[O capítulo começa no fim da entrada anterior, em Frederica, na Geórgia, março de 1736.] … “andem com sabedoria para com os que estão de fora, aproveitando bem cada oportunidade. A palavra de vocês seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibam como responder a cada um.” “Digam a Arquipo: Cuide do ministério que recebeu no Senhor, para cumpri-lo.” (Cl 4.2-6,17.) Às nove voltei e me deitei no barco.
Entre cinco e seis da manhã li algumas orações a um pequeno grupo, junto ao fogo, diante da tenda do Sr. Oglethorpe, debaixo de um forte aguaceiro. O Sr. Oglethorpe tinha montado uma tenda para as mulheres, perto da sua. Perto do meio-dia encontrei uma oportunidade de conversar, à porta da tenda, com a Sra. W. Esforcei-me para preveni-la contra as preocupações do mundo e para levá-la a entregar-se a Deus no sacrifício cristão; mas não adiantou. Deus não quis dar peso às minhas palavras, e por isso elas não causaram nenhuma impressão.
Depois do almoço, comecei a conversar com a Sra. Germain sobre batizar o filho dela por imersão. Ela era muito contrária à ideia, embora reconhecesse que a criança era forte e saudável. Falei então com o marido, que logo se convenceu e trouxe a esposa a concordar também.
À noite tentei reconciliar a Sra. W. com a Sra. H., garantindo-lhe que esta não lhe queria mal nenhum. Ela respondeu: “Não me diga isso. A Sra. H. é uma mulher muito astuta. Eu a conheço perfeitamente. Há um homem importante envolvido nisso, por isso não posso falar; só digo que ela tem um ciúme enorme de mim.” A chegada de outras pessoas a impediu de dizer mais.
Às dez da manhã comecei o ofício completo, para cerca de uma dúzia de mulheres que eu tinha reunido, com a intenção de continuar assim e ler apenas algumas orações aos homens antes de irem trabalhar. Expliquei também a segunda leitura com certa ousadia, como já havia feito algumas vezes antes.
Depois das orações, encontrei a criada da Sra. H. num acesso de choro, por ter sido agredida pela patroa. Parecia decidida a acabar com a própria vida para escapar daquela escravidão egípcia. Com muita dificuldade consegui convencê-la a voltar e a levei de volta à patroa. Quando pedi à Sra. H. que a perdoasse, ela me recusou com a maior aspereza, fúria e quase insultos.
O Sr. Tackner, com quem falei em seguida, me compensou plenamente. Estava num ótimo estado de espírito, resolvido a lutar, não contra a esposa, mas contra si mesmo, despojando-se do velho homem e revestindo-se do novo.
À noite ouvi a primeira palavra dura do Sr. Oglethorpe, quando lhe pedi algo para uma mulher pobre. No dia seguinte fui surpreendido por uma resposta ainda mais grosseira, num assunto que merecia bem mais incentivo. Não sei como explicar essa frieza crescente da parte dele.
Recebi o mesmo tratamento ao falar com a Sra. W., que encontrei toda tempestade e fúria. A mansa e dócil Sra. W. (aquela que conheci no navio) estava agora tão obstinada, tão intratável, tão áspera, que não suportei ficar perto dela. E não melhorei em nada ao esbarrar de novo no Sr. Oglethorpe, que estava com os homens em armas, à espera de um inimigo. Ainda assim fiquei o máximo que pude,
“Inseguro sob o vento
de tamanha comoção;”
mas por fim o furacão da fúria dele me afugentou.
Tivemos orações debaixo de uma grande árvore. Na Epístola me foi mostrado com clareza o que eu devia ser e o que devia esperar: “Não damos, em coisa alguma, motivo de escândalo, para que o nosso ministério não seja censurado; antes, em tudo, recomendamo-nos como ministros de Deus: em muita perseverança, em aflições, em necessidades, em angústias, em açoites, em prisões, em tumultos, em trabalhos, em vigílias, em jejuns; na pureza, no conhecimento, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, no amor não fingido, na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, à direita e à esquerda; por honra e por desonra, por má fama e por boa fama; como enganadores, ainda que verdadeiros; como desconhecidos, ainda que bem conhecidos; como morrendo, mas eis que vivemos; como castigados, mas não mortos; como entristecidos, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, mas possuindo tudo.” (2Co 6.3-10.)
Preguei com ousadia sobre a sinceridade de intenção, para cerca de vinte pessoas, entre as quais estava o Sr. Oglethorpe. Pouco depois, enquanto ele estava na cabana da Sra. H., uma bala (pela imprudência de um dos homens que faziam exercícios naquele dia) atravessou a parede, passando bem perto dele.
A Sra. Germain agora voltou atrás no consentimento de batizar o filho; mesmo assim batizei o filho da Sra. Colwell por tríplice imersão, diante de uma numerosa congregação.
À noite senti-me extremamente fraco, mas não tinha cama melhor do que o chão; nele dormi muito confortavelmente, diante de uma grande fogueira, e acordei na manhã seguinte perfeitamente bem.
Passei o dia inteiro escrevendo cartas para o Sr. Oglethorpe. Eu não passaria mais seis dias assim nem por toda a Geórgia.
Encontrei uma oportunidade de dizer à Sra. W. que o motivo de eu não ter conversado com ela ultimamente era o meu desespero de conseguir fazer-lhe algum bem. Ela reconheceu que estava inteiramente mudada, mas não conseguia me dizer a causa. Adivinhei-a imediatamente e mencionei a minha suspeita. Ela confessou que era verdade. Minha alma se encheu de compaixão, e pedi a Deus que o pecado de outros não a levasse à ruína.
Hoje o Sr. Oglethorpe partiu com os índios para caçar búfalo no continente e para ver até onde chegavam os limites daquilo que eles reivindicavam. À tarde, a Sra. W. me revelou todo o mistério da iniquidade.
Fui até o meu caminho das murtas, e enquanto repetia “Graças te dou porque me acudiste e te tornaste a minha salvação” (Sl 118.21), um tiro foi disparado do outro lado dos arbustos. A Providência acabara de me desviar daquela ponta do caminho, por onde a bala passou; mas eu a ouvi passar bem perto de mim.
O Sr. Oglethorpe tinha ordenado, mais de uma vez, que ninguém atirasse aos domingos. Germain fora levado à casa da guarda por isso, de manhã, mas, ao submeter-se, foi solto. No meio do sermão, um tiro foi disparado. Davison, o oficial de justiça, saiu correndo e viu que fora o Doutor; disse-lhe que era contra as ordens e que se via obrigado a pedir-lhe que se apresentasse ao oficial. Diante disso, o Doutor teve um enorme acesso de raiva e disse: “Como? Você não sabe que eu não posso ser tratado como um sujeito qualquer?” Sem saber o que fazer, o oficial de justiça foi embora e voltou, depois de consultar Hermsdorf, com dois sentinelas, e o levou à casa da guarda. Diante disso, a Sra. H. carregou e disparou uma arma; e então correu para lá, como uma louca, gritando que também tinha atirado e que também queria ser presa. O oficial e Hermsdorf a persuadiram a ir embora. Ela praguejou e blasfemou no maior arrebatamento de fúria, ameaçando matar o primeiro homem que dela se aproximasse. Ah, meu irmão! O que foi feito da sua promissora convertida?
À tarde, enquanto eu conversava na rua com a pobre Catherine, a patroa dela chegou até nós e caiu sobre mim com a maior amargura e grosseria; disse que ia me arruinar, a mim e a meu irmão, a quem antes julgara honesto, mas de quem agora estava desenganada; que eu era a causa da prisão do marido dela; mas que ela iria se vingar e expor a minha maldita hipocrisia, as minhas orações quatro vezes ao dia ao rufar do tambor, e muito mais que não posso escrever, e que eu julgava que nenhuma mulher, ainda que tirada de Drury Lane [N. do T.: bairro londrino de má fama], poderia ter dito. Eu apenas disse que tinha pena dela, mas que desafiava tudo o que ela ou o diabo pudessem fazer, pois ela não podia me ferir. Fui estranhamente preservado de me irritar e, ao nos despedirmos, disse-lhe que esperava que ela logo chegasse a um pensamento melhor.
Na hora de recolhimento da noite, entreguei-me a Deus, na oração de meu irmão pela conformidade a um Salvador sofredor.
Fraco e cansado pela fadiga do dia, senti a minha falta de verdadeira santidade e roguei a Deus que me desse consolo por meio da sua palavra. Li então, na leitura da noite: “Mas tu, ó homem de Deus, foge dessas coisas. Antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão. Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão diante de muitas testemunhas.” (1Tm 6.11,12.) Antes das orações, dei uma volta com o Sr. Ingham, que ficou surpreso por eu não achar que a inocência fosse proteção suficiente. Na verdade, eu não lhe tinha contado o que a Sra. W. me revelara. À noite fui forçado a trocar a minha cama de sempre, o chão, por uma arca, quase sem voz por causa de um forte resfriado.
Lendo Hebreus 11, senti a minha fé reviver, e fiquei confiante de que Deus ou desviaria a provação ou me fortaleceria para suportá-la. À tarde, o Sr. Davison me informou que o Doutor mandara dizer à esposa que se armasse com um dos instrumentos do estojo dele e fugisse à força; que falasse primeiro com o Sr. Oglethorpe e até apunhalasse quem quer que a tentasse impedir. A Sra. Perkins me contou ter ouvido a Sra. H. dizer: “O Sr. Oglethorpe não tem coragem de me punir.” Fui encorajado pela leitura: “Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação. Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro dele; antes, participa comigo dos sofrimentos do evangelho, segundo o poder de Deus.” “Para isso fui constituído pregador. Por essa causa também sofro estas coisas, mas não me envergonho, porque eu sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia.” (2Tm 1.7,8,11,12.)
