Neemias, o sábioAula 2

O líder e a oposição

“Não tenham medo deles. Lembrem-se do Senhor, grande e temível, e lutem pelos seus irmãos, seus filhos, suas filhas, pelas mulheres e pela casa de vocês.”Neemias 4.14 (NAA)

Bispo Ildo MelloIgreja Metodista Livre do Brasil

Para começar

Perguntas norteadoras

Na Aula 1 vimos o coração de Neemias: compaixão, oração e ação prudente. Agora ele arregaça as mangas, e a obra começa a incomodar gente poderosa. Guarde três perguntas.

1

Eu sei trabalhar em equipe, ou só me empenho quando a fama do resultado é minha?

2

Como reajo à oposição, à zombaria e à calúnia quando faço a obra de Deus?

3

Estou orando e vigiando, ou baixei a guarda diante de um inimigo que não descansa?

Sempre haverá quem se levante contra a obra de Deus. Neemias nos ensina a construir e a proteger ao mesmo tempo: “nós oramos ao nosso Deus e, como proteção, pusemos guarda contra eles, de dia e de noite” (Ne 4.9).

Organização e cooperação

Ninguém constrói muralhas sozinho

Neemias sabia liderar com sabedoria, firmeza, coragem, ânimo, determinação e planejamento. Certamente, valeu-se de toda a sua experiência adquirida ao longo dos anos em que serviu ao rei.

O capítulo 3 revela detalhes de toda a bela organização de tarefas. Cada um ficou incumbido de uma tarefa específica. Havia muita cooperação, como se pode observar através das inúmeras expressões do tipo “ao lado de” ou “ao seu lado” ou “junto a estes”, que se repetem ao longo de todo o capítulo. Eles trabalhavam em equipe e estavam também organizados em turnos, de modo que, quando uma equipe terminava o seu turno, logo era substituída por uma outra que dava sequência ao trabalho (Ne 3.16, 17, 21, 24).

Vale a pena ler o capítulo 3 com calma, porque ele parece apenas uma lista de nomes, mas é um retrato de como Deus trabalha por meio de gente comum. Repare em quem aparece nessa lista.

O sumo sacerdote dá o exemplo. A obra começa com Eliasibe e os sacerdotes reconstruindo o Portão das Ovelhas (Ne 3.1). A liderança espiritual não ficou assistindo de longe; pôs a mão na pedra primeiro.
Gente de todo ofício. Ourives, perfumistas e mercadores, homens acostumados a trabalhos finos, carregaram pedra como todo mundo (Ne 3.8, 32). Na obra de Deus ninguém é especialista demais para servir.
Famílias inteiras. Salum, governador de metade do distrito de Jerusalém, fez os reparos junto com as suas filhas (Ne 3.12). A muralha também foi levantada por mãos femininas.
Cada um diante da própria casa. Os sacerdotes repararam “cada um em frente da sua casa” (Ne 3.28). Quem cuida do trecho que lhe cabe acaba protegendo a cidade inteira.
Um trecho feito com esmero. De Baruque se diz que “reparou com muito cuidado outro trecho” (Ne 3.20). Deus registra não só quem trabalhou, mas como trabalhou.
E os que se recusaram. Os tecoítas trabalharam, “mas os seus nobres não se sujeitaram ao serviço do seu senhor” (Ne 3.5). A Escritura também guardou o nome dos que se acharam importantes demais para servir.

O Novo Testamento chama isso de cooperação: “Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus” (1Co 3.6). O que planta e o que rega “são um, e cada um receberá a sua recompensa de acordo com o seu próprio trabalho”, porque “nós somos cooperadores de Deus” (1Co 3.8-9). Neemias entendeu isso séculos antes: a muralha não tinha dono, tinha servos.

O inimigo escondido

Quando não importa quem leva a fama

A lição do capítulo 3 merece uma seção própria, porque o inimigo da cooperação é discreto: não é a preguiça, é o desejo de aparecer.

Quem quer levar a fama não consegue trabalhar “ao lado de” ninguém, porque o irmão ao lado vira concorrente. Foi exatamente esse espírito que Jesus denunciou nos fariseus, e a advertência vale para todo aquele que serve na obra de Deus:

“Praticam todas as suas obras a fim de serem vistos pelos outros; pois alargam os seus filactérios e alongam as franjas de suas capas. Gostam do primeiro lugar nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas, das saudações nas praças e de serem chamados de ‘mestre’.”Mateus 23.5-7 (NAA)

No mesmo discurso, Jesus dá a medida do Reino: “o maior entre vocês será o servo de vocês. Quem se exaltar será humilhado; e quem se humilhar será exaltado” (Mt 23.11-12). Os nobres de Tecoa, que não quiseram curvar o pescoço ao serviço (Ne 3.5), são o retrato de quem prefere o título ao trabalho. Os ourives e perfumistas, que largaram o ofício fino para carregar pedra, são o retrato contrário.

