Fiquei profundamente comovido ao ouvir o Sr. Gambold contar a história do meu irmão.
Nosso grupo partiu de novo rumo a Mickleton, aonde chegamos ao anoitecer. Passamos o tempo de forma bem agradável, caminhando, conversando e lendo.
Cavalguei até Stanton, onde todos ficaram felicíssimos em me ver, especialmente o primeiro dos meus amigos, Varanes.
Tive uma conversa com M. G. sobre como são poucos os que se salvam. Quão pouco avançou na escola de Cristo quem ainda não se convenceu dessa verdade!
À noite tive a alegria de ver o Sr. Gr. muito tocado por um capítulo que vinha lendo do Sr. Law. Ele quis que a irmã também o ouvisse. Li o texto uma segunda vez e aproveitei a ocasião para insistir com ele na prática de um recolhimento diário.
Parti a cavalo com o Sr. Gr. e Dews. O primeiro nos deixou em Compton, e seguimos rumo a Spilsbury.
Voltei à casa do Sr. Sarney, cansado, esgotado e febril, por falta de sono.
Entre uma e duas da madrugada, deitei-me na minha cama de costume, o chão. Charles Gr. tomou o café da manhã comigo e reconheceu, em lágrimas, que nunca sentira alegria verdadeira senão na religião. Recomendei-lhe insistentemente o Sr. Law.
Ao meio-dia visitei o Sr. Gambold, que ficou muito contente em me ver. Achei-o bem mais animado do que de costume; a irmã, na mesma. À tarde conversei com os presos, muito atentos, e com o Deão, muito gentil e cordial.
Às duas, o Sr. Sarney se levantou para orar por mim. Levantei-me também e parti para Londres, aonde cheguei em poucas horas.
Encontrei-me com Virelst e o advogado na casa do Sr. Oglethorpe, para tratar da audiência que em breve teriam diante da Junta de Comércio. Depois que saíram, o Sr. Oglethorpe disse que, se o Governo abandonasse a Geórgia, ele não deixaria aquela gente pobre perecer: venderia sua propriedade, que valia umas 45 mil libras, e os sustentaria com os juros.
A pedido dela, visitei Lady Betty Hastings. Suas perguntas sobre a Geórgia foram interrompidas pela chegada do Bispo de Gloucester.
Saí da cidade a cavalo para encontrar meu irmão e minha cunhada, que vinham de Tiverton, e os acompanhei até a casa do Sr. Bowel.
Levei meu irmão ao bom Arcebispo, que nos recebeu com muita gentileza.
Aceitei um convite da Sra. Benson e cavalguei até o Convento de Cheshunt. A senhorita Kitty e a Sra. Johnson já estavam lá quando cheguei. Fiquei encantado tanto com o lugar quanto com a companhia. Depois do jantar, dei falta do meu livro de cartas e voltei à cidade para procurá-lo, sem sucesso. Às sete da manhã seguinte eu já estava de novo no Convento, e à tarde regressei a Londres.
Entre seis e sete da noite parti a cavalo para Cheshunt, a 29 quilômetros de Londres; cheguei por volta das nove. Na manhã seguinte cavalguei outros 29 quilômetros até Hatfield, para ver minha irmã Nancy, e à tarde voltei ao Convento.
Fomos todos numa carruagem alugada até Warmley, onde preguei sobre “poucos são os que se salvam” e tive a alegria de ver a família permanecer para a ceia, que não estava prevista. À noite voltei a cavalo para a cidade.
Às dez estávamos de novo diante da Junta de Comércio. Até o meio-dia ouviu-se a parte da Carolina. Depois, nosso advogado (bastante confuso) foi ouvido em favor da Geórgia.
Prestei depoimento juramentado em Chancery-Lane sobre tudo o que eu sabia a respeito da Geórgia. À uma hora passei na casa do meu tio e o encontrei gravemente doente.
Na Junta, leram-se partes da nossa Carta e das Atas, entre outros documentos. Declarei sob juramento que se supunha que todos os comerciantes licenciados estivessem dentro da Geórgia. Depois de lido o meu depoimento, Murray fez a nossa defesa, mas de modo tão pouco satisfatório para o Sr. Oglethorpe que ele se levantou de repente e saiu correndo. Jantei com meu irmão na casa de Lord Oxford. Lady Oxford, Lord Duplin e a famosa Lady Mary faziam parte do grupo.
Encontrei meu tio à beira da morte. Ele apertou a minha mão, demonstrou muito afeto natural e me pediu que levasse suas lembranças à irmã. Passei a noite em Cheshunt, lendo o Sr. Law para a família, minha ocupação de sempre por lá.
Soube que meu tio falecera pouco depois de eu tê-lo deixado.
Acompanhei meu irmão e minha cunhada por um trecho da estrada rumo a Tiverton.
tomei o café da manhã no Convento.
acompanhei o sepultamento do meu tio.
Fiquei sabendo do desfecho das aventuras do meu amigo Appee por aqui, contado por um tal Sr. Laba, cuteleiro, de quem ele acabara de furtar um relógio, fugindo com ele para Paris.
Estive diante da Junta de Comércio pela última vez, para ouvir a réplica da Carolina à Geórgia. Passei o resto do mês entre Cheshunt e Hatfield.
Estive no Convento; no dia seguinte preguei em Hatfield. Dormi em Cheshunt.
À noite parti para Oxford, aonde cheguei no dia seguinte; James Hutton chegara antes de mim. À noite, o jovem Gr. veio ao meu encontro na casa do Sr. Sarney, num ótimo estado de espírito. Encorajei-o a prosseguir pelo caminho estreito e recomendei-lhe com firmeza que reservasse horas certas para o recolhimento.
Insisti no mesmo com o pobre Smith, durante o caminho até a casa do Sr. Gambold, onde encontrei minha irmã Kezzy. Voltei a tempo de jantar com Lady Cox e suas irmãs. À noite, Gr. me contou que naquele dia sentira pela primeira vez o início da mudança e se convencera da realidade daquilo em que antes só cria pelo testemunho do meu irmão e do meu. Ele parecia cheio de alegria e amor.
Parti com James rumo a Wootton. Completamente exausto, deitei-me e dormi um quarto de hora sobre o chão. Às duas chegamos a Marlborough e às quatro a Wootton. Minha mãe viera havia pouco de Tiverton para lá.
Encontrando Ch. em Bath, não conseguimos ir adiante. Ele nos levou a ver as pedreiras, onde por pouco não fui despedaçado. Na quarta-feira, 13 de julho, chegamos sãos e salvos a Tiverton.
em Wootton. Dias que jamais serão esquecidos!
Soube em Oxford que Charles Graves fora levado à força pelos amigos, tido por completamente louco.
Avistei Robinson e Bateley na alameda comprida e atravessei para falar com eles. Caíram sobre mim de surpresa, pedindo-me que levasse à Geórgia alguns dos “santos” de Cowley; acusaram os metodistas de intromissão, de cisma e de trazer descrédito ao ministério. Discordamos por completo. Deixei-os com estas palavras: “Lembrem-se, vocês pensarão como eu quando chegar a hora de morrer.”
Partimos para Londres com o Sr. Morgan e o Sr. Kinchin; e no
encerramos a viagem em College-Street, onde tive a satisfação de reencontrar meu velho e caro amigo Benjamin Ingham.
Li ao Sr. Oglethorpe a carta do meu irmão aos Curadores, acusando Horton de espalhar um boato escandaloso a meu respeito. Ele não quis me aconselhar num sentido nem noutro, o que interpretei como um desestímulo; por isso não dei mais atenção ao assunto.
Depois de passar algum tempo em Hatfield, parti com meu irmão Lambert rumo a Londres. Em Epping ele voltou, cheio de boas resoluções.
Sabendo que a Sra. Delamotte estava agora na cidade, fui vê-la. Entramos numa conversa sobre a resignação, e ela pareceu decidida a se conformar com a vontade de Deus, que lhe retinha o seu Isaque.
Parti de novo a cavalo para Hatfield; li as orações e preguei em Wormley; passei na casa do Dr. Nichols e segui viagem. Deixei meu irmão no dia 24, num ótimo estado de espírito. Passei e jantei na casa do Dr. Newton.
Depois de ministrar a ceia a uma mulher doente, tomei o café da manhã com o Sr. Chadwick. Tivemos uma conversa franca sobre o novo nascimento, que o comoveu profundamente. Aproveitei a ocasião para recomendar o recolhimento regular e as boas amizades na fé. Preguei em Ludgate, jantei com M. Musgrave e à tarde passei na casa da Sra. Delamotte. O rapaz de Cambridge estava lá, mas não tivemos nenhuma conversa proveitosa.
Fui à presença de Sua Majestade em Hampton Court, com a Mensagem de Oxford, por conselho do Sr. Potter. O Arcebispo me disse que ficava contente em me ver ali. Beijamos a mão de Suas Majestades e fomos convidados para o jantar. Deixei o jantar e a companhia e voltei depressa para a cidade. No dia seguinte fomos à presença de Sua Alteza Real e jantamos todos juntos em St. James.
Conversei longamente sobre o meu estado com o Sr. Law, em Putney. A síntese do seu conselho foi: “Renuncie a si mesmo, e não seja impaciente.”
Consultei o Sr. Law uma segunda vez e lhe fiz várias perguntas. “Com que comentário devo ler as Escrituras?” “Nenhum.” “Que pensa o senhor de alguém que morre sem ser renovado, justamente enquanto se esforça por isso?” “Não cabe ao senhor perguntar, nem a mim responder.” “Devo escrever mais uma vez a certa pessoa?” “Não.” “Mas estou convencido de que lhe fará bem.” “Senhor, já lhe dei a minha opinião.” “Devo escrever ao senhor?” “Nada do que eu possa dizer ou escrever lhe fará bem algum.”