Fui capacitado a orar fervorosamente pelos meus inimigos, em especial pelo Sr. Oglethorpe, a quem eu agora considerava o principal deles. Depois entreguei-me inteiramente à vontade de Deus, pedindo que agora não me faltasse poder para orar, justamente quando eu mais precisava dele. Veio então o Sr. Ingham e leu o Salmo 37: uma gloriosa exortação à paciência e à confiança em Deus, a partir do destino diferente do bom e do ímpio. Depois do café da manhã, voltei de novo à intercessão, particularmente pela Sra. W., para que Satanás, na forma daquela outra mulher perversa, não ficasse à sua direita. Em dúvida se deveria ou não interceder pelos presos, consultei o oráculo [N. do T.: abrir a Bíblia ao acaso em busca de direção] e me deparei com Jeremias 44.16,17: “Quanto à palavra que nos falaste em nome do Senhor, não te daremos ouvidos; antes, certamente cumpriremos tudo o que saiu da nossa boca.” Isso me decidiu a não me envolver com eles de forma alguma.
Às onze encontrei a Sra. Perkins, que me falou da desonra que a Sra. H. trouxe sobre o Sr. Oglethorpe e do total desânimo que será para o povo se ela for apoiada. Ela me informou ainda que a Sra. W. começa a se arrepender de ter se envolvido tanto com a outra, confessando que o fez por covardia, por pensar que o Sr. Oglethorpe a defenderia contra o mundo todo.
Logo depois conversei com a Sra. W. e, com o maior espanto, ouvi-a acusar a si mesma. Que horror! Nunca senti tamanha compaixão. Entreguei-me à oração por ela. O Sr. Ingham logo se juntou a mim. Todas as orações exprimiam plena confiança em Deus, quando nos avisaram que o Sr. Oglethorpe estava desembarcando. A Sra. H., o Sr. Ingham e eu fomos chamados. Encontramo-lo na tenda, com o povo em volta; o Sr. e a Sra. H. dentro. Depois de uma breve audiência, os oficiais foram repreendidos e os presos, liberados. Ao sair, a Sra. H. me disse com modéstia que tinha mais coisas a dizer contra mim, mas que ficariam para outra ocasião. Respondi apenas: “A senhora sabe, minha senhora, que me é impossível temê-la.” Quando eles se foram, o Sr. Oglethorpe disse que estava convencido e satisfeito de que eu não tivera parte alguma em tudo aquilo. Disse-lhe que tinha algo a lhe comunicar, da maior importância, quando ele tivesse tempo. Ele não deu atenção, apenas leu as suas cartas; e eu me afastei com o Sr. Ingham, que estava completamente atônito. O desfecho é exatamente o que eu esperava.
Fiquei impressionado com aquelas palavras da leitura da noite: “Tu, pois, meu filho, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus.” “Suporta os sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus.” “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado dos mortos, descendente de Davi, segundo o meu evangelho, pelo qual sofro a ponto de ser preso como criminoso; mas a palavra de Deus não está presa. Por isso, tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus, com glória eterna. Fiel é a palavra: se já morremos com ele, também com ele viveremos; se perseveramos, também com ele reinaremos.” (2Tm 2.1,3,8-12.) Depois da leitura, não pude deixar de acrescentar: “Não preciso dizer nada. Deus em breve aplicará isto.” Glória seja dada a Deus pela minha confiança até aqui! Ah, o que sou eu, se deixado a mim mesmo? Mas tudo posso fazer e sofrer por meio de Cristo, que me fortalece.
Às cinco ouvi o segundo toque de tambor para as orações, que eu havia pedido ao Sr. Ingham que lesse, por estar muito debilitado pela febre. Mas, considerando que eu devia aparecer especialmente naquela ocasião, levantei-me e ouvi aquelas palavras animadoras: “Se alguém me serve, siga-me; e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará. Agora, a minha alma está perturbada, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas foi para isso que vim a esta hora. Pai, glorifica o teu nome.” (Jo 12.26-28.)
Às sete e meia o Sr. Oglethorpe me chamou para fora da minha cabana. Olhei para Deus e fui. Ele me acusou de motim e sedição, de incitar o povo a abandonar a colônia. Disse que eles tinham tido uma reunião na noite anterior e lhe mandaram, naquela manhã, um recado pedindo permissão para partir; que o porta-voz deles os denunciara, apontando a mim como a origem de tudo; que os homens eram justamente os que vinham sempre às orações, e portanto eu devia tê-los instigado; que ele não teria escrúpulos em fuzilar meia dúzia deles de uma vez; mas que, por bondade, tinha falado primeiro comigo. Minha resposta foi: “Peço-lhe, senhor, que não leve em conta os meus irmãos, os meus amigos, nem o afeto que teve por mim, se algo disto for provado contra mim. Não sei nada da reunião nem dos planos deles. Dos que o senhor mencionou, nenhum vem sempre às orações ou ao sacramento. Nunca incitei ninguém a deixar a colônia. Desejo responder ao meu acusador cara a cara.” Ele me disse que o meu acusador era o Sr. Lawley, que traria, se eu esperasse ali. Acrescentei: “O Sr. Lawley é um homem que declarou não conhecer razão nenhuma para se manter em bons termos com quem quer que seja, a não ser o intuito de tirar dele tudo o que puder; mas nada havia a ganhar com os pobres pastores.” Perguntei-lhe se ele mesmo não estava certo de que havia homens suficientes em Frederica dispostos a dizer ou jurar qualquer coisa contra qualquer homem em desgraça; se, caso ele próprio fosse afastado ou fracassasse, toda a corrente do povo não se voltaria contra ele; e até este mesmo Lawley, que fora, de todos, o mais violento em condenar os presos e justificar os oficiais. Observei que este era o velho brado: “Cristãos aos leões!” Mencionei a difamação que o Sr. H. e a esposa faziam de meu irmão e de mim, e o juramento de vingança contra nós dois, ameaçando-me ainda ontem, mesmo na presença dele. Perguntei que reparação ou satisfação era devida à minha reputação, e que bem eu poderia fazer na minha paróquia atual, se ficasse impedido, pelas calúnias deles, de sequer ver metade dela. Terminei garantindo-lhe que eu tinha feito e ainda faria questão de promover a paz entre todos. Não senti perturbação alguma enquanto falava, mas elevei o coração a Deus e o encontrei presente comigo. Enquanto o Sr. Oglethorpe ia buscar Lawley, pensei nas palavras de nosso Senhor: “sereis levados à presença de governadores e reis, por minha causa. Mas, quando vos entregarem, não vos preocupeis de como ou o que haveis de falar, porque, naquela hora, vos será dado o que haveis de dizer.” (Mt 10.18,19.) E recorri a Ele por ajuda e por palavras para a minha defesa.
Antes de o Sr. Oglethorpe voltar, passei na casa do Sr. Ingham e lhe pedi que orasse por mim; depois caminhei e, refletindo sobre o que estava por vir, abri o livro em Atos 15.31-33: “Quando a leram, alegraram-se pela exortação que os animava; exortaram e fortaleceram os irmãos com muitas palavras. E, depois de se deterem ali por algum tempo, foram despedidos em paz pelos irmãos.” Chegando o Sr. Ingham, contei-lhe tudo o que havia acontecido. Ao avistar o Sr. Oglethorpe e Lawley, ele se retirou.
O Sr. Oglethorpe observou que o lugar era público demais. Ofereci-me para levá-lo ao meu caminho habitual no bosque. No trajeto, Deus me pôs no coração dizer: “Mostre apenas a menor relutância em me achar culpado, e o senhor verá que reviravolta isso dará na acusação.” Ele captou a dica e, em vez de intimar Lawley a comprovar a acusação, começou falando da contenda em geral; mas não se mostrou irritado comigo, nem desejoso de me culpar. Lawley, que parecia cheio de culpa e medo, diante disso abandonou a acusação, ou reduziu-a a que eu “obrigava o povo a ir às orações”. Respondi que o próprio povo me inocentaria disso; e, quanto à briga dos oficiais, apelei aos próprios oficiais para atestar a verdade da minha afirmação de que eu não tivera parte alguma nela; declarei o meu desejo e a minha resolução de promover a paz e a obediência; e, quanto ao povo, estava convencido de que o desejo deles de deixar a colônia nascia de um mal-entendido, não de má vontade. Aqui o Sr. Oglethorpe falou em reconciliar as coisas; mandou Lawley dizer aos peticionários que ele nem sequer perguntaria quem eram, contanto que ficassem quietos dali em diante. “Espero”, acrescentou ele, “que fiquem; e o Sr. Wesley aqui também espera isso.” “Sim, senhor”, diz Lawley, “eu realmente acredito nisso do Sr. Wesley, e sempre tive grande respeito por ele.” Virei-me e disse ao Sr. Oglethorpe: “Não lhe disse que seria assim?” Ele respondeu a Lawley: “Sim; o senhor sempre teve grande respeito pelo Sr. Wesley. E me disse que ele era um incitador de sedição e a origem de toda esta agitação.” Com essa suave reprimenda, o dispensou; e eu lhe agradeci por ter falado primeiro comigo sobre aquilo de que eu era acusado, rogando-lhe que fizesse sempre assim. Ele prometeu, e então caminhei com ele até a porta da Sra. H. Ela saiu horrorizada ao me ver com ele. Ali ele me deixou, “e eu fui livrado da boca do leão”.
Fui para a minha cabana, onde encontrei o Sr. Ingham. Ele me disse que aquilo era apenas o começo das dores. “Não seja como eu quero, e sim como tu queres.” (Mt 26.39.) Por volta do meio-dia, no meio de uma violenta tempestade de trovões e relâmpagos, li o Salmo 18 e o achei gloriosamente adequado às minhas circunstâncias. Nunca senti as Escrituras como agora. Agora que preciso delas, descubro que todas foram escritas para a minha instrução e o meu consolo. Ao mesmo tempo, sinto grande alegria na expectativa de nosso Salvador vindo assim para o juízo, quando os segredos de todos os corações serão revelados, e Deus tornará a minha inocência clara como a luz, e a minha retidão como o meio-dia.
Às três caminhei com o Sr. Ingham e li para ele a história deste dia espantoso. Alegramo-nos juntos na proteção de Deus e no consolo das Escrituras.