Quem disputa a fama

Quer o lugar de destaque, mede o serviço pelo reconhecimento, e sabota a obra quando não é o centro. “Não façam nada por interesse pessoal ou vaidade” (Fp 2.3).

Quem serve à obra

Cuida do seu trecho, alegra-se com o trecho do irmão e deixa a glória com Deus. “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (1Pe 5.5).

Ao final, nem Neemias ficou com a fama: os inimigos “decaíram muito no seu próprio conceito”, porque perceberam que aquela obra tinha sido feita por Deus (Ne 6.16). Esse é o destino certo de toda obra bem feita: a glória volta para o Senhor.

De fora e de dentro

A oposição sempre virá

Neemias enfrentou muita oposição. Sempre haverá opositores que se levantarão contra a obra de Deus.

Neemias se deparou com opositores externos, como Sambalá e Tobias, que eram líderes de outros povos, mas também teve de lidar com opositores internos, traidores do próprio povo de Deus, como Semaías (Ne 6.13). E houve ainda um terceiro tipo de problema, mais silencioso: o desânimo e a injustiça dentro do próprio arraial.

Opositores externos

Sambalá, o horonita; Tobias, o amonita; e Gesém, o árabe. Primeiro zombaram e acusaram Neemias de rebelião contra o rei (Ne 2.19). Depois se aliaram aos árabes, amonitas e asdoditas para atacar (Ne 4.7-8). Por fim, tentaram atraí-lo para uma emboscada no vale de Ono (Ne 6.1-4).

Opositores internos

Semaías, contratado por Tobias e Sambalá para amedrontar Neemias com uma falsa profecia (Ne 6.10-13); a profetisa Noadias e outros profetas que queriam intimidá-lo (Ne 6.14); e os nobres de Judá que trocavam cartas com Tobias e falavam bem dele na presença do governador (Ne 6.17-19).

O inimigo de dentro

Desânimo e injustiça também paralisam a obra

Quando o muro chegou à metade, veio a queixa de Judá: “Os carregadores já não têm mais forças, e os escombros são muitos. Nós mesmos não seremos capazes de reconstruir a muralha” (Ne 4.10). E no capítulo 5 estoura um clamor do povo contra os próprios irmãos: os ricos cobravam juros e tomavam campos, vinhas e filhos dos pobres como garantia (Ne 5.1-5). Neemias se irou, pensou bem antes de agir, repreendeu os nobres (“Não é bom o que vocês estão fazendo”, Ne 5.9) e exigiu restituição imediata (Ne 5.11-13). O inimigo de fora não consegue derrubar um muro que o pecado de dentro não tenha enfraquecido primeiro.

Ne 4.10; 5.1-13

A oposição não vem só de fora dos muros; às vezes o ataque mais perigoso nasce dentro do arraial. Por isso é preciso discernimento: “percebi que não era Deus quem o tinha enviado” (Ne 6.12).

O cardápio do adversário

As muitas faces do ataque

Neemias foi escarnecido por seus inimigos, que fizeram pouco caso dele, procurando ridicularizá-lo; teve de enfrentar ataques físicos, ataques morais e calúnias, a traição de um amigo que também se revelou falso profeta e inúmeras provocações. Veja como cada golpe veio, e como foi respondido.

Zombaria (Ne 4.1-3). “O que é que esses judeus fracos estão fazendo?”, dizia Sambalá. E Tobias completava: “se vier uma raposa, derrubará aquela muralha de pedras!”. Resposta de Neemias: oração, e mais trabalho (Ne 4.4-6).
Ataque físico (Ne 4.7-8, 11). Conspiraram “de comum acordo para virem atacar Jerusalém e criar confusão ali”, planejando entrar de surpresa e matar os construtores. Resposta: guarda de dia e de noite, e o povo armado por famílias (Ne 4.9, 13).
Desânimo (Ne 4.10-12). Os carregadores se cansaram, e os judeus da vizinhança vieram “dez vezes” dizer que o ataque viria de todos os lados. Resposta: “Não tenham medo deles. Lembrem-se do Senhor, grande e temível” (Ne 4.14).
Distração (Ne 6.1-4). Quatro vezes convidaram Neemias para uma reunião no vale de Ono, e quatro vezes ele respondeu: “Estou fazendo uma grande obra e não posso descer até aí. Por que devo parar a obra para ir me encontrar com vocês?” (Ne 6.3).
Calúnia (Ne 6.5-9). Uma carta aberta, para todo mundo ler, acusava Neemias de querer ser rei. Resposta: “Nada disso que você está dizendo aconteceu. Você está inventando tudo” (Ne 6.8), e uma oração curta: “fortalece as minhas mãos” (Ne 6.9).
Traição (Ne 6.10-13). Semaías, fingindo profecia, sugeriu que ele se escondesse no templo. Resposta: “Você acha que um homem como eu fugiria? Alguém como eu entraria no templo para salvar a vida? De maneira nenhuma entrarei” (Ne 6.11).
Provocações (Ne 6.17-19). Cartas de Tobias para amedrontar, e nobres de Judá elogiando o inimigo diante do governador. Resposta: continuar a obra, sem desviar.