Passando pela casa do Sr. Delamotte, encontrei a senhorita Hetty e lhe entreguei a carta do irmão. Logo começamos a falar sobre o novo nascimento. Ela lamentou não me ter conhecido antes e não poder estar no campo agora que eu partia para lá. Voltei a pé até a casa de Charles Rivington, apanhei para ela um exemplar do Sr. Law e depois tomei a carruagem para Eltham e Blendon. Meu amigo Benjamin estivera lá antes de mim e fora recebido de modo tão bom que me animou a segui-lo. Ele lhes pregara com poder, e com poder ainda maior pela sua própria vida e conduta. A irmã mais velha e o estudante de Cambridge foram tocados no coração. A primeira noite passou-se em conversa sobre o meu homônimo na América.
Preguei sobre “a única coisa necessária”; tive uma conversa séria com a senhorita Betsy e li para a Sra. Delamotte parte do meu Diário, a respeito de Appee, o hóspede que pretendiam receber.
Voltei à cidade e passei uma hora com Hetty, conversando sobre a mudança interior e lendo o Sr. Law. Ela acolheu tudo o que ele diz com a maior prontidão.
Fui de novo ver a simples Hetty, para aprender um pouco da sua humildade. Suas convicções se aprofundaram muito com a minha leitura de A vida de Deus na alma humana. Despedi-me e parti para Oxford, passando por Windsor e pela casa do Sr. Thorold.
Levantei-me (na casa do Sr. Sarney) com o desejo ardente de me entregar inteiramente a Deus. Tive a alegria de ler uma carta excelente do jovem Gr., que estava no campo.
Caminhei com o Sr. Gambold até Stanton-Harcourt. Depois de muito conversar sobre o estado espiritual de ambos, concordamos que eu não falaria nada de religião com a minha irmã, mas trataria abertamente com a dele.
Passando por acaso, à noite, pelo quarto da minha irmã Kezia, ela lançou-se ao meu pescoço e, num mar de lágrimas, implorou-me que orasse por ela. Vendo-a tão abrandada, achei que talvez fosse a hora dela e sentei-me. Ela se adiantou, dizendo que ali sentira o que nunca sentira antes e que agora cria haver de fato tal coisa como a nova criatura. Estava cheia de desejos sinceros do amor divino; reconheceu que havia na religião uma profundidade que ela jamais sondara; que não era, mas ansiava por ser convertida; que daria tudo para alcançar o amor de Deus. Renovou o pedido com grande veemência, para que eu orasse por ela, repetindo muitas vezes: “Sou fraca, sou muito fraca.” Orei sobre ela e bendisse a Deus de todo o coração; depois usei a oração de Pascal pela conversão, que muito a comoveu, e ela me pediu que a copiasse para ela. Depois da ceia (durante a qual eu não conseguia comer, de tanta alegria), li o relato do Sr. Law sobre a Redenção. Ela se comoveu profundamente, cheia de lágrimas e suspiros, ávida por ouvir mais. A pobre Sra. Gambold ficou totalmente indiferente: a hora dela ainda não chegara.
Orei com Kez., ainda no mesmo estado de espírito; convencida de que toda a sua desdita procedera de não amar a Deus.
Nesta manhã o Sr. Wells, do Jesus College, veio me ver. Aproveitei para mencionar o texto do Sr. Law sobre a Redenção; li uma parte e alegrei-me por ele se unir a nós de coração tão sincero.
Preguei no Castelo e ministrei a ceia a uns sessenta comungantes. À tarde, em Stanton-Harcourt. Kez. me chamava a todo instante para orar com ela. Ceamos na casa do Sr. Bonnel.
Alegrei-me ao ouvir, em Oxford, que Graves voltara dos amigos sem se abalar. À noite ele apareceu (na casa do Sr. Sarney), lançou-se ao meu pescoço e caiu em lágrimas. É difícil dizer o que é maior: o ódio que os amigos dele têm por mim ou o amor que ele me dedica.
Tomei o café da manhã com o Sr. Rock em Nuneham e jantei em Maple-Durham com o Sr. Burton. Na manhã seguinte cheguei à casa do Sr. Thorold, em Windsor, e em duas horas a Londres. Mas por cavalgar tão depressa quase fui detido como salteador de estrada.
Ao meio-dia parti para Blendon. Passando pela casa do Sr. Delamotte, senti vontade de parar, embora todos estivessem fora da cidade. Contra a minha expectativa, encontrei Hetty, que ficara. Passamos duas horas em conversa e oração. Duas horas depois estava com ela de novo, e li Scougal sobre “poucos são os que se salvam”. Ela ficou totalmente abrandada e, depois de uma oração pedindo amor, disse: “Deus conhece o meu coração: nada desejo senão a ele.”
Encontrei-me com ela na ceia, em Crooked-Lane, e procurei prepará-la para a perseguição, que todos os que quiserem viver piedosamente em Cristo Jesus hão de sofrer.
Cavalguei até Windsor e no dia seguinte cheguei a Maple-Durham ao meio-dia. Uma hora depois montei de novo e logo me perdi num bosque; mas, derrubando cercas e saltando valas, cheguei por fim a Dorchester. Perdi-me outra vez entre esse ponto e Nuneham, mas logo me reorientei e ao anoitecer cheguei à casa do honesto Sr. Sarney.
Encontrei Graves e Kezzy ainda avançando com firmeza. À tarde encontrei-me a sós com o Sr. Wells e tive com ele uma conversa franca sobre o novo nascimento, a renúncia a si mesmo e outros temas. Ele confessou que a reputação era o seu ídolo; renunciou à própria justiça; convencido, mas temeroso; ansiando por se libertar. Fui com ele à capela e depois retomamos o assunto. Ele parecia à beira do novo nascimento.
Orei junto ao Sr. Carter, que estava morrendo, e junto à Sra. Sarney, na mesma condição.
Levei Graves a Stanton-Harcourt, onde ministrei a ceia e depois preguei em Southleigh. À noite voltamos a Oxford.
Às seis parti a cavalo para Barkswell. Um pouco antes de Banbury, meu cavalo me lançou com grande violência por cima da cabeça e caiu logo atrás, mas não em cima de mim. Levantei-me primeiro, sem ferimentos, exceto por ter torcido a perna. Depois de muito vaguear por estradas péssimas, cheguei à noite, exausto, à casa do Sr. Boyse.
Acordei bem revigorado. A família me tratou com toda a cortesia, especialmente a querida Susan, por quem eu tinha vindo.
Despedimo-nos como amigos devem se despedir. Voltei a Oxford antes de anoitecer.
Recebi uma carta de James Hutton, convocando-me a embarcar dentro de catorze dias.
Procurei firmar Kinchin, Sarney, Washington e Hutchins nas reuniões, no mesmo formato que meu irmão e outros usavam antes. Cavalguei até Spilsbury para ver meu velho amigo Horn e voltei ao anoitecer para ler Nicodemos no Queen’s.
Ministrei a ceia e preguei em Southleigh. À noite estive na casa do querido Charles, que continua crescendo em humildade e amor.
Decidido a não deixar a Inglaterra sem antes ter um acerto completo com Dicky Graves, fui esta manhã ao quarto dele; conversamos sobre tudo e ficamos os dois inteiramente satisfeitos. Depois falei da acusação de eu ter enlouquecido o seu irmão Charles; expressei a esperança de que ele próprio viesse a ser um daqueles cuja vida os tolos julgam loucura; e expliquei a natureza da verdadeira religião, “que não é outra senão aquela pela qual você um dia se esforçou, até que o cavalheiro engoliu o cristão”. Ele se comoveu muito; queixou-se de que não conseguia orar. Perguntei-lhe se antes não sentira um prazer mais sólido na religião do que em todos os afagos do mundo. Ele confessou que sim e resolveu voltar. Recomendei-lhe com fervor o Sr. Law e o recolhimento diário, como minha última herança. “O desejo do meu coração e a minha oração a Deus por você é que seja salvo. Dentro de pouco tempo, tudo o que poderei fazer será orar por você; e espero que agora você ore por mim, como por um amigo, e não por um inimigo.” Ele respondeu: “Isso farei de todo o coração. Estou convencido de que você é meu amigo sincero.” Beijamo-nos então e nos despedimos, até aquele grande dia.
Parti para Londres. Depois de cerca de um quilômetro e meio, meu cavalo mancou. Cantei o Salmo 91 e me coloquei sob a proteção divina. Mal terminara e dobrara a cabana, na colina de Shotover, um homem se aproximou e exigiu meu dinheiro, mostrando, mas sem apontar, uma pistola. Entreguei-lhe a bolsa. Ele perguntou quanto havia ali. “Umas trinta xelins.” “Não tem mais nada?” “Vou ver.” Enfiei a mão no bolso e lhe dei algumas moedinhas de cobre. Ele repetiu a pergunta: “Não tem mais nada?” Eu tinha trinta libras num bolso escondido; disse-lhe que me revistasse ele mesmo, o que ele não quis fazer. Mandou-me desmontar, o que fiz; mas implorei com insistência que me devolvesse o cavalo, prometendo não persegui-lo. Ele confiou na minha palavra e o devolveu. Segui cavalgando devagar, louvando a Deus. As minhas bagagens, o relógio e o ouro o salteador foi obrigado a me deixar. Ao anoitecer cheguei a Westminster.