A leitura da noite foi cheia de encorajamento: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis. Pois os homens serão caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos; eles, porém, não irão avante, porque a sua insensatez será manifesta a todos. Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino, a minha maneira de viver, e as perseguições que suportei; mas de todas o Senhor me livrou. Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça.” (2Tm 3.1-4,9-13,16.) Bendito seja Deus, começo a comprovar que é assim!
Encontrando-me com o Sr. Hird, convenci-o a usar toda a sua influência com o povo, para que deixassem de lado qualquer pensamento de abandonar a colônia. Ele me disse que garantira ao Sr. Oglethorpe que essa sempre fora a minha linguagem para com ele e os demais; mas recebeu a resposta seca: “Não me diga isso; eu sei melhor.”
Depois de passar uma hora no acampamento, cantando os Salmos que se ajustavam à ocasião, fui deitar-me na cabana, que estava completamente encharcada pela chuva do dia.
“A minha vida está sempre em perigo, mas não me esqueço da tua lei.” (Sl 119.109.) Cedo, esta manhã, o Sr. Oglethorpe me chamou para fora, para me falar do aborto sofrido pela Sra. Lawley, por lhe terem negado acesso ao Doutor para uma sangria. Parecia muito irritado e me responsabilizava por isso, dizendo que seria um tirano se deixasse passar injúrias tão intoleráveis. Respondi que eu nada sabia do assunto, e que era duro que me atribuíssem a culpa; que, desde o início, Hermsdorf dissera ao Doutor que ele podia visitar quais pacientes quisesse, mas o Doutor não quis. Neguei ter tido a menor participação em todo o caso, como o próprio Hermsdorf havia declarado. Ele disse: “O próprio Hermsdorf me garantiu que o que fez, fez por conselho seu.” Respondi: “O senhor deve ter entendido mal o inglês imperfeito dele; pois muitos o ouviram dizer o contrário disto. Ainda assim, tenho de ser culpado por toda a desgraça.” “De que outro modo pode ser”, disse ele, “que não haja amor, nem mansidão, nem verdadeira religião entre o povo? Mas, em lugar disso, apenas orações formais.” “Quanto a isso, posso responder por eles: não têm mais da aparência de piedade do que do poder dela. Raramente tenho mais de seis pessoas no culto público.” “Mas o que diria um incrédulo ao ver o senhor provocar estas desordens?” “Ora, se eu as tivesse provocado, ele poderia dizer que não há nada na religião; mas que valeria isso para os que já a experimentaram? Estes não diriam tal coisa.” Ele me disse que o povo estava cheio de temor e confusão; que era muito mais fácil governar mil do que sessenta homens, pois, num número tão pequeno, a paixão de cada um pesava muito; que ele não tinha coragem de deixá-los antes que estivessem assentados, e assim por diante. Perguntei-lhe: “O senhor quer que eu deixe de conversar por completo com os meus paroquianos?” A isso não consegui resposta, e prossegui: “A razão de eu não ter intercedido nem a favor nem contra o Doutor foi ele, no começo, ter me responsabilizado pela própria prisão. Conversei menos com os meus paroquianos nestes últimos cinco dias do que costumava conversar numa única tarde antes. Evitei aparecer em público, para que não me pedissem conselho, ou para que, se eu ouvisse outros conversando, o meu próprio silêncio não fosse interpretado como conselho. Mas há um argumento da minha inocência que posso dar, e que convencerá até o senhor. Sei que a minha vida está nas suas mãos; e o senhor sabe que, se franzisse a testa para mim e desse o menor sinal de que isso lhe agradaria, a maioria desta gente miserável diria ou juraria qualquer coisa.” A isso ele concordou e reconheceu que era assim com todos eles. “O senhor vê que a minha segurança depende unicamente da opinião que tem de mim. Não seria eu, então, um louco, se numa situação dessas o provocasse perturbando a paz pública? A inocência, bem sei, não é a menor das proteções; mas a minha firme confiança está em Deus.” Aqui a chegada de outras pessoas nos interrompeu, e eu o deixei.
Deixei de me preocupar com o desfecho depois de ler aquelas palavras na leitura da manhã: “Para onde eu vou, você não pode seguir-me agora; mas depois me seguirá.” (Jo 13.36.) Amém. Quando te aprouver. O teu tempo é o melhor.
O Sr. Oglethorpe, encontrando-me à noite, perguntou a que horas eu tinha as orações. Respondi que aguardava a conveniência dele. Enquanto o povo chegava devagar, eu disse: “O senhor vê que eles não dão importância demais às formas.” “A razão disso é que outros as idolatram.” “Creio que poucos faltam por esse motivo.” “Não sei se é assim.” O Sr. Oglethorpe postou-se em frente a mim e uniu a voz às orações. O capítulo parecia feito para mim, e eu o li com grande ousadia: “Conjuro-te, diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, quando se manifestar no seu Reino: prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina.” “Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre plenamente o teu ministério.” “Na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; antes, todos me desampararam.” “Mas o Senhor esteve ao meu lado, para que, por meu intermédio, a pregação fosse cabalmente conhecida, e todos os gentios a ouvissem; e fui libertado da boca do leão. O Senhor me livrará de toda obra maligna e me levará salvo para o seu Reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém.” (2Tm 4.1-3,5,17,18.)
Nesta manhã começamos os últimos discursos de nosso Senhor aos discípulos; cada palavra foi providencialmente dirigida ao meu consolo, mas em especial estas: “Não se turbe o coração de vocês; creem em Deus, creiam também em mim.” “Não os deixarei órfãos; voltarei para vocês.” “Deixo a vocês a paz, a minha paz dou a vocês. Não se turbe o coração de vocês, nem se atemorize.” (Jo 14.1,18,27.)
Fiquei sensivelmente preocupado esta tarde ao saber que a Sra. W. está ficando cada vez mais parecida com a Sra. H.: declara que não vai mais se submeter a padres, zomba das orações e fala no linguajar solto e escandaloso da amiga. À noite me veio ao pensamento a ideia de mandar o Sr. Ingham buscar meu irmão. Ele era muito avesso a me deixar em minhas provações, mas por fim foi persuadido a ir.
Fui ao armazém (o nosso tabernáculo por enquanto) para ouvir o que o Senhor Deus haveria de dizer a meu respeito. Tanto eu quanto a congregação fomos impactados pela primeira leitura: José e a mulher de Potifar. A segunda foi ainda mais animadora: “Se o mundo os odeia, saibam que, primeiro do que a vocês, me odiou a mim. Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu.” (Jo 15.18,19.) Depois das orações, o pobre Sr. Davison ficou para trás, a fim de se despedir do Sr. Ingham. Desatou a chorar e disse: “Um homem bom já está nos deixando. Não prevejo senão desolação. Terão os meus pobres filhos de ser criados como estes selvagens?” Procuramos consolá-lo, mostrando-lhe a sua vocação. Às dez, o Sr. Ingham pregou um sermão alarmante sobre o dia do juízo e se uniu a mim ao oferecer o sacrifício cristão.
No meu passeio ao meio-dia, eu estava cheio de peso no coração; queixei-me a Deus de que não tinha amigo algum senão Ele, e de que nem mesmo Nele conseguia agora encontrar consolo. Imediatamente recebi poder para orar; então, abrindo a minha Bíblia, li o seguinte: “Ouçam-me, vocês que seguem a justiça, que buscam o Senhor; olhem para a rocha de que foram cortados.” “Não temam o opróbrio dos homens, nem se turbem por causa das suas injúrias.” “Quem és tu, para que temas o homem, que é mortal, e continuamente, todo o dia, tremas por causa do furor do opressor? E onde está o furor do opressor?” (Is 51.1,2,7,12,13.) Depois de ler isto, não é de admirar que eu me sentisse renovado na confiança.
Enquanto o Sr. Ingham esperava o barco, dei uma volta com o Sr. Horton. Ele me convenceu por completo do verdadeiro caráter da Sra. H.: ingrata no mais alto grau, uma prostituta ordinária, uma completa hipócrita. Contou-me que ela e o marido lhe imploraram de joelhos que intercedesse junto ao Sr. Oglethorpe para não os expulsar do navio, o que seria a ruína total deles. Ele de fato o fez, embora o Sr. Oglethorpe a princípio lhe garantisse que preferiria dar cem libras a tê-los ali. A primeira pessoa sobre quem ela se voltou, depois disso, foi o próprio Sr. Horton, a quem insultou, como desde então tem feito comigo. Dele apressei-me para a beira d’água, onde encontrei o Sr. Ingham acabando de partir. Ó amigo feliz, felicíssimo! Abiit, erupit, evasit! [N. do T.: “Partiu, escapou, livrou-se!”] Mas ai de mim, que ainda sou obrigado a habitar em Meseque! (Sl 120.5.) Ansiei por lhe fazer companhia, segui-o com os olhos até sumir de vista, e então afundei numa tristeza mais profunda do que jamais conhecera.
Fui reanimado por aquelas palavras de nosso Senhor: “Tenho dito estas coisas a vocês para que não se escandalizem. Eles os expulsarão das sinagogas; vem a hora em que qualquer que os matar julgará com isso prestar culto a Deus. E isso farão porque não conheceram o Pai, nem a mim.” “No mundo, vocês terão aflições; mas tenham bom ânimo! Eu venci o mundo.” (Jo 16.1-3,33.)
Sabendo que eu ia morar com o Sr. Oglethorpe, não trouxera nada da Inglaterra, exceto as minhas roupas e livros. Mas esta manhã, ao pedir a uma criada algo de que precisava (creio que uma chaleira), disseram-me que o Sr. Oglethorpe dera ordem de que ninguém usasse coisa alguma dele. Respondi que aquela ordem, supunha eu, não se estendia a mim. “Sim, senhor”, diz ela, “o senhor foi excetuado pelo nome.” Graças a Deus, ainda não é crime capital me darem um pedaço de pão.
Tendo eu dormido até aqui no chão, num canto da cabana do Sr. Reed, e ouvindo que umas tábuas iam ser distribuídas, tentei em vão conseguir algumas para me deitar. Foram dadas a todos os outros. Só o pastor de Frederica há de ficar [N. do T.: aqui, no original, em grego: sem teto, sem recursos]. E, no entanto, não fomos chamados justamente para isto, [N. do T.: em grego no original: passar necessidade, ser maltratado]? Até o Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça!