Estratégia

Uma das mãos na obra, a outra na arma

O capítulo 4 descreve, passo a passo, como Neemias organizou a defesa sem parar a construção. É uma aula de liderança em tempo de crise.

Inspeção e posicionamento. Ele pôs o povo, por famílias, nos pontos baixos e abertos da muralha, com espadas, lanças e arcos (Ne 4.13). Família que luta junta defende o muro junto.
Revezamento. “Metade dos meus homens trabalhava na obra, e a outra metade empunhava lanças, escudos, arcos e couraças” (Ne 4.16). Os carregadores trabalhavam com uma das mãos e com a outra seguravam a arma; os construtores traziam a espada na cintura (Ne 4.17-18).
Comunicação. “Grande e extensa é a obra, e nós estamos espalhados na muralha, longe uns dos outros. No lugar em que ouvirem o som da trombeta, ali reúnam-se em volta de nós. O nosso Deus lutará por nós” (Ne 4.19-20). O toque da trombeta unia quem estava longe.
Disponibilidade total. Ninguém ia dormir fora da cidade; de noite faziam guarda, de dia trabalhavam (Ne 4.22). E o próprio Neemias diz: “nem eu, nem os meus irmãos, nem os meus servos, nem os homens da guarda que me seguiam tirávamos as nossas roupas, nem mesmo para dormir” (Ne 4.23).

Firme e vigilante

Perseverança com discernimento

Neemias também revela outras virtudes, como a perseverança de quem sabe muito bem o que quer e aonde quer chegar, pois ele não desanima diante das críticas dos pessimistas e invejosos de plantão (Ne 2.19-20; 6.3).

Não subestimava o inimigo: estava sempre alerta, orando e vigiando (Ne 4.9, 16). Mas também não se intimidava diante das ameaças dos adversários. Ele dizia: “Não tenham medo deles. Lembrem-se do Senhor, grande e temível” (Ne 4.14). Neemias revelou muito discernimento espiritual para não ser enganado pelos falsos amigos e falsos profetas (Ne 6.12). Ele sabia que o objetivo do suborno era fazê-lo pecar por medo, “para que pudessem atacar a minha reputação e me afrontar” (Ne 6.13).

Repare na resposta que ele deu logo na primeira zombaria: “O Deus dos céus é quem fará com que sejamos bem-sucedidos. Nós, seus servos, vamos nos preparar e começar a reconstrução” (Ne 2.20). A confiança dele não estava no tamanho do exército nem na carta do rei, mas em Deus. Por isso a crítica não o parava, a ameaça não o paralisava e o elogio não o comprava.

Para hoje

O adversário não descansa, mas também não vence

Pedro descreve o mesmo inimigo que rondava Jerusalém: “Sejam sóbrios e vigilantes. O inimigo de vocês, o diabo, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar. Resistam-lhe, firmes na fé” (1Pe 5.8-9). Zombaria, ameaça, calúnia e falsa profecia continuam sendo as armas dele. A resposta continua sendo a de Neemias: orar, vigiar, discernir e não descer do muro.

1Pe 5.8-9; Ne 6.3

Proteção

Muros em volta e muros por dentro

Precisamos fechar as brechas da muralha para nos protegermos contra os ataques inimigos (Ne 4.7).

Foi justamente quando os inimigos ouviram que “já se começavam a fechar-lhe as brechas” que ficaram muito irados (Ne 4.7). Brecha fechada incomoda o adversário. Neemias nos ensina a levantar muros de proteção não apenas em volta da cidade, mas também em torno de si. Há brechas na vida e na família que, se ficarem abertas, tornam-se porta de entrada para o adversário. Vigiar o coração é parte da obra.

O fruto do esforço

Cinquenta e dois dias

Os muros foram reconstruídos em apenas 52 dias (Ne 6.15)! Isto é que é trabalho em equipe debaixo da orientação e da bênção de Deus (Ne 6.16)!