Fui informado, na repartição, de que dentro de três semanas eu partiria com o Tenente-Coronel, passando por Gibraltar.
Cavalguei até Blendon, li as Sagradas Escrituras às duas irmãs e orei com elas pela conversão. Voltei à mesma tarefa depois que os opositores foram dormir.
Jacky Delamotte e eu partimos a cavalo. O meu caiu num buraco, mas me mantive na sela. O dele veio atrás e o lançou por cima da cabeça. Nenhum dos dois se feriu.
Encontrei a senhorita Betty em Fresh Wharf e passei uma ou duas horas com ela e Jacky. Na manhã seguinte estive a sós com ela e falei longamente sobre o perigo da mornidão e de se contentar com uma bondade apenas negativa. J. nunca a vira tão comovida.
Acordei-os às cinco e os acompanhei até Forster-Lane, onde ouvimos o Sr. Whitefield e comungamos juntos. Preguei em St. Helen sobre “a única coisa necessária”. À tarde levei a ela e ao irmão até a casa do Sr. Chadwick (minha hospedaria habitual) e de lá para Ironmonger’s-Lane. Depois de pregar o mesmo sermão ali, tomamos chá na casa do Sr. Chadwick e então tomamos a carruagem para College-Street. Eles ficaram muito encantados com o cântico ali e, espero, edificados pelo exemplo de George Whitefield. Já eram quase onze horas quando os deixei em casa.
Estive na repartição e agradeci aos Curadores pelas 50 libras que haviam ordenado para mim, como missionário. Jantei com eles, que me pediram para elaborar um projeto de uma Casa dos Órfãos. Passei a noite em Fresh Wharf; o bom e velho Sr. Delamotte estava lá e me agradou muito, por parecer apreciar de coração a nossa leitura do Bispo Hall.
Ouvi um sermão excelente em St. Antholine, sobre a santidade, ou a semelhança com Deus; e passei a noite com B. D., que então me contou por que eu não fora chamado a Blendon: era o medo da Sra. Delamotte de que eu fizesse Hetty enlouquecer. Quando avisei que estava indo, ela mandou a filha à cidade, para que eu não a visse; o que a Providência transformou no meio de eu passar tantas horas a sós com ela.
Encontrei-me com Betty e voltei com ela para ouvir o Sr. Whitefield pregar, não com as palavras persuasivas da sabedoria humana, mas com a demonstração do Espírito e de poder. As igrejas não comportam as multidões que se acotovelam para ouvi-lo.
Li do começo ao fim a Pietas Hallensis e desejei que a nossa Casa dos Órfãos começasse no poder da fé.
Atendendo a um chamado da senhorita Betsy nesta manhã, tomei a carruagem para Greenwich e fiz a pé o restante do caminho até Blendon. Tivemos uma conversa animadora antes de a Sra. Delamotte entrar. Então começamos a falar do novo nascimento, do qual ela não gostou nada; continuou fria, avessa e cheia de preconceito contra a verdade.
Preguei em Bexley sobre o amor de Deus. A Sra. Delamotte me agradeceu pelo sermão com lágrimas; reconheceu que amara Charles demais e mudou por completo o comportamento comigo. Conversamos mais sobre o amor de Deus. O Sr. Delamotte reconheceu que não poderia haver felicidade em nenhuma outra coisa.
A pequena Molly caiu em lágrimas quando lhe disse que Deus a amava. A família inteira agora parece não estar longe do reino de Deus.
Em St. Helen preguei sobre a circuncisão do coração. No dia seguinte, minha disenteria voltou.
O Sr. Oglethorpe me aconselhou a ir a Tiverton. Fui despedir-me dos nossos amigos em Blendon. A Sra. Delamotte estava totalmente aberta e sem receio de que o filho fosse chamado de metodista.
Na casa de M. Hutton, nesta noite, meus cunhados Lambert e Wright me visitaram. Este último corrompeu o primeiro, depois de todo o meu empenho com ele, e o levou de volta à bebida. Fiquei tomado por dentro, mas não conseguia falar; orei por mansidão e então lhe pus diante dos olhos o que ele fizera, em nome do diabo, para reconverter uma alma a ele. Ele nos deixou de forma brusca. Encorajei o pobre J. Lambert a se voltar de novo para Deus.
Tomei a carruagem para Tiverton. No dia seguinte visitei minha mãe em Salisbury. Ela protestou com veemência contra o nosso retorno à Geórgia.
Tive uma longa e séria conversa com uma senhora na carruagem, a respeito do novo nascimento. Li parte do Sr. Law. Ela ficou profundamente impressionada, comovida, rendida.
Passamos a noite em Dorchester, quando a minha enfermidade voltou por completo.
Apanhei cavalos em Honiton e às quatro cheguei a Tiverton, onde encontrei meu irmão bem melhor.
Fiquei muito comovido na ceia. À noite repreendi minha irmã (o que sou muitas vezes forçado a fazer) por sua maledicência.
Totalmente esgotado com as suas calúnias incessantes, hoje tive com ela uma briga aberta por causa disso. Meu irmão, nessas ocasiões, ou fica calado, ou fica do meu lado.
Não lamentei partir para Londres. Cavalguei até Taunton.
Na carruagem, ocupei-me principalmente em ler as Viagens de Ciro e o Método breve com os deístas, de Leslie.
Por pouco não capotamos, por causa da perda de uma roda. Ceei em Salisbury, na casa do meu cunhado Hall.
Parti às duas da madrugada e, ao cair da noite, cheguei à casa de James Hutton.
Fiz visitas frequentes neste mês a Blendon e me alegrei com a Sra. Delamotte, agora inteiramente cordial e amiga. Juntou-se a nós o Sr. Piers, o Ministro de Bexley, que se deleitava em toda oportunidade de conversar, cantar e orar conosco.
À tarde chegou-me a notícia, na casa de James Hutton, de que meu irmão voltara da América. Não pude acreditar até que, à noite, o vi. Ele vem, não expulso, mas para relatar o verdadeiro estado da colônia; o qual, segundo o seu relato, é realmente lamentável.
Informei o Sr. Oglethorpe da chegada dele. Ele quis saber tudo sobre o motivo da vinda; disse que meu irmão não deveria ter voltado sem a licença dos Curadores. Às dez, diante do Conselho, ouvi novas defesas em favor da Carolina.
Fui à presença do bom Arcebispo, que me recebeu com a gentileza de sempre.
Estive com os Curadores, surpresos com o relato do meu irmão sobre a Geórgia, o pequeno número de habitantes e outros detalhes.
Jantamos na casa do Sr. Vernon, que me abordou: “Pois bem, senhor, espero que o senhor pretenda voltar à Geórgia.” Respondi: “É o meu desejo e o meu propósito.” Ouvi mais sobre os grandes desânimos que aquela gente pobre enfrenta.
Ouvi Clerk defender a Geórgia diante do Conselho, e também o discurso do Sr. Oglethorpe.
O Sr. Oglethorpe me disse: “Seu irmão precisa tomar cuidado. Há um espírito muito forte se levantando contra ele. Dizem que ele veio para fazer mal à colônia. Vão exigir dele as razões por que abandonou aquela gente.” Respondi: “Senhor, ele já esteve duas vezes diante da Junta com esse propósito, mas não lhe fizeram essa pergunta, e por isso não teve oportunidade de respondê-la. Ele comparecerá de novo na quarta-feira de manhã.” Fui à presença de Sua Senhoria de Londres e o informei do retorno do meu irmão. Ele falou honrosamente dele; expressou grande desejo de vê-lo; fez muitas perguntas sobre a Geórgia e os Curadores; esqueceu a reserva de costume e me despediu com muita gentileza.
Vim na carruagem de Oxford para a minha antiga hospedaria, na casa do Sr. Sarney.
Cavalguei até Stanton-Harcourt, para ver John Gambold e a minha irmã. Meu irmão veio ao nosso encontro. Oramos e cantamos juntos. À noite orei na casa do Sr. Sarney, com alguns estudantes e um morávio.
Recebi a ceia mais uma vez em Christ-church.
Comecei a ensinar inglês a Peter Böhler.
À tarde deitei-me, quase enlouquecido de dor de dente.
Acordei bem melhor. Às cinco tive uma conversa franca com Peter Böhler, que insistia com os nossos estudantes na necessidade de se unirem em grupo, citando muitos que despertaram, mas voltaram a adormecer por falta disso. Falou muito da necessidade da oração e da fé.
Às seis da noite, uma hora depois de tomar o meu remédio, a dor de dente voltou mais violenta do que nunca. Fumei tabaco, o que me fez vomitar e levou embora, de uma só vez, os sentidos e a dor. Às onze acordei com uma dor extrema, que pensei fosse logo separar a alma do corpo. Pouco depois Peter Böhler veio à minha cabeceira. Pedi-lhe que orasse por mim. A princípio pareceu relutante, mas, começando bem baixinho, foi aos poucos elevando a voz e orou pela minha recuperação com estranha confiança. Depois tomou-me pela mão e disse com calma: “Você não vai morrer agora.” Pensei comigo mesmo: “Não consigo aguentar esta dor até de manhã. Se ela ceder antes, creio que posso me recuperar.” Ele me perguntou: “Você espera ser salvo?” “Sim.” “Por que razão o espera?” “Porque tenho feito o meu melhor para servir a Deus.” Ele balançou a cabeça e não disse mais nada. Achei-o muito sem caridade, dizendo no meu coração: “Ora, os meus esforços não são fundamento suficiente de esperança? Ele quer me privar dos meus esforços? Não tenho mais nada em que confiar.”