Descubro que a Escritura é um manancial inesgotável de consolo: “Acaso a minha mão se encurtou de modo que não possa remir? Ou não há em mim força para livrar? Ofereço as minhas costas aos que me ferem e a minha face aos que me arrancam a barba; não escondo o rosto dos que me afrontam e me cospem. Porque o Senhor Deus me ajuda, por isso não me deixo abater; por isso faço o meu rosto como um seixo, porque sei que não serei envergonhado. Perto está aquele que me justifica; quem contenderá comigo? Compareçamos juntos; quem é o meu adversário? Chegue-se para mim. Eis que o Senhor Deus me ajuda; quem há que me condene?” (Is 50.2,6-9.)
Começo agora a ser tão maltratado e desprezado que quase me convenço da minha própria importância. Eu não poderia ser mais pisoteado se fosse um ministro de Estado caído em desgraça. O povo descobriu que estou em desgraça, e o brado geral é: “Corramos depressa e, enquanto o inimigo de César jaz na margem, pisemos sobre ele.” [N. do T.: verso latino de Juvenal.] Os meus poucos simpatizantes têm medo de falar comigo. Alguns desviaram do caminho para me evitar. Outros pediram que eu não levasse a mal se fingissem não me conhecer quando nos encontrássemos. A criada que costumava lavar a minha roupa devolveu-a sem lavar. Foi motivo de grande triunfo eu ser proibido de usar as coisas do Sr. Oglethorpe, ficando na prática privado da maioria das comodidades, senão das necessidades, da vida. Ora eu tinha pena, ora me divertia com as estranhas expressões do desprezo deles; mas achei proveitoso já ter passado por um grau bem menor de humilhação em Oxford.
No meio do ofício da manhã, foi trazido um pobre remador de barco de reconhecimento, quase morto pela explosão de um canhão. Encontrei-o sem sentidos e à morte. Tudo o que pude fazer foi orar por ele e tentar, pelo exemplo dele, despertar os seus dois companheiros. Ele definhou até o dia seguinte e morreu.
Até aqui eu tinha sido sustentado por um espírito que não era o meu; mas a natureza exausta por fim cedeu. É espantoso que ela tenha resistido tanto tempo. As minhas dificuldades externas e os meus conflitos internos, a amargura da reprovação vinda do único homem a quem eu desejava agradar, “por fim derrubaram a minha alardeada coragem.” Por isso, esta tarde, fui forçado por uma febre amiga a ficar de cama. A minha doença, eu sabia, não poderia durar muito; mas, como me faltavam todos os recursos e comodidades, ou logo me deixaria ou me libertaria de sofrimentos maiores.
À noite, a Sra. Hird e a Sra. Robinson vieram me ver e me ofereceram toda a ajuda ao seu alcance. Agradeci, mas pedi que não se prejudicassem dando essa atenção a mim. Nesse instante fomos alarmados por um grito de que os espanhóis tinham chegado; ouvimos muitos tiros e vimos o povo fugir em grande pânico para o forte. Não senti a menor perturbação ou susto; disse às mulheres que não temessem, pois Deus estava conosco. Em poucos minutos nos trouxeram a notícia de que o alarme era apenas um ardil do Sr. Oglethorpe, para testar o povo. Minhas caridosas visitantes então me deixaram e logo voltaram com um mingau, que me fez suar. Na manhã seguinte, 2 de abril, arriscaram-se a me visitar de novo. À noite, quando a minha febre baixara um pouco, fui levado a enterrar o remador do barco, e invejei-lhe o túmulo tranquilo.
Percebi que a natureza tentava expelir a doença por meio de suores excessivos; por isso bebi tudo o que as minhas mulheres me traziam.
Muitos do povo tinham adoecido de disenteria. Eu escapara até então por causa da minha dieta vegetariana; mas agora a febre a trouxe. Apesar disso, fui obrigado a sair, pregar e administrar o sacramento. O meu sermão sobre “Conserva a inocência e olha a retidão, porque o fim de tal homem será a paz” foi interpretado como uma sátira contra a Sra. H. À noite consegui um catre velho para me deitar, justamente aquele em que o remador do barco havia morrido.
À uma da madrugada, os mosquitos me forçaram a levantar e a defumá-los para fora da cabana. A cidade inteira estava ocupada da mesma forma. A minha congregação da noite se compunha de dois presbiterianos e um papista. Voltei para casa com muita dor, tendo o meu mal se agravado bastante com o pouco serviço que consegui cumprir.
Senti-me tão fraco e debilitado que foi com a maior dificuldade que consegui chegar ao fim das orações. O Sr. Davison, o meu bom samaritano, muitas vezes me visitava, ou mandava a esposa cuidar de mim; e é aos cuidados deles, depois de Deus, que devo a vida.
Hoje o Sr. Oglethorpe deu a outrem o meu catre, tirando-o debaixo de mim, e recusou dispensar um dos carpinteiros para me fazer outro.
Enquanto conversava com a Sra. Hird, voltei os olhos para as cabanas e vi a do Sr. Lassel toda em chamas. Fui até o fogo, que, antes que eu pudesse chegar, já consumira a cabana e tudo o que havia nela. Era uma cabana de esquina, e, providencialmente, o vento soprava das outras para longe; do contrário, todas teriam sido destruídas.
O Sr. Reed me acordou com a notícia de que o Sr. Delamotte e meu irmão estavam a caminho de Frederica. Encontrei o encorajamento que buscava nas Escrituras do dia, o Salmo 52: “Por que te glorias na malícia, ó homem poderoso? A misericórdia de Deus dura todo o dia. A tua língua maquina destruição; é como navalha afiada, ó tu que ages com engano. Amas o mal mais do que o bem, e a mentira mais do que o falar a verdade.” Às seis, o Sr. Delamotte e meu irmão desembarcaram, quando as minhas forças estavam tão esgotadas que eu não conseguiria ler as orações mais uma vez. Ele me ajudou a ir até o bosque, pois não havia como conversar no meio de um povo de espiões e rufiões; nem mesmo no bosque, a não ser numa língua desconhecida. Ele me contou que a Escritura com que se deparara ao desembarcar fora: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31), e que o Sr. Oglethorpe o recebera com muita bondade. Comecei o meu relato de tudo o que se passara e o continuei até a hora das orações. Seria interminável mencionar todas as Escrituras que, por tantos dias, se adaptaram às minhas circunstâncias; mas não posso passar por alto a leitura da noite, Hebreus 11. Envergonhei-me de quase ter sucumbido sob a minha provação, ao contemplar os combates daqueles triunfantes sofredores, dos quais o mundo não era digno.
Que palavras poderiam sustentar melhor a nossa confiança do que as seguintes, tiradas dos Salmos do dia? “Tem misericórdia de mim, ó Deus, porque o homem procura devorar-me; ele me combate e me oprime o dia todo. Os que me espreitam procuram devorar-me o dia todo, pois são muitos os que me combatem com soberba. No dia em que eu temer, hei de confiar em ti. Confio em Deus e nada temo; que me pode fazer um mortal? Torcem as minhas palavras o dia todo; todos os seus pensamentos são para o mal.” (Sl 56.1-5.) O Salmo seguinte foi igualmente animador: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia, pois em ti a minha alma se refugia; à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades. Clamo ao Deus Altíssimo, ao Deus que por mim tudo executa. Do céu envia o seu auxílio e me salva do opróbrio dos que quase me devoram. Deus envia a sua misericórdia e a sua fidelidade. A minha alma está entre leões; e me deito entre incendiários, entre filhos de homens cujos dentes são lanças e flechas e cuja língua é espada afiada. Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e sobre toda a terra esteja a tua glória.” (Sl 57.1-6.)
Eu tinha recuperado força apenas o suficiente para consagrar o sacramento; o restante meu irmão cumpriu. Depois nos afastamos do alcance dos delatores e prosseguimos no meu relato, plenamente convencidos da verdade das informações da Sra. W. contra o Sr. Oglethorpe, a Sra. H. e ela mesma.
Na manhã seguinte, o Sr. Oglethorpe nos encontrou e nos levou a tomar o café da manhã na casa da “recatada” Sra. H. Ao meio-dia, meu irmão me repetiu a sua última conversa com a Sra. W., em confirmação de tudo o que ela sempre me contara.
À noite despedi-me do Sr. Horton, do Sr. Hermsdorf e do Major Richards, que iam, com trinta homens, construir um forte defronte ao posto de vigia espanhol, doze léguas de Augustine.
Por um relato que meu irmão me fez de uma recente conversa com ela, cheguei, apesar de tudo o que eu vira e ouvira, a ficar meio persuadido a ter uma boa opinião da Sra. H. Fique isto registrado, para a glória duradoura da nossa perspicácia!
Meu irmão me demoveu de uma resolução que a honra e a indignação haviam formado: a de passar fome, em vez de pedir o necessário. Assim, fui até o Sr. Oglethorpe, na tenda dele, para pedir algumas coisinhas de que eu precisava. Ele mandou me chamar de volta e disse: “Peço-lhe, senhor, [sente-se. Tenho algo a lhe dizer. Ouço que o senhor tem espalhado vários boatos por aí.]”
No dia seguinte, meu irmão e o Sr. Delamotte partiram num barco aberto para Savannah. Preguei à tarde sobre: “Aquele que sai chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes.” (Sl 126.6.)
Véspera de Páscoa, 24 de abril de 1736. Às dez fui chamado pelo Sr. Oglethorpe. Ele começou: “Sr. Wesley, o senhor sabe o que se passou entre nós. Esforcei-me para satisfazer o seu irmão a respeito dos boatos sobre mim, mas em vão. Ele aqui renova por escrito as suas suspeitas. Eu queria convencê-lo, porque tinha estima por ele; e ele só me é importante na medida da minha estima. Eu poderia esclarecer tudo, mas não importa. O senhor logo verá a razão das minhas ações.