“A reconstrução da muralha foi terminada aos vinte e cinco dias do mês de elul, em cinquenta e dois dias” (Ne 6.15). Uma muralha que estava em ruínas havia mais de um século ficou de pé em menos de dois meses, no meio de zombaria, ameaça de guerra, calúnia e traição. Quando o povo se une, cada um cuida da sua parte e ninguém disputa a fama, a obra avança e a glória fica com o Senhor: “todos os gentios à nossa volta temeram e decaíram muito no seu próprio conceito”, porque perceberam que a obra era de Deus (Ne 6.16).

Tempos depois, na dedicação do muro, dois grandes coros caminharam sobre a muralha em direções opostas até se encontrarem na Casa de Deus, “de modo que a alegria de Jerusalém podia ser ouvida de longe” (Ne 12.31-43). O muro que nasceu de lágrimas (Ne 1.4) terminou em cântico.

Para a vida

Aplicações práticas

1

Aprenda a trabalhar em equipe. Cuide da sua parte do muro sem disputar holofote; a obra é de Deus, não sua vitrine (Ne 3.28; 1Co 3.9).

2

Não seja nobre de Tecoa. Nenhum título, formação ou cargo dispensa alguém de servir (Ne 3.5; Mt 23.11).

3

Não se surpreenda com a oposição. Ela virá de fora e, às vezes, de dentro. Peça discernimento para não ser enganado (Ne 6.12).

4

Ore e vigie. Não subestime o inimigo nem se intimide com ameaças: o Senhor é grande e temível (Ne 4.9, 14).

5

Não desça do muro. Há convites que só servem para tirar você da obra; responda como Neemias (Ne 6.3).

6

Feche as brechas, na muralha e no coração. Muro com falha é convite ao inimigo (Ne 4.7).

Fixação

Cartões de memorização

Toque em cada cartão para virar. Comece pelo versículo e siga pelos conceitos da aula.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco perguntas com correção imediata. Ao escolher, você vê na hora o acerto, a alternativa certa e um comentário que ensina.

Respondidas: 0 de 5

Para orar e responder

Reflexões

1. Reflexão pastoral: onde está a brecha no meu muro?

Que brecha o inimigo tem usado para me atacar: no caráter, no tempo, nas amizades, na família, nas finanças? E qual é o meu “vale de Ono”, o convite que vive me tirando da obra?

Resposta sugerida: identificar uma brecha concreta, levá-la a Deus em oração e tomar uma providência prática de vigilância nesta semana, sem desanimar diante da luta (Ne 4.9, 14). Se houver um convite que sempre desvia você do que Deus lhe deu para fazer, aprenda a dizer: “Estou fazendo uma grande obra e não posso descer” (Ne 6.3).

2. Reflexão apologética: “se é obra de Deus, por que enfrenta tanta oposição?”

Alguns pensam que oposição é sinal de que estamos no caminho errado, e que a obra abençoada por Deus corre sem tropeços. Como responder com mansidão?

Resposta sugerida: em Neemias, a oposição intensa acompanhou justamente a obra abençoada por Deus (Ne 4; 6). A luta não prova que erramos; muitas vezes confirma que tocamos algo que o inimigo não queria ver reconstruído. Nossa batalha “não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados e as potestades” (Ef 6.12), e o próprio Jesus avisou que o servo não é maior que o seu senhor (Jo 15.20). O que distingue a obra de Deus não é a ausência de oposição, mas a presença de Deus no meio dela: “O nosso Deus lutará por nós” (Ne 4.20).

3. Reflexão para a igreja: quem são os “nobres de Tecoa” e os “ourives” entre nós?

Na minha comunidade, quem está carregando pedra em silêncio e quem está apenas cobrando resultado de longe? E eu, de qual lado estou?

Resposta sugerida: agradecer a Deus, pelo nome, por duas ou três pessoas que servem sem aparecer, e dizer isso a elas nesta semana. Depois, examinar se há algum serviço que eu venho recusando por achar que “não é para mim”, e assumir um trecho do muro (Ne 3.5, 8; Fp 2.3-4).

Conclusão

Neemias liderou com organização e humildade: cada um no seu posto, ninguém disputando a fama, a glória para Deus (Ne 3; 6.16).

Diante da oposição de fora e de dentro, ele orou, vigiou, discerniu e não se intimidou. Com uma das mãos na obra e a outra na arma, em 52 dias o muro estava de pé (Ne 4.17, 20; 6.15).

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Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil. Referências na versão Nova Almeida Atualizada (NAA).