Pela manhã a dor abrandara. Ted Bentham, ao me visitar, convenceu-me então a fazer uma sangria. Continuei com dor aguda. À noite ele trouxe o Dr. Manaton. No sábado de manhã fui sangrado de novo, e à noite, uma terceira vez.
O Sr. Wells trouxe a minha irmã Kezzy. Veio o Dr. Fruin. Ditei uma carta para o Dr. Cockburn e outra para James Hutton.
A balança pareceu pender para a vida. Eu havia orado para que as minhas dores não durassem além deste dia, e fui atendido.
Meu querido James Hutton veio às pressas de Londres e me trouxe a carta e as orientações do Dr. Cockburn. Assim que pude, enviei ao meu irmão, em Tiverton, o seguinte relato:
“Caro irmão: peço a mão de outra pessoa emprestada, pois não posso usar a minha. Você se lembra do dito do Dr. South: [Estive dentro das mandíbulas da morte, mas não lhe foi permitido fechar a boca sobre mim]. Eu jamais deveria esquecê-lo. O Dr. Manaton me disse que esperava me encontrar morto na sua segunda visita. Vários acidentes notáveis concorreram para impedir isso. Eu me recolhera uma semana antes de a pleurisia chegar, e tomara remédio duas vezes. À meia-noite ela me atacou com tanta violência que nunca esperei ver o amanhecer. Na tarde anterior eu tomara o remédio do Dr. Cockburn e, uma hora depois, fui acometido por uma dor de dente tão feroz que me forçou ao recurso abominável de um cachimbo. Isso logo me fez expelir o adstringente e, com toda a probabilidade, salvou-me a vida, pois medicamentos que prendem são veneno numa febre pleurítica. Tomei a minha doença por disenteria e por isso nem pensei em mandar chamar um médico. T. Bentham o buscou contra a minha vontade e foi, provavelmente, o instrumento de salvar a minha vida uma segunda vez. O Dr. M. chamou o Dr. Fruin. Sangraram-me três vezes e me fizeram engolir poções, óleos e xaropes sem fim. Durante quatro dias a balança ficou equilibrada. Então, como diz Spenser, ‘venci na luta o meu forte inimigo.’ Desde então venho recobrando forças lentamente; e ontem fiz a minha primeira viagem até o quarto da minha irmã, que esteve comigo desde o começo, sendo para mim um não pequeno consolo.
“Há uma consequência da minha doença de que você não vai se lamentar: ela interrompeu o meu retorno repentino à Geórgia. Pois o médico me diz que empreender uma viagem agora seria morte certa. Alguns motivos para ele próprio não ir imediatamente, meu irmão lhe contará pessoalmente.
“Antes de eu adoecer, meu irmão havia partido para Tiverton; mas voltou em vez de prosseguir viagem; ficou uma semana comigo; e depois foi com o Sr. Kinchin para Manchester.
“Durante alguns dias, enquanto eu me recuperava, fui muito atormentado pela dor de dente. Certo dia orei para que a dor fosse suspensa, e ela o foi durante todo aquele dia.
“Chamei o Dr. Fruin para atender a minha irmã, que adoeceu. Comungávamos quase todos os dias.”
Fiquei profundamente comovido ao ler a Vida do Sr. Halyburton.
Por conselho do meu irmão, resolvi renunciar ao meu cargo de Secretário; e hoje escrevi a minha carta de renúncia.
Consegui sair para as orações da tarde em Christ-church, e recebi consolo das leituras e do hino.
Recebi a resposta do Sr. Oglethorpe à minha carta de renúncia, na qual ele se oferecia, caso eu quisesse manter o cargo, a providenciar que fosse exercido, na minha ausência, por um substituto.
Os Drs. Fruin e Manaton passaram por aqui e proibiram a minha viagem. Tanto como médicos quanto como amigos, aconselharam-me a não ir, mas a ficar no College, já que eu poderia, como Mestre mais antigo, esperar por cargos e promoções.
Vim à cidade para me despedir do Sr. Oglethorpe, que me recebeu com a sua costumeira gentileza. No dia seguinte tive a satisfação de reencontrar, mais uma vez, aquele homem de Deus, Peter Böhler.
Cavalguei até Blendon. À tarde fizemos uma visita ao Sr. Piers; e, ao voltar, encontramos o Sr. Broughton e meu irmão em Blendon.
Logo depois das cinco, quando estávamos reunidos na nossa pequena capela, a Sra. Delamotte veio ter conosco. Cantamos e caímos numa discussão sobre se a conversão é gradual ou instantânea. Meu irmão foi muito enfático em defesa da segunda opção, e de modo bastante chocante; mencionou alguns casos recentes de grandes pecadores que creram num instante. Fiquei muito ofendido com o seu discurso, mais do que inútil. A Sra. Delamotte nos deixou de forma brusca. Fiquei e insisti que uma pessoa não precisa saber o momento exato em que teve fé pela primeira vez. A obstinação dele em defender a opinião contrária acabou me expulsando da sala. O Sr. Broughton foi apenas um pouco menos escandalizado do que eu. Depois do jantar, ele e meu irmão voltaram à cidade. Fiquei e li para eles a Vida do Sr. Halyburton: um caso, mas só um, de conversão instantânea.
Passei o dia na casa do Sr. Piers, cantando, lendo e nos animando mutuamente. À noite terminamos a leitura de Halyburton. O abrandamento que ela produziu em mim (como os anteriores) logo passou como a névoa da manhã. Na manhã seguinte voltei para Londres.
Assim que cheguei à casa de James Hutton, para onde eu transferira as minhas coisas, vindas da casa do pai dele, a dor no lado voltou, e com ela a febre. Tendo eu frustrado a Deus na sua última visitação, ele agora me trouxe de novo ao leito da doença. Perto da meia-noite recebi algum alívio com uma sangria. De manhã o Dr. Cockburn veio me ver; e um médico melhor, Peter Böhler, a quem Deus retivera na Inglaterra para o meu bem. Ele ficou de pé junto ao meu leito e orou sobre mim, para que agora, ao menos, eu pudesse enxergar o propósito divino nesta e na minha doença anterior. Logo pensei que talvez fosse este: que eu deveria considerar de novo a doutrina da fé de Böhler; examinar a mim mesmo, para ver se eu estava na fé; e, se não estivesse, nunca cessar de buscá-la e ansiar por ela, até alcançá-la.
O Sr. Piers passou para me ver. Exortei-o a buscar aquela fé que ele pensa que eu tenho, e que eu sei que não tenho. Depois de receber a ceia, senti uma pequena antecipação de paz e disse: “Agora tenho uma prova contra a doutrina morávia de que um homem não pode ter paz sem a certeza do seu perdão. Tenho paz agora, e no entanto não posso afirmar com segurança que os meus pecados estão perdoados.” Nas vezes seguintes em que recebi a ceia, não tive sequer uma simples atenção, pois Deus já não me confiava consolo, que eu logo voltaria contra ele mesmo. Durante alguns dias senti um débil anseio pela fé, e não conseguia orar por outra coisa. Meus desejos foram avivados por uma carta do Sr. Edmunds, que buscava a Cristo como que em agonia.
Deus ainda manteve viva a pequena centelha de desejo que ele mesmo acendera em mim; e eu parecia decidido a falar apenas da fé em Cristo e a desejar apenas isso. Mesmo assim, isso não conseguiu me preservar do pecado, no qual hoje caí de olhos abertos: de modo que, depois de dez anos de luta em vão, reconheço e sinto que ele é absolutamente invencível por mim. Ao dar testemunho da verdade diante da senhorita Delamotte, do Sr. Baldwyn e de outros, descobri que os meus desejos de me apossar de Cristo aumentavam.
Eu estava a ponto de me mudar para a casa do velho Sr. Hutton, quando Deus me enviou o Sr. Bray, um pobre e ignorante artesão, que nada sabe senão a Cristo; mas que, por conhecê-lo, conhece e discerne todas as coisas. Algum tempo antes, eu me despedira de Peter Böhler, confessando a minha incredulidade e a minha falta de perdão, mas declarando a firme convicção de que receberia a expiação antes de morrer. Sua resposta foi: “Seja feito conforme a tua fé.”
O Sr. Bray agora vai substituir Böhler. Oramos juntos por fé. Fiquei totalmente vencido e desfeito em lágrimas, e por isso levado a pensar que era vontade de Deus que eu fosse para a casa dele, e não para a do Sr. Hutton. Ele era da mesma opinião. Fui então levado para lá numa cadeira.
Encontrei a irmã dele em busca ardente de Cristo; a esposa, bem-disposta à conversão. Não fazia muito que eu estava ali quando o Sr. Broughton apareceu. Eu esperava encontrá-lo transformado como eu; mas, infelizmente, a hora dele ainda não chegara. Quanto a M. Turner, ele a dava por perdida; “mas você, M. Bray”, disse ele, “espero que ainda esteja em seu juízo, e não tenha enlouquecido atrás de uma fé que precisa ser sentida.” E continuou contradizendo e blasfemando. Julguei ser meu dever resistir a ele e confessar a minha falta de fé. “Deus o ajude, pobre homem”, respondeu ele; “se eu pudesse pensar que você não tem fé, com certeza isso me levaria ao desespero.” Coloquei toda a minha esperança de um dia alcançá-la, e de alcançar a salvação eterna, sobre a verdade desta afirmação: “Eu não tenho, neste momento, a fé do Evangelho.”