“Vou agora para a morte. Não me verá mais. Tome este anel e leve-o de minha parte ao Sr. V[ernon]. Se há um amigo em quem se pode confiar, é ele. A influência dele é a segunda, depois da de Sir Robert. O que quer que o senhor lhe peça, dentro do que estiver ao alcance dele, ele fará pelo senhor, pelo seu irmão e pela sua família. Já espero a morte há alguns dias. Estas cartas mostram que os espanhóis há muito vêm seduzindo os nossos aliados e pretendem nos aniquilar de um só golpe. Caio pelas mãos dos meus amigos: Gascoin, que eu fiz o que é; o pessoal da Carolina, com quem eu contava para enviar os socorros prometidos. Mas a morte não é nada para mim. [Vernon] levará adiante todos os meus planos; e a ele recomendo esses planos e o senhor.”
Ele me deu então um anel de diamante. Peguei-o e disse: “Se, como acredito, esta é a última vez que o destino me permite falar-lhe, ouça o que o senhor logo saberá ser verdade, assim que entrar no estado separado da alma. Deste anel jamais farei uso algum para mim. Não tenho esperanças mundanas. Renunciei ao mundo. A vida é amargura para mim. Vim para cá para depô-la. O senhor foi enganado, tanto quanto eu. Protesto a minha inocência dos crimes de que sou acusado; e considero-me agora livre para lhe dizer o que pensei nunca vir a proferir.”
[Nota do editor Jackson: aqui seguem, no manuscrito, algumas linhas em cifra.]
Quando terminei este relato, ele pareceu inteiramente mudado, cheio do seu antigo amor e confiança em mim. Depois de algumas expressões de afeto, perguntei-lhe: “O senhor está satisfeito?” Respondeu: “Sim, inteiramente.” “Então, senhor, não desejo mais nada sobre a terra; e não me importo de quão cedo o siga.” Ele acrescentou que muito desejava a conversão dos pagãos e acreditava que meu irmão se destinava a isso. “Mas creio”, disse eu, “que ela nunca acontecerá sob o seu patrocínio; pois então os homens a explicariam sem levar Deus em conta.” Ele respondeu: “Também creio que sim.” Depois me abraçou e beijou com o mais cordial afeto. Acompanhei-o até o barco de reconhecimento, onde esperou alguns minutos pela sua espada. Trouxeram-lhe primeiro, e uma segunda vez, uma espada de luto. Por fim deram-lhe a sua própria, que fora de seu pai. “Com esta espada”, diz ele, “nunca fui malsucedido.” “Espero, senhor”, disse eu, “que o senhor leve consigo uma melhor, a espada do Senhor e de Gideão.” (Jz 7.20.) “Também espero que sim”, acrescentou ele.
Quando o barco partiu, corri à frente pelo bosque, para vê-lo pela última vez. Vendo a mim e a outros dois correndo atrás dele, ele parou o barco e perguntou se queríamos alguma coisa. O Capitão Mackintosh, deixado como comandante, pediu as últimas ordens. Eu então disse: “Deus esteja com o senhor. Vá adiante, tendo Cristo por chefe e por guia!” “O senhor tem”, diz ele, “creio, alguns versos meus. Ali verá o que penso sobre o êxito.” A sua última palavra ao povo foi: “Deus abençoe a todos vocês!” O barco então o levou para fora de vista. Intercedi por ele, para que Deus o salvasse da morte, apagasse todos os seus pecados e o preparasse, antes de recebê-lo, como sacrifício a si mesmo.
O povo se alarmou à noite com a visão de duas grandes fogueiras, uma de cada lado da cidade, sem saber se tinham sido acesas por amigos ou por inimigos. Na manhã seguinte veio a notícia de um barco subindo o rio. Todos pareciam apavorados, embora ninguém, exceto eu, estivesse plenamente ciente dos nossos perigos. À noite, a guarda foi dobrada pelo Capitão Mackintosh. Como o povo se recusava a cumprir as ordens dele, fui forçado a dizer ao Sr. Bird, o oficial de justiça, que podia haver um perigo que só Mackintosh conhecia, e que por isso deviam obedecer. Ele prometeu, por si e pelos demais. Embora eu esperasse a cada hora que os espanhóis nos trouxessem a notícia da morte do Sr. Oglethorpe, eu estava insensível ao medo e indiferente às consequências. Mas a minha indiferença vinha mais do embotamento do que da fé. Não havia nada que eu apreciasse na vida, e por isso perdê-la me parecia coisa de pouca monta.
Por volta das oito e meia desci até a falésia, para ver um barco que subia o rio. Às nove ele chegou com o Sr. Oglethorpe. Bendisse a Deus por ainda conservar viva a sua alma. À noite demos uma volta juntos, e ele me informou mais detalhadamente sobre o perigo que passáramos. Três grandes navios e quatro menores tinham sido vistos por três semanas seguidas na foz do rio; mas, continuando o vento totalmente contra eles, foram impedidos de desembarcar, até não poderem mais esperar. Devolvi-lhe o anel e disse: “Não preciso, senhor, e na verdade nem consigo, dizer-lhe com que alegria e gratidão devolvo isto.” “Quando lho dei”, disse ele, “nunca esperei recebê-lo de volta, mas pensei que seria útil ao seu irmão e ao senhor. Tive muitos presságios da minha morte, em especial o de me trazerem a espada de luto; mas Deus se agradou de preservar uma vida que nunca teve valor para mim; e, contudo, na continuação dela, graças a Deus, posso me alegrar.” “Agora me alegro de tudo o que aconteceu aqui, pois sem isso eu nunca teria tido uma prova tão grande do seu afeto como a que o senhor me deu, quando me via como o mais ingrato dos vilões.” Enquanto eu dizia isto, ele se mostrava cheio de ternura; e passou a observar a estranheza do seu livramento, quando traído por todos os lados, sem apoio humano e totalmente indefeso. Condenou-se pela sua ira (Deus perdoe os que me fizeram objeto dela!), que atribuiu à falta de tempo para refletir. “Eu ansiava, senhor, por vê-lo mais uma vez, para lhe dizer algumas coisas antes de nos separarmos definitivamente; mas então considerei que, se o senhor morresse, saberia de tudo isso num instante.” “Não sei se os espíritos separados se importam com as nossas pequenas questões. Se se importam, é como os homens se importam com as tolices da infância, ou como eu me importo com a minha recente explosão de fúria.”
Tive mais uma conversa com ele, na cama. Ele mandou me dar tudo o que julgava que eu precisava; prometeu mandar construir uma casa para mim imediatamente; e foi comigo exatamente o mesmo que antes fora.
Fui perguntar-lhe se havia verdade no boato de que o Major Richards e o Sr. Horton estavam detidos em Augustine, e que os homens em St. George’s tinham fugido. Ele me disse que esperava que os cavalheiros tivessem sido bem recebidos; mas que o povo se assustara com dois soldados que traziam uma cortês oferta de refrescos; que, diante disso, os homens se amotinaram e obrigaram o Capitão Hermsdorf a abandonar o posto avançado e voltar para casa, o que ele fizera seguindo o conselho de Ferguson; e que ele pretendia ir imediatamente ao encontro deles. Em uma hora partiu.
À noite procurei convencer o Sr. Moore (como já fizera com uns poucos outros) da inocência do Sr. Oglethorpe. Ele então me leu uma lista dos oficiais que seriam nomeados; e quem seria designado meirinho-chefe, senão o meu querido amigo, o Doutor?
O povo notara que eu voltara a cair nas boas graças, o que percebi pelas suas irritantes gentilezas.
À noite veio a notícia de que fora avistado um barco defronte à ponta, que não se aproximava, embora os soldados tivessem atirado contra ele várias vezes. O povo ficou muito alarmado, sem nenhuma preparação para um inimigo. Fui para a cama, mas logo fui acordado pelo disparo de uma arma; e, levantando-me, achei toda a cidade correndo para o forte, no maior pânico. Fui atrás deles com calma, sem medo, embora também sem fé; descobri que o alvoroço fora causado por um índio amigo, e voltei.
Tive uma conversa comovente com um pobre homem, tripulante do barco de reconhecimento, que quebrara o braço. Ele confessou-se muito tocado pelo Monitor Cristão [N. do T.: livro devocional] que eu lhe dera; por ele convencido da verdade da religião; incapaz de ler por causa das lágrimas; e plenamente resolvido a obedecer aos impulsos do Espírito Santo, levando uma vida nova.
Entre dez e onze fui despertado de novo por um alarme. Levantei-me, como todas as mulheres, e descobri que fora dado um sinal do navio de guerra. Mandei as mulheres embora e, sendo eu de igual serventia, logo segui o exemplo delas e voltei a dormir.
Avisaram-me de que o Sr. D., capelão da Companhia Independente, tinha desembarcado e vinha em minha direção. O caráter moral dele não o recomendava. Tive apenas tempo de fugir para o bosque, e assim escapei da visita. Na manhã seguinte, o Sr. Oglethorpe voltou, e dele recebi o seguinte relato da sua expedição.
No sábado, 1º de maio, tarde da noite, chegou o barco de reconhecimento “Caroline”, com o Capitão Ferguson, trazendo o aviso de que o Major Richards e o Sr. Horton (que tinham levado as respostas às cartas do Governador espanhol) haviam desembarcado no posto de vigia deles, e que ele acreditava que tinham sido feitos prisioneiros pelos espanhóis; pois não tivera mais notícias deles, exceto por uma carta cifrada, escrita a lápis; que os barcos em que estavam os homens sob o comando do Capitão Hermsdorf tinham chegado a cerca de trinta milhas deste lado da Ponta de St. George, e ali aguardavam ordens; que os homens estavam amotinados, e Hermsdorf acreditava que seria forçado a recuar para o Forte St. Andrews; e que ele temia que ou assassinassem os oficiais e se tornassem piratas, ou fossem aniquilados pelos espanhóis. O Sr. Oglethorpe, no domingo, subiu a bordo do navio de guerra e de lá seguiu com o bote do navio de guerra, comandado pelo Tenente, e com o barco de reconhecimento da Geórgia. Chegaram naquela noite ao Forte St. Andrews. Na segunda-feira alcançaram a ponta sul de Cumberland, onde encontramos os barcos sob o comando do Capitão Hermsdorf. O Sr. Oglethorpe imediatamente os levou para o mar, contornando a Ilha de Amelia. Descobriu, ao investigar, que os homens não pretendiam se amotinar; a suspeita fora provocada pelas mentiras de um único homem, que por isso foi condenado pelo Sr. Oglethorpe a passar pela fileira dos açoites.
