Cartas sobre a segurança da salvação · 1780–1787
“Nem o testemunho deve suplantar os frutos, nem os frutos, o testemunho do Espírito.”
Da carta a Sarah Crosby, 11 de maio de 1780
Posso saber que sou salvo? Poucas doutrinas são tão caras à herança metodista quanto esta: o testemunho do Espírito. Wesley cria que o Espírito Santo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16), de modo que o crente pode ter uma certeza clara do favor de Deus — não uma opinião fria, mas uma confiança que exclui a dúvida e o temor. Estas três cartas, escritas a pessoas que ele acompanhava, explicam essa certeza e a protegem de dois extremos.
De um lado, Wesley distingue essa certeza da presunção calvinista de que “nenhum santo pode cair da graça”: aquela opinião, diz ele, permanece firme mesmo enquanto o homem peca, ao passo que a verdadeira certeza da esperança se obscurece assim que o coração cede ao mal. A segurança bíblica não dispensa a santidade — anda de mãos dadas com ela. De outro lado, ele adverte que o testemunho não deve suplantar os frutos, nem os frutos, o testemunho: é quando os dois se encontram que temos a prova mais forte de sermos de Deus. Um cuidado ao ler: essa certeza é dom da graça, recebido pela fé, e pode ser resistida e perdida; ela não é um seguro contra o pecado, mas o selo de um coração que se mantém unido a Deus.
— Bispo Ildo Mello
Minha querida Hetty, muitos dos nossos irmãos e irmãs em Londres, naquele grande derramamento do Espírito, falaram de várias bênçãos novas que teriam alcançado. Mas, afinal, nada encontraram de mais alto do que o puro amor — e sobre ele repousa, de modo geral, a plena certeza da esperança. As Escrituras inspiradas sempre a apresentam como o ponto mais alto; só que há nela inúmeros graus. A plena certeza da fé é aquela convicção clara de que estou agora no favor de Deus, que exclui toda dúvida e todo temor quanto a isso. A plena certeza da esperança é aquela confiança clara de que hei de gozar a glória de Deus, que exclui toda dúvida e todo temor quanto a isto.
E essa confiança é totalmente distinta da opinião de que “nenhum santo pode cair da graça”. Nada tem a ver com ela. Homens ousados e presunçosos muitas vezes põem essa moeda falsa no lugar daquela confiança preciosa. Mas repare: aquela opinião permanece igualmente firme enquanto o homem peca e serve ao diabo e enquanto serve a Deus — a santidade, ou a falta dela, não a afeta em nada. Já a plena certeza da esperança se obscurece assim que cedemos a algo impuro, na vida ou no coração; ela não pode subsistir por mais tempo do que aquele em que o coração permanece firmemente unido a Deus.
— John Wesley
Minha querida srta. Cooke, você me dá agora uma prova de que não se esqueceu de mim. Como sou quase sempre obrigado a escrever às pressas, muitas vezes duvido se a minha correspondência vale a pena — mas a sua me alegra.
Quando o testemunho e o fruto do Espírito se encontram, não pode haver prova mais forte de que somos de Deus. Ainda assim, você pode recair em dúvidas dolorosas se não vigiar com firmeza contra os raciocínios ruins; e, se substituísse o testemunho do Espírito pelas deduções da sua própria razão, jamais tornaria a ter descanso.
— John Wesley
Minha querida irmã, antes mesmo que você o pedisse, já era esse o meu propósito: não deixar ninguém saber que você me escreve. Por isso, transcrevo o que quero guardar e queimo os originais.
Nem o testemunho deve suplantar os frutos, nem os frutos, o testemunho do Espírito. Falem os outros o que falarem, a palavra do Senhor permanece.
— John Wesley
Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.