Assim que ele nos deixou, o Sr. Bray leu para mim muitas passagens reconfortantes das Escrituras, que fortaleceram grandemente o meu desejo; de modo que me convenci de que não deixaria a casa dele antes de crer com o coração para justiça.
Acordei no mesmo estado de espírito abençoado, com fome e sede de Deus. Comecei a ler Isaías e me pareceu ver que era a mim que se faziam as promessas, e que elas se cumpririam, pois Cristo me amava. Sentia-me mais desejoso, mais seguro de que creria. Passei este dia (e, na verdade, todo o meu tempo) conversando sobre a fé, seja com os que a tinham, seja com os que a buscavam; lendo a Escritura e orando.
Fiquei muito comovido ao ver o Sr. Ainsworth, homem de grande erudição, com mais de setenta anos, que, como o velho Simeão, esperava ver a salvação do Senhor para poder partir em paz. Suas lágrimas, o seu fervor e a sua simplicidade de criança mostravam-no à entrada do reino dos céus. À tarde li Isaías com o Sr. Edmunds: vi-o cheio das promessas, e que elas me pertenciam. No meio da leitura, as senhoritas Claggett chegaram e pediram para nos ouvir. Ficamos todos muito animados a buscar o glorioso prêmio que o Profeta evangélico nos apresenta. Quando o grupo se retirou, uni-me ao Sr. Bray em oração e na leitura da Escritura, e fiquei tão comovido que quase pensei que Cristo estava vindo naquele instante. Encerrei a noite em oração fervorosa e reservada.
Acordei sem Cristo, mas ainda desejoso de encontrá-lo. Logo depois W. Delamotte chegou e leu para mim o Salmo 68, estranhamente cheio de promessas reconfortantes. Por volta do meio-dia fui capaz de orar com desejo e esperança, e de reivindicar para mim as promessas em geral. Passei a tarde com meus amigos, exortando-nos mutuamente a esperar pacientemente no Senhor, em oração e leitura. À noite meu irmão chegou, extremamente abatido. Obriguei-o (como ele muitas vezes me obrigara) a cantar um hino a Cristo, e quase pensei que Ele viria enquanto cantávamos; tinha certeza de que Ele viria em breve. À noite recebi muita luz e consolo das Escrituras.
No começo do dia eu estava muito abatido, cansado e incapaz de orar; mas o desejo logo voltou, e encontrei muito consolo tanto na oração quanto na Palavra, com os olhos cada vez mais abertos para discernir e me apoderar das promessas. Eu ansiava por encontrar Cristo, para poder mostrá-lo a toda a humanidade; para louvá-lo, para amá-lo. Várias pessoas passaram por aqui hoje e foram convencidas da sua incredulidade. Algumas depois foram procurar o Sr. Broughton e logo ficaram tão tranquilas quanto Satanás e o próprio coração poderiam desejar.
Terminei a Vida de Halyburton com as senhoritas Claggett e outros. Encontrei consolo no Salmo 102.
Acordei cansado, fraco e sem ânimo. Meu cunhado Hall veio me ver, e o instei a examinar a si mesmo, para ver se estava na fé. Duas perguntas resolveram a questão: “Você tem certeza de que aquilo é luz?” “Tenho.” “E tem a mesma certeza das coisas invisíveis; de que Cristo está em você de verdade?” “Sim; infinitamente mais certeza.” À tarde, senti profundamente a minha desdita, por estar sem Cristo.
Experimentei o poder de Cristo, que me resgatou na tentação. Hoje vi pela primeira vez o comentário de Lutero sobre a Epístola aos Gálatas, com o qual o Sr. Holland dera por acaso. Começamos e o achamos nobremente cheio de fé. Meu amigo, ao ouvi-lo, ficou tão comovido que exalava suspiros e gemidos inexprimíveis. Admirei-me de que tão cedo e tão inteiramente nos tivéssemos afastado daquele que nos chamou à graça de Cristo, para outro evangelho. Quem acreditaria que a nossa Igreja fora fundada sobre este artigo tão importante, o da justificação somente pela fé? Espanta-me eu algum dia ter pensado que essa fosse uma doutrina nova; ainda mais quando os nossos Artigos e Homilias continuam em vigor, e a chave do conhecimento ainda não foi tirada.
A partir de então procurei firmar todos os amigos que apareciam nesta verdade fundamental: a salvação somente pela fé; não uma fé ociosa e morta, mas uma fé que age pelo amor e produz, necessariamente, todas as boas obras e toda a santidade.
Passei algumas horas nesta noite a sós com Martinho Lutero, que foi para mim uma grande bênção, especialmente a conclusão do capítulo 2. Empenhei-me, esperei e orei para sentir “aquele que me amou e a si mesmo se entregou por mim”. Quando a natureza, quase exaurida, me forçou à cama, abri o livro nas palavras: “porque o Senhor executará a sua palavra sobre a terra, concluindo-a e abreviando-a na justiça.” Depois dessa reconfortante certeza de que Ele viria e não tardaria, dormi em paz.
Ao me aproximar de uma tentação, olhei para Cristo e confessei o meu desamparo. A tentação foi imediatamente derrubada, e continuamente afastada, por um poder que não era o meu. Perto da meia-noite fui despertado pela volta da minha pleurisia. Senti grande dor e aperto no coração, mas encontrei alívio imediato numa sangria. Conversei com o Sr. Bray; pensei que estaria disposto a morrer no instante seguinte, se ao menos pudesse crer nisso; mas tinha certeza de que não poderia morrer antes de crer. Desejei-o ardentemente.
Às cinco desta manhã, a dor e a dificuldade de respirar voltaram. Mandaram chamar o cirurgião; mas adormeci antes que ele pudesse me sangrar uma segunda vez. Fiquei mais aliviado o dia todo, depois de tomar os remédios do Dr. Cockburn. Não tinha muito desejo. Recebi a ceia, mas não a Cristo. Às sete a Sra. Turner chegou e me disse que eu não me levantaria daquela cama antes de crer. Acreditei no que ela dizia e perguntei: “Deus então lhe concedeu fé?” “Sim, concedeu.” “E você tem paz com Deus?” “Sim, paz perfeita.” “E ama a Cristo acima de todas as coisas?” “Amo, acima de tudo, incomparavelmente.” “Então está disposta a morrer?” “Estou; e ficaria feliz de morrer neste instante; pois sei que todos os meus pecados foram apagados; o escrito que era contra mim foi cancelado e cravado na sua cruz. Ele me salvou pela sua morte; lavou-me com o seu sangue; escondeu-me nas suas feridas. Tenho paz nele, e me alegro com alegria indizível e cheia de glória.” Suas respostas foram tão plenas a estas e às perguntas mais penetrantes que eu podia fazer, que não tive dúvida de que ela recebera a expiação; e passei a esperá-la para mim mesmo com esperança mais firme. Sentindo uma antecipação de alegria por causa dela, e agradecendo a Cristo como podia, esperei por ele a noite toda, com orações, suspiros e desejos incessantes.
Acordei muito decepcionado e continuei o dia inteiro em grande abatimento, que a ceia não diminuiu nem um pouco. Ainda assim, Deus não permitiu que eu duvidasse da verdade das suas promessas. O Sr. Bray também parecia preocupado por eu ainda não crer, e se queixava da sua própria inquietação e falta de paciência. “Mas é assim comigo”, diz ele: “quando a minha fé começa a fraquejar, Deus me dá algum sinal para sustentá-la.” Ele então abriu um Novo Testamento e leu as primeiras palavras que apareceram, em Mateus 9.1: “E, entrando Jesus num barco, passou para o outro lado e chegou à sua própria cidade. E eis que lhe trouxeram um paralítico deitado numa cama. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Tem bom ânimo, filho; os teus pecados estão perdoados. Mas alguns dos escribas disseram consigo mesmos: Este homem blasfema. Jesus, porém, conhecendo-lhes os pensamentos, disse: Por que pensais o mal em vosso coração? Pois qual é mais fácil? Dizer: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados (disse então ao paralítico), levanta-te, toma a tua cama e vai para casa. E, levantando-se, foi para casa. Vendo isto, as multidões se maravilharam e glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens” (Mt 9.1-8).
Levou um bom tempo até que ele conseguisse ler tudo isso, por causa das lágrimas de alegria; e vi nisto, e firmemente cri, que a fé dele seria eficaz para a minha cura.
### O DIA DE PENTECOSTE
Acordei em esperança e na expectativa da sua vinda. Às nove meu irmão e alguns amigos chegaram e cantaram um hino ao Espírito Santo. Meu consolo e a minha esperança aumentaram com isso. Cerca de meia hora depois, eles se retiraram; entreguei-me à oração, cujo teor foi mais ou menos este: “Ó Jesus, tu disseste: ‘Virei a vós’; tu disseste: ‘Enviar-vos-ei o Consolador’; tu disseste: ‘Meu Pai e eu viremos a vós e faremos morada convosco.’ Tu és Deus, que não pode mentir; apoio-me inteiramente na tua promessa verdadeiríssima: cumpre-a no teu tempo e à tua maneira.” Tendo dito isto, eu estava me acomodando para dormir em quietude e paz, quando ouvi alguém entrar (a Sra. Musgrave, pensei, pela voz) e dizer: “Em nome de Jesus de Nazaré, levanta-te, crê, e serás curado de todas as tuas enfermidades.” Estranhei que lhe tivesse vindo à cabeça falar daquele modo. As palavras me atingiram o coração. Suspirei e disse comigo mesmo: “Ah, se ao menos Cristo falasse assim comigo!” Fiquei deitado, pensativo e trêmulo; então pensei: “Mas e se for Ele? Vou ao menos mandar ver.” Toquei a sineta e, vindo a Sra. Turner, pedi-lhe que chamasse a Sra. Musgrave. Ela desceu e, ao voltar, disse: “A Sra. Musgrave não esteve aqui.” Meu coração se abateu com essas palavras, e nutri a esperança de que talvez fosse Cristo mesmo. De todo modo, mandei-a descer de novo para averiguar, e nesse meio-tempo senti uma estranha palpitação no coração. Eu dizia, mas temia dizer: “Eu creio, eu creio!” Ela subiu de novo e disse: “Fui eu, uma criatura fraca e pecadora, quem falou; mas as palavras eram de Cristo: ele me ordenou que as dissesse, e de tal modo me constrangeu que não pude me conter.”