Ele foi até a Ponta de St. George, à vista do posto de vigia espanhol, e os reinstalou no mesmo local onde o Sr. Hermsdorf antes se aquartelara. Ficara combinado que os espanhóis fariam um sinal; e de lá ele iria com os seus barcos buscar o Major Richards, que fora a Augustine a pedido do Governador, o qual prometera enviar cavalos para conduzi-lo, mas não enviou. Ficara igualmente combinado que os barcos patrulhariam os rios de um lado a outro, para impedir que os índios, nossos aliados, atravessassem para molestar os espanhóis, assim como estes impediriam os seus índios de atravessar para nos molestar.
O Sr. Oglethorpe foi naquela tarde ao posto de vigia espanhol, com uma bandeira branca; mas, não conseguindo avistar ninguém, deixou o barco ancorado e saltou ele mesmo em terra, para ver se descobria alguém ali; e, caminhando pela praia, a distância das dunas de areia, para evitar surpresas, contornou as dunas, onde encontrou dois cavalos amarrados. Seguiu adiante até uma cabana de folhas de palmeira, mas não achou homem nenhum. Depois disso, mandou a bandeira branca a uma grande savana, para ver se aquilo atrairia alguém a uma conferência. Nisso, W. Frazer, um rapaz escocês, indo ao bosque vizinho e encontrando um espanhol, trouxe-o ao Sr. Oglethorpe, a quem ele entregou duas cartas: uma do Major Richards, outra do Sr. Horton, dirigida ao Sr. Hermsdorf, avisando-o de que estaria de volta em dois dias. O Sr. Oglethorpe deu ao homem uma garrafa de vinho, comida e tabaco, e uma moeda de ouro pelo trabalho de trazer as cartas; e perguntou onde estavam o Major Richards e o Sr. Horton. O homem disse que nada sabia a respeito deles; que era um cavaleiro, enviado pelo Coronel da cavalaria do quartel-general, que ficava a cerca de doze léguas dali, com aquelas cartas, para esperar ali até avistar um barco inglês e entregá-las; que ficara quatro dias na praia e não vira barco algum nesse tempo. O Sr. Oglethorpe lhe entregou cartas para o Governador de Augustine; e, entre dez e onze da manhã de quinta-feira, partiu com o bote do navio de guerra e o barco de reconhecimento da Geórgia, para encontrar de novo o homem, conforme o combinado.
Ele descobriu uma embarcação de guarda-costa cheia de homens, que jazia atrás do banco de areia, para além das arrebentações, do lado inglês da água; e logo depois descobriu vários homens escondidos no bosque, junto a umas dunas. Dois cavaleiros se mostraram e acenaram para os barcos, que traziam bandeira branca hasteada, para que descessem até uma ponta, atrás da qual estava oculta a guarda-costa; diante disso, o Sr. Oglethorpe remou com os dois barcos em direção à guarda-costa, para não deixá-la para trás e interceptar a nós e à nossa gente na Ponta de St. George.
Parecia haver cerca de setenta homens a bordo dela, e havia nos nossos barcos vinte e quatro. Ela ficou parada por algum tempo; mas, quando perceberam claramente que tinham sido descobertos, remaram embora com incrível rapidez, direto para o mar, em direção a Augustine.
O Sr. Oglethorpe voltou aos cavaleiros, que pareciam muito relutantes em se aproximar dos barcos; mas por fim concordaram em receber uma carta, se o Sr. Oglethorpe mandasse um homem desarmado a terra. Um deles, ao que parecia um oficial, proibiu os barcos de desembarcar em solo do Rei da Espanha. O Sr. Oglethorpe respondeu que, sendo aquele solo do Rei da Espanha, os ingleses se absteriam de desembarcar nele, já que os espanhóis assim pediam; mas que os espanhóis seriam muito bem-vindos a desembarcar em solo do Rei da Inglaterra, que ficava no lado oposto do rio, e seriam bem-vindos a uma taça de vinho com ele ali. Perguntou-lhe por notícias do Sr. Horton e do Sr. Richards, e se não poderia enviar-lhes alguma coisa. O homem disse que nada sabia deles; que recebia ordens do Coronel da cavalaria, aquartelado a doze léguas de distância, e que não podia levar notícia alguma senão a ele. Diante disso, o Sr. Moore, Tenente do navio de guerra “Hawke”, escreveu uma carta ao Coronel da cavalaria, informando-lhe que viera até ali com barcos, para reconduzir os cavalheiros enviados pelo Sr. Oglethorpe a tratar com o Governador de Augustine; e que, se em algum momento ele acendesse três fogueiras no continente espanhol, ele o tomaria como sinal de que os cavalheiros tinham chegado, e iria de barco buscá-los. O oficial espanhol prometeu entregar a carta à noite ao Coronel da cavalaria. O Sr. Oglethorpe ficou até a noite de sábado, à espera de resposta, e enviava alguém ao lado espanhol todos os dias; mas não conseguiu achar ninguém com quem tratar. Junto ao posto de vigia, no interior, eles têm um vinhedo, bandos de perus, gado e cavalos; mas tomou-se grande cuidado para que nenhum dos nossos homens tocasse em coisa alguma disso. Na noite de sábado o Sr. Oglethorpe partiu, deixando o Capitão Hermsdorf com uma piroga armada, o barco de reconhecimento da Geórgia e mais um barco.
Já tinha recuperado forças a ponto de poder de novo explicar a leitura. Na leitura da manhã seguinte estava Eliseu cercado pelo exército em Dotã. É nosso privilégio, como cristãos, aplicar a nós mesmos aquelas palavras: “São mais os que estão conosco do que os que estão com eles.” (2Rs 6.16.) Deus nos falou ainda mais claramente na segunda leitura: “Eis que eu os envio como ovelhas para o meio de lobos; portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Acautelem-se, porém, dos homens, porque os entregarão a tribunais; e serão levados à presença de governadores e reis, por minha causa.” “E serão odiados por todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até o fim, esse será salvo. Quando os perseguirem numa cidade, fujam para outra.” “O discípulo não está acima do seu mestre.” “Não os temam, portanto, pois nada há encoberto que não venha a ser revelado, nem oculto que não venha a ser conhecido.” (Mt 10.16-20.) Ao explicar isto, detive-me naquele bendito tópico de consolo para o inocente: que, por mais que ele sofra aqui sob uma falsa acusação, em breve será inocentado no justo tribunal de Deus, onde o acusador e o acusado se encontrarão face a face, e o culpado absolverá aquele a quem injustamente acusara, tomando de volta sobre si a maldade. A pobre Sra. W., que estava bem em frente a mim, não conseguiu suportar aquilo: primeiro me virou as costas e depois se retirou para trás da congregação.
Enquanto eu esperava que o Sr. Oglethorpe partisse de novo para o sul, o Sr. Appee me abordou, um jovem cavalheiro recém-chegado de Savannah. Mencionou o seu desejo de ser batizado (tendo antes recebido apenas o batismo leigo). Achei que ele deveria passar por uma prova mais longa da própria sinceridade. Passou a falar do casamento que pretendia com a Srta. Bovey, que eu o aconselhei a desistir, por não considerar nenhum dos dois suficientemente preparado para isso. Ele reconheceu ter feito pouco progresso em subjugar a própria vontade e que devia estar mais morto para o mundo antes de se lançar nele.
[Nota do editor Jackson: este jovem holandês, que fingia escrúpulos de consciência a respeito do próprio batismo, o Sr. Charles Wesley descobriu depois ser um incrédulo, um libertino, um mentiroso e um ladrão.]
Perto da meia-noite despedi-me do Sr. Oglethorpe, que partiu no barco de reconhecimento, atrás dos outros barcos, para St. George’s. O resto da noite passei no chão, na casa da guarda.
Às quatro do dia seguinte parti para Savannah, para onde os comerciantes que negociavam com os índios estavam descendo a fim de me encontrar e obter suas licenças. Fiquei muito feliz com o meu livramento daquela fornalha, e não pouco envergonhado de mim mesmo por estar tão feliz.
Desembarcamos em Skidoway e almoçamos na casa da Sra. M. Depois fui de porta em porta e pedi às poucas pessoas que havia na ilha que viessem às orações; que então li, pregando a cerca de dez pessoas na casa da guarda; e prometi arranjar, se possível, que fossem atendidos uma vez por mês.
Às quatro voltamos ao nosso barco e, às seis, chegamos a Thunderbolt; de onde percorri a pé as cinco milhas restantes até Savannah. O Sr. Ingham, o Sr. Delamotte e meu irmão se surpreenderam com a minha visita inesperada; mas, sendo tarde, cada um se recolheu ao seu respectivo canto do aposento, onde, sem o auxílio de cama alguma, dormimos profundamente até a manhã.
Conforme o combinado, meu irmão partiu para Frederica, e eu assumi Savannah na ausência dele. O dever mais pesado que me foi imposto era explicar a leitura, de manhã e à noite, a cem ouvintes. Fiquei admirado com a minha própria confiança, e reconheci que não era minha. O dia costumava se dividir entre visitar os meus paroquianos, meditar na leitura e conversar com o Sr. Ingham, o Sr. Delamotte e o Sr. Appee.
Visitei uma menina de quinze anos, que agonizava de uma doença incurável. Estava naquela condição havia muitos meses, como me informaram os pais, algumas das melhores pessoas da cidade. Estremeci diante da visão de um cadáver que respirava. Nenhum cadáver de verdade foi jamais tão medonho. Apenas os seus gemidos e gritos a distinguiam de um. Não tinham trégua; e, contudo, ela estava perfeitamente consciente, como se via ao levantar debilmente os olhos quando eu a exortava a confiar em Deus e lia as orações pelos enfermos [VERIFICAR NO ORIGINAL]. Estávamos todos em lágrimas. Ela fez sinais para que eu voltasse.
