Taylor · Bath, 8 de março de 1787 (trecho)

Minha querida Nancy, sinto um cuidado especial por você desde que era pequenina, e ainda mais desde aquela conversa que tivemos em York. Já então percebi em você um desejo verdadeiro de amar e servir a Deus, e tenho esperança de que esse desejo nunca se apague, mas cresça cada vez mais. A sua verdadeira tentação, sobretudo enquanto você é jovem, será buscar a felicidade em alguma criatura. Já será bom se você ainda não se enredou — se ainda não começou a pensar: “Ah, como eu seria feliz se passasse a vida com esta ou aquela pessoa!” Pensamento vão! A felicidade não está no ser humano, nem em criatura alguma debaixo do céu.

Quando você começa a conhecer a Deus como o seu Deus, então, e só então, começa a ser feliz; e muito mais quando o ama. E, à medida que cresce numa fé que ama, a sua felicidade crescerá na mesma proporção. Rume firme para esse ponto. Guarde as fontes do seu coração! Pela graça do Todo-Poderoso, guarde-se dos ídolos (1Jo 5.21). Conversar com franqueza com um ou dois amigos sensatos e de todo entregues a Deus será uma ajuda indizível no caminho. E a oração particular você jamais deve omitir. Ah, seja fervorosa, minha querida Nancy!

— John Wesley

Não como eu quero, mas como tu queres

A Ann Loxdale · Liverpool, 12 de abril de 1782 (trecho)

Minha querida srta. Loxdale, aconselho você, como antes aconselhei a minha querida Jenny Cooper, a ler e meditar com frequência no capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios. Ali está o verdadeiro retrato da perfeição cristã! Copiemo-lo com todas as forças. Pois o que é ela, no fim, senão amor humilde, manso e paciente?

É, sem dúvida, o nosso privilégio “alegrar-nos sempre” (1Ts 5.16), com uma alegria calma, serena, nascida do fundo do coração. Ainda assim, ela raramente permanece muito tempo no mesmo nível: muitas circunstâncias a fazem subir e descer. Por isso, não é nela que está a essência da religião, a qual não é outra coisa senão amor humilde, manso e paciente. E não sei se tudo isso não está contido numa só palavra: resignação. Pois a mais alta lição que o nosso Senhor, como homem, aprendeu na terra foi dizer: “Não como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26.39). Que ele confirme você cada vez mais!

— John Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cartas de 1781–1787, apresentadas em trecho. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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