Mandei chamar o Sr. Bray e lhe perguntei se eu cria. Ele respondeu que eu não devia duvidar disso: fora Cristo quem falara comigo. Ele sabia disso e quis que orássemos juntos: “mas antes”, disse ele, “vou ler o que abri por acaso: ‘Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniquidade e em cujo espírito não há dolo.'” Mesmo assim eu ainda sentia uma oposição e uma relutância violentas para crer; contudo, o Espírito de Deus lutava com o meu espírito e com o espírito maligno, até que aos poucos afugentou as trevas da minha incredulidade. Vi-me convencido, sem saber como nem quando; e imediatamente me pus a interceder.
O Sr. Bray então me contou que sua irmã fora ordenada por Cristo a vir e me dizer aquelas palavras. Ela depois confirmou isso e me relatou mais detalhadamente como chegara a crer. Na noite anterior, quase no momento em que adoeci, ela sonhou que ouvia alguém bater à porta: desceu e abriu; viu uma pessoa vestida de branco; segurou-a e perguntou quem era; e ouviu como resposta: “Eu sou Jesus Cristo”, ao que ela exclamou, com grande veemência: “Entra, entra!”
Acordou assustada. Logo lhe sugeriram: “Não dê importância a isto: é apenas um sonho, uma ilusão.” Ela continuou hesitante e inquieta a sexta-feira inteira, até as orações da tarde. Assim que estas começaram, ela se sentiu tomada pelo poder da fé, a ponto de mal conseguir se conter e quase duvidar se estava em seu juízo. Ao mesmo tempo, foi dilatada em amor e oração por toda a humanidade, e recebeu a ordem de ir me assegurar, da parte de Cristo, a minha recuperação, de alma e corpo. Voltou para casa repetindo, cheia de alegria e triunfo: “Eu creio, eu creio”; mas o coração lhe faltou, e ela não ousou me dizer as palavras naquela noite.
No domingo de manhã, chamou o Sr. Bray à parte, desfez-se em lágrimas e lhe contou o que se passava, objetando ser uma pobre criatura fraca e pecadora: como poderia ela procurar um ministro? Não conseguia fazê-lo, nem tinha sossego enquanto não o fizesse. Ele lhe perguntou se alguma vez se encontrara assim antes. “Não, nunca.” “Pois então”, disse ele, “vá. Lembre-se de Jonas. Você anuncia promessas, não ameaças. Vá em nome do Senhor. Não tema a sua própria fraqueza. Diga as palavras: Cristo fará a obra. Da boca dos pequeninos e das crianças de peito ele suscitou louvor” (Sl 8.2).
Oraram juntos, e então ela subiu, mas não ousou entrar antes de orar mais uma vez a sós. Cerca de seis minutos depois de tê-lo deixado, ele percebeu e sentiu, enquanto ela pronunciava as palavras, que Cristo estava conosco. Nunca ouvi palavras ditas com tamanha solenidade. O som da voz dela mudara por completo, tornara-se o da Sra. Musgrave (se é que posso ter certeza de algo perceptível). Levantei-me e busquei na Escritura. As primeiras palavras que se apresentaram foram: “E agora, Senhor, o que espero? A minha esperança está em ti” (Sl 39.7). Baixei então os olhos e deparei com: “Pôs um novo cântico na minha boca, um hino de louvor ao nosso Deus. Muitos verão isso, temerão e confiarão no Senhor” (Sl 40.3). Depois, abri em Isaías 40.1: “Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus; falai ao coração de Jerusalém e proclamai que já se cumpriu o seu tempo de servidão, que já está pago o seu pecado” (Is 40.1-2).
Naquele instante encontrei-me em paz com Deus e me alegrei na esperança de amar a Cristo. O meu estado de espírito, pelo resto do dia, foi de desconfiança da minha própria fraqueza, grande e até então desconhecida. Vi que era pela fé que eu me sustinha; pelo apoio contínuo da fé, que me guardava de cair, embora, por mim mesmo, eu esteja sempre a afundar no pecado. Fui para a cama ainda consciente da minha fraqueza (assim humildemente espero ser cada vez mais), mas confiante na proteção de Cristo.
Sob a sua proteção despertei na manhã seguinte e me alegrei ao ler o Salmo 107, que tão nobremente descreve o que Deus fizera pela minha alma. Voltei a adormecer e acordei de um sonho em que eu lutava com dois demônios; tinha um debaixo dos pés; o outro me encarou por algum tempo, mas foi enfraquecendo, afundando e se dissipando, quando lhe disse que eu pertencia a Cristo.
Hoje o vi principalmente como o meu Rei, e o encontrei no seu poder; mas vi pouco do amor de Cristo crucificado, ou dos meus pecados passados; ainda que tenha visto mais, assim humildemente espero, da minha própria fraqueza e da força dele. Muitos pensamentos maus foram lançados contra a minha mente, mas eu os rejeitava de imediato (e, no entanto, não era eu). Ao meio-dia levantei-me, desfalecendo o tempo todo, mas sempre amparado. Fui grandemente fortalecido por Isaías 43, ao qual Deus me dirigiu: “Mas agora, assim diz o Senhor que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te redimi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu. Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti. Porque eu sou o Senhor, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador” (Is 43.1-3).
Chegando meu irmão, unimo-nos em intercessão por ele. No meio da oração, quase cri que o Espírito Santo estava vindo sobre ele. À noite cantamos e oramos de novo. Encontrei-me muito fraco de corpo, mas achei que devia orar pelos meus amigos, por ser o único sacerdote entre eles. Ajoelhei-me e fui imediatamente fortalecido, tanto na mente quanto no corpo. O inimigo não perdeu tal oportunidade de me tentar ao orgulho; mas, graças a Deus, atribuí a minha força a Ele. Desde então fui muitas vezes ajudado a orar com prontidão e fervor, sem uma fórmula. Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome seja dada a glória!
Um velho amigo veio me ver, muito receoso de que eu estivesse enlouquecendo. Seus temores aumentaram não pouco quando lhe contei que a oração da fé me curara quando estive doente em Oxford. “Ele esperava ver raios de luz ao redor da minha cabeça”, disse ele, e outras coisas do gênero. Roguei-lhe, por seu próprio bem, que não me julgasse antes de ter todas as evidências a meu respeito. Isso ele não pôde prometer, mas debilmente me suplicou que fugisse de Londres e, sem esperança quanto a mim, despediu-se.
Já era de manhã quando consegui adormecer. Muitos ímpetos de orgulho se levantaram e foram continuamente derrubados por Cristo, o meu Rei. O diabo também me tentou à impaciência por causa da dor; mas Deus a transformou em ocasião de resignação.
Despertei sob a proteção de Cristo e entreguei-me a ele, alma e corpo. Às nove, comecei um hino sobre a minha conversão, mas fui persuadido a interromper, com medo do orgulho. Chegando o Sr. Bray, animou-me a prosseguir, a despeito de Satanás. Roguei a Cristo que estivesse ao meu lado e terminei o hino. Ao lhe mostrar o hino depois, o diabo lançou um dardo inflamado, sugerindo que eu fizera algo errado e desagradara a Deus. Meu coração se abateu; quando, lançando os olhos sobre um Livro de Oração, encontrei uma resposta para ele: “Por que te glorias na malícia, ó homem poderoso?” Diante disso, discerni com clareza que era um ardil do inimigo, para reter de Deus a sua glória. E é bem próprio dele pregar humildade quando o falar ameaça o seu reino ou honra a Cristo. Menos que tudo ele quer que contemos as coisas que Deus fez pela nossa alma, de tão zeloso que se mostra em nos guardar do orgulho. Mas Deus me mostrou que pode me defender dele, enquanto eu falo por ele. Em seu nome, portanto, e por sua força, cumprirei os meus votos ao Senhor, de não esconder a sua justiça dentro do meu coração, caso um dia lhe apraza plantá-la ali.
Ao longo deste dia, ele manteve em mim um constante senso da minha própria fraqueza. À noite fui tentado a pensar que a razão de eu ter crido antes de outros fora a minha sinceridade. Rejeitei o pensamento com horror e permaneci mais que vencedor, por meio daquele que me amou.
Devendo receber a ceia hoje, fui assaltado pelo medo da minha antiga e habitual insensibilidade; mas logo recobrei a confiança em Cristo, de que ele me daria tanto senso do seu amor agora quanto julgasse bom para mim. Comunguei sem devoção sensível, muito à minha maneira de antes, só que depois fiquei perfeitamente calmo e satisfeito, sem dúvida, medo ou escrúpulo. Entre os nossos comungantes estava a Sra. Pratt, que estivera comigo na noite anterior e me relatara como recebera a Cristo num sonho, quando estava em grande aflição. As palavras dele para ela foram: “Tem bom ânimo, a tua oração foi ouvida.” Daquele tempo até agora, seis anos, ela desfrutou de paz perfeita. Passara a maior parte da noite de sábado intercedendo por mim, como pude comprovar na manhã de domingo.