O Sr. Oglethorpe voltou das fronteiras. O relato seguinte da sua expedição extraí da carta que ele escreveu aos Curadores:
“Depois daquela flagrante violação do direito das nações, que foi prender os nossos mensageiros, enviados com uma bandeira branca, eu não podia esperar senão novas hostilidades, e por isso me preparei para repelir a força com a força. Fortificamos, com a maior rapidez que o nosso pequeno número permitia, a Ponta de St. George, à vista dos postos avançados espanhóis, e fomos muito facilitados por encontrar as ruínas de um forte construído por Sir Francis Drake; de modo que nada tínhamos a fazer senão reparar e paliçar as brechas abertas pelo tempo e limpar os fossos, que originalmente tinham nove metros de profundidade.
“Estando a Companhia Independente e o navio de guerra postados abaixo de Frederica, retirei de lá, e dos assentamentos escoceses, todos os homens que pude, para reforçar a guarnição na Ponta de St. George. Enquanto reuníamos reforços e canhões, o Governador de Augustine, tendo antes prendido os nossos mensageiros, enviou Don Ignatio, Coronel de infantaria, com trinta dos seus homens escolhidos, alguns índios yamasee e uma forte tripulação de barco, cerca de sessenta homens, numa lancha, para reconhecer os nossos assentamentos; e, se nos encontrasse tão fracos quanto os avisos da Carolina diziam que estávamos, para nos desalojar. Don Ignatio saiu pelo mar e tentou entrar sem ser descoberto no Estreito de Jekyl; foi descoberto pelo Alferes Delegall, que comandava uma guarda na ponta do mar. Ele os interpelou para saber quem eram; e, recusando-se eles, disparou alguns canhões com pólvora; e, mais ou menos ao mesmo tempo, eles descobriram o navio de guerra ancorado no estreito. Correram para o mar com grande precipitação e tentaram entrar por outra enseada, junto à ilha de Cumberland; onde os escoceses de St. Andrews os interpelaram. Eles nem responderam, nem hastearam bandeira, mas remaram embora com tal pressa que, na mesma noite, alcançaram os postos avançados espanhóis, no rio St. John’s, a quase sessenta milhas de distância.
“Don Ignatio desembarcou à noite e teve uma conferência com Don Pedro de Lamberti, o Comandante da cavalaria espanhola, que viera por terra até o posto de vigia, com cento e sessenta homens de infantaria e cinquenta de cavalaria. Concluíram, pelos dois fortes com que se tinham deparado e pela presença do navio de guerra, que toda a nossa força estava em Frederica, e que estávamos fracos no Forte St. George; resolveram, portanto, tentar surpreender alguns dos nossos barcos e, com base nessa informação, deixar os cavalos, transportar os homens pela água e nos atacar na noite seguinte. Isso foi numa quarta-feira. Eu, tendo descoberto algumas fogueiras no continente espanhol, concluí que tropas estavam descendo, e por isso, a fim de fazê-los adiar o ataque até que os nossos socorros chegassem na quinta de manhã, mandei levar para o bosque dois canhões de carreta e dois canhões giratórios que trouxéramos conosco, para que os espanhóis não pudessem distinguir de onde eram disparados; e ordenei que os canhões giratórios fossem recarregados tantas vezes que fizessem uma salva de sete tiros, e com os canhões de carreta respondi com cinco tiros. Os canhões giratórios, pelo estampido menor, pareciam um navio saudando a distância, e os canhões de carreta, baterias respondendo da costa.
“Parti com dois barcos e uma bandeira branca, para ir ao encontro dos espanhóis. Eles concluíram, pelos tiros, como soube depois, que uma nova força tinha chegado; no que se confirmaram ao ver os nossos barcos remando vigorosamente em sua direção; diante do que a lancha deles achou melhor tomar o rumo de Augustine o mais depressa possível. Ali, os soldados e barqueiros, exaustos de tanto esforço, espalharam relatos tão sombrios, exagerando a nossa força e diligência para salvar a própria reputação, que provocaram um alvoroço geral entre o povo.
“Naquela noite mandei acender várias fogueiras no bosque, umas a duas, outras a três milhas de distância da Ponta de St. George. Na sexta de manhã, a infantaria e a cavalaria, sob o comando de Don Pedro, vendo-se abandonadas pela lancha, e portanto sem qualquer possibilidade de atravessar para a ilha contra nós; e, pela quantidade de fogueiras no bosque, deduzindo que os índios creeks tinham chegado; deixando uma pequena guarda de cavalaria para observar os nossos movimentos, retiraram-se em boa ordem para Augustine. A chegada deles duplicou a confusão, pois receavam que, se os índios lhes cortassem a comunicação por terra, como o navio de guerra podia fazer pelo mar, morreriam de fome. O Governador foi obrigado a convocar um conselho de guerra, no qual os oficiais mais antigos, e na verdade quase todos, deram o parecer de que os cavalheiros por mim enviados fossem imediatamente libertados e reenviados da maneira mais honrosa, com um oficial acompanhando-os, para tratar comigo e me pedir que contivesse os índios de invadi-los; e, ao mesmo tempo, para me perguntar por que nos assentávamos em terras e territórios pertencentes ao Rei da Espanha.
“Sem saber nada desses acontecimentos, a não ser que os espanhóis se tinham retirado, permaneci no Forte St. George de quinta a domingo; nesse tempo chegaram tropas frescas; e, pondo-nos todos ao trabalho, com os oficiais e homens da tropa do Rei, que se distinguiram nessa ocasião, montamos alguns canhões nas baterias ao longo do rio e adiantamos bastante as fortificações; e, tendo deixado o forte sob o comando do Capitão Hermsdorf, retiramo-nos com a maior diligência para Frederica.
“Ali encontrei o Rei dos Uchees, com trinta homens, que se ofereceu para me ajudar com mais cem contra os espanhóis. O Rei Tomo Chachi também estava ali, com trinta homens, e a informação de que centenas dos creeks desejavam ardentemente cair sobre os espanhóis. Em três dias parti com uma grande piroga e cinquenta homens, canhões e provisões para dois meses, dois barcos de dez remos e os índios em seus próprios barcos, para socorrer St. George, que eu imaginava já poder estar sitiado. Deus se agradou de nos prosperar; de modo que, a cerca de quinze milhas de St. George, estando por sorte uma hora à frente do restante dos barcos, encontrei um barco espanhol, com bandeira branca hasteada, e nele o Sr. Dempsey e os cavalheiros enviados a Augustine, junto com Don Pedro de Lamberti, Capitão da tropa de cavalaria, e Don Manuel, Secretário do Governador e Ajudante da guarnição. Foi uma sorte os índios não estarem na frente; pois, se estivessem, certamente teriam atacado o barco espanhol, o que, mesmo assim, mal consegui evitar, mandando um barco de dez remos escoltá-los até Frederica. Depois ordenei que fossem recebidos a bordo do navio de guerra, onde jantaram comigo. Recebi-os com a maior cerimônia que pude, tendo uma guarda das tropas do Rei à direita, de baionetas caladas, e à esquerda os Highlanders, com seus escudos e espadas largas desembainhadas.
“Depois do jantar, brindamos à saúde do Rei da Grã-Bretanha e do Rei da Espanha, sob a descarga dos canhões do navio; ao que se responderam quinze peças de canhão do forte de Delegall, na ponta do mar. Isso, por sua vez, foi seguido pelos canhões do forte de St. Andrews, e este pelos de Frederica e de Darien, como eu antes ordenara. Os espanhóis pareceram extremamente surpresos de haver tantos fortes, todos ao alcance do estampido uns dos outros. Don Pedro sorriu e disse: ‘Não é de admirar que Don Ignatio tivesse mais pressa de voltar do que de sair.’ Terminados os brindes, um grande número de índios subiu a bordo, nus, pintados e com as cabeças enfeitadas de penas. Exigiram de mim justiça contra os espanhóis, por terem matado alguns dos seus homens em pleno tempo de paz. Provaram ainda que, depois de capturada a mulher, ela foi abusada por vários homens; e, quando por dois dias saciaram a luxúria deles, queimaram-na viva, de forma desumana.
“Don Pedro, tendo feito várias perguntas, reconheceu estar plenamente convencido do fato; desculpando-se por dizer que estava então no México; e que o Governador, sendo recém-chegado da Espanha e não conhecendo os costumes do país, enviara índios sob o comando do Rei Pohoia das Floridas, que excedera as suas ordens, que eram de não guerrear com os creeks. Mas, não se contentando os índios com essa resposta, ele se comprometeu a, ao voltar a Augustine, mandar matar o Rei Pohoia, se pudesse ser capturado; e, se não pudesse, os espanhóis não forneceriam ao povo dele nem pólvora, nem armas, nem coisa alguma, mas o deixariam à mercê dos creeks. Os índios responderam que ele falava bem; e que, se os espanhóis fizessem o que ele dizia, tudo ficaria em paz entre eles; mas, se não, se vingariam; do que, a meu pedido, se absteriam até que viesse uma resposta final.
“Resolvidas assim as questões com os índios, tivemos uma conferência com os Comissários espanhóis. Agradeceram-me primeiro por eu ter contido os índios que estavam em meu poder, e esperavam que eu estendesse esse cuidado aos índios do interior. Depois, tendo apresentado as suas credenciais, entregaram um papel, cujo teor era saber com que título eu me assentara em St. Simon’s, sendo aquelas terras pertencentes ao Rei da Espanha. Peguei o papel, prometendo uma resposta no dia seguinte. Em suma, respondi que as terras pertenciam ao Rei da Inglaterra por direito inquestionável; que eu procedera com a maior cautela, levando comigo índios, os nativos e possuidores daquelas terras; que examinara cada lugar, para ver se havia ali possessões espanholas, e avancei até encontrar um posto avançado deles, defronte ao qual assentei os ingleses, sem cometer hostilidade alguma nem desalojar ninguém. Portanto, não estendi os domínios do Rei, mas apenas ocupei com guarnições regulares aquela parte deles que antes era abrigo de índios, piratas e gente desordeira dessa espécie.