Fiquei muito contente hoje ao ver o Sr. Ainsworth, uma criancinha, cheia de tristeza, temores e amor. Ao repetirmos o verso do hino “Desce agora, e sacode a terra”, ele caiu como que em agonia. Encontrei um deleite geral no canto deles, mas pouca atenção; ainda assim não fiquei inquieto.
Passamos a tarde em oração, canto e conversa. Por meia hora estive com a senhorita Delamotte; agora sem convicção e cheia de contestações. Dei o meu testemunho com clareza e confiança, declarando o que Deus fizera pela minha alma. Não me feri com isso, mas fui fortalecido.
Dela fui às senhoritas Claggett; jovens de espírito melhor e mais infantil, que, com calma e confiança, aguardavam as promessas. Fui ainda mais consolado por uma carta excelente do meu homônimo na Geórgia, perseguido por causa de Cristo; no degrau mais alto, creio, do estado da lei. Às oito orei a sós por amor, com algum sentimento e a certeza de sentir mais. Perto das dez, meu irmão foi trazido em triunfo por um grupo dos nossos amigos e declarou: “Eu creio.” Cantamos o hino com grande alegria e nos despedimos em oração. À meia-noite entreguei-me a Cristo; certo de que eu estava seguro, dormindo ou acordado. Tive experiência contínua do seu poder de dominar toda tentação; e confessei, com alegria e espanto, que ele era capaz de fazer por mim muito mais do que tudo quanto peço ou penso.
Encomendei-me a Cristo, meu Profeta, Sacerdote e Rei. A senhorita D. veio num estado de espírito melhor. Antes de comungar, deixei a cargo de Cristo se, e em que medida, ele se manifestaria a mim naquele partir do pão. Não tive nenhuma atenção especial às orações; mas na oração de consagração vi, com os olhos da fé, ou melhor, tive um vislumbre do corpo despedaçado e ferido de Cristo, como que sendo descido da cruz. Ainda assim eu não conseguia acompanhar a oração, apenas repetir, em lágrimas: “Ó amor, amor!” Ao mesmo tempo, senti grande paz e alegria, e a certeza de sentir mais, quando fosse melhor.
Logo depois fiquei um pouco abatido, ao sentir alguma tentação e prever outras; mas Deus me levantou pela sua palavra: “Não temas, porque eu te redimi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu. Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti” (Is 43.1-2). Essa promessa cumpriu-se em mim quando, sob frequentes ímpetos de pecado, olhei para Cristo e os vi continuamente derrubados.
Unimo-nos nesta manhã em súplica pelos pobres condenados, enquanto seguiam para a execução; e, na ceia, encomendamos as almas deles a Cristo. O grande consolo que encontramos nisso nos fez esperar, com confiança, que alguns deles tivessem sido recebidos como o ladrão penitente na última hora. Fui muito revigorado logo depois pela senhorita Delamotte, que, pela misericórdia de Cristo, foi trazida de volta, mais sedenta dele do que nunca. Jantei com grande liberdade de espírito, admirado de ver o meu velho inimigo, a intemperança, tão de repente subjugado, que quase esqueci que um dia estive cativo dele. À noite venci a minha própria e grande resistência e por fim preguei a fé em Cristo a um visitante que apareceu por acaso.
Senti um ímpeto de ira, por uma decepção insignificante; mas ele não foi antes sentido do que vencido. Recebi a ceia: ainda sem amor sensível, mas com consolo. Uma senhora, que estava havia muito tempo sob a lei, veio me ver; e pensei que, como ela vivia no meio de opositores, nada de bom se conseguiria falando. Mesmo assim fui levado a lhe pregar o Evangelho. Ela pareceu convencida e consolada. Depois que se foi, fui muito ajudado a interceder por ela, e pelo pobre Sr. Broughton, que continua sendo a própria alma de todos os que se opõem à fé. Duas ou três outras pessoas que apareceram foram repreendidas do pecado pelo santo Espírito de Deus. As senhoritas Claggett pareciam à beira mesma de Canaã, plenamente convencidas também da justiça, da justiça imputada de Cristo, e esperando recebê-la a cada instante, como que por promessa já sua.
Levantei-me em grande abatimento, que nem a oração reservada nem a oração em conjunto conseguiram remover. Por fim, entreguei-me à intercessão pelos meus parentes e fui muito ajudado e dilatado nisso; em especial na oração por um pecador dos mais devassos. Passei a manhã com James Hutton, em oração, canto e alegria. À tarde meu irmão chegou e, depois de uma breve oração pelo êxito do nosso ministério, partiu para Tiverton. Comecei então a escrever o meu primeiro sermão, em nome de Cristo, meu Profeta.
Hoje a Sra. Bray me relatou como recebera a fé durante as orações públicas, e os grandes combates que teve desde então com o inimigo. Por alguns dias ele obscureceu de tal modo a obra de Deus que, embora o seu olho de fé tivesse sido aberto para se ver rodeada pelo sangue de Cristo, ainda assim ele lhe sugeria que ela não cria, porque não tinha a alegria que outros tinham. Ela estava a ponto de ser vencida pelas suas artimanhas, quando, em grande abatimento, abriu nas palavras: “Senhor, eu creio; ajuda a minha incredulidade.” Isso a sustentou por um tempo; mas o tentador continuou a persegui-la, e com as mesmíssimas palavras que usara para abalar a fé do meu irmão. Ela foi às orações públicas e esteve fervorosa do princípio ao fim. Perto do final, viu como que Satanás debaixo dos seus pés; e voltou para casa em pleno triunfo da fé.
Depois do jantar, a senhorita Claggett e outros amigos vieram. Pensei que alguns seriam agora recolhidos ao aprisco, e fui muito ajudado a orar. Levantei-me e vi a senhorita Claggett mais nova sob a obra de Deus. Perguntei, insisti, cri que ela cria. Ela também pensava que sim, mas tinha medo de confessá-lo. Enquanto estava ali, trêmula e em lágrimas, consultei a Escritura por ela e deparei com Isaías 30.18: “Por isso, o Senhor espera para ter misericórdia de vós; por isso, se detém para se compadecer de vós; porque o Senhor é Deus de justiça; bem-aventurados todos os que nele esperam. […] não chorarás mais; certamente se compadecerá de ti à voz do teu clamor; e, ouvindo-a, te responderá” (Is 30.18-19). Ela então abriu o livro em 2 Coríntios 5.17: “As coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.” Leu até ali e me deu o livro para prosseguir: “E tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação; a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós, para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.18-21). O Sr. Holland então leu: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou; permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão” (Gl 5.1). Ela agora professou abertamente a sua fé e crescia em confiança a cada instante. Unimo-nos em sinceros agradecimentos a Deus pelo seu dom inefável. Pouco antes de nos despedirmos, ela abriu o livro em Lucas 8.39: “Volta para tua casa e conta quão grandes coisas Deus te fez.” Esse êxito foi seguido de provações interiores; mas, ao mesmo tempo, experimentei o poder superior de Cristo.
Hoje Deus me capacitou, a despeito do diabo e do meu próprio coração, a enviar ao Sr. Wells um relato simples e sincero do que Deus fez pela minha alma.
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### PARTE III
De 1 de junho de 1738, quando ele começou a inculcar a doutrina da salvação presente pela fé, até o fim do ano.
Fiquei aflito hoje por não conseguir orar, estando totalmente insensível na ceia.
Continuava incapaz de orar; ainda insensível ao comungar; cheio de um covarde desejo de morrer.
Minha insensibilidade continuou e, no dia seguinte, aumentou. Levantei-me muito abatido e avesso à oração; a ponto de quase resolver não ir à igreja, coisa que eu não conseguia fazer havia dois ou três dias. Quando fui, as orações e a ceia me foram extremamente penosas; e não pude deixar de me perguntar: “Qual é a diferença entre o que sou agora e o que eu era antes de crer?” Respondi de imediato: “A escuridão não é como a de antes, porque estou convencido de que não há culpa nela; porque tenho a certeza de que ela será dissipada; e porque, embora eu não consiga sentir que amo a Deus, nem sentir que ele me ama, mesmo assim eu creio, e quero crer, que ele me ama, apesar de tudo.”
Voltei para casa e me deitei com a mesma carga sobre mim. Nem a chegada do Sr. Ingham conseguiu aliviá-la. Eles cantaram, mas eu não tinha ânimo para me unir a eles; muito menos às orações públicas. À noite o Sr. Brown, Holland e outros apareceram. Eu estava muito avesso a estar entre eles, mas me forcei a isso e passei duas ou três horas cantando, lendo e orando. Esse exercício me reanimou um pouco, e me achei muito ajudado a orar.
Pedimos de modo especial que, se fosse a vontade de Deus, alguém recebesse agora a expiação. Enquanto eu ainda pronunciava as palavras, o Sr. Brown recebeu poder para crer. Levantou-se e me disse que a minha oração fora ouvida e respondida nele. Ao mesmo tempo, o Sr. Burton abriu a Bíblia em Colossenses 1.26: “o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1.26-27).