“O resto da noite passamos em conversa, que versou principalmente sobre a conveniência que seria, tanto para os espanhóis quanto para os ingleses, ter guarnições regulares à vista umas das outras. Don Pedro sorriu e disse que concordava de bom grado com isso; e que gostaria muito de ter a guarda espanhola no lado sul do rio [VERIFICAR NO ORIGINAL] (que fica a cinco milhas de Charlestown, e onde os espanhóis tiveram uma guarnição no tempo do Rei Carlos I). Respondi que achava melhor as coisas como estavam; pois havia muita gente vivendo no meio, que jamais se deixaria persuadir a concordar com os pontos de vista dele. Por fim, Don Pedro me informou que julgava que os espanhóis remeteriam a definição dos limites às cortes da Europa; para esse fim, ele escreveria à sua corte; e, entrementes, pedia que não se cometessem hostilidades; e que eu enviasse um Comissário para assinar com o Governo um acordo nesse sentido. Nomeei então o Sr. Dempsey meu Comissário, para voltar com eles.
“Don Pedro é o homem que manda em Augustine, e tem mais influência sobre o Conselho de Guerra do que o próprio Governador. Ao passar pela Ponta de St. George, enviou um boi inteiro de presente à guarnição de lá. Deu-me alguns doces e chocolate. Eu lhe dei um relógio de ouro, uma arma e provisões frescas. A Don Manuel dei um relógio de prata e mandei um barco escoltá-los. Se os espanhóis tivessem cometido alguma hostilidade, eu poderia, com a ajuda dos índios, ter destruído Augustine com grande facilidade. Mas, graças a Deus, pela sua bênção, pela diligência de Dempsey e pela prudência de Don Pedro, todo derramamento de sangue foi evitado.”
Às dez desta noite encontrei-me pela primeira vez com os meus comerciantes, na casa do Sr. Causton, o meirinho-chefe; como fiz com um ou outro deles todos os dias por algumas semanas.
Por volta do meio-dia, o Sr. Oglethorpe nos mandou avisar que ia ao tribunal. Fomos e ouvimos o seu discurso ao povo, ao fim do qual disse: “Se alguém aqui foi maltratado ou oprimido por qualquer homem, dentro ou fora de cargo público, tem plena e total liberdade de reclamar. Que apresente as suas queixas por escrito, em minha casa. Eu mesmo lerei tudo e farei justiça a cada um em particular.”
Às oito da noite fui procurá-lo e encontrei os três Magistrados, que pareciam muito alarmados com o discurso e esperavam que ele não fosse desestimular a autoridade. Ele os dispensou e me disse que temia que, ao seguir o conselho de meu irmão de ouvir todas as queixas, arruinasse o povo, e que nunca mais teria quem o servisse. Respondi que eu achava o contrário; e que essa liberdade era a coisa mais feliz que poderia acontecer à colônia, e muito de desejar por todos os homens de bem. Ele começou, não sei como, a falar de Frederica, e disse…
[Nota do editor Jackson: aqui seguem, no manuscrito original, vários parágrafos em cifra.]
Passei boa parte deste dia, como de todos os dias, conversando com o Sr. Appee, que geralmente tomava o café da manhã e ceava na nossa casa. O assunto da nossa conversa era a minha intenção de renunciar ao cargo, o que resolvi fazer depois da minha última conferência com o Sr. Oglethorpe. Abrir mão do meu salário e de esperanças certas de promoção não pesava nada contra a minha resolução. Ofereci-os ao Sr. Appee, que não aceitou, por ser obrigado a voltar a cuidar da sua fortuna na Holanda.
Estive presente no tribunal e ouvi as acusações contra o Sr. Causton, que permanecia de pé enquanto Parker, o primeiro tribuno do povo, sobre quem os descontentes tinham depositado todas as suas esperanças, apresentava as mais pesadas acusações que, suponho, se poderiam fazer contra ele. Mas eram tão inacreditáveis, insignificantes e pueris, que as considerei uma completa absolvição dos Magistrados, e admirei a paciência do Sr. Oglethorpe em ouvi-las.
Este e muitos dos dias anteriores foram gastos, na maior parte, em redigir fianças e depoimentos, licenças e instruções para os comerciantes; e as noites, em escrever cartas para o Sr. Oglethorpe. Raramente nos separávamos antes da meia-noite. Esta noite, à meia-noite e meia, ele partiu no barco de reconhecimento para Frederica. Fui para a cama à uma e me levantei de novo às quatro; mas só algum tempo depois senti no corpo o efeito de tanta e tão variada fadiga.
Passeando no jardim dos Curadores, encontrei as senhoritas Bovey, em cuja companhia eu nunca estivera. Senti alguma inclinação a me juntar a elas; mas foi uma curiosidade muito passageira.
O Sr. Oglethorpe e meu irmão voltaram de Frederica.
Estive no tribunal enquanto os índios creeks tinham uma audiência com o Sr. Oglethorpe; que tomei por escrito (como fiz depois com várias outras) em taquigrafia.
Entre quatro e cinco desta manhã, o Sr. Delamotte e eu entramos no rio Savannah. Escolhemos essa hora para o banho, tanto pelo frescor quanto porque os jacarés não estavam ainda tão ativos. É verdade que os ouvíamos roncando ao nosso redor; e um deles, madrugador, passou nadando a poucos metros de nós. Na sexta de manhã, mal tínhamos deixado o nosso lugar habitual de nadar, vimos um jacaré tomando posse dele. Certa vez, depois disso, o Sr. Delamotte correu grande perigo; pois um jacaré emergiu logo atrás dele e o perseguiu até a terra, onde ele escapou por pouco.
Fui acordado pela notícia que meu irmão nos trouxe, da morte repentina da Srta. Bovey. Ela despertou em mim toda a minha tristeza e inveja. “Ah, pobre Ofélia!” vinha-me continuamente à mente, “eu pensava que serias a esposa do meu Hamlet.” O Sr. Appee acabara de partir para Charlestown, a caminho da Holanda, com a intenção de voltar, depois de acertar os seus negócios, e casar-se com ela. “Mas a morte teve asas mais velozes do que o amor.” Na noite seguinte, vi-a no caixão, e logo depois na sepultura.
Soube por meu irmão que eu deveria zarpar em poucos dias para a Inglaterra.
Hoje obtive as licenças deles assinadas pelo Sr. Oglethorpe, referendei-as eu mesmo, e assim lavei totalmente as minhas mãos dos comerciantes.
Renunciei ao meu cargo de Secretário, numa carta ao Sr. Oglethorpe. Depois das orações, ele me chamou à parte e perguntou se tudo o que eu dissera não se resumia na linha que me mostrou na carta: “Senhor, a ti mesmo devolvo os teus dons desprezados. Menos próprio a mim recebê-los do que a ti dá-los.” Respondi que eu não desejava perder a estima dele, mas não podia conservá-la à custa da minha alma. Ele respondeu que estava convencido do meu apreço por ele; reconheceu que o meu argumento, tirado do coração, era irrespondível; e, contudo, disse ele: “Eu lhe pediria que não deixasse os Curadores saberem da sua resolução de renunciar. Há muitos famintos prontos a se lançar sobre o cargo; e, na minha ausência, não posso pôr nele alguém de minha própria escolha. O melhor que posso esperar é um presbiteriano honesto, pois muitos dos Curadores o são. Talvez me mandem um homem ruim; e o senhor sabe até que ponto tal pessoa pode influenciar os comerciantes e obstruir a recepção do Evangelho entre os pagãos. Eu estarei na Inglaterra antes que o senhor a deixe. Então o senhor poderá ou nomear um substituto ou renunciar.
“O senhor não precisará ficar retido em Londres mais de três dias; basta falar com alguns dos meus amigos particulares (Vernon, Hutchinson e Towers), com a Junta dos Curadores, quando for chamado, e com a Junta do Comércio.
“Por muitas razões, eu lhe recomendaria o casamento, e não o celibato. O senhor é de temperamento sociável, e encontraria no estado matrimonial as dificuldades de trabalhar a sua salvação bastante diminuídas, e os seus recursos igualmente aumentados.”
As palavras que encerraram a leitura, e a minha permanência na Geórgia, foram: “Levantem-se, vamo-nos daqui.” (Jo 14.31.) Assim, ao meio-dia, despedi-me definitivamente de Savannah. Quando o barco partiu, fiquei surpreso de não sentir mais alegria ao deixar tamanho cenário de tristezas.
31 de julho de 1736. Cheguei com meu irmão a Charlestown. Passei aquela noite numa hospedaria. Na manhã seguinte, fiquei muito contente ao saber que o Sr. Appee ainda estava na cidade, esperando a minha companhia para a Inglaterra. O temperamento franco e aberto dele, e o seu desprendimento do mundo, me faziam prometer a mim mesmo uma viagem muito proveitosa e agradável; especialmente porque eu não duvidava de que a morte repentina da noiva tivesse tirado dele aquela aparência de leviandade, que eu atribuía mais à sua juventude e educação do que a qualquer inconstância natural. Depois de tomar o café da manhã com o Sr. Eveley, um comerciante que arranjara hospedagem para nós, fui à procura do meu amigo. Encontramo-nos com igual satisfação de ambos os lados; mas não observei aqueles traços profundos de tristeza e seriedade que eu esperava. Perguntei-lhe se a sua perda tivera o devido efeito, tornando o seu coração mais terno e suscetível às impressões divinas. Pela resposta dele, concluí que o seu coração estava reto e que o seu desejo maior era recuperar a imagem divina.
Algo desse desejo eu mesmo senti no santo sacramento, e me achei encorajado, por uma esperança incomum de perdão, a lutar contra o pecado.
Eu já observara muito, e ouvira mais ainda, sobre a crueldade dos senhores para com os seus escravos negros; mas agora recebi um relato fidedigno de alguns exemplos horríveis disso. Dar a uma criança um escravo da própria idade para tiranizar, para espancar e maltratar por diversão, era, como eu mesmo vi, …
[A entrada continua no capítulo seguinte.]
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