Ficamos todos cheios de alegria e ação de graças. Antes de nos despedirmos, orei com o Sr. Brown e louvei a Deus, para grande confirmação da minha fé. O peso me foi totalmente tirado. Recebi poder para orar com grande fervor, e me alegrei de as minhas provações terem durado tanto tempo, para me mostrar que é justamente quando estamos mais abatidos, e mais incapazes de nos ajudar, que é o melhor momento para trabalhar pelo próximo.
Acordei agradecido, com poder para orar e louvar. Tive paz na ceia e alguma atenção na oração pública. À tarde encontrei-me com a Sra. Sims, e com o Sr. e a Sra. Burton, em Islington. Ele me contou que Deus lhe dera fé enquanto eu orava na noite anterior, mas achara que faria mal declará-la naquele momento. Ao sentir o coração arder dentro de si, pediu a Deus que lhe desse algum sinal da sua fé, e imediatamente abriu em: “Haja luz; e houve luz.” Alegramo-nos juntos em oração e canto; e deixamos o restante do grupo bastante estimulado a esperar pelo mesmo dom inefável.
À noite li Lutero, como de costume, a uma grande companhia dos nossos amigos. O Sr. Burton ficou muito comovido. Minhas tentações interiores são, de certo modo, ininterruptas. Nunca conheci a energia do pecado, senão agora, ao experimentar a força superior de Cristo.
Encontrei-me nesta manhã sob a proteção do meu Pai; e, lendo Mateus 7, “Pedi, e recebereis”, pedi algum senso do seu amor na ceia. Ali me foi dado crer com segurança que Deus me amava, mesmo quando eu não conseguia senti-lo. Tive alguma percepção imperfeita do seu amor, e fui fortalecido para esperar contra a esperança, depois de comungar.
Fui à casa da Sra. Sims e passei a tarde cantando e lendo as promessas. As senhoritas Claggett, o Sr. Chapman, Verding e outros apareceram, como que por acaso. Fomos todos às orações públicas; de onde voltamos, contra a minha intenção, à casa do Sr. Sims. Unimo-nos a reivindicar as promessas e a pedir algum sinal para o bem. Levantei-me na confiança de que a nossa oração fora ouvida; e, no mesmo instante, o Sr. Verding declarou, com grande simplicidade e espanto, que vira como que um exército inteiro passando por ele e carregando o corpo despedaçado de Cristo. Ele se encontrou totalmente vencido diante daquela visão; estava tomado por um suor frio. Enquanto ele falava, o meu coração dava testemunho da obra de Deus no dele; e me senti tocado como no dia de Pentecostes; tive certeza de que era Cristo; disse que a palavra escrita daria testemunho junto com a pessoal, e a abri como sinal em Isaías 45.24-25: “Somente no Senhor, dirá cada um, há justiça e força; até ele virão; e serão envergonhados todos os que se irritam contra ele. Mas no Senhor será justificada e se gloriará toda a descendência de Israel” (Is 45.24-25). Depois li: “Olhai para mim e sereis salvos, vós, todos os confins da terra; porque eu sou Deus, e não há outro. Por mim mesmo jurei; da minha boca saiu a palavra de justiça, e não tornará atrás: diante de mim se dobrará todo joelho, e por mim jurará toda língua” (Is 45.22-23). E então, 1 Pedro 1.3: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula e imarcescível, reservada nos céus para vós outros que sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação” (1Pe 1.3-5). Depois disso ele cresceu visivelmente na fé, e nos alegramos e demos graças a Deus por aquele consolo. Ele parecia mesmo uma criança; reconheceu que nada temia tanto quanto ofender ao seu Pai; e estava pronto a morrer naquele instante. No começo da oração, mal conseguia se persuadir a ajoelhar-se, por não achar que pudesse tirar algum proveito disso; tão pobre e pecadora criatura, o que teria a pedir?
Voltando para casa em triunfo, encontrei o Dr. Byrom; e, em desafio ao tentador, contei-lhe simplesmente as grandes coisas que Jesus fizera por mim e por muitos outros. Isso levou a uma explicação completa da doutrina da fé, que ele acolheu com admirável prontidão. Perto da meia-noite dormi em paz.
Tive a satisfação de ouvir o Sr. Sparks confessar-se convencido, agora, de que está debaixo da lei, não debaixo da graça. Na oração pública, aprouve ao Senhor derreter-me em humildade e amor.
Às três tomei a carruagem para Blendon, com o Sr. Bray; e tive uma longa conversa com uma senhora sobre a queda e a fé em Cristo. Ela defendeu abertamente o mérito das boas obras. Quisera eu que todos os que se opõem à justiça da fé fossem tão francos: então não mais a buscariam como que pelas obras da lei.
Antes das sete chegamos a Eltham. Cavalgando de lá para Blendon, eu estava cheio de deleite, e me parecia estar em novos céus e nova terra. Oramos, cantamos e gritamos de alegria o caminho todo. Encontramos a senhorita Betsy e Hetty em casa, e oramos para que naquele dia a salvação chegasse àquela casa. Na leitura estavam estas palavras: “Este é o tempo aceitável, este é o dia da salvação.”
Orei com fervor pela família. A segunda leitura foi a do cego Bartimeu. Cavalgando até Bexley com o Sr. Piers, falei da minha experiência com simplicidade e confiança, e o achei muito disposto a receber a fé. Passamos o dia da mesma maneira, o Sr. Bray relatando as obras interiores de Deus na sua alma, e eu, as grandes coisas que ele fizera havia pouco por mim e pelos nossos amigos em Londres. Ele ouvia com avidez tudo o que se dizia, sem levantar a menor objeção, apenas reconhecendo que era o que ele nunca experimentara. Caminhamos, cantamos e oramos no jardim. Ele se comoveu muito e manifestou a sua plena convicção e o seu desejo de encontrar Cristo. “Mas primeiro”, disse ele, “preciso me preparar por meio de um longo exercício de oração e boas obras.”
À noite unimo-nos em oração por Hetty. Nunca orei com maior fervor, esperando uma resposta imediata; e, muito decepcionado por não encontrá-la, consultei a Escritura e deparei com as palavras de Jeú aos seus homens: “Não deixeis escapar nenhum das vossas mãos.” Depois: “Espero ir em breve.” Mesmo assim, continuei em grande abatimento por ela, e não consegui dormir até de manhã. Ao acordar, cheio de desejo pela sua conversão, vieram-me à lembrança estas palavras: “O Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve diga: Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida.” Naquele exato instante veio um relâmpago, depois trovão, depois chuva violenta. Aceitei aquilo como sinal de que os céus logo derramariam justiça.
Ontem (expulso o demônio do segredo), a senhorita Betsy me contou claramente que, depois de receber a ceia da última vez, ouvira uma voz: “Vai em paz; os teus pecados estão perdoados”, e ficara cheia de alegria indizível. Disse consigo mesma: “Agora sim me alimento de Cristo no meu coração, pela fé”, e continuou o dia todo num espírito de triunfo e exultação. Toda a sua vida, pensava ela, seria pouco para agradecer a Deus por aquele dia. E, no entanto, foi mesmo depois disso que o inimigo obteve tão grande vantagem sobre ela, levando-a a se opor à verdade com tamanha veemência. Por muitos dias ela não percebeu que tinha em si mesma a prova daquilo que negava. Mas, depois que oramos para que Deus esclarecesse a sua própria obra, a escuridão da fé se dissipou, e aqueles temores de que a sua conversão não fosse real, pouco a pouco, foram todos desfeitos.
Na leitura da manhã estava aquela gloriosa descrição do poder da fé: “Respondendo Jesus, disse-lhes: Tende fé em Deus. Porque em verdade vos digo que aquele que disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, tudo o que disser lhe será feito. Por isso vos digo: Tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Mc 11.22-24). Reivindicamos essa promessa em favor dos nossos amigos que buscavam, em especial de Hetty e do Sr. Piers. Ele veio com a esposa. No dia anterior à nossa chegada, ele fora levado a ler a Homilia sobre a Justificação, que o convencera de que nele não habitava coisa boa. Agora também via que os pensamentos do seu coração eram só maus continuamente, porquanto tudo o que não é da fé é pecado.
Ele pediu a Deus que lhe desse algum consolo e o encontrou em Lucas 5.23 e seguintes: “Qual é mais fácil? Dizer: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados (disse ao paralítico), eu te ordeno: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. E imediatamente, levantando-se diante deles, tomou o leito em que estivera deitado e foi para casa, glorificando a Deus. E todos ficaram atônitos e glorificavam a Deus; e, possuídos de temor, diziam: Hoje vimos prodígios” (Lc 5.23-26). Este foi o mesmíssimo milagre, contei a ele, pelo qual Deus mostrara a sua intenção de me curar; e era sinal de que o mesmo seria feito por ele. O Sr. Bray propôs que nos retirássemos para orar. Oramos buscando a Deus, uma e outra vez, e lhe perguntamos se ele cria que Cristo podia, naquele mesmo instante, manifestar-se à sua alma. Respondeu que sim. Lemos para ele a promessa feita à oração da fé. O Sr. Bray me pediu que lhe declarasse alguma promessa com autoridade, e que ele veria Cristo cumpri-la. Eu não tinha fé para fazê-lo. Ele me fez orar de novo e depois leu o Salmo 65. Senti cada palavra dele por meu amigo, em especial: “Ó tu que ouves a oração, a ti virá toda a carne. Bem-aventurado aquele a quem tu escolhes e fazes chegar a ti, para que habite nos teus átrios; fartar-nos-emos da bondade da tua casa, do teu santo templo. Com prodígios nos respondes segundo a tua justiça, ó Deus da nossa salvação, esperança de todos os confins da terra” (Sl 65.2-5).